God Glorified in Man's Dependence (Deus é glorificado na dependência do homem) foi a primeira obra de Edwards publicada. Esse sermão foi, originalmente, proferido em Northampton, no outono de 1730; em 8 de julho de 1731, ele o pregou em uma assembleia do clero em Boston, logo após o que foi impresso. Um de seus esforços mais notáveis, o sermão foi reimpresso com frequência em edições subsequentes de sua obra, incluindo a edição de Dwight (8, 147-62).
Aqui, Edwards
pega muitos dos temas em que vinha trabalhando em seus cadernos particulares e
outros sermões da época, e os reúne em uma declaração elegante e bem ajustada
em defesa do preceito evangélico de que os seres humanos estão tão caídos que
são totalmente dependentes de Deus para o bem espiritual, especialmente para a
salvação. Claramente, Edwards ajustou seus conceitos para combater o
arminianismo e, assim, levou adiante a polêmica que ele havia começado com sua Master's
Quaestio, (Busca do Mestre) em 1723.[1]
A esta altura, o sermão também reflete outros esforços deste período, tal como God
Makes Men Sensible of Their Misery (Deus torna os homens sensíveis a sua
miséria), para articular a importância da humilhação evangélica.[2]
Deus é Glorificado, porém, adota uma estratégia retórica diferente. Em vez de
enfatizar as dimensões afetivas da humilhação, Edwards defende a visão
calvinista da natureza humana ligando-a à doutrina da Trindade.
Na Explicação,
Edwards argumenta que as pessoas dependem de Cristo para a redenção, de Deus
para Cristo e do Espírito Santo para a fé que os une a Cristo. No primeiro
grande tópico da Doutrina, ele segue essa estrutura trinitária. Os redimidos
têm todo o seu bem de (ou vindo de) Deus, o que significa que eles,
desamparados em seus estados pecaminosos, dependem exclusivamente de Deus para
o poder de torná-los santos. Os remidos também têm todo o seu bem por meio do
dom de Deus do Mediador, Cristo, que os justifica. Além disso, os remidos têm
todo o seu bem em Deus, que os torna moralmente excelentes pela presença do
Espírito Santo.
Esses temas
também são evidentes no manuscrito “Discourse on the Trinity” (Discurso
sobre a Trindade) de Edwards (também conhecido como “Essay on the Trinity” (Ensaio
sobre a Trindade), parte do qual ele redigiu durante o mesmo período no
qual ele escreveu Deus é Glorificado. Contudo, enquanto seu escrito
sobre a Trindade foi filosoficamente extenso, cobrindo alguns tópicos como a
natureza do ser e da revelação de Deus, Deus é Glorificado enfatiza mais
estreitamente a doutrina protestante da justificação somente pela fé. Se os
seres humanos são tão dependentes de Deus, raciocina Edwards no sermão, então
Deus os redime por “mera e arbitrária graça”, o que quer dizer, por meio da
obra de Cristo e da presença do Espírito. Por implicação, os conceitos
arminianos sobre a natureza humana, os quais negam a total dependência da
humanidade de Deus, efetivamente contradiz a lógica da Trindade.
Edwards segue
este último ponto mais detalhadamente sob a segunda proposição da Doutrina. Ele
argumenta que é esta verdadeira doutrina do pecado e da dependência humana, em
vez de qualquer suposição de bondade humana ou capacidade moral, que glorifica
a Deus. Aqui e na Aplicação, um apelo à fé, o sermão alcança toda a sua força
retórica. A visão teocêntrica de Edwards de Deus como Redentor o leva a uma
conclusão quase doxológica.
***
Impresso em
Boston, em 1731, por Samuel Kneeland e Timothy Green, o texto publicado é um
panfleto em oitavo de vinte e oito páginas. Seu título completo é God
Glorified in the Work of Redemption, By the Greatness of Man's Dependence upon
Him, in the Whole of it. Preached on the Public Lecture in Boston, July 8,
1731 (Deus é Glorificado na Obra da Redenção, Mediante a Grandeza da
Dependência do Homem Dele, na Totalidade dela. Pregado na Palestra Pública,
em Boston, 8 de julho de 1731). Uma inscrição, na página de rosto, cita Juízes
7.2. O título curto no início do texto é Deus é glorificado na dependência
do homem. Precedendo o texto, há um prefácio de duas páginas, “Ao Leitor”,
de Thomas Prince e William Cooper, uma recomendação do sermão e de seu autor.
Ele está incluído como um apêndice ao sermão neste volume.
O manuscrito é
um típico livrinho duodécimo, que consiste em catorze folhas bem conservadas.
Ao preparar o sermão para a publicação, Edwards fez um número significativo de
revisões, incluindo correção de frases repetidas e expansão de vários pontos,
mais particularmente na adição da segunda proposição da Doutrina e do segundo
tópico da Aplicação, ou Uso. Algumas dessas mudanças estão marcadas no
manuscrito, outras não.[3]
Deus é Glorificado na
Dependência do Homem
“A
fim de que ninguém se vanglorie em presença de Deus. Mas vós sois dele, em
Cristo Jesus, o qual se nos tornou, da parte de Deus, sabedoria, e justiça, e santificação, e
redenção, para que, como está escrito: Aquele que se gloria, glorie-se no
Senhor.” (1 Coríntios 1.29-31)
Aqueles
cristãos, a quem o apóstolo dirigiu esta epístola, moravam em uma parte do
mundo onde a sabedoria humana tinha grande reputação; e, como o apóstolo diz em
1 Coríntios 1.22 deste capítulo: “Os gregos buscam sabedoria”. Corinto não
ficava muito longe de Atenas, que fora, por muitas eras, a mais famosa sede da
filosofia e da erudição do mundo.
O apóstolo,
por esta razão, os faz perceber como Deus, mediante o evangelho, destruiu e
reduziu a zero sua sabedoria humana. Os eruditos gregos e seus grandes
filósofos não conheciam a Deus por meio de toda a sua sabedoria; eles não foram
capazes de descobrir a verdade nas coisas divinas. Porém, após terem feito seu
máximo em vão, agradou a Deus finalmente revelar-se mediante o evangelho, o
qual eles consideravam loucura. Deus escolheu “as coisas loucas do mundo para
envergonhar os sábios e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as
fortes; e Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e
aquelas que não são, para reduzir a nada as que são” (1 Coríntios 1.27-28). E o
apóstolo os informa a razão pela qual ele fez isso no versículo do texto: “a
fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus. Mas vós sois dele, em
Cristo Jesus, o qual se nos tornou, da parte de Deus, sabedoria, e justiça, e
santificação, e redenção, para que, como está escrito: Aquele que se gloria,
glorie-se no Senhor”.
