Frase da Semana

Assim, tudo é de Deus, está em Deus e existe para Deus; ele é o começo, o meio e o fim.

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

Jonathan Edwards: Suas contribuições para o Calvinismo, para a Teologia evangélica, para a Ética cristã e para a prática religiosa

Um ensaio lido diante da Associação Ministerial de Columbus, Ohio, USA

 

Não é o propósito deste ensaio falar detalhadamente dos incidentes na vida e na carreira de Jonathan Edwards; de sua ascendência piedosa e digna na Inglaterra e na América; de seu nascimento na humilde paróquia de Connecticut, onde seu pai pregou e trabalhou por mais de sessenta anos; de sua juventude sob a educação de uma mãe notável, tanto pela cultura intelectual quanto pelas grandes realizações religiosas, e na companhia de dez irmãs, mais velhas e mais novas, cuja influência e treinamento contribuíram muito para seu desenvolvimento mental e para sua pureza moral de coração e de propósito; de sua infância precoce, de seu rápido desenvolvimento mental e espiritual, de sua carreira universitária e de suas realizações acadêmicas, de seu ingresso no ministério aos dezenove anos, de sua subsequente tutela e do simultâneo prosseguimento de estudos teológicos e especulativos; de sua transferência para o pastorado em Northampton, e de sua continuidade nessa posição por vinte e três anos, até que foi expulso dela em meio a circunstâncias de grande provação; de seu retiro para serviço adicional na cidade fronteiriça de Stockbridge, basicamente como missionário entre os índios daquela localidade; de sua eleição para a presidência da Faculdade de Princeton e de sua mudança para lá; e de sua morte prematura aos 55 anos, no momento em que estava assumindo as funções desse alto cargo.

Nem é o propósito deste ensaio descrever o caráter e as qualidades pessoais deste eminente homem – falar em detalhes dos dons peculiares, físicos e mentais, com os quais a bondosa natureza o dotou; da bondade atenciosa e da obediência amorosa que marcaram sua vida naquele lar humilde, porém santificado; das raras qualidades que deram distinção à sua virilidade precoce, e da posição que ele conquistou para si mediante suas realizações superiores; da grande e especial obra da graça em sua mente, em seus sentimentos, em sua vontade, tornando-o, mesmo no início de sua carreira pública, um exemplo marcante do que essa graça divina pode fazer dentro de uma alma consciente e alegremente entregue às suas operações; daquela rara combinação de humildade e dignidade cristãs, do amor fraternal e da firme fidelidade de princípios, da leal devoção ao que ele acreditava ser a verdade, e desejo sincero de que todos os homens conhecessem essa verdade e fossem abençoados por meio dela para sempre, qualidades que tornaram seu nome sinônimo de virilidade espiritual em suas formas mais supremas; da sua paciência sob as provações que sobrecarregaram ao máximo a sua natureza religiosa, a calma com que enfrentou a oposição, a injúria e a pobreza, a serena disposição zelosa ano após ano ao longo do elevado caminho do serviço a Deus e aos homens, ao qual se consagrou; de sua santa e feliz comunhão com o Pai Celestial e de sua alegria inefável em Cristo como seu Salvador, e de sua vida secreta de companheirismo com o Espírito Santo como seu líder, guia e santificador; de tudo o que ele foi e se tornou como um homem notavelmente dotado por natureza com seus dons mais raros em rica abundância, e pela graça alçada aos níveis mais elevados de experiência e maturidade cristãs, um homem digno, em seu caráter pessoal, de um lugar entre os maiores e mais nobres discípulos e representantes de Cristo e de seu Evangelho em todas as épocas da igreja cristã.

Nem é o propósito deste ensaio falar longamente sobre o trabalho e labor de Edwards desde o início até ao fim de sua carreira como ministro, de seus incansáveis estudos e pesquisas na exegese bíblica, na teologia e na filosofia; de seus raros dons como pregador, claro na exposição, vívido na ilustração, poderoso no argumento e quase irresistível em seus apelos à consciência e ao coração, semelhante em tudo isso, se não superior a George Whitefield, seu admitido padrão no púlpito; do seu trabalho discreto e fiel na paróquia, buscando sempre o bem espiritual e a salvação dos homens, e do seu interesse constante em tudo o que dizia respeito ao reino de Cristo, não apenas neste continente, mas no velho mundo; de seu admirável acúmulo de sermões, ensaios, tratados e investigações, do que uma grande proporção nunca foi publicada, e especialmente de seus principais escritos, como seu relato sobre o grande Revival in New England (Avivamento na Nova Inglaterra), seu Life of Davi Brainerd (Vida de David Brainard), sua incompleta History of Redemption (História da Redenção), seu ensaio sobre as Religious Affections (Afeições Religiosas), sua dissertação sobre a Nature of Virtue (Natureza da Virtude), seus tratados sobre os Divine Decrees (Decretos Divinos) e sobre a Efficacious Grace (Graça Eficaz), sua exposição da doutrina do Original Sin (Pecado Original), sua discussão sobre o End or Purpose of God in the Creation of the World (Fim ou Propósito de Deus na Criação do Mundo), e eminentemente sua Inquiry into the Nature and Range of the Freedom of the Will (Investigação sobre a Natureza e o Alcance da Liberdade da Vontade), um volume escrito em quatro meses, acerca do qual Chalmers disse que o ajudou mais do que qualquer outro livro não inspirado, e que Isaac Taylor elogiou como um clássico da metafísica – uma série de escritos que, se a escassa literatura disponível, as limitações circunstanciais, as condições e oportunidades desfavoráveis forem devidamente consideradas, deve ser considerada quase sem paralelo nos anais da literatura desta categoria na América.

