Frase da Semana

Assim, tudo é de Deus, está em Deus e existe para Deus; ele é o começo, o meio e o fim.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

A importância e a vantagem de um conhecimento da verdade divina

    Estamos em novembro de 1739. Nos últimos dois anos, Edwards proferiu alguns de seus sermões mais ambiciosos, incluindo seu discurso sobre as virgens prudentes e insensatas, a série sobre 1 Coríntios 13, posteriormente impressa como Charity and Its Fruits (A Caridade e seus frutos), e, no início de 1739, a série sobre Isaías 51.8, também conhecida como A History of the Work of Redemption (Uma História da Obra de Redenção). De muitas maneiras, Edwards ultrapassou seu ápice como pregador. No entanto, os acontecimentos no horizonte o fizeram produzir alguns dos seus maiores sermões – não as performances longas e complexas que imitavam o melhor da sua tradição intelectual puritana, mas uma nova forma de discurso experimental temperado na fornalha de um novo avivamento.

    O Christian Knowledge (Conhecimento Cristão) antecipa o novo modo de pregação.1 Nele, Edwards leva seus paroquianos de volta ao que significa ser cristão e a como viver uma vida cristã. Apesar de todo o esforço que Edwards tinha colocado em sua pregação, aparentemente ele descobriu, para sua decepção, que seus paroquianos ignoravam o básico – uma situação que repercutiu negativamente tanto no ministro como na congregação. Com desafios à ortodoxia reformada por todo lado, nas formas de arminianismo, deísmo e outros “esquemas da moda”, era vital que a população de Northampton estivesse bem armada com a verdade histórica, para que pudesse repelir a invasão heterodoxa. Pode muito bem ser, também, que Edwards tenha ouvido e lido sobre rumores de avivamento vindos de longe (veja God’s Grace Carried On in Other Places – A Graça de Deus Exercida em Outros Lugares), e estivesse tentando lançar os fundamentos para um novo avivamento entre seu próprio povo. Na verdade, desde a primavera de 1739, Edwards vinha detectando uma “visível alteração”, especialmente entre os jovens.2

    A admoestação de Paulo aos hebreus cristãos ajustava-se apropriadamente ao caso de Northampton. Ambos tinham “falta de proficiência” no conhecimento dos ensinos cristãos. Como Paulo, Edwards não está falando de conhecimento teológico ou experimental, mas de conhecimento doutrinário, o qual pode “ser recebido mediante o ensino humano”. Assim, quando deveriam ser capazes de digerir “alimento sólido”, seus ouvintes ainda eram bebês que necessitavam de leite.

Na Doutrina, Edwards caminha progressivamente através de quatro proposições. Ele começa definindo “teologia” como aquilo que diz respeito às grandes coisas da religião e, mais especificamente, “a doutrina de viver para Deus por meio de Cristo”. Dada esta definição, que tipo de conhecimento deve ser procurado antes de tudo? Onde o cristão começa? Edwards identifica o conhecimento especulativo ou intelectual, e o conhecimento prático, que reside em um senso do coração. Ele instrui seus ouvintes a buscarem o primeiro a fim de obterem o último. Em vez de serem excludentes um do outro, os dois estão integralmente conectados. O conhecimento especulativo é o alicerce essencial porque, sem ele, os meios da graça, incluindo a pregação, são em vão. Ambos exigem um certo capital de conhecimento no recebedor para serem eficazes. Finalmente, os cristãos deveriam se esforçar por crescer neste tipo de conhecimento; eles deveriam, como diz Edwards, “fazer disso uma ocupação”. Deus deu à humanidade a faculdade de compreensão para esse fim. As coisas da teologia são, em si mesmas, “coisas de excelência superlativa” e, portanto, dignas de serem buscadas. Como tais, são de infinito interesse para o cristão. Mais ainda, Deus nos deixou um guia na forma de sua Palavra revelada, e designou ministros para ensinar o que está escrito ali.

    A aplicação está repleta de conselhos práticos. Edwards começa dizendo ao seu povo para não se contentar com uma quantidade nominal de conhecimento: “o seu catecismo” e “tanto do princípio da religião quanto for necessário para a salvação”. Em vez disso, procurar sobressair no conhecimento da teologia. Como frequentemente é sua estratégia, Edwards aplica sua mensagem às pessoas de diversas faixas etárias. Ele começa com os jovens. Em vez de “andar de lá para cá, de casa em casa” nas “longas noites de inverno”, para se envolver em conversas vazias, os jovens deveriam procurar edificarem-se uns aos outros e expandirem o conhecimento uns dos outros.3 A obsessão de Edwards com a conversa regular se tornará um tema comum em seus sermões do Grande Avivamento. Porém ele também não poupa os idosos. Sua crítica a eles é que falam demasiado sobre assuntos mundanos, acontecimentos públicos e discórdias. Eles também se beneficiariam com a busca séria do conhecimento cristão como forma de afastá-los do mundo. Se todos apenas buscassem tal conhecimento, descobririam que é um caminho “nobre”, “agradável” e “útil”. Ele conclui com uma lista de orientações práticas sobre como adquirir conhecimento, incluindo a leitura e o exame das Escrituras e de outros bons livros, evitando conversas vãs e buscando benefícios espirituais.

Não foi localizado nenhum manuscrito. O texto foi impresso pela primeira vez na edição Dwight., 6, 125–83, sob o título “Conhecimento Cristão” (Conhecimento Cristão), e depois na Worcester, edição revisada, 4, 1–15. Ao ser examinado, o texto da Worcester mostra mais marcas da composição de Edwards, incluindo uma declaração formal da doutrina e uma lista das proposições numeradas, bem como um maior número de frases que começam com “E”. Além disso, Dwight omite frases que identificam a ocasião do sermão, como uma referência “a esta audiência” e as declarações direcionais de Edwards, “O Uso que eu faria desta doutrina” e “Agora concluirei meu discurso”. Além disso, a tradução de “coisas da teologia”, na edição Worcester, soa mais verdadeira do que as “verdades divinas” de Dwight, “doutrinado” mais do que “instruído” de Dwight, “agradavelmente” mais do que “agradável” e “subsistencies” (subsistências) mais do que “subsistences” (existências). E, finalmente, o texto da Worcester contém frases cunhadas como “by-business” (por ocupação) e arcaísmos como “go a warfare” (vá para uma guerra), que o texto de Dwight não contém. Por estas razões, o texto da Worcester parece basear-se numa transcrição separada e mais precisa do manuscrito, e, por isso, é usado aqui.

1 JE esboçou os pontos principais do sermão no Sermon Notebook (Caderno de Sermões) “14”, no. [164], pág. 58.

2 Carta para Thomas Prince, 12 de dezembro de 1743, em Works, 4, 545.

3 Na carta a Prince, ibid., JE menciona que, a partir da primavera de 1739, “havia mais seriedade e conversação religiosa, especialmente entre os jovens”.


A importância e a vantagem de um conhecimento profundo da verdade divina

“Pois, com efeito, quando devíeis ser mestres, atendendo ao tempo decorrido, tendes, novamente, necessidade de alguém que vos ensine, de novo, quais são os princípios elementares dos oráculos de Deus; assim, vos tornastes como necessitados de leite e não de alimento sólido.” (Hebreus 5.12)

    Estas palavras são uma queixa, a qual o apóstolo faz acerca de uma certa falha nos hebreus cristãos a quem escreveu. Na qual podemos observar:

    1. A falha da qual se queixa, a saber, a falta de uma certa proficiência no conhecimento das doutrinas e mistérios da religião, como poderia ser esperado deles. O apóstolo se queixa deles por não terem feito aquele progresso no conhecimento das coisas da teologia, ou das coisas ensinadas nos oráculos de Deus, que deveriam ter feito. E ele pretende reprová-los, não apenas por sua deficiência no conhecimento espiritual e experimental das coisas divinas, mas por sua deficiência no conhecimento doutrinário dos princípios da religião e das verdades da teologia cristã; como é evidente mediante várias coisas.

    Torna-se evidente pela maneira como o apóstolo introduz esta queixa ou reprovação. A ocasião de sua introdução é esta: no versículo 10, ele menciona o fato de Cristo ser sumo sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque: “Tendo sido nomeado por Deus sumo sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque”. O apóstolo desejava chamar a atenção dos hebreus cristãos para este Melquisedeque, sendo apresentado como um tipo eminente de Cristo no Antigo Testamento, que eram os oráculos de Deus, e para o relato que temos de Melquisedeque contendo muitos mistérios do evangelho. Porém ele percebeu que, devido à sua fraqueza no conhecimento e pouco entendimento de mistérios dessa natureza, eles não o compreenderiam; e, portanto, para, por ora, de dizer qualquer coisa sobre Melquisedeque. Assim, em Hebreus 5.11, “A esse respeito temos muitas coisas que dizer e difíceis de explicar, porquanto vos tendes tornado tardios em ouvir”; ou seja, “Há muitas coisas a respeito de Melquisedeque, as quais contêm maravilhosos mistérios do evangelho, e que eu gostaria de trazer ao conhecimento de vocês, se não tivesse medo de que, devido à sua surdez e lentidão na compreensão dessas coisas, vocês ficariam apenas embaraçados e confusos com meu discurso, e assim não receberiam nenhum benefício; e isto seria muito difícil para vocês, como uma carne muito pesada.”

    Em seguida, vêm as palavras do texto: “Pois, com efeito, quando deveis ser mestres, atendendo ao tempo decorrido, tendes, novamente, necessidade de alguém que vos ensine, de novo, quais são os princípios elementares dos oráculos de Deus; assim, vos tornastes como necessitados de leite e não de alimento sólido.” É como dizer: “Na verdade, poderia ter sido esperado que vocês conhecessem o suficiente sobre a teologia e as Sagradas Escrituras, para serem capazes de compreender e digerir tais mistérios, mas não é assim com vocês.”

    Novamente, o apóstolo fala de sua proficiência neste conhecimento como é transmitido e recebido pelo ensino humano; como é evidente mediante essa expressão: “quando deveis ser mestres, atendendo ao tempo decorrido”; o que inclui não apenas um conhecimento prático e experimental, mas também conhecimento doutrinário das verdades e dos mistérios da religião.

    Outra vez, o apóstolo fala deste conhecimento, por meio do qual os cristãos são capazes de digerir alimento sólido; isto é, compreender aquelas coisas da teologia que são mais obscuras e difíceis de serem compreendidas, e que requerem grande habilidade em coisas desta natureza. Isto é expresso mais plenamente nos dois versículos seguintes: “Ora, todo aquele que se alimenta de leite é inexperiente na palavra da justiça, porque é criança. Mas o alimento sólido é para os adultos, para aqueles que, pela prática, têm as suas faculdades exercitadas para discernir não somente o bem, mas também o mal.”

    De novo, é um conhecimento tal que a proficiência nele levará as pessoas além dos princípios elementares da religião. Como aqui: “tendes, novamente, necessidade de alguém que vos ensine, de novo, quais são os princípios elementares dos oráculos de Deus”. Por esta razão, o apóstolo, no início do próximo capítulo, os aconselha a “Por isso, pondo de parte os princípios elementares da doutrina de Cristo, deixemo-nos levar para o que é perfeito”.

    2. Podemos observar em que se torna evidente o erro desta falha, a saber, em que eles não adquiriram proficiência de acordo com seu tempo. Em virtude do tempo, eles deveriam ter sido mestres. Visto que eram cristãos, a sua ocupação era aprender e adquirir conhecimento cristão. Eles eram estudantes na escola de Cristo; e, se tivessem aproveitado seu tempo de aprendizagem, como deveriam ter feito, poderiam, na época em que o apóstolo escreveu, estar aptos para serem mestres nesta escola. Qualquer que seja a ocupação à qual alguém se dedique, pode-se esperar que sua perfeição nela seja correspondente ao tempo que ele teve para aprender e se aperfeiçoar. Os cristãos não devem permanecer sempre crianças, mas devem crescer no conhecimento cristão; e deixando o alimento dos bebês, que é o leite, devem aprender a digerir alimento sólido.


Doutrina.

Todo cristão deve se esforçar para crescer no conhecimento da teologia.

    Esta é, de fato, considerada a ocupação de teólogos e ministros; geralmente se pensa que é seu trabalho, por meio do estudo das Escrituras e de outros livros instrutivos, obter conhecimento; e a maioria parece pensar que isso pode ser deixado para eles, como algo que não pertence a outros. Porém, se o apóstolo nutrisse essa noção, ele nunca teria culpado os hebreus cristãos por não terem adquirido conhecimento suficiente para serem mestres; ou, se ele tivesse pensado que isso dizia respeito aos cristãos em geral apenas como uma coisa secundária, e que seu tempo não devesse, em uma medida considerável, se envolver com essa atividade, ele nunca os teria culpado tanto de que sua proficiência no conhecimento não correspondia ao tempo que eles tiveram para aprender.

