Frase da Semana

Assim, tudo é de Deus, está em Deus e existe para Deus; ele é o começo, o meio e o fim.

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Deus é glorificado na dependência do homem

          God Glorified in Man's Dependence (Deus é glorificado na dependência do homem) foi a primeira obra de Edwards publicada. Esse sermão foi, originalmente, proferido em Northampton, no outono de 1730; em 8 de julho de 1731, ele o pregou em uma assembleia do clero em Boston, logo após o que foi impresso. Um de seus esforços mais notáveis, o sermão foi reimpresso com frequência em edições subsequentes de sua obra, incluindo a edição de Dwight (8, 147-62).

Aqui, Edwards pega muitos dos temas em que vinha trabalhando em seus cadernos particulares e outros sermões da época, e os reúne em uma declaração elegante e bem ajustada em defesa do preceito evangélico de que os seres humanos estão tão caídos que são totalmente dependentes de Deus para o bem espiritual, especialmente para a salvação. Claramente, Edwards ajustou seus conceitos para combater o arminianismo e, assim, levou adiante a polêmica que ele havia começado com sua Master's Quaestio, (Busca do Mestre) em 1723.[1] A esta altura, o sermão também reflete outros esforços deste período, tal como God Makes Men Sensible of Their Misery (Deus torna os homens sensíveis a sua miséria), para articular a importância da humilhação evangélica.[2] Deus é Glorificado, porém, adota uma estratégia retórica diferente. Em vez de enfatizar as dimensões afetivas da humilhação, Edwards defende a visão calvinista da natureza humana ligando-a à doutrina da Trindade.

Na Explicação, Edwards argumenta que as pessoas dependem de Cristo para a redenção, de Deus para Cristo e do Espírito Santo para a fé que os une a Cristo. No primeiro grande tópico da Doutrina, ele segue essa estrutura trinitária. Os redimidos têm todo o seu bem de (ou vindo de) Deus, o que significa que eles, desamparados em seus estados pecaminosos, dependem exclusivamente de Deus para o poder de torná-los santos. Os remidos também têm todo o seu bem por meio do dom de Deus do Mediador, Cristo, que os justifica. Além disso, os remidos têm todo o seu bem em Deus, que os torna moralmente excelentes pela presença do Espírito Santo.

Esses temas também são evidentes no manuscrito “Discourse on the Trinity” (Discurso sobre a Trindade) de Edwards (também conhecido como “Essay on the Trinity” (Ensaio sobre a Trindade), parte do qual ele redigiu durante o mesmo período no qual ele escreveu Deus é Glorificado. Contudo, enquanto seu escrito sobre a Trindade foi filosoficamente extenso, cobrindo alguns tópicos como a natureza do ser e da revelação de Deus, Deus é Glorificado enfatiza mais estreitamente a doutrina protestante da justificação somente pela fé. Se os seres humanos são tão dependentes de Deus, raciocina Edwards no sermão, então Deus os redime por “mera e arbitrária graça”, o que quer dizer, por meio da obra de Cristo e da presença do Espírito. Por implicação, os conceitos arminianos sobre a natureza humana, os quais negam a total dependência da humanidade de Deus, efetivamente contradiz a lógica da Trindade.

Edwards segue este último ponto mais detalhadamente sob a segunda proposição da Doutrina. Ele argumenta que é esta verdadeira doutrina do pecado e da dependência humana, em vez de qualquer suposição de bondade humana ou capacidade moral, que glorifica a Deus. Aqui e na Aplicação, um apelo à fé, o sermão alcança toda a sua força retórica. A visão teocêntrica de Edwards de Deus como Redentor o leva a uma conclusão quase doxológica.

***

Impresso em Boston, em 1731, por Samuel Kneeland e Timothy Green, o texto publicado é um panfleto em oitavo de vinte e oito páginas. Seu título completo é God Glorified in the Work of Redemption, By the Greatness of Man's Dependence upon Him, in the Whole of it. Preached on the Public Lecture in Boston, July 8, 1731 (Deus é Glorificado na Obra da Redenção, Mediante a Grandeza da Dependência do Homem Dele, na Totalidade dela. Pregado na Palestra Pública, em Boston, 8 de julho de 1731). Uma inscrição, na página de rosto, cita Juízes 7.2. O título curto no início do texto é Deus é glorificado na dependência do homem. Precedendo o texto, há um prefácio de duas páginas, “Ao Leitor”, de Thomas Prince e William Cooper, uma recomendação do sermão e de seu autor. Ele está incluído como um apêndice ao sermão neste volume.

O manuscrito é um típico livrinho duodécimo, que consiste em catorze folhas bem conservadas. Ao preparar o sermão para a publicação, Edwards fez um número significativo de revisões, incluindo correção de frases repetidas e expansão de vários pontos, mais particularmente na adição da segunda proposição da Doutrina e do segundo tópico da Aplicação, ou Uso. Algumas dessas mudanças estão marcadas no manuscrito, outras não.[3]

 

Deus é Glorificado na Dependência do Homem

 

            “A fim de que ninguém se vanglorie em presença de Deus. Mas vós sois dele, em Cristo Jesus, o qual se nos tornou, da parte de Deus,  sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção, para que, como está escrito: Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor.” (1 Coríntios 1.29-31)

Aqueles cristãos, a quem o apóstolo dirigiu esta epístola, moravam em uma parte do mundo onde a sabedoria humana tinha grande reputação; e, como o apóstolo diz em 1 Coríntios 1.22 deste capítulo: “Os gregos buscam sabedoria”. Corinto não ficava muito longe de Atenas, que fora, por muitas eras, a mais famosa sede da filosofia e da erudição do mundo.

O apóstolo, por esta razão, os faz perceber como Deus, mediante o evangelho, destruiu e reduziu a zero sua sabedoria humana. Os eruditos gregos e seus grandes filósofos não conheciam a Deus por meio de toda a sua sabedoria; eles não foram capazes de descobrir a verdade nas coisas divinas. Porém, após terem feito seu máximo em vão, agradou a Deus finalmente revelar-se mediante o evangelho, o qual eles consideravam loucura. Deus escolheu “as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes; e Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são” (1 Coríntios 1.27-28). E o apóstolo os informa a razão pela qual ele fez isso no versículo do texto: “a fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus. Mas vós sois dele, em Cristo Jesus, o qual se nos tornou, da parte de Deus, sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção, para que, como está escrito: Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor”.

Em cujas palavras pode ser observado:

1. O que Deus almeja na disposição das coisas no caso da redenção, a saber, que o homem não se glorie em si mesmo, mas somente em Deus: “a fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus... para que, como está escrito: Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor”.[4]

2. Como este fim é alcançado na obra de redenção, a saber, mediante aquela dependência absoluta e imediata que os homens têm de Deus nessa obra, para todo o seu bem. Visto que:

(1) Todo o bem que os homens têm é em e por meio de Cristo; ele “se nos tornou, da parte de Deus, sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção” (1 Coríntios 1.30). Todo o bem da criatura caída e redimida está relacionado com essas quatro coisas, e não pode estar mais bem distribuído do que nelas; somente Cristo é cada uma delas para nós, e não temos nenhuma delas senão nele. Ele “se nos tornou, da parte de Deus, sabedoria”; nele estão todo o próprio bem e a verdadeira excelência do entendimento. A sabedoria era uma coisa que os gregos admiravam, somente Cristo é a verdadeira luz do mundo; é somente por meio dele que a verdadeira sabedoria é comunicada à mente. É em e por meio de Cristo que temos justiça; é mediante o estar nele que somos justificados, temos nossos pecados perdoados e somos recebidos como justos no favor de Deus. É por meio de Cristo que temos santificação; temos nele verdadeira excelência de coração, bem como de entendimento; e ele se nos tornou justiça inerente e imputada. É por meio de Cristo que temos redenção, ou a libertação real de toda miséria, e a concessão de toda felicidade e glória. Desse modo, temos todo o nosso bem por meio de Cristo, que é Deus.

(2) Outro exemplo no qual se torna visível nossa dependência de Deus para todo o nosso bem é que é Deus quem nos deu Cristo, para que possamos ter esses benefícios por meio dele; ele “se nos tornou, da parte de Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção”.

(3) É da parte dele que estamos em Cristo Jesus e passamos a ter interesse nele, e, assim, recebemos as bênçãos que ele se tornou para nós. É Deus quem dá a fé pela qual nos unimos a Cristo.

De modo que, neste versículo, é mostrada nossa dependência de cada pessoa na Trindade para todo o nosso bem. Somos dependentes de Cristo, o Filho de Deus, pois ele é nossa sabedoria, justiça, santificação e redenção. Somos dependentes do Pai, que nos deu Cristo, e o fez para ser essas coisas para nós. Somos dependentes do Espírito Santo, pois é por ele que estamos em Cristo Jesus; é o Espírito de Deus que nos dá fé nele, pela qual o recebemos e nos aproximamos dele.

 

Doutrina.

 

            Deus é glorificado na sabedoria da redenção nisto, que torna-se visível nela quão absoluta e universal é a dependência do redimido dele.

 

Aqui, me proponho a mostrar:

I. Que há uma dependência absoluta e universal do redimido de Deus para todo o seu bem.

II. Que Deus é exaltado e glorificado na obra da redenção dessa forma.

 

I. Há uma dependência absoluta e universal dos redimidos em Deus. A natureza e o plano de nossa redenção são tais que os redimidos são, em tudo, direta, imediata e inteiramente dependentes de Deus. Eles dependem dele para tudo, e dependem dele em todos os sentidos.

As várias maneiras em que a dependência de um ser pode estar em outro para seu bem, e em que os redimidos por Jesus Cristo dependem de Deus para todo o seu bem, são estas, a saber, que eles têm todo o seu bem dele, que eles têm tudo por meio dele, e que eles têm tudo nele. De modo que ele é a causa e a origem de onde todo o nosso bem vem, no que é dele; de modo que ele é o meio pelo qual é obtido e transmitido, no que eles o têm por meio dele; e de modo que ele é o próprio bem que é dado e transmitido, no que está nele.

Ora, aqueles que são redimidos por Jesus Cristo dependem muito direta e inteiramente de Deus para tudo em todos esses aspectos.

Primeiro. Os remidos têm todo o seu bem de Deus. Deus é seu grande autor; ele é a causa primeira dele, e não apenas isso, mas ele é a única causa propriamente dita.

É de Deus que temos nosso Redentor. É Deus que providenciou um Salvador para nós. Jesus Cristo não é somente de Deus em sua pessoa, visto que é o Filho unigênito de Deus, mas ele é de Deus no que diz respeito a nós nele e em seu ofício de mediador. Ele é o dom de Deus para nós; Deus o escolheu e o ungiu, lhe designou sua obra e o enviou ao mundo.

E, assim como é Deus que dá, assim também é Deus que aceita o Salvador. Assim como é Deus que provê e dá o Redentor para comprar a salvação para nós, assim também é de Deus que essa salvação é comprada. Ele dá o comprador e fornece a coisa comprada.

É da parte de Deus que Cristo se torna nosso, para que sejamos levados a ele e unidos a ele. É de Deus que recebemos fé para nos unirmos a ele, para que possamos ter interesse nele; Efésios 2.8: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus.” É de Deus que realmente recebemos todos os benefícios que Cristo adquiriu. É Deus que perdoa, justifica e liberta da descida ao inferno; e é por seu favor que os redimidos são recebidos e feitos objetos desse favor, quando são justificados. Igualmente, é Deus que livra do domínio do pecado, nos purifica de nossa imundícia e nos muda de nossa deformidade. É de Deus que os redimidos recebem toda a sua verdadeira excelência, sabedoria e santidade; e isto de duas maneiras, a saber: visto que o Espírito Santo, por quem essas coisas são imediatamente operadas, é de Deus, procede dele e é enviado por ele; e também visto que o próprio Espírito Santo é Deus, por cuja operação e habitação o conhecimento de Deus e das coisas divinas, uma disposição santa e toda graça são concedidas e mantidas.

E embora meios sejam usados ​​para conceder graça às almas dos homens, ainda assim, é de Deus que temos esses meios de graça, e é Deus que os torna eficazes. É de Deus que temos as Sagradas Escrituras; elas são a Palavra de Deus. É de Deus que temos as ordenanças, e sua eficácia depende da influência imediata do Espírito de Deus. Os ministros do evangelho são enviados por Deus, e toda a sua suficiência é dele; 2 Coríntios 4.7: “Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós”. Seu sucesso depende total e absolutamente da bênção e da influência imediatas de Deus.

Os redimidos têm tudo:

1. Da graça de Deus. Foi por mera graça que Deus nos deu seu Filho unigênito. A graça é magnífica em proporção à dignidade e excelência do que é dado. O dom foi infinitamente precioso porque foi de uma pessoa infinitamente digna, uma pessoa de glória infinita; e também porque foi de uma pessoa infinitamente próxima de Deus e amada por ele. A graça é magnífica na proporção do benefício que nos é dado nele. O benefício é duplamente infinito no que temos nele, libertação de uma miséria infinita, porque é eterna,  e também recebemos alegria e glória eternas. A graça em conceder este dom é magnífica em proporção à nossa indignidade a quem é dada. Em vez de merecer tal dom, merecemos infinitamente o mal das mãos de Deus. A graça é magnífica de acordo com a maneira que é dada, ou em proporção à humilhação e custo do método e do meio pelo qual foi aberto o caminho para termos o dom. Ele o deu para nós habitando entre nós; ele o deu a nós encarnado, ou em nossa própria natureza; ele o deu a nós em nossa natureza, em enfermidades semelhantes, nas quais o temos em nosso estado caído, e que nos acompanham e são ocasionados pela corrupção pecaminosa de nossa natureza. Ele o deu a nós em um estado humilde e aflito; e não apenas isso, mas ele o deu a nós morto para que ele pudesse ser um banquete para nossas almas.

A graça de Deus em conceder este dom é muitíssimo livre. Não foi o que Deus tinha obrigação de conceder. Ele poderia ter rejeitado o homem caído, como fez com os anjos caídos. Nunca fizemos nada para merecê-la; foi dada enquanto ainda éramos inimigos e antes de nos arrependermos. Ela existe a partir do amor de Deus que viu em nós excelência para atraí-la; e existe sem a expectativa de ser recompensada por isso.

E é por mera graça que os benefícios de Cristo são aplicados a tais e tais pessoas em particular. Aqueles que são chamados e santificados devem atribuir isso somente ao beneplácito da bondade de Deus, pelo qual eles são distinguidos. Ele é soberano e tem misericórdia de quem quer, e a quem quer, ele endurece.

O homem tem, agora, uma maior dependência da graça de Deus do que tinha antes da queda. Ele depende da bondade gratuita de Deus para muito mais do que dependia então. Naquele tempo, ele dependia da bondade de Deus para conceder a recompensa pela obediência perfeita; pois Deus não era obrigado a prometer e conceder essa recompensa. Agora, porém, dependemos da graça de Deus para muito mais. Temos necessidade de graça, não apenas para nos dar glória, mas para nos livrar do inferno e da ira eterna. Sob a primeira aliança, dependíamos da bondade de Deus para nos dar a recompensa da justiça; e assim dependemos agora. E não apenas isso, mas necessitamos da graça livre e soberana de Deus para nos dar essa justiça; e, no entanto, não apenas isso, mas precisamos de sua graça para perdoar nosso pecado e nos libertar da culpa e do seu infinito demérito.

E visto que  somos dependentes da bondade de Deus por mais tempo agora do que sob a primeira aliança, também dependemos de uma bondade muito maior, mais livre e maravilhosa. Estamos, agora, mais dependentes do beneplácito arbitrário e soberano de Deus. Éramos, em nosso primeiro estado, dependentes de Deus para a santidade; tínhamos nossa justiça original vinda dele, mas naquele tempo a santidade não foi concedida da forma como o beneplácito soberano concede agora. O homem foi criado santo, e convinha a Deus criar santas todas as criaturas racionais que ele criou; seria uma depreciação da santidade da natureza de Deus se ele tivesse feito uma criatura inteligente não santa. Agora, porém, quando o homem é feito santo, é por mera e arbitrária graça; Deus pode negar a santidade à criatura caída para sempre se ele quiser, sem qualquer depreciação de qualquer uma de suas perfeições.

E, de fato, não somos apenas mais dependentes da graça de Deus, mas nossa dependência é muito mais evidente, porque nossa própria insuficiência e impotência em nós mesmos é muito mais evidente, em nosso estado caído e arruinado, do que era antes de sermos pecadores ou miserável. Evidentemente somos mais dependentes de Deus para a santidade, porque somos primeiro pecadores e totalmente poluídos, e, depois, santos; deste modo, a produção do efeito é sensível e sua derivação de Deus mais óbvia. Se o homem fosse sempre santo e sempre assim, não seria tão evidente que ele não tinha santidade necessariamente como uma qualificação inseparável da natureza humana. Portanto, somos mais claramente dependentes da livre graça para o favor de Deus, pois primeiro somos justamente os objetos de seu desprazer e, depois, somos recebidos em favor. Claramente somos mais dependentes de Deus para a felicidade, sendo primeiro miseráveis ​​e, depois, felizes. Claramente é mais livre e sem mérito em nós porque, na verdade, não temos nenhum tipo de excelência a merecer, se pode haver mérito na excelência da criatura. E não estamos apenas sem qualquer excelência verdadeira, mas estamos cheios e totalmente corrompidos com o que é infinitamente odioso. Muito claramente todo o nosso bem é proveniente de Deus porque, primeiro, estamos nus e totalmente sem nenhum bem e, depois, somos enriquecidos com todo o bem.

