Frase da Semana

Assim, tudo é de Deus, está em Deus e existe para Deus; ele é o começo, o meio e o fim.

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

O Pastor como Teólogo - Vida e Ministério de Jonathan Edwards (John Piper)

Conferência Belém para Pastores de 1988

 

Meu tema é “O Pastor como Teólogo, Reflexões sobre a Vida e Ministério de Jonathan Edwards”. Um dos livros de Edwards, escrito em 1742, foi recentemente reeditado com uma introdução de Charles Colson. Colson escreveu,

 

A igreja ocidental – grande parte dela à deriva, enculturada e infectada pela graça barata – precisa desesperadamente ouvir o desafio de Edwards.... Acredito que as orações e o trabalho daqueles que amam e obedecem a Cristo em nosso mundo ainda poderão prevalecer, à medida que mantiverem a mensagem de um homem como Jonathan Edwards.

 

Presumo que você esteja entre aqueles que amam e obedecem a Cristo, e que anseiam que suas orações e seu trabalho prevaleçam sobre a incredulidade e o mal em suas igrejas e suas comunidades, e, eventualmente, no mundo. E acredito que Colson está certo ao dizer que Edwards tem um desafio para nós que pode nos ajudar muito, não apenas em sua mensagem, mas também em sua vida como pastor-teólogo.

 

O verdadeiro Jonathan Edwards

A maioria de nós não conhece o verdadeiro Jonathan Edwards. Todos nós nos lembramos das aulas de Inglês do ensino médio ou das aulas de História Americana. Os livros didáticos tinham uma pequena seção sobre “Os Puritanos” ou “O Grande Avivamento”. E o que lemos? Bem, meu filho mais velho está no 9º ano agora, e seu livro de História Americana tem um parágrafo sobre o Grande Avivamento, que começa com a frase mais ou menos assim: “O Grande Avivamento foi um breve período de intenso sentimento religioso nas décadas de 1730 e de 40, o qual causou a divisão de muitas igrejas.”

E, para muitos livros didáticos, Edwards não é mais do que um perturbador obscuro das igrejas naqueles dias de fervor do Avivamento. Assim, o que temos como exemplo do puritanismo moderno é um trecho de seu sermão, “Sinners in the Hands of an Angry God” (Pecadores nas mãos de um Deus irado). Talvez um assim:

 

O Deus que mantém você sobre o abismo do inferno, assim como alguém segura uma aranha, ou algum inseto repugnante, sobre o fogo, abomina você e está terrivelmente provocado: sua ira contra você queima como fogo; ele considera você como digno de nada mais exceto de ser lançado no fogo; ele tem olhos mais puros para suportar ter você à sua vista; você é dez mil vezes mais abominável aos olhos dele do que a mais odiosa serpente venenosa aos nossos.

 

E assim as crianças ficam com a impressão de que Edwards era um misantropo deprimente, rabugento, mal-humorado, talvez patológico, que caiu no discurso religioso grotesco da mesma forma que algumas pessoas caem na obscenidade.

Porém nenhum menino do ensino médio é convidado a lutar contra o que Edwards estava enfrentando como pastor. Quando você lê “Pecadores nas mãos de um Deus irado”, você percebe rapidamente que Edwards não estava caindo nesse tipo de linguagem por acidente. Ele estava trabalhando como pastor para comunicar uma realidade que via nas Escrituras, e que acreditava ser infinitamente importante para seu povo.

E antes que qualquer um de nós, especialmente nós, pastores, desdenhemos da imagem de Edwards, é melhor pensarmos muito sobre qual é o nosso próprio método para ajudar nosso povo a sentir o peso da realidade de Apocalipse 19.15. Edwards se coloca diante deste texto com reverência. Ele praticamente fica boquiaberto com o que vê aqui. João escreve neste versículo: “[Cristo] pisa o lagar do vinho do furor da ira do Deus Todo-Poderoso”.

Ouça o comentário de Edwards neste sermão,

 

As palavras são extremamente terríveis. Se tivesse sido dito apenas "a ira de Deus", as palavras teriam implicado aquilo que é infinitamente terrível; mas é "o furor e a ira de Deus! O furor de Yahweh! Oh, quão terrível deve ser isso! Quem pode expressar ou conceber o que tais expressões carregam em si?

 

A qual estudante do ensino médio foi pedido alguma vez que enfrentasse o que realmente está em questão aqui? Se a Bíblia é verdadeira, e se ela diz que algum dia Cristo pisará seus inimigos como um lagar com uma ira que é feroz e todo-poderosa, e se você é um pastor encarregado de aplicar a verdade bíblica ao seu povo para que fujam da ira por vir, então qual seria a sua linguagem? O que você diria para fazer as pessoas sentirem a realidade de textos como esses?

Edwards trabalhou com a linguagem, com imagens e metáforas porque ficou muito atordoado e aterrorizado com as realidades que viu na Bíblia. Você ouviu aquela frase na citação que acabei de ler: “Quem pode expressar ou conceber o que tais expressões carregam em si?” Edwards acreditava que era impossível exagerar o horror da realidade do inferno. Os professores do ensino médio fariam bem em fazer aos seus alunos a pergunta realmente investigativa: “Por que é que Jonathan Edwards se esforçou para encontrar imagens da ira e do inferno que chocassem e aterrorizassem, enquanto os pregadores contemporâneos tentam encontrar abstrações e circunlocuções que se afastam de imagens bíblicas concretas e palpáveis de fogo inextinguível, de vermes imortais e de ranger de dentes?” Se fosse feita esta pergunta simples e histórica aos nossos alunos, meu palpite é que alguns dos mais brilhantes responderiam: “Porque Jonathan Edwards realmente acreditava no inferno, mas a maioria dos pregadores de hoje não.”

            Porém ninguém nos pediu para levar Edwards a sério e, deste modo, a maioria de nós não o conhece. A maioria de nós não sabe que ele conhecia o seu céu ainda melhor do que o seu inferno, e que a sua visão de glória era tão atraente quanto a sua visão de julgamento era repulsiva.

A maioria de nós não sabe que ele é considerado hoje, tanto por historiadores seculares como evangélicos, como o maior pensador protestante que a América já produziu. Dificilmente foi escrito algo mais perspicaz sobre o problema da soberania de Deus e da responsabilidade do homem do que o seu livro, The Freedom of the Will (A Liberdade da Vontade).

A maioria de nós não sabe que ele não foi apenas o graveto de Deus para o Grande Avivamento, mas também o seu analista e crítico mais penetrante. Seu livro intitulado The Religious Affections (As Afeições Religiosas) expõe a alma com um cuidado tão implacável e uma honestidade bíblica que, duzentos anos depois, ainda quebranta o coração do leitor sensível.

A maioria de nós não sabe que Edwards era movido por um grande desejo de ver concluída a tarefa missionária da igreja. Quem sabe se Edwards foi mais influente em seus esforços teológicos sobre a liberdade da vontade, a natureza da verdadeira virtude, o pecado original e a história da redenção, ou se ele foi mais influente por causa de seu grande zelo missionário e por ter escrito Life of David Brainerd (A Vida de David Brainerd).

Algum de nós sabe que coisa incrível é que este homem, que foi pastor numa pequena cidade durante 23 anos de uma igreja de 600 pessoas, missionário entre os índios durante 7 anos, que criou 11 filhos fiéis, que trabalhou sem a ajuda de luz eléctrica, ou de processadores de texto, ou de correspondência rápida, ou até mesmo de papel suficiente para escrever, que viveu apenas até aos 54 anos, e que morreu com uma biblioteca de 300 livros – que este homem liderou um dos maiores avivamentos dos tempos modernos, escreveu livros teológicos que ministraram durante 200 anos e fizeram mais pelo movimento missionário moderno do que qualquer pessoa da sua geração?

Sua biografia do jovem missionário David Brainerd teve um efeito incalculável no empreendimento missionário moderno. Quase imediatamente desafiou o espírito dos grandes aventureiros de Deus. Gideon Hawley, um dos missionários protegidos de Edwards, carregou-o em seus alforjes e escreveu, em 1753 (pouco antes da morte de Edwards), quando a pressão estava quase além da capacidade de resistência: “Preciso, preciso muito, de algo mais do que humano para me apoiar. Eu leio minha Bíblia e a Vida do Sr. Brainerd, os únicos livros que trouxe comigo, e deles tenho um pouco de apoio.”

John Wesley publicou uma versão abreviada de Brainerd's Life (A Vida de Brainerd), de Edwards, em 1768, dez anos após a morte de Edwards. Ele desaprovava o calvinismo de Edwards e Brainerd, mas disse: “Encontre pregadores do espírito de David Brainerd e nada poderá resistir a eles.”

A lista de missionários que testemunham da inspiração de Brainerd's Life (A Vida de Brainerd) através da obra de Jonathan Edwards é mais longa do que qualquer um de nós imagina: Francis Asbury, Thomas Coke, William Carey, Henry Martyn, Robert Morrison, Samuel Mills, Fredrick Schwartz, Robert M' Cheyne, David Livingstone, Andrew Murray. E poucos dias antes de morrer, Jim Elliot, que foi martirizado pelos Aucas, escreveu em seu diário: “Confissão de orgulho – sugerida ontem pelo Diário de David Brainerd – deve se tornar uma coisa frequente para mim.”

Assim, durante 250 anos, Edwards tem alimentado o movimento missionário com a sua biografia de David Brainerd. E David Bryant, hoje, não esconde o fato de que o livro de Edwards sobre alianças de oração (The Humble Attempt – Humilde Tentativa) é a inspiração para o seu próprio esforço no movimento de oração pelo avivamento e pela evangelização mundial hoje. Portanto, Brainerd é lido e conhecido há dois séculos. E a visão de Edwards de oração unida está ganhando vida novamente na pessoa de David Bryant. Porém quem conhece o homem que escreveu esses livros?

Mark Noll, que ensina história em Wheaton e refletiu muito sobre o trabalho de Edwards, descreve a tragédia assim:

 

Desde Edwards, os evangélicos americanos não pensaram na vida a partir da base como cristãos, porque toda a sua cultura deixou de fazê-lo. A piedade de Edwards continuou na tradição avivalista, a sua teologia continuou no calvinismo acadêmico, mas não houve sucessores para a sua visão de mundo extasiada em Deus ou para a sua filosofia profundamente teológica. O desaparecimento da perspectiva de Edwards na história cristã americana foi uma tragédia. (Citado em “Jonathan Edwards, Moral Philosophy, and the Secularization of American Christian Thought”, Reformed Journal (fevereiro de 1983):26. Ênfase minha.)

 

A bússola dos meus próprios estudos teológicos

E, francamente, gostaria de poder recriar para todos vocês o que significou para mim encontrar meu caminho, pouco a pouco, rumo a essa cosmovisão fascinada por Deus. Ele começou quando estava no seminário, quando li Essay on the Trinity (Ensaio sobre a Trindade), depois Freedom of the Will (Liberdade da Vontade), depois Dissertation concerning the End for which God created the World (Dissertação sobre o fim para o qual Deus criou o mundo), depois Nature of True Virtue (Natureza da Verdadeira Virtude), e então Religious Affections (Afeições Religiosas) de Edwards.

Juntamente com a Bíblia, Edwards tornou-se a bússola dos meus estudos teológicos. Não que ele tenha algo parecido com a autoridade das Escrituras, mas que ele é um mestre dessas Escrituras, e um precioso amigo e professor.

Um dos meus professores do seminário sugeriu-nos, por volta de 1970, que encontrássemos um grande e piedoso professor na história da igreja e que fizéssemos dele um companheiro para toda a vida. Isso é o que Edwards se tornou para mim. É difícil superestimar o que ele significou para mim, teológica e pessoalmente, na minha visão de Deus e no meu amor por Cristo.

Isso aconteceu quando eu era professor em Betel, porque Edwards propôs e lutou com muitas questões que eram absolutamente essenciais para mim naquela época. Agora, porém, trabalho como pastor há quase oito anos, e posso dizer que Edwards fez toda a diferença no mundo.

Estou profundamente convencido de que o que nosso povo precisa é de Deus. Preguei sobre o reinado de Cristo há duas semanas, no domingo de Páscoa, a partir de 1 Coríntios 15.20-28. No final, diz que um dia o próprio Filho estará sujeito ao Pai, para que Deus seja tudo em todos. Argumentei que a necessidade do reinado de Cristo (expressa nas palavras: “Porém convém que ele reine até que haja posto todos os seus inimigos debaixo dos pés”) está enraizada nas próprias exigências de Deus, o Pai, a fonte da divindade – para que esteja Deus em toda a plenitude de sua glória, a imagem e reflexo de sua glória, o Filho deve voltar-se, curvar-se e chamar toda a atenção através de si mesmo para o Pai.

Seis versículos depois, Paulo pede aos coríntios, que questionavam a ressurreição de Cristo: “Tornai-vos à sobriedade, como é justo, e não pequeis; porque alguns ainda não têm conhecimento de Deus; isto digo para vergonha vossa.” O que eles precisavam, e o que o nosso povo precisa, é de uma verdadeira visão da grandeza de Deus. Eles precisam ver todo o panorama de suas excelências.

O povo precisa ver um homem fascinado por Deus no domingo de manhã e na reunião dos diáconos. Robert Murray M'Cheyne disse: "O que meu povo mais precisa é de minha santidade pessoal. Isso mesmo. Porém a santidade humana nada mais é do que uma vida embriagada de Deus." E nosso povo precisa ouvir a pregação fascinada por Deus. O próprio Deus precisa ser o tema da nossa pregação, em sua majestade, e santidade, e justiça, e fidelidade, e soberania e graça. E com isso não quero dizer que não devamos pregar sobre coisas práticas essenciais, como paternidade, divórcio, AIDS, glutonaria, televisão e sexo. Deveríamos, de fato! O que quero dizer é que todas essas coisas deveriam ser levadas diretamente para a santa presença de Deus, e expostas às raízes de sua religiosidade ou impiedade.

O que nosso povo precisa não é de belas pequenas palestras morais ou psicológicas sobre como se dar bem no mundo. Ele precisa ver que tudo, absolutamente tudo – desde as vendas de garagem e a reciclagem de lixo até a morte e os demônios, tem a ver com Deus em toda a sua infinita grandeza. A maior parte do nosso povo não tem ninguém, ninguém no mundo que possa proclamar a majestade de Deus para ele. Portanto, a maioria está faminta pela visão infinita e extasiada por Deus de Jonathan Edwards, e nem mesmo sabe disso.

São como pessoas que cresceram em uma sala com teto plano de gesso branco, de 2,5 metros e sem janelas. Elas nunca viram o amplo céu azul, ou o sol brilhando na glória do meio-dia, ou os milhões de estrelas de uma noite clara no campo, ou uma montanha de um trilhão de toneladas. E, assim, elas não conseguem explicar o sentimento de pequenez, e trivialidade, e mesquinharia e insignificância em suas almas. Mas é porque não há grandeza. O que nosso povo precisa é da visão da realidade fascinada por Deus que Jonathan Edwards teve.

Cerca de cinco anos atrás, durante nossa semana de oração de janeiro, decidi pregar sobre a santidade de Deus a parir de Isaías 6. E resolvi, no primeiro domingo do ano, pregar sobre os primeiros quatro versículos desse capítulo, e expor a visão da santidade de Deus:

 

No ano em que morreu o rei Uzias, eu vi o Senhor assentado sobre um alto e sublime trono, e as abas de suas vestes enchiam o templo. Serafins estavam por cima dele; cada um tinha seis asas: com duas cobria o rosto, com duas cobria os seus pés e com duas voava. E clamavam uns para os outros, dizendo: Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória. As bases do limiar se moveram à voz do que chamava, e a casa encheu-se de fumaça.

 

Então preguei sobre a santidade de Deus e fiz o meu melhor para exibir a majestade e a glória de um Deus tão inacessivelmente santo. Não proferi uma palavra de aplicação à vida do nosso povo (o que não é uma boa prática regularmente).

Mal sabia eu que, na semana anterior a esta mensagem, uma das jovens famílias da nossa igreja descobriu que o seu filho vinha sendo abusado sexualmente por mais de um ano por um familiar próximo. Foi incrivelmente devastador. Houve envolvimento da polícia. Assistentes sociais. Psiquiatras. Médicos. Eles estavam lá naquela manhã de domingo e ouviram aquela mensagem.

Eu me pergunto quantos de nossos conselheiros, pastores hoje, teriam dito: Piper, você não vê que seu povo está sofrendo? Você não pode descer da sua torre de marfim de teologia e ser prático? Você não percebe que tipo de pessoa senta na sua frente no domingo?

Vários meses depois, os tristes detalhes começaram a surgir. E o marido veio até mim, um domingo depois de um culto, me chamou de lado e disse: “John, estes foram os meses mais difíceis de nossas vidas. Você sabe o que me ajudou a superar? A visão da grandeza da santidade de Deus que você me deu na primeira semana de janeiro. Foi a rocha sobre a qual pudemos nos firmar.”