Ao tratar deste assunto, mostrarei:

I. O que é teologia.

II. Que tipo de conhecimento de teologia é pretendido na doutrina.

III. Porque é necessário o conhecimento da teologia.

IV. Porque todos os cristãos deveriam se esforçar para crescer neste conhecimento.


I. Mostrarei, de forma muito breve, o que é teologia.

    Várias definições têm sido dadas por aqueles que trataram do assunto. Não me deterei para investigar agora qual é, de acordo com as regras da ciência, a definição mais precisa; mas a definirei ou a descreverei, pois penso que tem a maior tendência de transmitir uma noção dela a este auditório.

    Por teologia entende-se aquela ciência ou doutrina que compreende todas as verdades e regras que dizem respeito ao grande assunto da religião. Existem vários tipos de artes e ciências ensinadas e aprendidas nas escolas, as quais tratam de vários objetos; sobre as obras da natureza em geral, como a filosofia; ou os céus visíveis, como a astronomia; ou o mar, como a navegação; ou a terra, como a geografia; ou o corpo do homem, como a medicina e a anatomia; ou a alma do homem, no que diz respeito aos seus poderes e qualidades naturais, como a lógica e a pneumatologia; ou sobre o governo humano, como a política e a jurisprudência. Porém existe uma ciência, ou um certo tipo de conhecimento e doutrina, que está acima de todo o restante, visto que diz respeito a Deus e ao grande assunto da religião: esta é a teologia; a qual não é aprendida, como outras ciências, meramente pelo aperfeiçoamento da razão natural do homem, mas é ensinada pelo próprio Deus em certo livro que ele deu para esse fim, cheio de instrução. Esta é a regra que Deus deu ao mundo para ser seu guia na busca por esse tipo de conhecimento, e é um resumo de todas as coisas desta natureza que precisamos conhecer. Por esse motivo, a teologia é melhor chamada de doutrina do que de arte ou de ciência.

    Na verdade, existe o que é chamado de religião ou teologia natural. Existem muitas verdades a respeito de Deus e de nosso dever para com ele que são evidentes mediante a luz da natureza. Porém a teologia cristã, propriamente dita, não é evidente mediante a luz da natureza; ela depende de revelação. São tais as nossas circunstâncias agora, em nosso estado decaído, que nada que é necessário sabermos a respeito de Deus é manifestado mediante a luz da natureza da maneira pela qual é necessário que o conheçamos. Pois o conhecimento da verdade na teologia não tem qualquer importância para nós, a não ser porquê de uma forma ou de outra pertença ao esquema do evangelho, ou visto que diz respeito a um Mediador. Contudo, a luz da natureza não nos ensina nenhuma verdade da teologia desta maneira. Portanto, não pode ser dito que chegamos ao conhecimento de qualquer parte da teologia cristã mediante a luz da natureza. A luz da natureza não ensina a verdade como ela é em Jesus. É apenas a Palavra de Deus, contida no Antigo e no Novo Testamentos, que nos ensina a teologia cristã.

    A teologia compreende tudo o que é ensinado nas Escrituras e, portanto, tudo o que precisamos saber, ou devemos saber, a respeito de Deus e de Jesus Cristo, a respeito de nosso dever para com Deus e de nossa felicidade em Deus. A teologia é comumente definida como a doutrina de viver para Deus; e, por alguns que parecem ser mais precisos, a doutrina de viver para Deus por meio de Cristo. Ela compreende todas as doutrinas cristãs tal como são em Jesus, e todas as regras cristãs que nos orientam no viver para Deus por meio de Cristo. Não há nada na teologia, nenhuma doutrina, nenhuma promessa, nenhuma regra, exceto o que de uma forma ou de outra diz respeito à vida cristã e divina, ou ao nosso viver para Deus por meio de Cristo. Todas essas coisas (doutrina, promessa e regra) dizem respeito a isso em dois aspectos, a saber, porque tendem a promover nosso viver para Deus aqui neste mundo, em uma vida de fé e santidade, e também porque tendem a nos levar a uma vida de perfeita santidade e felicidade, no pleno gozo de Deus no futuro. Mas apresso-me à

II. [Segunda] coisa proposta, a saber, mostrar que tipo de conhecimento de teologia é pretendido na doutrina.

Aqui eu gostaria de observar,

    Primeiro. Que existem dois tipos de conhecimento das coisas da teologia, a saber, o especulativo e o prático, ou, em outras palavras, o natural e o espiritual. O primeiro fica apenas na cabeça. Nenhuma outra faculdade além do entendimento está envolvida nele. Consiste em ter um conhecimento natural ou racional das coisas da religião, ou um certo conhecimento que pode ser obtido pelo exercício natural de nossas próprias faculdades, sem qualquer iluminação especial do Espírito de Deus. O último não reside inteiramente na cabeça ou nas ideias especulativas das coisas, mas o coração está envolvido nele; consiste principalmente no senso do coração. O mero intelecto, sem o coração, a vontade ou a inclinação, não é a sua sede. E não pode ser chamado apenas de ver, mas de sentir ou de saborear. Portanto, há uma diferença entre ter uma noção especulativa correta das doutrinas contidas na Palavra de Deus e ter o devido senso delas no coração. A primeira consiste no conhecimento especulativo ou natural das coisas da teologia; o último consiste no conhecimento espiritual ou prático delas.

    Segundo. Nenhum destes é pretendido na doutrina excluindo-se o outro, mas pretende-se que devemos procurar o primeiro em prol do último. O último, igualmente um conhecimento espiritual e prático da teologia, é da maior importância; pois um conhecimento especulativo dela, sem um conhecimento espiritual, é em vão e sem propósito, a não ser para tornar nossa condenação ainda maior. No entanto, um conhecimento especulativo também é de infinita importância neste aspecto, pois sem ele não podemos ter conhecimento espiritual ou prático; como pode ser mostrado de passagem.

    Já mostrei que o apóstolo fala não apenas de um conhecimento espiritual, mas de um conhecimento que pode ser adquirido e comunicado de um para outro. No entanto, não se deve pensar que ele se refere exclusivamente ao outro. Mas ele gostaria que os hebreus cristãos buscassem um em prol do outro. Portanto, o primeiro é o primeiro e mais diretamente pretendido; pretende-se que os cristãos, por meio da leitura e de outros meios adequados, busquem um bom conhecimento racional das coisas da teologia. O último é pretendido de forma mais indireta, uma vez que deve ser procurado por meio do outro como seu fim. Mas eu prossigo para a

III. [Terceira] coisa proposta, a saber, mostrar a utilidade e a necessidade do conhecimento de teologia.

    Primeira. Não há outra maneira pela qual qualquer meio de graça possa trazer algum benefício a não ser mediante o conhecimento. Todo ensino é em vão sem aprendizado. Portanto, a pregação do evangelho seria totalmente inútil se não transmitisse conhecimento à mente. Há uma categoria de homens que Cristo designou propositalmente para serem mestres em sua igreja. Eles devem ensinar as coisas da teologia. Porém eles ensinam em vão se nenhum conhecimento destas coisas for adquirido mediante seu ensino. É impossível que seu ensino e pregação sejam um meio de graça, ou de qualquer bem no coração de seus ouvintes, de outra forma que não seja mediante o conhecimento transmitido ao entendimento. Caso contrário, seria igualmente benéfico para o auditório se o ministro pregasse em alguma língua desconhecida. A diferença é que a pregação numa língua conhecida transmite algo ao entendimento, o que a pregação numa língua desconhecida não transmite. Por esse motivo tal pregação deve ser inútil. Os homens nada recebem, em coisas como estas, quando nada entendem; e não são edificados afinal, a menos que algum conhecimento seja transmitido; de acordo com o argumento do apóstolo em 1 Coríntios 14.2-6.

    Nenhum discurso pode ser um meio de graça a não ser por meio da transmissão de conhecimento. Caso contrário, o discurso é desperdiçado, como se não houvesse nenhum homem ali, e aquele que falou tivesse falado apenas para o ar; como se conclui na passagem que acabamos de citar, 1 Coríntios 14.6-10. Aquele que não entende não pode receber fé, nem qualquer outra graça, pois Deus lida com o homem como uma criatura racional; e quando a fé está em exercício, não se trata de algo que ele não conhece. Portanto, o ouvir é absolutamente necessário à fé, porque o ouvir é necessário ao entendimento, Romanos 10.14. “E como crerão naquele de quem nada ouviram?”

    Igualmente não pode haver amor sem conhecimento. Não está de acordo com a natureza da alma humana amar um objeto que é totalmente desconhecido. O coração não pode fixar-se num objeto do qual não há ideia no entendimento. As razões que induzem a alma ao amor devem ser primeiro compreendidas, antes que possam exercer uma influência racional sobre o coração.

    Deus nos deu a Bíblia, que é um livro de instruções. Porém este livro não pode nos trazer qualquer benefício a não ser que transmita algum conhecimento à mente; ela não pode nos beneficiar mais do que se fosse escrita na língua chinesa ou tártara, das quais não conhecemos uma palavra.

    Da mesma maneira os sacramentos do evangelho não podem ter um efeito adequado de outra maneira senão ao transmitir algum conhecimento. Eles representam certas coisas por meio de sinais visíveis. E qual é a finalidade dos sinais senão transmitir algum conhecimento das coisas significadas? Tal é a natureza do homem que nada pode chegar ao coração senão através da porta do entendimento; e não pode haver conhecimento espiritual daquilo sobre o que não haja primeiro um conhecimento racional. É impossível que alguém veja a verdade ou a excelência de qualquer doutrina do evangelho sem saber o que é essa doutrina. Um homem não pode ver a maravilhosa excelência e amor de Cristo, em fazer tais e tais coisas pelos pecadores, a menos que seu entendimento seja primeiro informado de como essas coisas foram feitas. Ele não pode provar a doçura e a excelência divina de tais e tais coisas contidas na teologia a menos que primeiro tenha uma noção de que existem tais e tais coisas.

    Segunda. Sem conhecimento da teologia ninguém seria diferente dos pagãos mais ignorantes e bárbaros. Os pagãos permanecem em densas trevas pagãs porque não são instruídos e não obtiveram o conhecimento das verdades da teologia. Portanto, se vivermos sob a pregação do evangelho, isso nos fará diferir deles apenas por nos transmitir mais conhecimento das coisas da teologia.

    Terceira. Se os homens não tiverem conhecimento destas coisas a faculdade de raciocinar será totalmente inútil neles. As faculdades da razão e da compreensão foram dadas para a compreensão e o conhecimento reais. Se um homem não tiver conhecimento real, a faculdade ou a capacidade de conhecer não será útil para ele. E se ele tiver conhecimento real, se for, todavia, destituído do conhecimento daquelas coisas que são o fim último de seu ser, e por causa do conhecimento das quais ele recebeu mais entendimento do que os animais, então, ainda assim, sua faculdade da razão é inútil; ele poderia muito bem ter sido uma fera, como um homem com esse conhecimento. Porém as coisas da teologia são as coisas para se conhecer, [para] as quais nos foi dada a faculdade da razão. São as coisas que pertencem à finalidade do nosso ser e à grande ocupação para a qual fomos feitos. Portanto, um homem não pode ter sua faculdade de compreensão para qualquer propósito, algo mais do que possuir conhecimento das coisas da teologia.

    De modo que esse tipo de conhecimento é absolutamente necessário. Outros tipos de conhecimento podem ser muito úteis. Algumas outras ciências, como a astronomia, a filosofia natural e a geografia, podem ser excelentes em seu gênero. Porém o conhecimento desta ciência divina é infinitamente mais útil e importante do que o de todas as outras ciências.

IV. Chego agora à quarta e principal coisa proposta pela doutrina, a saber, apresentar as razões pelas quais todos os cristãos deveriam se esforçar para crescer no conhecimento da teologia. Isto implica em duas coisas.

    Primeira. Que os cristãos não devem se contentar com os graus de conhecimento da teologia que já obtiveram. Não deveria satisfazê-los o fato de que sabem tanto quanto é absolutamente necessário para a salvação, mas deveriam procurar fazer progresso.

    Segunda. Que este esforço para progredir em tal conhecimento não deve ser encarado como uma coisa secundária, mas todos os cristãos devem fazer disso uma ocupação; eles devem considerá-lo como parte de sua atividade diária, e não uma pequena parte dela. Deve ser encarado como uma parte considerável do trabalho da sua sublime vocação. A razão de ambas pode tornar-se óbvia nas seguintes coisas.

1. Nossa ocupação deveria, sem dúvida, consistir em empregar muito aquelas faculdades, pelas quais nos distinguimos dos animais, naquelas coisas que são o objetivo principal dessas faculdades. A razão pela qual nos foram dadas faculdades superiores às dos animais irracionais é que fomos realmente projetados para um empreendimento superior. Aquilo que o Criador pretendia que fosse o nosso principal empreendimento é algo acima do que ele pretendia que os animais fizessem e, por esta razão, nos deu poderes superiores. Portanto, sem dúvida, deveria ser uma parte considerável da nossa ocupação cultivar essas faculdades superiores. Porém a faculdade pela qual principalmente nos distinguimos dos animais irracionais é a faculdade do entendimento. Segue-se, então, que devemos ter como nossa principal ocupação cultivar esta faculdade, e de forma alguma devemos considerá-la uma ocupação secundária. Para nós, fazer do cultivo desta faculdade uma ocupação secundária é, na verdade, fazer da própria faculdade do entendimento uma faculdade secundária, se assim posso falar, uma faculdade de menor importância que outras, embora, na verdade, seja a faculdade mais sublime que temos.