2. Recebemos tudo do poder de Deus. A redenção do homem é frequentemente mencionada como uma obra do poder maravilhoso, bem como da graça. O grande poder de Deus se torna visível ao trazer um pecador de seu estado vil, das profundezas do pecado e da miséria, para um estado tão exaltado de santidade e felicidade; Efésios 1.19, “E qual é a suprema grandeza do seu poder para com os que cremos, segundo a eficácia da força do seu poder.”[5]

Somos dependentes do poder de Deus em cada passo de nossa redenção. Somos dependentes do poder de Deus para nos converter, nos dar fé em Jesus Cristo e a nova natureza. É uma obra de criação: “Se alguém está em Cristo, é nova criatura” (2 Coríntios 5.17); “Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus” (Efésios 2.10). A criatura caída não pode alcançar a verdadeira santidade, exceto mediante o ser criada novamente; Efésios 4.24: “E vos revistais do novo homem, criado segundo Deus em justiça e retidão procedentes da verdade.” É uma ressurreição dos mortos; Colossenses 2.12, “no qual igualmente fostes ressuscitados mediante a fé no poder de Deus que o ressuscitou dentre os mortos.” Sim, é uma obra de poder mais gloriosa do que a simples criação, ou ressuscitar um corpo morto, pois o efeito obtido é maior e mais excelente. Aquela existência santa e feliz, e a vida espiritual que são alcançadas na obra da conversão, são um efeito muito maior e mais glorioso do que a mera existência e vida. E o estado de onde a mudança é produzida, de tal morte no pecado, da total corrupção da natureza e da profundidade da miséria, é muito mais distante do estado alcançado do que a mera morte ou não-existência.

É também pelo poder de Deus que somos preservados no estado de graça; 1 Pedro 1.5, “que sois guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação.” Visto que a graça vem inicialmente de Deus, assim ela vem continuamente dele e é mantida por ele, tanto quanto a luz, na atmosfera, todo dia vem do sol, bem como ao amanhecer ou ao nascer do sol.

Os homens são dependentes do poder de Deus para cada exercício da graça, para a continuidade da obra da graça no coração, para subjugar o pecado e a corrupção, para crescimento dos santos princípios, para capacitar a produzir frutos em boas obras e, finalmente, para conduzir a graça à sua perfeição, tornando a alma completamente amável na gloriosa semelhança de Cristo, enchendo-a de alegria e bem-aventurança satisfatórias; e para a ressurreição do corpo, e para um estado tão perfeito que seja adequado como habitação e órgão para uma alma tão perfeita e abençoada. Estes são os efeitos mais gloriosos do poder de Deus que são vistos na série de atos de Deus com respeito às criaturas.

O homem era dependente do poder de Deus em seu primeiro estado, mas ele é mais dependente desse poder agora. Ele precisa do poder de Deus para fazer mais coisas por ele, e depende de um exercício mais maravilhoso de seu poder. Foi um efeito do poder de Deus fazer os homens santos, no início; mas de modo mais notável agora, porque há muita oposição e dificuldade no caminho. É um efeito mais glorioso do poder tornar santo aquele que era tão depravado e estava sob o domínio do pecado do que conceder santidade ao que antes não tinha nada em contrário. É uma obra de poder mais gloriosa resgatar uma alma das mãos do diabo e dos poderes das trevas, e trazê-la a um estado de salvação, do que conceder santidade onde não havia predisposição ou oposição; Lucas 11.21-22: “Quando o valente, bem armado, guarda a sua própria casa, ficam em segurança todos os seus bens. Sobrevindo, porém, um mais valente do que ele, vence-o, tira-lhe toda a armadura em que confiava e lhe divide os despojos.” Portanto, é uma obra de poder mais gloriosa manter uma alma em estado de graça e de santidade, e levá-la adiante até que seja conduzida à glória, quando há tanto pecado remanescente no coração resistindo e Satanás com todos seu poder se opondo, do que haveria para impedir o homem de cair, no início, quando Satanás não tinha nada no homem.

Assim, mostramos como os redimidos são dependentes de Deus para todo o seu bem, pois têm tudo vindo dele.

Segundo. Eles também são dependentes de Deus para tudo visto que têm tudo por meio dele. É Deus que é o meio, bem como o autor e a fonte de tudo. Tudo o que temos, sabedoria, perdão do pecado, libertação do inferno, aceitação no favor de Deus, graça e santidade, conforto e felicidade verdadeiros, vida eterna e glória, temos da parte de Deus por meio de um Mediador; e esse Mediador é Deus, de cujo Mediador temos absoluta dependência, como aquele por meio de quem recebemos tudo. Então, aqui está outra maneira pela qual temos nossa dependência de Deus para todo o bem. Deus não apenas nos dá o Mediador, aceita sua mediação e, a partir de seu poder e graça, concede as coisas compradas pelo Mediador, mas ele é o Mediador.

Nossas bênçãos são o que temos mediante compra; e a compra é feita por Deus, as bênçãos são compradas dele, e Deus dá ao comprador; e não apenas isso, mas Deus é o comprador. Sim, Deus é tanto o comprador quanto o preço; pois Cristo, que é Deus, comprou essas bênçãos para nós, oferecendo-se como o preço de nossa salvação. Ele comprou a vida eterna mediante o sacrifício de si mesmo; Hebreus 7.27, “a si mesmo se ofereceu”; e Hebreus 9.26: “se manifestou uma vez por todas, para aniquilar, pelo sacrifício de si mesmo, o pecado.” Na verdade, foi a natureza humana que foi oferecida, mas era uma mesma pessoa com a divina e, portanto, foi considerado um preço infinito. Foi considerado como se Deus tivesse sido oferecido em sacrifício.

Assim como temos nosso bem por meio de Deus, temos uma dependência de Deus em um aspecto que o homem em seu primeiro estado não tinha. Naquele tempo, o homem deveria ter a vida eterna por meio de sua própria justiça, de modo que ele dependia parcialmente do que estava em si mesmo. Pois temos dependência daquilo por meio do que temos nosso bem, bem como daquilo de onde o recebemos. E embora a justiça do homem, da qual ele dependia, fosse de fato de Deus, ainda assim era sua própria, era inerente a si mesmo; de modo que sua dependência não era tão imediatamente de Deus. Porém, agora, a justiça da qual dependemos não está em nós mesmos, mas em Deus. Somos salvos por meio da justiça de Cristo; ele “se nos tornou, da parte de Deus,... justiça”. E, por isso, é profetizado sob esse nome de "o Senhor, Justiça Nossa" (Jeremias 23.6). Nesta justiça, pela qual somos justificados, é a justiça de Cristo, é a justiça de Deus; 2 Coríntios 5.21, “Para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus”.

Assim, na redenção, não apenas temos todas as coisas vindas de Deus, mas mediante e por meio dele; 1 Coríntios 8.6: “Todavia, para nós há um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas e para quem existimos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós também, por ele”.

Terceiro. Os redimidos têm todo o seu bem em Deus. Não apenas o temos vindo dele e por meio dele, mas nosso bem consiste nele; ele é todo o nosso bem.

O bem dos redimidos é objetivo ou inerente. Por seu bem objetivo eu quero dizer aquele objeto extrínseco, em cuja posse e gozo eles são felizes. Seu bem inerente é aquela excelência ou prazer que está na própria alma. Com respeito a ambos os quais os redimidos têm todo o seu bem em Deus, ou, o que é a mesma coisa, Deus é todo o seu bem.

1. Os redimidos têm todo o seu bem objetivo em Deus. O próprio Deus é o grande bem ao qual eles são levados a possuir e a gozar por meio da redenção. Ele é o maior bem deles e a soma de todo o bem que Cristo comprou. Deus é a herança dos santos; ele é a porção de suas almas. Deus é sua riqueza e tesouro, seu alimento, sua vida, sua morada, seu ornamento e diadema, e sua eterna honra e glória. Os redimidos não têm ninguém no céu além de Deus; ele é o supremo bem ao qual os redimidos são recebidos na morte, e para o qual eles devem subir no fim do mundo. O Senhor Deus, ele é a luz da Jerusalém celestial, é o rio da água da vida que corre e a árvore da vida que cresce no meio do paraíso de Deus [Apocalipse 21.23; 22.1-2]. As gloriosas excelências e beleza de Deus serão o que nutrirão para sempre as mentes dos santos, e o amor de Deus será seu deleite eterno. Os redimidos, de fato, desfrutarão de outras coisas: eles desfrutarão dos anjos e desfrutarão uns dos outros; mas aquilo que eles desfrutarão nos anjos, ou uns nos outros, ou em qualquer outra coisa, aquilo que lhes trará deleite e felicidade será a visão de Deus neles.

2. Os redimidos têm todo o seu bem inerente em Deus. O bem inerente é duplo: ou é excelência ou é prazer. Estes, os redimidos não apenas derivam de Deus, como causados por ele, mas os têm nele. Eles têm excelência e alegria espirituais por meio de uma espécie de participação em Deus. Eles são feitos excelentes por meio de uma comunicação da excelência de Deus; Deus coloca sua própria beleza, isto é, sua bela semelhança, sobre suas almas. Eles são feitos “participantes da natureza divina”, ou da imagem moral de Deus (2 Pedro 1.4). Eles são santos ao serem feitos “participantes da santidade de Deus” (Hebreus 12.10). Os santos são lindos e abençoados por meio de uma comunicação da santidade e da alegria de Deus, assim como a lua e os planetas brilham por meio da luz do sol. O santo tem alegria e prazer espirituais por meio de uma espécie de efusão de Deus na alma. Os redimidos têm comunhão com Deus nestas coisas, isto é, eles participam com ele e dele.

Os santos têm sua excelência espiritual e bem-aventurança por meio do dom do Espírito Santo, ou Espírito de Deus, e mediante sua habitação neles. Eles não são apenas induzidos ​​pelo Espírito Santo, mas estão no Espírito Santo como seu princípio. O Espírito Santo que se torna um habitante é um princípio vital na alma. Ele age em, sobre e com a alma, torna-se uma fonte de verdadeira santidade e alegria, como uma fonte de água, por meio da aplicação e difusão de si mesmo; João 4.14, “Aquele, porém, que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para a vida eterna”; comparado com João 7.38-39: “Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva. Isto ele disse com respeito ao Espírito Santo que haviam de receber os que nele cressem.” A soma do que Cristo comprou para nós é aquela fonte de água mencionada no primeiro desses lugares, e esses rios de água viva mencionados no último. E a soma das bênçãos, que os redimidos receberão no céu, é aquele “rio da água da vida” que procede “do trono de Deus e do Cordeiro” (Apocalipse 22.1). O que, sem dúvida, significa o mesmo que aqueles “rios de água viva”, explicado [em] João 7.38-39; o qual é chamado em outro lugar de “torrentes das tuas delícias” [Salmos 36.8]. Nisto consiste a plenitude do bem que os santos recebem de Cristo. É por meio da participação do Espírito Santo que eles têm comunhão com Cristo em sua plenitude. Deus não deu a ele o Espírito por medida; e eles recebem de sua plenitude e graça sobre graça. Esta é a soma da herança dos santos e, portanto, é dito que aquele pouco do Espírito Santo que os crentes têm neste mundo é “o penhor da herança”; 2 Coríntios 1.22, “que também nos selou e nos deu penhor do Espírito em nosso coração”; e 2 Coríntios 5.5, “Ora, foi o próprio Deus quem nos preparou para isto, outorgando-nos o penhor do Espírito”; e Efésios 1.13-14, “Fostes selados com o Santo Espírito da promessa; o qual é o penhor da nossa herança, até ao resgate da sua propriedade.”

O Espírito Santo e as boas coisas são mencionadas nas Escrituras como a mesma coisa, como se o Espírito de Deus comunicado à alma compreendesse todas as boas coisas; Mateus 7.11: “Quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará boas coisas aos que lhe pedirem?” Em Lucas 11.13: “Quanto mais o Pai celestial dará o Espírito Santo àqueles que lho pedirem?” Esta é a soma das bênçãos que Cristo morreu para obter, e que são o objeto das promessas do evangelho; Gálatas 3.13-14: “fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar,... a fim de que recebêssemos, pela fé, o Espírito prometido.” O Espírito de Deus é a grande promessa do Pai; Lucas 24.49: “Eis que envio sobre vós a promessa de meu Pai”. O Espírito de Deus, consequentemente, é chamado de “Espírito da promessa” (Efésios 1.13). Cristo recebeu essa coisa prometida e foi entregue em suas mãos assim que terminou a obra de nossa redenção, a fim de conceder a todos que ele redimiu; Atos 2.33: “Exaltado, pois, à destra de Deus, tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou isto que vedes e ouvis.” De modo que toda a santidade e felicidade dos redimidos esteja em Deus. Está nas comunicações, na habitação e na atuação do Espírito de Deus. A santidade e a felicidade estão no fruto, aqui e no futuro, porque Deus habita neles, e eles, em Deus.

Igualmente, é Deus quem nos deu o Redentor, e é dele que nosso bem é comprado; assim é Deus que é o Redentor e o preço; e também é Deus que é o bem adquirido. De modo que tudo o que temos é de Deus, e por meio dele, e nele; Romanos 11.36: “Porque dele, e por meio dele, e para ele”, ou “nele”, “são todas as coisas”. O mesmo no grego, que aqui é traduzido “para ele”, é traduzido “nele” (1 Coríntios 8.6).[6]

II. Deus é glorificado na obra da redenção desta forma, a saber, por haver uma dependência tão grande e universal dos redimidos dele.

Primeiro. O homem tem muito maior ocasião e obrigação de tomar conhecimento e reconhecer as perfeições e toda a suficiência de Deus. Quanto maior a dependência da criatura das perfeições de Deus, e quanto maior o interesse que ele tem para com elas, tanto maior a ocasião ele tem para tomar conhecimento delas. Quanto maior o interesse que alguém tem para com e a dependência do poder e da graça de Deus, tanto maior ocasião ele tem para tomar conhecimento desse poder e graça. Quanto maior e mais imediata dependência existe da santidade divina, tanto maior é a ocasião para tomar conhecimento e reconhecer isso. Quanto maior e mais absoluta dependência temos das perfeições divinas, como pertencentes às várias pessoas da Trindade, tanto maior ocasião temos para observar e possuir a glória divina de cada uma delas. Aquilo em que estamos mais interessados é certamente o principal no modo de nossa observação e atenção; e esse tipo de interesse com alguma coisa, a saber, dependência, tende especialmente a recomendar e a obrigar a atenção e a observação. Aquelas coisas das quais não dependemos muito são fáceis de negligenciar, mas dificilmente podemos fazer outra coisa senão cuidar daquilo de que temos uma grande dependência. Em razão de nossa tão grande dependência de Deus e de suas perfeições, e em tantos aspectos, ele e sua glória são colocados mais diretamente em nossa visão, para onde quer que voltemos nossos olhos.

Temos a maior ocasião para tomar conhecimento da total suficiência de Deus quando toda a nossa suficiência é em tudo dependente dele. Temos mais ocasião para contemplá-lo como um bem infinito e como a fonte de todo bem. Tal dependência de Deus demonstra a total suficiência de Deus.

Quanto maior a dependência da criatura em Deus, tanto maior parece ser o vazio da criatura em si mesma; e quanto maior o vazio da criatura, tanto maior deve ser a plenitude do ser que a supre. O fato de termos tudo de Deus mostra a plenitude do seu poder e graça; o fato de termos tudo por meio dele mostra a plenitude de seu mérito e dignidade; e o fato de termos tudo nele demonstra sua plenitude de beleza, amor e felicidade.

E os redimidos, em razão da grandeza de sua dependência de Deus, não apenas têm a maior ocasião, mas a obrigação de contemplar e de reconhecer a glória e a plenitude de Deus. Quão irracionais e ingratos seríamos se não reconhecêssemos essa suficiência e glória, das quais dependemos absoluta, imediata e universalmente?

Segundo. Nisto é demonstrado quão grande a glória de Deus é considerada comparativamente, ou comparada com a da criatura. Pelo fato de a criatura ser assim, total e universalmente dependente de Deus, torna-se evidente que a criatura não é nada e que Deus é tudo. Nisto torna-se evidente que Deus está infinitamente acima de nós; que a força, a sabedoria e a santidade de Deus são infinitamente maiores que as nossas. Por maior e gloriosa que a criatura apreenda que Deus é, ainda assim, se ela não for sensível à diferença entre Deus e ela, de modo a ver que a glória de Deus é grande em comparação com a sua própria, ela não estará disposta a dar a Deus a glória devida ao seu nome. Se a criatura, em qualquer aspecto, se coloca no nível de Deus, ou exalta a si mesma a alguma competição com ele, por mais que possa apreender que grande honra e profundo respeito podem pertencer a Deus a partir daquilo em que são mais inferiores e mais distantes, [ela] não será tão sensível ao fato de sua existência ser devida a ele. Quanto mais os homens se exaltarem, certamente tanto menos estarão dispostos a exaltar a Deus. É certamente uma coisa que Deus visa na disposição das coisas na questão da redenção, se permitirmos que as Escrituras sejam a revelação da mente de Deus, este Deus deve mostrar-se cheio e o próprio homem vazio; este Deus se mostra tudo e o homem nada. É o propósito declarado de Deus que  outros não “se gloriem na sua presença”, o que implica que é seu propósito promover sua própria glória comparativa. Quanto mais o homem se gloria na presença de Deus, tanto menos glória é atribuída a Deus.

Terceiro. Ao ser ordenado que a criatura tenha uma dependência tão absoluta e universal de Deus desta forma, é feita a provisão para que Deus tenha toda a nossa alma e seja objeto de nosso apreço indiviso. Se tivéssemos nossa dependência em parte de Deus e em parte de outra coisa, o apreço do homem seria dividido entre as diferentes coisas das quais ele depende. Assim seria se dependêssemos de Deus apenas para uma parte do nosso bem, e de nós mesmos ou de algum outro ser para outra parte. Ou, se tivéssemos nosso bem somente de Deus, e por meio de outro que não fosse Deus, e em outra coisa distinta de ambos, nossos corações estariam divididos entre o bem em si, aquele de quem e aquele por quem o recebemos. Porém agora não há ocasião para isso, pois Deus não é apenas aquele da parte de ou de quem temos todo o bem, mas também por meio de quem, e aquele que é o próprio bem que temos dele e por meio dele. De modo que tudo o que há para atrair nosso apreço, a inclinação ainda é diretamente para Deus, tudo se une nele como o centro.