Há apenas uma semana atrás, conversei com uma mulher que frequenta esta igreja há mais de sete anos. Ela não é membro. Ela estava se divorciando naqueles primeiros dias e sabia que eu era contra. Ela disse, na semana passada: “Apesar de toda a minha turbulência, sentimentos confusos e solidão, precisei de sua posição e de sua visão ao longo desses anos. Elas foram cruciais para minha sobrevivência espiritual.”

E, oh, como eu gostaria que tivéssemos tempo para conversar sobre o que a visão deste Deus significou para o movimento missionário aqui na Belém. Deixe-me colocar em uma palavra. Os jovens de hoje, na Belém, não ficam entusiasmados com denominações e agências. Eles ficam entusiasmados com a grandeza de um Deus global e com o propósito inevitável de um Rei soberano.

Eu acreditava nisso antes de ser pastor. Acredito ainda mais fortemente agora, depois de oito anos de ministério pastoral. A majestade, a soberania e a beleza de Deus são o eixo da vida da igreja, tanto no cuidado pastoral como no alcance missionário. Em outras palavras, a cosmovisão fascinada por Deus que Jonathan Edwards tinha não era produto e prerrogativa de um teólogo acadêmico. Era o coração do seu trabalho pastoral.

E por isso quero deixar que Edwards nos admoeste e nos encoraje com o seu exemplo. Espero que todos vocês comprem a nova biografia de Iain Murray. E espero que muitos de vocês adquiram suas Works (Obras) ou pelo menos a brochura de Religious Affections (Afeições Religiosas). Mas não me entenda mal. Nenhum de nós nesta sala será um Jonathan Edwards. Ele está quase sozinho em uma categoria. Pensar que qualquer pensamento assim resultaria em nada além de desânimo. Devemos ser nós mesmos.

Escreva 1 Coríntios 15.10 em cada livro, conferência e seminário – “Pela graça de Deus sou o que sou”. Eu poderia desejar ter o gênio estratégico de Ralph Winter, ou a precisão teológica e o discernimento de um J. I. Packer, mas não serei eles, nem Jonathan Edwards. Porém podemos aprender e ser inspirados a prosseguir, talvez muito além das nossas realizações atuais, em compreensão, santidade e fidelidade. Podemos ser bons uns para os outros, desde que não tentemos imitar. O olho do corpo não é o ouvido e o pé não é a mão.

 

Sustentando Nossa Visão de Deus

Então deixe-me contar algumas coisas sobre o trabalho de Edwards que sustentaram sua visão de Deus. Algumas delas se encaixarão na tua vida e outras não. Minha oração é que você veja algo aqui que te dê um novo senso de zelo e compromisso com o maior chamado do mundo. Deixe-me colocar isso na forma de quatro exortações a partir da vida deste pastor.

Edwards nos exorta à determinação radical em nossa ocupação com coisas espirituais.

Ouça duas de suas resoluções que tomou em 1723, quando tinha quase 20 anos.

 

# 44. Resolvi que nenhum outro fim, exceto a religião, terá qualquer influência em qualquer uma de minhas ações; e que nenhuma ação será, na menor circunstância, diferente da que o fim religioso a levará.

# 61. Resolvi que não cederei àquela indiferença que acho que desvia e relaxa minha mente de estar plena e fixamente voltada para a religião, qualquer que seja a desculpa que eu possa ter para ela...

 

Penso que esta é uma aplicação do princípio de Paulo em 2 Timóteo 2.4-6: “Nenhum soldado em serviço se envolve em negócios desta vida, porque o seu objetivo é satisfazer àquele que o arregimentou. Igualmente, um atleta não é coroado se não lutar segundo as normas. O lavrador que trabalha deve ser o primeiro a participar dos frutos.”

Penso que o que acontece com muitos pastores é que o ministério não prospera com tanto poder e alegria como esperavam, e apenas para sobreviver emocionalmente começam a dar lugar a divertimentos, diversões e hobbies. O ministério se torna um trabalho de 40 horas por semana, como qualquer outro, e então as noites e os dias de folga são preenchidos com diversões agradáveis e inofensivas. E todo o sentimento muda. A urgência radical enfraquece. A mentalidade de tempo de guerra muda para uma mentalidade de tempo de paz. O estilo de vida começa a ficar confortável. A ardente determinação da visão evapora.

Deixe-me dizer isso novamente. Nosso povo precisa de um homem embriagado por Deus. Mesmo que critiquem o fato de você não estar disponível para jantar no sábado à noite, porque precisa estar com Deus; eles precisam de pelo menos um homem em suas vidas que esteja radical e totalmente focado em Deus e na busca pelo conhecimento de Deus, e no ministério da palavra de Deus. Quantas pessoas em suas igrejas você conhece que estão trabalhando para conhecer a Deus, que estão se esforçando sinceramente no estudo e na oração para ampliar sua visão de Deus. Muito poucos. Pois bem, o que será de nossas igrejas se nós, os pastores, que são encarregados de conhecer e explicar todo o conselho de Deus, nos tornarmos neutros, pararmos de ler, de estudar e de escrever, e assumirmos mais hobbies e assistirmos mais televisão?

Edwards nos exorta a uma ocupação obstinada com Deus, a tempo e fora de tempo. Edwards chama esse esforço para conhecer Deus de “divindade” em vez de teologia. É uma ciência muito acima de todas as outras ciências. Ouça o que ele diz que deveria nos ocupar:

 

O próprio Deus, o eterno Três em um, é o objeto principal desta ciência; e a seguir Jesus Cristo, como Deus-homem e Mediador, e a gloriosa obra de redenção, a obra mais gloriosa que já foi realizada, então as grandes coisas do mundo celestial, a herança gloriosa e eterna comprada por Cristo, e prometida no Evangelho; a obra do Espírito Santo de Deus nos corações dos homens; nosso dever para com Deus e a maneira pela qual nós mesmos podemos nos tornar... como o próprio Deus em nossa medida. Todos estes são objetos desta ciência. (Works, II, 159)

 

Se a ocupação obstinada com estas coisas for deixada a alguns teólogos académicos nas faculdades e seminários, enquanto todos os pastores se tornam técnicos, gestores e organizadores, poderá haver um sucesso superficial durante algum tempo, enquanto os americanos ficam entusiasmados com um programa ou outro, mas a longo prazo os ganhos revelar-se-ão superficiais e fracos, especialmente no dia do julgamento.

Portanto, a primeira exortação de Edwards é ser radicalmente obstinado no seu compromisso de conhecer a Deus.

Trabalhe diligentemente para conhecer as Escrituras.

Não obtenha sua visão de Deus de segunda mão. Nem mesmo deixe Edwards ou Packer serem sua fonte primária de divindade. Este foi o exemplo que o próprio Edwards nos deu. Seu primeiro biógrafo, Sereno Dwight, disse que, quando chegou ao pastorado em Northampton, “ele havia estudado teologia, não principalmente em sistemas ou comentários, mas na Bíblia, e no caráter e nas relações mútuas de Deus com suas criaturas, do que todos seus princípios são derivados” (Works, I, xxxvii).

Certa vez, Edwards pregou um sermão intitulado “A importância e a vantagem de um conhecimento completo da verdade divina”. Nele ele disse: “Seja assíduo [!] na leitura das Sagradas Escrituras. Esta é a fonte de onde todo o conhecimento da divindade deve ser derivado. Portanto, não deixe este tesouro ser negligenciado por você” (Works, II, 162).

E ele deu um exemplo maravilhoso em sua própria diligência no estudo da própria Bíblia. Estive na Biblioteca Beinecke, de Yale, em outubro passado, onde as obras não publicadas de Edwards estão armazenadas. Eles me levaram ao nível inferior e a uma salinha onde dois ou três homens trabalhavam em manuscritos antigos com microscópios e iluminação especial. Pude ver alguns dos manuscritos dos sermões de Edwards (incluindo “Pecadores nas mãos de um Deus irado”), seu catálogo de leituras e sua Bíblia intercalada.

Ele desmontou uma grande Bíblia página por página, inseriu uma folha de papel em branco entre cada página e costurou novamente o livro. Depois traçou uma linha no centro de cada página em branco para formar duas colunas para anotações. Página após página, nas partes mais remotas das Escrituras, havia extensas notas e reflexões em sua caligrafia minúscula e quase ilegível.

Penso que há razões para acreditar que Edwards realmente cumpriu a sua 28ª resolução, enquanto estava em Yale.

 

Resolvi: Estudar as Escrituras tão firme, constante e frequentemente, de modo que eu possa encontrar, e compreender claramente, meu próprio crescimento no conhecimento das mesmas.

 

Considero esta resolução como uma repreensão e um grande incentivo para fazer um balanço das minhas prioridades pastorais e das minhas prioridades de leitura. 2 Pedro 3.18 diz: “Crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.” Então Edwards resolveu estudar a Bíblia de forma tão “firme, constante e frequente” de modo que pudesse ver crescimento.

Quantos de nós temos um plano para crescer em nossa compreensão de todo o terreno das Escrituras? A maioria de nós não usa a Bíblia como fonte para obter sermões, devocionais e ajuda devocional pessoal? Porém será que trabalhamos nas Escrituras de tal maneira que podemos ver claramente que hoje entendemos algo nela que não entendíamos ontem?

Temo que muitos de nós trabalhemos na leitura de livros sobre teologia e sobre a vida da igreja com o objetivo de crescer, mas não tenhamos nenhum plano e não façamos nenhum esforço sustentado para avançar de forma firme e constante em nossa compreensão da Bíblia. A segunda exortação de Edwards é que isto não deveria ser assim. Estude a Bíblia de forma tão firme, constante e frequente que você perceba claramente que está crescendo nela.

Edwards nos exorta a aproveitar o tempo e a fazer o que nossas mãos encontrarem para fazer com todas as nossas forças.

Sua sexta resolução foi simples e poderosa: “Resolvi: Viver com todas as minhas forças enquanto eu viver”. A resolução #5 foi semelhante: “Resolvi: Nunca perder um momento de tempo, mas aproveitá-lo da maneira mais proveitosa possível.”

Ele acreditava muito em fazer o que pudesse no tempo que tinha, em vez de adiar as coisas para uma ocasião mais conveniente. A resolução #11 é uma das razões pelas quais ele fez progressos tão surpreendentes em sua compreensão teológica. Diz: “Resolvi: Quando penso em qualquer teorema sobre a divindade a ser resolvido, devo fazer imediatamente o que puder para resolvê-lo, se as circunstâncias não o impedirem.”

Edwards não era um leitor passivo. Ele lia com o objetivo de resolver problemas. A maioria de nós é amaldiçoada por uma tendência à leitura passiva. Lemos da mesma forma que as pessoas assistem TV. Não fazemos perguntas enquanto lemos. Não perguntamos: Por que esta frase segue aquela frase? Como este parágrafo se relaciona com aquele de três páginas anteriores? Não investigamos a ordem do pensamento, nem ponderamos o significado dos termos. E se vemos um problema, estamos habituados a deixá-lo para os especialistas, e raramente abordamos uma solução naquele momento da forma como Edwards disse que estava comprometido em fazer se o tempo permitisse. Porém, Edwards nos chama a sermos ativos em nossas mentes quando lemos. Um pastor não será capaz de alimentar seu rebanho com uma visão rica e desafiadora da Palavra de Deus, a menos que se torne um pensador disciplinado. Mas quase nenhum de nós faz isso por natureza. Devemos treinar a nós mesmos a fazer isso. E uma das melhores maneiras de nos treinarmos a pensar sobre o que lemos é ler com a caneta na mão e anotar uma sequência de ideias que nos venha à mente. Sem isso, simplesmente não conseguiremos sustentar uma sequência de perguntas e respostas suficientemente longa para chegar a conclusões penetrantes. Este foi o método simples que fez com que o gênio natural de Edwards produzisse resultados imensos e duradouros. Ouça a descrição de Sereno Dwight sobre sua disciplina a esse respeito.

 

Ainda menino, ele começou a estudar com a caneta na mão; não com o propósito de copiar os pensamentos de outros, mas com o propósito de anotar e preservar o pensamento sugerido à sua própria mente.... Esta prática muito útil... ele seguiu constantemente em todos os seus estudos ao longo da vida. Sua caneta parece ter estado sempre em sua mão. A partir desta prática... ele obteve a grande vantagem de pensar continuamente durante cada período de estudo; de pensar com precisão; de pensar de forma conectada; de pensar habitualmente em todos os momentos... de seguir cada assunto de pensamento até onde fosse capaz... de preservar seus melhores pensamentos, associações e imagens, e então organizá-los sob seus devidos títulos, prontos para uso posterior; de fortalecer regularmente a faculdade de pensar e raciocinar mediante exercícios constantes e eficientes; e, acima de tudo, de moldar-se gradualmente em um ser pensante... (Works, I, xviii)

 

Dwight nos conta como ele aproveitou os dias que levava a cavalo para ir de uma cidade a outra. Ele pensava em algo até chegar a alguma conclusão e, então, prendia um pedaço de papel em seu casaco e desafiava sua mente a lembrar a sequência de pensamentos quando tirava o papel em casa (Works, I, xxxviii).

            Edwards podia passar até 13 horas por dia em seu escritório, diz Dwight, por causa de sua decisão de não visitar seu povo, exceto quando solicitado. Ele recebia pessoas em seu escritório para conversar, e frequentemente ministrava reuniões privadas em vários bairros, além de catequizar os jovens em sua casa. Provavelmente não deveríamos segui-lo neste padrão de trabalho pastoral. Ele pode até ter errado nessa escolha. Porém nós, que amamos o que ele escreveu, não o culparemos muito.

Ele acordava cedo, mesmo naqueles dias sem eletricidade. Na verdade, ele provavelmente estava falando sério quando escreveu em seu diário, em 1728: “Acho que Cristo recomendou levantar-se de manhã cedo, levantando-se da sepultura muito cedo.”

Não é fácil saber como era sua vida familiar sob esse tipo de cronograma rigoroso. Dwight diz em certo lugar: “À noite, ele geralmente se permitia um período de relaxamento, no meio de sua família”. (Works, I, xxxviii) Mas, em outro lugar, o próprio Edwards diz (em 1734, quando tinha 31 anos): “Eu julgo que é melhor, quando estou em boa disposição para a contemplação divina, ou engajado na leitura das Escrituras, ou em qualquer estudo de assuntos divinos, que, normalmente, não serei interrompido para ir jantar, mas renunciarei ao meu jantar, em vez de ser interrompido” (Works, I, xxxvi). Penso que seria justo dizer que a chave indispensável para criar 11 filhos crentes nestas circunstâncias foi uma união incomum com Sarah, que era uma mulher incomum.

No que diz respeito aos seus hábitos alimentares, ele não apenas estava disposto a pular o jantar por causa do estudo, se as coisas estivessem realmente fluindo, ele também, diz-nos Dwight, “observou cuidadosamente os efeitos dos diferentes tipos de alimentos e selecionou aqueles que melhor se adequavam à sua constituição e o tornavam mais apto para o trabalho mental”. (Works, I, xxxviii) Edwards estabeleceu esse padrão quando tinha 21 anos, quando escreveu em seu diário:

 

Com moderação na dieta e comendo tanto quanto possível o que é leve e de fácil digestão, sem dúvida serei capaz de pensar com mais clareza e ganharei tempo; 1. Prolongando minha vida; 2. Necessitará de menos tempo para digestão, após as refeições; 3. Poderei estudar mais atentamente, sem prejuízo à saúde; 4. Precisará de menos tempo para dormir; 5. Raramente será incomodado com dor de cabeça. (Works, I, xxxv)

 

Recomendo à sua consideração se tal cuidado para maximizar o tempo e a eficácia na devoção ao ministério da palavra é o que Paulo quis dizer quando falou em remir o tempo, e quando o Pregador disse: “Tudo o que a sua mão achar para fazer, faça-o com a sua força”.

O trabalho teológico de Edwards nos exorta a estudar em prol da adoração sincera e da obediência prática.

Você se lembra do que Mark Noll disse: “A piedade de Edwards continuou na tradição avivalista, sua teologia continuou no calvinismo acadêmico, mas não houve sucessores para sua cosmovisão fascinada por Deus...” O doce casamento entre razão e afeição, entre pensamento e sentimento, entre cabeça e coração, entre estudo e adoração, que ocorreu na vida de Jonathan Edwards, tem sido raro desde sua época e ainda é raro.

Portanto, a exortação final é recuperar aquela “lógica em chamas”, como a chamavam os puritanos – em chamas de alegria e obediência.

Edwards não seguiu uma paixão por Deus porque isso era a cereja do bolo da fé. Para ele, a fé estava fundamentada num senso de Deus que era mais do que aquilo que a razão sozinha poderia proporcionar. Ele disse,

 

Um verdadeiro senso da glória de Deus é aquele que nunca pode ser obtido mediante [raciocínio] especulativo; e se os homens se convencerem por meio de argumentos de que Deus é santo, isso nunca dará um senso de sua amável e gloriosa santidade. Se eles argumentarem que ele é muito misericordioso, isso não dará um senso de sua gloriosa graça e misericórdia. Este senso deve ser uma descoberta mais imediata e consciente, que deve dar à mente um senso real da excelência e da beleza de Deus. (Works, II, 906)

 

Em outras palavras, é inútil simplesmente acreditar que Deus é santo e misericordioso. Para que essa crença tenha algum valor salvífico, devemos “sentir” a santidade e a misericórdia de Deus. Isto é, devemos ter um verdadeiro deleite nestas coisas pelo que elas são em si. Caso contrário, o conhecimento não será diferente daquele que os demônios têm.

