Frase da Semana

Assim, tudo é de Deus, está em Deus e existe para Deus; ele é o começo, o meio e o fim.

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Deus é glorificado na dependência do homem

          God Glorified in Man's Dependence (Deus é glorificado na dependência do homem) foi a primeira obra de Edwards publicada. Esse sermão foi, originalmente, proferido em Northampton, no outono de 1730; em 8 de julho de 1731, ele o pregou em uma assembleia do clero em Boston, logo após o que foi impresso. Um de seus esforços mais notáveis, o sermão foi reimpresso com frequência em edições subsequentes de sua obra, incluindo a edição de Dwight (8, 147-62).

Aqui, Edwards pega muitos dos temas em que vinha trabalhando em seus cadernos particulares e outros sermões da época, e os reúne em uma declaração elegante e bem ajustada em defesa do preceito evangélico de que os seres humanos estão tão caídos que são totalmente dependentes de Deus para o bem espiritual, especialmente para a salvação. Claramente, Edwards ajustou seus conceitos para combater o arminianismo e, assim, levou adiante a polêmica que ele havia começado com sua Master's Quaestio, (Busca do Mestre) em 1723.[1] A esta altura, o sermão também reflete outros esforços deste período, tal como God Makes Men Sensible of Their Misery (Deus torna os homens sensíveis a sua miséria), para articular a importância da humilhação evangélica.[2] Deus é Glorificado, porém, adota uma estratégia retórica diferente. Em vez de enfatizar as dimensões afetivas da humilhação, Edwards defende a visão calvinista da natureza humana ligando-a à doutrina da Trindade.

Na Explicação, Edwards argumenta que as pessoas dependem de Cristo para a redenção, de Deus para Cristo e do Espírito Santo para a fé que os une a Cristo. No primeiro grande tópico da Doutrina, ele segue essa estrutura trinitária. Os redimidos têm todo o seu bem de (ou vindo de) Deus, o que significa que eles, desamparados em seus estados pecaminosos, dependem exclusivamente de Deus para o poder de torná-los santos. Os remidos também têm todo o seu bem por meio do dom de Deus do Mediador, Cristo, que os justifica. Além disso, os remidos têm todo o seu bem em Deus, que os torna moralmente excelentes pela presença do Espírito Santo.

Esses temas também são evidentes no manuscrito “Discourse on the Trinity” (Discurso sobre a Trindade) de Edwards (também conhecido como “Essay on the Trinity” (Ensaio sobre a Trindade), parte do qual ele redigiu durante o mesmo período no qual ele escreveu Deus é Glorificado. Contudo, enquanto seu escrito sobre a Trindade foi filosoficamente extenso, cobrindo alguns tópicos como a natureza do ser e da revelação de Deus, Deus é Glorificado enfatiza mais estreitamente a doutrina protestante da justificação somente pela fé. Se os seres humanos são tão dependentes de Deus, raciocina Edwards no sermão, então Deus os redime por “mera e arbitrária graça”, o que quer dizer, por meio da obra de Cristo e da presença do Espírito. Por implicação, os conceitos arminianos sobre a natureza humana, os quais negam a total dependência da humanidade de Deus, efetivamente contradiz a lógica da Trindade.

Edwards segue este último ponto mais detalhadamente sob a segunda proposição da Doutrina. Ele argumenta que é esta verdadeira doutrina do pecado e da dependência humana, em vez de qualquer suposição de bondade humana ou capacidade moral, que glorifica a Deus. Aqui e na Aplicação, um apelo à fé, o sermão alcança toda a sua força retórica. A visão teocêntrica de Edwards de Deus como Redentor o leva a uma conclusão quase doxológica.

***

Impresso em Boston, em 1731, por Samuel Kneeland e Timothy Green, o texto publicado é um panfleto em oitavo de vinte e oito páginas. Seu título completo é God Glorified in the Work of Redemption, By the Greatness of Man's Dependence upon Him, in the Whole of it. Preached on the Public Lecture in Boston, July 8, 1731 (Deus é Glorificado na Obra da Redenção, Mediante a Grandeza da Dependência do Homem Dele, na Totalidade dela. Pregado na Palestra Pública, em Boston, 8 de julho de 1731). Uma inscrição, na página de rosto, cita Juízes 7.2. O título curto no início do texto é Deus é glorificado na dependência do homem. Precedendo o texto, há um prefácio de duas páginas, “Ao Leitor”, de Thomas Prince e William Cooper, uma recomendação do sermão e de seu autor. Ele está incluído como um apêndice ao sermão neste volume.

O manuscrito é um típico livrinho duodécimo, que consiste em catorze folhas bem conservadas. Ao preparar o sermão para a publicação, Edwards fez um número significativo de revisões, incluindo correção de frases repetidas e expansão de vários pontos, mais particularmente na adição da segunda proposição da Doutrina e do segundo tópico da Aplicação, ou Uso. Algumas dessas mudanças estão marcadas no manuscrito, outras não.[3]

 

Deus é Glorificado na Dependência do Homem

 

            “A fim de que ninguém se vanglorie em presença de Deus. Mas vós sois dele, em Cristo Jesus, o qual se nos tornou, da parte de Deus,  sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção, para que, como está escrito: Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor.” (1 Coríntios 1.29-31)

Aqueles cristãos, a quem o apóstolo dirigiu esta epístola, moravam em uma parte do mundo onde a sabedoria humana tinha grande reputação; e, como o apóstolo diz em 1 Coríntios 1.22 deste capítulo: “Os gregos buscam sabedoria”. Corinto não ficava muito longe de Atenas, que fora, por muitas eras, a mais famosa sede da filosofia e da erudição do mundo.

O apóstolo, por esta razão, os faz perceber como Deus, mediante o evangelho, destruiu e reduziu a zero sua sabedoria humana. Os eruditos gregos e seus grandes filósofos não conheciam a Deus por meio de toda a sua sabedoria; eles não foram capazes de descobrir a verdade nas coisas divinas. Porém, após terem feito seu máximo em vão, agradou a Deus finalmente revelar-se mediante o evangelho, o qual eles consideravam loucura. Deus escolheu “as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes; e Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são” (1 Coríntios 1.27-28). E o apóstolo os informa a razão pela qual ele fez isso no versículo do texto: “a fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus. Mas vós sois dele, em Cristo Jesus, o qual se nos tornou, da parte de Deus, sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção, para que, como está escrito: Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor”.