Tampouco é o propósito deste ensaio falar dos efeitos da personalidade e das produções de Edwards sobre sua própria geração ou sobre as gerações que se seguiram, ou da influência que ele exerceu, ainda exerce e provavelmente exercerá sobre o pensamento, as experiências, a crença e a prática de milhões de adeptos da nossa santa fé em todo o mundo, pelo menos até onde nossa língua inglesa é falada. É bem sabido que ele atraiu para perto de si um grupo de discípulos inteligentes e sérios, como Hopkins e Bellamy, Smalley e Dwight e Emmons, que se dedicaram com extremo zelo à publicação e promoção das doutrinas que ele ensinou; de modo que os seus ensinos se tornaram as forças dominantes nos círculos teológicos da Nova Inglaterra durante mais de um século, e mesmo agora não perderam a sua energia estimulante e edificante; de modo que a sua doutrina foi levada através do Hudson e tornou-se a base de um novo tipo de fé e prática presbiteriana, agora tão ampla como o continente; de modo que a sua exposição do Evangelho, como um conjunto da verdade salvadora e como uma experiência santa, influenciou de forma proveitosa milhares de outras mentes em várias comunhões cristãs; de modo que as suas palavras de verdade e sobriedade foram transportadas através dos mares e foram semeadas como sementes graciosas na Escócia, onde alguns dos seus escritos foram publicados pela primeira vez, no País de Gales e na Inglaterra e no continente, de modo que, como pensador e professor, ele se encontra agora completamente à frente da longa linhagem de ilustres estudiosos e teólogos na América, e dificilmente se pode dizer que tenha um superior em qualquer país ou época cristã.

Propõe-se neste ensaio simplesmente falar, de uma forma necessariamente breve e superficial, das contribuições específicas que Jonathan Edwards, pela graça de Deus, foi capaz de fazer, em primeiro lugar, ao sistema particular de doutrina conhecido como Calvinismo; em segundo lugar, à teologia evangélica em geral; em terceiro lugar, à correta concepção da ética cristã ou da regra do dever; e, finalmente, dentro do campo da religião prática.

I. Voltando-nos mais especificamente para a discussão proposta, podemos notar, primeiro, tão brevemente quanto possível, as contribuições de Edwards àquele sistema ou tipo de teologia cristã que é comumente conhecido como Calvinismo.

O Presidente Ezra Styles, de Yale, a quem Fisher descreve como um homem de grande reputação e caráter estimável, registrou em seu diário, em 1787, uma geração após a morte de Edwards, a seguinte declaração e profecia concernente ao grande teólogo e suas obras e influência:

“Os valiosos escritos do Presidente Edwards, noutra geração, passarão como um aviso transitório, talvez pouco acima do esquecimento, como Willard ou Twisse ou Norton; e quando a posteridade ocasionalmente os encontrar no entulho das bibliotecas, os raros personagens que puderem lê-los e ficarem satisfeitos com eles, serão considerados tão singulares e excêntricos quanto hoje em dia um admirador de Suarez, Tomás de Aquino ou Dionísio, o Areopagita.” Dos três primeiros mencionados, Twisse foi o primeiro presidente ou moderador da Assembleia de Westminster, descrito por Baillie, nas suas cartas, como “um homem meramente estudioso”, e o autor, entre outras obras, de um notável tratado em latim sobre a Predestinação. Norton foi um dos principais pregadores no início da Nova Inglaterra, autor de uma obra teológica intitulada The Orthodox Evangelist (O Evangelista Ortodoxo), e de um conjunto maior de teologia nunca impresso. Willard foi um dos primeiros presidentes do Harvard College, autor de muitos sermões impressos e de um grande livro em formato de fólio, Body of Divinity (Conjunto de Teologia), que consiste em uma série de palestras mensais sobre o Breve Catecismo, continuado por mais de dezenove anos – o primeiro trabalho extenso sobre teologia publicada na América. Dos outros, Dionísio foi um convertido de Paulo em Atenas, a quem foram atribuídas por algum tempo certas cartas espúrias que levam seu nome, mas escritas durante o terceiro ou quarto século. Tomás de Aquino foi o médico angélico da igreja medieval, cujas obras ainda são estudadas como livros-textos nos seminários romanos na Europa e na América. Suarez foi um jesuíta espanhol do século 16, cujo epitáfio do túmulo nos diz que ele foi o professor da Europa, como também do mundo inteiro, um Aristóteles nas ciências naturais, um angélico Tomás na teologia, um Jerônimo no estilo, um Ambrósio no púlpito, um Agostinho na polêmica, um Atanásio na explicação da fé, um Bernardo na piedade melíflua, um Gregório na exposição das Escrituras e, em uma palavra, o olho do mundo cristão.