 

Uso

 

            I. Podemos observar aqui a maravilhosa sabedoria de Deus na obra da redenção. Deus fez do vazio e da miséria do homem, do seu estado vil, perdido e arruinado, ao qual ele foi reduzido pela queda, uma ocasião para a maior promoção da sua própria glória, como de outras maneiras tão particularmente nisso, que agora há muito mais dependência universal e evidente do homem em relação a Deus. Embora Deus tenha o prazer de levantar o homem deste abismo sombrio de pecado e aflição em que ele caiu, e exaltá-lo muitíssimo em excelência e honra, e a um alto grau de glória e bem-aventurança, ainda assim a criatura não tem nada em nenhum aspecto para gloriar-se; toda a glória evidentemente pertence a Deus, tudo está em uma mera e mais absoluta e divina dependência do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

E cada pessoa da Trindade é igualmente glorificada nesta obra. Há uma dependência absoluta da criatura de cada um para tudo: tudo é do Pai, tudo por meio do Filho e tudo no Espírito Santo. Assim, Deus é visto na obra da redenção como tudo em todos. É apropriado que aquele que “é, e não há outro” [Deuteronômio 4.35], seja o “Alfa e Ômega, o primeiro e o último” [Apocalipse 1.11], o tudo e o único nesta obra.

            II. Por essa razão, aquelas doutrinas e esquemas de teologia que são, em qualquer aspecto, opostos a uma dependência absoluta e universal de Deus, depreciam a glória de Deus e frustram o propósito do plano para nossa redenção. Aqueles esquemas que colocam a criatura no lugar de Deus, em qualquer um dos aspectos mencionados; que exaltam o homem no lugar do Pai, do Filho ou do Espírito Santo, em qualquer coisa que pertence à nossa redenção; que, não obstante, permitem uma dependência dos redimidos em Deus, mas negam uma dependência que seja tão absoluta e universal; que possuem total dependência de Deus para algumas coisas, mas não para outras; que reconhecem que dependemos de Deus para o dom e aceitação de um Redentor, mas negam uma dependência tão absoluta dele para a obtenção de interesse no Redentor; que possuem uma dependência absoluta do Pai para dar seu Filho, e do Filho para operar a redenção, mas não uma dependência tão completa do Espírito Santo para a conversão e o estar em Cristo, e, assim, chegar ao direito a seus benefícios; que possuem uma dependência de Deus para os meios de graça, mas não absolutamente para o benefício e sucesso desses meios; que possuem uma dependência parcial do poder de Deus a fim de obter e exercer a santidade, mas não uma mera dependência da graça arbitrária e soberana de Deus; que possuem uma dependência da graça gratuita de Deus para a recepção em seu favor, na medida em que não tem nenhum mérito próprio, mas não como ela é sem ser atraído ou movido com alguma excelência; que possuem uma dependência parcial de Cristo, como aquele por quem temos vida, como tendo adquirido novos termos de vida, mas ainda sustentam que a justiça pela qual temos vida é inerente a nós mesmos, como era sob a primeira aliança; e de qualquer outra maneira que qualquer esquema seja inconsistente com nossa total dependência de Deus para tudo, e em cada uma dessas maneiras, de ter tudo dele, por meio dele e nele, é repugnante ao propósito e teor do evangelho, e o rouba daquilo que Deus considera seu brilho e glória.

            III. Por esta razão, podemos descobrir uma razão pela qual a fé é aquilo pelo que passamos a ter interesse nessa redenção; pois está incluído na natureza da fé uma sensibilidade e um reconhecimento dessa dependência absoluta de Deus nesta questão. É muito apropriado que ela seja exigida de todos, para que tenham o benefício dessa redenção, de modo que sejam sensíveis e reconheçam essa dependência de Deus para isso. É por este meio que Deus planejou glorificar a si mesmo na redenção, e é apropriado que Deus tenha essa glória pelo menos daqueles que são os objetos dessa redenção e tenham o seu benefício.

A fé é uma sensibilidade do que é real na obra da redenção; e visto que dependemos totalmente de Deus, a alma que crê depende inteiramente de Deus para toda a salvação, em seu sentido e ato próprios. A fé humilha os homens e exalta a Deus, ela atribui toda a glória da redenção somente a Deus. É necessário, para a fé salvadora, que o homem se esvazie de si mesmo, que ele tenha consciência de que é “infeliz, miserável, pobre, cego e nu” [Apocalipse 3.17]. A humildade é um grande ingrediente da verdadeira fé; aquele que verdadeiramente recebe a redenção a recebe “como uma criança”; Marcos 10.15, “Quem não receber o reino de Deus como uma criança de maneira nenhuma entrará nele.” É o deleite de uma alma crente humilhar a si mesma e exaltar somente a Deus; essa é a sua linguagem, Salmo 115.1: “Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao teu nome dá glória.”[7]

4. Sejamos exortados a exaltar somente a Deus e a atribuir a ele toda a glória da redenção. Nos esforcemos para obter e para aumentar a sensibilidade de nossa grande dependência de Deus, para ter nossos olhos somente nele, para mortificar uma disposição de autodependência e de justiça própria. O homem é naturalmente muito propenso a exaltar a si mesmo e a depender de seu próprio poder ou bondade, como se ele fosse aquele de quem deve esperar a felicidade, e ter motivo para prazeres à parte de Deus e de seu Espírito como aqueles em que a felicidade deve ser encontrada.

E essa doutrina deve nos ensinar a exaltar somente a Deus tanto por meio da confiança e da dependência, como por meio do louvor. “Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor” [Jeremias 9:24].[8] Alguém espera que seja convertido e santificado, e que sua mente seja dotada da verdadeira excelência e beleza espiritual, e que seus pecados sejam perdoados, e que seja recebido no favor de Deus e exaltado à honra e bem-aventurança de ser seu filho e herdeiro da vida eterna; que atribua toda a glória a Deus, que sozinho o faz diferir do pior dos homens neste mundo, ou do mais miserável dos condenados no inferno. Alguém tem muito conforto e forte esperança de vida eterna, não deixe que sua esperança o exalte, mas o disponha a se humilhar ainda mais, a refletir sobre sua própria indignidade de tal favor e a exaltar somente a Deus. Existe alguém eminente em santidade e abundante em boas obras? Que não tome nada da glória disso para si mesmo, mas a atribua àquele de quem “somos feitura, criados em Cristo Jesus para boas obras” [Efésios 2.10].

 

Apêndice a Deus Glorificado na Dependência do Homem[9]

 

Ao Leitor

 

Não foi com pouca dificuldade que a juventude e modéstia do autor foram vencidas para que ele deixasse ser visto como pregador em nossa palestra pública, e depois nos dar uma cópia de seu discurso, a pedido de várias pessoas, ministros e outros, que o ouviram. Porém quão rapidamente descobrimos ser ele um obreiro que não precisa se envergonhar diante de seus irmãos, nossa satisfação foi maior ao vê-lo lançar-se sobre um assunto tão nobre, e tratá-lo com tanta força e clareza, como o leitor criterioso perceberá na seguinte compostura.

Um assunto que defende a Deus em seu grande propósito na obra da redenção do homem caído por meio do Senhor Jesus Cristo, que é evidentemente tão estabelecido que a glória do todo deve retornar a ele, o abençoado ordenador, comprador e aplicador. Um assunto que entra profundamente na religião prática, sem cuja crença isso deve morrer em breve nos corações e vidas dos homens.

Pois, proporcionalmente ao senso que temos de nossa dependência do Deus soberano para todo o bem que desejamos será nosso apreço por ele, nossa aplicação a ele, nossa confiança nele, nosso medo de ofendê-lo e nosso cuidado em agradá-lo; como também nossa gratidão e amor, nosso deleite e louvor, em nossa experiência sensível de seus benefícios gratuitos.

Em resumo, é a própria alma da piedade apreender e reconhecer que todas as nossas fontes estão nele, as fontes de nossa graça e conforto presentes, e de nossa glória e bem-aventurança futuras, e que todas elas fluem inteiramente através de Cristo mediante a eficaz influência do Espírito Santo. Os santos vivem por meio dessas coisas, e em todas essas coisas está a vida de nossos espíritos.

Doutrinas como essas que, humilhando a mente dos homens, os preparam para as exaltações de Deus. Elas finalmente conquistaram e prosperaram no mundo reformado e em nossa terra, especialmente nos dias de nossos antepassados; e esperamos que elas nunca fiquem fora de moda entre nós. Pois, estamos bem seguros, se estas que chamamos de doutrinas da graça vierem a ser desprezadas ou antipatizadas, a piedade vital definhará e se desgastará proporcionalmente, pois essas doutrinas sempre declinam na estima dos homens com a decadência da religião séria.

Não podemos, portanto, deixar de expressar nossa alegria e gratidão pelo grande cabeça da igreja ter o prazer de ainda levantar dentre os filhos de seu povo, para o suprimento de suas igrejas, aqueles que afirmam e sustentam esses princípios evangélicos; e que nossas igrejas (apesar de todas as suas degenerações) ainda têm alto apreço por tais princípios, e por aqueles que publicamente os possuem e os ensinam.

E, visto que não podemos deixar de desejar e de orar para que a faculdade da colônia vizinha (assim como a nossa) seja uma mãe frutífera de muitos filhos como o autor, pela bênção do céu sobre os cuidados de seu digno reitor, assim regozijamo-nos de todo o coração com o favor especial da providência em conceder um presente tão rico à feliz Igreja de Northampton que, por tantos anos floresceu sob a influência de doutrinas tão piedosas, ensinou-lhes no excelente ministério de seu falecido venerável pastor, cujos dons e espírito esperamos que vivam e brilhem por muito tempo neste seu neto, a fim de que abundem ainda mais em todos os belos frutos da humildade e gratidão evangélicas, para glória de Deus.

 

À sua bênção, entregamos todos com este discurso, e todos os que o lerem e são

Seus servos no evangelho,

 

T[homas] Prince W[illiam] Cooper[10]

Boston, 17 de agosto de 1731

 

Extraído de Sermons and Discouses, 1730-1733; WJE, Vol. 17; p. 197-217; org. Mark Valeri.

Disponível em www.edwards.yale.edu; JE Center; Yale University

Tradução: Paulo Arantes


[1] Impresso em Works, 14, 47-66.

[2] A doutrina do Deus é Glorificado é redigida quase como uma paráfrase de “Miscellanies” No. 486.

[3] Wilson H. Kimnach fornece uma descrição e análise completas das mudanças, do MS para a versão impressa, em Works, 10, 108-11, 148-53.

[4] No MS, JE escreveu “mas” onde aparece a reticências na versão impressa.

[5] Após esta citação, há hifens na versão impressa, um reflexo do MS, onde JE adiciona: “É uma nova criação; é uma ressurreição dos mortos”, sugerindo Efésios 1.20.

[6] JE apagou aqui o que segue no MS: “Temos tudo do Deus Pai por meio do Filho e no Espírito Santo, de modo que Deus é o Alfa e o Ômega na questão da Redenção.” No MS, a Aplicação vem logo a seguir, e a discussão de JE da segunda proposição é o final da sessão do sermão; a versão impressa inverte esta ordem.

[7] Para um precursor sermônico interessante e formativo, veja o sermão sobre o Salmo 115.1 (25) do outono de 1723.

[8] A citação é extraída de 1 Coríntios 1.31, embora seja indicado Jeremias 9.24, que diz: “mas oque se gloriar, glorie-se nisto: em me conhecer e saber que eu sou o Senhor e faço misericórdia e justiça na terra; porque destas coisas me agrado, diz o Senhor.” (NT)

[9] Esta nota ao leitor vem do prefácio da primeira edição dos patrocinadores de Deus é Glorificado.

[10] Thomas Prince (1687-1758) foi colega de Joseph Sewall na Boston’s Old South Church, de 1717 até sua morte; William Cooper (1694-1743) foi companheiro júnior de Benjamin Colman em Brattle Street Church, Boston. Ambos os ministros se tornaram companheiros íntimos de JE.

sábado, 17 de setembro de 2022

A excelência de Cristo

         Com exceção de sua longa defesa em Justification by Faith Alone (Justificação Somente pela Fé), o primeiro dos Discourses on Various Important Subjects (Discursos sobre vários assuntos importantes), o único outro sermão sobre o qual Edwards comenta é o último, e isso mais por seu lugar no livro do que por sua doutrina. “O que é publicado no final, concernente à excelência de Cristo, é acrescentado por minha própria iniciativa”, escreve ele no prefácio, “considerando que um discurso sobre um assunto evangélico como este deve apropriadamente seguir os outros que foram principalmente legais e despertadores, e que algo sobre a excelência do Salvador era apropriado para vir depois das coisas que deviam mostrar a necessidade da salvação.” Assim, The Excellency of  Christ (A Excelência de Cristo) vem depois de uma página (e dezesseis meses) da esplêndida miséria de The Justice in the Damnation of Sinners (A justiça de Deus na condenação dos pecadores), tempera sua justiça com misericórdia e repete seu recente e fugaz sentimento sobre a redenção. “De tamanha dignidade e excelência é Cristo aos olhos de Deus que, visto que sofreu tanto pelos pobres pecadores, Deus está disposto a estar em paz com eles, por mais vis e indignos que tenham sido, e por quantas razões a punição seria justa.” E assim, ao justapor um sermão imprecatório e um sermão sacramental, as palavras de um ressoando no outro, Edwards pode insinuar sobre seus leitores, como não pôde sobre seus ouvintes, o paradoxo central de seu ministério de que há vida após a morte por meio de Cristo. Sem dúvida, ele “escolheu este discurso, em particular, em parte porque [ele] foi intensamente importunado por uma cópia dele para ser impresso por alguns de outra cidade, a cujos ouvidos foi ocasionalmente pregado”; sem dúvida ele se convenceu de que era incapaz de “escrever polidamente” ou com “elegância de linguagem”. Ainda assim, um sermão baseado em mais um paradoxo concorda com a arquitetura da coleção e, se não fosse coincidente, seu relato sobre a edição do livro, que está no início, poderia até ser considerado como adicionando um toque de elegância.

O livro mencionado em Apocalipse é o livro dos decretos de Deus e, como os livros “dos tempos antigos”, feito de “largas folhas de pergaminho, ou papel, ou algo dessa natureza, unidas em uma extremidade e assim enroladas, e então seladas, ou presas juntas de alguma forma, para evitar seu desdobramento e abertura”. Um livro que ninguém, exceto Cristo, poderia abrir quebrando seus sete selos em ordem, a figura bíblica da perfeição, especula Edwards, derivada dos dias da criação. Pergaminhos e números explicados, ele se concentra em “dois títulos distintos” de Cristo em seu texto, o cordeiro e o leão, do mesmo modo, mais tarde, na Aplicação, ele escolhe, a partir da Escritura “uma grande variedade de coisas perceptíveis” com as quais Cristo é comparado: o sol, a estrela da manhã, uma corça, um cervo, uma rocha, uma pérola, um noivo, uma rosa, um lírio, uma árvore da vida. Aqui, o Cordeiro de Deus e o Leão de Judá são “docemente unidos” em Cristo e em seus atos. As infinitas excelências encontradas em Cristo são tão diferentes umas das outras quanto a justiça é da graça, ou a perfeição da condescendência; tão incompatíveis, por exemplo, como glória e humildade, majestade e mansidão, reverência para com Deus e igualdade com ele; e são expressas em justiça, misericórdia e verdade para com os homens, de modo que as ameaças da lei e as promessas de libertação, as obras e a fé, sejam resolvidas nele. Visto que Deus se tornou homem, Cristo manifesta esses traços conjuntos na companhia dos homens mediante a “inferioridade exterior” de seu nascimento e mediante a “glória divina” de sua juventude, mediante sua pregação exterior e, “notavelmente”, mediante seu sofrimento em uma cruz, uma agonia que Edwards detalha em uma série de nuncas, como neste, o primeiro dos sete subtítulos:

Nunca esteve ele sujeito a tal ignomínia como então; nunca ele sofreu tanta dor em seu corpo, ou tanta tristeza em sua alma; nunca esteve ele em tão grande exercício de sua condescendência, humildade, mansidão e paciência, como o fez nestes sofrimentos finais; nunca sua glória e majestade divinas foram cobertas por um véu tão espesso e escuro; nunca ele esvaziou a si mesmo e se fez sem reputação, como nesta ocasião. E ainda assim, nunca sua glória divina foi tão manifestada, mediante qualquer ato seu, como nesse ato de render-se a esses sofrimentos.


Tais excelências multiformes ainda residem em Cristo no céu, Edwards assegura aos santos, e permanecerão no Juízo Final, quando serão “docemente convidadas” a reinar com ele para sempre. Agora, porém, ele implora às almas perdidas e angustiadas que aceitem o convite de Cristo para “participar com ele de suas iguarias”, do pão e do vinho de sua mesa, enquanto a “doce graça” do Cordeiro de Deus os chama e o “glorioso poder” do Leão de Judá as defende. Escolhendo a Cristo como sua porção, elas habitarão em “íntima comunhão”, não apenas com ele, mas também com Deus. Como Edwards descreve na conclusão: “Cristo fez acontecer, que aqueles que o Pai lhe deu deveriam ser trazidos para a casa de Deus; que ele, seu Pai e seu povo deveriam ser como se fossem uma sociedade, uma família; que a igreja deveria ser, por assim dizer, admitida no convívio da bem-aventurada Trindade”.