Isto significa que todo o seu estudo e pensamento foram em vão? Na verdade, não. Por que? Porque ele diz: “Quanto mais você tiver um conhecimento racional das coisas divinas, mais oportunidades haverá, quando o Espírito for soprado em teu coração, de ver a excelência dessas coisas e de provar a doçura delas.” (Works, II, 162, ver p.16)

Porém o objetivo de tudo é esse sabor espiritual, não apenas conhecer a Deus, mas deleitar-se nele, saboreá-lo, apreciá-lo. E assim, apesar de todo o seu poder intelectual, Edwards estava muito longe de ser um acadêmico frio, imparcial, neutro e desinteressado.

Ele disse em sua 64ª resolução:

 

Resolvi, quando encontro aqueles “gemidos inexprimíveis”, dos quais fala o apóstolo, e aquelas “aspirações da alma pelo desejo que tem”, das quais o salmista fala... Não me cansarei de me esforçar sinceramente para dar vazão aos meus desejos, nem das repetições de tal seriedade.

 

Em outras palavras, ele estava tão empenhado em cultivar sua paixão por Deus quanto em cultivar seu conhecimento de Deus. Ele lançou-se na couraça de sua carne não apenas pela verdade, mas também por mais graça. A 30ª resolução diz:

 

Resolvi, esforçar-me todas as semanas para ser elevado na religião e para um exercício mais elevado da graça do que na semana anterior.

 

E esse avanço foi, para Edwards, intensamente prático. Ele disse ao seu povo o que procurava para si mesmo.

Não procure crescer em conhecimento principalmente para receber aplausos e para poder discutir com os outros; mas procurem-no para o benefício de suas almas e a fim de praticar... Pratique de acordo com o conhecimento que você possui. Esta será a forma de saber mais.... [De acordo com o Salmo 119.100] “Sou mais prudente que os idosos, porque guardo os teus preceitos.” (Works, II, 162s)

O grande objetivo de todo estudo – de toda teologia – é um coração voltado para Deus e a uma vida de santidade. O grande objetivo de todo o trabalho de Edwards era a glória de Deus. E a melhor coisa que aprendi com Edwards, creio eu, é que Deus não é glorificado principalmente por ser conhecido, nem por ser obedientemente obedecido. Ele é mais glorificado por ser apreciado. Deus glorifica-se também para com as criaturas de duas maneiras: (1) ao aparecer-lhes, manifestando-se ao seu entendimento; (2) ao comunicar-se aos seus corações, e no regozijo e deleite deles, e desfrutando das manifestações que ele faz de si mesmo.... Deus é glorificado não apenas por sua glória ser vista, mas por seu regozijo nela... [Quando] aqueles que a veem deleitam-se nela: Deus é mais glorificado do que se eles apenas o virem; sua glória é então recebida por toda a alma, tanto pelo entendimento como pelo coração.

Deus fez o mundo para que ele pudesse se comunicar e a criatura receber sua glória; e para que ela possa ser recebida tanto pela mente como pelo coração. Aquele que testifica sua opinião da glória de Deus [não] glorifica tanto a Deus quanto aquele que testifica também sua aprovação e seu deleite nela. (The Philosophy of Jonathan Edwards, Harvey G. Townsend, Westport, CT: Greenwood Press Publishers, 1955, Miscellanies, #448, p. 133; ver também #87, p. 128, e #332, p. 130 e #679, pág. 138)

E assim a exortação final e mais importante para nós a partir da vida e obra de Jonathan Edwards é esta: em todo o teu estudo e em todo o teu ministério pastoral procure glorificar a Deus desfrutando dele para sempre.

O desfrutar de Deus é a única felicidade com a qual nossas almas podem ficar satisfeitas. Ir para o céu, para desfrutar plenamente de Deus, é infinitamente melhor do que as acomodações mais agradáveis aqui. Pais e mães, esposos, esposas ou filhos, ou a companhia de amigos terrenos, são apenas sombras; mas Deus é a substância. Estes são apenas raios dispersos, mas Deus é o sol. Estes são apenas rios. Mas Deus é o oceano (Works, II, 244).

 

Tradução:

De: The Pastor as Theologian – Life and Ministry of Jonathan Edwards

1988 Bethlehem Conference for Pastors – John Piper

Por: Paulo Arantes 

Jonathan Edwards: Suas contribuições para o Calvinismo, para a Teologia evangélica, para a Ética cristã e para a prática religiosa

Um ensaio lido diante da Associação Ministerial de Columbus, Ohio, USA

 

Não é o propósito deste ensaio falar detalhadamente dos incidentes na vida e na carreira de Jonathan Edwards; de sua ascendência piedosa e digna na Inglaterra e na América; de seu nascimento na humilde paróquia de Connecticut, onde seu pai pregou e trabalhou por mais de sessenta anos; de sua juventude sob a educação de uma mãe notável, tanto pela cultura intelectual quanto pelas grandes realizações religiosas, e na companhia de dez irmãs, mais velhas e mais novas, cuja influência e treinamento contribuíram muito para seu desenvolvimento mental e para sua pureza moral de coração e de propósito; de sua infância precoce, de seu rápido desenvolvimento mental e espiritual, de sua carreira universitária e de suas realizações acadêmicas, de seu ingresso no ministério aos dezenove anos, de sua subsequente tutela e do simultâneo prosseguimento de estudos teológicos e especulativos; de sua transferência para o pastorado em Northampton, e de sua continuidade nessa posição por vinte e três anos, até que foi expulso dela em meio a circunstâncias de grande provação; de seu retiro para serviço adicional na cidade fronteiriça de Stockbridge, basicamente como missionário entre os índios daquela localidade; de sua eleição para a presidência da Faculdade de Princeton e de sua mudança para lá; e de sua morte prematura aos 55 anos, no momento em que estava assumindo as funções desse alto cargo.

Nem é o propósito deste ensaio descrever o caráter e as qualidades pessoais deste eminente homem – falar em detalhes dos dons peculiares, físicos e mentais, com os quais a bondosa natureza o dotou; da bondade atenciosa e da obediência amorosa que marcaram sua vida naquele lar humilde, porém santificado; das raras qualidades que deram distinção à sua virilidade precoce, e da posição que ele conquistou para si mediante suas realizações superiores; da grande e especial obra da graça em sua mente, em seus sentimentos, em sua vontade, tornando-o, mesmo no início de sua carreira pública, um exemplo marcante do que essa graça divina pode fazer dentro de uma alma consciente e alegremente entregue às suas operações; daquela rara combinação de humildade e dignidade cristãs, do amor fraternal e da firme fidelidade de princípios, da leal devoção ao que ele acreditava ser a verdade, e desejo sincero de que todos os homens conhecessem essa verdade e fossem abençoados por meio dela para sempre, qualidades que tornaram seu nome sinônimo de virilidade espiritual em suas formas mais supremas; da sua paciência sob as provações que sobrecarregaram ao máximo a sua natureza religiosa, a calma com que enfrentou a oposição, a injúria e a pobreza, a serena disposição zelosa ano após ano ao longo do elevado caminho do serviço a Deus e aos homens, ao qual se consagrou; de sua santa e feliz comunhão com o Pai Celestial e de sua alegria inefável em Cristo como seu Salvador, e de sua vida secreta de companheirismo com o Espírito Santo como seu líder, guia e santificador; de tudo o que ele foi e se tornou como um homem notavelmente dotado por natureza com seus dons mais raros em rica abundância, e pela graça alçada aos níveis mais elevados de experiência e maturidade cristãs, um homem digno, em seu caráter pessoal, de um lugar entre os maiores e mais nobres discípulos e representantes de Cristo e de seu Evangelho em todas as épocas da igreja cristã.

Nem é o propósito deste ensaio falar longamente sobre o trabalho e labor de Edwards desde o início até ao fim de sua carreira como ministro, de seus incansáveis estudos e pesquisas na exegese bíblica, na teologia e na filosofia; de seus raros dons como pregador, claro na exposição, vívido na ilustração, poderoso no argumento e quase irresistível em seus apelos à consciência e ao coração, semelhante em tudo isso, se não superior a George Whitefield, seu admitido padrão no púlpito; do seu trabalho discreto e fiel na paróquia, buscando sempre o bem espiritual e a salvação dos homens, e do seu interesse constante em tudo o que dizia respeito ao reino de Cristo, não apenas neste continente, mas no velho mundo; de seu admirável acúmulo de sermões, ensaios, tratados e investigações, do que uma grande proporção nunca foi publicada, e especialmente de seus principais escritos, como seu relato sobre o grande Revival in New England (Avivamento na Nova Inglaterra), seu Life of Davi Brainerd (Vida de David Brainard), sua incompleta History of Redemption (História da Redenção), seu ensaio sobre as Religious Affections (Afeições Religiosas), sua dissertação sobre a Nature of Virtue (Natureza da Virtude), seus tratados sobre os Divine Decrees (Decretos Divinos) e sobre a Efficacious Grace (Graça Eficaz), sua exposição da doutrina do Original Sin (Pecado Original), sua discussão sobre o End or Purpose of God in the Creation of the World (Fim ou Propósito de Deus na Criação do Mundo), e eminentemente sua Inquiry into the Nature and Range of the Freedom of the Will (Investigação sobre a Natureza e o Alcance da Liberdade da Vontade), um volume escrito em quatro meses, acerca do qual Chalmers disse que o ajudou mais do que qualquer outro livro não inspirado, e que Isaac Taylor elogiou como um clássico da metafísica – uma série de escritos que, se a escassa literatura disponível, as limitações circunstanciais, as condições e oportunidades desfavoráveis forem devidamente consideradas, deve ser considerada quase sem paralelo nos anais da literatura desta categoria na América.

Tampouco é o propósito deste ensaio falar dos efeitos da personalidade e das produções de Edwards sobre sua própria geração ou sobre as gerações que se seguiram, ou da influência que ele exerceu, ainda exerce e provavelmente exercerá sobre o pensamento, as experiências, a crença e a prática de milhões de adeptos da nossa santa fé em todo o mundo, pelo menos até onde nossa língua inglesa é falada. É bem sabido que ele atraiu para perto de si um grupo de discípulos inteligentes e sérios, como Hopkins e Bellamy, Smalley e Dwight e Emmons, que se dedicaram com extremo zelo à publicação e promoção das doutrinas que ele ensinou; de modo que os seus ensinos se tornaram as forças dominantes nos círculos teológicos da Nova Inglaterra durante mais de um século, e mesmo agora não perderam a sua energia estimulante e edificante; de modo que a sua doutrina foi levada através do Hudson e tornou-se a base de um novo tipo de fé e prática presbiteriana, agora tão ampla como o continente; de modo que a sua exposição do Evangelho, como um conjunto da verdade salvadora e como uma experiência santa, influenciou de forma proveitosa milhares de outras mentes em várias comunhões cristãs; de modo que as suas palavras de verdade e sobriedade foram transportadas através dos mares e foram semeadas como sementes graciosas na Escócia, onde alguns dos seus escritos foram publicados pela primeira vez, no País de Gales e na Inglaterra e no continente, de modo que, como pensador e professor, ele se encontra agora completamente à frente da longa linhagem de ilustres estudiosos e teólogos na América, e dificilmente se pode dizer que tenha um superior em qualquer país ou época cristã.

Propõe-se neste ensaio simplesmente falar, de uma forma necessariamente breve e superficial, das contribuições específicas que Jonathan Edwards, pela graça de Deus, foi capaz de fazer, em primeiro lugar, ao sistema particular de doutrina conhecido como Calvinismo; em segundo lugar, à teologia evangélica em geral; em terceiro lugar, à correta concepção da ética cristã ou da regra do dever; e, finalmente, dentro do campo da religião prática.

I. Voltando-nos mais especificamente para a discussão proposta, podemos notar, primeiro, tão brevemente quanto possível, as contribuições de Edwards àquele sistema ou tipo de teologia cristã que é comumente conhecido como Calvinismo.

O Presidente Ezra Styles, de Yale, a quem Fisher descreve como um homem de grande reputação e caráter estimável, registrou em seu diário, em 1787, uma geração após a morte de Edwards, a seguinte declaração e profecia concernente ao grande teólogo e suas obras e influência:

“Os valiosos escritos do Presidente Edwards, noutra geração, passarão como um aviso transitório, talvez pouco acima do esquecimento, como Willard ou Twisse ou Norton; e quando a posteridade ocasionalmente os encontrar no entulho das bibliotecas, os raros personagens que puderem lê-los e ficarem satisfeitos com eles, serão considerados tão singulares e excêntricos quanto hoje em dia um admirador de Suarez, Tomás de Aquino ou Dionísio, o Areopagita.” Dos três primeiros mencionados, Twisse foi o primeiro presidente ou moderador da Assembleia de Westminster, descrito por Baillie, nas suas cartas, como “um homem meramente estudioso”, e o autor, entre outras obras, de um notável tratado em latim sobre a Predestinação. Norton foi um dos principais pregadores no início da Nova Inglaterra, autor de uma obra teológica intitulada The Orthodox Evangelist (O Evangelista Ortodoxo), e de um conjunto maior de teologia nunca impresso. Willard foi um dos primeiros presidentes do Harvard College, autor de muitos sermões impressos e de um grande livro em formato de fólio, Body of Divinity (Conjunto de Teologia), que consiste em uma série de palestras mensais sobre o Breve Catecismo, continuado por mais de dezenove anos – o primeiro trabalho extenso sobre teologia publicada na América. Dos outros, Dionísio foi um convertido de Paulo em Atenas, a quem foram atribuídas por algum tempo certas cartas espúrias que levam seu nome, mas escritas durante o terceiro ou quarto século. Tomás de Aquino foi o médico angélico da igreja medieval, cujas obras ainda são estudadas como livros-textos nos seminários romanos na Europa e na América. Suarez foi um jesuíta espanhol do século 16, cujo epitáfio do túmulo nos diz que ele foi o professor da Europa, como também do mundo inteiro, um Aristóteles nas ciências naturais, um angélico Tomás na teologia, um Jerônimo no estilo, um Ambrósio no púlpito, um Agostinho na polêmica, um Atanásio na explicação da fé, um Bernardo na piedade melíflua, um Gregório na exposição das Escrituras e, em uma palavra, o olho do mundo cristão.

Os sermões e outras produções publicados do Presidente Stiles são agora, juntamente com o seu nome, “pouco acima do esquecimento”, enquanto muitas terras celebram o nascimento de Edwards, as suas obras resistiram ao teste do tempo e ainda são reconhecidas como entre as foças estimulantes e edificantes que fluem para e através da cristandade evangélica.

Seu próprio filho foi proeminente entre seus descendentes, com o mesmo nome, possuindo muito da mesma habilidade e gênio, e passando por uma carreira notavelmente semelhante como estudante, tutor, ministro, pastor e presidente de faculdade, e morrendo na mesma idade. A este filho devemos um notável ensaio, escrito principalmente em defesa do pai, e destinado a expor os Improvements (Aperfeiçoamentos), como ele os denomina, que foram feitos por meio de Edwards no Calvinismo precedente. No prefácio ao seu tratado sobre Will (Vontade), Edwards declara sua relação com o Calvinismo em linguagem forte. Depois de protestar contra o uso de termos como calvinista e arminiano para descrever diferenças teológicas, ele diz, por um lado, que não consideraria errado ser chamado de calvinista, mas, por outro lado, ele diz: “Eu rejeito totalmente uma dependência de Calvino, ou crer nas doutrinas que defendo porque ele creu e as ensinou; e não posso ser justamente acusado de crer em tudo exatamente como ele ensinou.” Muito menos que todos os teólogos de sua época, ele poderia ser descrito com justiça como um calvinista fatalista, que crê em um Deus cuja natureza era cruel, em um governo moral absurdo e intolerável, e em uma soberania sobre a vida e os destinos dos homens tão horrível visto que é suprema e irresistível. Seu propósito invencível de testar cada princípio ou dogma teológico pelo padrão da razão é expresso com força na seção final desse tratado. Ao opor-se a certas objeções que poderiam, como ele supunha, serem levantadas contra a sua doutrina sobre a vontade como demasiada metafísica ou obscura, ele diz: A questão não é se o que é dito é metafísica, lógica ou matemática; Latim, Francês, Inglês ou Mohawk; mas se o raciocínio é bom e os argumentos verdadeiramente conclusivos.