Os sermões e outras produções publicados do Presidente Stiles são agora, juntamente com o seu nome, “pouco acima do esquecimento”, enquanto muitas terras celebram o nascimento de Edwards, as suas obras resistiram ao teste do tempo e ainda são reconhecidas como entre as foças estimulantes e edificantes que fluem para e através da cristandade evangélica.

Seu próprio filho foi proeminente entre seus descendentes, com o mesmo nome, possuindo muito da mesma habilidade e gênio, e passando por uma carreira notavelmente semelhante como estudante, tutor, ministro, pastor e presidente de faculdade, e morrendo na mesma idade. A este filho devemos um notável ensaio, escrito principalmente em defesa do pai, e destinado a expor os Improvements (Aperfeiçoamentos), como ele os denomina, que foram feitos por meio de Edwards no Calvinismo precedente. No prefácio ao seu tratado sobre Will (Vontade), Edwards declara sua relação com o Calvinismo em linguagem forte. Depois de protestar contra o uso de termos como calvinista e arminiano para descrever diferenças teológicas, ele diz, por um lado, que não consideraria errado ser chamado de calvinista, mas, por outro lado, ele diz: “Eu rejeito totalmente uma dependência de Calvino, ou crer nas doutrinas que defendo porque ele creu e as ensinou; e não posso ser justamente acusado de crer em tudo exatamente como ele ensinou.” Muito menos que todos os teólogos de sua época, ele poderia ser descrito com justiça como um calvinista fatalista, que crê em um Deus cuja natureza era cruel, em um governo moral absurdo e intolerável, e em uma soberania sobre a vida e os destinos dos homens tão horrível visto que é suprema e irresistível. Seu propósito invencível de testar cada princípio ou dogma teológico pelo padrão da razão é expresso com força na seção final desse tratado. Ao opor-se a certas objeções que poderiam, como ele supunha, serem levantadas contra a sua doutrina sobre a vontade como demasiada metafísica ou obscura, ele diz: A questão não é se o que é dito é metafísica, lógica ou matemática; Latim, Francês, Inglês ou Mohawk; mas se o raciocínio é bom e os argumentos verdadeiramente conclusivos.

Esses Improvements (Aperfeiçoamentos) estavam relacionados a muitos dos tópicos centrais da teologia cristã, como o propósito de Deus na criação da terra e do homem, o governo divino sobre o homem, a origem do mal e especialmente do mal moral, o estado corrupto do homem como um pecador, liberdade e necessidade relacionadas à vontade, a natureza da virtude vista sob o aspecto cristão, a verdadeira base ou fundamento da expiação, regeneração e conversão, justificação pela fé, a vida cristã e a religião experimental. O escritor afirmou que, sobre esses assuntos importantes, seu pai introduziu um método mais racional, colocou em ação uma filosofia mais sábia e, assim, declarou e defendeu suas conclusões de modo a tornar manifesta a harmonia essencial das doutrinas discutidas com a razão mais elevada e pura. Não foi reivindicado que Edwards tinha desenvolvido quaisquer novos dogmas, radicalmente inconsistentes com o Calvinismo antecedente, mas sim que, às vezes, ao eliminar excrescências naquele sistema histórico, e mais frequentemente ao introduzir explicações úteis e ao colocar as doutrinas aceitas sob uma nova e fresca luz, ele aperfeiçoou, expandiu e recomendou o sistema à credibilidade humana como ninguém foi capaz de fazer antes dele.