    Contudo, não podemos fazer do cultivo da nossa faculdade intelectual uma ocupação, a não ser fazendo do aperfeiçoamento real de nós mesmos na compreensão e no conhecimento uma ocupação. Assim, aqueles que não fazem muito disso a sua ocupação, mas, em vez de cultivar a sua compreensão para adquirir conhecimento, dedicam-se principalmente às suas faculdades inferiores, a fim de prover meios de agradar aos seus sentidos e satisfazer os seus apetites animais; e assim preferem fazer do seu entendimento um servo dos seus poderes inferiores do que de seus poderes inferiores servos do seu entendimento; não apenas se comportam de maneira a não se tornarem cristãos, mas também agem como se tivessem esquecido que são homens, e que Deus os colocou acima dos animais irracionais ao dar-lhes entendimento.

    Deus deu ao homem algumas coisas em comum com os animais irracionais, como seus sentidos externos, seus apetites corporais, a capacidade de sentir prazer e dor corporais, e outras faculdades animais; e lhe deu algumas coisas superiores às dos animais, cuja principal é uma faculdade do entendimento e da razão. Ora, Deus nunca deu ao homem essas faculdades, pelas quais ele está acima dos animais, para estarem sujeitas àquelas que ele tem em comum com os animais. Isto seria uma grande confusão e equivalente a fazer do homem um servo dos animais. Pelo contrário, ele deu esses poderes inferiores para serem empregados em subserviência ao entendimento do homem; e, portanto, deve ser uma grande parte da ocupação principal do homem cultivar seu entendimento por meio da aquisição de conhecimento. Se assim for, então seguir-se-á que deve ser uma parte essencial da sua ocupação cultivar o seu entendimento na aquisição do conhecimento divino, ou o conhecimento das coisas da teologia; pois o conhecimento destas coisas é o fim principal desta faculdade. Deus deu ao homem a faculdade do entendimento, principalmente, para que ele pudesse compreender as coisas divinas.

    Os pagãos mais sábios4 tinham consciência de que a principal tarefa do homem era o aperfeiçoamento e o exercício do seu entendimento. Porém eles estavam nas trevas, pois não conheciam o objeto sobre o qual o entendimento deveria ser principalmente empregado. A ciência sobre a qual muitos deles pensavam que deveriam empregar principalmente o entendimento era a filosofia; e, consequentemente, eles fizeram da sua principal ocupação estudá-la. Porém nós que desfrutamos da luz do evangelho somos mais felizes, não ficamos, quanto a este particular, nas trevas. Deus nos disse sobre quais coisas devemos empregar principalmente nossos entendimentos, tendo-nos dado um livro cheio de instruções divinas, apresentando muitos objetos gloriosos sobre os quais todas as criaturas racionais deveriam empregar principalmente seus entendimentos. Estas instruções são adaptadas a pessoas de todas as capacidades e condições, e adequadas para serem estudadas, não apenas por homens instruídos, mas por pessoas de toda condição, instruídas e não instruídas, jovens e idosos, homens e mulheres. Portanto, a aquisição de conhecimento destas coisas deveria ser a principal ocupação de todos aqueles que têm a vantagem de desfrutar das Sagradas Escrituras.

2. As coisas da teologia são coisas de excelência superlativa e são dignas de que todos se esforcem para crescer no conhecimento delas. Não existem coisas tão dignas de serem conhecidas como essas. Elas estão tão acima das coisas tratadas em outras ciências quanto o céu está acima da terra. O próprio Deus, o eterno Três em Um, é o objeto principal desta ciência; em segundo lugar, Jesus Cristo, como Deus-homem e Mediador, e a gloriosa obra da redenção, a obra mais gloriosa que já foi realizada; depois, as grandes coisas do mundo celestial, a herança gloriosa e eterna comprada por Cristo e prometida no evangelho; a obra do Espírito Santo de Deus nos corações dos homens; nosso dever para com Deus e a maneira pela qual nós mesmos podemos nos tornar como anjos e como o próprio Deus em nossa medida; todas essas coisas são objetos desta ciência.

    Coisas como essas foram o principal assunto de estudo dos santos patriarcas, profetas e apóstolos, e dos homens mais excelentes que já existiram no mundo, e igualmente são o assunto de estudo dos anjos no céu, 1 Pedro 1.10-12.

    Essas coisas são tão excelentes e dignas de serem conhecidas, que o conhecimento delas recompensará ricamente todas as dores e labores de uma busca sincera por elas. Se houvesse um grande tesouro de ouro e pérolas escondido na terra, que fosse acidentalmente encontrado, e fosse aberto entre nós em tais circunstâncias que todos pudessem ter tanto quanto pudessem apanhar dele; não pensariam todos que valeria a pena se dedicar a apanhá-lo enquanto durasse? Porém este tesouro de conhecimento divino, o qual está contido nas Escrituras e é fornecido para que cada um colha para si o máximo que puder, é um tesouro muito mais rico que qualquer outro de ouro e pérolas. Quão ocupados estão todos os tipos de homens, em todo o mundo, em obter riquezas? Contudo, esse conhecimento é um tipo de riqueza muito melhor do que aquele que eles buscam com tanta diligência e laboriosidade.

3. As coisas da teologia não dizem respeito apenas aos ministros, mas são de infinita importância para todos os cristãos. Não acontece com as doutrinas da teologia como acontece com as doutrinas da filosofia e de outras ciências. Estas últimas são, geralmente, pontos especulativos, que pouco dizem respeito à vida humana; e altera muito pouco a situação quanto aos nossos interesses temporais ou espirituais, quer as conheçamos ou não. Os filósofos divergem sobre eles, sendo alguns de uma opinião e outros de outra. E enquanto eles estão envolvidos em discussões acaloradas sobre elas, outros podem muito bem deixá-los discutir entre si, sem se preocuparem muito com eles; sendo de pouca importância para eles se um ou outro está certo.

    Porém não é assim em questões de teologia. As doutrinas desta dizem respeito a quase todos. Elas tratam de coisas que dizem respeito à salvação e felicidade eternas de cada homem. As pessoas comuns não podem dizer: “Deixemos estes assuntos para ministros e teólogos; deixe-os discuti-los entre si o quanto puderem; eles não nos dizem respeito”, pois são de infinita importância para cada homem. Aquelas doutrinas que dizem respeito à essência, atributos e existências de Deus dizem respeito a todos; visto que é de infinita importância para as pessoas comuns, assim como para os ministros, saber que tipo de ser Deus é. Pois ele é o Ser que nos criou a todos, em quem "vivemos, e nos movemos, e existimos”; que é o Senhor de tudo; o Ser a quem todos devemos prestar contas; é o fim último do nosso ser e a única fonte da nossa felicidade.

    Também, as doutrinas que dizem respeito a Jesus Cristo, e sua mediação, sua encarnação, sua vida e morte, sua ressurreição e ascensão, seu assento à direita do Pai, sua satisfação e intercessão, dizem respeito infinitamente às pessoas comuns, assim como aos teólogos. Elas têm tanta necessidade deste Salvador e de interesse em sua pessoa e ofícios, e nas coisas que ele fez e sofreu, quanto os ministros e teólogos.

    O mesmo pode ser dito das doutrinas que dizem respeito ao modo da justificação de um pecador, ou a maneira pela qual ele se interessa pela mediação de Cristo. Elas dizem respeito a todos igualmente; pois todos têm igual necessidade de justificação diante de Deus. Aquela condenação eterna, à qual todos estamos naturalmente expostos, é igualmente terrível. Igualmente, com respeito às doutrinas da teologia, as quais dizem respeito à obra do Espírito de Deus no coração, na aplicação da redenção em nosso chamado eficaz e santificação, todos estão igualmente interessados nelas. Não existe qualquer doutrina da teologia que não diga respeito, de uma forma ou de outra, ao interesse eterno de cada cristão. Nenhuma das coisas que Deus nos ensinou em sua Palavra são especulações desnecessárias ou assuntos triviais; todas elas são, de fato, pontos importantes.

4. Podemos argumentar a partir das grandes coisas que Deus fez para nos dar instrução nessas coisas. Quanto às outras ciências, ele nos deixou entregues a nós mesmos, à luz da nossa própria razão. Porém, sendo as coisas da teologia de importância infinitamente maior para nós, ele não nos entregou a um guia incerto, mas ele mesmo nos deu uma revelação da verdade nesses assuntos, e fez grandes coisas para transmitir e confirmar essa revelação a nós; levantando muitos profetas em diferentes épocas, inspirando-os imediatamente com seu Espírito Santo e confirmando sua doutrina com inúmeros milagres ou obras maravilhosas fora do curso estabelecido da natureza. Sim, ele levantou uma sucessão de profetas, a qual foi mantida por vários séculos.

    Foi justamente para esse fim que Deus separou o povo de Israel, de uma maneira tão maravilhosa, de todos os outros povos, e os manteve separados; para que pudesse confiar a eles os oráculos de Deus, e para que, a partir deles, esses oráculos pudessem ser comunicados ao mundo. Frequentemente ele também enviou anjos para trazerem instruções divinas aos homens; e muitas vezes apareceu em símbolos milagrosos ou representações de sua presença; e agora, nestes últimos dias, enviou seu próprio Filho ao mundo para ser seu grande profeta, para nos ensinar a verdade divina, no começo de Hebreus 1. Finalmente, Deus deu um livro de instruções divinas, o qual contém a soma da teologia. Ora, Deus fez essas coisas, não apenas para a instrução de ministros e homens instruídos, mas para a instrução de todos os homens, de todos os tipos: homens, mulheres e crianças instruídos e iletrados. E, certamente, se Deus faz coisas tão grandes para nos ensinar, não devemos fazer pouco para aprender.

    Deus não fez com que dar instruções aos homens sobre assuntos teológicos fosse uma tarefa secundária, mas uma ocupação que ele empreendeu e conduziu em um curso de grandes e maravilhosas dispensações, como uma ocupação na qual seu coração esteve grandemente envolvido; o que, às vezes, nas Escrituras é indicado pela expressão Deus se levantou cedo para nos ensinar e para enviar profetas e mestres a nós. Jeremias 7.25: “Desde o dia em que vossos pais saíram da terra do Egito até hoje, enviei-vos todos os meus servos, os profetas, todos os dias; começando de madrugada, eu os enviei.” E também, Jeremias 7.13: “Agora, pois, visto que fazeis todas estas obras, diz o Senhor, e eu vos falei, começando de madrugada, e não me ouvistes, chamei-vos, e não me respondestes”. Este é um discurso figurativo, que significa que Deus não fez isso como uma ocupação secundária, mas como uma ocupação de grande importância, na qual ele tomou muito cuidado e teve seu coração muito engajado; porque as pessoas costumam acordar cedo para exercer as atividades nas quais estão seriamente empenhadas. Se Deus esteve tão empenhado no ensino, certamente não deveríamos ser negligentes no aprendizado, nem deveríamos fazer do crescimento no conhecimento uma atividade secundária, mas uma grande parte das atividades das nossas vidas.

5. Pode-se argumentar com base na abundância das instruções que Deus nos deu, na grandeza deste livro que Deus nos deu para nos ensinar a teologia, e na grande variedade que ele contém. Muito foi ensinado por meio de Moisés dos tempos antigos o que temos transmitido para nós; depois disso, outros livros foram acrescentados de tempos em tempos; muito nos é ensinado por meio de Davi e Salomão; e muitas e excelentes são as instruções comunicadas pelos profetas; todavia, Deus não achou tudo isso suficiente, mas depois disso enviou Cristo e seus apóstolos, por meio dos quais foi acrescentado um grande e excelente tesouro a este livro sagrado, o qual deve ser nossa regra no estudo deste importante assunto.

    Este livro foi escrito para uso de todos; todos são orientados a pesquisar as Escrituras. João 5.39, “Examinai as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas que testificam de mim”; e Isaías 34.16, “Buscai no livro do Senhor e lede”. Aqueles que leem e entendem são declarados abençoados. Apocalipse 1.3, “Bem-aventurados aqueles que leem e aqueles que ouvem as palavras da profecia.” Se isso é verdade para este livro específico do Apocalipse, muito mais é verdade para a Bíblia em geral. Não se deve acreditar que Deus teria dado instruções em tal abundância, se ele tivesse pretendido que receber instruções fosse apenas uma preocupação secundária para nós.