Em cujas
palavras pode ser observado:
1. O que Deus
almeja na disposição das coisas no caso da redenção, a saber, que o homem não
se glorie em si mesmo, mas somente em Deus: “a fim de que ninguém se vanglorie
na presença de Deus... para que, como está escrito: Aquele que se gloria,
glorie-se no Senhor”.[4]
2. Como este
fim é alcançado na obra de redenção, a saber, mediante aquela dependência
absoluta e imediata que os homens têm de Deus nessa obra, para todo o seu bem.
Visto que:
(1) Todo o bem
que os homens têm é em e por meio de Cristo; ele “se nos tornou, da parte de
Deus, sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção” (1 Coríntios 1.30).
Todo o bem da criatura caída e redimida está relacionado com essas quatro
coisas, e não pode estar mais bem distribuído do que nelas; somente Cristo é
cada uma delas para nós, e não temos nenhuma delas senão nele. Ele “se nos
tornou, da parte de Deus, sabedoria”; nele estão todo o próprio bem e a
verdadeira excelência do entendimento. A sabedoria era uma coisa que os gregos
admiravam, somente Cristo é a verdadeira luz do mundo; é somente por meio dele
que a verdadeira sabedoria é comunicada à mente. É em e por meio de Cristo que
temos justiça; é mediante o estar nele que somos justificados, temos nossos
pecados perdoados e somos recebidos como justos no favor de Deus. É por meio de
Cristo que temos santificação; temos nele verdadeira excelência de coração, bem
como de entendimento; e ele se nos tornou justiça inerente e imputada. É por
meio de Cristo que temos redenção, ou a libertação real de toda miséria, e a
concessão de toda felicidade e glória. Desse modo, temos todo o nosso bem por
meio de Cristo, que é Deus.
(2) Outro
exemplo no qual se torna visível nossa dependência de Deus para todo o nosso
bem é que é Deus quem nos deu Cristo, para que possamos ter esses benefícios
por meio dele; ele “se nos tornou, da parte de Deus sabedoria, e justiça, e
santificação, e redenção”.
(3) É da parte
dele que estamos em Cristo Jesus e passamos a ter interesse nele, e, assim,
recebemos as bênçãos que ele se tornou para nós. É Deus quem dá a fé pela qual
nos unimos a Cristo.
De modo que,
neste versículo, é mostrada nossa dependência de cada pessoa na Trindade para
todo o nosso bem. Somos dependentes de Cristo, o Filho de Deus, pois ele é
nossa sabedoria, justiça, santificação e redenção. Somos dependentes do Pai,
que nos deu Cristo, e o fez para ser essas coisas para nós. Somos dependentes
do Espírito Santo, pois é por ele que estamos em Cristo Jesus; é o Espírito de
Deus que nos dá fé nele, pela qual o recebemos e nos aproximamos dele.
Doutrina.
Deus
é glorificado na sabedoria da redenção nisto, que torna-se visível nela quão
absoluta e universal é a dependência do redimido dele.
Aqui, me proponho a mostrar:
I. Que há uma dependência
absoluta e universal do redimido de Deus para todo o seu bem.
II. Que Deus é exaltado e
glorificado na obra da redenção dessa forma.
I. Há uma
dependência absoluta e universal dos redimidos em Deus. A natureza e o plano de
nossa redenção são tais que os redimidos são, em tudo, direta, imediata e
inteiramente dependentes de Deus. Eles dependem dele para tudo, e dependem dele
em todos os sentidos.
As várias
maneiras em que a dependência de um ser pode estar em outro para seu bem, e em
que os redimidos por Jesus Cristo dependem de Deus para todo o seu bem, são
estas, a saber, que eles têm todo o seu bem dele, que eles têm tudo por
meio dele, e que eles têm tudo nele. De modo que ele é a causa e a
origem de onde todo o nosso bem vem, no que é dele; de modo que ele é o
meio pelo qual é obtido e transmitido, no que eles o têm por meio dele;
e de modo que ele é o próprio bem que é dado e transmitido, no que está nele.
Ora, aqueles
que são redimidos por Jesus Cristo dependem muito direta e inteiramente de Deus
para tudo em todos esses aspectos.
Primeiro.
Os remidos têm todo o seu bem de Deus. Deus é seu grande autor; ele é a
causa primeira dele, e não apenas isso, mas ele é a única causa propriamente
dita.
É de
Deus que temos nosso Redentor. É Deus que providenciou um Salvador para nós.
Jesus Cristo não é somente de Deus em sua pessoa, visto que é o Filho unigênito
de Deus, mas ele é de Deus no que diz respeito a nós nele e em seu ofício de
mediador. Ele é o dom de Deus para nós; Deus o escolheu e o ungiu, lhe designou
sua obra e o enviou ao mundo.
E, assim como
é Deus que dá, assim também é Deus que aceita o Salvador. Assim como é Deus que
provê e dá o Redentor para comprar a salvação para nós, assim também é de
Deus que essa salvação é comprada. Ele dá o comprador e fornece a coisa
comprada.
É da parte de
Deus que Cristo se torna nosso, para que sejamos levados a ele e unidos a ele.
É de Deus que recebemos fé para nos unirmos a ele, para que possamos ter
interesse nele; Efésios 2.8: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e
isto não vem de vós; é dom de Deus.” É de Deus que realmente recebemos todos os
benefícios que Cristo adquiriu. É Deus que perdoa, justifica e liberta da
descida ao inferno; e é por seu favor que os redimidos são recebidos e feitos
objetos desse favor, quando são justificados. Igualmente, é Deus que livra do
domínio do pecado, nos purifica de nossa imundícia e nos muda de nossa
deformidade. É de Deus que os redimidos recebem toda a sua verdadeira
excelência, sabedoria e santidade; e isto de duas maneiras, a saber: visto que o
Espírito Santo, por quem essas coisas são imediatamente operadas, é de Deus,
procede dele e é enviado por ele; e também visto que o próprio Espírito Santo é
Deus, por cuja operação e habitação o conhecimento de Deus e das coisas
divinas, uma disposição santa e toda graça são concedidas e mantidas.