Os tratados, os sermões, as dissertações e os volumes específicos nos quais esta tarefa foi realizada, ou pelo menos tentada, ocorrerão imediatamente a todo estudante cuidadoso dos escritos de Edwards. Se tudo o que, no auge da devoção filial, foi reivindicado pelo filho, foi realmente defendido pelo pai, tem sido questionado em vários pontos. O fato de que o sistema não só foi melhorado, mas também tornado completo, acabado até à perfeição, não foi declarado pelos primeiros discípulos de Edwards, nem foi, por um momento sequer, afirmado por ele mesmo, como de fato não o foi por nenhum dos seus adeptos inteligentes em tempos mais recentes. Pois, na verdade, o Calvinismo é um esquema de doutrina, tão vital e tão complexo e variado em seus elementos, que é capaz de muitas formas de combinação, muitas mudanças de proporção e, em certo sentido, incapaz de continuar era após era em qualquer forma cristalizada. Está na própria natureza desse sistema desenvolver-se e expandir-se continuamente, amadurecendo através dos séculos a partir de sua origem paulina, Edwards seguindo Calvino como Calvino seguiu Agostinho, e assim progredindo constantemente em direção a uma completude que podemos muito bem acreditar que não poderá alcançar até ser desenvolvido, elevado, purificado na grande escola do céu.

No entanto, permanece o fato geral de que o Calvinismo exibiu uma forma mais ampla, mais imponente e mais espiritual – uma forma menos fatalista na tendência, e menos exclusiva no aspecto e impressão, e, portanto, obtendo maior poder para educar e persuadir os homens do que aparentemente ocorria antes de Edwards o iluminar com seus ensinos. E é importante notar aqui dois fatos específicos de grande importância: Primeiro, que os aperfeiçoamentos feitos por ele seguiram principalmente ao longo do curso de maior graça e liberdade na oferta do Evangelho, de maior liberdade e consequente responsabilidade por parte do pecador, da potência incomensurável da verdade revelada quando enfatizada pelas ministrações do Espírito Santo, e do resultante dever da igreja de orar e trabalhar, e de fazer todos os sacrifícios possíveis com vistas à salvação final de toda a raça humana. E segundo, que, ao efetuar uma mudança de tão grande importância no sistema calvinista, ele o trouxe a uma associação mais estreita com a teologia de professores anglicanos, como o bispo Butler, com as melhores variedades do luteranismo espiritual, e especialmente com aquela forma de Arminianismo da qual seu grande colega, Wesley, era um imponente representante, e que agora está participando tão harmoniosamente com o Calvinismo na tarefa comum de ganhar o mundo para Cristo.

II. A segunda série de contribuições feitas por Edwards aparece no campo mais amplo da teologia evangélica em geral. Deve ser dito aqui que ele não era, em nenhum sentido, um crítico destrutivo ou controversista. Ele não pertencia, nem por temperamento nem por convicção, àquela classe de homens que se deleitam e ofendem a todos ao sempre apontarem as falhas, aumentando os defeitos e a imperfeição nas teologias existentes, embora não possuam capacidade nem disposição para fornecer quaisquer aperfeiçoamentos ou correções naquilo que criticam – vespas que estão sempre zumbindo e picando tudo o que tocam, e sempre envenenando tudo o que picam. Era, antes, seu desejo e objetivo constantes corrigir o que ele considerava defeituoso na doutrina em vigor, por meio da introdução de alguma concepção mais ampla, mais abrangente, mais claramente explicativa e racional da verdade discutida. Aqueles que estudaram seus ensinos sempre perceberam que ele se preocupava com as deficiências ou aberrações doutrinárias apenas onde discernia, ou pensava discernir, de modo que o aperfeiçoamento era tanto possível quanto necessário; e também viram que ele estava sempre animado ao propor tal aperfeiçoamento, não por uma presunçosa vaidade, nem por qualquer disposição vulgar de crítica ou de controvérsia, mas por um desejo sincero e abnegado de instruir, de esclarecer, de ajudar, seja no conhecimento ou na fé.

Mesmo quando se sentiu chamado a combater aquela tendência insidiosa de humanização do Filho de Deus e de redução da sua missão mediadora a um nível análogo ao de outros professores meramente humanos – uma tendência que, meio século depois, culminou no Unitarismo de Charming e seus sucessores – ele procurou corrigir essa tendência, não por meio de denúncia, ou disputa ou ridicularização, mas por meio de um retrato tão brilhante, piedoso e completamente bíblico de nosso Senhor na glória de sua pessoa e missão, como a Divindade Encarnada, quando deveria ter colocado um fim de uma vez por todas a tais concepções racionalizadoras e destrutivas de Cristo e de sua obra salvadora. Esta foi uma ilustração de seu método invariável de lidar com o que ele considerava dogmas errôneos ou defeituosos, por quem quer que os afirmasse. Ao tratar, por exemplo, do decreto divino, da eleição individual, da graça eficaz, do pecado original e da relação entre a queda de Adão e a queda da humanidade nele e através dele, ele dificilmente revela um traço daquela impaciência desdenhosa e daquela depreciação dos antagonistas que tantas vezes magoam o estudante sincero das Institutas de Calvino. Por outro lado, ele habitualmente mostra uma simpatia verdadeira e amorosa para com os errôneos nestes pontos, um desejo paciente de conduzi-los à verdade maior, e uma expectativa esperançosa de que, quando virem a verdade, voltarão espontaneamente seus olhos e seus corações para ela, atraídos e puxados – para usar a expressão de Chalmers – pelo poder explusivo de uma nova afeição.