    Deve-se considerar que todas as abundantes instruções contidas nas Escrituras foram escritas para que pudessem ser compreendidas, caso contrário, não são instruções. Aquilo que não é dado para que o aluno possa compreender, não é dado para a instrução do aluno; e, a menos que nos esforcemos para crescer no conhecimento da teologia, uma grande parte dessas instruções será em vão; pois não podemos receber mais benefícios por meio das Escrituras do que entendemos, não mais do que se elas estivessem encerradas em uma língua desconhecida. Temos motivos para louvar a Deus por ele nos ter dado instruções tão variadas e abundantes em sua Palavra, mas seremos hipócritas ao fazê-lo se, apesar de tudo, nos contentarmos com apenas um pouco desta instrução.

    Quando Deus abre um grande tesouro diante de nós, a fim de suprir nossas necessidades, e lhe agradecemos por nos ter dado tanto, se, ao mesmo tempo, estivermos dispostos a permanecer desprovidos da maior parte dele porque temos preguiça de adquiri-lo, isso não mostrará a sinceridade da nossa gratidão. Temos agora vantagens muito maiores para adquirir conhecimento na teologia do que o povo de Deus tinha antigamente, porque o cânon das Escrituras aumentou muito desde aquela época. Porém, se negligenciarmos as nossas vantagens, poderemos nunca ser melhores por causa delas e poderemos permanecer com tão pouco conhecimento como eles.

6. Por mais diligentemente que nos apliquemos, há espaço suficiente para aumentar o nosso conhecimento da verdade divina, sem chegar ao fim. Ninguém tem esta desculpa para não se aplicar diligentemente para obter conhecimento da teologia, pois já sabe tudo; nem pode dar a desculpa de que não precisa aplicar-se diligentemente para saber tudo o que há para ser conhecido. Ninguém pode desculpar-se por causa necessidade das ocupações às quais se dedica. Há espaço suficiente para nos dedicarmos para sempre a esta ciência divina com a máxima aplicação. Aqueles que se dedicaram mais firmemente, estudaram por mais tempo e obtiveram maiores realizações neste conhecimento, sabem muito pouco do que deve ser conhecido. O assunto é inesgotável. Esse Ser Divino, que é o tema principal desta ciência, é infinito e não há fim para a glória de suas perfeições. Suas obras são, ao mesmo tempo, maravilhosas e não podem ser descobertas com perfeição; especialmente a obra da redenção, que é aquela obra de Deus sobre a qual a ciência da teologia está principalmente relacionada, está cheia de maravilhas insondáveis.

    A Palavra de Deus, que é dada para nossa instrução na teologia, contém o suficiente para nos ocupar até o fim de nossas vidas, e então deixaremos o suficiente sem investigação para ocupar as cabeças dos teólogos mais capazes até o fim do mundo. O salmista encontrou um fim para as coisas humanas, mas ele nunca conseguiu encontrar um fim para o que está contido na Palavra de Deus. Salmos 119.96, “Tenho visto que toda perfeição tem seu limite; mas o teu mandamento é ilimitado.” Há o suficiente nesta ciência divina para ocupar o entendimento dos santos e dos anjos por toda a eternidade.

7. Sem dúvida, é da responsabilidade de cada um esforçar-se por se destacar no conhecimento das coisas que pertencem à sua profissão ou vocação principal. Se diz respeito aos homens se destacarem em alguma coisa, ou em alguma ciência ou conhecimento, certamente lhes diz respeito se destacarem nos assuntos de sua profissão e trabalho principais. Porém o chamado e o trabalho de todo cristão é viver para Deus. É dito que esta é a sua soberana vocação, Filipenses 3.14. Esta é a ocupação e, se assim posso dizer, a profissão de um cristão, seu trabalho principal e, na verdade, deveria ser seu único trabalho. Nenhuma ocupação deveria ser feita por um cristão, exceto quando, de uma forma ou de outra, ela faça parte desta. Portanto, o cristão certamente deve se esforçar por estar bem familiarizado com as coisas que pertencem a esta obra, para que possa cumpri-la e estar completamente equipado para ela.

    Convém a alguém que é chamado para ser soldado, e ir para a guerra, se esforçar a fim de se destacar na arte da guerra. Convém a alguém que é chamado a ser marinheiro, e a passar a vida navegando no oceano, esforçando-se para se destacar na ciência da navegação. Convém a alguém que professa ser médico, e se dedica a esse trabalho, esforçar-se para se destacar no conhecimento das coisas que pertencem à ciência da medicina. Igualmente, convém a todos os que professam ser cristãos e se dedicam à prática do cristianismo, esforçarem-se para se destacarem no conhecimento da teologia.

8. Pode-se argumentar a partir disso que Deus designou uma categoria de homens para esse fim, para ajudar as pessoas a obterem conhecimento dessas coisas. Ele os designou para serem professores. 1 Coríntios 12.28, “A uns estabeleceu Deus na igreja, primeiramente, apóstolos; em segundo lugar, profetas; em terceiro lugar, mestres.” Efésios 4.11-12, “E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo.” Se Deus os designou para serem professores, fazendo disso a sua ocupação, então ele fez com que a sua tarefa fosse transmitir conhecimento. Mas que tipo de conhecimento? Não o conhecimento da filosofia, ou das leis humanas, ou das ciências mecânicas, mas da teologia.

    Se Deus fez com que a ocupação de alguns fosse ser professores, seguir-se-á que ele fez com que a ocupação de outros fosse serem alunos; pois professores e alunos são correlatos, um dos quais nunca foi pretendido que existisse sem o outro. Deus nunca determinou ser o dever de alguns esforçarem-se para ensinar aqueles que não são obrigados a esforçarem-se para aprender. Ele não ordenou aos ministros que se gastem para transmitir conhecimento àqueles que não são obrigados a aplicarem-se para recebê-lo.

    O nome pelo qual os cristãos são comumente chamados no Novo Testamento é discípulos, cujo significado é estudantes ou aprendizes. Todos os cristãos são colocados na escola de Cristo, onde sua função é aprender ou receber o conhecimento de Cristo, seu Mestre e Professor comum, e daqueles professores inferiores designados por ele para instruírem em seu nome.

9. Deus revelou claramente nas Escrituras que é sua vontade que todos os cristãos se esforcem diligentemente para se destacarem no conhecimento das coisas divinas. É a vontade revelada de Deus que os cristãos não apenas tenham algum conhecimento das coisas desta natureza, mas que sejam enriquecidos com todo o conhecimento. 1 Coríntios 1.4-5: “Sempre dou graças a meu Deus a vosso respeito, a propósito da sua graça, que vos é dada em Cristo Jesus; porque, em tudo fostes enriquecidos nele, em toda a palavra e em todo o conhecimento”. Igualmente, o apóstolo orou fervorosamente para que os cristãos filipenses pudessem abundar mais e mais, não apenas em amor, mas em conhecimento cristão. Filipenses 1.9, “E também faço esta oração: que o vosso amor aumente mais e mais em pleno conhecimento e toda percepção.” Também, o apóstolo Pedro aconselha “reunindo toda a vossa diligência, associai com a vossa fé a virtude; com a virtude, o conhecimento” (2 Pedro 1.5). E o apóstolo Paulo, no capítulo seguinte àquele em que está o texto, aconselha os hebreus cristãos a porém de parte os princípios elementares da doutrina de Cristo, e a deixarem-se levar para o que é perfeito. De forma alguma ele queria que eles ficassem sempre parados apenas naquelas doutrinas fundamentais de arrependimento, fé, ressurreição dos mortos e julgamento eterno, nas quais foram doutrinados quando foram batizados no início, e tiveram as mãos do apóstolo impostas sobre eles, na sua iniciação no cristianismo. Veja Hebreus 6, no início.


Aplicação.

    O uso que faço desta doutrina é no sentido de exortar todos a se esforçarem diligentemente para obter esse tipo de conhecimento.

    Considerem-se como alunos ou discípulos, matriculados na escola de Cristo; e, consequentemente, sejam diligentes em adquirir proficiência no conhecimento cristão. Não se contentem com aquilo que vocês aprenderam do catecismo em vossa infância, nem com tanto aquilo que conhecem dos princípios da religião quanto é necessário para a salvação. Desse modo vocês serão culpados daquilo contra o que o apóstolo adverte, a saber, não indo além de lançar novamente “a base do arrependimento de obras mortas”, etc. (Hebreus 6.1)

    Todos vocês são chamados para serem cristãos, e esta é a vossa profissão. Esforcem-se, portanto, para adquirir conhecimento das coisas que dizem respeito à vossa profissão. Não deixem que seus professores tenham motivos para reclamar, pois enquanto eles se gastam e são consumidos para transmitir conhecimento a vocês, vocês se esforçam pouco para aprender. É um grande incentivo para um instrutor ensinar pessoas que fazem do aprendizado uma ocupação, dedicando suas mentes a isso. Isto torna o ensino um prazer, ao mesmo tempo em que o contrário será uma tarefa muito pesada e opressiva.

    Todos vocês possuem um grande tesouro de conhecimento divino, pois possuem a Bíblia em suas mãos; portanto, não se contentem em possuir apenas um pouco deste tesouro. Deus falou muito com vocês nas Escrituras; esforce-se para entender o máximo que puderem do que ele diz. Deus fez de todos vocês criaturas racionais; por esta razão, não deixem que a nobre faculdade da razão ou do entendimento seja negligenciada. Não se contentem em ter tanto conhecimento quanto é jogado em vosso caminho, nem tanto quanto vocês recebem, em certo sentido inevitavelmente, pela frequente inculcação da verdade divina na pregação da Palavra, da qual vocês são obrigados a serem ouvintes, ou tanto quanto vocês acidentalmente obtêm em conversa; antes seja vossa maior ocupação procurar esse conhecimento, e isso com a mesma diligência e esforço com que os homens costumam cavar minas de prata e ouro.

    De modo especial, eu aconselho aqueles que são jovens a ocuparem-se desta forma. Os homens nunca são velhos demais para aprender; mas o período da juventude é especialmente a época da aprendizagem; é particularmente adequado para adquirir e armazenar conhecimento. Além disso, para incitar todos, tanto idosos como jovens, a este dever, deixem-me pedir que considerem:

    Primeiro. Se vocês se dedicarem diligentemente a este trabalho, não desejarão ocupação quando estiverem livres de suas atividades seculares comuns. Dessa forma, vocês poderão encontrar algo em que possam se dedicar proveitosamente nessas longas noites de inverno. Vocês encontrarão outra coisa para fazer, além de ir de casa em casa, gastando uma hora após a outra em conversas inúteis ou, na melhor das hipóteses, sem outro propósito senão divertirem-se, preencherem e gastarem seu tempo. E é de recear que grande parte do tempo gasto em nossas visitas noturnas de inverno seja gasto com um propósito muito pior do que este que mencionei agora. Salomão nos diz, em Provérbios 10.19, que “No muito falar não falta transgressão”. E não é isso que se verifica naqueles que não encontram nada mais o que fazer, durante uma parte tão grande do inverno, a não ser irem às casas uns dos outros e passarem o tempo em certa conversa à medida que a próxima vem, ou como a presente disposição de alguém sugerir?

    Alguma diversão é, sem dúvida, lícita, mas o fato de os cristãos passarem tanto tempo, tantas noites longas, em nenhuma outra conversa senão aquela que tende a divertir e a fazer rir, se não pior, é uma maneira pecaminosa de passar o tempo e tende, pelo menos, à pobreza da alma, se não à pobreza externa. Provérbios 14.23, “Em todo trabalho há proveito, meras palavras, porém, levam à penúria.” Além disso, quando as pessoas, durante grande parte do seu tempo, não têm mais nada a fazer senão sentarem-se, conversarem e tagarelarem nos cantos das chaminés umas das outras, há grande perigo de caírem em conversas tolas e pecaminosas, dando vazão às suas disposições corruptas ao falar contra os outros, expressando seus ciúmes e más suposições em relação aos seus vizinhos; sem considerarem o que Cristo disse em Mateus 12.36, “Digo-vos que de toda palavra frívola que proferirem os homens, dela darão conta no Dia do Juízo”.

    Se você concordar com o que ouviu desta doutrina, encontraria outra coisa para passar seus invernos, um inverno após o outro, além da discórdia, ou do falar sobre aqueles assuntos públicos que tendem à discórdia. Os jovens poderiam encontrar outra coisa para fazer além de passar o tempo em vãs companhias; algo que seria muito mais proveitoso para eles, pois realmente tirariam alguma boa vantagem; algo que, ao fazer, os afastaria mais do caminho do diabo, do caminho da tentação, e os colocaria mais no caminho do dever e de uma bênção divina. E mesmo as pessoas idosas teriam algo em que se ocupar, depois de se tornarem incapazes de trabalhar fisicamente. Seu tempo, como muitas vezes acontece agora, não lhes seria pesado, pois estariam, com proveito e prazer, empenhados em pesquisar as Escrituras, e em comparar e meditar sobre as várias verdades que ali encontrariam.