Em cujas palavras pode ser observado:

1. O que Deus almeja na disposição das coisas no caso da redenção, a saber, que o homem não se glorie em si mesmo, mas somente em Deus: “a fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus... para que, como está escrito: Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor”.[4]

2. Como este fim é alcançado na obra de redenção, a saber, mediante aquela dependência absoluta e imediata que os homens têm de Deus nessa obra, para todo o seu bem. Visto que:

(1) Todo o bem que os homens têm é em e por meio de Cristo; ele “se nos tornou, da parte de Deus, sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção” (1 Coríntios 1.30). Todo o bem da criatura caída e redimida está relacionado com essas quatro coisas, e não pode estar mais bem distribuído do que nelas; somente Cristo é cada uma delas para nós, e não temos nenhuma delas senão nele. Ele “se nos tornou, da parte de Deus, sabedoria”; nele estão todo o próprio bem e a verdadeira excelência do entendimento. A sabedoria era uma coisa que os gregos admiravam, somente Cristo é a verdadeira luz do mundo; é somente por meio dele que a verdadeira sabedoria é comunicada à mente. É em e por meio de Cristo que temos justiça; é mediante o estar nele que somos justificados, temos nossos pecados perdoados e somos recebidos como justos no favor de Deus. É por meio de Cristo que temos santificação; temos nele verdadeira excelência de coração, bem como de entendimento; e ele se nos tornou justiça inerente e imputada. É por meio de Cristo que temos redenção, ou a libertação real de toda miséria, e a concessão de toda felicidade e glória. Desse modo, temos todo o nosso bem por meio de Cristo, que é Deus.

(2) Outro exemplo no qual se torna visível nossa dependência de Deus para todo o nosso bem é que é Deus quem nos deu Cristo, para que possamos ter esses benefícios por meio dele; ele “se nos tornou, da parte de Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção”.

(3) É da parte dele que estamos em Cristo Jesus e passamos a ter interesse nele, e, assim, recebemos as bênçãos que ele se tornou para nós. É Deus quem dá a fé pela qual nos unimos a Cristo.

De modo que, neste versículo, é mostrada nossa dependência de cada pessoa na Trindade para todo o nosso bem. Somos dependentes de Cristo, o Filho de Deus, pois ele é nossa sabedoria, justiça, santificação e redenção. Somos dependentes do Pai, que nos deu Cristo, e o fez para ser essas coisas para nós. Somos dependentes do Espírito Santo, pois é por ele que estamos em Cristo Jesus; é o Espírito de Deus que nos dá fé nele, pela qual o recebemos e nos aproximamos dele.

 

Doutrina.

 

            Deus é glorificado na sabedoria da redenção nisto, que torna-se visível nela quão absoluta e universal é a dependência do redimido dele.

 

Aqui, me proponho a mostrar:

I. Que há uma dependência absoluta e universal do redimido de Deus para todo o seu bem.

II. Que Deus é exaltado e glorificado na obra da redenção dessa forma.

 

I. Há uma dependência absoluta e universal dos redimidos em Deus. A natureza e o plano de nossa redenção são tais que os redimidos são, em tudo, direta, imediata e inteiramente dependentes de Deus. Eles dependem dele para tudo, e dependem dele em todos os sentidos.

As várias maneiras em que a dependência de um ser pode estar em outro para seu bem, e em que os redimidos por Jesus Cristo dependem de Deus para todo o seu bem, são estas, a saber, que eles têm todo o seu bem dele, que eles têm tudo por meio dele, e que eles têm tudo nele. De modo que ele é a causa e a origem de onde todo o nosso bem vem, no que é dele; de modo que ele é o meio pelo qual é obtido e transmitido, no que eles o têm por meio dele; e de modo que ele é o próprio bem que é dado e transmitido, no que está nele.

Ora, aqueles que são redimidos por Jesus Cristo dependem muito direta e inteiramente de Deus para tudo em todos esses aspectos.

Primeiro. Os remidos têm todo o seu bem de Deus. Deus é seu grande autor; ele é a causa primeira dele, e não apenas isso, mas ele é a única causa propriamente dita.

É de Deus que temos nosso Redentor. É Deus que providenciou um Salvador para nós. Jesus Cristo não é somente de Deus em sua pessoa, visto que é o Filho unigênito de Deus, mas ele é de Deus no que diz respeito a nós nele e em seu ofício de mediador. Ele é o dom de Deus para nós; Deus o escolheu e o ungiu, lhe designou sua obra e o enviou ao mundo.

E, assim como é Deus que dá, assim também é Deus que aceita o Salvador. Assim como é Deus que provê e dá o Redentor para comprar a salvação para nós, assim também é de Deus que essa salvação é comprada. Ele dá o comprador e fornece a coisa comprada.

É da parte de Deus que Cristo se torna nosso, para que sejamos levados a ele e unidos a ele. É de Deus que recebemos fé para nos unirmos a ele, para que possamos ter interesse nele; Efésios 2.8: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus.” É de Deus que realmente recebemos todos os benefícios que Cristo adquiriu. É Deus que perdoa, justifica e liberta da descida ao inferno; e é por seu favor que os redimidos são recebidos e feitos objetos desse favor, quando são justificados. Igualmente, é Deus que livra do domínio do pecado, nos purifica de nossa imundícia e nos muda de nossa deformidade. É de Deus que os redimidos recebem toda a sua verdadeira excelência, sabedoria e santidade; e isto de duas maneiras, a saber: visto que o Espírito Santo, por quem essas coisas são imediatamente operadas, é de Deus, procede dele e é enviado por ele; e também visto que o próprio Espírito Santo é Deus, por cuja operação e habitação o conhecimento de Deus e das coisas divinas, uma disposição santa e toda graça são concedidas e mantidas.