E embora meios
sejam usados para conceder graça às almas dos homens, ainda assim, é de Deus
que temos esses meios de graça, e é Deus que os torna eficazes. É de Deus que
temos as Sagradas Escrituras; elas são a Palavra de Deus. É de Deus que temos
as ordenanças, e sua eficácia depende da influência imediata do Espírito de
Deus. Os ministros do evangelho são enviados por Deus, e toda a sua suficiência
é dele; 2 Coríntios 4.7: “Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para
que a excelência do poder seja de Deus e não de nós”. Seu sucesso depende total
e absolutamente da bênção e da influência imediatas de Deus.
Os redimidos
têm tudo:
1. Da graça de
Deus. Foi por mera graça que Deus nos deu seu Filho unigênito. A graça é
magnífica em proporção à dignidade e excelência do que é dado. O dom foi
infinitamente precioso porque foi de uma pessoa infinitamente digna, uma pessoa
de glória infinita; e também porque foi de uma pessoa infinitamente próxima de
Deus e amada por ele. A graça é magnífica na proporção do benefício que nos é
dado nele. O benefício é duplamente infinito no que temos nele, libertação de
uma miséria infinita, porque é eterna, e
também recebemos alegria e glória eternas. A graça em conceder este dom é
magnífica em proporção à nossa indignidade a quem é dada. Em vez de merecer tal
dom, merecemos infinitamente o mal das mãos de Deus. A graça é magnífica de
acordo com a maneira que é dada, ou em proporção à humilhação e custo do método
e do meio pelo qual foi aberto o caminho para termos o dom. Ele o deu para nós
habitando entre nós; ele o deu a nós encarnado, ou em nossa própria natureza;
ele o deu a nós em nossa natureza, em enfermidades semelhantes, nas quais o
temos em nosso estado caído, e que nos acompanham e são ocasionados pela
corrupção pecaminosa de nossa natureza. Ele o deu a nós em um estado humilde e
aflito; e não apenas isso, mas ele o deu a nós morto para que ele pudesse ser
um banquete para nossas almas.
A graça de
Deus em conceder este dom é muitíssimo livre. Não foi o que Deus tinha
obrigação de conceder. Ele poderia ter rejeitado o homem caído, como fez com os
anjos caídos. Nunca fizemos nada para merecê-la; foi dada enquanto ainda éramos
inimigos e antes de nos arrependermos. Ela existe a partir do amor de Deus que
viu em nós excelência para atraí-la; e existe sem a expectativa de ser
recompensada por isso.
E é por mera
graça que os benefícios de Cristo são aplicados a tais e tais pessoas em
particular. Aqueles que são chamados e santificados devem atribuir isso somente
ao beneplácito da bondade de Deus, pelo qual eles são distinguidos. Ele é
soberano e tem misericórdia de quem quer, e a quem quer, ele endurece.
O homem tem,
agora, uma maior dependência da graça de Deus do que tinha antes da queda. Ele
depende da bondade gratuita de Deus para muito mais do que dependia então.
Naquele tempo, ele dependia da bondade de Deus para conceder a recompensa pela
obediência perfeita; pois Deus não era obrigado a prometer e conceder essa
recompensa. Agora, porém, dependemos da graça de Deus para muito mais. Temos
necessidade de graça, não apenas para nos dar glória, mas para nos livrar do
inferno e da ira eterna. Sob a primeira aliança, dependíamos da bondade de Deus
para nos dar a recompensa da justiça; e assim dependemos agora. E não apenas
isso, mas necessitamos da graça livre e soberana de Deus para nos dar essa
justiça; e, no entanto, não apenas isso, mas precisamos de sua graça para
perdoar nosso pecado e nos libertar da culpa e do seu infinito demérito.
E visto
que somos dependentes da bondade de Deus
por mais tempo agora do que sob a primeira aliança, também dependemos de uma
bondade muito maior, mais livre e maravilhosa. Estamos, agora, mais dependentes
do beneplácito arbitrário e soberano de Deus. Éramos, em nosso primeiro estado,
dependentes de Deus para a santidade; tínhamos nossa justiça original vinda
dele, mas naquele tempo a santidade não foi concedida da forma como o
beneplácito soberano concede agora. O homem foi criado santo, e convinha a Deus
criar santas todas as criaturas racionais que ele criou; seria uma depreciação
da santidade da natureza de Deus se ele tivesse feito uma criatura inteligente
não santa. Agora, porém, quando o homem é feito santo, é por mera e arbitrária
graça; Deus pode negar a santidade à criatura caída para sempre se ele quiser,
sem qualquer depreciação de qualquer uma de suas perfeições.
E, de fato,
não somos apenas mais dependentes da graça de Deus, mas nossa dependência é
muito mais evidente, porque nossa própria insuficiência e impotência em nós
mesmos é muito mais evidente, em nosso estado caído e arruinado, do que era
antes de sermos pecadores ou miserável. Evidentemente somos mais dependentes de
Deus para a santidade, porque somos primeiro pecadores e totalmente poluídos,
e, depois, santos; deste modo, a produção do efeito é sensível e sua derivação
de Deus mais óbvia. Se o homem fosse sempre santo e sempre assim, não seria tão
evidente que ele não tinha santidade necessariamente como uma qualificação inseparável
da natureza humana. Portanto, somos mais claramente dependentes da livre graça
para o favor de Deus, pois primeiro somos justamente os objetos de seu
desprazer e, depois, somos recebidos em favor. Claramente somos mais
dependentes de Deus para a felicidade, sendo primeiro miseráveis e, depois,
felizes. Claramente é mais livre e sem mérito em nós porque, na verdade, não
temos nenhum tipo de excelência a merecer, se pode haver mérito na excelência
da criatura. E não estamos apenas sem qualquer excelência verdadeira, mas
estamos cheios e totalmente corrompidos com o que é infinitamente odioso. Muito
claramente todo o nosso bem é proveniente de Deus porque, primeiro, estamos nus
e totalmente sem nenhum bem e, depois, somos enriquecidos com todo o bem.