    Segundo. Esta seria uma maneira nobre de gastar seu tempo. O Espírito Santo atribui esse epíteto aos bereanos, porque eles se dedicaram diligentemente a essa ocupação. Atos 17.11, “Ora estes de Bereia eram mais nobres do que os de Tessalônica; pois receberam a palavra com toda a avidez, examinando as Escrituras todos os dias para ver se essas coisas eram, de fato, assim”. Esta é basicamente a ocupação do céu. Os habitantes daquele mundo gastam muito do seu tempo pesquisando as grandes coisas da teologia, e esforçando-se para adquirir conhecimento delas, como nos é dito sobre os anjos, 1 Pedro 1.12, “coisas essas que os anjos anelam perscrutar”. Isto será muito adequado ao que você espera que seja a tua ocupação por toda a eternidade, pois sem dúvida espera juntar-se à mesma atividade que os anjos de luz. Salomão diz, Provérbios 25.2, que é honra dos reis “esquadrinhá-las”, e certamente, acima de todos os outros, pesquisar assuntos divinos. Agora, se esta é a honra até mesmo dos reis, não é igualmente, se não muito mais, a tua honra?

    Terceiro. Esta é uma maneira agradável de aproveitar o tempo. O conhecimento é agradável e deleitoso para as criaturas inteligentes e, acima de tudo, o conhecimento das coisas divinas; pois nelas estão as verdades mais excelentes e os objetos mais belos e amáveis apresentados à vista. Por mais tedioso que seja o trabalho necessário para desempenhar essa ocupação, o conhecimento, uma vez obtido, recompensará fartamente o esforço necessário para obtê-lo. “Porquanto a sabedoria entrará no teu coração, e o conhecimento será agradável à tua alma” (Provérbios 2.10).

    Quarto. Este conhecimento é extremamente útil na prática cristã. Aqueles que têm muito conhecimento da teologia têm grandes meios e vantagens para o conhecimento espiritual e salvador; pois nenhum meio de graça, como foi dito antes, tem efeito salvador no coração a não ser pelo conhecimento que transmitem. Quanto mais vocês tiverem do conhecimento racional das coisas do evangelho, mais oportunidades haverão, quando o Espírito for soprado em seus corações, de ver a excelência dessas coisas e de provar a doçura delas. Os pagãos, que não têm conhecimento racional das coisas do evangelho, não têm oportunidade de ver a excelência delas; e, portanto, quanto mais conhecimento racional vocês tiverem dessas coisas, mais oportunidades e vantagens terão de ver a excelência e a glória divinas delas.

    Novamente, quanto mais conhecimento vocês tiverem das coisas divinas, melhor conhecerão seu dever; seu conhecimento será de grande utilidade para orientá-los quanto ao seu dever em casos particulares. Vocês também estarão mais bem equipados contra as tentações do diabo. Pois o diabo, muitas vezes, se aproveita da ignorância das pessoas para submetê-las a tentações que, de outra forma, não as dominariam.

    Por terem muito conhecimento, vocês terão maiores vantagens para se comportarem com prudência e discrição em sua conduta cristã, e assim viverem muito mais para a honra de Deus e da religião. Muitos que têm boas intenções e estão cheios de boa disposição, todavia, por falta de prudência, comportam-se de modo a ofender a religião. Muitos têm um zelo por Deus que faz mais mal do que bem, porque não é “com entendimento” (Romanos 10.2). A razão pela qual muitos homens bons não se comportam melhor em muitos casos não é tanto porque carecem de graça, mas sim porque carecem de conhecimento.

    Além disso, um aumento de conhecimento seria de grande ajuda para uma conversa proveitosa. Isso lhes forneceria assuntos para conversar quando vocês se reunirem ou quando visitarem seus vizinhos; e assim vocês teriam menos tentação de gastar o tempo em conversas que tendem a prejudicar a si mesmos e aos outros.

    Quinto. Considere as vantagens que vocês têm de crescer no conhecimento da teologia. Temos agora vantagens muito maiores para obter muito conhecimento da teologia do que o povo de Deus sob o Antigo Testamento, tanto porque o cânon das Escrituras foi muito ampliado desde então, como também porque as verdades evangélicas são agora reveladas muito mais claramente. De modo que os homens comuns estão agora, em alguns aspectos, sob a vantagem de saberem mais sobre a teologia do que os maiores profetas tinham naquele tempo. Assim, aquela palavra de Cristo é, em certo sentido, aplicável a nós, Lucas 10.23-24, “Bem-aventurados os olhos que veem as coisas que vós vedes. Pois eu vos afirmo que muitos profetas e reis quiseram ver o que vedes e não viram; e ouvir o que ouvis e não o ouviram”. Em alguns aspectos, temos vantagens muito maiores para obter conhecimento, agora, nestas últimas eras da igreja, do que os cristãos tiveram anteriormente; especialmente por causa da arte da impressão, da qual Deus nos deu o benefício, por meio da qual Bíblias e outros livros de teologia são muitíssimos multiplicados, e as pessoas podem agora receber ajuda para a obtenção do conhecimento cristão a um preço muito mais acessível e barato do que podiam anteriormente.

    Sexto. Não sabemos que oposição podemos enfrentar nos princípios que defendemos na teologia. Sabemos que existem muitos adversários do evangelho e das suas verdades. Se, portanto, abraçamos essas verdades, devemos esperar ser atacados pelos referidos adversários; e, a menos que estejamos bem-informados sobre as coisas divinas, como poderemos nos defender? Além disso, o apóstolo Pedro nos ordena que estejamos sempre prontos para dar uma resposta a todo aquele que nos perguntar a razão da esperança que há em nós (1 Pedro 3.15). Porém não podemos esperar fazer isso sem um conhecimento considerável das coisas divinas.

    Concluirei agora meu discurso com algumas orientações para a aquisição deste conhecimento.

    Primeira. Seja assíduo na leitura das Sagradas Escrituras. Esta é a fonte de onde todo o conhecimento da teologia deve derivar. Portanto, não deixe este tesouro ser negligenciado por você. Todo homem de bom entendimento, que sabe ler, pode, se quiser, instruir-se bem com as Escrituras. E que excelente realização seria esta!

    Segunda. Não se contente apenas com uma leitura superficial, sem levar em conta o sentido. Esta é uma maneira imprópria de ler, à qual, no entanto, muitos se acostumam todos os dias. Ao ler, observe o que você lê. Observe como as coisas acontecem. Observe o rumo do discurso e compare uma Escritura com outra. Pois a Escritura, pela harmonia de suas diferentes partes, lança grande luz sobre si mesma. Somos expressamente orientados por Cristo a “examinar as Escrituras”, o que evidentemente pretende algo mais do que uma mera leitura superficial. E use meios para descobrir o significado das Escrituras. Quando você a tiver explicada na pregação da palavra, preste atenção nela, e se, a qualquer momento, um texto que você não entendeu for esclarecido de forma satisfatória, marque-o, guarde-o e, se possível, lembre-se dele.

    Terceira. Procure e use diligentemente outros livros que possam ajudar você a desenvolver esse conhecimento. Existem muitos livros excelentes, os quais podem ajudar muito neste conhecimento e proporcionar a você um entretenimento muito proveitoso e agradável em suas horas livres. Há, sem dúvida, um grande defeito em muitos, que, por aversão a serem um pouco caros, eles se abastecem com mais ajuda dessa natureza. Na verdade, eles têm alguns livros que leem de vez em quando, nos sábados, mas eles os têm há tanto tempo e os leem com tanta frequência que estão cansados deles, e agora se tornou uma história enfadonha, uma mera tarefa lê-los.

    Quarta. Melhore a conversa com outras pessoas para esse fim. Quanto as pessoas poderiam promover de conhecimento umas às outras nas coisas divinas se melhorassem a conversa como podem; se os homens ignorantes não tivessem vergonha de mostrar sua ignorância e estivessem dispostos a aprender com os outros; se, quem tem conhecimento, o comunicasse sem orgulho e ostentação; e se todos estivessem mais dispostos a iniciar uma conversa que seria para sua edificação e instrução mútua.

    Quinta. Principalmente, não procure crescer em conhecimento para receber aplausos e para ser capaz de discutir com os outros, mas o busque para o benefício de suas almas e para praticar. Se o aplauso for o teu objetivo, será provável que você não seja levado ao conhecimento da verdade, mas poderá com justiça, como muitas vezes é o caso daqueles que se orgulham de seu conhecimento, ser levado ao erro, para a sua própria perdição. Sendo este o teu objetivo, se você obtiver muito conhecimento racional, provavelmente não será de nenhum benefício para você, mas te encheria de orgulho. 1 Coríntios 8.1, “O saber ensoberbece”.

    Sexta. Busque a Deus para que ele te direcione e abençoe nesta busca pelo conhecimento. Esta é a orientação do apóstolo. Tiago 1.5, “Se, porém, algum de vós necessita de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente e nada lhes impropera”. Deus é a fonte de todo conhecimento divino. Provérbios 2.6, “Porque o Senhor dá sabedoria, e da sua boca vem a inteligência e o entendimento.” Se esforce para ter consciência da tua própria cegueira e ignorância, e de tua necessidade da ajuda de Deus, a fim de não ser levado ao erro em vez de ao verdadeiro conhecimento. 1 Coríntios 3.18, “Se alguém” quiser ser sábio, “faça-se estulto para se tornar sábio”.

    Sétima. Proceda de acordo com o conhecimento que você possui. Esta será a forma de saber mais. O salmista recomenda vivamente esta forma de procurar o conhecimento da verdade divina, a partir da sua própria experiência. Salmo 119.100, “Sou mais prudente que os idosos, porque guardo os teus preceitos.” Cristo também recomenda o mesmo. João 7.17, “Se alguém quiser fazer a vontade dele, conhecerá a respeito da doutrina, se ela é de Deus ou se eu falo de mim mesmo”.


4 Por “pagãos mais sábios” JE se referia aos antigos filósofos gregos e romanos.


Tradução:

De: Sermons and Discourses 1739-1742

Works, vol. 22 – Org. Harry S. Stout

Por: Paulo Arantes

sábado, 1 de fevereiro de 2025

Edwards e a Teologia da Nova Inglaterra

JONATHAN EDWARDS, santo e metafísico, avivalista e teólogo, destaca-se como a única figura de real grandeza na vida intelectual da América colonial. Nascido, criado, passando toda a sua vida à margem da civilização, ele fez sua voz ser ouvida onde quer que os homens se ocupassem com aqueles dois maiores tópicos que podem envolver o pensamento humano — Deus e a alma. Um filósofo francês de pouca simpatia pela principal preocupação de Edwards escreve:

Existem poucos nomes do Século 18 que obtiveram tanta notoriedade quanto o de Jonathan Edwards. Críticos e historiadores do passado até os nossos dias elogiaram em termos ditirâmbicos (entusiásticos) o vigor lógico e os poderes construtivos de um escritor que eles consideram (como é feito por Mackintosh, Dugald Stewart, Robert Hall, até mesmo Fichte) como o maior metafísico que a América já produziu. Quem sabe, eles se perguntaram, a que alturas esse gênio original poderia ter subido, se, em vez de nascer em um país meio selvagem, longe das tradições da filosofia e da ciência, ele tivesse aparecido em nosso velho mundo, e ali recebido o impulso direto da mente moderna. Talvez ele tivesse alcançado um lugar entre Leibniz e Kant entre os fundadores de sistemas imortais, em vez de a obra que ele deixou se reduzir a uma teologia sublime e bárbara, que surpreende nossa razão e afronta nosso coração, o objeto de nosso horror e admiração ao mesmo tempo.

A grandeza de Edwards não é, no entanto, meramente conjectural. Ele não foi um “Milton mudo e inglório”, mas o mais articulado dos homens. Nem é como metafísico que ele faz sua maior reivindicação à nossa admiração, metafísico sutil como ele se mostrou ser. Suas especulações ontológicas, nas quais seu título de reconhecimento como metafísico repousa principalmente, pertencem à sua extrema juventude, e foram definitivamente deixadas para trás em uma idade em que a maioria dos homens começa a investigar tais problemas. Foi, como Lyon de fato sugere, à teologia que ele dedicou seus anos maduros e seu pensamento mais prolonga-do e profundo, especialmente aos problemas do pecado e da salvação. E esses problemas foram abordados por ele não como puramente teóricos, mas como intensamente práticos. Portanto, ele foi tão verdadeiramente um homem de ação quanto um homem de reflexão, e trabalhando pode-rosamente em sua época, colocando em prática energias que nunca esgotaram sua força. Ele é muito mais precisamente caracterizado, portanto, por um filósofo nosso, que é tão pouco simpá-tico, no entanto, com seus principais interesses quanto o próprio Lyon. F. J. E. Woodbridge diz:

Inconfundivelmente. ele foi um grande homem. Ele não apenas expressou o pensamento de sua época, ou o encontrou simplesmente no espírito de suas tradições. Ele o enfrentou e o moldou. O pensamento da Nova Inglaterra já estava caminhando em direção àquela teologia incolor que o marcou mais tarde. Isso ele verificou. Era decididamente arminiano. Ele o tornou calvinista... Seu tempo não o explica.