Porém, em razão de Justification by Faith Alone (Justificação somente pela fé), os manuscritos que compõem os Discourses on Various Important Subjects (Discursos sobre vários assuntos importantes) impresso têm “pouco adicionado” a eles, observa Edwards no prefácio, embora The Excellency of Christ (A Excelência de Cristo) tenha mais do que os outros. Com 43 páginas impressas, é um quinto mais longo do que seu manuscrito de trinta e duas folhas em duodécimo sugeriria, produto de mais adições do que de exclusões. Edwards reduz o texto mediante parênteses (L. 1v. nos livros enrolados e L. 4r. nos “negros pobres”), mediante uma linha centralizada (L. 3r.), ou, impressionantemente, mediante ausência de artifício. Ele simplesmente descarta o primeiro uso de instrução na Aplicação, uma discussão de três páginas sobre a autoridade dos magistrados civis baseada na humildade e majestade de seu “grande Senhor e mestre” (LL. 22v.–23v.), E remove um subtítulo que começa: “Considere que, se você não for a [ele], aprenda como ele finalmente rasgará você em pedaços como um leão” (LL. 30v.–31r.), uma passagem mais adequada ao sermão anterior. Em outros lugares, ele inverte a ordem com símbolos (LL. 2v.–3r.), e sem eles (LL. 25v.–26v. e LL. 29r.–29v.). Apenas duas folhas (L. 1v. e 14r.) possuem notáveis entrelinhas,[1] ambas as passagens bíblicas, mas no manuscrito para a impressão Edwards faz adições ao texto de inúmeras maneiras: “João” torna-se “o apóstolo João” na primeira linha, por exemplo, e o primeiro tópico numerado cresce com: “E também ao estandarte do acampamento de Judá no deserto, no qual era exibido um leão, de acordo com a antiga tradição dos judeus”, “da qual Davi era”, e “e era descendente de Davi”. Na conclusão do texto, Edwards revisa o terceiro tópico (as duas últimas folhas do manuscrito) e adiciona um primeiro e segundo sub tópico a ele, terminando o sermão publicado não no “notável testemunho” do amor de Cristo (L. 32v.), mas na união triádica do Pai, do Filho e da igreja. “Sacramento de Agosto de 1736” aparece no canto superior direito da primeira folha, marcando o último dos cinco discursos como um sermão sacramental.[2]

 A EXCELÊNCIA DE CRISTO

 Todavia, um dos anciãos me disse: Não chores; eis que o Leão da tribo de Judá, a Raiz de Davi, venceu para abrir o livro e os seus sete selos. Então, vi, no meio do trono e dos quatro seres viventes e entre os anciãos, de pé, um Cordeiro, como tendo sido morto. Ele tinha sete chifres, bem como sete olhos, que são os sete Espíritos de Deus enviados por toda a terra. (Apocalipse 5.5-6)

As visões e revelações que o apóstolo João teve dos eventos futuros da providência de Deus são introduzidas aqui com uma visão do livro dos decretos de Deus, pelo qual esses eventos foram preordenados; o qual é apresentado em Apocalipse 5.1 como um livro na mão direita daquele que estava sentado no trono, “escrito por dentro e por fora, de todo selado com sete selos”. Os livros, na forma em que costumavam ser feitos, eram folhas largas de pergaminho, ou papel, ou algo dessa natureza, unidas em uma borda e, então, enroladas e depois seladas, ou presas juntas de alguma forma, para evitar o seu desdobramento e abertura. Por isso, lemos sobre o “rolo, um livro” (Jeremias 36.2). Parece ter sido de um livro como este que João teve a visão aqui; e, por isso é dito que está “escrito por dentro e por fora”, isto é, nas páginas internas e também em uma das páginas externas, a saber, aquilo que foi enrolado ao enrolar o livro. E é dito que foi “de todo selado com sete selos”, para indicar que o que estava escrito nele era perfeitamente oculto e secreto; ou que os decretos de Deus dos eventos futuros estão selados e trancados, longe de toda possibilidade de serem descobertos pelas criaturas até que Deus se agrade de torná-los conhecidos. Descobrimos que sete é frequentemente usado nas Escrituras como o número da perfeição, para indicar o grau superlativo ou o grau mais perfeito de qualquer coisa; o que provavelmente veio do fato de que Deus viu as obras da criação terminadas no sétimo dia, e descansou e se regozijou nelas, como sendo completas e perfeitas.

1. Ele é chamado de leão. “Eis que o Leão da tribo de Judá”. Parece que ele é chamado de Leão da tribo de Judá em alusão ao que Jacó disse, em sua bênção sobre as tribos, em seu leito de morte, quando foi abençoar a Judá, comparando-o a um leão, Gênesis 49.9: “Judá é leãozinho; da presa subiste, filho meu. Encurva-se e deita-se como leão e como leoa; quem o despertará?” E também ao estandarte do acampamento de Judá, no deserto, no qual era exibido um leão, de acordo com a antiga tradição dos judeus. É muito por causa dos atos valentes de Davi, que a tribo de Judá, da qual Davi era, é comparada a um leão na bênção profética de Jacó; mas, mais especialmente com um olhar para Jesus Cristo, que também era daquela tribo e era descendente de Davi. E é chamado em nosso texto de Raiz de Davi e, portanto, Cristo é chamado aqui de Leão da tribo de Judá.

2. Ele é chamado de Cordeiro. João foi informado sobre um leão que prevaleceu para abrir o livro, e provavelmente esperava ver um leão em sua visão, mas, enquanto ele está esperando, eis que aparece um cordeiro para abrir o livro, uma espécie de criatura extremamente diferente de um leão! O leão é um devorador, que costuma fazer uma terrível matança de outros, e nenhuma criatura cai mais facilmente em sua presa do que um cordeiro. E Cristo é representado aqui não apenas como um cordeiro, uma criatura muito suscetível de ser morta, mas um “Cordeiro como tendo sido morto”, isto é, com as marcas de suas feridas mortais aparecendo nele.

O que eu devo observar a partir das palavras para o tema do meu presente discurso é este, a saber,

 Doutrina

 Há uma admirável combinação de várias excelências em Jesus Cristo.

 O leão e o cordeiro, embora espécies de criaturas muito diversas, ainda assim têm suas excelências peculiares. O leão se destaca pela força e pela majestade de sua aparência e voz. O cordeiro se destaca pela mansidão e paciência, além da excelente natureza da criatura como boa para alimento e concedendo o que é adequado para nossas roupas; e sendo adequado para ser oferecido em sacrifício a Deus. Porém vemos que Cristo, no texto, é comparado a ambos, porque as várias excelências de ambos se encontram maravilhosamente nele. Ao tratar deste assunto eu gostaria de:


I. Mostrar onde há uma admirável combinação de várias excelências em Cristo.

II. Como esta admirável combinação de excelências se torna visível nos atos de Cristo. E então fazer a aplicação.


I. Gostaria de mostrar onde há uma admirável combinação de várias excelências em Jesus Cristo. O que se torna visível em três coisas: primeiro, há uma combinação de tais excelências em Cristo, pois, em nossa maneira de conceber, são muito diferentes umas das outras; segundo, há uma combinação de excelências realmente diferentes nele que, de outra forma, nos teriam parecido totalmente incompatíveis no mesmo sujeito; terceiro, tais excelências diferentes são exercidas nele com respeito aos homens que, de outra forma, pareceriam impossíveis de serem exercidas com respeito ao mesmo objeto.

Primeiro. Há uma conjunção de tais excelências em Cristo, visto que, em nossa maneira de conceber, são muito diferentes umas das outras. Assim são as várias perfeições e excelências divinas que Cristo possui. Cristo é uma pessoa divina, ou um que é Deus; e, portanto, tem todos os atributos de Deus. A diferença que existe entre as excelências é principalmente relativa e em nossa maneira de concebê-las. E aquelas que, neste sentido, são mais diferentes, encontram-se na pessoa de Cristo. Mencionarei dois exemplos.

1. Encontram-se em Jesus Cristo infinita alteza e infinita condescendência. Cristo, visto que ele é Deus, é infinitamente magnífico e excelente acima de tudo. Ele é mais sublime que os reis da terra, pois ele é o Rei dos reis e o Senhor dos senhores. Ele é mais sublime que os céus e mais sublime que os mais altos anjos do céu. Ele é tão magnífico, que todos os homens, todos os reis e príncipes, são como vermes do pó diante dele; todas as nações são como a gota do balde e o pó fino da balança; sim, e os próprios anjos são como nada diante dele. Ele é tão sublime que está infinitamente acima de qualquer necessidade nossa; além de nosso alcance, de modo que não podemos ser proveitosos para ele, e acima de nossas concepções, de modo que não podemos compreendê-lo. Provérbios 30.4: “Qual é o seu nome, e qual é o nome do seu Filho, se é que o sabes?” Nossos entendimentos, se nunca os esticarmos tão longe, não podem alcançar sua glória divina. Jó 11.8: “Como as alturas dos céus é a sua sabedoria; que poderás fazer?” Cristo é o Criador e grande possuidor do céu e da terra; ele é o senhor soberano de tudo; ele governa todo o universo e tudo o que lhe agrada. Seu conhecimento é ilimitado; sua sabedoria é perfeita e ninguém pode frustrar. Seu poder é infinito, e ninguém pode resistir a ele. Suas riquezas são imensas e inexauríveis. Sua majestade é infinitamente terrível.

E, no entanto, ele é de infinita condescendência. Ninguém é tão baixo ou inferior, mas a condescendência de Cristo é suficiente para dar graciosa atenção a eles. Ele é condescendente não apenas com os anjos, humilhando-se para observar as coisas que são feitas no céu, mas também é condescendente com criaturas tão pobres como os homens; e isso não apenas para dar atenção aos príncipes e grandes homens, mas àqueles que são de posição e grau mais baixos, “os que para o mundo são mundo” (Tiago 2.5). Cristo não despreza aqueles que são comumente desprezados por seus semelhantes. 1 Coríntios 1.28, “Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e desprezadas.” Cristo é condescendente em tomar conhecimento de mendigos (Lucas 16.22), de servos e de pessoas das nações mais desprezadas. Em Cristo Jesus não há “bárbaro, cita, escravo, livre” (Colossenses 3.11). Aquele que é tão sublime, condescende em dar atenção graciosa às criancinhas. Mateus 19.14, “Deixai os pequeninos, não os embaraceis de vir a mim.” Sim, o que é muito mais, sua condescendência é suficiente para dar graciosa atenção às criaturas mais indignas e pecaminosas, aquelas que não têm bons méritos e aquelas que têm infinitos maus méritos.

Sim, a sua condescendência é tão magnífica, que não é apenas suficiente para dar graciosa atenção a criaturas pecadoras como estas, mas suficiente para tudo que seja um ato de condescendência. Sua condescendência é grande o suficiente para se tornar seu amigo; é grande o suficiente para se tornar seu companheiro, para unir suas almas a ele em casamento espiritual; é grande o suficiente para assumir sua natureza para si, para se tornar uma delas, de modo que ele possa ser um com elas; sim, é grande o suficiente humilhar-se ainda mais por elas, até mesmo ao ponto de expor-se à vergonha e ao cuspe; sim, ao ponto de entregar-se a uma morte ignominiosa por elas. E que ato de maior condescendência pode ser concebido? No entanto, sua condescendência produziu um ato como este em favor daqueles que são tão pobres e mesquinhos, desprezíveis e indignos!

Uma conjunção como essa de tão infinita alteza e humilde condescendência, na mesma pessoa, é admirável. Vemos, mediante vários exemplos, qual tendência os homens em alta posição tem  para criar neles uma disposição totalmente oposta. Se um verme é exaltado um pouco acima de outro, por ter mais pó ou um monturo maior, quanto ele promove a si mesmo! Que distância ele mantém daqueles que estão abaixo dele! E um pouco de condescendência é o que ele espera que seja valorizado e grandemente reconhecido. Cristo condescende em lavar nossos pés, mas como os grandes homens (ou melhor, os vermes mais importantes) se considerariam humilhados por atos de muito menos condescendência!

2. Encontram-se em Jesus Cristo a justiça infinita e a graça infinita. Visto que Cristo é uma pessoa divina, ele é infinitamente santo e justo, odiando infinitamente o pecado e disposto a executar a merecida punição pelo pecado. Ele é o Juiz do mundo, e o juiz infinitamente justo dele, e de modo algum absolverá o ímpio, ou, por qualquer meio, inocentará o culpado.

E, no entanto, ele é infinitamente gracioso e misericordioso. Embora sua justiça seja tão rigorosa com relação a todo pecado e toda violação da lei, ainda assim, ele tem graça suficiente para todo pecador, e até mesmo para o principal dos pecadores. E não é suficiente para com os mais indignos, apenas para mostrar-lhes misericórdia e conceder-lhes algum bem, mas para conceder o maior bem. Sim, é suficiente conceder-lhes todo o bem e fazer todas as coisas por eles. Não há benefício ou bênção tão grande que eles possam receber, mas a graça de Cristo é suficiente para concedê-la ao maior pecador que já viveu. E não só isso, mas a sua graça é tão grande que nada é mais do que o meio deste bem; é suficiente não apenas fazer grandes coisas, mas também para sofrer para isso; e não apenas sofrer, mas sofrer extremamente, até a morte, o mais terrível dos males naturais; e não apenas a morte, mas a mais ignominiosa e atormentadora, e, em todos os sentidos, a morte mais terrível que os homens poderiam infligir; sim, e sofrimentos maiores do que os homens poderiam infligir, que podiam atormentar somente o corpo, mas também aqueles sofrimentos em sua alma, que eram os frutos mais imediatos da ira de Deus contra os pecados daqueles por quem ele a experimentou.

Segundo. Existem, na pessoa de Cristo, tais excelências realmente diferentes que, de outra forma, seriam consideradas absolutamente incompatíveis no mesmo sujeito; tais que não são unidas em nenhuma outra pessoa, seja divina, humana ou angélica; e tais como nem os homens nem os anjos jamais imaginariam que poderiam ser encontradas na mesma pessoa, se não tivessem sido vistas na pessoa de Cristo. Eu devo dar alguns exemplos:

1. Na pessoa de Cristo, encontramos glória infinita e a mais humilde humildade. A glória infinita e a virtude da humildade não são encontradas em outra pessoa, exceto em Cristo. Elas não são encontradas em nenhuma pessoa criada, pois nenhuma pessoa criada tem glória infinita. E elas não são encontradas em nenhuma outra pessoa divina, exceto em Cristo. Pois, embora a natureza divina abomine infinitamente ao orgulho, a humildade não é propriamente um atributo de Deus, o Pai, e de Deus, o Espírito Santo, que existem apenas na natureza divina. Porque ela é uma excelência própria apenas de uma natureza criada; pois ela consiste fundamentalmente no sentido de uma comparativa humildade e pequenez diante de Deus, ou da grande distância entre Deus e o sujeito dessa virtude. Mas seria uma contradição supor tal coisa em Deus.

Porém, em Jesus Cristo, que é Deus e homem, essas duas excelências diferentes estão docemente unidas. Ele é uma pessoa infinitamente exaltada em glória e dignidade. Filipenses 2.6, “Pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus”. Há igual honra devida a ele como ao Pai. João 5.23, “A fim de que todos os homens honrem o Filho, do modo por que honram o Pai”. O próprio Deus lhe diz: “O teu trono, ó Deus, é para todo o sempre” (Hebreus 1.8). E há o mesmo respeito supremo e adoração divina, prestados a ele pelos anjos do céu como ao Deus Pai; como em Hebreus 1.6: “E todos os anjos de Deus o adorem”.

Porém, por mais que ele esteja assim acima de tudo, ele é o mais humilde de todos em humildade. Nunca houve um exemplo tão grande dessa virtude, entre homens ou anjos, como Jesus. Ninguém jamais foi tão consciente da distância entre Deus e ele, ou teve um coração tão humilde diante de Deus, como o homem Cristo Jesus (Mateus 11.29). Que maravilhoso espírito de humildade tornou-se visível nele, quando esteve aqui na terra, em todo o seu comportamento! Em seu contentamento em sua condição externa pobre, vivendo contente na família de José, o carpinteiro, e de Maria, sua mãe, por trinta anos. E depois escolhendo a pobreza, a escassez e o desprezo externos, em vez de grandeza terrena; ao lavar os pés de seus discípulos, e em todos os seus discursos e conduta para com eles; ao suportar alegremente a forma de servo por toda a vida e a se submeter a uma imensa humilhação na morte!

2. Encontram-se, na pessoa de Cristo, majestade infinita e mansidão transcendente. Estas são, novamente, duas qualificações que não são encontradas em nenhuma outra pessoa a não ser em Cristo. A mansidão, propriamente dita, é uma virtude própria apenas da criatura. Raramente encontramos a mansidão mencionada como um atributo divino nas Escrituras, pelo menos não no Novo Testamento. Pois esse parece ser significado: uma calma e quietude de espírito que surgem da humildade, em seres mutáveis, que são naturalmente suscetíveis de serem perturbados pelos assaltos de um mundo tempestuoso e prejudicial. Cristo, porém, sendo Deus e homem, tem majestade infinita e mansidão suprema.

Cristo foi uma pessoa de infinita majestade. É dele que se fala no Salmo 45.3: “Cinge a tua espada no teu flanco, herói, cinge a tua glória e a tua majestade!” Ele é aquele que é poderoso, que cavalga nos céus, e em sua excelência no firmamento. Aquele que é terrível fora de seus lugares santos; que é “mais poderoso do que o bramido das grandes águas, do que as poderosos vagalhões do mar”; diante de quem “vai um fogo que lhe consome os inimigos ao redor”; em cuja presença a terra treme e os montes se derretem; que “está assentado sobre a redondeza da terra, e todos os seus moradores são como gafanhotos”; que “repreende o mar e ele seca, e seca os rios”; cujos “olhos são como chama de fogo”, de cuja presença e da glória do seu poder os ímpios serão punidos com destruição eterna; que é o “bendito e único Soberano, o Rei dos reis e Senhor dos senhores”, que tem o céu por seu trono e a terra por escabelo de seus pés, e é “o alto e sublime que habita a eternidade”, cujo “reino é um reino eterno”, e cujo domínio não tem fim.

E, no entanto, ele foi o exemplo mais maravilhoso de mansidão e humilde quietude de espírito, que jamais existiu, de acordo com as profecias a seu respeito. Mateus 21.4-5: “Ora, isto aconteceu para se cumprir o que foi dito por intermédio do profeta: Dizei à filha de Sião: Eis aí te vem o teu Rei, humilde, montado em jumento, num jumentinho, cria de animal de carga.” E de acordo com o que Cristo declara sobre si mesmo, Mateus 11.29: “sou manso e humilde de coração”. E de acordo com o que foi manifestado em seu comportamento aqui neste mundo. Pois nunca foi visto na terra um exemplo de comportamento manso como este, sob injúrias e reprovações, e em relação aos inimigos; que, quando ultrajado, não revidava com ultraje; que tinha um maravilhoso espírito de perdão, estando pronto para perdoar seus piores inimigos e orou por eles com orações fervorosas e eficazes. Com que mansidão ele se apresentou, quando no ringue dos soldados, que o desprezavam e zombavam dele, quando ficou em silêncio e não abriu a boca, mas foi como um cordeiro ao matadouro. Assim é Cristo, na majestade, um leão, na mansidão, um cordeiro.