2. Recebemos
tudo do poder de Deus. A redenção do homem é frequentemente mencionada como uma
obra do poder maravilhoso, bem como da graça. O grande poder de Deus se torna
visível ao trazer um pecador de seu estado vil, das profundezas do pecado e da
miséria, para um estado tão exaltado de santidade e felicidade; Efésios 1.19,
“E qual é a suprema grandeza do seu poder para com os que cremos, segundo a
eficácia da força do seu poder.”[5]
Somos
dependentes do poder de Deus em cada passo de nossa redenção. Somos dependentes
do poder de Deus para nos converter, nos dar fé em Jesus Cristo e a nova
natureza. É uma obra de criação: “Se alguém está em Cristo, é nova criatura” (2
Coríntios 5.17); “Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus” (Efésios
2.10). A criatura caída não pode alcançar a verdadeira santidade, exceto
mediante o ser criada novamente; Efésios 4.24: “E vos revistais do novo homem,
criado segundo Deus em justiça e retidão procedentes da verdade.” É uma
ressurreição dos mortos; Colossenses 2.12, “no qual igualmente fostes
ressuscitados mediante a fé no poder de Deus que o ressuscitou dentre os
mortos.” Sim, é uma obra de poder mais gloriosa do que a simples criação, ou
ressuscitar um corpo morto, pois o efeito obtido é maior e mais excelente. Aquela
existência santa e feliz, e a vida espiritual que são alcançadas na obra da
conversão, são um efeito muito maior e mais glorioso do que a mera existência e
vida. E o estado de onde a mudança é produzida, de tal morte no pecado, da
total corrupção da natureza e da profundidade da miséria, é muito mais distante
do estado alcançado do que a mera morte ou não-existência.
É também pelo
poder de Deus que somos preservados no estado de graça; 1 Pedro 1.5, “que sois
guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação.” Visto que a
graça vem inicialmente de Deus, assim ela vem continuamente dele e é mantida
por ele, tanto quanto a luz, na atmosfera, todo dia vem do sol, bem como ao
amanhecer ou ao nascer do sol.
Os homens são
dependentes do poder de Deus para cada exercício da graça, para a continuidade
da obra da graça no coração, para subjugar o pecado e a corrupção, para
crescimento dos santos princípios, para capacitar a produzir frutos em boas
obras e, finalmente, para conduzir a graça à sua perfeição, tornando a alma
completamente amável na gloriosa semelhança de Cristo, enchendo-a de alegria e
bem-aventurança satisfatórias; e para a ressurreição do corpo, e para um estado
tão perfeito que seja adequado como habitação e órgão para uma alma tão perfeita
e abençoada. Estes são os efeitos mais gloriosos do poder de Deus que são
vistos na série de atos de Deus com respeito às criaturas.
O homem era
dependente do poder de Deus em seu primeiro estado, mas ele é mais dependente
desse poder agora. Ele precisa do poder de Deus para fazer mais coisas por ele,
e depende de um exercício mais maravilhoso de seu poder. Foi um efeito do poder
de Deus fazer os homens santos, no início; mas de modo mais notável agora,
porque há muita oposição e dificuldade no caminho. É um efeito mais glorioso do
poder tornar santo aquele que era tão depravado e estava sob o domínio do
pecado do que conceder santidade ao que antes não tinha nada em contrário. É
uma obra de poder mais gloriosa resgatar uma alma das mãos do diabo e dos poderes
das trevas, e trazê-la a um estado de salvação, do que conceder santidade onde
não havia predisposição ou oposição; Lucas 11.21-22: “Quando o valente, bem
armado, guarda a sua própria casa, ficam em segurança todos os seus bens.
Sobrevindo, porém, um mais valente do que ele, vence-o, tira-lhe toda a
armadura em que confiava e lhe divide os despojos.” Portanto, é uma obra de
poder mais gloriosa manter uma alma em estado de graça e de santidade, e
levá-la adiante até que seja conduzida à glória, quando há tanto pecado
remanescente no coração resistindo e Satanás com todos seu poder se opondo, do
que haveria para impedir o homem de cair, no início, quando Satanás não tinha
nada no homem.
Assim,
mostramos como os redimidos são dependentes de Deus para todo o seu bem, pois
têm tudo vindo dele.
Segundo.
Eles também são dependentes de Deus para tudo visto que têm tudo por meio dele.
É Deus que é o meio, bem como o autor e a fonte de tudo. Tudo o que temos,
sabedoria, perdão do pecado, libertação do inferno, aceitação no favor de Deus,
graça e santidade, conforto e felicidade verdadeiros, vida eterna e glória,
temos da parte de Deus por meio de um Mediador; e esse Mediador é Deus, de cujo
Mediador temos absoluta dependência, como aquele por meio de quem recebemos tudo.
Então, aqui está outra maneira pela qual temos nossa dependência de Deus para
todo o bem. Deus não apenas nos dá o Mediador, aceita sua mediação e, a partir
de seu poder e graça, concede as coisas compradas pelo Mediador, mas ele é o
Mediador.
Nossas bênçãos
são o que temos mediante compra; e a compra é feita por Deus, as bênçãos são
compradas dele, e Deus dá ao comprador; e não apenas isso, mas Deus é o
comprador. Sim, Deus é tanto o comprador quanto o preço; pois Cristo, que é
Deus, comprou essas bênçãos para nós, oferecendo-se como o preço de nossa
salvação. Ele comprou a vida eterna mediante o sacrifício de si mesmo; Hebreus
7.27, “a si mesmo se ofereceu”; e Hebreus 9.26: “se manifestou uma vez por
todas, para aniquilar, pelo sacrifício de si mesmo, o pecado.” Na verdade, foi
a natureza humana que foi oferecida, mas era uma mesma pessoa com a divina e,
portanto, foi considerado um preço infinito. Foi considerado como se Deus
tivesse sido oferecido em sacrifício.
Assim como
temos nosso bem por meio de Deus, temos uma dependência de Deus em um aspecto
que o homem em seu primeiro estado não tinha. Naquele tempo, o homem deveria
ter a vida eterna por meio de sua própria justiça, de modo que ele dependia
parcialmente do que estava em si mesmo. Pois temos dependência daquilo por meio
do que temos nosso bem, bem como daquilo de onde o recebemos. E embora a
justiça do homem, da qual ele dependia, fosse de fato de Deus, ainda assim era
sua própria, era inerente a si mesmo; de modo que sua dependência não era tão
imediatamente de Deus. Porém, agora, a justiça da qual dependemos não está em
nós mesmos, mas em Deus. Somos salvos por meio da justiça de Cristo; ele “se
nos tornou, da parte de Deus,... justiça”. E, por isso, é profetizado sob esse
nome de "o Senhor, Justiça Nossa" (Jeremias 23.6). Nesta justiça,
pela qual somos justificados, é a justiça de Cristo, é a justiça de Deus; 2
Coríntios 5.21, “Para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus”.