E embora meios sejam usados ​​para conceder graça às almas dos homens, ainda assim, é de Deus que temos esses meios de graça, e é Deus que os torna eficazes. É de Deus que temos as Sagradas Escrituras; elas são a Palavra de Deus. É de Deus que temos as ordenanças, e sua eficácia depende da influência imediata do Espírito de Deus. Os ministros do evangelho são enviados por Deus, e toda a sua suficiência é dele; 2 Coríntios 4.7: “Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós”. Seu sucesso depende total e absolutamente da bênção e da influência imediatas de Deus.

Os redimidos têm tudo:

1. Da graça de Deus. Foi por mera graça que Deus nos deu seu Filho unigênito. A graça é magnífica em proporção à dignidade e excelência do que é dado. O dom foi infinitamente precioso porque foi de uma pessoa infinitamente digna, uma pessoa de glória infinita; e também porque foi de uma pessoa infinitamente próxima de Deus e amada por ele. A graça é magnífica na proporção do benefício que nos é dado nele. O benefício é duplamente infinito no que temos nele, libertação de uma miséria infinita, porque é eterna,  e também recebemos alegria e glória eternas. A graça em conceder este dom é magnífica em proporção à nossa indignidade a quem é dada. Em vez de merecer tal dom, merecemos infinitamente o mal das mãos de Deus. A graça é magnífica de acordo com a maneira que é dada, ou em proporção à humilhação e custo do método e do meio pelo qual foi aberto o caminho para termos o dom. Ele o deu para nós habitando entre nós; ele o deu a nós encarnado, ou em nossa própria natureza; ele o deu a nós em nossa natureza, em enfermidades semelhantes, nas quais o temos em nosso estado caído, e que nos acompanham e são ocasionados pela corrupção pecaminosa de nossa natureza. Ele o deu a nós em um estado humilde e aflito; e não apenas isso, mas ele o deu a nós morto para que ele pudesse ser um banquete para nossas almas.

A graça de Deus em conceder este dom é muitíssimo livre. Não foi o que Deus tinha obrigação de conceder. Ele poderia ter rejeitado o homem caído, como fez com os anjos caídos. Nunca fizemos nada para merecê-la; foi dada enquanto ainda éramos inimigos e antes de nos arrependermos. Ela existe a partir do amor de Deus que viu em nós excelência para atraí-la; e existe sem a expectativa de ser recompensada por isso.

E é por mera graça que os benefícios de Cristo são aplicados a tais e tais pessoas em particular. Aqueles que são chamados e santificados devem atribuir isso somente ao beneplácito da bondade de Deus, pelo qual eles são distinguidos. Ele é soberano e tem misericórdia de quem quer, e a quem quer, ele endurece.

O homem tem, agora, uma maior dependência da graça de Deus do que tinha antes da queda. Ele depende da bondade gratuita de Deus para muito mais do que dependia então. Naquele tempo, ele dependia da bondade de Deus para conceder a recompensa pela obediência perfeita; pois Deus não era obrigado a prometer e conceder essa recompensa. Agora, porém, dependemos da graça de Deus para muito mais. Temos necessidade de graça, não apenas para nos dar glória, mas para nos livrar do inferno e da ira eterna. Sob a primeira aliança, dependíamos da bondade de Deus para nos dar a recompensa da justiça; e assim dependemos agora. E não apenas isso, mas necessitamos da graça livre e soberana de Deus para nos dar essa justiça; e, no entanto, não apenas isso, mas precisamos de sua graça para perdoar nosso pecado e nos libertar da culpa e do seu infinito demérito.

E visto que  somos dependentes da bondade de Deus por mais tempo agora do que sob a primeira aliança, também dependemos de uma bondade muito maior, mais livre e maravilhosa. Estamos, agora, mais dependentes do beneplácito arbitrário e soberano de Deus. Éramos, em nosso primeiro estado, dependentes de Deus para a santidade; tínhamos nossa justiça original vinda dele, mas naquele tempo a santidade não foi concedida da forma como o beneplácito soberano concede agora. O homem foi criado santo, e convinha a Deus criar santas todas as criaturas racionais que ele criou; seria uma depreciação da santidade da natureza de Deus se ele tivesse feito uma criatura inteligente não santa. Agora, porém, quando o homem é feito santo, é por mera e arbitrária graça; Deus pode negar a santidade à criatura caída para sempre se ele quiser, sem qualquer depreciação de qualquer uma de suas perfeições.

E, de fato, não somos apenas mais dependentes da graça de Deus, mas nossa dependência é muito mais evidente, porque nossa própria insuficiência e impotência em nós mesmos é muito mais evidente, em nosso estado caído e arruinado, do que era antes de sermos pecadores ou miserável. Evidentemente somos mais dependentes de Deus para a santidade, porque somos primeiro pecadores e totalmente poluídos, e, depois, santos; deste modo, a produção do efeito é sensível e sua derivação de Deus mais óbvia. Se o homem fosse sempre santo e sempre assim, não seria tão evidente que ele não tinha santidade necessariamente como uma qualificação inseparável da natureza humana. Portanto, somos mais claramente dependentes da livre graça para o favor de Deus, pois primeiro somos justamente os objetos de seu desprazer e, depois, somos recebidos em favor. Claramente somos mais dependentes de Deus para a felicidade, sendo primeiro miseráveis ​​e, depois, felizes. Claramente é mais livre e sem mérito em nós porque, na verdade, não temos nenhum tipo de excelência a merecer, se pode haver mérito na excelência da criatura. E não estamos apenas sem qualquer excelência verdadeira, mas estamos cheios e totalmente corrompidos com o que é infinitamente odioso. Muito claramente todo o nosso bem é proveniente de Deus porque, primeiro, estamos nus e totalmente sem nenhum bem e, depois, somos enriquecidos com todo o bem.