Edwards tinha uma notável inclinação filosófica, mas ele tinha um senso e gosto ainda mais notáveis pelas coisas divinas; e, portanto (conclui Woodbridge, pelo menos com relativa justiça), “nos lembramos dele, não como o maior dos filósofos americanos, mas como o maior dos calvinistas americanos”.

1. O PERÍODO DE PREPARAÇÃO DE EDWARDS

Edwards nasceu em uma Nova Inglaterra muito decadente, em 5 de outubro de 1703. O fervor religioso que os imigrantes puritanos trouxeram consigo para o Novo Mundo não conseguiu se propagar para a terceira e quarta gerações sem ser enfraquecido. Já em 1678, Increase Mather lamentou que “a maioria da geração ascendente é uma geração pobre, morta, não convertida e (a menos que o Senhor derrame seu Espírito) uma geração perdida”. Havia influências gerais operando em toda a cristandade nessa época, deprimentes para a vida do espírito, que não deixaram de ser sentidas na Nova Inglaterra; e estas foram reforçadas ali pela dureza das condições de existência em uma terra bruta. Em todos os lugares, o pensamento e a vida estavam se movendo em um plano mais baixo; não apenas a espiritualidade, mas a moralidade comum estava sofrendo algum eclipse. As igrejas se sentiram compelidas a recuar dos altos ideais que tinham sido sua herança, e estavam introduzindo em sua membresia e admitindo em seus mistérios homens que, embora decentes na vida, não faziam nenhuma profissão de mudança de coração. Se somente eles próprios tivessem sido batizados, eles eram encorajados a oferecer seus filhos ao batismo (sob o chamado “Pacto do Meio Termo”), e a virem eles mesmos à Mesa do Senhor (concebida como uma “ordenança de conversão”). A casa em que Edwards nasceu, no entanto, não apenas o protegeu de grande parte do mal que permeava a comunidade, mas estimulou poderosamente sua vida espiritual e intelectual. Ele começou a estudar latim aos seis anos de idade, e aos treze havia adquirido um conhecimento respeitável das “três línguas eruditas”, as quais na época faziam parte dos currículos das faculdades — latim, grego e hebraico. Antes de completar seu décimo terceiro ano (setembro de 1716), ele entrou no “Collegiate School of Connecticut” (depois Yale College). Durante seu segundo ano na faculdade, ele se interessou pelo “Essay concerning Humam Understanding” (Ensaio sobre o Entendimento Humano) de Locke, e teve mais satisfação e prazer em estudá-lo, ele mesmo nos conta, “do que o mais ganancioso avarento encontra ao apanhar punhados de prata e ouro de algum tesouro recém-descoberto”. Ele se formou como o primeiro da turma em 1720, quando tinha pouco menos de dezessete anos de idade, mas permaneceu na faculdade (como era o costume da época) por mais dois anos (até o verão de 1722), para o estudo de Teologia. No verão de 1722, ele foi “aprovado” para pregar e, de agosto de 1722 até abril de 1723, ele proveu o púlpito de um pequeno grupo de presbiterianos na cidade de Nova York. Retornando para casa, ele foi nomeado tutor em Yale em junho de 1724, e ocupou este posto com habilidade distinta, durante um período muito difícil na vida da faculdade, pelos próximos dois anos (até setembro de 1726). Sua renúncia à tutoria foi ocasionada por um convite para se tornar colega e sucessor de seu avô, Solomon Stoddard, no pastorado da igreja em Northampton, Massachusetts, onde, consequentemente, ele foi ordenado e instalado em 15 de fevereiro de 1727.

O período de preparação de Edwards chegou ao fim com sua instalação em Northampton. Sua preparação foi notável, tanto intensiva quanto extensivamente. Nascido com uma gota de tinta nas veias, Edwards quase desde a infância segurou uma caneta na mão. Desde a mais tenra juventude, ele estava acostumado a escrever cuidadosamente no papel, até sua última consequência, cada pensamento fértil que lhe vinha. Vários dos primeiros produtos de sua observação e reflexão foram preservados, revelando uma precocidade que é quase inacreditável.

É nesses escritos juvenis que Edwards propõe sua metafísica espiritualista, e é principalmente com base na força deles que ele mantém um lugar em nossas histórias da filosofia. Todo o seu sistema já está presente em essência no ensaio “Of Being”, que foi escrito antes de ele completar dezesseis anos de idade. E, embora não haja razão para acreditar que ele tenha renunciado às opiniões expostas nessas discussões juvenis — há, pelo contrário, sugestões ocasionais, mesmo em seus últimos escritos, de que elas ainda se escondiam no fundo de seu cérebro — ele nunca retorna formalmente a elas posteriormente ao seu período em Yale (até 1727). Seu envolvimento com tais tópicos pertence, portanto, distintamente ao seu período formativo, antes de se envolver com os deveres do ministério ativo e as linhas de pensamento mais imediatamente chamadas ao exercício por causa deles. Nestes primeiros anos, certamente independentemente de Berkeley, e aparentemente sem nenhuma sugestão de fora além do que poderia ser derivado das explicações de Newton sobre luz e cor, e do tratamento de Locke sobre a sensação como fonte de ideias, ele elaborou para si mesmo um sistema completo de Idealismo, o qual de fato tremulava à beira do mero fenomenalismo, e poderia tê-lo seduzido para o Panteísmo, exceto pela intensidade de sua percepção do Deus vivo. “Falando mais estritamente”, ele declara, “não há substância propriamente dita senão o próprio Deus”. O universo não existe “em nenhum lugar senão na mente Divina”. Se isso é verdade “apenas com relação aos corpos”, ou também aos espíritos finitos, ele parece ter vacilado a princípio; finalmente, ele chegou à opinião mais inclusiva.

Edwards não estava tão absorvido em tais especulações a ponto de negligenciar as necessidades de seu espírito. Ao longo de todos esses anos de formação, ele permaneceu, antes de tudo, um homem religioso. Ele foi objeto de profundas impressões religiosas desde sua infância, e se dedicou, durante esse período de preparação, ao cultivo mais assíduo e intenso de sua natureza religiosa. “Fiz da busca pela minha salvação”, ele mesmo nos conta, “a principal ocupação da minha vida”. Porém, por ocasião de sua formatura (1720), ocorreu uma mudança nele, a qual aliviou a tensão de sua angústia interior. Desde a infância, sua mente se revoltava contra a soberania de Deus: “costumava parecer uma doutrina horrível para mim”. Agora, tudo isso passou despercebido; e gradualmente, mediante um processo que ele não conseguia delinear, essa mesma doutrina passou a ser não apenas uma coisa natural para ele, mas uma questão de alegria: “A doutrina muitas vezes mostrou-se extremamente agradável, brilhante e doce; soberania absoluta é o que eu amo atribuir a Deus”. Um dia, ele estava lendo 1 Timóteo 1.17: “Assim, ao Rei eterno, imortal, invisível, Deus único, honra e glória pelos séculos dos séculos. Amém!”, e, enquanto lia, “um senso da glória do Ser Divino” tomou posse dele, “um novo senso, bem diferente de qualquer coisa” que ele “já havia experimentado antes”. Ele ansiava por ser “arrebatado para Ele no céu, e ser como que consumido por Ele para sempre”. Daquele momento em diante sua compreensão das coisas divinas aumentou, e seu gozo de Deus cresceu. Houve, sem dúvida, intervalos de depressão. Porém, no geral, seu progresso foi firmemente ascendente e sua consagração mais e mais completa. Foi esse jovem devoto, com a alegria do Senhor em seu coração, que virou as costas, nos primeiros meses de 1727, a sua brilhante vida acadêmica e deixou de lado para sempre suas especulações filosóficas, para assumir o trabalho de pastor em Northampton.

2. EDWARDS, O PASTOR

Edwards foi ordenado copastor com seu avô em 15 de fevereiro de 1727 e, com a morte deste, dois anos depois, o sucedeu no único cargo da paróquia. Northampton era um lugar relativamente muito importante. Era a sede do condado, e quase metade da área da província ficava dentro do condado. Era, portanto, uma espécie de pequena capital local, e seu povo se orgulhava de sua cultura, energia e independência de espírito. Havia apenas uma igreja na cidade, e era provavelmente a maior e mais influente da província, fora de Boston. Não era unida quanto à opinião, sendo frequentemente dilacerada por disputas faccionais. Porém, sob a forte pregação de Solomon Stoddard, foi repetidamente visitada por avivamentos. Esses períodos de avivamento continuaram em intervalos durante o pastorado de Edwards; a igreja se tornou famosa por causa deles, e seus membros eram preenchidos por meio deles. Em uma ocasião, os membros somaram seiscentos e vinte, e incluíam quase toda a população adulta da cidade. Stoddard foi o protagonista das opiniões mais frouxas de admissão às ordenanças da Igreja e, no início do século, introduziu na igreja de Northampton a prática de abrir a Ceia do Senhor para aqueles que não faziam profissão de conversão. Edwards, a princípio, concordou com essa prática, mas, convencendo-se de que era errada, procurou corrigi-la depois de um tempo, com consequências desastrosas para si mesmo. Entretanto essa prática deu aos membros da igreja algo do caráter de uma multidão mista, que a circunstância de que um grande número deles foi introduzido na excitação religiosa dos avivamentos tendia a aumentar.

Edwards se entregou com sincera devoção ao cuidado pastoral dessa importante congregação. Visitas assíduas de casa em casa não faziam, é verdade, parte de seu plano de trabalho, mas isso não demonstrava descuido ou negligência; estava de acordo com seu julgamento deliberado de seus dons e aptidões especiais. E, se ele não ia até seu povo em suas casas, exceto quando chamado por causa de doença ou necessidade especial, ele os encorajava a virem livremente até ele, e não se importava nem com tempo nem com trabalho para atender às suas necessidades individuais. Ele permaneceu, é claro, também um estudante, gastando normalmente de treze a quatorze horas diárias em seu estudo. Este trabalho não se separava de seu serviço pastoral, mas era mantido estritamente subordinado a ele. Edwards não apenas virou definitivamente as costas às especulações puramente acadêmicas que o haviam envolvido tão profundamente em Yale, mas também não produziu nenhuma obra puramente teológica durante todo o seu pastorado de vinte e três anos em Northampton. Suas publicações durante este período, além de sermões, consistiram apenas em tratados sobre teologia prática. Eles lidam principalmente com problemas levantados pelos grandes avivamentos religiosos nos quais sua pregação foi frutífera.

Foi em seus sermões que os estudos de Edwards deram seus frutos mais ricos. Ele não se poupou em sua instrução pública. Ele não apenas cumpriu fielmente os compromissos regulares da igreja, mas voluntariamente empreendeu discursos e palestras especiais, e durante os tempos de “atenção à religião” foi frequentemente em auxiliar as igrejas vizinhas. Desde o início, ele foi reconhecido como um notável pregador, tão cativante e avivador quanto instrutivo. Encheu-se do mais profundo senso da hediondez do pecado, como uma ofensa contra a majestade de Deus e um ultraje ao seu amor, ele se propôs a despertar seus ouvintes para alguma compreensão do horror de sua condição como objetos do desprazer divino, e da incrível bondade de Deus em intervir para sua salvação. Lado a lado com o retrato mais comovente do amor de Deus em Cristo e da bem-aventurança da comunhão com ele, Edwards, portanto, estabeleceu, com o efeito mais surpreendente, imagens igualmente vívidas dos perigos do pecado não perdoado e dos terrores do estado do perdido. O efeito de tal pregação, entregue com a força da mais sincera convicção, foi avassalador. Um grande avivamento teve início na igreja, no final de 1735, no qual mais de trezentos convertidos foram reunidos a ela, o qual se estendeu por todas as igrejas do vale do Connecticut. Em conexão com uma visita de Whitefield, em 1740, outra onda de fervor religioso teve início, o qual não consumiu sua força até cobrir toda a terra. Ninguém poderia reconhecer mais plenamente o mal que se mistura com o bem em tais épocas de excitação religiosa do que Edwards. Ele procurou diligentemente conter os excessos e se esforçou sinceramente para separar o joio do trigo. Porém ninguém poderia protestar mais fortemente contra lançar fora o trigo com o joio. Ele submeteu todo o fenômeno dos avivamentos dos quais participou ao mais profundo estudo analítico; e, embora reconhecesse tristemente que muito autoengano era possível, e que o reinado poderia ser facilmente dado ao falso “entusiasmo”, ele argumentou sinceramente que uma obra genuína de graça podia encontrar expressão na excitação mental e até física. Uma série de estudos que ele deu ao mundo foi, como vimos, um dos frutos incidentais desses avivamentos, talvez o exame mais completo que o fenômeno da excitação religiosa já recebeu, e certamente, em seu grande tratado sobre as “Religious Affections” (Afeições Religiosas), um dos sistemas mais completos do que foi surpreendentemente chamado de “diagnóstico espiritual” que ele possui.