Assim, na
redenção, não apenas temos todas as coisas vindas de Deus, mas mediante e por
meio dele; 1 Coríntios 8.6: “Todavia, para nós há um só Deus, o Pai, de quem
são todas as coisas e para quem existimos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo
qual são todas as coisas, e nós também, por ele”.
Terceiro.
Os redimidos têm todo o seu bem em Deus. Não apenas o temos vindo dele e por
meio dele, mas nosso bem consiste nele; ele é todo o nosso bem.
O bem dos
redimidos é objetivo ou inerente. Por seu bem objetivo eu quero dizer aquele
objeto extrínseco, em cuja posse e gozo eles são felizes. Seu bem inerente é
aquela excelência ou prazer que está na própria alma. Com respeito a ambos os
quais os redimidos têm todo o seu bem em Deus, ou, o que é a mesma coisa, Deus
é todo o seu bem.
1. Os
redimidos têm todo o seu bem objetivo em Deus. O próprio Deus é o grande bem ao
qual eles são levados a possuir e a gozar por meio da redenção. Ele é o maior
bem deles e a soma de todo o bem que Cristo comprou. Deus é a herança dos
santos; ele é a porção de suas almas. Deus é sua riqueza e tesouro, seu
alimento, sua vida, sua morada, seu ornamento e diadema, e sua eterna honra e
glória. Os redimidos não têm ninguém no céu além de Deus; ele é o supremo bem
ao qual os redimidos são recebidos na morte, e para o qual eles devem subir no
fim do mundo. O Senhor Deus, ele é a luz da Jerusalém celestial, é o rio da
água da vida que corre e a árvore da vida que cresce no meio do paraíso de Deus
[Apocalipse 21.23; 22.1-2]. As gloriosas excelências e beleza de Deus serão o
que nutrirão para sempre as mentes dos santos, e o amor de Deus será seu
deleite eterno. Os redimidos, de fato, desfrutarão de outras coisas: eles
desfrutarão dos anjos e desfrutarão uns dos outros; mas aquilo que eles
desfrutarão nos anjos, ou uns nos outros, ou em qualquer outra coisa, aquilo que
lhes trará deleite e felicidade será a visão de Deus neles.
2. Os
redimidos têm todo o seu bem inerente em Deus. O bem inerente é duplo: ou é
excelência ou é prazer. Estes, os redimidos não apenas derivam de Deus, como
causados por ele, mas os têm nele. Eles têm excelência e alegria espirituais
por meio de uma espécie de participação em Deus. Eles são feitos excelentes por
meio de uma comunicação da excelência de Deus; Deus coloca sua própria beleza,
isto é, sua bela semelhança, sobre suas almas. Eles são feitos “participantes
da natureza divina”, ou da imagem moral de Deus (2 Pedro 1.4). Eles são santos
ao serem feitos “participantes da santidade de Deus” (Hebreus 12.10). Os santos
são lindos e abençoados por meio de uma comunicação da santidade e da alegria
de Deus, assim como a lua e os planetas brilham por meio da luz do sol. O santo
tem alegria e prazer espirituais por meio de uma espécie de efusão de Deus na
alma. Os redimidos têm comunhão com Deus nestas coisas, isto é, eles participam
com ele e dele.
Os santos têm
sua excelência espiritual e bem-aventurança por meio do dom do Espírito Santo,
ou Espírito de Deus, e mediante sua habitação neles. Eles não são apenas
induzidos pelo Espírito Santo, mas estão no Espírito Santo como seu
princípio. O Espírito Santo que se torna um habitante é um princípio vital na
alma. Ele age em, sobre e com a alma, torna-se uma fonte de verdadeira
santidade e alegria, como uma fonte de água, por meio da aplicação e difusão de
si mesmo; João 4.14, “Aquele, porém, que beber da água que eu lhe der nunca
mais terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der será nele uma fonte a
jorrar para a vida eterna”; comparado com João 7.38-39: “Quem crer em mim, como
diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva. Isto ele disse com
respeito ao Espírito Santo que haviam de receber os que nele cressem.” A soma
do que Cristo comprou para nós é aquela fonte de água mencionada no primeiro
desses lugares, e esses rios de água viva mencionados no último. E a soma das
bênçãos, que os redimidos receberão no céu, é aquele “rio da água da vida” que
procede “do trono de Deus e do Cordeiro” (Apocalipse 22.1). O que, sem dúvida,
significa o mesmo que aqueles “rios de água viva”, explicado [em] João 7.38-39;
o qual é chamado em outro lugar de “torrentes das tuas delícias” [Salmos 36.8].
Nisto consiste a plenitude do bem que os santos recebem de Cristo. É por meio
da participação do Espírito Santo que eles têm comunhão com Cristo em sua
plenitude. Deus não deu a ele o Espírito por medida; e eles recebem de sua
plenitude e graça sobre graça. Esta é a soma da herança dos santos e, portanto,
é dito que aquele pouco do Espírito Santo que os crentes têm neste mundo é “o
penhor da herança”; 2 Coríntios 1.22, “que também nos selou e nos deu penhor do
Espírito em nosso coração”; e 2 Coríntios 5.5, “Ora, foi o próprio Deus quem
nos preparou para isto, outorgando-nos o penhor do Espírito”; e Efésios
1.13-14, “Fostes selados com o Santo Espírito da promessa; o qual é o penhor da
nossa herança, até ao resgate da sua propriedade.”
O Espírito
Santo e as boas coisas são mencionadas nas Escrituras como a mesma coisa, como
se o Espírito de Deus comunicado à alma compreendesse todas as boas coisas;
Mateus 7.11: “Quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará boas coisas aos
que lhe pedirem?” Em Lucas 11.13: “Quanto mais o Pai celestial dará o Espírito
Santo àqueles que lho pedirem?” Esta é a soma das bênçãos que Cristo morreu
para obter, e que são o objeto das promessas do evangelho; Gálatas 3.13-14:
“fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar,... a fim de que recebêssemos,
pela fé, o Espírito prometido.” O Espírito de Deus é a grande promessa do Pai;
Lucas 24.49: “Eis que envio sobre vós a promessa de meu Pai”. O Espírito de
Deus, consequentemente, é chamado de “Espírito da promessa” (Efésios 1.13).