2. Recebemos tudo do poder de Deus. A redenção do homem é frequentemente mencionada como uma obra do poder maravilhoso, bem como da graça. O grande poder de Deus se torna visível ao trazer um pecador de seu estado vil, das profundezas do pecado e da miséria, para um estado tão exaltado de santidade e felicidade; Efésios 1.19, “E qual é a suprema grandeza do seu poder para com os que cremos, segundo a eficácia da força do seu poder.”[5]

Somos dependentes do poder de Deus em cada passo de nossa redenção. Somos dependentes do poder de Deus para nos converter, nos dar fé em Jesus Cristo e a nova natureza. É uma obra de criação: “Se alguém está em Cristo, é nova criatura” (2 Coríntios 5.17); “Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus” (Efésios 2.10). A criatura caída não pode alcançar a verdadeira santidade, exceto mediante o ser criada novamente; Efésios 4.24: “E vos revistais do novo homem, criado segundo Deus em justiça e retidão procedentes da verdade.” É uma ressurreição dos mortos; Colossenses 2.12, “no qual igualmente fostes ressuscitados mediante a fé no poder de Deus que o ressuscitou dentre os mortos.” Sim, é uma obra de poder mais gloriosa do que a simples criação, ou ressuscitar um corpo morto, pois o efeito obtido é maior e mais excelente. Aquela existência santa e feliz, e a vida espiritual que são alcançadas na obra da conversão, são um efeito muito maior e mais glorioso do que a mera existência e vida. E o estado de onde a mudança é produzida, de tal morte no pecado, da total corrupção da natureza e da profundidade da miséria, é muito mais distante do estado alcançado do que a mera morte ou não-existência.

É também pelo poder de Deus que somos preservados no estado de graça; 1 Pedro 1.5, “que sois guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação.” Visto que a graça vem inicialmente de Deus, assim ela vem continuamente dele e é mantida por ele, tanto quanto a luz, na atmosfera, todo dia vem do sol, bem como ao amanhecer ou ao nascer do sol.

Os homens são dependentes do poder de Deus para cada exercício da graça, para a continuidade da obra da graça no coração, para subjugar o pecado e a corrupção, para crescimento dos santos princípios, para capacitar a produzir frutos em boas obras e, finalmente, para conduzir a graça à sua perfeição, tornando a alma completamente amável na gloriosa semelhança de Cristo, enchendo-a de alegria e bem-aventurança satisfatórias; e para a ressurreição do corpo, e para um estado tão perfeito que seja adequado como habitação e órgão para uma alma tão perfeita e abençoada. Estes são os efeitos mais gloriosos do poder de Deus que são vistos na série de atos de Deus com respeito às criaturas.

O homem era dependente do poder de Deus em seu primeiro estado, mas ele é mais dependente desse poder agora. Ele precisa do poder de Deus para fazer mais coisas por ele, e depende de um exercício mais maravilhoso de seu poder. Foi um efeito do poder de Deus fazer os homens santos, no início; mas de modo mais notável agora, porque há muita oposição e dificuldade no caminho. É um efeito mais glorioso do poder tornar santo aquele que era tão depravado e estava sob o domínio do pecado do que conceder santidade ao que antes não tinha nada em contrário. É uma obra de poder mais gloriosa resgatar uma alma das mãos do diabo e dos poderes das trevas, e trazê-la a um estado de salvação, do que conceder santidade onde não havia predisposição ou oposição; Lucas 11.21-22: “Quando o valente, bem armado, guarda a sua própria casa, ficam em segurança todos os seus bens. Sobrevindo, porém, um mais valente do que ele, vence-o, tira-lhe toda a armadura em que confiava e lhe divide os despojos.” Portanto, é uma obra de poder mais gloriosa manter uma alma em estado de graça e de santidade, e levá-la adiante até que seja conduzida à glória, quando há tanto pecado remanescente no coração resistindo e Satanás com todos seu poder se opondo, do que haveria para impedir o homem de cair, no início, quando Satanás não tinha nada no homem.

Assim, mostramos como os redimidos são dependentes de Deus para todo o seu bem, pois têm tudo vindo dele.

Segundo. Eles também são dependentes de Deus para tudo visto que têm tudo por meio dele. É Deus que é o meio, bem como o autor e a fonte de tudo. Tudo o que temos, sabedoria, perdão do pecado, libertação do inferno, aceitação no favor de Deus, graça e santidade, conforto e felicidade verdadeiros, vida eterna e glória, temos da parte de Deus por meio de um Mediador; e esse Mediador é Deus, de cujo Mediador temos absoluta dependência, como aquele por meio de quem recebemos tudo. Então, aqui está outra maneira pela qual temos nossa dependência de Deus para todo o bem. Deus não apenas nos dá o Mediador, aceita sua mediação e, a partir de seu poder e graça, concede as coisas compradas pelo Mediador, mas ele é o Mediador.

Nossas bênçãos são o que temos mediante compra; e a compra é feita por Deus, as bênçãos são compradas dele, e Deus dá ao comprador; e não apenas isso, mas Deus é o comprador. Sim, Deus é tanto o comprador quanto o preço; pois Cristo, que é Deus, comprou essas bênçãos para nós, oferecendo-se como o preço de nossa salvação. Ele comprou a vida eterna mediante o sacrifício de si mesmo; Hebreus 7.27, “a si mesmo se ofereceu”; e Hebreus 9.26: “se manifestou uma vez por todas, para aniquilar, pelo sacrifício de si mesmo, o pecado.” Na verdade, foi a natureza humana que foi oferecida, mas era uma mesma pessoa com a divina e, portanto, foi considerado um preço infinito. Foi considerado como se Deus tivesse sido oferecido em sacrifício.

Assim como temos nosso bem por meio de Deus, temos uma dependência de Deus em um aspecto que o homem em seu primeiro estado não tinha. Naquele tempo, o homem deveria ter a vida eterna por meio de sua própria justiça, de modo que ele dependia parcialmente do que estava em si mesmo. Pois temos dependência daquilo por meio do que temos nosso bem, bem como daquilo de onde o recebemos. E embora a justiça do homem, da qual ele dependia, fosse de fato de Deus, ainda assim era sua própria, era inerente a si mesmo; de modo que sua dependência não era tão imediatamente de Deus. Porém, agora, a justiça da qual dependemos não está em nós mesmos, mas em Deus. Somos salvos por meio da justiça de Cristo; ele “se nos tornou, da parte de Deus,... justiça”. E, por isso, é profetizado sob esse nome de "o Senhor, Justiça Nossa" (Jeremias 23.6). Nesta justiça, pela qual somos justificados, é a justiça de Cristo, é a justiça de Deus; 2 Coríntios 5.21, “Para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus”.