3. Encontram-se na pessoa de Cristo a mais profunda reverência para com Deus e a igualdade com Deus. Cristo, quando esteve aqui na terra, mostrou-se cheio de santa reverência para com o Pai; ele prestou a mais reverente adoração a ele, orando com posturas de reverência. Assim, lemos sobre ele ajoelhar-se e orar (Lucas 22.41).[3] Cristo se tornou assim, pois ele foi aquele que assumiu a natureza humana. Porém, ao mesmo tempo, ele existia na natureza divina, pela qual sua pessoa era, em todos os aspectos, igual à pessoa do Pai. O Deus Pai não tem atributo ou perfeição que o Filho não tenha em igual grau e igual glória. Essas coisas não são encontradas em nenhuma outra pessoa, exceto em Jesus Cristo.

4. Estão unidas, na pessoa de Cristo, infinita dignidade do bem e a maior paciência sob os sofrimentos do mal. Ele era perfeitamente inocente e não merecia sofrimento. Ele não merecia nada de Deus mediante qualquer culpa própria; e ele não merecia nenhum mal da parte dos homens. Sim, ele não era apenas inocente e indigno de sofrimento, mas era infinitamente digno, digno do amor infinito do Pai, digno de felicidade infinita e eterna, e infinitamente digno de toda estima, amor e serviço possíveis da parte de todos os homens.  E, no entanto, ele foi perfeitamente paciente sob os maiores sofrimentos que já foram suportados neste mundo. Hebreus 12.2, ele “suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia”. Ele não sofreu nas mãos de seu Pai por suas faltas, mas pelas nossas; e ele sofreu nas mãos dos homens não por suas faltas, mas por aquelas coisas pelas quais ele era infinitamente digno de seu amor e honra; o que tornou sua paciência mais maravilhosa e mais gloriosa. 1 Pedro 2.20-24: “Pois que glória há, se, pecando e sendo esbofeteados por isso, o suportais com paciência? Se, entretanto, quando praticais o bem, sois igualmente afligidos e o suportais com paciência, isto é grato a Deus. Porquanto para isso fostes chamados, pois que também Cristo sofreu em vosso lugar, deixando-vos exemplo para seguirdes os seus passos, o qual não cometeu pecado, nem dolo algum se achou em sua boca; pois ele, quando ultrajado, não revidava com ultraje; quando maltratado, não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga retamente, carregando ele mesmo em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados, para que nós, mortos para o pecado, vivamos para a justiça; por suas chagas fostes sarados”. Não existe tal conjunção de inocência, dignidade e paciência sob sofrimentos como na pessoa de Cristo.

5. Estão unidos, na pessoa de Cristo, um excelente espírito de obediência e domínio supremo sobre o céu e a terra. Cristo é o Senhor de todas as coisas em dois aspectos. Ele é assim como Deus-homem e Mediador; e, desta forma, seu domínio é designado e dado pelo Pai, e é por delegação de Deus, e é como se ele fosse o vice gerente do Pai. Porém ele é o Senhor de todas as coisas em outro aspecto, a saber, visto que ele é (por sua natureza original) Deus. E, assim, por direito natural, ele é o Senhor de todos e supremo sobre todos, tanto quanto o Pai. Consequentemente, ele tem domínio sobre o mundo, não por delegação, mas por direito próprio; ele não é um deus menor, como supõem os arianos, mas para todos os efeitos, Deus supremo.

E, no entanto, na mesma pessoa, encontra-se o maior espírito de obediência aos mandamentos e à lei de Deus que já existiu no universo; o qual foi manifesto em sua obediência aqui neste mundo. João 14.31. “e que faço como o Pai me ordenou”. João 15.10, “Assim como também eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e no seu amor permaneço”. A grandeza de seu espírito de obediência se manifesta na perfeição de sua obediência e em sua obediência a ordens de tão grande dificuldade. Jamais alguém recebeu ordens de Deus de tamanha dificuldade e que se constituíram em tão grande prova de obediência como Jesus Cristo. Um dos mandamentos de Deus para ele era que ele se entregasse àqueles sofrimentos terríveis pelos quais passou. Veja João 10.18: “Ninguém a tira de mim; pelo contrário, eu espontaneamente a dou... Este mandato recebi de meu Pai”. E Cristo foi completamente obediente a este mandamento de Deus. Hebreus 5.8: “Embora sendo Filho, aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu”. Filipenses 2.8, “a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz”. Nunca houve tal exemplo de obediência, em homem nem em anjo, como este; embora aquele que obedeceu fosse, ao mesmo tempo, Senhor supremo sobre anjos e homens.

6. Estão unidas, na pessoa de Cristo, a soberania absoluta e a resignação perfeita. Esta é outra conjunção sem paralelo. Cristo, visto que ele é Deus, é o soberano absoluto sobre o mundo; ele é o soberano determinador de todos os eventos. Os decretos de Deus são todos seus decretos soberanos; e a obra da criação e todas as obras da providência de Deus, são suas obras soberanas. Ele é aquele que faz todas as coisas segundo o conselho de sua própria vontade. Colossenses 1.16-17, “Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste”. João 5.17, “Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também”. Mateus 8.3: “Quero, fica limpo!”

Contudo, ainda assim, Cristo foi o exemplo mais maravilhoso de resignação que já apareceu no mundo. Ele foi absoluta e perfeitamente resignado quando teve uma perspectiva íntima e imediata de seus terríveis sofrimentos, e do terrível cálice que ele deveria beber, cujo conhecimento e expectativa fizeram sua alma extremamente triste, até a morte, e o colocou em tal agonia que seu suor se tornou grandes gotas ou coágulos de sangue, caindo ao chão. Porém, em tais circunstâncias, ele foi totalmente resignado à vontade de Deus. Mateus 26.39: “Meu Pai, se possível, passa de mim este cálice! Todavia, não seja como eu quero, e sim como tu queres”. Mateus 26.42: “Meu Pai, se não é possível passar de mim este cálice sem que eu o beba, faça-se a tua vontade!”

7. Encontramos juntos em Cristo autossuficiência e uma completa confiança em Deus e dependência dele; o que é outra conjunção peculiar à pessoa de Cristo. Visto que ele é uma pessoa divina, ele é autossuficiente, não necessitando de nada. Todas as criaturas dependem dele, mas ele não depende de nenhuma, antes, é absolutamente independente. Sua procedência do Pai, em sua geração ou filiação eterna, não indica uma dependência inerente da vontade do Pai; pois essa procedência era natural e necessária e não arbitrária. Contudo, ainda assim, Cristo confiou inteiramente em Deus. Seus inimigos dizem isso dele: “Confiou em Deus; pois venha livrá-lo agora, se, de fato, lhe quer bem” (Mateus 27.43). E o apóstolo testifica, 1 Pedro 2.23, que ele “se entregava” a Deus.

Terceiro. Essas excelências diferentes são expressas nele para com os homens que, de outra forma, pareceriam impossíveis de serem exercidas no mesmo objeto; como por exemplo particularmente essas três: justiça, misericórdia e verdade. As mesmas que são mencionadas no Salmo 85.10, “Encontram-se a graça e a verdade, a justiça e a paz se beijaram”. A rigorosa justiça de Deus, e até mesmo sua justiça vingativa e aquela contra os pecados dos homens, nunca se manifestaram tão gloriosamente como em Cristo. Ele manifestou uma consideração infinita para com o atributo da justiça de Deus nisto, quando ele se dispôs para salvar os pecadores, ele se dispôs a sofrer tais sofrimentos extremos em vez de sua salvação for em prejuízo da honra desse atributo. E, visto que ele é o juiz do mundo, ele mesmo exerce rigorosa justiça; ele não inocentará o culpado, nem absolverá o perverso no julgamento. E, no entanto, quão maravilhosamente a misericórdia infinita para com os pecadores é exibida nele! E que graça e amor gloriosos e inefáveis ​​foram e são exercidos por ele para com os homens pecadores! Embora ele seja o justo Juiz de um mundo pecador, ele também é o Salvador do mundo. Embora seja um fogo consumidor para o pecado, ele é a luz e a vida dos pecadores. Romanos 3.25-26: “A quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixados impunes os pecados anteriormente cometidos; tendo em vista a manifestação da sua justiça no tempo presente, para ele mesmo ser justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus”.

Desse modo, a verdade imutável de Deus, nas ameaças de sua lei contra os pecados dos homens, nunca foi tão manifestada como em Jesus Cristo; pois nunca houve outra prova tão grande da inalterabilidade da verdade de Deus, nessas ameaças, como quando o pecado foi imputado ao seu próprio Filho. E então, em Cristo, já foi vista uma realização real e completa dessas ameaças; a qual nunca foi nem será vista em qualquer outra ocasião; porque a eternidade que será consumida no cumprimento dessas ameaças sobre os outros nunca cessará. Cristo manifestou uma consideração infinita para com esta verdade de Deus em seus sofrimentos. E, em seu julgamento do mundo, ele faz da aliança das obras, que contém essas terríveis ameaças, sua regra do julgamento. Ele cuidará para que seja transgredido, de maneira alguma, um jota ou til; ele não fará nada contrário as ameaças da lei e ao seu completo cumprimento. E, ainda assim, temos nele mui grandes e preciosas promessas, promessas de perfeita libertação da penalidade da lei. E esta é a promessa que ele fez, a vida eterna. E todas as promessas de Deus têm nele o sim e Amém.

Tendo mostrado, dessa forma, onde á uma admirável conjunção de excelências em Cristo, prossigo agora para

II. Mostrar como esta admirável conjunção de excelências se mostra nos atos de Cristo.

Primeiro. Essa admirável conjunção de excelências torna-se visível no que Cristo fez ao assumir para si nossa natureza. Neste ato, sua infinita condescendência tornou-se maravilhosamente visível; pois aquele que era Deus se tornou homem; pois o Verbo se fez carne e assumiu para si uma natureza infinitamente inferior à sua natureza original! E se torna visível de modo ainda mais notável nas  circunstâncias humildes de sua encarnação: ele foi concebido no ventre de uma jovem pobre, cuja pobreza é vista nisto, quando ela veio oferecer sacrifícios para sua purificação, ela trouxe o que era permitido na lei somente no caso de pobreza, conforme Lucas 2.24, “e para oferecer um sacrifício, segundo o que está escrito na referida Lei: Um par de rolas ou dois pombinhos”. Isso só era permitido se a pessoa fosse tão pobre que não pudesse oferecer um cordeiro (Levítico 12.8).

E embora sua infinita condescendência se torne visível assim na maneira de sua encarnação, sua dignidade divina também se tornou visível nela; pois, embora ele tenha sido concebido no ventre de uma pobre virgem, ainda assim ele foi concebido pelo poder do Espírito Santo. E sua dignidade divina também se tornou visível na santidade de sua concepção e nascimento. Embora ele tenha sido concebido no ventre de uma linhagem corrupta da humanidade, ainda assim ele foi concebido e nasceu sem pecado. Como o anjo disse à bem-aventurada virgem, Lucas 1.35: “Descerá sobre ti o Espírito Santo, e o poder do Altíssimo te envolverá com a sua sombra; por isso, também o ente santo que há de nascer será chamado Filho de Deus”.

Sua infinita condescendência se torna maravilhosamente visível na maneira de seu nascimento. Ele nasceu em um estábulo, porque não havia lugar para eles na estalagem. A estalagem estava ocupada por outras pessoas que eram vistas como de maior importância. A bem-aventurada virgem, sendo pobre e desprezada, foi mandada embora ou excluída. Embora ela estivesse em circunstâncias tão necessárias, ainda assim aqueles que se consideravam seus superiores não deram lugar a ela. E, por isso, no tempo de seu parto, ela foi forçada a se dirigir a um estábulo e, quando a criança nasceu, foi envolta em faixas e colocada em uma manjedoura. E ali Cristo deitou como uma criancinha, e ali ele apareceu eminentemente como um cordeiro. Contudo, ainda assim, essa criança frágil, que nasceu dessa forma em um estábulo e foi colocada em uma manjedoura, nasceu para conquistar e triunfar sobre Satanás, aquele leão que ruge. Ele veio para subjugar o poderoso poder das trevas e exibi-lo abertamente, e, assim, restaurar a paz na terra, manifestar a boa vontade de Deus para com os homens e dar glória a Deus nas alturas; conforme o propósito de seu nascimento, o qual foi declarado pelos cânticos jubilosos das gloriosas hostes de anjos que apareceram aos pastores, ao mesmo tempo em que a criança estava na manjedoura, pelos quais sua dignidade divina foi manifestada.

Segundo. Essa admirável conjunção de excelências torna-se visível nos atos e em várias passagens da vida de Cristo. Embora Cristo tenha habitado na terra em circunstâncias externas pobres, pelas quais sua condescendência e humildade se tornam especialmente visíveis, e sua majestade foi encoberta; ainda assim, sua dignidade e glória divinas brilharam através do véu em muitos de seus atos, e tornaram distintamente visível que ele era não apenas o Filho do homem, mas o grande Deus.

Assim, nas circunstâncias de sua infância, sua pobreza exterior se tornou visível; todavia, havia algo para mostrar sua dignidade divina, nos magos sendo incitados a vir do leste para dar-lhe honra, sendo conduzidos por uma estrela milagrosa, e vindo, ajoelhando e adorando-o, e presenteando-o com ouro, incenso e mirra. Sua humildade e mansidão se tornaram maravilhosamente visíveis em sua sujeição à mãe e ao suposto pai quando criança. Ele se mostrou aqui como um cordeiro. Porém sua glória divina irrompeu e brilhou quando, aos doze anos, ele discutiu com os doutores no templo. Nisto ele se mostrou, em certa medida, como o Leão da tribo de Judá.

E igualmente, depois que ele iniciou seu ministério público, sua maravilhosa humildade e mansidão se manifestaram em sua escolha de mostrar-se em circunstâncias externas tão pobres, e em se contentar com elas. Por exemplo, quando ele era tão pobre que não tinha onde reclinar a cabeça e dependia da caridade de alguns de seus seguidores para sua subsistência; como aparece em Lucas 8, no início. Como também em seu tratamento manso, condescendente e familiar de seus discípulos; em suas conversas com eles, tratando-os como um pai a seus filhos, sim, como amigos e companheiros; e em sua paciência, suportando tanta aflição e vitupério, e tantos insultos dos escribas, dos fariseus e de outros. Nessas coisas ele se mostrou como um cordeiro. E, no entanto, ao mesmo tempo, ele mostrou de muitas maneiras sua majestade e glória divinas; particularmente nos milagres que fez, que eram evidentemente obras divinas, manifestavam poder onipotente e, assim, o declararam ser o Leão da tribo de Judá. Suas obras maravilhosas e milagrosas mostraram claramente que ele era o Deus da natureza, pois se tornava visível, por elas, que ele tinha toda a natureza em suas mãos, e que podia detê-la, parar e mudar seu curso, como quisesse. Ao curar os enfermos, abrir os olhos dos cegos, destapar os ouvidos dos surdos e curar os coxos, ele mostrou que era o Deus que formou os olhos, criou os ouvidos e foi o autor da estrutura do corpo do homem. Mediante a ressurreição dos mortos sob sua ordem, tornou-se visível que ele era o autor e a fonte da vida, e que “Deus, o Senhor, a quem pertencem as ordens/questões de morte”. Ao andar sobre o mar em uma tempestade, quando as ondas se levantavam, ele mostrou ser aquele Deus mencionado em Jó 9.8, que “anda sobre os altos do mar”. Ao acalmar a tempestade e abrandar a fúria do mar, mediante sua potente ordem, dizendo: "Acalma-te, emudece!", ele mostrou ser aquele que tem o controle sobre o universo e ser aquele Deus que faz as coisas pela palavra do seu poder, que fala e é feito, que ordena e permanece firme, e aquele de quem é dito, no Salmo 65.7, que “aplaca o ruído dos mares, o ruído das suas ondas”. E no Salmo 107.29, que “Fez cessar a tormenta, e as ondas se acalmaram”. E no Salmo 89.8-9: “Ó Senhor, Deus dos Exércitos, quem é poderoso como tu és, com a tua fidelidade ao redor de ti?! Dominas sobre a fúria do mar; quando as suas ondas se levantam, tu as amainas”. Cristo, ao expulsar demônios, se tornou notavelmente visível como o Leão da tribo de Judá, e mostrou que era mais forte do que aquele leão que ruge, que procura a quem possa devorar.[4] Ele ordenou que saíssem, e eles foram forçados a obedecer. Eles tinham muito medo dele; se prostram diante dele e imploram que  não os atormente. Ele obriga uma legião inteira deles a abandonar seu antigo domínio por meio de sua palavra poderosa; e eles não puderam entrar nos porcos sem sua permissão. Ele mostrou a glória de sua onisciência ao revelar os pensamentos dos homens, como temos relatado muitas vezes. Nisto ele mostrou ser aquele de quem Deus falou, Amós 4.13, que “declara ao homem qual é o seu pensamento”. Assim, no meio de sua pobreza e humilhação, sua glória divina se tornou visível em seus milagres. João 2.11: “Com este, deu Jesus princípio a seus sinais em Caná da Galileia; manifestou a sua glória”.

E embora Cristo se torne geralmente visível sem glória externa e em grande obscuridade, ainda assim, em certa ocasião, ele tirou o véu e se mostrou em sua majestade divina, na medida em que podia ser manifestada externamente aos homens neste estado frágil, quando ele foi transfigurado no Monte. O apóstolo Pedro fala disso em 2 Pedro 1.16-17, falando de si mesmo como alguém que foi testemunha ocular de sua majestade, “pois ele recebeu de Deus Pai, honra e glória, quando pela Glória Excelsa lhe foi enviada a seguinte voz: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo”; cuja voz, que veio do céu, eles ouviram quando estavam com ele no monte santo.

