Estamos em novembro de 1739. Nos últimos dois anos, Edwards proferiu alguns de seus sermões mais ambiciosos, incluindo seu discurso sobre as virgens prudentes e insensatas, a série sobre 1 Coríntios 13, posteriormente impressa como Charity and Its Fruits (A Caridade e seus frutos), e, no início de 1739, a série sobre Isaías 51.8, também conhecida como A History of the Work of Redemption (Uma História da Obra de Redenção). De muitas maneiras, Edwards ultrapassou seu ápice como pregador. No entanto, os acontecimentos no horizonte o fizeram produzir alguns dos seus maiores sermões – não as performances longas e complexas que imitavam o melhor da sua tradição intelectual puritana, mas uma nova forma de discurso experimental temperado na fornalha de um novo avivamento.
O Christian Knowledge (Conhecimento Cristão) antecipa o novo modo de pregação.1 Nele, Edwards leva seus paroquianos de volta ao que significa ser cristão e a como viver uma vida cristã. Apesar de todo o esforço que Edwards tinha colocado em sua pregação, aparentemente ele descobriu, para sua decepção, que seus paroquianos ignoravam o básico – uma situação que repercutiu negativamente tanto no ministro como na congregação. Com desafios à ortodoxia reformada por todo lado, nas formas de arminianismo, deísmo e outros “esquemas da moda”, era vital que a população de Northampton estivesse bem armada com a verdade histórica, para que pudesse repelir a invasão heterodoxa. Pode muito bem ser, também, que Edwards tenha ouvido e lido sobre rumores de avivamento vindos de longe (veja God’s Grace Carried On in Other Places – A Graça de Deus Exercida em Outros Lugares), e estivesse tentando lançar os fundamentos para um novo avivamento entre seu próprio povo. Na verdade, desde a primavera de 1739, Edwards vinha detectando uma “visível alteração”, especialmente entre os jovens.2
A admoestação de Paulo aos hebreus cristãos ajustava-se apropriadamente ao caso de Northampton. Ambos tinham “falta de proficiência” no conhecimento dos ensinos cristãos. Como Paulo, Edwards não está falando de conhecimento teológico ou experimental, mas de conhecimento doutrinário, o qual pode “ser recebido mediante o ensino humano”. Assim, quando deveriam ser capazes de digerir “alimento sólido”, seus ouvintes ainda eram bebês que necessitavam de leite.
Na Doutrina, Edwards caminha progressivamente através de quatro proposições. Ele começa definindo “teologia” como aquilo que diz respeito às grandes coisas da religião e, mais especificamente, “a doutrina de viver para Deus por meio de Cristo”. Dada esta definição, que tipo de conhecimento deve ser procurado antes de tudo? Onde o cristão começa? Edwards identifica o conhecimento especulativo ou intelectual, e o conhecimento prático, que reside em um senso do coração. Ele instrui seus ouvintes a buscarem o primeiro a fim de obterem o último. Em vez de serem excludentes um do outro, os dois estão integralmente conectados. O conhecimento especulativo é o alicerce essencial porque, sem ele, os meios da graça, incluindo a pregação, são em vão. Ambos exigem um certo capital de conhecimento no recebedor para serem eficazes. Finalmente, os cristãos deveriam se esforçar por crescer neste tipo de conhecimento; eles deveriam, como diz Edwards, “fazer disso uma ocupação”. Deus deu à humanidade a faculdade de compreensão para esse fim. As coisas da teologia são, em si mesmas, “coisas de excelência superlativa” e, portanto, dignas de serem buscadas. Como tais, são de infinito interesse para o cristão. Mais ainda, Deus nos deixou um guia na forma de sua Palavra revelada, e designou ministros para ensinar o que está escrito ali.
A aplicação está repleta de conselhos práticos. Edwards começa dizendo ao seu povo para não se contentar com uma quantidade nominal de conhecimento: “o seu catecismo” e “tanto do princípio da religião quanto for necessário para a salvação”. Em vez disso, procurar sobressair no conhecimento da teologia. Como frequentemente é sua estratégia, Edwards aplica sua mensagem às pessoas de diversas faixas etárias. Ele começa com os jovens. Em vez de “andar de lá para cá, de casa em casa” nas “longas noites de inverno”, para se envolver em conversas vazias, os jovens deveriam procurar edificarem-se uns aos outros e expandirem o conhecimento uns dos outros.3 A obsessão de Edwards com a conversa regular se tornará um tema comum em seus sermões do Grande Avivamento. Porém ele também não poupa os idosos. Sua crítica a eles é que falam demasiado sobre assuntos mundanos, acontecimentos públicos e discórdias. Eles também se beneficiariam com a busca séria do conhecimento cristão como forma de afastá-los do mundo. Se todos apenas buscassem tal conhecimento, descobririam que é um caminho “nobre”, “agradável” e “útil”. Ele conclui com uma lista de orientações práticas sobre como adquirir conhecimento, incluindo a leitura e o exame das Escrituras e de outros bons livros, evitando conversas vãs e buscando benefícios espirituais.