Assim, na redenção, não apenas temos todas as coisas vindas de Deus, mas mediante e por meio dele; 1 Coríntios 8.6: “Todavia, para nós há um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas e para quem existimos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós também, por ele”.

Terceiro. Os redimidos têm todo o seu bem em Deus. Não apenas o temos vindo dele e por meio dele, mas nosso bem consiste nele; ele é todo o nosso bem.

O bem dos redimidos é objetivo ou inerente. Por seu bem objetivo eu quero dizer aquele objeto extrínseco, em cuja posse e gozo eles são felizes. Seu bem inerente é aquela excelência ou prazer que está na própria alma. Com respeito a ambos os quais os redimidos têm todo o seu bem em Deus, ou, o que é a mesma coisa, Deus é todo o seu bem.

1. Os redimidos têm todo o seu bem objetivo em Deus. O próprio Deus é o grande bem ao qual eles são levados a possuir e a gozar por meio da redenção. Ele é o maior bem deles e a soma de todo o bem que Cristo comprou. Deus é a herança dos santos; ele é a porção de suas almas. Deus é sua riqueza e tesouro, seu alimento, sua vida, sua morada, seu ornamento e diadema, e sua eterna honra e glória. Os redimidos não têm ninguém no céu além de Deus; ele é o supremo bem ao qual os redimidos são recebidos na morte, e para o qual eles devem subir no fim do mundo. O Senhor Deus, ele é a luz da Jerusalém celestial, é o rio da água da vida que corre e a árvore da vida que cresce no meio do paraíso de Deus [Apocalipse 21.23; 22.1-2]. As gloriosas excelências e beleza de Deus serão o que nutrirão para sempre as mentes dos santos, e o amor de Deus será seu deleite eterno. Os redimidos, de fato, desfrutarão de outras coisas: eles desfrutarão dos anjos e desfrutarão uns dos outros; mas aquilo que eles desfrutarão nos anjos, ou uns nos outros, ou em qualquer outra coisa, aquilo que lhes trará deleite e felicidade será a visão de Deus neles.

2. Os redimidos têm todo o seu bem inerente em Deus. O bem inerente é duplo: ou é excelência ou é prazer. Estes, os redimidos não apenas derivam de Deus, como causados por ele, mas os têm nele. Eles têm excelência e alegria espirituais por meio de uma espécie de participação em Deus. Eles são feitos excelentes por meio de uma comunicação da excelência de Deus; Deus coloca sua própria beleza, isto é, sua bela semelhança, sobre suas almas. Eles são feitos “participantes da natureza divina”, ou da imagem moral de Deus (2 Pedro 1.4). Eles são santos ao serem feitos “participantes da santidade de Deus” (Hebreus 12.10). Os santos são lindos e abençoados por meio de uma comunicação da santidade e da alegria de Deus, assim como a lua e os planetas brilham por meio da luz do sol. O santo tem alegria e prazer espirituais por meio de uma espécie de efusão de Deus na alma. Os redimidos têm comunhão com Deus nestas coisas, isto é, eles participam com ele e dele.

Os santos têm sua excelência espiritual e bem-aventurança por meio do dom do Espírito Santo, ou Espírito de Deus, e mediante sua habitação neles. Eles não são apenas induzidos ​​pelo Espírito Santo, mas estão no Espírito Santo como seu princípio. O Espírito Santo que se torna um habitante é um princípio vital na alma. Ele age em, sobre e com a alma, torna-se uma fonte de verdadeira santidade e alegria, como uma fonte de água, por meio da aplicação e difusão de si mesmo; João 4.14, “Aquele, porém, que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para a vida eterna”; comparado com João 7.38-39: “Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva. Isto ele disse com respeito ao Espírito Santo que haviam de receber os que nele cressem.” A soma do que Cristo comprou para nós é aquela fonte de água mencionada no primeiro desses lugares, e esses rios de água viva mencionados no último. E a soma das bênçãos, que os redimidos receberão no céu, é aquele “rio da água da vida” que procede “do trono de Deus e do Cordeiro” (Apocalipse 22.1). O que, sem dúvida, significa o mesmo que aqueles “rios de água viva”, explicado [em] João 7.38-39; o qual é chamado em outro lugar de “torrentes das tuas delícias” [Salmos 36.8]. Nisto consiste a plenitude do bem que os santos recebem de Cristo. É por meio da participação do Espírito Santo que eles têm comunhão com Cristo em sua plenitude. Deus não deu a ele o Espírito por medida; e eles recebem de sua plenitude e graça sobre graça. Esta é a soma da herança dos santos e, portanto, é dito que aquele pouco do Espírito Santo que os crentes têm neste mundo é “o penhor da herança”; 2 Coríntios 1.22, “que também nos selou e nos deu penhor do Espírito em nosso coração”; e 2 Coríntios 5.5, “Ora, foi o próprio Deus quem nos preparou para isto, outorgando-nos o penhor do Espírito”; e Efésios 1.13-14, “Fostes selados com o Santo Espírito da promessa; o qual é o penhor da nossa herança, até ao resgate da sua propriedade.”

O Espírito Santo e as boas coisas são mencionadas nas Escrituras como a mesma coisa, como se o Espírito de Deus comunicado à alma compreendesse todas as boas coisas; Mateus 7.11: “Quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará boas coisas aos que lhe pedirem?” Em Lucas 11.13: “Quanto mais o Pai celestial dará o Espírito Santo àqueles que lho pedirem?” Esta é a soma das bênçãos que Cristo morreu para obter, e que são o objeto das promessas do evangelho; Gálatas 3.13-14: “fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar,... a fim de que recebêssemos, pela fé, o Espírito prometido.” O Espírito de Deus é a grande promessa do Pai; Lucas 24.49: “Eis que envio sobre vós a promessa de meu Pai”. O Espírito de Deus, consequentemente, é chamado de “Espírito da promessa” (Efésios 1.13). Cristo recebeu essa coisa prometida e foi entregue em suas mãos assim que terminou a obra de nossa redenção, a fim de conceder a todos que ele redimiu; Atos 2.33: “Exaltado, pois, à destra de Deus, tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou isto que vedes e ouvis.” De modo que toda a santidade e felicidade dos redimidos esteja em Deus. Está nas comunicações, na habitação e na atuação do Espírito de Deus. A santidade e a felicidade estão no fruto, aqui e no futuro, porque Deus habita neles, e eles, em Deus.