E, ao mesmo tempo em que Cristo costumava mostrar-se com tanta mansidão, condescendência e humildade em suas conversas íntimas com seus discípulos, mostrando-se como o Cordeiro de Deus nelas, ele também costumava mostrar-se como o Leão da tribo de Judá, com autoridade e majestade divinas, ao repreender tão duramente os escribas, os fariseus e outros hipócritas.

Terceiro. Esta admirável conjunção de excelências torna-se notavelmente visível em sua oferta de se si mesmo em sacrifício pelos pecadores em seus sofrimentos finais. Visto que esta era a maior em todas as obras de redenção, o maior ato de Cristo nessa obra; assim, especialmente neste ato, torna-se visível aquela admirável conjunção de excelências de que se fala. Cristo nunca se mostrou tanto como um cordeiro, como quando foi morto; ele veio como “um cordeiro para o matadouro” (Isaías 53.7). Pois ele foi oferecido a Deus como um cordeiro sem defeito e sem mancha; consequentemente ele se mostrou especialmente como o antítipo do Cordeiro da Páscoa, 1 Coríntios 5.7: “Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi imolado”. E, no entanto, nesse ato, ele se mostrou de um modo especial como o Leão da tribo de Judá; sim, neste, acima de todos os outros atos, em muitos aspectos, como se torna evidente nas seguintes coisas.

1. Neste caso, Cristo estava no maior grau de sua humilhação e, ainda assim, acima de todas as outras coisas, sua glória divina se torna visível. Grande foi a humilhação de Cristo ao nascer em tão humilde condição, de uma virgem pobre e num estábulo. Grande foi a sua humilhação ao submeter-se a José, o carpinteiro, e a Maria, sua mãe, e, depois, viver na pobreza, não tendo onde reclinar a cabeça e sofrendo tantas e amargas censuras como sofreu, enquanto pregava e operava milagres. Porém sua humilhação nunca foi tão grande como em seus sofrimentos finais, começando com sua agonia no Jardim até que expirou na cruz. Nunca esteve sujeito a tamanha ignomínia como nesta ocasião; nunca sofreu tanta dor em seu corpo, nem tanta tristeza em sua alma; nunca esteve em tão grande exercício de sua condescendência, humildade, mansidão e paciência, como nestes sofrimentos finais; nunca sua glória e majestade divinas foram cobertas com um véu tão espesso e escuro; nunca se esvaziou tanto de si mesmo, e fez de si mesmo sem nenhuma reputação, como nesta ocasião. E, no entanto, nunca sua glória divina foi tão manifestada, mediante qualquer ato seu, como neste ato de se entregar a esses sofrimentos. Quando seu fruto se tornou visível, e seu mistério e os seus propósitos foram revelados no seu resultado, então a sua glória se tornou visível; então esse se mostrou como o ato mais glorioso de Cristo que ele já praticou para com a criatura. Este seu ato é celebrado pelos anjos e hostes do céu com louvores peculiares, como aquele que está acima de todos os outros gloriosos, como pode ser visto no contexto de Apocalipse 5.9-12: “E entoavam novo cântico, dizendo: Digno és de tomar o livro e abrir-lhe os selos, porque foste morto e com o teu sangue compraste para Deus os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação e para o nosso Deus os constituíste reino e sacerdotes, e reinarão sobre a terra. Vi e ouvi uma voz de muitos anjos ao redor do trono, dos seres viventes e dos anciãos, cujo número era milhões de milhões e milhares de milhares, proclamando em grande voz: Digno é o Cordeiro que foi MORTO de receber o poder, e riqueza, e sabedoria, e força, e honra, e glória e louvor”.

2. Ele nunca, em qualquer ato, fez uma manifestação tão grande de amor a Deus e, ainda assim, nunca manifestou tanto seu amor para com aqueles que eram inimigos de Deus, como neste ato. Cristo nunca fez nada pelo que seu amor para com o Pai fosse tão eminentemente manifestado como ao entregar sua vida, sob tais sofrimentos inexprimíveis, em obediência a sua ordem e em favor da reivindicação da honra de sua autoridade e majestade; nem jamais qualquer mera criatura deu um testemunho de amor a Deus como este. E, ainda assim, esta foi a maior expressão de todas de seu amor para com os homens pecadores, que eram inimigos de Deus. Romanos 5.10: “Quando éramos inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte de seu Filho”. A grandeza do amor de Cristo para com eles não se torna visível tanto como em ser amor agonizante/sacrificial. Aquele sangue de Cristo que suou e que caiu em grandes gotas ao chão, em sua agonia, foi derramado por amor aos inimigos de Deus e seus. Aquela vergonha e cuspe, aquele tormento do corpo e aquele grande sofrimento, até a morte, que ele suportou em sua alma, foi o que ele sofreu por amor aos rebeldes contra Deus, a fim de salvá-los do inferno e comprar para eles a glória eterna. Cristo nunca mostrou tão eminentemente sua consideração para com a honra de Deus como ao oferecer-se como vítima à justiça vingativa, a fim de reivindicar a honra de Deus; e, ainda assim, acima de tudo, ele manifestou seu amor para com aqueles que desonraram a Deus de modo a trazer tal culpa sobre si mesmos, que nada menos que seu sangue poderia fazer expiação por isso.

3. Cristo nunca se mostrou tão eminentemente a favor da justiça divina e, ainda assim, nunca sofreu tanto por causa da justiça divina, como quando se ofereceu em sacrifício pelos nossos pecados. Nos grandes sofrimentos de Cristo, sua infinita consideração para com a honra da justiça de Deus mostrou-se de modo distinto. Pois foi por causa disso que ele se humilhou, e, no entanto, nesses sofrimentos, Cristo foi a marca das expressões vingativas dessa mesma justiça de Deus. A justiça vingativa, nessa ocasião, exauriu toda a sua força sobre ele por causa de nossa culpa que foi imposta sobre ele. Ele não foi poupado; antes Deus esgotou as flechas de sua vingança sobre ele, o que o fez suar sangue e clamar na cruz, e provavelmente rasgou seus órgãos vitais, despedaçou seu coração, a fonte de sangue, ou alguns outros vasos sanguíneos internos, e, mediante violenta fermentação, transformou seu sangue em água; pois o sangue e a água que saíram de seu lado, quando perfurado pela lança, parece ter sido sangue extravasado. E, assim, pode haver uma espécie de cumprimento literal do dito no Salmo 22.14: “Derramei-me como água, e todos os meus ossos se desconjuntaram; meu coração fez-se como cera, derreteu-se dentro de mim”. E este foi o caminho e o modo pelos quais Cristo se levantou para honrar a justiça de Deus, a saber, sofrendo suas terríveis execuções desse modo. Pois quando ele se comprometeu com os pecadores e se colocou no seu lugar, a justiça divina não poderia ter sua devida honra de nenhuma outra maneira senão mediante o sofrer suas vinganças.

As diversas excelências que se encontraram na pessoa de Cristo se tornam visíveis nisto, a saber, sua infinita consideração para com a justiça de Deus e em tanto amor por aqueles que se expuseram a ela, que o induziram a se entregar a ela.

4. A santidade de Cristo nunca brilhou tão distintamente como em seus sofrimentos finais e, ainda assim, ele nunca foi tratado como culpado a tal ponto. A santidade de Cristo nunca teve tal provação como nesta ocasião e, por isso, nunca teve uma manifestação tão grande. Quando ela foi provada nesta fornalha, saiu como ouro, ou como prata purificada sete vezes. Sua santidade então se tornou visível, acima de tudo, em sua busca constante da honra de Deus e em sua obediência a ele; pois entregar-se à morte foi, de modo transcendente, o maior ato de obediência que já foi prestado a Deus, por qualquer pessoa desde a fundação do mundo.

E, no entanto, Cristo foi tratado, no mais alto grau, como uma pessoa perversa. Ele foi preso e amarrado como um malfeitor. Seus acusadores o apresentaram como o mais miserável perverso. Em seus sofrimentos antes de sua crucificação, ele foi tratado como se tivesse sido o pior e mais vil dos homens; e, em seguida, ele foi condenado a uma espécie de morte que ninguém, exceto o pior tipo dos malfeitores, costumava sofrer, aqueles que eram os mais abjetos em suas pessoas e culpados dos crimes mais horrendos. E ele sofreu como se fosse culpado segundo o próprio Deus, porque a nossa culpa foi imputada a ele; porque aquele que não conheceu pecado foi feito pecado por nós; ele foi sujeitado à ira como se ele próprio fosse pecador; ele foi feito maldição por nossa causa.

Cristo nunca manifestou tão grandemente seu ódio para com o pecado, como contra Deus, como ao morrer para tirar a infâmia que o pecado havia feito a Deus; e, no entanto, ele nunca esteve tão sujeito aos terríveis efeitos do ódio de Deus para com o pecado e à sua ira contra ele, como esteve nesta ocasião. Nisto se tornam visíveis as diferentes excelências reunidas em Cristo, a saber, amor a Deus e graça aos pecadores.

5. Ele nunca foi tratado com tanta indignidade como em seus sofrimentos finais e, no entanto, é principalmente por causa deles que ele é considerado digno. Ele foi tratado como se não fosse digno de viver. As pessoas gritaram: “Fora! Fora! Crucifica-o!” (João 19.15). E eles preferiram Barrabás a ele. E ele sofreu da parte do Pai como alguém cujos deméritos eram infinitos, por causa dos nossos deméritos que foram colocados sobre ele. E, ainda assim, foi especialmente por esse ato de se sujeitar a esses sofrimentos que ele mereceu, e por principalmente cuja causa ele foi considerado digno, a glória de sua exaltação. Filipenses 2.8-9, “a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte;... Pelo que Deus o exaltou sobremaneira”. E vemos que é principalmente por causa disso que ele é exaltado como digno pelos santos e anjos no contexto: “Digno”, dizem eles, “é o Cordeiro que foi morto...”. Isso mostra uma admirável conjunção nele de dignidade infinita e de infinita condescendência e amor ao infinitamente indigno.

6. Em seus sofrimentos finais, Cristo sofreu mais extremamente da parte daqueles a quem ele estava mostrando, naquela ocasião, seu maior ato de amor. Ele nunca sofreu tanto da parte de seu Pai (embora não de ódio para com ele, mas de ódio para com os nossos pecados), pois ele então o abandonou (como Cristo o expressa na cruz), ou tirou o conforto de sua presença; e então “ao Senhor agradou moê-lo, fazendo-o enfermar”, conforme Isaías 53.10. E, no entanto, nunca ofereceu tão grande manifestação de amor a Deus como naquela ocasião, como já foi observado. Igualmente, Cristo nunca sofreu tanto nas mãos dos homens como naquela ocasião e, ainda assim, nunca houve um exercício tão elevado de amor aos homens. Ele nunca foi tão maltratado por seus discípulos, os quais estavam tão despreocupados com seus sofrimentos que não vigiaram com ele uma hora em sua agonia; e, quando ele foi preso, todos o abandonaram e fugiram, exceto Pedro, que o negou com juramentos e maldições. E, ainda assim, ele estava sofrendo, derramando seu sangue e derramando sua alma até a morte por eles. Sim, provavelmente ele estava derramando seu sangue por alguns daqueles que derramaram seu sangue; ele estava morrendo por alguns que o mataram; por aqueles por quem ele orou enquanto o crucificavam e provavelmente foram, mais tarde, levados a Cristo pela pregação de Pedro. Compare Lucas 23.34, Atos 2.23, Atos 2.36, Atos 2.37, Atos 2.41, Atos 3.17 e Atos 4.4. Isso mostra uma admirável confluência de justiça e graça na redenção de Cristo.

7. Foi sobretudo nos sofrimentos finais de Cristo que ele foi entregue ao poder de seus inimigos; e, todavia, foi sobretudo por estes que ele obteve vitória sobre seus inimigos. Cristo nunca esteve tão nas mãos de seus inimigos como na ocasião de seus sofrimentos finais. Eles atentaram contra sua vida antes, mas, de tempos em tempos, eram contidos e Cristo escapava de suas mãos. E a razão dada para isso, é que sua hora ainda não havia chegado. Porém, agora, eles foram autorizados a realizar sua vontade sobre ele; ele foi entregue à malícia e crueldade de homens ímpios e demônios em grande medida; e, por isso, quando os inimigos de Cristo vieram prendê-lo, Jesus lhes disse, Lucas 22.53: "Diariamente, estando eu convosco no templo, não pusestes as mãos sobre mim. Esta, porém, é a vossa hora e o poder das trevas."

E, no entanto, foi principalmente por meio desses sofrimentos que ele venceu e derrotou seus inimigos. Cristo nunca feriu tão eficazmente a cabeça de Satanás como quando Satanás feriu seu calcanhar. A arma com a qual Cristo guerreou contra o diabo, obteve uma vitória mais completa e um triunfo glorioso sobre ele foi a cruz, o instrumento e a arma com a qual o diabo pensou que havia derrotado a Cristo e trazido sobre ele uma destruição vergonhosa. Colossenses 2.14-15, “tendo cancelado o escrito de dívida, ... encravando-o na cruz; e, despojando os principados e as potestades, publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz.” Em seus sofrimentos finais, Cristo solapou os próprios fundamentos do reino de Satanás; ele venceu seus inimigos em seus próprios territórios, e os derrotou com suas próprias armas; como Davi que cortou a cabeça de Golias com sua própria espada. O diabo, por assim dizer, engoliu a Cristo, como a baleia fez com Jonas, mas foi um veneno mortal para ele; Cristo lhe aplicou uma ferida mortal em suas próprias entranhas. Ele logo ficou com náuseas de seu bocado e foi forçado a vomitá-lo; e está até hoje desolado com o que ele engoliu como sua presa. Nesses sofrimentos de Cristo, foi lançado o fundamento de toda aquela gloriosa vitória que ele já obteve sobre Satanás; na destruição de seu reino pagão, no império romano, em todo o sucesso que o evangelho teve desde então, e também em toda a sua vitória futura e ainda mais gloriosa que deve ser obtida na terra. Assim, o enigma de Sansão é mais eminentemente cumprido, Juízes 14.14: “Do comedor saiu comida, e do forte saiu doçura”. E, desse modo, o verdadeiro Sansão faz mais para a destruição de seus inimigos em sua morte do que em sua vida; ao entregar-se à morte, ele demoli o templo de Dagon e destrói muitos milhares de seus inimigos, exatamente quando eles estão zombando de seus sofrimentos; e assim aquele cujo tipo era a arca, derruba Dagon e quebra sua cabeça e mãos em seu próprio templo, exatamente quando é levado para lá como cativo de Dagon.[5]

Desse modo, ao mesmo tempo e no mesmo ato, Cristo apresenta-se como um leão e um cordeiro. Ele se mostra como um cordeiro nas mãos de seus inimigos cruéis; como um cordeiro nas patas e entre as mandíbulas devoradoras de um leão que ruge. Sim, ele foi um cordeiro realmente morto por este leão. E, todavia, ao mesmo tempo, como o Leão da tribo de Judá, ele vence e triunfa sobre Satanás, destruindo seu próprio devorador; como Sansão fez com o leão que rugiu contra ele, quando ele o rasgou como se fosse um cabrito. E em nada Cristo se mostrou tanto como um leão, em força gloriosa destruindo seus inimigos, como quando foi levado como um cordeiro ao matadouro. Em sua maior fraqueza, ele foi mais forte; e quando ele mais sofreu da parte de seus inimigos, ele trouxe a maior perplexidade sobre seus inimigos.

Desse modo, esta admirável conjunção de diferentes excelências foi manifestada por Cristo em sua oferta de si mesmo a Deus em seus sofrimentos finais.

Quarto. Isto ainda é manifesto em seus atos em seu presente estado de exaltação no céu. De fato, em seu estado exaltado, ele se mostra mais eminentemente em uma manifestação dessas excelências, por causa das quais ele é comparado a um leão. Porém, ainda assim, ele se mostra como um cordeiro, Apocalipse 14: “Olhei, e eis que o Cordeiro em pé sobre o monte Sião.” Embora, em seu estado de humilhação, ele se manifestou principalmente como um Cordeiro, no entanto, ele não se apresentou sem manifestações de sua majestade e poder divinos, como o Leão da tribo de Judá. Embora Cristo esteja, agora, à mão direita de Deus, exaltado como Rei do Céu e Senhor do Universo, visto que ele ainda possui natureza humana, ele ainda se destaca em humildade. Embora o homem Cristo Jesus seja a mais alta de todas as criaturas no céu, ele supera todas elas em humildade, bem como em glória e dignidade; pois ninguém vê tanta distância entre Deus e ele, como ele. E embora ele se mostre, agora, em tão gloriosa majestade e domínio no céu, ele se mostra como um cordeiro em seu tratamento condescendente, suave e doce para com seus santos ali; pois ainda é um cordeiro, mesmo no meio do trono de sua exaltação. E aquele que é o pastor de todo o rebanho, ele mesmo é um cordeiro e vai adiante deles no céu conforme Apocalipse 7.17: “pois o Cordeiro que se encontra no meio do trono os apascentará e os guiará para as fontes de água da vida. E Deus lhes enxugará dos olhos toda lágrima.” Embora, no céu, todo joelho se dobre diante dele, e embora os anjos se prostrem diante dele, adorando-o, ainda assim ele trata seus santos com infinita condescendência, brandura e carinho. E, em seus atos para com os santos na terra, ele ainda se mostra como um cordeiro, manifestando grande amor e ternura em sua intercessão por eles, como alguém que experimentou aflição e tentação. Ele não esqueceu o que são essas coisas, nem esqueceu como ter compaixão daqueles que estão sujeitos a elas. E ele ainda manifesta suas excelências como cordeiro em suas relações com seus santos na terra: em admirável paciência, amor, gentileza e compaixão; instruindo, suprindo, apoiando e confortando-os; frequentemente indo até eles e manifestando-se a eles por seu Espírito, para que ele possa cear com eles, e eles com ele; admitindo-os à doce comunhão com ele, capacitando-os com ousadia e confiança a vir a ele, e a consolarem seus corações nele. E, no céu, Cristo ainda se mostra, por assim dizer, com as marcas de suas feridas nele e, assim, se mostra como o cordeiro que foi morto; como foi apresentado em visão a João, no texto, quando se apresentou para abrir o livro selado com sete selos, o que faz parte da glória de sua exaltação.