Cristo recebeu essa coisa prometida e foi entregue em suas mãos assim que
terminou a obra de nossa redenção, a fim de conceder a todos que ele redimiu;
Atos 2.33: “Exaltado, pois, à destra de Deus, tendo recebido do Pai a promessa
do Espírito Santo, derramou isto que vedes e ouvis.” De modo que toda a
santidade e felicidade dos redimidos esteja em Deus. Está nas comunicações, na
habitação e na atuação do Espírito de Deus. A santidade e a felicidade estão no
fruto, aqui e no futuro, porque Deus habita neles, e eles, em Deus.
Igualmente, é
Deus quem nos deu o Redentor, e é dele que nosso bem é comprado; assim é Deus
que é o Redentor e o preço; e também é Deus que é o bem adquirido. De modo que
tudo o que temos é de Deus, e por meio dele, e nele; Romanos 11.36: “Porque
dele, e por meio dele, e para ele”, ou “nele”, “são todas as coisas”. O mesmo
no grego, que aqui é traduzido “para ele”, é traduzido “nele” (1 Coríntios
8.6).[6]
II. Deus é
glorificado na obra da redenção desta forma, a saber, por haver uma dependência
tão grande e universal dos redimidos dele.
Primeiro.
O homem tem muito maior ocasião e obrigação de tomar conhecimento e reconhecer
as perfeições e toda a suficiência de Deus. Quanto maior a dependência da criatura
das perfeições de Deus, e quanto maior o interesse que ele tem para com elas,
tanto maior a ocasião ele tem para tomar conhecimento delas. Quanto maior o
interesse que alguém tem para com e a dependência do poder e da graça de Deus,
tanto maior ocasião ele tem para tomar conhecimento desse poder e graça. Quanto
maior e mais imediata dependência existe da santidade divina, tanto maior é a
ocasião para tomar conhecimento e reconhecer isso. Quanto maior e mais absoluta
dependência temos das perfeições divinas, como pertencentes às várias pessoas
da Trindade, tanto maior ocasião temos para observar e possuir a glória divina
de cada uma delas. Aquilo em que estamos mais interessados é certamente o
principal no modo de nossa observação e atenção; e esse tipo de interesse com
alguma coisa, a saber, dependência, tende especialmente a recomendar e a
obrigar a atenção e a observação. Aquelas coisas das quais não dependemos muito
são fáceis de negligenciar, mas dificilmente podemos fazer outra coisa senão
cuidar daquilo de que temos uma grande dependência. Em razão de nossa tão
grande dependência de Deus e de suas perfeições, e em tantos aspectos, ele e
sua glória são colocados mais diretamente em nossa visão, para onde quer que
voltemos nossos olhos.
Temos a maior
ocasião para tomar conhecimento da total suficiência de Deus quando toda a
nossa suficiência é em tudo dependente dele. Temos mais ocasião para
contemplá-lo como um bem infinito e como a fonte de todo bem. Tal dependência
de Deus demonstra a total suficiência de Deus.
Quanto maior a
dependência da criatura em Deus, tanto maior parece ser o vazio da criatura em
si mesma; e quanto maior o vazio da criatura, tanto maior deve ser a plenitude
do ser que a supre. O fato de termos tudo de Deus mostra a plenitude do
seu poder e graça; o fato de termos tudo por meio dele mostra a
plenitude de seu mérito e dignidade; e o fato de termos tudo nele
demonstra sua plenitude de beleza, amor e felicidade.
E os
redimidos, em razão da grandeza de sua dependência de Deus, não apenas têm a
maior ocasião, mas a obrigação de contemplar e de reconhecer a glória e a
plenitude de Deus. Quão irracionais e ingratos seríamos se não reconhecêssemos
essa suficiência e glória, das quais dependemos absoluta, imediata e
universalmente?
Segundo.
Nisto é demonstrado quão grande a glória de Deus é considerada
comparativamente, ou comparada com a da criatura. Pelo fato de a criatura ser
assim, total e universalmente dependente de Deus, torna-se evidente que a
criatura não é nada e que Deus é tudo. Nisto torna-se evidente que Deus está
infinitamente acima de nós; que a força, a sabedoria e a santidade de Deus são
infinitamente maiores que as nossas. Por maior e gloriosa que a criatura
apreenda que Deus é, ainda assim, se ela não for sensível à diferença entre
Deus e ela, de modo a ver que a glória de Deus é grande em comparação com a sua
própria, ela não estará disposta a dar a Deus a glória devida ao seu nome. Se a
criatura, em qualquer aspecto, se coloca no nível de Deus, ou exalta a si mesma
a alguma competição com ele, por mais que possa apreender que grande honra e
profundo respeito podem pertencer a Deus a partir daquilo em que são mais
inferiores e mais distantes, [ela] não será tão sensível ao fato de sua
existência ser devida a ele. Quanto mais os homens se exaltarem, certamente
tanto menos estarão dispostos a exaltar a Deus. É certamente uma coisa que Deus
visa na disposição das coisas na questão da redenção, se permitirmos que as
Escrituras sejam a revelação da mente de Deus, este Deus deve mostrar-se cheio
e o próprio homem vazio; este Deus se mostra tudo e o homem nada. É o propósito
declarado de Deus que outros não “se
gloriem na sua presença”, o que implica que é seu propósito promover sua
própria glória comparativa. Quanto mais o homem se gloria na presença de Deus,
tanto menos glória é atribuída a Deus.
Terceiro.
Ao ser ordenado que a criatura tenha uma dependência tão absoluta e universal
de Deus desta forma, é feita a provisão para que Deus tenha toda a nossa alma e
seja objeto de nosso apreço indiviso. Se tivéssemos nossa dependência em parte
de Deus e em parte de outra coisa, o apreço do homem seria dividido entre as
diferentes coisas das quais ele depende. Assim seria se dependêssemos de Deus
apenas para uma parte do nosso bem, e de nós mesmos ou de algum outro ser para
outra parte. Ou, se tivéssemos nosso bem somente de Deus, e por meio de outro
que não fosse Deus, e em outra coisa distinta de ambos, nossos corações
estariam divididos entre o bem em si, aquele de quem e aquele por quem o
recebemos. Porém agora não há ocasião para isso, pois Deus não é apenas aquele
da parte de ou de quem temos todo o bem, mas também por meio de quem, e aquele
que é o próprio bem que temos dele e por meio dele. De modo que tudo o que há
para atrair nosso apreço, a inclinação ainda é diretamente para Deus, tudo se
une nele como o centro.