Esses Improvements (Aperfeiçoamentos) estavam relacionados a muitos dos tópicos centrais da teologia cristã, como o propósito de Deus na criação da terra e do homem, o governo divino sobre o homem, a origem do mal e especialmente do mal moral, o estado corrupto do homem como um pecador, liberdade e necessidade relacionadas à vontade, a natureza da virtude vista sob o aspecto cristão, a verdadeira base ou fundamento da expiação, regeneração e conversão, justificação pela fé, a vida cristã e a religião experimental. O escritor afirmou que, sobre esses assuntos importantes, seu pai introduziu um método mais racional, colocou em ação uma filosofia mais sábia e, assim, declarou e defendeu suas conclusões de modo a tornar manifesta a harmonia essencial das doutrinas discutidas com a razão mais elevada e pura. Não foi reivindicado que Edwards tinha desenvolvido quaisquer novos dogmas, radicalmente inconsistentes com o Calvinismo antecedente, mas sim que, às vezes, ao eliminar excrescências naquele sistema histórico, e mais frequentemente ao introduzir explicações úteis e ao colocar as doutrinas aceitas sob uma nova e fresca luz, ele aperfeiçoou, expandiu e recomendou o sistema à credibilidade humana como ninguém foi capaz de fazer antes dele.

Os tratados, os sermões, as dissertações e os volumes específicos nos quais esta tarefa foi realizada, ou pelo menos tentada, ocorrerão imediatamente a todo estudante cuidadoso dos escritos de Edwards. Se tudo o que, no auge da devoção filial, foi reivindicado pelo filho, foi realmente defendido pelo pai, tem sido questionado em vários pontos. O fato de que o sistema não só foi melhorado, mas também tornado completo, acabado até à perfeição, não foi declarado pelos primeiros discípulos de Edwards, nem foi, por um momento sequer, afirmado por ele mesmo, como de fato não o foi por nenhum dos seus adeptos inteligentes em tempos mais recentes. Pois, na verdade, o Calvinismo é um esquema de doutrina, tão vital e tão complexo e variado em seus elementos, que é capaz de muitas formas de combinação, muitas mudanças de proporção e, em certo sentido, incapaz de continuar era após era em qualquer forma cristalizada. Está na própria natureza desse sistema desenvolver-se e expandir-se continuamente, amadurecendo através dos séculos a partir de sua origem paulina, Edwards seguindo Calvino como Calvino seguiu Agostinho, e assim progredindo constantemente em direção a uma completude que podemos muito bem acreditar que não poderá alcançar até ser desenvolvido, elevado, purificado na grande escola do céu.

No entanto, permanece o fato geral de que o Calvinismo exibiu uma forma mais ampla, mais imponente e mais espiritual – uma forma menos fatalista na tendência, e menos exclusiva no aspecto e impressão, e, portanto, obtendo maior poder para educar e persuadir os homens do que aparentemente ocorria antes de Edwards o iluminar com seus ensinos. E é importante notar aqui dois fatos específicos de grande importância: Primeiro, que os aperfeiçoamentos feitos por ele seguiram principalmente ao longo do curso de maior graça e liberdade na oferta do Evangelho, de maior liberdade e consequente responsabilidade por parte do pecador, da potência incomensurável da verdade revelada quando enfatizada pelas ministrações do Espírito Santo, e do resultante dever da igreja de orar e trabalhar, e de fazer todos os sacrifícios possíveis com vistas à salvação final de toda a raça humana. E segundo, que, ao efetuar uma mudança de tão grande importância no sistema calvinista, ele o trouxe a uma associação mais estreita com a teologia de professores anglicanos, como o bispo Butler, com as melhores variedades do luteranismo espiritual, e especialmente com aquela forma de Arminianismo da qual seu grande colega, Wesley, era um imponente representante, e que agora está participando tão harmoniosamente com o Calvinismo na tarefa comum de ganhar o mundo para Cristo.

II. A segunda série de contribuições feitas por Edwards aparece no campo mais amplo da teologia evangélica em geral. Deve ser dito aqui que ele não era, em nenhum sentido, um crítico destrutivo ou controversista. Ele não pertencia, nem por temperamento nem por convicção, àquela classe de homens que se deleitam e ofendem a todos ao sempre apontarem as falhas, aumentando os defeitos e a imperfeição nas teologias existentes, embora não possuam capacidade nem disposição para fornecer quaisquer aperfeiçoamentos ou correções naquilo que criticam – vespas que estão sempre zumbindo e picando tudo o que tocam, e sempre envenenando tudo o que picam. Era, antes, seu desejo e objetivo constantes corrigir o que ele considerava defeituoso na doutrina em vigor, por meio da introdução de alguma concepção mais ampla, mais abrangente, mais claramente explicativa e racional da verdade discutida. Aqueles que estudaram seus ensinos sempre perceberam que ele se preocupava com as deficiências ou aberrações doutrinárias apenas onde discernia, ou pensava discernir, de modo que o aperfeiçoamento era tanto possível quanto necessário; e também viram que ele estava sempre animado ao propor tal aperfeiçoamento, não por uma presunçosa vaidade, nem por qualquer disposição vulgar de crítica ou de controvérsia, mas por um desejo sincero e abnegado de instruir, de esclarecer, de ajudar, seja no conhecimento ou na fé.

Mesmo quando se sentiu chamado a combater aquela tendência insidiosa de humanização do Filho de Deus e de redução da sua missão mediadora a um nível análogo ao de outros professores meramente humanos – uma tendência que, meio século depois, culminou no Unitarismo de Charming e seus sucessores – ele procurou corrigir essa tendência, não por meio de denúncia, ou disputa ou ridicularização, mas por meio de um retrato tão brilhante, piedoso e completamente bíblico de nosso Senhor na glória de sua pessoa e missão, como a Divindade Encarnada, quando deveria ter colocado um fim de uma vez por todas a tais concepções racionalizadoras e destrutivas de Cristo e de sua obra salvadora. Esta foi uma ilustração de seu método invariável de lidar com o que ele considerava dogmas errôneos ou defeituosos, por quem quer que os afirmasse. Ao tratar, por exemplo, do decreto divino, da eleição individual, da graça eficaz, do pecado original e da relação entre a queda de Adão e a queda da humanidade nele e através dele, ele dificilmente revela um traço daquela impaciência desdenhosa e daquela depreciação dos antagonistas que tantas vezes magoam o estudante sincero das Institutas de Calvino. Por outro lado, ele habitualmente mostra uma simpatia verdadeira e amorosa para com os errôneos nestes pontos, um desejo paciente de conduzi-los à verdade maior, e uma expectativa esperançosa de que, quando virem a verdade, voltarão espontaneamente seus olhos e seus corações para ela, atraídos e puxados – para usar a expressão de Chalmers – pelo poder explusivo de uma nova afeição.

As contribuições de Edwards à teologia evangélica em suas formas genéricas já foram parcialmente sugeridas pelos títulos dados e não podem ser aqui mencionadas em detalhes. Seus ensinos a respeito da trindade em Deus e das encarnações, e da mediação de Cristo e dos ministérios salvadores do Espírito Santo em cada alma crente; a respeito da queda e do pecado do homem, e da culpa e corrupção de sua natureza, e da necessidade da graça e da ajuda divina para sua restauração; a respeito do plano de salvação do Evangelho, a missão expiatória de nosso Redentor, a indispensabilidade da fé nele e da obediência a ele como o Senhor e Soberano eleito da alma; a respeito da justificação por meio de tal fé e devoção, e da nova vida graciosamente transmitida como necessária consequência, e da esperança sublime e edificante quanto ao futuro avivamento no peito do crente – os seus ensinos concernentes a todos estes temas vitais, e outros que possam ser mencionados, tornaram-se a posse inestimável, não apenas dos calvinistas, mas de toda a igreja de Cristo, seja qual for o nome. Esses ensinos fizeram muito, muito mesmo, para acelerar a pulsação e fortalecer o coração da cristandade universal, e por causa desses ensinos a cristandade já é, e durante séculos será cada vez mais, profundamente grata a ele.

Uma breve referência deve ser feita, neste contexto, àquele notável ensaio sobre a natureza da Trindade em Deus, que apenas agora foi dado ao mundo, pela primeira vez, em forma impressa. Este ensaio, escrito aparentemente durante o início do ministério de Edwards, e de tempos em tempos ampliado, mas ainda incompleto quanto à forma literária, é uma tentativa de mostrar que Deus é, por sua própria natureza, um Ser essencialmente trino e, portanto, eternamente triplicando-se em personalidade trina como Pai, Filho e Espírito Santo, preparatória para sua revelação de si mesmo neste triplo aspecto à nossa raça no interesse da redenção. O que quer que se possa dizer sobre o sucesso desta apresentação altamente especulativa de um tema que deve ser profundamente misterioso para os homens – se de fato pode ser possível para nós, algum dia, alcançarmos qualquer explicação suficiente do fato de uma trindade interna e eterna, como a Sagrada Escritura a afirma – ninguém pode deixar de apreciar a profunda perspicácia, a quase pretensa agudeza natural, a piedade adoradora que caracterizam o tratado póstumo.

Uma ilustração de caráter mais prático merece menção especial aqui. Antes da época de Edwards, as igrejas da Nova Inglaterra aceitaram, sem exame, a teoria de membresia da Igreja de Cristo do velho mundo, sob o que foi denominado como a Aliança do Meio-Termo, como obtida por herança ou por batismo, e, portanto, como não envolvendo necessariamente o que é familiarmente descrito como uma mudança de coração – uma teoria que ainda prevalece amplamente, não apenas na parte protestante do continente europeu, mas nas comunidades religiosas da Grã-Bretanha, como uma herança perniciosa de Roma, e que muito contribuiu para corromper a espiritualidade e prejudicar a eficiência do protestantismo onde quer que ele tenha se firmado. Na melhor das hipóteses, era a concepção romana errônea de que o meio de ir a Cristo, através da Igreja, são os seus ministros e as ordenanças. Contra esta teoria, Edwards semeou a genuína e única doutrina verdadeira, de que a alma deve entrar na Igreja visível por meio de Cristo, e que a Igreja deve ser composta apenas por aqueles que fornecem evidências críveis, evidências em que se pode confiadamente acreditar, de que já estão unidos a Cristo pela fé e de que já são justificados por meio dele. Sobre o conflito que o anúncio deste conceito claro e correto envolveu, sobre a luta pela qual ele passou ao afirmá-lo, e sobre a privação e o martírio resultantes de sua fidelidade a ele, não é necessário falar agora. O grande fato é que a doutrina de Edwards, apesar de toda oposição, tornou-se a doutrina aceita por nossas igrejas da Nova Inglaterra, que atravessou e se enraizou em outro solo e dentro de igrejas de nomes diferentes, e que ainda permanece como um elemento permanente na fé e na prática de quase todas as organizações evangélicas neste continente. Se Edwards não tivesse feito nada mais além de escrever e, depois, defender como fez em seu tratado sobre as Qualifications for Full Communion (Qualificações para a Comunhão Plena), ele teria feito do protestantismo americano seu devedor para sempre.

III. Uma breve referência pode agora ser feita, em terceiro lugar, à grande contribuição de Edwards no campo da Ética, especialmente da Ética Cristã, como pode ser visto principalmente em seu tratado sobre a Nature of Virtue (Natureza da Virtude) – um tratado que pode ser apropriadamente colocado ao lado dos notáveis discursos de Butler sobre o mesmo assunto. Mackintosh, na sua valiosa dissertação sobre o “Progresso da Filosofia Ética”, se refere a Edwards, neste contexto, como o metafísico da América, talvez inigualável no argumento sutil, certamente insuperável entre os homens. Ele apresenta Edwards como um passo à frente da maioria dos metafísicos antes dele, ao ensinar que não apenas a percepção e a razão, mas a emoção e o sentimento também estão entre os princípios fundamentais da moral. A doutrina de Edwards está incorporada na proposição abrangente de que a virtude consiste no amor, no amor a todos os seres – antes de tudo, no amor supremo a Deus como fonte criativa e sustento de todos os outros seres, e em sua própria natureza perfeita e em suas atividades infinitamente merecedoras da mais alta consideração e devoção possíveis da parte de todas as suas criaturas – amor a todos os homens como criaturas e filhos de Deus, dotados de capacidades semelhantes, estabelecidos em relações vitais e afetuosas conosco e, portanto, tendo um direito indiscutível à nossa afeição e ao nosso serviço – amor na forma de benevolência até mesmo para com a criação animal, ilustrando em suas várias qualidades a sabedoria e a bondade daquele que as criou, e, portanto, merecedora de nosso interesse e cuidado – amor em um sentido subordinado, e, pela mesma razão, até mesmo para com o mundo vegetal, para com as árvores, as flores e as gramíneas, e também para com os céus estrelados como divinamente fabricados e sustentados, e cantando perpetuamente os louvores do Ser Supremo que os criou. Edwards inclui nesta categoria, de maneira especial, o amor por todos os santos, pelos bons e santos na terra, por toda a igreja de Cristo entre os homens, pelas hostes redimidas do céu e pelos anjos que circulam para sempre ao redor do trono de Deus, oferecendo-lhe seus tributos de afeição e reverência.

A doutrina de Edwards tem sido desafiada em vários pontos, mas especialmente com base no fato de a virtude não se basear no amor, mas no direito, como o princípio fundamental da moral. Não pode haver dúvida de que o direito, tal como é concebido pela razão e sentido pela consciência, individual e geral, e além disso como enunciado e reforçado pela voz da Revelação, é a regra final e definitiva para a ação humana, em todos os lugares e sempre. Isto não é apenas uma questão de percepção e razão, como tem sido frequentemente afirmado, tanto antes da era de Edwards e Butler quanto desde os seus dias; é também uma questão de emoção e sentimento, porque não apenas o julgamento e a vontade, mas também a consciência, como a sede e o centro de toda sensibilidade moral, está necessariamente envolvida em cada propósito e em cada ato da vida. Edwards, em nenhum lugar, questiona esta proposição, mas antes procura impregnar e glorificar esta concepção um tanto abstrata e fria de exatidão com o brilho penetrante do amor santo – para aquecer a consciência e animar a vontade mediante o toque carinhoso daquela afeição altruísta e universal que o próprio Deus exibe, e que é para a ação e a vida humana o que o calor e o brilho do sol do verão são para o mundo da natureza. Qualquer que seja a verdade quanto à harmonia destes dois conceitos especulativos sobre a virtude, não pode haver dúvida de que ele estava consciente de não haver nenhum conflito entre elas, pois, de todos os homens que já viveram, ele estava entre os mais fiéis ao que acreditava estar certo, mais desinteressado e gentil em sua devoção ao que é certo, e mais pronto a segui-la através de lutas e provações, não apenas nesta vida, mas em todos os mundos para sempre. E é a excelência especial do seu ensino que ele enfatizou o amor como fornecedor da base estimulante de todo dever, de toda obrigação e de responsabilidade. Pois o verdadeiro amor sempre torna o seu possuidor responsável perante Deus, perante os seus semelhantes e perante si mesmo, por todas as suas ações para com todos os outros seres, de acordo com as suas diversas reivindicações. A obrigação é o correlato necessário e universal desse amor; quem ama, no sentido cristão, vive sempre e em toda parte sob a correspondente responsabilidade.

Não pode ser questionado com justiça que o ensino de Edwards sobre este assunto tem sido amplamente difundido e tem produzido grandes benefícios no campo da moral, tanto especulativa como prática. Embora levado ao extremo por alguns de seus discípulos, como, por exemplo, na surpreendente proposição de Samuel Hopkins, de que alguém deveria, por amor a Deus, tornar-se disposto até mesmo a ser condenado, se a glória divina exigisse tal sacrifício, a doutrina teve ampla influência na Nova Inglaterra, mesmo em círculos bastante avessos ao seu autor e aos seus ensinos gerais. Esse ensino foi recentemente apresentado no famoso tratado do Presidente Hopkins sobre a “Lei do Amor, ou Amor como Lei”. Ele lançou as bases para algumas distinções inestimáveis entre a ética natural e a ética cristã, entre a filosofia moral de Platão e a regra moral proclamada por Cristo. E, por mais que a doutrina deva estar sempre associada, pelo menos nas suas formas mais elevadas, a uma experiência religiosa genuína e a uma vida de discipulado amoroso, ela não pode deixar de colher grandes frutos na esfera do dever, inspirando os homens a fazerem o que é certo em todos os lugares, não apenas porque é certo como a razão o discerne, mas também porque o coração o impele e se alegra com o certo e com cada obrigação que este impõe. Por esta razão, foi dito com justiça que esta concepção de benevolência universal, amor puro e ativo a todos os seres, tornou-se historicamente o fundamento tanto de movimentos humanitários, como o da abolição da escravatura, quanto das missões cristãs, tanto no país como entre as nações e raças mais ignorantes. Merecidamente, portanto, o metafísico alemão, Immanuel Fichte, disse com referência a este ensaio: “Este pensador solitário da América do Norte atingiu aqui a base mais fundamental e também a mais elevado que pode estar por baixo do princípio da moral.” John Fiske, em seu discurso sobre o “Pensamento Liberal na América”, diz: “Poucas figuras na história são mais patéticas ou mais sublimes do que a de Jonathan Edwards nas florestas solitárias de Northampton ou Stockbridge, um pensador superado por poucos que viveram em profundidade e acuidade, um homem com alma de poeta e de profeta, lutando contra os problemas mais terríveis que a humanidade já enfrentou, com mais do que a coragem e a sinceridade de Agostinho ou Calvino, com toda a elevada inspiração de Fichte ou Novalis.” “Um ensaio interessante,” acrescenta ele, “poderia ser dedicado a traçar os efeitos provocados na Nova Inglaterra por esta personalidade gigante.”