Igualmente, é Deus quem nos deu o Redentor, e é dele que nosso bem é comprado; assim é Deus que é o Redentor e o preço; e também é Deus que é o bem adquirido. De modo que tudo o que temos é de Deus, e por meio dele, e nele; Romanos 11.36: “Porque dele, e por meio dele, e para ele”, ou “nele”, “são todas as coisas”. O mesmo no grego, que aqui é traduzido “para ele”, é traduzido “nele” (1 Coríntios 8.6).[6]

II. Deus é glorificado na obra da redenção desta forma, a saber, por haver uma dependência tão grande e universal dos redimidos dele.

Primeiro. O homem tem muito maior ocasião e obrigação de tomar conhecimento e reconhecer as perfeições e toda a suficiência de Deus. Quanto maior a dependência da criatura das perfeições de Deus, e quanto maior o interesse que ele tem para com elas, tanto maior a ocasião ele tem para tomar conhecimento delas. Quanto maior o interesse que alguém tem para com e a dependência do poder e da graça de Deus, tanto maior ocasião ele tem para tomar conhecimento desse poder e graça. Quanto maior e mais imediata dependência existe da santidade divina, tanto maior é a ocasião para tomar conhecimento e reconhecer isso. Quanto maior e mais absoluta dependência temos das perfeições divinas, como pertencentes às várias pessoas da Trindade, tanto maior ocasião temos para observar e possuir a glória divina de cada uma delas. Aquilo em que estamos mais interessados é certamente o principal no modo de nossa observação e atenção; e esse tipo de interesse com alguma coisa, a saber, dependência, tende especialmente a recomendar e a obrigar a atenção e a observação. Aquelas coisas das quais não dependemos muito são fáceis de negligenciar, mas dificilmente podemos fazer outra coisa senão cuidar daquilo de que temos uma grande dependência. Em razão de nossa tão grande dependência de Deus e de suas perfeições, e em tantos aspectos, ele e sua glória são colocados mais diretamente em nossa visão, para onde quer que voltemos nossos olhos.

Temos a maior ocasião para tomar conhecimento da total suficiência de Deus quando toda a nossa suficiência é em tudo dependente dele. Temos mais ocasião para contemplá-lo como um bem infinito e como a fonte de todo bem. Tal dependência de Deus demonstra a total suficiência de Deus.

Quanto maior a dependência da criatura em Deus, tanto maior parece ser o vazio da criatura em si mesma; e quanto maior o vazio da criatura, tanto maior deve ser a plenitude do ser que a supre. O fato de termos tudo de Deus mostra a plenitude do seu poder e graça; o fato de termos tudo por meio dele mostra a plenitude de seu mérito e dignidade; e o fato de termos tudo nele demonstra sua plenitude de beleza, amor e felicidade.

E os redimidos, em razão da grandeza de sua dependência de Deus, não apenas têm a maior ocasião, mas a obrigação de contemplar e de reconhecer a glória e a plenitude de Deus. Quão irracionais e ingratos seríamos se não reconhecêssemos essa suficiência e glória, das quais dependemos absoluta, imediata e universalmente?

Segundo. Nisto é demonstrado quão grande a glória de Deus é considerada comparativamente, ou comparada com a da criatura. Pelo fato de a criatura ser assim, total e universalmente dependente de Deus, torna-se evidente que a criatura não é nada e que Deus é tudo. Nisto torna-se evidente que Deus está infinitamente acima de nós; que a força, a sabedoria e a santidade de Deus são infinitamente maiores que as nossas. Por maior e gloriosa que a criatura apreenda que Deus é, ainda assim, se ela não for sensível à diferença entre Deus e ela, de modo a ver que a glória de Deus é grande em comparação com a sua própria, ela não estará disposta a dar a Deus a glória devida ao seu nome. Se a criatura, em qualquer aspecto, se coloca no nível de Deus, ou exalta a si mesma a alguma competição com ele, por mais que possa apreender que grande honra e profundo respeito podem pertencer a Deus a partir daquilo em que são mais inferiores e mais distantes, [ela] não será tão sensível ao fato de sua existência ser devida a ele. Quanto mais os homens se exaltarem, certamente tanto menos estarão dispostos a exaltar a Deus. É certamente uma coisa que Deus visa na disposição das coisas na questão da redenção, se permitirmos que as Escrituras sejam a revelação da mente de Deus, este Deus deve mostrar-se cheio e o próprio homem vazio; este Deus se mostra tudo e o homem nada. É o propósito declarado de Deus que  outros não “se gloriem na sua presença”, o que implica que é seu propósito promover sua própria glória comparativa. Quanto mais o homem se gloria na presença de Deus, tanto menos glória é atribuída a Deus.

Terceiro. Ao ser ordenado que a criatura tenha uma dependência tão absoluta e universal de Deus desta forma, é feita a provisão para que Deus tenha toda a nossa alma e seja objeto de nosso apreço indiviso. Se tivéssemos nossa dependência em parte de Deus e em parte de outra coisa, o apreço do homem seria dividido entre as diferentes coisas das quais ele depende. Assim seria se dependêssemos de Deus apenas para uma parte do nosso bem, e de nós mesmos ou de algum outro ser para outra parte. Ou, se tivéssemos nosso bem somente de Deus, e por meio de outro que não fosse Deus, e em outra coisa distinta de ambos, nossos corações estariam divididos entre o bem em si, aquele de quem e aquele por quem o recebemos. Porém agora não há ocasião para isso, pois Deus não é apenas aquele da parte de ou de quem temos todo o bem, mas também por meio de quem, e aquele que é o próprio bem que temos dele e por meio dele. De modo que tudo o que há para atrair nosso apreço, a inclinação ainda é diretamente para Deus, tudo se une nele como o centro.