Quinto. E, por fim, esta admirável conjunção de excelências será manifestada nos atos de Cristo no Juízo Final. Ele, na ocasião, acima de todas as outras vezes, se apresentará como o Leão da tribo de Judá em infinita grandeza e majestade, quando vier na glória de seu Pai com todos os santos anjos, e a terra tremerá diante dele e os montes derreterão. Isto é dito dele em Apocalipse 20.11, que se sentará em um grande trono branco, diante de cuja presença a terra e o céu fugirão. Ele então se mostrará da maneira mais terrível e assombrosa para os ímpios. Os demônios tremem com os pensamentos dessa aparição. E quando ocorrer, os reis, os grandes, os ricos, os capitães, os poderosos, todo escravo e todo homem livre, se esconderão nas covas e nas rochas dos montes, e clamarão aos montes e às rochas para que caiam sobre si, a fim de os esconder da face e da ira do Cordeiro. E ninguém pode anunciar ou conceber as assombrosas manifestações de ira, nas quais ele se manifestará para com estes; ou o tremor e espanto, o grito e o ranger de dentes, com os quais estarão diante de seu tribunal, e receberão a terrível sentença de sua ira.

E, ainda assim, ele se mostrará, ao mesmo tempo, como um cordeiro para seus santos. Ele os receberá como amigos e irmãos, tratando-os com infinita brandura e amor. Nele, não haverá nada terrível para eles, mas, para com eles, ele se vestirá inteiramente de doçura e carinho. A igreja será, então, admitida a ele como sua noiva; esse será o dia de seu casamento. Todos os santos serão docemente convidados a irem com ele, a fim de herdar o reino e reinar nele com ele, por toda a eternidade.

 

Aplicação

 

I. Desta doutrina podemos aprender uma razão pela qual Cristo é chamado por tal variedade de nomes, e apresentado sob tal variedade de representações nas Escrituras. É a melhor para expressar e exibir para nós essa variedade de excelências que são encontradas e estão unidas nele. Muitos títulos são mencionados juntos em um versículo, Isaías 9.6: “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; o governo está sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz”. Mostra uma maravilhosa conjunção de excelências que a mesma pessoa seja um Filho nascido e dado, e, ainda assim, seja o Pai da Eternidade, sem começo nem fim; que ele seja uma criança e, ainda assim, seja aquele cujo nome é Conselheiro e Deus Forte; e apropriado que, em quem tais coisas estão unidas, ele seja chamado de Maravilhoso.

Por causa da mesma maravilhosa conjunção, Cristo é representado por uma grande variedade de coisas perceptíveis, que são, de certa forma, excelentes. Assim, em alguns lugares ele é chamado de sol, como em Malaquias 4.2; em outros, estrela, como em Números 24.17. E ele é especialmente representado pela estrela da manhã, como sendo aquela que supera todas as outras estrelas em brilho e é a precursora do dia (Apocalipse 22.16). E, como em nosso texto, ele é comparado a um leão, em um versículo, e a um cordeiro, no próximo. Igualmente, às vezes, ele é comparado a uma corça ou um veado, outra criatura muito diferente de um leão. Também, em alguns lugares ele é chamado de rocha, em outros, ele é comparado a uma pérola; em alguns lugares ele é chamado de homem de guerra e capitão da nossa salvação, em outros lugares ele é representado como um noivo. Em Cântico dos cânticos 2.1, ele é comparado a uma rosa e um lírio, que são flores perfumadas e belas; no versículo 3, ele é comparado a uma árvore que dá frutos doces. Em Isaías 53.2, ele é chamado de raiz de uma terra seca; mas em outros lugares, em vez disso, ele é chamado de árvore da vida, que cresce (não em solo seco ou estéril, mas) no meio do “paraíso de Deus” (Apocalipse 2.7).

II. Deixe a consideração deste maravilhoso encontro de diferentes excelências em Cristo induzir você a aceitá-lo e a unir-se a ele como teu Salvador. Visto que todos os tipos de excelências são encontradas nele, também nele concorrem todos os tipos de argumentos e motivos para levar você a escolhê-lo como teu Salvador, e tudo o que tende a encorajar os pobres pecadores a irem e depositarem sua confiança nele: sua plenitude e toda suficiência como Salvador tornam-se gloriosamente visíveis nesta variedade de excelências de que se falou.

O homem caído está em um estado de grande miséria e é impotente; ele é uma pobre criatura fraca, como uma criança lançada em seu sangue no dia em que nasce. Porém Cristo é o Leão da tribo de Judá; ele é forte, embora nós sejamos fracos; ele prevaleceu para fazer por nós o que nenhuma outra criatura poderia fazer. O homem caído é uma criatura vil e desprezível, um verme desprezível. Mas Cristo, que se comprometeu por nós, é infinitamente honrado e digno. O homem caído está corrompido, mas Cristo é infinitamente santo; o homem caído é odioso, mas Cristo é infinitamente amável; o homem caído é o objeto da indignação de Deus, mas Cristo é infinitamente amado por ele. Nós provocamos terrivelmente a Deus, mas Cristo realizou aquela justiça que é infinitamente preciosa aos olhos de Deus.

E aqui não há somente força e dignidade infinitas, mas condescendência infinita; e amor e misericórdia tão grandes quanto poder e dignidade. Se você é um pobre pecador aflito, cujo coração está pronto para afundar por medo de que Deus nunca tenha misericórdia de você, você não precisa ter medo de ir a Cristo, com medo de que ele seja incapaz ou não queira ajudar você. Aqui está um sólido fundamento e um tesouro inesgotável para atender às necessidades de tua pobre alma; e aqui está infinita graça e bondade para convidar e encorajar uma pobre alma medrosa e indigna a ir a ela. Se Cristo aceitar você, você não precisa temer, mas estará seguro; pois ele é um leão forte para te defender. E, se você for a Cristo, não precisa temer, mas será aceito; pois ele é como um cordeiro para todos os que vão a ele, e os recebe com infinita graça e ternura. É verdade que ele tem uma majestade terrível; ele é o grande Deus e está infinitamente acima de você, mas há isso para encorajar e animar o pobre pecador: que Cristo é tanto homem quanto Deus; ele é uma criatura, bem como o Criador; e ele é o mais humilde e manso de coração que qualquer criatura no céu ou na terra. Isso pode muito bem tornar a pobre criatura indigna ousada em ir até ele. Você não precisa hesitar por um momento, mas pode correr para ele e lançar-se sobre ele. Você certamente será graciosa e mansamente recebido por ele. Embora ele seja um leão, ele será apenas um leão para teus inimigos, mas ele será um cordeiro para você. Não poderia ter sido concebido, se não fosse assim na pessoa de Cristo, que poderia haver tanto em qualquer Salvador que convide e tenda a encorajar os pecadores a confiar nele. Quaisquer que sejam tuas circunstâncias, você não precisa ter medo de ir a um Salvador como este. Seja você uma criatura tão perversa, aqui há dignidade suficiente; seja você uma criatura tão pobre, vil e ignorante, não há perigo de ser desprezado; pois embora ele seja muito maior do que você, ele também é imensamente mais humilde do que você. Qualquer um de vocês, que seja pai ou mãe, não desprezará um de seus próprios filhos que vem a você em aflição; existe muito menos perigo de Cristo desprezar você, se você em teu coração for a ele.

Deixe-me, aqui, discutir um pouco com a alma pobre, sobrecarregada e aflita.

Primeiro. De que você tem medo, de modo que você não ouse aventurar sua alma em Cristo? Você tem medo de que ele não possa salvá-lo, que ele não seja forte o suficiente para vencer os inimigos de tua alma? Porém como você pode desejar alguém mais forte do que "o Deus Forte", como Cristo é chamado (Isaías 9:6)? Há necessidade de força maior que infinita? Você tem medo de que ele não esteja disposto a se inclinar tanto a ponto de prestar atenção em você? Porém, neste caso, olhe para ele, enquanto ele se encontrava no círculo de soldados, expondo seu rosto abençoado para ser esbofeteado e cuspido por eles! Veja-o amarrado, com as costas descobertas para aqueles que o feriram! E veja-o pendurado na cruz! Você acha que aquele que teve condescendência o suficiente para se curvar a essas coisas, e isto em prol dos seus crucificadores, não estará disposto a aceitá-lo se você for a ele? Ou você tem medo de que, se ele aceitar você, o Deus Pai não o aceitará em teu lugar? Porém considere, Deus rejeitará seu próprio Filho, em quem está seu deleite infinito, e tem sido desde toda a eternidade, e que está tão unido a ele que, se ele o rejeitasse, ele rejeitaria a si mesmo?

Segundo. O que você pode desejar que esteja em um Salvador que não está em Cristo? Ou, em que você desejaria que um Salvador fosse diferente de Cristo? Que excelência está faltando? O que há que seja ótimo ou bom? O que há que seja venerável ou vencedor? O que há que seja adorável ou amável? Ou, o que você pode pensar que seria encorajador que não seja encontrado na pessoa de Cristo? Você gostaria que teu Salvador fosse grande e honrado, porque não está disposto a ser devedor de uma pessoa vil? E, Cristo não é uma pessoa honrada o suficiente para ser digna de que você dependa dele? Ele não é uma pessoa distinta o suficiente para ser digna de ser designada para uma obra tão honrosa como a tua salvação? Você não gostaria apenas de ter um Salvador de condição superior, mas você gostaria de tê-lo, apesar da sua exaltação e dignidade, feito também de condição inferior, a fim de que ele experimentasse aflições e provações, aprendesse pelas coisas que sofreu, a fim de compadecer-se dos que sofrem e são tentados? E Cristo não foi feito humilde o suficiente por você? E ele não sofreu o suficiente? Você gostaria que ele não apenas tivesse experiência das aflições que você sofre agora, mas também daquela espantosa ira que você teme no futuro, a fim de que ele saiba como ter compaixão daqueles que estão em perigo de sofrê-la e com medo dela? Este Cristo teve experiência dela, experiência que lhe deu um senso maior dela, mil vezes do que você ou qualquer homem vivo tem. Você gostaria que teu Salvador fosse alguém que está perto de Deus, a fim de que sua mediação pudesse prevalecer sobre ele? E você pode desejar que ele esteja mais perto de Deus do que Cristo, que é seu Filho unigênito, da mesma essência com o Pai, está? E você não gostaria de tê-lo perto de Deus, mas também perto de você, de modo que você pudesse ter livre acesso a ele? E você gostaria de tê-lo mais próximo de você do que ser da mesma natureza, e não apenas assim, mas unido a você mediante uma união espiritual, tão próxima a ponto de ser adequadamente representada pela união da esposa com o esposo, do ramo à videira, do membro à cabeça, sim, de modo a ser considerado um e chamado um espírito? Pois ele se unirá a você dessa forma se você o aceitar. Você gostaria de ter um Salvador que deu um grande e extraordinário testemunho de misericórdia e amor aos pecadores, mediante algo que ele fez, bem como mediante o que ele diz? E você pode pensar ou conceber coisas maiores do que as que Cristo fez? Não foi uma coisa formidável para ele, que era Deus, tomar sobre si a natureza humana; ser não apenas Deus, mas homem desde então por toda a eternidade? Porém você consideraria o sofrimento pelos pecadores como um testemunho ainda maior de amor aos pecadores do que apenas fazer, embora nunca seja uma coisa que ele tenha feito tão extraordinária? E você desejaria que um Salvador sofresse mais do que Cristo sofreu pelos pecadores? O que está faltando, ou o que você acrescentaria se pudesse, a fim de torná-lo mais apto para ser teu Salvador?

Contudo, além de persuadir você a aceitar a Cristo como teu Salvador, considere duas coisas particularmente.

1. Quanto Cristo aparece, como o Cordeiro de Deus, em seus convites a você para vir a ele e confiar nele. Com que doce graça e bondade ele, de tempos em tempos, chama e convida você conforme as palavras de Provérbios 8.4: “A vós, ó homens, clamo; e a minha voz se dirige aos filhos dos homens." E conforme Isaías 55.1-3: “Ah! Todos vós, os que tendes sede, vinde às águas; e vós, os que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei; sim, vinde e comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite.” Quão gracioso ele é aqui ao convidar a todos os que têm sede, e ao repetir seu convite repetidas vezes: “vinde às águas, vinde, comprai e comei, sim vinde”; e ao declarar a excelência deste acolhimento que ele convida você a aceitar: “Vinde e comprai... vinho e leite”; e ao assegurar-lhe que tua pobreza e o não ter nada para pagar por isso não será objeção: “vinde e comprai, sem dinheiro e sem preço”. E nos argumentos e censuras graciosos que ele usa com você. Como é dito a seguir: “Por que gastais dinheiro naquilo que não é pão, e o vosso suor, naquilo que não satisfaz? Ouvi-me atentamente, comei o que é bom e vos deleitareis com finos manjares.” Tanto como dizer: “É totalmente desnecessário que você continue trabalhando e labutando por aquilo que nunca pode servir ao seu propósito de buscar descanso no mundo e em tua justiça própria; ... eu tenho provisão abundante para você daquilo que é realmente bom, satisfará plenamente teus desejos, servirá ao seu propósito e estará pronto para aceitá-lo; você não precisa ter medo; se você vier a mim eu me comprometerei a ver todas as tuas necessidades supridas, e fazer de você uma criatura feliz.” Como ele promete em Isaías 55.3: “Inclinai os ouvidos e vinde a mim; ouvi, e a vossa alma viverá; porque convosco farei uma aliança perpétua, que consiste nas fiéis misericórdias prometidas a Davi”. E também em Provérbios 9, no início, quão gracioso e doce é o convite ali! “Quem é simples, volta-te para aqui”; nunca seja uma criatura tão pobre, ignorante e cega, você será bem-vindo. E Cristo apresenta a provisão que ele fez para você nas seguintes palavras: “Vinde comer do meu pão e beber do vinho que misturei”. Você está em um pobre estado de fome e não tem nada com que alimentar tua alma perecível; você tem buscado algo, mas, ainda assim, permanece necessitado. Ouça como Cristo te chama para comer do seu pão e beber do vinho que ele misturou! E quão semelhante a um cordeiro Cristo se mostra em Mateus 11.28-30: “Vinde a mim, todos os que estais cansados ​​e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve.” Ó tu pobre e aflita alma! Quem quer que seja que tenha medo de nunca ser salvo, considere que isso que Cristo menciona é o teu próprio caso, quando ele chama aqueles que trabalham e estão sobrecarregados! E como ele repetidamente promete descanso se você for a ele! Em Mateus 11.28 ele diz: “E eu vos aliviarei”; e em Mateus 11.29: “Achareis descanso para a vossa alma.” Isso é o que você quer! Esta é a coisa que você tem procurado em vão há tanto tempo! Oh, quão doce seria para você o descanso se você pudesse obtê-lo! Venha a Cristo e você o obterá. E ouça como Cristo, para encorajá-lo, se apresenta como um cordeiro! Ele diz a você que é manso e humilde de coração; e você tem medo de vir a alguém assim? E, novamente, Apocalipse 3.20: “Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele, comigo.” Cristo condescende não apenas em chamar você para ele, mas ele vem até você; ele vem à tua porta e bate nela. Ele podia enviar um oficial e prender você como um malfeitor rebelde e vil, mas, em vez disso, ele vem e bate à tua porta, e pede que você o receba em tua casa como teu amigo e Salvador. E ele não apenas bate à tua porta, mas fica lá esperando enquanto você está relutante e sem vontade. E não apenas isso, mas ele promete o que fará por você se você o admitir, que privilégios ele concederá a você; ele "ceara com você, e você, com ele”. E, novamente, Apocalipse 22.16-17: “Eu sou a Raiz e a Geração de Davi, a brilhante e a estrela da manhã. E o Espírito e a noiva dizem: Vem! Aquele que ouve, diga: Vem! Aquele que tem sede venha; e quem quiser receba de graça da água da vida”. Como Cristo, aqui, graciosamente coloca diante de você sua própria excelência atraente e vencedora! E como ele condescende em declarar a você não apenas seu próprio convite, mas o convite do Espírito e da noiva, se de alguma forma ele pode encorajá-lo a vir! E como ele convida a todos que quiserem, para que possam “receber de graça a água da vida”, a fim de que possam receber um dom gratuito, por mais precioso que seja, e embora seja a água da vida!

2. Se você vier a Cristo, ele se mostrará como um leão, em seu glorioso poder e domínio, para defender você. Todas aquelas suas excelências, nas quais ele se mostra como um leão, serão tuas e serão empregadas em teu favor, em tua defesa, em favor da tua segurança e para promover a tua glória. Ele será como um leão para lutar contra os teus inimigos; quem tocar ou ofender você provocará a sua ira, como quem atiça a um leão. A menos que teus inimigos possam vencer este leão, eles não serão capazes de destruir ou machucar você. A menos que sejam mais fortes do que ele, não poderão impedir tua felicidade. Isaías 31.4: “Porque assim me disse o Senhor: Como o leão e o cachorro do leão rugem sobre a sua presa, ainda que se convoque contra eles grande número de pastores, e não se espantam das suas vozes, nem se abatem pela sua multidão, assim o Senhor dos Exércitos amparará a Jerusalém; protegê-la-á e salvá-la-á, poupá-la-á e livrá-la-á.”

III. Deixe que o que foi dito seja melhorado para persuadir você a amar o Senhor Jesus Cristo, e a escolhê-lo como teu amigo e porção. Visto que há um encontro tão admirável de diferentes excelências em Cristo, há tudo nele para torná-lo digno de teu amor e escolha, e para conquistar e comprometer esse amor e escolha. Tudo o que há, ou pode haver, que seja desejável estar em um amigo, está em Cristo, e isso no mais alto grau que pode ser desejado.