4. A quarta e última série de contribuições de Edwards jaz no amplo campo da religião prática. Destas, o próprio homem, o homem na pureza e doçura de sua natureza moral, na elevação espiritual que o caracterizou mesmo em seus primeiros dias e se tornou um elemento tão notável em seus anos de maturidade, em sua piedade absorvente, em sua santa caminhada com Deus, seu contínuo amadurecimento para a imortalidade, à qual ele aspirava o tempo todo – ele mesmo foi, facilmente, o primeiro. Se ele nunca tivesse escrito nada, uma personalidade e um personagem como este teria feito para si um registro duradouro; se seus sermões nunca tivessem sido impressos, sua vida teria sido um sermão vivo ao longo dos tempos – um nobre testemunho da potência da graça divina para elevar, purificar e cristianizar a alma humana.

Não é fácil fazer mais do que referir-se, neste ponto, à sua pregação instrutiva, afetuosa e poderosa, na medida em que isso é exibido em seus discursos impressos. Muitos destes discursos são demasiado arcaicos na forma e na expressão, demasiado elaborados e complexos na estrutura e demasiado profundos nos seus conteúdos para serem amplamente lidos em nossa geração. Aqueles entre eles, em número de cinco ou seis, que foram pregados com efeito tão extraordinário em vários lugares durante os períodos de grande avivamento entre o povo, são frequentemente lidos parcialmente e livremente condenados, às vezes por homens que não têm cérebro nem coração para compreendê-los, com exclusão do número muito maior que está cheio da própria essência das Escrituras, que exalam o mais afetuoso amor pelas almas e exibem o homem na plenitude de sua natureza elevada e santa. Se aqueles que leem parágrafos aqui e ali dos sermões de primeira qualidade, apenas se voltassem para beber da melodia, da doçura e da cultura nutritiva da segunda (como The Nature and Reality of Spiritual Light (A Natureza e Realidade da Luz Espiritual), The Excellency of Christ (A Excelência de Cristo), True Grace (A Verdadeira Graça), The Wisdom Displayed in Salvation (A Sabedoria Demonstrada na Salvação), eles obteriam tanto uma concepção melhor sobre o pregador quanto obteriam alguns benefícios espirituais dos quais talvez necessitem muito.

O tratado de Edwards sobre as Religious Affections (Afeições Religiosas) é uma de suas duas principais contribuições para a religião prática. Planejado como uma análise da experiência religiosa derivada da graça de Deus, quando infundida na natureza moral, regenerando-a e vitalizando-a totalmente, e também como um relato das graças e virtudes particulares que brotam na alma crente, agora vivificada e santificada pelo amor, este tratado é digno do mais alto elogio; deveria estar sobre a mesa de cada pregador, tanto como uma ajuda para a compreensão adequada da vida religiosa de seu rebanho, quanto como um guia para um tratamento mais completo de sua própria alma. E se lhe for acrescentado a sua Life of David Brainerd (Vida de David Brainard) e as suas profundas e afetuosas reflexões sobre essa vida, a sua Narrative of Surprising Conversions (Narrativa de Conversões Surpreendentes) e a sua publicação Thoughts on the Revival of Religion in New England (Pensamentos sobre o Avivamento da Religião na Nova Inglaterra), os benefícios resultantes serão ainda maiores.

O título da outra contribuição essencial nesta seção de serviço é descrito por Edwards como uma Humble attempt to promote Explicit Agreement and Visible Union of God’s People in Extraordinary Prayer for the Revival of Religion and the Advancement of Christ’s Kingdom on Earth (Humilde tentativa de promover o acordo explícito e a união visível do povo de Deus em oração extraordinária pelo avivamento da religião e pelo avanço do Reino de Cristo na terra), nos termos, como ele acrescenta, das promessas e profecias das Escrituras sobre os Últimos Tempos. A sugestão de tal acordo teve origem na Escócia, onde, durante dois ou três anos, o povo cristão teve o costume de se reunir em determinados momentos para súplicas em conjunto pelo triunfo do Evangelho em todo o mundo. Petições estimulando tal acordo na oração foram distribuídas de forma um tanto ampla na Nova Inglaterra, e foi em apoio a esse movimento que Edwards preparou sua dissertação. Neste pequeno volume, ele argumenta a favor da oração como um dever, um privilégio e um recurso, e especificamente a favor da concordância ou união em oração ou intercessão como altamente aceitável a Deus, e certamente a ser seguida por sua bênção. Ele propõe que tal união continue neste caso por, pelo menos, sete anos, e que todos os ministros e igrejas deveriam concordar com a proposta – a Grã-Bretanha e a América concordando na santa petição: “Venha o Teu Reino”. Quando lembramos que este compromisso foi amplamente aceito e observado cem anos ou mais antes do que chamamos de Semana de Oração ter sido instituída, através da instrumentalidade de missionários presbiterianos residentes na Índia, ficamos maravilhados com a fé e a coragem com que a defenderam, ainda mais do que a notável habilidade com que a observância foi estimulada. Qualquer pastor que deseje despertar seu povo para a elevada tarefa de intercessão em conjunto pela grande bênção espiritual, encontrará argumentos e incentivos abundantes neste sério tratado.

Ao passarmos em revista essas notáveis e preciosas contribuições que Jonathan Edwards fez à causa de Cristo nas quatro áreas mencionadas, somos capazes de conceber uma avaliação justa, embora possa ser inadequada, do que ele foi como estudante e erudito, como metafísico e teólogo do tipo mais nobre, como homem de Deus tão eminente na piedade como na conduta, como verdadeiro crente e discípulo do Senhor Jesus, ilustre tanto na fé como nas obras – um homem cujo nome o mundo cristão nunca poderá esquecer, e cuja influência fluirá continuamente até os tempos milenares. No monumento de mármore que cobre suas cinzas sagradas, no cemitério de Princeton, pode-se ler em sonora latinidade uma elaborada descrição de suas características e dons, e esta visão geral pode ser adequadamente encerrada com esse eloquente testemunho.

“Você saberia, ó Viajante, que tipo de pessoa foi essa cuja parte mortal jaz aqui? Um homem de fato, de corpo alto, mas gracioso, enfraquecido pela assiduidade e abstinência e pelos estudos mais intensos; na intensidade do seu intelecto, seu julgamento perspicaz e sua prudência incomparável entre os mortais; notável em seu conhecimento das ciências e das artes liberais, eminente na crítica sagrada, e um teólogo distinto sem igual; um defensor invicto da fé cristã e um pregador sério, solene e penetrante; e, pelo favor de Deus, muito feliz no sucesso e resultado de sua vida. Ilustre em sua piedade, sereno nos costumes, mas amigável e benigno para com os outros, viveu para ser amado e respeitado, e agora, infelizmente! para ser lamentada sua morte. A faculdade enlutada chora por ele, e a igreja chora, mas o céu se alegra em recebê-lo:

Abi, Viator, et pia sequere vestigia.

(Saia daqui, ó Viajante, e seus passos piedosos o seguirão.)

 

Tradução:

De: Jonathan Edwards – His Contributions to Calvinism, to Evangelical Theology Generally, to Christian Ethics and to Practical Religion

Rev. Edward D. Morris

A paper read before the Ministerial Association of Columbus, Ohio, USA

Por: Paulo Arantes 

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

A importância e a vantagem de um conhecimento da verdade divina

    Estamos em novembro de 1739. Nos últimos dois anos, Edwards proferiu alguns de seus sermões mais ambiciosos, incluindo seu discurso sobre as virgens prudentes e insensatas, a série sobre 1 Coríntios 13, posteriormente impressa como Charity and Its Fruits (A Caridade e seus frutos), e, no início de 1739, a série sobre Isaías 51.8, também conhecida como A History of the Work of Redemption (Uma História da Obra de Redenção). De muitas maneiras, Edwards ultrapassou seu ápice como pregador. No entanto, os acontecimentos no horizonte o fizeram produzir alguns dos seus maiores sermões – não as performances longas e complexas que imitavam o melhor da sua tradição intelectual puritana, mas uma nova forma de discurso experimental temperado na fornalha de um novo avivamento.

    O Christian Knowledge (Conhecimento Cristão) antecipa o novo modo de pregação.1 Nele, Edwards leva seus paroquianos de volta ao que significa ser cristão e a como viver uma vida cristã. Apesar de todo o esforço que Edwards tinha colocado em sua pregação, aparentemente ele descobriu, para sua decepção, que seus paroquianos ignoravam o básico – uma situação que repercutiu negativamente tanto no ministro como na congregação. Com desafios à ortodoxia reformada por todo lado, nas formas de arminianismo, deísmo e outros “esquemas da moda”, era vital que a população de Northampton estivesse bem armada com a verdade histórica, para que pudesse repelir a invasão heterodoxa. Pode muito bem ser, também, que Edwards tenha ouvido e lido sobre rumores de avivamento vindos de longe (veja God’s Grace Carried On in Other Places – A Graça de Deus Exercida em Outros Lugares), e estivesse tentando lançar os fundamentos para um novo avivamento entre seu próprio povo. Na verdade, desde a primavera de 1739, Edwards vinha detectando uma “visível alteração”, especialmente entre os jovens.2

    A admoestação de Paulo aos hebreus cristãos ajustava-se apropriadamente ao caso de Northampton. Ambos tinham “falta de proficiência” no conhecimento dos ensinos cristãos. Como Paulo, Edwards não está falando de conhecimento teológico ou experimental, mas de conhecimento doutrinário, o qual pode “ser recebido mediante o ensino humano”. Assim, quando deveriam ser capazes de digerir “alimento sólido”, seus ouvintes ainda eram bebês que necessitavam de leite.

Na Doutrina, Edwards caminha progressivamente através de quatro proposições. Ele começa definindo “teologia” como aquilo que diz respeito às grandes coisas da religião e, mais especificamente, “a doutrina de viver para Deus por meio de Cristo”. Dada esta definição, que tipo de conhecimento deve ser procurado antes de tudo? Onde o cristão começa? Edwards identifica o conhecimento especulativo ou intelectual, e o conhecimento prático, que reside em um senso do coração. Ele instrui seus ouvintes a buscarem o primeiro a fim de obterem o último. Em vez de serem excludentes um do outro, os dois estão integralmente conectados. O conhecimento especulativo é o alicerce essencial porque, sem ele, os meios da graça, incluindo a pregação, são em vão. Ambos exigem um certo capital de conhecimento no recebedor para serem eficazes. Finalmente, os cristãos deveriam se esforçar por crescer neste tipo de conhecimento; eles deveriam, como diz Edwards, “fazer disso uma ocupação”. Deus deu à humanidade a faculdade de compreensão para esse fim. As coisas da teologia são, em si mesmas, “coisas de excelência superlativa” e, portanto, dignas de serem buscadas. Como tais, são de infinito interesse para o cristão. Mais ainda, Deus nos deixou um guia na forma de sua Palavra revelada, e designou ministros para ensinar o que está escrito ali.

    A aplicação está repleta de conselhos práticos. Edwards começa dizendo ao seu povo para não se contentar com uma quantidade nominal de conhecimento: “o seu catecismo” e “tanto do princípio da religião quanto for necessário para a salvação”. Em vez disso, procurar sobressair no conhecimento da teologia. Como frequentemente é sua estratégia, Edwards aplica sua mensagem às pessoas de diversas faixas etárias. Ele começa com os jovens. Em vez de “andar de lá para cá, de casa em casa” nas “longas noites de inverno”, para se envolver em conversas vazias, os jovens deveriam procurar edificarem-se uns aos outros e expandirem o conhecimento uns dos outros.3 A obsessão de Edwards com a conversa regular se tornará um tema comum em seus sermões do Grande Avivamento. Porém ele também não poupa os idosos. Sua crítica a eles é que falam demasiado sobre assuntos mundanos, acontecimentos públicos e discórdias. Eles também se beneficiariam com a busca séria do conhecimento cristão como forma de afastá-los do mundo. Se todos apenas buscassem tal conhecimento, descobririam que é um caminho “nobre”, “agradável” e “útil”. Ele conclui com uma lista de orientações práticas sobre como adquirir conhecimento, incluindo a leitura e o exame das Escrituras e de outros bons livros, evitando conversas vãs e buscando benefícios espirituais.

Não foi localizado nenhum manuscrito. O texto foi impresso pela primeira vez na edição Dwight., 6, 125–83, sob o título “Conhecimento Cristão” (Conhecimento Cristão), e depois na Worcester, edição revisada, 4, 1–15. Ao ser examinado, o texto da Worcester mostra mais marcas da composição de Edwards, incluindo uma declaração formal da doutrina e uma lista das proposições numeradas, bem como um maior número de frases que começam com “E”. Além disso, Dwight omite frases que identificam a ocasião do sermão, como uma referência “a esta audiência” e as declarações direcionais de Edwards, “O Uso que eu faria desta doutrina” e “Agora concluirei meu discurso”. Além disso, a tradução de “coisas da teologia”, na edição Worcester, soa mais verdadeira do que as “verdades divinas” de Dwight, “doutrinado” mais do que “instruído” de Dwight, “agradavelmente” mais do que “agradável” e “subsistencies” (subsistências) mais do que “subsistences” (existências). E, finalmente, o texto da Worcester contém frases cunhadas como “by-business” (por ocupação) e arcaísmos como “go a warfare” (vá para uma guerra), que o texto de Dwight não contém. Por estas razões, o texto da Worcester parece basear-se numa transcrição separada e mais precisa do manuscrito, e, por isso, é usado aqui.

1 JE esboçou os pontos principais do sermão no Sermon Notebook (Caderno de Sermões) “14”, no. [164], pág. 58.

2 Carta para Thomas Prince, 12 de dezembro de 1743, em Works, 4, 545.

3 Na carta a Prince, ibid., JE menciona que, a partir da primavera de 1739, “havia mais seriedade e conversação religiosa, especialmente entre os jovens”.


A importância e a vantagem de um conhecimento profundo da verdade divina

“Pois, com efeito, quando devíeis ser mestres, atendendo ao tempo decorrido, tendes, novamente, necessidade de alguém que vos ensine, de novo, quais são os princípios elementares dos oráculos de Deus; assim, vos tornastes como necessitados de leite e não de alimento sólido.” (Hebreus 5.12)

    Estas palavras são uma queixa, a qual o apóstolo faz acerca de uma certa falha nos hebreus cristãos a quem escreveu. Na qual podemos observar:

    1. A falha da qual se queixa, a saber, a falta de uma certa proficiência no conhecimento das doutrinas e mistérios da religião, como poderia ser esperado deles. O apóstolo se queixa deles por não terem feito aquele progresso no conhecimento das coisas da teologia, ou das coisas ensinadas nos oráculos de Deus, que deveriam ter feito. E ele pretende reprová-los, não apenas por sua deficiência no conhecimento espiritual e experimental das coisas divinas, mas por sua deficiência no conhecimento doutrinário dos princípios da religião e das verdades da teologia cristã; como é evidente mediante várias coisas.

    Torna-se evidente pela maneira como o apóstolo introduz esta queixa ou reprovação. A ocasião de sua introdução é esta: no versículo 10, ele menciona o fato de Cristo ser sumo sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque: “Tendo sido nomeado por Deus sumo sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque”. O apóstolo desejava chamar a atenção dos hebreus cristãos para este Melquisedeque, sendo apresentado como um tipo eminente de Cristo no Antigo Testamento, que eram os oráculos de Deus, e para o relato que temos de Melquisedeque contendo muitos mistérios do evangelho. Porém ele percebeu que, devido à sua fraqueza no conhecimento e pouco entendimento de mistérios dessa natureza, eles não o compreenderiam; e, portanto, para, por ora, de dizer qualquer coisa sobre Melquisedeque. Assim, em Hebreus 5.11, “A esse respeito temos muitas coisas que dizer e difíceis de explicar, porquanto vos tendes tornado tardios em ouvir”; ou seja, “Há muitas coisas a respeito de Melquisedeque, as quais contêm maravilhosos mistérios do evangelho, e que eu gostaria de trazer ao conhecimento de vocês, se não tivesse medo de que, devido à sua surdez e lentidão na compreensão dessas coisas, vocês ficariam apenas embaraçados e confusos com meu discurso, e assim não receberiam nenhum benefício; e isto seria muito difícil para vocês, como uma carne muito pesada.”

    Em seguida, vêm as palavras do texto: “Pois, com efeito, quando deveis ser mestres, atendendo ao tempo decorrido, tendes, novamente, necessidade de alguém que vos ensine, de novo, quais são os princípios elementares dos oráculos de Deus; assim, vos tornastes como necessitados de leite e não de alimento sólido.” É como dizer: “Na verdade, poderia ter sido esperado que vocês conhecessem o suficiente sobre a teologia e as Sagradas Escrituras, para serem capazes de compreender e digerir tais mistérios, mas não é assim com vocês.”

    Novamente, o apóstolo fala de sua proficiência neste conhecimento como é transmitido e recebido pelo ensino humano; como é evidente mediante essa expressão: “quando deveis ser mestres, atendendo ao tempo decorrido”; o que inclui não apenas um conhecimento prático e experimental, mas também conhecimento doutrinário das verdades e dos mistérios da religião.