As contribuições de Edwards à teologia evangélica em suas formas genéricas já foram parcialmente sugeridas pelos títulos dados e não podem ser aqui mencionadas em detalhes. Seus ensinos a respeito da trindade em Deus e das encarnações, e da mediação de Cristo e dos ministérios salvadores do Espírito Santo em cada alma crente; a respeito da queda e do pecado do homem, e da culpa e corrupção de sua natureza, e da necessidade da graça e da ajuda divina para sua restauração; a respeito do plano de salvação do Evangelho, a missão expiatória de nosso Redentor, a indispensabilidade da fé nele e da obediência a ele como o Senhor e Soberano eleito da alma; a respeito da justificação por meio de tal fé e devoção, e da nova vida graciosamente transmitida como necessária consequência, e da esperança sublime e edificante quanto ao futuro avivamento no peito do crente – os seus ensinos concernentes a todos estes temas vitais, e outros que possam ser mencionados, tornaram-se a posse inestimável, não apenas dos calvinistas, mas de toda a igreja de Cristo, seja qual for o nome. Esses ensinos fizeram muito, muito mesmo, para acelerar a pulsação e fortalecer o coração da cristandade universal, e por causa desses ensinos a cristandade já é, e durante séculos será cada vez mais, profundamente grata a ele.

Uma breve referência deve ser feita, neste contexto, àquele notável ensaio sobre a natureza da Trindade em Deus, que apenas agora foi dado ao mundo, pela primeira vez, em forma impressa. Este ensaio, escrito aparentemente durante o início do ministério de Edwards, e de tempos em tempos ampliado, mas ainda incompleto quanto à forma literária, é uma tentativa de mostrar que Deus é, por sua própria natureza, um Ser essencialmente trino e, portanto, eternamente triplicando-se em personalidade trina como Pai, Filho e Espírito Santo, preparatória para sua revelação de si mesmo neste triplo aspecto à nossa raça no interesse da redenção. O que quer que se possa dizer sobre o sucesso desta apresentação altamente especulativa de um tema que deve ser profundamente misterioso para os homens – se de fato pode ser possível para nós, algum dia, alcançarmos qualquer explicação suficiente do fato de uma trindade interna e eterna, como a Sagrada Escritura a afirma – ninguém pode deixar de apreciar a profunda perspicácia, a quase pretensa agudeza natural, a piedade adoradora que caracterizam o tratado póstumo.

Uma ilustração de caráter mais prático merece menção especial aqui. Antes da época de Edwards, as igrejas da Nova Inglaterra aceitaram, sem exame, a teoria de membresia da Igreja de Cristo do velho mundo, sob o que foi denominado como a Aliança do Meio-Termo, como obtida por herança ou por batismo, e, portanto, como não envolvendo necessariamente o que é familiarmente descrito como uma mudança de coração – uma teoria que ainda prevalece amplamente, não apenas na parte protestante do continente europeu, mas nas comunidades religiosas da Grã-Bretanha, como uma herança perniciosa de Roma, e que muito contribuiu para corromper a espiritualidade e prejudicar a eficiência do protestantismo onde quer que ele tenha se firmado. Na melhor das hipóteses, era a concepção romana errônea de que o meio de ir a Cristo, através da Igreja, são os seus ministros e as ordenanças. Contra esta teoria, Edwards semeou a genuína e única doutrina verdadeira, de que a alma deve entrar na Igreja visível por meio de Cristo, e que a Igreja deve ser composta apenas por aqueles que fornecem evidências críveis, evidências em que se pode confiadamente acreditar, de que já estão unidos a Cristo pela fé e de que já são justificados por meio dele. Sobre o conflito que o anúncio deste conceito claro e correto envolveu, sobre a luta pela qual ele passou ao afirmá-lo, e sobre a privação e o martírio resultantes de sua fidelidade a ele, não é necessário falar agora. O grande fato é que a doutrina de Edwards, apesar de toda oposição, tornou-se a doutrina aceita por nossas igrejas da Nova Inglaterra, que atravessou e se enraizou em outro solo e dentro de igrejas de nomes diferentes, e que ainda permanece como um elemento permanente na fé e na prática de quase todas as organizações evangélicas neste continente. Se Edwards não tivesse feito nada mais além de escrever e, depois, defender como fez em seu tratado sobre as Qualifications for Full Communion (Qualificações para a Comunhão Plena), ele teria feito do protestantismo americano seu devedor para sempre.