 

Uso

 

            I. Podemos observar aqui a maravilhosa sabedoria de Deus na obra da redenção. Deus fez do vazio e da miséria do homem, do seu estado vil, perdido e arruinado, ao qual ele foi reduzido pela queda, uma ocasião para a maior promoção da sua própria glória, como de outras maneiras tão particularmente nisso, que agora há muito mais dependência universal e evidente do homem em relação a Deus. Embora Deus tenha o prazer de levantar o homem deste abismo sombrio de pecado e aflição em que ele caiu, e exaltá-lo muitíssimo em excelência e honra, e a um alto grau de glória e bem-aventurança, ainda assim a criatura não tem nada em nenhum aspecto para gloriar-se; toda a glória evidentemente pertence a Deus, tudo está em uma mera e mais absoluta e divina dependência do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

E cada pessoa da Trindade é igualmente glorificada nesta obra. Há uma dependência absoluta da criatura de cada um para tudo: tudo é do Pai, tudo por meio do Filho e tudo no Espírito Santo. Assim, Deus é visto na obra da redenção como tudo em todos. É apropriado que aquele que “é, e não há outro” [Deuteronômio 4.35], seja o “Alfa e Ômega, o primeiro e o último” [Apocalipse 1.11], o tudo e o único nesta obra.

            II. Por essa razão, aquelas doutrinas e esquemas de teologia que são, em qualquer aspecto, opostos a uma dependência absoluta e universal de Deus, depreciam a glória de Deus e frustram o propósito do plano para nossa redenção. Aqueles esquemas que colocam a criatura no lugar de Deus, em qualquer um dos aspectos mencionados; que exaltam o homem no lugar do Pai, do Filho ou do Espírito Santo, em qualquer coisa que pertence à nossa redenção; que, não obstante, permitem uma dependência dos redimidos em Deus, mas negam uma dependência que seja tão absoluta e universal; que possuem total dependência de Deus para algumas coisas, mas não para outras; que reconhecem que dependemos de Deus para o dom e aceitação de um Redentor, mas negam uma dependência tão absoluta dele para a obtenção de interesse no Redentor; que possuem uma dependência absoluta do Pai para dar seu Filho, e do Filho para operar a redenção, mas não uma dependência tão completa do Espírito Santo para a conversão e o estar em Cristo, e, assim, chegar ao direito a seus benefícios; que possuem uma dependência de Deus para os meios de graça, mas não absolutamente para o benefício e sucesso desses meios; que possuem uma dependência parcial do poder de Deus a fim de obter e exercer a santidade, mas não uma mera dependência da graça arbitrária e soberana de Deus; que possuem uma dependência da graça gratuita de Deus para a recepção em seu favor, na medida em que não tem nenhum mérito próprio, mas não como ela é sem ser atraído ou movido com alguma excelência; que possuem uma dependência parcial de Cristo, como aquele por quem temos vida, como tendo adquirido novos termos de vida, mas ainda sustentam que a justiça pela qual temos vida é inerente a nós mesmos, como era sob a primeira aliança; e de qualquer outra maneira que qualquer esquema seja inconsistente com nossa total dependência de Deus para tudo, e em cada uma dessas maneiras, de ter tudo dele, por meio dele e nele, é repugnante ao propósito e teor do evangelho, e o rouba daquilo que Deus considera seu brilho e glória.

            III. Por esta razão, podemos descobrir uma razão pela qual a fé é aquilo pelo que passamos a ter interesse nessa redenção; pois está incluído na natureza da fé uma sensibilidade e um reconhecimento dessa dependência absoluta de Deus nesta questão. É muito apropriado que ela seja exigida de todos, para que tenham o benefício dessa redenção, de modo que sejam sensíveis e reconheçam essa dependência de Deus para isso. É por este meio que Deus planejou glorificar a si mesmo na redenção, e é apropriado que Deus tenha essa glória pelo menos daqueles que são os objetos dessa redenção e tenham o seu benefício.

A fé é uma sensibilidade do que é real na obra da redenção; e visto que dependemos totalmente de Deus, a alma que crê depende inteiramente de Deus para toda a salvação, em seu sentido e ato próprios. A fé humilha os homens e exalta a Deus, ela atribui toda a glória da redenção somente a Deus. É necessário, para a fé salvadora, que o homem se esvazie de si mesmo, que ele tenha consciência de que é “infeliz, miserável, pobre, cego e nu” [Apocalipse 3.17]. A humildade é um grande ingrediente da verdadeira fé; aquele que verdadeiramente recebe a redenção a recebe “como uma criança”; Marcos 10.15, “Quem não receber o reino de Deus como uma criança de maneira nenhuma entrará nele.” É o deleite de uma alma crente humilhar a si mesma e exaltar somente a Deus; essa é a sua linguagem, Salmo 115.1: “Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao teu nome dá glória.”[7]

4. Sejamos exortados a exaltar somente a Deus e a atribuir a ele toda a glória da redenção. Nos esforcemos para obter e para aumentar a sensibilidade de nossa grande dependência de Deus, para ter nossos olhos somente nele, para mortificar uma disposição de autodependência e de justiça própria. O homem é naturalmente muito propenso a exaltar a si mesmo e a depender de seu próprio poder ou bondade, como se ele fosse aquele de quem deve esperar a felicidade, e ter motivo para prazeres à parte de Deus e de seu Espírito como aqueles em que a felicidade deve ser encontrada.

E essa doutrina deve nos ensinar a exaltar somente a Deus tanto por meio da confiança e da dependência, como por meio do louvor. “Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor” [Jeremias 9:24].[8] Alguém espera que seja convertido e santificado, e que sua mente seja dotada da verdadeira excelência e beleza espiritual, e que seus pecados sejam perdoados, e que seja recebido no favor de Deus e exaltado à honra e bem-aventurança de ser seu filho e herdeiro da vida eterna; que atribua toda a glória a Deus, que sozinho o faz diferir do pior dos homens neste mundo, ou do mais miserável dos condenados no inferno. Alguém tem muito conforto e forte esperança de vida eterna, não deixe que sua esperança o exalte, mas o disponha a se humilhar ainda mais, a refletir sobre sua própria indignidade de tal favor e a exaltar somente a Deus. Existe alguém eminente em santidade e abundante em boas obras? Que não tome nada da glória disso para si mesmo, mas a atribua àquele de quem “somos feitura, criados em Cristo Jesus para boas obras” [Efésios 2.10].