Uso
I.
Podemos observar aqui a maravilhosa sabedoria de Deus na obra da redenção. Deus
fez do vazio e da miséria do homem, do seu estado vil, perdido e arruinado, ao
qual ele foi reduzido pela queda, uma ocasião para a maior promoção da sua
própria glória, como de outras maneiras tão particularmente nisso, que agora há
muito mais dependência universal e evidente do homem em relação a Deus. Embora
Deus tenha o prazer de levantar o homem deste abismo sombrio de pecado e
aflição em que ele caiu, e exaltá-lo muitíssimo em excelência e honra, e a um
alto grau de glória e bem-aventurança, ainda assim a criatura não tem nada em
nenhum aspecto para gloriar-se; toda a glória evidentemente pertence a Deus,
tudo está em uma mera e mais absoluta e divina dependência do Pai, do Filho e
do Espírito Santo.
E cada pessoa
da Trindade é igualmente glorificada nesta obra. Há uma dependência absoluta da
criatura de cada um para tudo: tudo é do Pai, tudo por meio do Filho e tudo no
Espírito Santo. Assim, Deus é visto na obra da redenção como tudo em todos. É
apropriado que aquele que “é, e não há outro” [Deuteronômio 4.35], seja o “Alfa
e Ômega, o primeiro e o último” [Apocalipse 1.11], o tudo e o único nesta obra.
II.
Por essa razão, aquelas doutrinas e esquemas de teologia que são, em qualquer
aspecto, opostos a uma dependência absoluta e universal de Deus, depreciam a
glória de Deus e frustram o propósito do plano para nossa redenção. Aqueles
esquemas que colocam a criatura no lugar de Deus, em qualquer um dos aspectos
mencionados; que exaltam o homem no lugar do Pai, do Filho ou do Espírito
Santo, em qualquer coisa que pertence à nossa redenção; que, não obstante,
permitem uma dependência dos redimidos em Deus, mas negam uma dependência que
seja tão absoluta e universal; que possuem total dependência de Deus para
algumas coisas, mas não para outras; que reconhecem que dependemos de Deus para
o dom e aceitação de um Redentor, mas negam uma dependência tão absoluta dele
para a obtenção de interesse no Redentor; que possuem uma dependência absoluta
do Pai para dar seu Filho, e do Filho para operar a redenção, mas não uma
dependência tão completa do Espírito Santo para a conversão e o estar em
Cristo, e, assim, chegar ao direito a seus benefícios; que possuem uma
dependência de Deus para os meios de graça, mas não absolutamente para o
benefício e sucesso desses meios; que possuem uma dependência parcial do poder
de Deus a fim de obter e exercer a santidade, mas não uma mera dependência da
graça arbitrária e soberana de Deus; que possuem uma dependência da graça
gratuita de Deus para a recepção em seu favor, na medida em que não tem nenhum
mérito próprio, mas não como ela é sem ser atraído ou movido com alguma
excelência; que possuem uma dependência parcial de Cristo, como aquele por quem
temos vida, como tendo adquirido novos termos de vida, mas ainda sustentam que
a justiça pela qual temos vida é inerente a nós mesmos, como era sob a primeira
aliança; e de qualquer outra maneira que qualquer esquema seja inconsistente
com nossa total dependência de Deus para tudo, e em cada uma dessas maneiras,
de ter tudo dele, por meio dele e nele, é repugnante ao propósito e teor do
evangelho, e o rouba daquilo que Deus considera seu brilho e glória.
III.
Por esta razão, podemos descobrir uma razão pela qual a fé é aquilo pelo que
passamos a ter interesse nessa redenção; pois está incluído na natureza da fé
uma sensibilidade e um reconhecimento dessa dependência absoluta de Deus nesta
questão. É muito apropriado que ela seja exigida de todos, para que tenham o
benefício dessa redenção, de modo que sejam sensíveis e reconheçam essa
dependência de Deus para isso. É por este meio que Deus planejou glorificar a
si mesmo na redenção, e é apropriado que Deus tenha essa glória pelo menos
daqueles que são os objetos dessa redenção e tenham o seu benefício.
A fé é uma
sensibilidade do que é real na obra da redenção; e visto que dependemos
totalmente de Deus, a alma que crê depende inteiramente de Deus para toda a
salvação, em seu sentido e ato próprios. A fé humilha os homens e exalta a
Deus, ela atribui toda a glória da redenção somente a Deus. É necessário, para
a fé salvadora, que o homem se esvazie de si mesmo, que ele tenha consciência
de que é “infeliz, miserável, pobre, cego e nu” [Apocalipse 3.17]. A humildade
é um grande ingrediente da verdadeira fé; aquele que verdadeiramente recebe a
redenção a recebe “como uma criança”; Marcos 10.15, “Quem não receber o reino
de Deus como uma criança de maneira nenhuma entrará nele.” É o deleite de uma
alma crente humilhar a si mesma e exaltar somente a Deus; essa é a sua
linguagem, Salmo 115.1: “Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao teu nome dá
glória.”[7]
4. Sejamos
exortados a exaltar somente a Deus e a atribuir a ele toda a glória da
redenção. Nos esforcemos para obter e para aumentar a sensibilidade de nossa
grande dependência de Deus, para ter nossos olhos somente nele, para mortificar
uma disposição de autodependência e de justiça própria. O homem é naturalmente
muito propenso a exaltar a si mesmo e a depender de seu próprio poder ou
bondade, como se ele fosse aquele de quem deve esperar a felicidade, e ter
motivo para prazeres à parte de Deus e de seu Espírito como aqueles em que a
felicidade deve ser encontrada.
E essa
doutrina deve nos ensinar a exaltar somente a Deus tanto por meio da confiança
e da dependência, como por meio do louvor. “Aquele que se gloria, glorie-se no
Senhor” [Jeremias 9:24].[8]
Alguém espera que seja convertido e santificado, e que sua mente seja dotada da
verdadeira excelência e beleza espiritual, e que seus pecados sejam perdoados,
e que seja recebido no favor de Deus e exaltado à honra e bem-aventurança de
ser seu filho e herdeiro da vida eterna; que atribua toda a glória a Deus, que
sozinho o faz diferir do pior dos homens neste mundo, ou do mais miserável dos
condenados no inferno. Alguém tem muito conforto e forte esperança de vida
eterna, não deixe que sua esperança o exalte, mas o disponha a se humilhar
ainda mais, a refletir sobre sua própria indignidade de tal favor e a exaltar
somente a Deus. Existe alguém eminente em santidade e abundante em boas obras?