    Outra vez, o apóstolo fala deste conhecimento, por meio do qual os cristãos são capazes de digerir alimento sólido; isto é, compreender aquelas coisas da teologia que são mais obscuras e difíceis de serem compreendidas, e que requerem grande habilidade em coisas desta natureza. Isto é expresso mais plenamente nos dois versículos seguintes: “Ora, todo aquele que se alimenta de leite é inexperiente na palavra da justiça, porque é criança. Mas o alimento sólido é para os adultos, para aqueles que, pela prática, têm as suas faculdades exercitadas para discernir não somente o bem, mas também o mal.”

    De novo, é um conhecimento tal que a proficiência nele levará as pessoas além dos princípios elementares da religião. Como aqui: “tendes, novamente, necessidade de alguém que vos ensine, de novo, quais são os princípios elementares dos oráculos de Deus”. Por esta razão, o apóstolo, no início do próximo capítulo, os aconselha a “Por isso, pondo de parte os princípios elementares da doutrina de Cristo, deixemo-nos levar para o que é perfeito”.

    2. Podemos observar em que se torna evidente o erro desta falha, a saber, em que eles não adquiriram proficiência de acordo com seu tempo. Em virtude do tempo, eles deveriam ter sido mestres. Visto que eram cristãos, a sua ocupação era aprender e adquirir conhecimento cristão. Eles eram estudantes na escola de Cristo; e, se tivessem aproveitado seu tempo de aprendizagem, como deveriam ter feito, poderiam, na época em que o apóstolo escreveu, estar aptos para serem mestres nesta escola. Qualquer que seja a ocupação à qual alguém se dedique, pode-se esperar que sua perfeição nela seja correspondente ao tempo que ele teve para aprender e se aperfeiçoar. Os cristãos não devem permanecer sempre crianças, mas devem crescer no conhecimento cristão; e deixando o alimento dos bebês, que é o leite, devem aprender a digerir alimento sólido.


Doutrina.

Todo cristão deve se esforçar para crescer no conhecimento da teologia.

    Esta é, de fato, considerada a ocupação de teólogos e ministros; geralmente se pensa que é seu trabalho, por meio do estudo das Escrituras e de outros livros instrutivos, obter conhecimento; e a maioria parece pensar que isso pode ser deixado para eles, como algo que não pertence a outros. Porém, se o apóstolo nutrisse essa noção, ele nunca teria culpado os hebreus cristãos por não terem adquirido conhecimento suficiente para serem mestres; ou, se ele tivesse pensado que isso dizia respeito aos cristãos em geral apenas como uma coisa secundária, e que seu tempo não devesse, em uma medida considerável, se envolver com essa atividade, ele nunca os teria culpado tanto de que sua proficiência no conhecimento não correspondia ao tempo que eles tiveram para aprender.

Ao tratar deste assunto, mostrarei:

I. O que é teologia.

II. Que tipo de conhecimento de teologia é pretendido na doutrina.

III. Porque é necessário o conhecimento da teologia.

IV. Porque todos os cristãos deveriam se esforçar para crescer neste conhecimento.


I. Mostrarei, de forma muito breve, o que é teologia.

    Várias definições têm sido dadas por aqueles que trataram do assunto. Não me deterei para investigar agora qual é, de acordo com as regras da ciência, a definição mais precisa; mas a definirei ou a descreverei, pois penso que tem a maior tendência de transmitir uma noção dela a este auditório.

    Por teologia entende-se aquela ciência ou doutrina que compreende todas as verdades e regras que dizem respeito ao grande assunto da religião. Existem vários tipos de artes e ciências ensinadas e aprendidas nas escolas, as quais tratam de vários objetos; sobre as obras da natureza em geral, como a filosofia; ou os céus visíveis, como a astronomia; ou o mar, como a navegação; ou a terra, como a geografia; ou o corpo do homem, como a medicina e a anatomia; ou a alma do homem, no que diz respeito aos seus poderes e qualidades naturais, como a lógica e a pneumatologia; ou sobre o governo humano, como a política e a jurisprudência. Porém existe uma ciência, ou um certo tipo de conhecimento e doutrina, que está acima de todo o restante, visto que diz respeito a Deus e ao grande assunto da religião: esta é a teologia; a qual não é aprendida, como outras ciências, meramente pelo aperfeiçoamento da razão natural do homem, mas é ensinada pelo próprio Deus em certo livro que ele deu para esse fim, cheio de instrução. Esta é a regra que Deus deu ao mundo para ser seu guia na busca por esse tipo de conhecimento, e é um resumo de todas as coisas desta natureza que precisamos conhecer. Por esse motivo, a teologia é melhor chamada de doutrina do que de arte ou de ciência.

    Na verdade, existe o que é chamado de religião ou teologia natural. Existem muitas verdades a respeito de Deus e de nosso dever para com ele que são evidentes mediante a luz da natureza. Porém a teologia cristã, propriamente dita, não é evidente mediante a luz da natureza; ela depende de revelação. São tais as nossas circunstâncias agora, em nosso estado decaído, que nada que é necessário sabermos a respeito de Deus é manifestado mediante a luz da natureza da maneira pela qual é necessário que o conheçamos. Pois o conhecimento da verdade na teologia não tem qualquer importância para nós, a não ser porquê de uma forma ou de outra pertença ao esquema do evangelho, ou visto que diz respeito a um Mediador. Contudo, a luz da natureza não nos ensina nenhuma verdade da teologia desta maneira. Portanto, não pode ser dito que chegamos ao conhecimento de qualquer parte da teologia cristã mediante a luz da natureza. A luz da natureza não ensina a verdade como ela é em Jesus. É apenas a Palavra de Deus, contida no Antigo e no Novo Testamentos, que nos ensina a teologia cristã.

    A teologia compreende tudo o que é ensinado nas Escrituras e, portanto, tudo o que precisamos saber, ou devemos saber, a respeito de Deus e de Jesus Cristo, a respeito de nosso dever para com Deus e de nossa felicidade em Deus. A teologia é comumente definida como a doutrina de viver para Deus; e, por alguns que parecem ser mais precisos, a doutrina de viver para Deus por meio de Cristo. Ela compreende todas as doutrinas cristãs tal como são em Jesus, e todas as regras cristãs que nos orientam no viver para Deus por meio de Cristo. Não há nada na teologia, nenhuma doutrina, nenhuma promessa, nenhuma regra, exceto o que de uma forma ou de outra diz respeito à vida cristã e divina, ou ao nosso viver para Deus por meio de Cristo. Todas essas coisas (doutrina, promessa e regra) dizem respeito a isso em dois aspectos, a saber, porque tendem a promover nosso viver para Deus aqui neste mundo, em uma vida de fé e santidade, e também porque tendem a nos levar a uma vida de perfeita santidade e felicidade, no pleno gozo de Deus no futuro. Mas apresso-me à

II. [Segunda] coisa proposta, a saber, mostrar que tipo de conhecimento de teologia é pretendido na doutrina.

Aqui eu gostaria de observar,

    Primeiro. Que existem dois tipos de conhecimento das coisas da teologia, a saber, o especulativo e o prático, ou, em outras palavras, o natural e o espiritual. O primeiro fica apenas na cabeça. Nenhuma outra faculdade além do entendimento está envolvida nele. Consiste em ter um conhecimento natural ou racional das coisas da religião, ou um certo conhecimento que pode ser obtido pelo exercício natural de nossas próprias faculdades, sem qualquer iluminação especial do Espírito de Deus. O último não reside inteiramente na cabeça ou nas ideias especulativas das coisas, mas o coração está envolvido nele; consiste principalmente no senso do coração. O mero intelecto, sem o coração, a vontade ou a inclinação, não é a sua sede. E não pode ser chamado apenas de ver, mas de sentir ou de saborear. Portanto, há uma diferença entre ter uma noção especulativa correta das doutrinas contidas na Palavra de Deus e ter o devido senso delas no coração. A primeira consiste no conhecimento especulativo ou natural das coisas da teologia; o último consiste no conhecimento espiritual ou prático delas.

    Segundo. Nenhum destes é pretendido na doutrina excluindo-se o outro, mas pretende-se que devemos procurar o primeiro em prol do último. O último, igualmente um conhecimento espiritual e prático da teologia, é da maior importância; pois um conhecimento especulativo dela, sem um conhecimento espiritual, é em vão e sem propósito, a não ser para tornar nossa condenação ainda maior. No entanto, um conhecimento especulativo também é de infinita importância neste aspecto, pois sem ele não podemos ter conhecimento espiritual ou prático; como pode ser mostrado de passagem.

    Já mostrei que o apóstolo fala não apenas de um conhecimento espiritual, mas de um conhecimento que pode ser adquirido e comunicado de um para outro. No entanto, não se deve pensar que ele se refere exclusivamente ao outro. Mas ele gostaria que os hebreus cristãos buscassem um em prol do outro. Portanto, o primeiro é o primeiro e mais diretamente pretendido; pretende-se que os cristãos, por meio da leitura e de outros meios adequados, busquem um bom conhecimento racional das coisas da teologia. O último é pretendido de forma mais indireta, uma vez que deve ser procurado por meio do outro como seu fim. Mas eu prossigo para a

III. [Terceira] coisa proposta, a saber, mostrar a utilidade e a necessidade do conhecimento de teologia.

    Primeira. Não há outra maneira pela qual qualquer meio de graça possa trazer algum benefício a não ser mediante o conhecimento. Todo ensino é em vão sem aprendizado. Portanto, a pregação do evangelho seria totalmente inútil se não transmitisse conhecimento à mente. Há uma categoria de homens que Cristo designou propositalmente para serem mestres em sua igreja. Eles devem ensinar as coisas da teologia. Porém eles ensinam em vão se nenhum conhecimento destas coisas for adquirido mediante seu ensino. É impossível que seu ensino e pregação sejam um meio de graça, ou de qualquer bem no coração de seus ouvintes, de outra forma que não seja mediante o conhecimento transmitido ao entendimento. Caso contrário, seria igualmente benéfico para o auditório se o ministro pregasse em alguma língua desconhecida. A diferença é que a pregação numa língua conhecida transmite algo ao entendimento, o que a pregação numa língua desconhecida não transmite. Por esse motivo tal pregação deve ser inútil. Os homens nada recebem, em coisas como estas, quando nada entendem; e não são edificados afinal, a menos que algum conhecimento seja transmitido; de acordo com o argumento do apóstolo em 1 Coríntios 14.2-6.

    Nenhum discurso pode ser um meio de graça a não ser por meio da transmissão de conhecimento. Caso contrário, o discurso é desperdiçado, como se não houvesse nenhum homem ali, e aquele que falou tivesse falado apenas para o ar; como se conclui na passagem que acabamos de citar, 1 Coríntios 14.6-10. Aquele que não entende não pode receber fé, nem qualquer outra graça, pois Deus lida com o homem como uma criatura racional; e quando a fé está em exercício, não se trata de algo que ele não conhece. Portanto, o ouvir é absolutamente necessário à fé, porque o ouvir é necessário ao entendimento, Romanos 10.14. “E como crerão naquele de quem nada ouviram?”

    Igualmente não pode haver amor sem conhecimento. Não está de acordo com a natureza da alma humana amar um objeto que é totalmente desconhecido. O coração não pode fixar-se num objeto do qual não há ideia no entendimento. As razões que induzem a alma ao amor devem ser primeiro compreendidas, antes que possam exercer uma influência racional sobre o coração.

    Deus nos deu a Bíblia, que é um livro de instruções. Porém este livro não pode nos trazer qualquer benefício a não ser que transmita algum conhecimento à mente; ela não pode nos beneficiar mais do que se fosse escrita na língua chinesa ou tártara, das quais não conhecemos uma palavra.

    Da mesma maneira os sacramentos do evangelho não podem ter um efeito adequado de outra maneira senão ao transmitir algum conhecimento. Eles representam certas coisas por meio de sinais visíveis. E qual é a finalidade dos sinais senão transmitir algum conhecimento das coisas significadas? Tal é a natureza do homem que nada pode chegar ao coração senão através da porta do entendimento; e não pode haver conhecimento espiritual daquilo sobre o que não haja primeiro um conhecimento racional. É impossível que alguém veja a verdade ou a excelência de qualquer doutrina do evangelho sem saber o que é essa doutrina. Um homem não pode ver a maravilhosa excelência e amor de Cristo, em fazer tais e tais coisas pelos pecadores, a menos que seu entendimento seja primeiro informado de como essas coisas foram feitas. Ele não pode provar a doçura e a excelência divina de tais e tais coisas contidas na teologia a menos que primeiro tenha uma noção de que existem tais e tais coisas.

    Segunda. Sem conhecimento da teologia ninguém seria diferente dos pagãos mais ignorantes e bárbaros. Os pagãos permanecem em densas trevas pagãs porque não são instruídos e não obtiveram o conhecimento das verdades da teologia. Portanto, se vivermos sob a pregação do evangelho, isso nos fará diferir deles apenas por nos transmitir mais conhecimento das coisas da teologia.

    Terceira. Se os homens não tiverem conhecimento destas coisas a faculdade de raciocinar será totalmente inútil neles. As faculdades da razão e da compreensão foram dadas para a compreensão e o conhecimento reais. Se um homem não tiver conhecimento real, a faculdade ou a capacidade de conhecer não será útil para ele. E se ele tiver conhecimento real, se for, todavia, destituído do conhecimento daquelas coisas que são o fim último de seu ser, e por causa do conhecimento das quais ele recebeu mais entendimento do que os animais, então, ainda assim, sua faculdade da razão é inútil; ele poderia muito bem ter sido uma fera, como um homem com esse conhecimento. Porém as coisas da teologia são as coisas para se conhecer, [para] as quais nos foi dada a faculdade da razão. São as coisas que pertencem à finalidade do nosso ser e à grande ocupação para a qual fomos feitos. Portanto, um homem não pode ter sua faculdade de compreensão para qualquer propósito, algo mais do que possuir conhecimento das coisas da teologia.

    De modo que esse tipo de conhecimento é absolutamente necessário. Outros tipos de conhecimento podem ser muito úteis. Algumas outras ciências, como a astronomia, a filosofia natural e a geografia, podem ser excelentes em seu gênero. Porém o conhecimento desta ciência divina é infinitamente mais útil e importante do que o de todas as outras ciências.

IV. Chego agora à quarta e principal coisa proposta pela doutrina, a saber, apresentar as razões pelas quais todos os cristãos deveriam se esforçar para crescer no conhecimento da teologia. Isto implica em duas coisas.

    Primeira. Que os cristãos não devem se contentar com os graus de conhecimento da teologia que já obtiveram. Não deveria satisfazê-los o fato de que sabem tanto quanto é absolutamente necessário para a salvação, mas deveriam procurar fazer progresso.

    Segunda. Que este esforço para progredir em tal conhecimento não deve ser encarado como uma coisa secundária, mas todos os cristãos devem fazer disso uma ocupação; eles devem considerá-lo como parte de sua atividade diária, e não uma pequena parte dela. Deve ser encarado como uma parte considerável do trabalho da sua sublime vocação. A razão de ambas pode tornar-se óbvia nas seguintes coisas.

1. Nossa ocupação deveria, sem dúvida, consistir em empregar muito aquelas faculdades, pelas quais nos distinguimos dos animais, naquelas coisas que são o objetivo principal dessas faculdades. A razão pela qual nos foram dadas faculdades superiores às dos animais irracionais é que fomos realmente projetados para um empreendimento superior. Aquilo que o Criador pretendia que fosse o nosso principal empreendimento é algo acima do que ele pretendia que os animais fizessem e, por esta razão, nos deu poderes superiores. Portanto, sem dúvida, deveria ser uma parte considerável da nossa ocupação cultivar essas faculdades superiores. Porém a faculdade pela qual principalmente nos distinguimos dos animais irracionais é a faculdade do entendimento. Segue-se, então, que devemos ter como nossa principal ocupação cultivar esta faculdade, e de forma alguma devemos considerá-la uma ocupação secundária. Para nós, fazer do cultivo desta faculdade uma ocupação secundária é, na verdade, fazer da própria faculdade do entendimento uma faculdade secundária, se assim posso falar, uma faculdade de menor importância que outras, embora, na verdade, seja a faculdade mais sublime que temos.

    Contudo, não podemos fazer do cultivo da nossa faculdade intelectual uma ocupação, a não ser fazendo do aperfeiçoamento real de nós mesmos na compreensão e no conhecimento uma ocupação. Assim, aqueles que não fazem muito disso a sua ocupação, mas, em vez de cultivar a sua compreensão para adquirir conhecimento, dedicam-se principalmente às suas faculdades inferiores, a fim de prover meios de agradar aos seus sentidos e satisfazer os seus apetites animais; e assim preferem fazer do seu entendimento um servo dos seus poderes inferiores do que de seus poderes inferiores servos do seu entendimento; não apenas se comportam de maneira a não se tornarem cristãos, mas também agem como se tivessem esquecido que são homens, e que Deus os colocou acima dos animais irracionais ao dar-lhes entendimento.