III. Uma breve referência pode agora ser feita, em terceiro lugar, à grande contribuição de Edwards no campo da Ética, especialmente da Ética Cristã, como pode ser visto principalmente em seu tratado sobre a Nature of Virtue (Natureza da Virtude) – um tratado que pode ser apropriadamente colocado ao lado dos notáveis discursos de Butler sobre o mesmo assunto. Mackintosh, na sua valiosa dissertação sobre o “Progresso da Filosofia Ética”, se refere a Edwards, neste contexto, como o metafísico da América, talvez inigualável no argumento sutil, certamente insuperável entre os homens. Ele apresenta Edwards como um passo à frente da maioria dos metafísicos antes dele, ao ensinar que não apenas a percepção e a razão, mas a emoção e o sentimento também estão entre os princípios fundamentais da moral. A doutrina de Edwards está incorporada na proposição abrangente de que a virtude consiste no amor, no amor a todos os seres – antes de tudo, no amor supremo a Deus como fonte criativa e sustento de todos os outros seres, e em sua própria natureza perfeita e em suas atividades infinitamente merecedoras da mais alta consideração e devoção possíveis da parte de todas as suas criaturas – amor a todos os homens como criaturas e filhos de Deus, dotados de capacidades semelhantes, estabelecidos em relações vitais e afetuosas conosco e, portanto, tendo um direito indiscutível à nossa afeição e ao nosso serviço – amor na forma de benevolência até mesmo para com a criação animal, ilustrando em suas várias qualidades a sabedoria e a bondade daquele que as criou, e, portanto, merecedora de nosso interesse e cuidado – amor em um sentido subordinado, e, pela mesma razão, até mesmo para com o mundo vegetal, para com as árvores, as flores e as gramíneas, e também para com os céus estrelados como divinamente fabricados e sustentados, e cantando perpetuamente os louvores do Ser Supremo que os criou. Edwards inclui nesta categoria, de maneira especial, o amor por todos os santos, pelos bons e santos na terra, por toda a igreja de Cristo entre os homens, pelas hostes redimidas do céu e pelos anjos que circulam para sempre ao redor do trono de Deus, oferecendo-lhe seus tributos de afeição e reverência.

A doutrina de Edwards tem sido desafiada em vários pontos, mas especialmente com base no fato de a virtude não se basear no amor, mas no direito, como o princípio fundamental da moral. Não pode haver dúvida de que o direito, tal como é concebido pela razão e sentido pela consciência, individual e geral, e além disso como enunciado e reforçado pela voz da Revelação, é a regra final e definitiva para a ação humana, em todos os lugares e sempre. Isto não é apenas uma questão de percepção e razão, como tem sido frequentemente afirmado, tanto antes da era de Edwards e Butler quanto desde os seus dias; é também uma questão de emoção e sentimento, porque não apenas o julgamento e a vontade, mas também a consciência, como a sede e o centro de toda sensibilidade moral, está necessariamente envolvida em cada propósito e em cada ato da vida. Edwards, em nenhum lugar, questiona esta proposição, mas antes procura impregnar e glorificar esta concepção um tanto abstrata e fria de exatidão com o brilho penetrante do amor santo – para aquecer a consciência e animar a vontade mediante o toque carinhoso daquela afeição altruísta e universal que o próprio Deus exibe, e que é para a ação e a vida humana o que o calor e o brilho do sol do verão são para o mundo da natureza. Qualquer que seja a verdade quanto à harmonia destes dois conceitos especulativos sobre a virtude, não pode haver dúvida de que ele estava consciente de não haver nenhum conflito entre elas, pois, de todos os homens que já viveram, ele estava entre os mais fiéis ao que acreditava estar certo, mais desinteressado e gentil em sua devoção ao que é certo, e mais pronto a segui-la através de lutas e provações, não apenas nesta vida, mas em todos os mundos para sempre. E é a excelência especial do seu ensino que ele enfatizou o amor como fornecedor da base estimulante de todo dever, de toda obrigação e de responsabilidade. Pois o verdadeiro amor sempre torna o seu possuidor responsável perante Deus, perante os seus semelhantes e perante si mesmo, por todas as suas ações para com todos os outros seres, de acordo com as suas diversas reivindicações. A obrigação é o correlato necessário e universal desse amor; quem ama, no sentido cristão, vive sempre e em toda parte sob a correspondente responsabilidade.