Por vinte e três anos, Edwards desempenhou seu ministério frutífero em Northampton; sob sua orientação, a igreja se tornou uma cidade edificada sobre um monte para a qual todos os olhos se voltavam. Porém na reação do avivamento de 1740-1742, surgiram condições que lhe causaram grandes inquirições do coração e levaram, finalmente, à sua separação de sua congregação. Neste avivamento, praticamente toda a população adulta da cidade foi trazida para a igreja; as pessoas foram admitidas sob a excitação da época e sob uma decisão introduzida muito antes de 1704, por Stoddard, que considerava todas as ordenanças da igreja, incluindo a Ceia do Senhor, como "ordenanças de conversão", não pressupondo, mas adaptadas para provocar uma mudança de coração. Com o passar do tempo, tornou-se evidente o suficiente que um número considerável dos membros existentes da igreja não havia experimentado aquela mudança de coração somente pela qual eles poderiam ser constituídos cristãos e, de fato, não alegaram tê-la feito. Ao estudar seriamente a questão por si mesmo, Edwards se convenceu de que a participação na Ceia do Senhor poderia ser permitida adequadamente apenas àqueles que professassem uma “conversão” real. Era seu dever como pastor e guia de seu povo proteger a Mesa do Senhor da profanação, e ele não era um homem que deixaria de cumprir um dever claramente compreendido. Duas medidas óbvias se apresentaram a ele — membros indignos da igreja deveriam ser excluídos por disciplina, e maior cuidado deveria ser exercido ao receber novos candidatos à membresia. Sem dúvida, a disciplina estava entre as funções que a Igreja alegava exercer, mas a sua prática caíra muito em decadência como resultado da concepção rebaixada que foi mantida acerca dos requisitos para a membresia da igreja. A porta de admissão à Ceia do Senhor, por outro lado, foi formalmente aberta; e essa política frouxa persistiu por meio século e se tornou tradicional. O que Edwards se sentiu compelido a empreender, como se verá, foi um retorno na teoria e na prática à plataforma original das igrejas Congregacionais, a qual concebia a Igreja como sendo, no sentido mais estrito das palavras, “uma companhia de santos por vocação”, entre os quais não deveria ser permitido entrar nada que não fosse limpo. Isso, que deveria ter sido sua força, e que finalmente deu a vitória ao movimento que ele inaugurou em todas as igrejas da Nova Inglaterra, foi, em seu próprio caso pessoal, sua fraqueza. Deu uma aparência radical às reformas que ele defendia, que ele próprio estava longe de lhes dar. Não é necessário entrar em detalhes sobre a controvérsia concernente a um caso de disciplina, que surgiu em 1744, ou as dificuldades subsequentes (1748-1749) concernentes às condições de admissão à Ceia do Senhor. O resultado foi que, após uma disputa acirrada que durou dois anos, Edwards foi demitido de seu pastorado em 22 de junho de 1750.

3. EDWARDS, O TEÓLOGO

Mediante sua dispensa da igreja em Northampton, em seu quadragésimo sétimo ano, o segundo período da vida de Edwards — o período de árduo labor pastoral — foi abruptamente encerrado. Depois de alguns meses, ele se mudou para o pequeno vilarejo fronteiriço (havia apenas doze famílias brancas residentes ali) de Stockbridge, como missionário da “Sociedade em Londres para Propagar o Evangelho na Nova Inglaterra e nas Partes Adjacentes” aos índios Housatonic reunidos ali, e como pastor da pequena igreja de colonos brancos. Neste exílio, ele esperava encontrar tempo para escrever, em defesa do sistema calvinista contra o “arminianismo” desenfreado da época, as obras que ele havia planejado por muito tempo e para as quais havia feito grande preparação. Ele não encontrou paz e sossego; ele esteve envolvido desde o início em uma difícil luta contra a ganância e a corrupção dos administradores dos fundos destinado ao benefício dos índios. Porém ele produziu, se não conseguia encontrar, o tempo livre necessário. Foi em Stockbridge que ele escreveu os tratados nos quais sua fama como teólogo sobretudo repousa: as grandes obras sobre a Will (Vontade) (escrita em 1753, publicada em 1754) e Original Sin (Pecado Original) (no prelo quando ele morreu, 1758), os notáveis ensaios sobre “The End for which God created the World” (O Fim para o qual Deus criou o Mundo) e a “Nature of true Virtue” (Natureza da Verdadeira Virtude) (publicados em 1765, após sua morte) e a inacabada “History of Redemption” (História da Redenção) (publicada em 1772). Sem dú-vida, ele utilizou material previamente colecionado para a escrita dessas obras. Ele praticamente vivia com sua caneta na mão e acumulou uma imensa quantidade de material escrito, seus “me-lhores pensamentos”, como foi felizmente chamado. A obra sobre A Vontade, de fato, estava há muito tempo em construção. Nós o encontramos fazendo estudos diligentes para ela já no início de 1747; e, embora seu trabalho nela tenha sido interrompido repetidamente por longos interva-los, ele nos conta que antes de deixar Northampton “tinha feito uma considerável preparação e estava profundamente engajado na execução desse projeto”. A rápida conclusão do livro no curso de alguns meses, em 1753, não foi, portanto, um feito tão maravilhoso quanto poderia parecer. No entanto, são os sete anos em Stockbridge que merecem ser chamados de anos frutí-feros do trabalho teológico de Edwards. Eles foram interrompidos no outono de 1757 por um convite para se tornar o presidente do College of New Jersey, em Princeton, em sucessão a seu genro, Aaron Burr. Foi com grande relutância que ele aceitou esse chamado; lhe parecia amea-çar a prevenção do que ele pensava ser sua obra de vida — a preparação, a saber, de uma série de volumes sobre todas as várias partes da controvérsia arminiana. Porém a faculdade em Prin-ceton, que fora fundada e até então conduzida por homens cujas afinidades eram com a piedade calorosa e avivalista à qual sua própria vida estivera dedicada, teve reivindicações sobre ele as quais não pode negar. Seguindo o conselho de um grupo de seus amigos, portanto, ele aceitou o chamado e se mudou para Princeton, a fim de assumir suas novas funções, em janeiro de 1758. Ali, ele foi vacinado contra varíola, em 13 de fevereiro, e morreu dessa doença, em 22 de mar-ço, em seu quinquagésimo quinto ano de idade.

A peculiaridade do trabalho teológico de Edwards se deve à união do mais rico sentimento religioso com os mais altos poderes intelectuais nele. Ele foi, antes de tudo, um homem de fé, e é isso que dá caráter a toda a sua vida e a todos os seus produtos; porém seu forte sentimento religioso tinha à sua disposição uma força mental e uma acuidade lógica de primeira ordem; ele foi, ao mesmo tempo, profundamente emocional e, como Ezra Stiles o chamou, um “forte raciocinador”. Sua sutileza analítica provavelmente nunca foi superada, mas foi combinada com ela uma ampla compreensão da verdade religiosa, a qual o capacitou a vê-la como um todo e a lidar com suas várias partes sem exagero e com um senso de suas relações no sistema. O sistema, ao qual ele deu sua adesão sincera e à defesa do qual, contra as tendências que ameaçavam miná-lo em seus dias, ele consagrou todos as suas faculdades, era simplesmente o Calvinismo. Deste sistema, como fora exposto por seus principais representantes, ele não se afastou conscientemente em nenhum de seus elementos constitutivos. A amplitude e particularidade de seu conhecimento dele em seus expositores clássicos, e a perfeição de sua adoção em seu próprio pensamento, são frequentemente subestimadas. Há um verdadeiro sentido em que ele foi mais um homem de reflexão do que de erudição. Não havia grandes bibliotecas acessíveis no oeste de Massachusetts em meados do século 18. Sua disposição nativa de raciocinar por si mesmo sobre os assuntos que eram apresentados ao seu pensamento foi reforçada por seus hábitos de estudo; era seu costume desenvolver no papel, até suas consequências lógicas mais distantes, cada tópico de importância ao qual sua atenção era direcionada. Ele viveu na “era da razão” e foi, neste aspecto, um verdadeiro filho de seu tempo. Na tarefa que ele empreendeu, além disso, um apelo à autoridade teria sido inútil; era exclusivamente ao tribunal da razão que ele poderia arrastar os adversários do sistema calvinista. Consequentemente, é apenas em seu tratado mais didático — distinto do controverso — sobre “Religious Affections” (Afeições Religiosas) que Edwards cita com alguma frequência escritores anteriores em apoio às suas posições. O leitor deve se resguardar, no entanto, da ilusão de que Edwards não estava consciente do apoio de escritores anteriores por trás dele. Seu conhecimento dos mestres do sistema de pensamento que ele estava defendendo, por exemplo, era amplo e minucioso. Amesius e Wollebius foram seus livros didáticos na faculdade. A biblioteca bem selecionada de Yale, podemos ter certeza, foi completamente explorada por ele; no final de seus estudos de teologia, ele fala da leitura de “livros doutrinários ou livros de controvérsia” como se fosse parte de suas atividades diárias. Como seria de se esperar, ele se alimentou dos grandes teólogos puritanos e não apenas moldou seu pensamento, mas sua vida com base neles. Nós o encontramos em sua juventude, por exemplo, usando diligentemente os “Sermões sobre o Salmo 119” de Manton como um guia espiritual; e, em suas raras alusões a autoridades em suas obras, ele revela familiaridade com escritores como William Perkins, John Preston, Thomas Blake, Anthony Burgess, Stephen Charnock, John Flavel, Theophilus Gale, Thomas Goodwin, John Owen, Samuel Rutherford, Thomas Shephard, Richard Sibbes, John Smith, o platônico, e Samuel Clark, o ariano. Ele conhecia e estimava até mesmo seus contemporâneos em seus verdadeiros valores: Isaac Watts e Philip Doddridge como algo natural; e também Thomas Boston, cujo esquema de pensamento “View of the Covenant of Grace” (Conceito da Aliança da Graça) ele confessou que não entendeu, mas cujo “Fourfold State of Man” (Estado Quádruplo do Homem) ele “gostou muito”. Ele certamente conhecia completamente seu Calvino, embora não declarasse em suas palavras; e também seu Turretin, de quem ele fala como “o grande Turretin”; enquanto sobre van Mastricht ele declara “muito melhor” até mesmo do que Turretin, “ou”, ele acrescenta com algum fervor, “do que qualquer outro livro no mundo, exceto a Bíblia, na minha opinião.” A estreita concordância de seu ensino com o dos mais estimados teólogos calvinistas é, portanto, consciente e deliberada; sua omissão em apelar a eles não prova ignorância ou desprezo; é próprio à sua maneira habitual e à tarefa especial que ele estava exercendo. Na verdade, o que ele ensina é apenas o calvinismo “padrão” em sua perfeição.

Como um pensador independente, ele não está, é claro, sem seus individualismos, e isso em concepção não menos do que em expressão. Sua explicação sobre a identidade da raça humana com seu Cabeça, fundamentada como está em uma doutrina de identidade pessoal que a reduz a uma “constituição arbitrária” de Deus, unindo seus momentos sucessivos, é peculiar a ele. Ao responder objeções à doutrina do Pecado Original, ele apela a Stapler em um ponto, e fala, depois dele, na linguagem daquela forma de doutrina conhecida como “imputação mediata”. Porém isso é apenas para ilustrar seu próprio conceito de que toda a humanidade é uma tão verdadeiramente quanto e pelo mesmo tipo de constituição divina que uma vida individual é uma em seus momentos consecutivos. Mesmo neste contexto imediato, ele não ensina a doutrina da “imputação mediata”, antes insistindo que Adão e sua posteridade, sendo um no sentido mais estrito, neles não menos do que nele “a culpa decorrente da primeira existência de uma disposição depravada” não pode de forma alguma ser distinguida da “culpa do primeiro pecado de Adão”; e em outras partes do tratado ele fala nos termos da doutrina calvinista comum. Seu individualismo mais marcante, no entanto, se encontra na região da filosofia e não da teologia. Em um ensaio sobre “The Nature of True Virtue” (A Natureza da Verdadeira Virtude), ele desenvolve, em oposição ao conceito de que toda virtude pode ser reduzida, em última análise, ao amor-próprio, uma teoria excêntrica da virtude como consistindo no amor ao ser em geral. Porém não ouvimos nada disso novamente em outras partes de suas obras, embora tenha se tornado embrionário para a teologia da Nova Inglaterra da era seguinte. Tais individualismos não são de forma alguma característicos de seu ensino. Ele se esforçou para não demonstrar originalidade. Um pensador independente, ele certamente afirmava ser, e “rejeitou totalmente uma dependência”, digamos, “de Calvino”, no sentido de “acreditar nas doutrinas que ele sustentava porque Calvino acreditava e as ensinava”. Essa mesma rejeição é, no entanto, uma proclamação de concordância com Calvino, embora não como se ele “acreditasse em tudo exatamente como Calvino ensinava”; ele é apenas cuidadoso para que seja entendido não como um seguidor cego de Calvino, mas como um defensor convicto do Calvinismo. Sua única preocupação era, consequentemente, não melhorar o Calvinismo dos grandes expositores do sistema, mas colocar os principais elementos do sistema calvinista, como comumente entendido, além de qualquer objeção. Sua maravilhosa faculdade inventiva foi empregada, portanto, apenas na descoberta e no desenvolvimento da mais completa e convincente gama possível de argumentos a seu favor. Isso é verdade até mesmo em seu grande tratado sobre “A Vontade”. Este é, no julgamento comum, o maior de todos os seus tratados, e o julgamento comum está correto aqui. Porém a doutrina deste tratado é precisamente a doutrina dos escolásticos calvinistas. “A novidade do tratado”, nos foi bem-dito há muito tempo, “não se encontra na posição que ele assume e defende, mas na multidão de provas, na fecundidade e na urgência dos argumentos mediante os quais ele a sustenta”. A originalidade de Edwards consiste, portanto, menos no conteúdo de seu pensamento do que em sua maneira de pensar. Ele entra na grande tradição que lhe foi transmitida, e “a infunde com sua personalidade e a faz viver”, e “a vitalidade de seu pensamento dá ao seu produto o valor de uma criação única”. O efeito dos labores de Edwards estava completamente de acordo com seu propósito, e não desproporcional à sua grandeza. O movimento contra o calvinismo, que estava se espalhando pela terra, foi controlado em grande medida, e a eliminação do calvinismo como um fator determinante no pensamento da Nova Inglaterra, que parecia iminente enquanto ele escrevia, foi adiada por mais de cem anos.