 

Apêndice a Deus Glorificado na Dependência do Homem[9]

 

Ao Leitor

 

Não foi com pouca dificuldade que a juventude e modéstia do autor foram vencidas para que ele deixasse ser visto como pregador em nossa palestra pública, e depois nos dar uma cópia de seu discurso, a pedido de várias pessoas, ministros e outros, que o ouviram. Porém quão rapidamente descobrimos ser ele um obreiro que não precisa se envergonhar diante de seus irmãos, nossa satisfação foi maior ao vê-lo lançar-se sobre um assunto tão nobre, e tratá-lo com tanta força e clareza, como o leitor criterioso perceberá na seguinte compostura.

Um assunto que defende a Deus em seu grande propósito na obra da redenção do homem caído por meio do Senhor Jesus Cristo, que é evidentemente tão estabelecido que a glória do todo deve retornar a ele, o abençoado ordenador, comprador e aplicador. Um assunto que entra profundamente na religião prática, sem cuja crença isso deve morrer em breve nos corações e vidas dos homens.

Pois, proporcionalmente ao senso que temos de nossa dependência do Deus soberano para todo o bem que desejamos será nosso apreço por ele, nossa aplicação a ele, nossa confiança nele, nosso medo de ofendê-lo e nosso cuidado em agradá-lo; como também nossa gratidão e amor, nosso deleite e louvor, em nossa experiência sensível de seus benefícios gratuitos.

Em resumo, é a própria alma da piedade apreender e reconhecer que todas as nossas fontes estão nele, as fontes de nossa graça e conforto presentes, e de nossa glória e bem-aventurança futuras, e que todas elas fluem inteiramente através de Cristo mediante a eficaz influência do Espírito Santo. Os santos vivem por meio dessas coisas, e em todas essas coisas está a vida de nossos espíritos.

Doutrinas como essas que, humilhando a mente dos homens, os preparam para as exaltações de Deus. Elas finalmente conquistaram e prosperaram no mundo reformado e em nossa terra, especialmente nos dias de nossos antepassados; e esperamos que elas nunca fiquem fora de moda entre nós. Pois, estamos bem seguros, se estas que chamamos de doutrinas da graça vierem a ser desprezadas ou antipatizadas, a piedade vital definhará e se desgastará proporcionalmente, pois essas doutrinas sempre declinam na estima dos homens com a decadência da religião séria.

Não podemos, portanto, deixar de expressar nossa alegria e gratidão pelo grande cabeça da igreja ter o prazer de ainda levantar dentre os filhos de seu povo, para o suprimento de suas igrejas, aqueles que afirmam e sustentam esses princípios evangélicos; e que nossas igrejas (apesar de todas as suas degenerações) ainda têm alto apreço por tais princípios, e por aqueles que publicamente os possuem e os ensinam.

E, visto que não podemos deixar de desejar e de orar para que a faculdade da colônia vizinha (assim como a nossa) seja uma mãe frutífera de muitos filhos como o autor, pela bênção do céu sobre os cuidados de seu digno reitor, assim regozijamo-nos de todo o coração com o favor especial da providência em conceder um presente tão rico à feliz Igreja de Northampton que, por tantos anos floresceu sob a influência de doutrinas tão piedosas, ensinou-lhes no excelente ministério de seu falecido venerável pastor, cujos dons e espírito esperamos que vivam e brilhem por muito tempo neste seu neto, a fim de que abundem ainda mais em todos os belos frutos da humildade e gratidão evangélicas, para glória de Deus.

 

À sua bênção, entregamos todos com este discurso, e todos os que o lerem e são

Seus servos no evangelho,

 

T[homas] Prince W[illiam] Cooper[10]

Boston, 17 de agosto de 1731

 

Extraído de Sermons and Discouses, 1730-1733; WJE, Vol. 17; p. 197-217; org. Mark Valeri.

Disponível em www.edwards.yale.edu; JE Center; Yale University

Tradução: Paulo Arantes


[1] Impresso em Works, 14, 47-66.

[2] A doutrina do Deus é Glorificado é redigida quase como uma paráfrase de “Miscellanies” No. 486.

[3] Wilson H. Kimnach fornece uma descrição e análise completas das mudanças, do MS para a versão impressa, em Works, 10, 108-11, 148-53.

[4] No MS, JE escreveu “mas” onde aparece a reticências na versão impressa.

[5] Após esta citação, há hifens na versão impressa, um reflexo do MS, onde JE adiciona: “É uma nova criação; é uma ressurreição dos mortos”, sugerindo Efésios 1.20.

[6] JE apagou aqui o que segue no MS: “Temos tudo do Deus Pai por meio do Filho e no Espírito Santo, de modo que Deus é o Alfa e o Ômega na questão da Redenção.” No MS, a Aplicação vem logo a seguir, e a discussão de JE da segunda proposição é o final da sessão do sermão; a versão impressa inverte esta ordem.

[7] Para um precursor sermônico interessante e formativo, veja o sermão sobre o Salmo 115.1 (25) do outono de 1723.

[8] A citação é extraída de 1 Coríntios 1.31, embora seja indicado Jeremias 9.24, que diz: “mas oque se gloriar, glorie-se nisto: em me conhecer e saber que eu sou o Senhor e faço misericórdia e justiça na terra; porque destas coisas me agrado, diz o Senhor.” (NT)

[9] Esta nota ao leitor vem do prefácio da primeira edição dos patrocinadores de Deus é Glorificado.

[10] Thomas Prince (1687-1758) foi colega de Joseph Sewall na Boston’s Old South Church, de 1717 até sua morte; William Cooper (1694-1743) foi companheiro júnior de Benjamin Colman em Brattle Street Church, Boston. Ambos os ministros se tornaram companheiros íntimos de JE.

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