    Deus deu ao homem algumas coisas em comum com os animais irracionais, como seus sentidos externos, seus apetites corporais, a capacidade de sentir prazer e dor corporais, e outras faculdades animais; e lhe deu algumas coisas superiores às dos animais, cuja principal é uma faculdade do entendimento e da razão. Ora, Deus nunca deu ao homem essas faculdades, pelas quais ele está acima dos animais, para estarem sujeitas àquelas que ele tem em comum com os animais. Isto seria uma grande confusão e equivalente a fazer do homem um servo dos animais. Pelo contrário, ele deu esses poderes inferiores para serem empregados em subserviência ao entendimento do homem; e, portanto, deve ser uma grande parte da ocupação principal do homem cultivar seu entendimento por meio da aquisição de conhecimento. Se assim for, então seguir-se-á que deve ser uma parte essencial da sua ocupação cultivar o seu entendimento na aquisição do conhecimento divino, ou o conhecimento das coisas da teologia; pois o conhecimento destas coisas é o fim principal desta faculdade. Deus deu ao homem a faculdade do entendimento, principalmente, para que ele pudesse compreender as coisas divinas.

    Os pagãos mais sábios4 tinham consciência de que a principal tarefa do homem era o aperfeiçoamento e o exercício do seu entendimento. Porém eles estavam nas trevas, pois não conheciam o objeto sobre o qual o entendimento deveria ser principalmente empregado. A ciência sobre a qual muitos deles pensavam que deveriam empregar principalmente o entendimento era a filosofia; e, consequentemente, eles fizeram da sua principal ocupação estudá-la. Porém nós que desfrutamos da luz do evangelho somos mais felizes, não ficamos, quanto a este particular, nas trevas. Deus nos disse sobre quais coisas devemos empregar principalmente nossos entendimentos, tendo-nos dado um livro cheio de instruções divinas, apresentando muitos objetos gloriosos sobre os quais todas as criaturas racionais deveriam empregar principalmente seus entendimentos. Estas instruções são adaptadas a pessoas de todas as capacidades e condições, e adequadas para serem estudadas, não apenas por homens instruídos, mas por pessoas de toda condição, instruídas e não instruídas, jovens e idosos, homens e mulheres. Portanto, a aquisição de conhecimento destas coisas deveria ser a principal ocupação de todos aqueles que têm a vantagem de desfrutar das Sagradas Escrituras.

2. As coisas da teologia são coisas de excelência superlativa e são dignas de que todos se esforcem para crescer no conhecimento delas. Não existem coisas tão dignas de serem conhecidas como essas. Elas estão tão acima das coisas tratadas em outras ciências quanto o céu está acima da terra. O próprio Deus, o eterno Três em Um, é o objeto principal desta ciência; em segundo lugar, Jesus Cristo, como Deus-homem e Mediador, e a gloriosa obra da redenção, a obra mais gloriosa que já foi realizada; depois, as grandes coisas do mundo celestial, a herança gloriosa e eterna comprada por Cristo e prometida no evangelho; a obra do Espírito Santo de Deus nos corações dos homens; nosso dever para com Deus e a maneira pela qual nós mesmos podemos nos tornar como anjos e como o próprio Deus em nossa medida; todas essas coisas são objetos desta ciência.

    Coisas como essas foram o principal assunto de estudo dos santos patriarcas, profetas e apóstolos, e dos homens mais excelentes que já existiram no mundo, e igualmente são o assunto de estudo dos anjos no céu, 1 Pedro 1.10-12.

    Essas coisas são tão excelentes e dignas de serem conhecidas, que o conhecimento delas recompensará ricamente todas as dores e labores de uma busca sincera por elas. Se houvesse um grande tesouro de ouro e pérolas escondido na terra, que fosse acidentalmente encontrado, e fosse aberto entre nós em tais circunstâncias que todos pudessem ter tanto quanto pudessem apanhar dele; não pensariam todos que valeria a pena se dedicar a apanhá-lo enquanto durasse? Porém este tesouro de conhecimento divino, o qual está contido nas Escrituras e é fornecido para que cada um colha para si o máximo que puder, é um tesouro muito mais rico que qualquer outro de ouro e pérolas. Quão ocupados estão todos os tipos de homens, em todo o mundo, em obter riquezas? Contudo, esse conhecimento é um tipo de riqueza muito melhor do que aquele que eles buscam com tanta diligência e laboriosidade.

3. As coisas da teologia não dizem respeito apenas aos ministros, mas são de infinita importância para todos os cristãos. Não acontece com as doutrinas da teologia como acontece com as doutrinas da filosofia e de outras ciências. Estas últimas são, geralmente, pontos especulativos, que pouco dizem respeito à vida humana; e altera muito pouco a situação quanto aos nossos interesses temporais ou espirituais, quer as conheçamos ou não. Os filósofos divergem sobre eles, sendo alguns de uma opinião e outros de outra. E enquanto eles estão envolvidos em discussões acaloradas sobre elas, outros podem muito bem deixá-los discutir entre si, sem se preocuparem muito com eles; sendo de pouca importância para eles se um ou outro está certo.

    Porém não é assim em questões de teologia. As doutrinas desta dizem respeito a quase todos. Elas tratam de coisas que dizem respeito à salvação e felicidade eternas de cada homem. As pessoas comuns não podem dizer: “Deixemos estes assuntos para ministros e teólogos; deixe-os discuti-los entre si o quanto puderem; eles não nos dizem respeito”, pois são de infinita importância para cada homem. Aquelas doutrinas que dizem respeito à essência, atributos e existências de Deus dizem respeito a todos; visto que é de infinita importância para as pessoas comuns, assim como para os ministros, saber que tipo de ser Deus é. Pois ele é o Ser que nos criou a todos, em quem "vivemos, e nos movemos, e existimos”; que é o Senhor de tudo; o Ser a quem todos devemos prestar contas; é o fim último do nosso ser e a única fonte da nossa felicidade.

    Também, as doutrinas que dizem respeito a Jesus Cristo, e sua mediação, sua encarnação, sua vida e morte, sua ressurreição e ascensão, seu assento à direita do Pai, sua satisfação e intercessão, dizem respeito infinitamente às pessoas comuns, assim como aos teólogos. Elas têm tanta necessidade deste Salvador e de interesse em sua pessoa e ofícios, e nas coisas que ele fez e sofreu, quanto os ministros e teólogos.

    O mesmo pode ser dito das doutrinas que dizem respeito ao modo da justificação de um pecador, ou a maneira pela qual ele se interessa pela mediação de Cristo. Elas dizem respeito a todos igualmente; pois todos têm igual necessidade de justificação diante de Deus. Aquela condenação eterna, à qual todos estamos naturalmente expostos, é igualmente terrível. Igualmente, com respeito às doutrinas da teologia, as quais dizem respeito à obra do Espírito de Deus no coração, na aplicação da redenção em nosso chamado eficaz e santificação, todos estão igualmente interessados nelas. Não existe qualquer doutrina da teologia que não diga respeito, de uma forma ou de outra, ao interesse eterno de cada cristão. Nenhuma das coisas que Deus nos ensinou em sua Palavra são especulações desnecessárias ou assuntos triviais; todas elas são, de fato, pontos importantes.

4. Podemos argumentar a partir das grandes coisas que Deus fez para nos dar instrução nessas coisas. Quanto às outras ciências, ele nos deixou entregues a nós mesmos, à luz da nossa própria razão. Porém, sendo as coisas da teologia de importância infinitamente maior para nós, ele não nos entregou a um guia incerto, mas ele mesmo nos deu uma revelação da verdade nesses assuntos, e fez grandes coisas para transmitir e confirmar essa revelação a nós; levantando muitos profetas em diferentes épocas, inspirando-os imediatamente com seu Espírito Santo e confirmando sua doutrina com inúmeros milagres ou obras maravilhosas fora do curso estabelecido da natureza. Sim, ele levantou uma sucessão de profetas, a qual foi mantida por vários séculos.

    Foi justamente para esse fim que Deus separou o povo de Israel, de uma maneira tão maravilhosa, de todos os outros povos, e os manteve separados; para que pudesse confiar a eles os oráculos de Deus, e para que, a partir deles, esses oráculos pudessem ser comunicados ao mundo. Frequentemente ele também enviou anjos para trazerem instruções divinas aos homens; e muitas vezes apareceu em símbolos milagrosos ou representações de sua presença; e agora, nestes últimos dias, enviou seu próprio Filho ao mundo para ser seu grande profeta, para nos ensinar a verdade divina, no começo de Hebreus 1. Finalmente, Deus deu um livro de instruções divinas, o qual contém a soma da teologia. Ora, Deus fez essas coisas, não apenas para a instrução de ministros e homens instruídos, mas para a instrução de todos os homens, de todos os tipos: homens, mulheres e crianças instruídos e iletrados. E, certamente, se Deus faz coisas tão grandes para nos ensinar, não devemos fazer pouco para aprender.

    Deus não fez com que dar instruções aos homens sobre assuntos teológicos fosse uma tarefa secundária, mas uma ocupação que ele empreendeu e conduziu em um curso de grandes e maravilhosas dispensações, como uma ocupação na qual seu coração esteve grandemente envolvido; o que, às vezes, nas Escrituras é indicado pela expressão Deus se levantou cedo para nos ensinar e para enviar profetas e mestres a nós. Jeremias 7.25: “Desde o dia em que vossos pais saíram da terra do Egito até hoje, enviei-vos todos os meus servos, os profetas, todos os dias; começando de madrugada, eu os enviei.” E também, Jeremias 7.13: “Agora, pois, visto que fazeis todas estas obras, diz o Senhor, e eu vos falei, começando de madrugada, e não me ouvistes, chamei-vos, e não me respondestes”. Este é um discurso figurativo, que significa que Deus não fez isso como uma ocupação secundária, mas como uma ocupação de grande importância, na qual ele tomou muito cuidado e teve seu coração muito engajado; porque as pessoas costumam acordar cedo para exercer as atividades nas quais estão seriamente empenhadas. Se Deus esteve tão empenhado no ensino, certamente não deveríamos ser negligentes no aprendizado, nem deveríamos fazer do crescimento no conhecimento uma atividade secundária, mas uma grande parte das atividades das nossas vidas.

5. Pode-se argumentar com base na abundância das instruções que Deus nos deu, na grandeza deste livro que Deus nos deu para nos ensinar a teologia, e na grande variedade que ele contém. Muito foi ensinado por meio de Moisés dos tempos antigos o que temos transmitido para nós; depois disso, outros livros foram acrescentados de tempos em tempos; muito nos é ensinado por meio de Davi e Salomão; e muitas e excelentes são as instruções comunicadas pelos profetas; todavia, Deus não achou tudo isso suficiente, mas depois disso enviou Cristo e seus apóstolos, por meio dos quais foi acrescentado um grande e excelente tesouro a este livro sagrado, o qual deve ser nossa regra no estudo deste importante assunto.

    Este livro foi escrito para uso de todos; todos são orientados a pesquisar as Escrituras. João 5.39, “Examinai as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas que testificam de mim”; e Isaías 34.16, “Buscai no livro do Senhor e lede”. Aqueles que leem e entendem são declarados abençoados. Apocalipse 1.3, “Bem-aventurados aqueles que leem e aqueles que ouvem as palavras da profecia.” Se isso é verdade para este livro específico do Apocalipse, muito mais é verdade para a Bíblia em geral. Não se deve acreditar que Deus teria dado instruções em tal abundância, se ele tivesse pretendido que receber instruções fosse apenas uma preocupação secundária para nós.

    Deve-se considerar que todas as abundantes instruções contidas nas Escrituras foram escritas para que pudessem ser compreendidas, caso contrário, não são instruções. Aquilo que não é dado para que o aluno possa compreender, não é dado para a instrução do aluno; e, a menos que nos esforcemos para crescer no conhecimento da teologia, uma grande parte dessas instruções será em vão; pois não podemos receber mais benefícios por meio das Escrituras do que entendemos, não mais do que se elas estivessem encerradas em uma língua desconhecida. Temos motivos para louvar a Deus por ele nos ter dado instruções tão variadas e abundantes em sua Palavra, mas seremos hipócritas ao fazê-lo se, apesar de tudo, nos contentarmos com apenas um pouco desta instrução.

    Quando Deus abre um grande tesouro diante de nós, a fim de suprir nossas necessidades, e lhe agradecemos por nos ter dado tanto, se, ao mesmo tempo, estivermos dispostos a permanecer desprovidos da maior parte dele porque temos preguiça de adquiri-lo, isso não mostrará a sinceridade da nossa gratidão. Temos agora vantagens muito maiores para adquirir conhecimento na teologia do que o povo de Deus tinha antigamente, porque o cânon das Escrituras aumentou muito desde aquela época. Porém, se negligenciarmos as nossas vantagens, poderemos nunca ser melhores por causa delas e poderemos permanecer com tão pouco conhecimento como eles.

6. Por mais diligentemente que nos apliquemos, há espaço suficiente para aumentar o nosso conhecimento da verdade divina, sem chegar ao fim. Ninguém tem esta desculpa para não se aplicar diligentemente para obter conhecimento da teologia, pois já sabe tudo; nem pode dar a desculpa de que não precisa aplicar-se diligentemente para saber tudo o que há para ser conhecido. Ninguém pode desculpar-se por causa necessidade das ocupações às quais se dedica. Há espaço suficiente para nos dedicarmos para sempre a esta ciência divina com a máxima aplicação. Aqueles que se dedicaram mais firmemente, estudaram por mais tempo e obtiveram maiores realizações neste conhecimento, sabem muito pouco do que deve ser conhecido. O assunto é inesgotável. Esse Ser Divino, que é o tema principal desta ciência, é infinito e não há fim para a glória de suas perfeições. Suas obras são, ao mesmo tempo, maravilhosas e não podem ser descobertas com perfeição; especialmente a obra da redenção, que é aquela obra de Deus sobre a qual a ciência da teologia está principalmente relacionada, está cheia de maravilhas insondáveis.

    A Palavra de Deus, que é dada para nossa instrução na teologia, contém o suficiente para nos ocupar até o fim de nossas vidas, e então deixaremos o suficiente sem investigação para ocupar as cabeças dos teólogos mais capazes até o fim do mundo. O salmista encontrou um fim para as coisas humanas, mas ele nunca conseguiu encontrar um fim para o que está contido na Palavra de Deus. Salmos 119.96, “Tenho visto que toda perfeição tem seu limite; mas o teu mandamento é ilimitado.” Há o suficiente nesta ciência divina para ocupar o entendimento dos santos e dos anjos por toda a eternidade.

7. Sem dúvida, é da responsabilidade de cada um esforçar-se por se destacar no conhecimento das coisas que pertencem à sua profissão ou vocação principal. Se diz respeito aos homens se destacarem em alguma coisa, ou em alguma ciência ou conhecimento, certamente lhes diz respeito se destacarem nos assuntos de sua profissão e trabalho principais. Porém o chamado e o trabalho de todo cristão é viver para Deus. É dito que esta é a sua soberana vocação, Filipenses 3.14. Esta é a ocupação e, se assim posso dizer, a profissão de um cristão, seu trabalho principal e, na verdade, deveria ser seu único trabalho. Nenhuma ocupação deveria ser feita por um cristão, exceto quando, de uma forma ou de outra, ela faça parte desta. Portanto, o cristão certamente deve se esforçar por estar bem familiarizado com as coisas que pertencem a esta obra, para que possa cumpri-la e estar completamente equipado para ela.

    Convém a alguém que é chamado para ser soldado, e ir para a guerra, se esforçar a fim de se destacar na arte da guerra. Convém a alguém que é chamado a ser marinheiro, e a passar a vida navegando no oceano, esforçando-se para se destacar na ciência da navegação. Convém a alguém que professa ser médico, e se dedica a esse trabalho, esforçar-se para se destacar no conhecimento das coisas que pertencem à ciência da medicina. Igualmente, convém a todos os que professam ser cristãos e se dedicam à prática do cristianismo, esforçarem-se para se destacarem no conhecimento da teologia.

8. Pode-se argumentar a partir disso que Deus designou uma categoria de homens para esse fim, para ajudar as pessoas a obterem conhecimento dessas coisas. Ele os designou para serem professores. 1 Coríntios 12.28, “A uns estabeleceu Deus na igreja, primeiramente, apóstolos; em segundo lugar, profetas; em terceiro lugar, mestres.” Efésios 4.11-12, “E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo.” Se Deus os designou para serem professores, fazendo disso a sua ocupação, então ele fez com que a sua tarefa fosse transmitir conhecimento. Mas que tipo de conhecimento? Não o conhecimento da filosofia, ou das leis humanas, ou das ciências mecânicas, mas da teologia.

    Se Deus fez com que a ocupação de alguns fosse ser professores, seguir-se-á que ele fez com que a ocupação de outros fosse serem alunos; pois professores e alunos são correlatos, um dos quais nunca foi pretendido que existisse sem o outro. Deus nunca determinou ser o dever de alguns esforçarem-se para ensinar aqueles que não são obrigados a esforçarem-se para aprender. Ele não ordenou aos ministros que se gastem para transmitir conhecimento àqueles que não são obrigados a aplicarem-se para recebê-lo.