4. A TEOLOGIA DA NOVA INGLATERRA

Foi infortúnio de Edwards o fato de ele dar seu nome a um partido; e a um partido que, nunca em perfeito acordo com ele em suas ideias doutrinárias, acabou se tornando o defensor fervoroso (como foi expresso de forma contundente) de “um conjunto de opiniões que ele alcançou sua principal fama ao demolir”. A associação deste partido com Edwards foi muito direta. “Bellamy… e Hopkins”, diz G. P. Fisher, traçando a descendência, “foram alunos de Edwards; West derivou sua teologia de Hopkins; Smalley estudou com Bellamy, e Emmons com Smalley”. Porém a herança do partido de Edwards se mostrou muito mais fortemente no lado prático do que no doutrinário. Seus membros eram os herdeiros de seu zelo avivalista e de sua pregação despertadora; eles também imitaram sua tentativa de purificar a Igreja mediante a disciplina e guarda rigorosa da Mesa do Senhor — em uma palavra, restaurar a Igreja ao seu ideal puritano de uma congregação de santos. Pressionando ao extremo em ambos os assuntos, como os seguidores farão, os homens “eduardianos” ou da “Nova Teologia” se tornaram um fermento nas igrejas da Nova Inglaterra e, criando discussão e distúrbios em toda parte, gradualmente conquistaram seu caminho para o domínio. Enquanto isso, seu ensino doutrinário sofria continuamente mudanças. Como Fisher (p. 7) coloca, “no processo de defesa da fé estabelecida, eles foram levados a reformulá-la em novas formas e a mudar seu aspecto”. Só que não era apenas a forma e o aspecto de sua fé herdada, mas sua essência, que eles estavam constantemente transformando. Consequentemente, Fisher prossegue explicando que o que deste lado constituía seu caráter comum não era tanto uma doutrina comum quanto um método comum: “o fato de que seus conceitos eram o resultado de reflexão independente e eram mantidos em bases filosóficas”. Aqui, também, eles foram seguidores de Edwards, mas em seu exagero de seu método racional, sem sua sólida base na história do pensamento, eles perderam a continuidade com o passado e se tornaram os criadores de uma “teologia da Nova Inglaterra”, a qual é correto descrever francamente como apenas provinciana.

Está muito longe de Jonathan Edwards, o calvinista, defender com toda a força de seus poderes de raciocínio insuperáveis a doutrina de uma vontade determinada, e recomendar uma teoria da virtude que a identificava com a benevolência geral, para Nathaniel W. Taylor, o pelagianizador, construir seu sistema sobre a doutrina do poder ao contrário como sua pedra fundamental, e reduzir toda virtude, em última análise, ao amor-próprio. O ensino de Taylor, na verdade, em muitos aspectos era os antípodas exatos de Edwards, e reproduzia muito bem o amontoado de tendências que este último considerava a sua obra de vida resistir. No entanto, Taylor se via como um “eduardiano”, embora nele o resultado do longo desenvolvimento tenha recebido sua primeira designação apropriada — a “Teologia de New Haven”. Suas diversas fases sucessivas foram unidas pela circunstância, sem dúvida externa, de que foram ensinadas em geral por homens que receberam treinamento em New Haven.

O crescimento da Nova Teologia àquele domínio no pensamento teológico da Nova Inglaterra, do qual deriva sua reivindicação de ser chamada de “Teologia da Nova Inglaterra”, foi gradual, embora um tanto rápido. Samuel Hopkins nos conta que no começo — em 1756 — não havia mais do que quatro ou cinco “que abraçavam os sentimentos que desde então foram chamados de ‘eduardianos’ e ‘Nova Teologia’; e desde então, após algum aperfeiçoamento ne-les, sentimentos ‘hopkintonianos’ ou ‘hopkinsianos’.” “O Edwards júnior ainda falava deles em 1777 como um pequeno grupo. Em 1787, Ezra Stiles, irritado com sua crescente influência e notando a crescente divergência de opiniões entre eles, imaginou que via seu fim se aproximando. Nisso ele estava enganado: a Nova Teologia, na pessoa de Timothy Dwight, o sucedeu co-mo presidente do Yale College, e por uma longa série de anos foi infundida em geração após geração de estudantes. As “confusões” que Stiles observou eram, no entanto, reais; ou, melhor, a progressiva cessão dos chamados eduardianos àquelas tendências de pensamento às quais eles foram originalmente colocados em oposição. O Edwards júnior elaborou um cuidadoso relato do que ele considerou os (dez) “Aperfeiçoamentos na Teologia feitas pelo Presidente Edwards e aqueles que seguiram seu curso de pensamento”. Ele não pretende que tenham sido introduzidas por Edwards três das mais cardeais delas, atribuindo-as simplesmente àqueles a quem ele chama de “seguidores” de Edwards. Estas são a substituição da doutrina Governamental (Grotiana) pela da Satisfação da Expiação, na consumação da qual ele próprio, com precursores parciais em Bellamy e West, foi o principal agente; o descarte da doutrina da imputação do pecado em favor do conceito de que os homens são condenados apenas por seus próprios pecados pessoais — uma alegação que foi feita de forma extrema por Nathaniel Emmons, que confinou toda qualidade moral a atos de volição e, posteriormente, tornou-se um elemento de liderança no sistema de Nathaniel W. Taylor; e a perversão da distinção de Edwards entre incapacidade “natural” e “moral” de modo a se basear na capacidade “natural” do não regenerado, como introduzida por Samuel Hopkins — uma teoria das capacidades e deveres dos homens sem o Espírito, a qual posteriormente, nas mãos de Nathaniel W. Taylor, tornou-se o cerne de um novo sistema pelagianizante.

A vitória externa da Nova Teologia na Nova Inglaterra foi marcada, sem dúvida, pela eleição de Timothy Dwight para a Presidência do Yale College (1795); e certamente não poderia ter encontrado ninguém mais apto para recomendá-la a homens moderados; provavelmente nenhum sistema escrito de teologia já gozou de aceitação mais ampla do que os “Sermões” de Dwight. Porém, depois de Dwight veio Taylor, e no ensino deste último o movimento descendente da Nova Teologia terminou em um sistema que se voltou, como em sua dobradiça, para as doutrinas pelagianizantes da ausência de pecado natural da raça, a plena capacidade do pecador de renovar sua própria alma, e o amor-próprio ou o desejo de felicidade como a fonte de toda ação voluntária. Era inevitável alguma reação a este extremo, e a história da chamada “Teologia da Nova Inglaterra” termina com a reação moderada do ensino de Edwards A. Park. Park era daquela linha de descendência teológica que viera através de Hopkins, Emmons e Woods, mas ele procurou incorporar em seu sistema tudo o que lhe parecia ser o resultado do pensamento da Nova Inglaterra para o século que o precedeu, sem exceção das posições extremas do próprio Taylor. Retrocedendo tanto de Taylor a ponto de retornar talvez a uma doutrina um pouco mais determinística da vontade, ele foi capaz de se elevar acima de Taylor em suas doutrinas da eleição e da regeneração, e dar ao tipo geral de pensamento que ele representava um sopro de vida para outra geração. Porém, com a morte de Park em 1900, a história da “Teologia da Nova Inglaterra” parece chegar ao fim.


LITERATURA: A. Uma lista das obras de Edwards é dada por Dwight, 1: p. 765s.; S. Miller, 254ss.; e Ridderbos, 327ss. (opp. cit. infra). Uma breve bibliografia pode ser encontrada em Allen, op. cit. infra, p. 391ss. A primeira edição das Obras de Edwards foi em 8 vols., org. S. Austin, Worcester, Mass., 1808-1809. Esta edição foi frequentemente reproduzida em 4 vols.: Nova York, 1844, 1852, 1856, 1863, 1881. Uma nova e ampliada edição, em 10 vols., org. S. E. Dwight, vol. 1: sendo uma “Memoir”, apareceu em Nova York, 1829. Uma edição foi publicada em Londres, em 8 vols., 1837, ao qual 2 vols. suplementares foram adicionados, Edimburgo, 1847. Edições britânicas posteriores são: Londres, 1840, com Dwight’s Memoir e um Essay de H. Rogers; Londres, 1865 (Bohn), em 2 vols. Escritos adicionais de Edwards foram publicados: “Charity and its Fruits”, org. Tryon Edwards, Londres, 1852 (posteriormente reeditado sob o título “Christian Love, as Manifested in the Heart and Life”, ed. 6, Filadélfia, 1874); “Selections from the Unpublished Writings of Jonathan Edwards”, editado com uma introdução por A. B. Grosart, Edimburgo, 1865; “Observations concerning the Scripture Economy of the Trinity”, editado com uma introdução por Egbert C. Smyth, Nova York, 1880; “An Unpublished Essay of Edwards on the Trinity”, editado com uma introdução por George P. Fisher, Nova York, 1903; “Selected Sermons of Jonathan Edwards”, editado com uma introdução e notas por H. N. Gardiner, Nova York e Londres, 1904 (contém um novo sermão).


B. Para a vida, etc., veja S. Hopkins, “The Life and Character of the late Reverend… Mark Jonathan Edwards”, Boston, 1765, Northampton, 1804; S. E. Dwight, “Memoir”, sendo vol. 1: de sua edição das “Works” (veja acima), Nova York, 1829; S. Miller, “Life of Jonathan Edwards”, Boston, 1837 e 1848 (vol. 8: da primeira série de “The Library of American Biography” de Jared Sparks); A. V. G. Allen, “Jonathan Edwards”, Boston e Nova York, 1889; Williston Walker, “Ten New England Leaders”, Boston e Nova York, 1901, p. 215-263; idem, “A History of the Congregational Churches in the United States”, Nova York, 1894, caps, 7, 8, 9; Joseph Tracy, “The Great Awakening”, Boston, 1842.


C. O levantamento mais abrangente sobre o ensino teológico de Edwards é dado por Jan Ridderbos, “De Theologie van Jonathan Edwards”, Haia, 1907; ver também G. P. Fisher, “Discussions in History and Theology”, Nova York, 1880, p. 227-252; Noah Porter, “The Princeton Review… and the Edwardean Theology”, em The New Englander, 18: 1860, p. 737ss.; H. N. Gardiner, “Jonathan Edwards: a Retrospect”, Boston e Nova York, 1901; “Exercises Commemorating the Two-Hundredth Anniversary of the Birth of Jonathan Edwards, held at Ando-ver Theological Seminary”, Andover, 1904.


D. A Teologia da Nova Inglaterra deve ser estudada nas obras de seus principais expoentes. As vidas de muitos deles também são acessíveis. Ver também F. H. Foster, “A Genetic History of the New England Theology”, Chicago, 1907; G. N. Boardman, “A History of New England Theology”, Nova York, 1899; C. Hodge, “Princeton Essays”, primeira série, 1846, p. 285-307, segunda série, 1847, p. 206-235, “Essays and Reviews”, 1856, p. 539-633; Lyman H. Atwater, The Biblical Repertory and Princeton Review, 26: 1854, p. 217-246, 30: 1858, p. 585-620, 31: 1859, p. 489-538, 40: 1868, p. 368-398; Edwards A. Park, “The Atonement”, Boston, 1859; G. P. Fisher, “Discussions in History and Theology”, p. 285-354; H. B. Smith, “Faith and Philosophy”, Nova York, 1877, p. 215-264.


Tradução:

De: Studies in Theology, B. B. Warfield, p. 332-245.

Por: Paulo Arantes