Não pode ser questionado com justiça que o ensino de Edwards sobre este assunto tem sido amplamente difundido e tem produzido grandes benefícios no campo da moral, tanto especulativa como prática. Embora levado ao extremo por alguns de seus discípulos, como, por exemplo, na surpreendente proposição de Samuel Hopkins, de que alguém deveria, por amor a Deus, tornar-se disposto até mesmo a ser condenado, se a glória divina exigisse tal sacrifício, a doutrina teve ampla influência na Nova Inglaterra, mesmo em círculos bastante avessos ao seu autor e aos seus ensinos gerais. Esse ensino foi recentemente apresentado no famoso tratado do Presidente Hopkins sobre a “Lei do Amor, ou Amor como Lei”. Ele lançou as bases para algumas distinções inestimáveis entre a ética natural e a ética cristã, entre a filosofia moral de Platão e a regra moral proclamada por Cristo. E, por mais que a doutrina deva estar sempre associada, pelo menos nas suas formas mais elevadas, a uma experiência religiosa genuína e a uma vida de discipulado amoroso, ela não pode deixar de colher grandes frutos na esfera do dever, inspirando os homens a fazerem o que é certo em todos os lugares, não apenas porque é certo como a razão o discerne, mas também porque o coração o impele e se alegra com o certo e com cada obrigação que este impõe. Por esta razão, foi dito com justiça que esta concepção de benevolência universal, amor puro e ativo a todos os seres, tornou-se historicamente o fundamento tanto de movimentos humanitários, como o da abolição da escravatura, quanto das missões cristãs, tanto no país como entre as nações e raças mais ignorantes. Merecidamente, portanto, o metafísico alemão, Immanuel Fichte, disse com referência a este ensaio: “Este pensador solitário da América do Norte atingiu aqui a base mais fundamental e também a mais elevado que pode estar por baixo do princípio da moral.” John Fiske, em seu discurso sobre o “Pensamento Liberal na América”, diz: “Poucas figuras na história são mais patéticas ou mais sublimes do que a de Jonathan Edwards nas florestas solitárias de Northampton ou Stockbridge, um pensador superado por poucos que viveram em profundidade e acuidade, um homem com alma de poeta e de profeta, lutando contra os problemas mais terríveis que a humanidade já enfrentou, com mais do que a coragem e a sinceridade de Agostinho ou Calvino, com toda a elevada inspiração de Fichte ou Novalis.” “Um ensaio interessante,” acrescenta ele, “poderia ser dedicado a traçar os efeitos provocados na Nova Inglaterra por esta personalidade gigante.”

4. A quarta e última série de contribuições de Edwards jaz no amplo campo da religião prática. Destas, o próprio homem, o homem na pureza e doçura de sua natureza moral, na elevação espiritual que o caracterizou mesmo em seus primeiros dias e se tornou um elemento tão notável em seus anos de maturidade, em sua piedade absorvente, em sua santa caminhada com Deus, seu contínuo amadurecimento para a imortalidade, à qual ele aspirava o tempo todo – ele mesmo foi, facilmente, o primeiro. Se ele nunca tivesse escrito nada, uma personalidade e um personagem como este teria feito para si um registro duradouro; se seus sermões nunca tivessem sido impressos, sua vida teria sido um sermão vivo ao longo dos tempos – um nobre testemunho da potência da graça divina para elevar, purificar e cristianizar a alma humana.

Não é fácil fazer mais do que referir-se, neste ponto, à sua pregação instrutiva, afetuosa e poderosa, na medida em que isso é exibido em seus discursos impressos. Muitos destes discursos são demasiado arcaicos na forma e na expressão, demasiado elaborados e complexos na estrutura e demasiado profundos nos seus conteúdos para serem amplamente lidos em nossa geração. Aqueles entre eles, em número de cinco ou seis, que foram pregados com efeito tão extraordinário em vários lugares durante os períodos de grande avivamento entre o povo, são frequentemente lidos parcialmente e livremente condenados, às vezes por homens que não têm cérebro nem coração para compreendê-los, com exclusão do número muito maior que está cheio da própria essência das Escrituras, que exalam o mais afetuoso amor pelas almas e exibem o homem na plenitude de sua natureza elevada e santa. Se aqueles que leem parágrafos aqui e ali dos sermões de primeira qualidade, apenas se voltassem para beber da melodia, da doçura e da cultura nutritiva da segunda (como The Nature and Reality of Spiritual Light (A Natureza e Realidade da Luz Espiritual), The Excellency of Christ (A Excelência de Cristo), True Grace (A Verdadeira Graça), The Wisdom Displayed in Salvation (A Sabedoria Demonstrada na Salvação), eles obteriam tanto uma concepção melhor sobre o pregador quanto obteriam alguns benefícios espirituais dos quais talvez necessitem muito.