Que não tome nada da glória disso para si mesmo, mas a atribua àquele de quem
“somos feitura, criados em Cristo Jesus para boas obras” [Efésios 2.10].
Apêndice a Deus Glorificado na
Dependência do Homem[9]
Ao Leitor
Não foi com
pouca dificuldade que a juventude e modéstia do autor foram vencidas para que
ele deixasse ser visto como pregador em nossa palestra pública, e depois nos
dar uma cópia de seu discurso, a pedido de várias pessoas, ministros e outros,
que o ouviram. Porém quão rapidamente descobrimos ser ele um obreiro que não
precisa se envergonhar diante de seus irmãos, nossa satisfação foi maior ao
vê-lo lançar-se sobre um assunto tão nobre, e tratá-lo com tanta força e
clareza, como o leitor criterioso perceberá na seguinte compostura.
Um assunto que
defende a Deus em seu grande propósito na obra da redenção do homem caído por
meio do Senhor Jesus Cristo, que é evidentemente tão estabelecido que a glória
do todo deve retornar a ele, o abençoado ordenador, comprador e aplicador. Um
assunto que entra profundamente na religião prática, sem cuja crença isso deve
morrer em breve nos corações e vidas dos homens.
Pois,
proporcionalmente ao senso que temos de nossa dependência do Deus soberano para
todo o bem que desejamos será nosso apreço por ele, nossa aplicação a ele,
nossa confiança nele, nosso medo de ofendê-lo e nosso cuidado em agradá-lo;
como também nossa gratidão e amor, nosso deleite e louvor, em nossa experiência
sensível de seus benefícios gratuitos.
Em resumo, é a
própria alma da piedade apreender e reconhecer que todas as nossas fontes estão
nele, as fontes de nossa graça e conforto presentes, e de nossa glória e
bem-aventurança futuras, e que todas elas fluem inteiramente através de Cristo
mediante a eficaz influência do Espírito Santo. Os santos vivem por meio dessas
coisas, e em todas essas coisas está a vida de nossos espíritos.
Doutrinas como
essas que, humilhando a mente dos homens, os preparam para as exaltações de
Deus. Elas finalmente conquistaram e prosperaram no mundo reformado e em nossa
terra, especialmente nos dias de nossos antepassados; e esperamos que elas
nunca fiquem fora de moda entre nós. Pois, estamos bem seguros, se estas que
chamamos de doutrinas da graça vierem a ser desprezadas ou antipatizadas, a
piedade vital definhará e se desgastará proporcionalmente, pois essas doutrinas
sempre declinam na estima dos homens com a decadência da religião séria.
Não podemos,
portanto, deixar de expressar nossa alegria e gratidão pelo grande cabeça da
igreja ter o prazer de ainda levantar dentre os filhos de seu povo, para o
suprimento de suas igrejas, aqueles que afirmam e sustentam esses princípios
evangélicos; e que nossas igrejas (apesar de todas as suas degenerações) ainda
têm alto apreço por tais princípios, e por aqueles que publicamente os possuem
e os ensinam.
E, visto que
não podemos deixar de desejar e de orar para que a faculdade da colônia vizinha
(assim como a nossa) seja uma mãe frutífera de muitos filhos como o autor, pela
bênção do céu sobre os cuidados de seu digno reitor, assim regozijamo-nos de
todo o coração com o favor especial da providência em conceder um presente tão
rico à feliz Igreja de Northampton que, por tantos anos floresceu sob a
influência de doutrinas tão piedosas, ensinou-lhes no excelente ministério de
seu falecido venerável pastor, cujos dons e espírito esperamos que vivam e
brilhem por muito tempo neste seu neto, a fim de que abundem ainda mais em
todos os belos frutos da humildade e gratidão evangélicas, para glória de Deus.
À sua bênção, entregamos todos
com este discurso, e todos os que o lerem e são
Seus servos no evangelho,
T[homas] Prince W[illiam] Cooper[10]
Boston, 17 de agosto de 1731
Extraído de Sermons and
Discouses, 1730-1733; WJE, Vol. 17; p. 197-217; org. Mark Valeri.
Disponível em www.edwards.yale.edu;
JE Center; Yale University
[1] Impresso em Works, 14,
47-66.
[2] A doutrina do Deus é
Glorificado é redigida quase como uma paráfrase de “Miscellanies” No. 486.
[3] Wilson H. Kimnach fornece
uma descrição e análise completas das mudanças, do MS para a versão impressa,
em Works, 10, 108-11, 148-53.
[4] No MS, JE escreveu “mas”
onde aparece a reticências na versão impressa.
[5] Após esta citação, há
hifens na versão impressa, um reflexo do MS, onde JE adiciona: “É uma nova
criação; é uma ressurreição dos mortos”, sugerindo Efésios 1.20.
[6] JE apagou aqui o que segue
no MS: “Temos tudo do Deus Pai por meio do Filho e no Espírito Santo, de modo
que Deus é o Alfa e o Ômega na questão da Redenção.” No MS, a Aplicação vem
logo a seguir, e a discussão de JE da segunda proposição é o final da sessão do
sermão; a versão impressa inverte esta ordem.
[7] Para um precursor
sermônico interessante e formativo, veja o sermão sobre o Salmo 115.1 (25) do
outono de 1723.
[8] A citação é extraída de 1
Coríntios 1.31, embora seja indicado Jeremias 9.24, que diz: “mas oque se
gloriar, glorie-se nisto: em me conhecer e saber que eu sou o Senhor e faço
misericórdia e justiça na terra; porque destas coisas me agrado, diz o Senhor.”
(NT)
[9] Esta nota ao leitor vem do
prefácio da primeira edição dos patrocinadores de Deus é Glorificado.
[10] Thomas Prince (1687-1758)
foi colega de Joseph Sewall na Boston’s Old South Church, de 1717 até sua
morte; William Cooper (1694-1743) foi companheiro júnior de Benjamin Colman em
Brattle Street Church, Boston. Ambos os ministros se tornaram companheiros íntimos
de JE.
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