Você escolheria para ser amigo uma pessoa de grande dignidade? É uma coisa comum aos homens terem como amigos pessoas que estão muito acima deles; porque se consideram honrados pela amizade delas. Assim como seria com uma donzela inferior ser objeto do afetuoso amor de algum grande e excelente príncipe. Porém Cristo está infinitamente acima de você e acima de todos os príncipes da terra; pois ele é o Rei dos reis. Uma pessoa tão ilustre como esta se oferece a você em amizade mais próxima e afetuosa.

E você escolheria ter um amigo não apenas nobre, mas bom? Em Cristo, são encontradas grandeza e bondade infinitas, e recebem brilho e glória uma da outra. Sua grandeza se apresenta de modo gracioso mediante sua bondade. Quanto mais sem bondade alguém é, tanto maior o mal; mas quando a bondade infinita se junta à grandeza, ela a torna uma grandeza gloriosa e adorável. Assim, por outro lado, sua bondade infinita recebe o brilho de sua grandeza. Aquele que é de grande entendimento e habilidade, e, ao mesmo tempo, de boa e excelente disposição, é merecidamente mais estimado do que um ser mais baixo e inferior com a mesma inclinação e boa vontade. De fato, a bondade é excelente em qualquer objeto em que se encontre; é a própria beleza e excelência, e torna excelentes todos os que a possuem. E ainda mais excelente quando unida à grandeza, exatamente como as excelentes qualidades do ouro tornam o corpo ao qual são inerentes mais precioso e de maior valor, quando combinados com dimensões maiores do que quando com menores. E quão gloriosa é a visão, ver aquele que é o grande Criador e supremo Senhor do céu e da terra cheio de condescendência, terna piedade e misericórdia para com os vis e indignos! Seu poder onipotente, majestade infinita e autossuficiência tornam seu amor e graça extraordinários ainda mais surpreendentes. E como sua condescendência e compaixão valorizam sua majestade, poder e domínio, e tornam esses atributos agradáveis, os quais, de outra forma, seriam simplesmente terríveis! Você não desejaria que teu amigo, considerado grande e honrado, fosse de tal condescendência e graça, e, assim, tivesse o caminho aberto para livre acesso a ele, de modo que sua exaltação acima de você não impedisse seu livre desfrute de sua amizade?

E você escolheria, não apenas, que a grandeza e majestade infinitas de seu amigo fossem, por assim dizer, suavizadas e abrandadas com condescendência e graça, mas também desejaria ter seu amigo em sua própria essência, a fim de que ele pudesse se aproximar de você? Você escolheria um amigo muito acima de você e, no entanto, por assim dizer, que estivesse no mesmo nível de você também? (Embora seja difícil para os homens ter um amigo próximo e querido de dignidade superior, ainda assim há neles uma inclinação de ter seu amigo, um participante, com eles nas circunstâncias.) Assim é Cristo. Embora ele seja o grande Deus, ele se rebaixou para estar no mesmo nível que você, de modo a se tornar homem como você, para que ele não seja apenas teu senhor, mas teu irmão, e para que ele possa ser o mais adequado para ser companheiro para tal verme do pó. Este é um dos objetivos de Cristo tomar sobre si a natureza do homem, para que seu povo possa viver sob as vantagens de uma conversa mais familiar com ele do que a distância infinita da natureza divina permitiria. E por isso a igreja ansiava pela encarnação de Cristo. Cântico dos cânticos 8.1: “Tomara fosses como meu irmão, que mamou os seios de minha mãe! Quando te encontrasse na rua, beijar-te-ia, e não me desprezariam.”[6] Um dos desígnios de Deus no evangelho é levar-nos a fazer de Deus o objeto de nosso apreço não dividido, para que ele possa ocupar nosso apreço de todas as maneiras, de modo que ele seja o centro de qualquer inclinação natural que exista em nossas almas. Para que Deus seja tudo em todos. Porém há uma inclinação na criatura, não apenas para a adoração de um senhor e soberano, mas para a complacência em alguém como amigo, para amar e deleitar-se com alguém com quem se pode conversar como companheiro. E a virtude e a santidade não destroem nem enfraquecem esta inclinação da nossa natureza. Mas Deus planejou dessa forma no caso da nossa redenção, que uma pessoa divina pode ser o preciso objeto dessa inclinação de nossa natureza. E, para isso, tal pessoa desceu até nós, tomou nossa natureza, se tornou um de nós e chama a si mesmo de nosso amigo, irmão e companheiro. Salmos 122.8: “Por amor dos meus irmãos e amigos, eu peço: haja paz em ti”.

Contudo, não é suficiente convidar e encorajar [você] ao livre acesso a um amigo tão grande e sublime, que ele é de infinita graça condescendente, e também tomou tua própria natureza e se tornou homem? Porém, para te encorajar e cativar, você desejaria que ele fosse um homem de maravilhosa mansidão e humildade? Porquê essa pessoa é Cristo! Ele não apenas se tornou homem em teu favor, mas de longe o mais manso e humilde de todos os homens, o maior exemplo dessas doces virtudes que já existiu ou existirá. E além destas, ele tem todas as outras excelências humanas na mais alta perfeição. Estas, de fato, não são um acréscimo adequado às suas excelências divinas. Cristo não tem mais excelência em sua pessoa desde sua encarnação do que tinha antes; pois a excelência divina é infinita e nada pode ser adicionado a ela. Todavia, suas excelências humanas são manifestações adicionais de sua glória e excelência a nós, e são recomendações adicionais dele à nossa estima e amor, que são de extensão finita. Embora suas excelências humanas sejam apenas comunicações e reflexos de sua divindade. E embora essa luz, conforme refletida, fique infinitamente aquém da fonte de luz divina em sua glória imediata; no entanto, o reflexo não brilha sem suas próprias vantagens, como apresentado à nossa visão e afeição. À medida que a glória de Cristo aparece nas qualificações de sua natureza humana, ela se mostra a nós em excelências que são de nossa própria espécie, e são exercidas a nosso próprio modo e costume, e, assim, em alguns aspectos, são particularmente adequadas para convidar nosso entendimento e atrair nossa afeição. A glória de Cristo, como se apresenta em sua divindade, embora seja muito mais brilhante, também fascina mais nossos olhos e excede a força ou a compreensão de nossa visão; mas quando brilha nas excelências humanas de Cristo, é trazida mais ao nível de nossas concepções e adequação à nossa natureza e costume; mantendo, no entanto, uma aparência da mesma beleza divina e um sabor da mesma doçura divina. Contudo, visto que as excelências divinas e humanas se encontram em Cristo, elas destacam e recomendam umas às outras a nós. Isto é o que tende a tornar valiosas para nós a divina e infinita majestade e santidade de Cristo, que são atributos de uma pessoa que vive com nossa natureza, que é um de nós, que se tornou nosso irmão, e é o mais manso e humilde dos homens. Isto nos encoraja a olhar para essas perfeições divinas, por mais sublimes e excelentes que sejam, como algo com que temos algum interesse familiar, e mais como um direito e liberdade para desfrutar livremente. E, por outro lado, quão mais gloriosas e surpreendentes a mansidão, a humildade, a obediência, a resignação e outras excelências humanas de Cristo se tornam visíveis, quando consideramos que estão e uma pessoa tão excelente como o eterno Filho de Deus, o Senhor do céu e da terra!

Ao escolher a Cristo como teu amigo e porção você obterá esses dois benefícios infinitos.

Primeiro. Cristo dará a si mesmo a você, com todas as várias excelências que se encontram nele, para teu gozo pleno e eterno. Ele sempre tratará você como seu amado amigo; e em breve você estará onde ele está, verá a sua glória e habitará com ele na mais livre e íntima comunhão e gozo.

Quando os santos chegarem ao céu, eles não apenas verão a Cristo e terão que lidar com ele como súditos e servos de um glorioso e gracioso senhor e soberano, mas Cristo os receberá como amigos e irmãos. Isso podemos aprender a partir do modo como Cristo conversou com seus discípulos aqui na terra. Embora ele fosse seu senhor soberano e não recusasse, mas exigisse seu supremo respeito e adoração, ele não os tratou como os soberanos terrenos costumam fazer a seus súditos. Ele não os manteve a uma terrível distância, mas conversava com eles o tempo todo com a mais amigável familiaridade; como um pai entre um grupo de filhos; sim, como com irmãos. Ele agiu assim com os doze, e com Maria, Marta e Lázaro. Ele disse a seus discípulos que não os chamava de servos, mas de amigos. E lemos sobre um deles que se deitou em seu seio.[7]7 E, sem dúvida, ele não tratará seus discípulos com menos liberdade e carinho no céu. Ele não os manterá a uma distância maior por estar em estado de exaltação, mas ele os levará a um estado de exaltação com ele. Este será o aperfeiçoamento que Cristo fará de sua própria glória, tornar seus amados amigos participantes com ele, glorificá-los em sua glória. Como ele disse a seu Pai, João 17.22-23: “Eu lhes tenho transmitido a glória que tens dado, para que sejam um, como nós o somos; eu neles”, etc. Devemos considerar que, embora Cristo seja grandemente exaltado, ele não é exaltado como uma pessoa individual, apenas em prol de si mesmo, mas como cabeça de seu povo. Ele é exaltado em seu nome e por causa deles, como as primícias e como representando toda a colheita. Ele não é exaltado para estar a uma distância maior deles, mas para que eles sejam exaltados com ele. A exaltação e honra da cabeça não é produzir uma distância maior entre a cabeça e os membros, mas para que os membros tenham a mesma relação e união com a cabeça que tinham antes, e sejam honrados com a cabeça. E, em vez de a distância ser maior, a união será mais próxima e mais perfeita. Quando os crentes chegarem ao céu, Cristo os conformará a si mesmo; Visto que ele está assentado no trono de seu Pai, igualmente eles se assentarão com ele em seu trono, e serão feitos à sua medida como ele.

Quando Cristo estava indo para o céu, ele confortou seus discípulos com isso, que, depois de um tempo, ele viria novamente e os levaria para si, para que pudessem estar com ele novamente. E não devemos supor que, quando os discípulos chegaram ao céu, o encontraram mantendo uma distância maior do que costumava fazer. Não, sem dúvida, ele os abraçou como amigos e os acolheu na sua casa, e deles, na casa do Pai, e na sua glória, e deles. Aqueles que foram seus amigos neste mundo, que estiveram juntos com ele aqui, e juntos participaram de tristezas e sofrimentos, agora, são recebidos por ele para descansar e participar da glória com ele. Ele os tomou e os levou para seus aposentos, e mostrou-lhes toda a sua glória; como ele orou, João 17.24: "Pai, a minha vontade é que onde eu estou, estejam também comigo os que me deste, para que vejam a minha glória que me conferiste." E ele os conduziu às suas fontes das águas da vida, os fez participar de suas delícias; como ele orou, João 17.13: “Para que eles tenham o meu gozo completo em si mesmos”. E os pôs com ele à sua mesa, no seu reino, e os fez participar com ele das suas iguarias, conforme a sua promessa (Lucas 22.30). E os conduziu à sua casa de banquetes, e os fez beber vinho novo com ele no reino de seu Pai celestial; como ele predisse quando instituiu a Ceia do Senhor (Mateus 26.29).

Sim, a conversa dos santos com Cristo no céu não será apenas tão íntima, e seu acesso a ele tão livre, como dos discípulos na terra, mas, em muitos aspectos, muito mais. Pois, no céu, essa união vital será perfeita, o que é extremamente imperfeita aqui. Enquanto os santos estão neste mundo, há grandes resquícios de pecado e trevas para separá-los ou desuni-los de Cristo; os quais, então, serão todos removidos. Este não é o tempo para esse conhecimento completo e para aquelas gloriosas manifestações de amor que Cristo tem em vista para seu povo no futuro; que parece ser o indicado pelo discurso de Cristo a Maria Madalena, quando prepara-se para abraçá-lo, quando ela o encontrou após sua ressurreição; conforme João 20.17: “Recomendou-lhe Jesus: Não me detenhas; porque ainda não subi para meu Pai”.

Quando os santos virem a glória e a exaltação de Cristo no céu, isto, de fato, se apoderará de seus corações com maior admiração e apreço adorador, mas não os intimidará a qualquer separação, antes, servirá apenas para aumentar sua surpresa e alegria quando encontrarem Cristo condescendendo em admiti-los a um acesso tão íntimo, e comunicando-se tão livre e totalmente com eles.

De modo que, se escolhermos a Cristo como nosso amigo e porção, seremos, a partir de agora, tão recebidos por ele que não haverá nada que impeça o pleno gozo dele, para a satisfação dos maiores anseios de nossas almas. Podemos dar o nosso máximo para satisfazer nosso apetite espiritual por esses prazeres santos. Cristo dirá então, como em Cântico dos cânticos 5.1: “Comei e bebei, amigos; bebei fartamente, ó amados”.[8] E isso será nosso acolhimento por toda a eternidade! Nunca haverá qualquer fim a esta felicidade, ou qualquer coisa para interromper nosso gozo dela, ou para nos molestar no mínimo nela!

Segundo. Por estar unido a Cristo, você terá uma união mais gloriosa com o Deus Pai e gozo nele do que poderia existir de outra forma. Pois a relação dos santos com Deus se torna muito mais próxima por este meio; eles são filhos de Deus de uma maneira mais elevada do que poderia ser de outra forma. Por serem membros do próprio Filho natural de Deus, são, de certa forma, participantes de sua relação com o Pai; não são apenas filhos de Deus por regeneração, mas mediante uma forma de comunhão na filiação do Filho eterno. Essa parece ser a intenção em Gálatas 4.4-6: “Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para resgatar os que estavam sob a lei, a fim de que recebêssemos a adoção de filhos. E, porque sois filhos, enviou Deus ao nosso coração o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai”. A igreja é filha de Deus, não apenas porque ele a gerou por sua Palavra e Espírito, mas porque ela é a esposa de seu Filho eterno.

Igualmente, sendo membros do Filho, somos participantes, em nossa medida, do amor do Pai para com o Filho e da complacência nele. João 17.23, “Eu neles, e tu em mim... tu me enviaste e os amaste, como amaste a mim.” E João 17.26: "A fim de que o amor com que me amaste esteja neles.” E João 16.27: “Porque o próprio Pai vos ama, visto que me tendes amado e tendes crido que eu vim da parte de Deus.” Assim, seremos, de acordo com nossas capacidades, participantes do gozo do Filho em Deus, e teremos sua alegria cumprida em nós (João 17.13). E, por este meio, chegaremos a um gozo imensamente superior, mais íntimo e pleno de Deus do que poderia ter sido de outra forma. Pois há, sem dúvida, uma intimidade infinita entre o Pai e o Filho, a qual é expressa por ele estar no seio do Pai. E, os santos estando nele, em sua medida e a seu modo, participarão com ele nessa intimidade e da sua bem-aventurança.

E assim é ordenado a questão da nossa redenção, que sejamos levados desse modo a um tipo imensamente mais exaltado de união com Deus e de gozo dele, tanto com o Pai quanto com o Filho, do que poderia ter sido de outra forma. Por Cristo estar unido à natureza humana, temos a vantagem de um gozo mais livre e completo dele do que poderíamos ter se ele tivesse permanecido apenas na natureza divina. Dessa forma, novamente, estando unidos a uma pessoa divina, como seus membros, podemos ter uma união e um relacionamento mais íntimos com o Deus Pai, o qual existe apenas na natureza divina, do que poderíamos ter. Cristo, que é uma pessoa divina, ao assumir a nossa natureza, desce da distância e altura infinitas acima de nós e é trazido para perto de nós; por meio do que temos a vantagem do pleno gozo dele. E, por outro lado, nós, estando em Cristo, uma pessoa divina, como que ascendemos a Deus através da distância infinita, e temos aqui a vantagem do pleno gozo dele também.

Este foi o propósito de Cristo, fazer acontecer que ele, seu Pai e seu povo estivessem todos unidos em um. João 17.21-23: “a fim de que todos sejam um; e como tu és, ó Pai, em mim e eu em ti, também eles sejam em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste. Eu lhes tenho transmitido a glória que me deste, para que sejam um, como nós o somos; eu neles, e tu em mim, a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade”. Cristo fez acontecer que aqueles que o Pai lhe deu fossem conduzidos à casa de Deus; que ele, seu Pai e seu povo fossem, por assim dizer, uma sociedade, uma família; que a igreja fosse, por assim dizer, admitida na sociedade da bendita Trindade.

 

Extraído de WJE; Vol. 19; p. 561-595; org. Ed M. X. Lesser

Disponível em: edwards.yale.edu; JE Center; Yale University.

Tradução: Paulo Arantes



[1] Uma terceira entrelinha (L. 8v.) é um fragmento de Faithful Narrative (Uma narrativa fiel): “Em um sermão que preguei mais tarde a partir daquelas palavras em Mateus 5.15 (14), ‘Não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte”, informei a congregação de que a recente obra notável de Deus nesta cidade e em geral.” JE confunde a citação aqui, mas inclui o texto (sem ela) e seu comentário (levemente alterado) tanto no resumo de Benjamin Colman de sua carta de 6 de novembro de 1736 sobre as surpreendentes conversões e na primeira edição da versão expandida; veia Works, 4, 127 e 210.

[2] Publicado como intitulado nos Five Discourses (Cinco Discursos), p. 244-86. Veja também palestra JE de Boston sobre Cântico dos cânticos 1.3 (1733), que trata do mesmo tópico; MS na Beinecke Library, Yale.

[3] [JE cita Mateus, mas a referência está em Lucas.]

[4] [JE relata Marcos 5.8-13.]

[5] [Juízes 16.23-30 é a fonte da narrativa.]

[6] [Veja um sermão sem data de JE sobre esse texto (No. 118, c. 1729), MS na Beinecke Library, Yale.]

[7] [Isto é, o apóstolo João; ver João 13.23.]

[8] [Veja o sermão sem data de JE sobre este texto (No. 117, c. 1729), MS na Beinecke Library, Yale.]