O tratado de Edwards sobre as Religious Affections (Afeições Religiosas) é uma de suas duas principais contribuições para a religião prática. Planejado como uma análise da experiência religiosa derivada da graça de Deus, quando infundida na natureza moral, regenerando-a e vitalizando-a totalmente, e também como um relato das graças e virtudes particulares que brotam na alma crente, agora vivificada e santificada pelo amor, este tratado é digno do mais alto elogio; deveria estar sobre a mesa de cada pregador, tanto como uma ajuda para a compreensão adequada da vida religiosa de seu rebanho, quanto como um guia para um tratamento mais completo de sua própria alma. E se lhe for acrescentado a sua Life of David Brainerd (Vida de David Brainard) e as suas profundas e afetuosas reflexões sobre essa vida, a sua Narrative of Surprising Conversions (Narrativa de Conversões Surpreendentes) e a sua publicação Thoughts on the Revival of Religion in New England (Pensamentos sobre o Avivamento da Religião na Nova Inglaterra), os benefícios resultantes serão ainda maiores.

O título da outra contribuição essencial nesta seção de serviço é descrito por Edwards como uma Humble attempt to promote Explicit Agreement and Visible Union of God’s People in Extraordinary Prayer for the Revival of Religion and the Advancement of Christ’s Kingdom on Earth (Humilde tentativa de promover o acordo explícito e a união visível do povo de Deus em oração extraordinária pelo avivamento da religião e pelo avanço do Reino de Cristo na terra), nos termos, como ele acrescenta, das promessas e profecias das Escrituras sobre os Últimos Tempos. A sugestão de tal acordo teve origem na Escócia, onde, durante dois ou três anos, o povo cristão teve o costume de se reunir em determinados momentos para súplicas em conjunto pelo triunfo do Evangelho em todo o mundo. Petições estimulando tal acordo na oração foram distribuídas de forma um tanto ampla na Nova Inglaterra, e foi em apoio a esse movimento que Edwards preparou sua dissertação. Neste pequeno volume, ele argumenta a favor da oração como um dever, um privilégio e um recurso, e especificamente a favor da concordância ou união em oração ou intercessão como altamente aceitável a Deus, e certamente a ser seguida por sua bênção. Ele propõe que tal união continue neste caso por, pelo menos, sete anos, e que todos os ministros e igrejas deveriam concordar com a proposta – a Grã-Bretanha e a América concordando na santa petição: “Venha o Teu Reino”. Quando lembramos que este compromisso foi amplamente aceito e observado cem anos ou mais antes do que chamamos de Semana de Oração ter sido instituída, através da instrumentalidade de missionários presbiterianos residentes na Índia, ficamos maravilhados com a fé e a coragem com que a defenderam, ainda mais do que a notável habilidade com que a observância foi estimulada. Qualquer pastor que deseje despertar seu povo para a elevada tarefa de intercessão em conjunto pela grande bênção espiritual, encontrará argumentos e incentivos abundantes neste sério tratado.

Ao passarmos em revista essas notáveis e preciosas contribuições que Jonathan Edwards fez à causa de Cristo nas quatro áreas mencionadas, somos capazes de conceber uma avaliação justa, embora possa ser inadequada, do que ele foi como estudante e erudito, como metafísico e teólogo do tipo mais nobre, como homem de Deus tão eminente na piedade como na conduta, como verdadeiro crente e discípulo do Senhor Jesus, ilustre tanto na fé como nas obras – um homem cujo nome o mundo cristão nunca poderá esquecer, e cuja influência fluirá continuamente até os tempos milenares. No monumento de mármore que cobre suas cinzas sagradas, no cemitério de Princeton, pode-se ler em sonora latinidade uma elaborada descrição de suas características e dons, e esta visão geral pode ser adequadamente encerrada com esse eloquente testemunho.

“Você saberia, ó Viajante, que tipo de pessoa foi essa cuja parte mortal jaz aqui? Um homem de fato, de corpo alto, mas gracioso, enfraquecido pela assiduidade e abstinência e pelos estudos mais intensos; na intensidade do seu intelecto, seu julgamento perspicaz e sua prudência incomparável entre os mortais; notável em seu conhecimento das ciências e das artes liberais, eminente na crítica sagrada, e um teólogo distinto sem igual; um defensor invicto da fé cristã e um pregador sério, solene e penetrante; e, pelo favor de Deus, muito feliz no sucesso e resultado de sua vida. Ilustre em sua piedade, sereno nos costumes, mas amigável e benigno para com os outros, viveu para ser amado e respeitado, e agora, infelizmente! para ser lamentada sua morte. A faculdade enlutada chora por ele, e a igreja chora, mas o céu se alegra em recebê-lo:

Abi, Viator, et pia sequere vestigia.

(Saia daqui, ó Viajante, e seus passos piedosos o seguirão.)

 

Tradução:

De: Jonathan Edwards – His Contributions to Calvinism, to Evangelical Theology Generally, to Christian Ethics and to Practical Religion

Rev. Edward D. Morris

A paper read before the Ministerial Association of Columbus, Ohio, USA

Por: Paulo Arantes 

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