    O nome pelo qual os cristãos são comumente chamados no Novo Testamento é discípulos, cujo significado é estudantes ou aprendizes. Todos os cristãos são colocados na escola de Cristo, onde sua função é aprender ou receber o conhecimento de Cristo, seu Mestre e Professor comum, e daqueles professores inferiores designados por ele para instruírem em seu nome.

9. Deus revelou claramente nas Escrituras que é sua vontade que todos os cristãos se esforcem diligentemente para se destacarem no conhecimento das coisas divinas. É a vontade revelada de Deus que os cristãos não apenas tenham algum conhecimento das coisas desta natureza, mas que sejam enriquecidos com todo o conhecimento. 1 Coríntios 1.4-5: “Sempre dou graças a meu Deus a vosso respeito, a propósito da sua graça, que vos é dada em Cristo Jesus; porque, em tudo fostes enriquecidos nele, em toda a palavra e em todo o conhecimento”. Igualmente, o apóstolo orou fervorosamente para que os cristãos filipenses pudessem abundar mais e mais, não apenas em amor, mas em conhecimento cristão. Filipenses 1.9, “E também faço esta oração: que o vosso amor aumente mais e mais em pleno conhecimento e toda percepção.” Também, o apóstolo Pedro aconselha “reunindo toda a vossa diligência, associai com a vossa fé a virtude; com a virtude, o conhecimento” (2 Pedro 1.5). E o apóstolo Paulo, no capítulo seguinte àquele em que está o texto, aconselha os hebreus cristãos a porém de parte os princípios elementares da doutrina de Cristo, e a deixarem-se levar para o que é perfeito. De forma alguma ele queria que eles ficassem sempre parados apenas naquelas doutrinas fundamentais de arrependimento, fé, ressurreição dos mortos e julgamento eterno, nas quais foram doutrinados quando foram batizados no início, e tiveram as mãos do apóstolo impostas sobre eles, na sua iniciação no cristianismo. Veja Hebreus 6, no início.


Aplicação.

    O uso que faço desta doutrina é no sentido de exortar todos a se esforçarem diligentemente para obter esse tipo de conhecimento.

    Considerem-se como alunos ou discípulos, matriculados na escola de Cristo; e, consequentemente, sejam diligentes em adquirir proficiência no conhecimento cristão. Não se contentem com aquilo que vocês aprenderam do catecismo em vossa infância, nem com tanto aquilo que conhecem dos princípios da religião quanto é necessário para a salvação. Desse modo vocês serão culpados daquilo contra o que o apóstolo adverte, a saber, não indo além de lançar novamente “a base do arrependimento de obras mortas”, etc. (Hebreus 6.1)

    Todos vocês são chamados para serem cristãos, e esta é a vossa profissão. Esforcem-se, portanto, para adquirir conhecimento das coisas que dizem respeito à vossa profissão. Não deixem que seus professores tenham motivos para reclamar, pois enquanto eles se gastam e são consumidos para transmitir conhecimento a vocês, vocês se esforçam pouco para aprender. É um grande incentivo para um instrutor ensinar pessoas que fazem do aprendizado uma ocupação, dedicando suas mentes a isso. Isto torna o ensino um prazer, ao mesmo tempo em que o contrário será uma tarefa muito pesada e opressiva.

    Todos vocês possuem um grande tesouro de conhecimento divino, pois possuem a Bíblia em suas mãos; portanto, não se contentem em possuir apenas um pouco deste tesouro. Deus falou muito com vocês nas Escrituras; esforce-se para entender o máximo que puderem do que ele diz. Deus fez de todos vocês criaturas racionais; por esta razão, não deixem que a nobre faculdade da razão ou do entendimento seja negligenciada. Não se contentem em ter tanto conhecimento quanto é jogado em vosso caminho, nem tanto quanto vocês recebem, em certo sentido inevitavelmente, pela frequente inculcação da verdade divina na pregação da Palavra, da qual vocês são obrigados a serem ouvintes, ou tanto quanto vocês acidentalmente obtêm em conversa; antes seja vossa maior ocupação procurar esse conhecimento, e isso com a mesma diligência e esforço com que os homens costumam cavar minas de prata e ouro.

    De modo especial, eu aconselho aqueles que são jovens a ocuparem-se desta forma. Os homens nunca são velhos demais para aprender; mas o período da juventude é especialmente a época da aprendizagem; é particularmente adequado para adquirir e armazenar conhecimento. Além disso, para incitar todos, tanto idosos como jovens, a este dever, deixem-me pedir que considerem:

    Primeiro. Se vocês se dedicarem diligentemente a este trabalho, não desejarão ocupação quando estiverem livres de suas atividades seculares comuns. Dessa forma, vocês poderão encontrar algo em que possam se dedicar proveitosamente nessas longas noites de inverno. Vocês encontrarão outra coisa para fazer, além de ir de casa em casa, gastando uma hora após a outra em conversas inúteis ou, na melhor das hipóteses, sem outro propósito senão divertirem-se, preencherem e gastarem seu tempo. E é de recear que grande parte do tempo gasto em nossas visitas noturnas de inverno seja gasto com um propósito muito pior do que este que mencionei agora. Salomão nos diz, em Provérbios 10.19, que “No muito falar não falta transgressão”. E não é isso que se verifica naqueles que não encontram nada mais o que fazer, durante uma parte tão grande do inverno, a não ser irem às casas uns dos outros e passarem o tempo em certa conversa à medida que a próxima vem, ou como a presente disposição de alguém sugerir?

    Alguma diversão é, sem dúvida, lícita, mas o fato de os cristãos passarem tanto tempo, tantas noites longas, em nenhuma outra conversa senão aquela que tende a divertir e a fazer rir, se não pior, é uma maneira pecaminosa de passar o tempo e tende, pelo menos, à pobreza da alma, se não à pobreza externa. Provérbios 14.23, “Em todo trabalho há proveito, meras palavras, porém, levam à penúria.” Além disso, quando as pessoas, durante grande parte do seu tempo, não têm mais nada a fazer senão sentarem-se, conversarem e tagarelarem nos cantos das chaminés umas das outras, há grande perigo de caírem em conversas tolas e pecaminosas, dando vazão às suas disposições corruptas ao falar contra os outros, expressando seus ciúmes e más suposições em relação aos seus vizinhos; sem considerarem o que Cristo disse em Mateus 12.36, “Digo-vos que de toda palavra frívola que proferirem os homens, dela darão conta no Dia do Juízo”.

    Se você concordar com o que ouviu desta doutrina, encontraria outra coisa para passar seus invernos, um inverno após o outro, além da discórdia, ou do falar sobre aqueles assuntos públicos que tendem à discórdia. Os jovens poderiam encontrar outra coisa para fazer além de passar o tempo em vãs companhias; algo que seria muito mais proveitoso para eles, pois realmente tirariam alguma boa vantagem; algo que, ao fazer, os afastaria mais do caminho do diabo, do caminho da tentação, e os colocaria mais no caminho do dever e de uma bênção divina. E mesmo as pessoas idosas teriam algo em que se ocupar, depois de se tornarem incapazes de trabalhar fisicamente. Seu tempo, como muitas vezes acontece agora, não lhes seria pesado, pois estariam, com proveito e prazer, empenhados em pesquisar as Escrituras, e em comparar e meditar sobre as várias verdades que ali encontrariam.

    Segundo. Esta seria uma maneira nobre de gastar seu tempo. O Espírito Santo atribui esse epíteto aos bereanos, porque eles se dedicaram diligentemente a essa ocupação. Atos 17.11, “Ora estes de Bereia eram mais nobres do que os de Tessalônica; pois receberam a palavra com toda a avidez, examinando as Escrituras todos os dias para ver se essas coisas eram, de fato, assim”. Esta é basicamente a ocupação do céu. Os habitantes daquele mundo gastam muito do seu tempo pesquisando as grandes coisas da teologia, e esforçando-se para adquirir conhecimento delas, como nos é dito sobre os anjos, 1 Pedro 1.12, “coisas essas que os anjos anelam perscrutar”. Isto será muito adequado ao que você espera que seja a tua ocupação por toda a eternidade, pois sem dúvida espera juntar-se à mesma atividade que os anjos de luz. Salomão diz, Provérbios 25.2, que é honra dos reis “esquadrinhá-las”, e certamente, acima de todos os outros, pesquisar assuntos divinos. Agora, se esta é a honra até mesmo dos reis, não é igualmente, se não muito mais, a tua honra?

    Terceiro. Esta é uma maneira agradável de aproveitar o tempo. O conhecimento é agradável e deleitoso para as criaturas inteligentes e, acima de tudo, o conhecimento das coisas divinas; pois nelas estão as verdades mais excelentes e os objetos mais belos e amáveis apresentados à vista. Por mais tedioso que seja o trabalho necessário para desempenhar essa ocupação, o conhecimento, uma vez obtido, recompensará fartamente o esforço necessário para obtê-lo. “Porquanto a sabedoria entrará no teu coração, e o conhecimento será agradável à tua alma” (Provérbios 2.10).

    Quarto. Este conhecimento é extremamente útil na prática cristã. Aqueles que têm muito conhecimento da teologia têm grandes meios e vantagens para o conhecimento espiritual e salvador; pois nenhum meio de graça, como foi dito antes, tem efeito salvador no coração a não ser pelo conhecimento que transmitem. Quanto mais vocês tiverem do conhecimento racional das coisas do evangelho, mais oportunidades haverão, quando o Espírito for soprado em seus corações, de ver a excelência dessas coisas e de provar a doçura delas. Os pagãos, que não têm conhecimento racional das coisas do evangelho, não têm oportunidade de ver a excelência delas; e, portanto, quanto mais conhecimento racional vocês tiverem dessas coisas, mais oportunidades e vantagens terão de ver a excelência e a glória divinas delas.

    Novamente, quanto mais conhecimento vocês tiverem das coisas divinas, melhor conhecerão seu dever; seu conhecimento será de grande utilidade para orientá-los quanto ao seu dever em casos particulares. Vocês também estarão mais bem equipados contra as tentações do diabo. Pois o diabo, muitas vezes, se aproveita da ignorância das pessoas para submetê-las a tentações que, de outra forma, não as dominariam.

    Por terem muito conhecimento, vocês terão maiores vantagens para se comportarem com prudência e discrição em sua conduta cristã, e assim viverem muito mais para a honra de Deus e da religião. Muitos que têm boas intenções e estão cheios de boa disposição, todavia, por falta de prudência, comportam-se de modo a ofender a religião. Muitos têm um zelo por Deus que faz mais mal do que bem, porque não é “com entendimento” (Romanos 10.2). A razão pela qual muitos homens bons não se comportam melhor em muitos casos não é tanto porque carecem de graça, mas sim porque carecem de conhecimento.

    Além disso, um aumento de conhecimento seria de grande ajuda para uma conversa proveitosa. Isso lhes forneceria assuntos para conversar quando vocês se reunirem ou quando visitarem seus vizinhos; e assim vocês teriam menos tentação de gastar o tempo em conversas que tendem a prejudicar a si mesmos e aos outros.

    Quinto. Considere as vantagens que vocês têm de crescer no conhecimento da teologia. Temos agora vantagens muito maiores para obter muito conhecimento da teologia do que o povo de Deus sob o Antigo Testamento, tanto porque o cânon das Escrituras foi muito ampliado desde então, como também porque as verdades evangélicas são agora reveladas muito mais claramente. De modo que os homens comuns estão agora, em alguns aspectos, sob a vantagem de saberem mais sobre a teologia do que os maiores profetas tinham naquele tempo. Assim, aquela palavra de Cristo é, em certo sentido, aplicável a nós, Lucas 10.23-24, “Bem-aventurados os olhos que veem as coisas que vós vedes. Pois eu vos afirmo que muitos profetas e reis quiseram ver o que vedes e não viram; e ouvir o que ouvis e não o ouviram”. Em alguns aspectos, temos vantagens muito maiores para obter conhecimento, agora, nestas últimas eras da igreja, do que os cristãos tiveram anteriormente; especialmente por causa da arte da impressão, da qual Deus nos deu o benefício, por meio da qual Bíblias e outros livros de teologia são muitíssimos multiplicados, e as pessoas podem agora receber ajuda para a obtenção do conhecimento cristão a um preço muito mais acessível e barato do que podiam anteriormente.

    Sexto. Não sabemos que oposição podemos enfrentar nos princípios que defendemos na teologia. Sabemos que existem muitos adversários do evangelho e das suas verdades. Se, portanto, abraçamos essas verdades, devemos esperar ser atacados pelos referidos adversários; e, a menos que estejamos bem-informados sobre as coisas divinas, como poderemos nos defender? Além disso, o apóstolo Pedro nos ordena que estejamos sempre prontos para dar uma resposta a todo aquele que nos perguntar a razão da esperança que há em nós (1 Pedro 3.15). Porém não podemos esperar fazer isso sem um conhecimento considerável das coisas divinas.

    Concluirei agora meu discurso com algumas orientações para a aquisição deste conhecimento.

    Primeira. Seja assíduo na leitura das Sagradas Escrituras. Esta é a fonte de onde todo o conhecimento da teologia deve derivar. Portanto, não deixe este tesouro ser negligenciado por você. Todo homem de bom entendimento, que sabe ler, pode, se quiser, instruir-se bem com as Escrituras. E que excelente realização seria esta!

    Segunda. Não se contente apenas com uma leitura superficial, sem levar em conta o sentido. Esta é uma maneira imprópria de ler, à qual, no entanto, muitos se acostumam todos os dias. Ao ler, observe o que você lê. Observe como as coisas acontecem. Observe o rumo do discurso e compare uma Escritura com outra. Pois a Escritura, pela harmonia de suas diferentes partes, lança grande luz sobre si mesma. Somos expressamente orientados por Cristo a “examinar as Escrituras”, o que evidentemente pretende algo mais do que uma mera leitura superficial. E use meios para descobrir o significado das Escrituras. Quando você a tiver explicada na pregação da palavra, preste atenção nela, e se, a qualquer momento, um texto que você não entendeu for esclarecido de forma satisfatória, marque-o, guarde-o e, se possível, lembre-se dele.

    Terceira. Procure e use diligentemente outros livros que possam ajudar você a desenvolver esse conhecimento. Existem muitos livros excelentes, os quais podem ajudar muito neste conhecimento e proporcionar a você um entretenimento muito proveitoso e agradável em suas horas livres. Há, sem dúvida, um grande defeito em muitos, que, por aversão a serem um pouco caros, eles se abastecem com mais ajuda dessa natureza. Na verdade, eles têm alguns livros que leem de vez em quando, nos sábados, mas eles os têm há tanto tempo e os leem com tanta frequência que estão cansados deles, e agora se tornou uma história enfadonha, uma mera tarefa lê-los.

    Quarta. Melhore a conversa com outras pessoas para esse fim. Quanto as pessoas poderiam promover de conhecimento umas às outras nas coisas divinas se melhorassem a conversa como podem; se os homens ignorantes não tivessem vergonha de mostrar sua ignorância e estivessem dispostos a aprender com os outros; se, quem tem conhecimento, o comunicasse sem orgulho e ostentação; e se todos estivessem mais dispostos a iniciar uma conversa que seria para sua edificação e instrução mútua.

    Quinta. Principalmente, não procure crescer em conhecimento para receber aplausos e para ser capaz de discutir com os outros, mas o busque para o benefício de suas almas e para praticar. Se o aplauso for o teu objetivo, será provável que você não seja levado ao conhecimento da verdade, mas poderá com justiça, como muitas vezes é o caso daqueles que se orgulham de seu conhecimento, ser levado ao erro, para a sua própria perdição. Sendo este o teu objetivo, se você obtiver muito conhecimento racional, provavelmente não será de nenhum benefício para você, mas te encheria de orgulho. 1 Coríntios 8.1, “O saber ensoberbece”.

    Sexta. Busque a Deus para que ele te direcione e abençoe nesta busca pelo conhecimento. Esta é a orientação do apóstolo. Tiago 1.5, “Se, porém, algum de vós necessita de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente e nada lhes impropera”. Deus é a fonte de todo conhecimento divino. Provérbios 2.6, “Porque o Senhor dá sabedoria, e da sua boca vem a inteligência e o entendimento.” Se esforce para ter consciência da tua própria cegueira e ignorância, e de tua necessidade da ajuda de Deus, a fim de não ser levado ao erro em vez de ao verdadeiro conhecimento. 1 Coríntios 3.18, “Se alguém” quiser ser sábio, “faça-se estulto para se tornar sábio”.

    Sétima. Proceda de acordo com o conhecimento que você possui. Esta será a forma de saber mais. O salmista recomenda vivamente esta forma de procurar o conhecimento da verdade divina, a partir da sua própria experiência. Salmo 119.100, “Sou mais prudente que os idosos, porque guardo os teus preceitos.” Cristo também recomenda o mesmo. João 7.17, “Se alguém quiser fazer a vontade dele, conhecerá a respeito da doutrina, se ela é de Deus ou se eu falo de mim mesmo”.


4 Por “pagãos mais sábios” JE se referia aos antigos filósofos gregos e romanos.


Tradução:

De: Sermons and Discourses 1739-1742

Works, vol. 22 – Org. Harry S. Stout

Por: Paulo Arantes