Não foi localizado nenhum manuscrito. O texto foi impresso pela primeira vez na edição Dwight., 6, 125–83, sob o título “Conhecimento Cristão” (Conhecimento Cristão), e depois na Worcester, edição revisada, 4, 1–15. Ao ser examinado, o texto da Worcester mostra mais marcas da composição de Edwards, incluindo uma declaração formal da doutrina e uma lista das proposições numeradas, bem como um maior número de frases que começam com “E”. Além disso, Dwight omite frases que identificam a ocasião do sermão, como uma referência “a esta audiência” e as declarações direcionais de Edwards, “O Uso que eu faria desta doutrina” e “Agora concluirei meu discurso”. Além disso, a tradução de “coisas da teologia”, na edição Worcester, soa mais verdadeira do que as “verdades divinas” de Dwight, “doutrinado” mais do que “instruído” de Dwight, “agradavelmente” mais do que “agradável” e “subsistencies” (subsistências) mais do que “subsistences” (existências). E, finalmente, o texto da Worcester contém frases cunhadas como “by-business” (por ocupação) e arcaísmos como “go a warfare” (vá para uma guerra), que o texto de Dwight não contém. Por estas razões, o texto da Worcester parece basear-se numa transcrição separada e mais precisa do manuscrito, e, por isso, é usado aqui.
1 JE esboçou os pontos principais do sermão no Sermon Notebook (Caderno de Sermões) “14”, no. [164], pág. 58.
2 Carta para Thomas Prince, 12 de dezembro de 1743, em Works, 4, 545.
3 Na carta a Prince, ibid., JE menciona que, a partir da primavera de 1739, “havia mais seriedade e conversação religiosa, especialmente entre os jovens”.
A importância e a vantagem de um conhecimento profundo da verdade divina
“Pois, com efeito, quando devíeis ser mestres, atendendo ao tempo decorrido, tendes, novamente, necessidade de alguém que vos ensine, de novo, quais são os princípios elementares dos oráculos de Deus; assim, vos tornastes como necessitados de leite e não de alimento sólido.” (Hebreus 5.12)
Estas palavras são uma queixa, a qual o apóstolo faz acerca de uma certa falha nos hebreus cristãos a quem escreveu. Na qual podemos observar:
1. A falha da qual se queixa, a saber, a falta de uma certa proficiência no conhecimento das doutrinas e mistérios da religião, como poderia ser esperado deles. O apóstolo se queixa deles por não terem feito aquele progresso no conhecimento das coisas da teologia, ou das coisas ensinadas nos oráculos de Deus, que deveriam ter feito. E ele pretende reprová-los, não apenas por sua deficiência no conhecimento espiritual e experimental das coisas divinas, mas por sua deficiência no conhecimento doutrinário dos princípios da religião e das verdades da teologia cristã; como é evidente mediante várias coisas.
Torna-se evidente pela maneira como o apóstolo introduz esta queixa ou reprovação. A ocasião de sua introdução é esta: no versículo 10, ele menciona o fato de Cristo ser sumo sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque: “Tendo sido nomeado por Deus sumo sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque”. O apóstolo desejava chamar a atenção dos hebreus cristãos para este Melquisedeque, sendo apresentado como um tipo eminente de Cristo no Antigo Testamento, que eram os oráculos de Deus, e para o relato que temos de Melquisedeque contendo muitos mistérios do evangelho. Porém ele percebeu que, devido à sua fraqueza no conhecimento e pouco entendimento de mistérios dessa natureza, eles não o compreenderiam; e, portanto, para, por ora, de dizer qualquer coisa sobre Melquisedeque. Assim, em Hebreus 5.11, “A esse respeito temos muitas coisas que dizer e difíceis de explicar, porquanto vos tendes tornado tardios em ouvir”; ou seja, “Há muitas coisas a respeito de Melquisedeque, as quais contêm maravilhosos mistérios do evangelho, e que eu gostaria de trazer ao conhecimento de vocês, se não tivesse medo de que, devido à sua surdez e lentidão na compreensão dessas coisas, vocês ficariam apenas embaraçados e confusos com meu discurso, e assim não receberiam nenhum benefício; e isto seria muito difícil para vocês, como uma carne muito pesada.”
Em seguida, vêm as palavras do texto: “Pois, com efeito, quando deveis ser mestres, atendendo ao tempo decorrido, tendes, novamente, necessidade de alguém que vos ensine, de novo, quais são os princípios elementares dos oráculos de Deus; assim, vos tornastes como necessitados de leite e não de alimento sólido.” É como dizer: “Na verdade, poderia ter sido esperado que vocês conhecessem o suficiente sobre a teologia e as Sagradas Escrituras, para serem capazes de compreender e digerir tais mistérios, mas não é assim com vocês.”
Novamente, o apóstolo fala de sua proficiência neste conhecimento como é transmitido e recebido pelo ensino humano; como é evidente mediante essa expressão: “quando deveis ser mestres, atendendo ao tempo decorrido”; o que inclui não apenas um conhecimento prático e experimental, mas também conhecimento doutrinário das verdades e dos mistérios da religião.
Outra vez, o apóstolo fala deste conhecimento, por meio do qual os cristãos são capazes de digerir alimento sólido; isto é, compreender aquelas coisas da teologia que são mais obscuras e difíceis de serem compreendidas, e que requerem grande habilidade em coisas desta natureza. Isto é expresso mais plenamente nos dois versículos seguintes: “Ora, todo aquele que se alimenta de leite é inexperiente na palavra da justiça, porque é criança. Mas o alimento sólido é para os adultos, para aqueles que, pela prática, têm as suas faculdades exercitadas para discernir não somente o bem, mas também o mal.”
De novo, é um conhecimento tal que a proficiência nele levará as pessoas além dos princípios elementares da religião. Como aqui: “tendes, novamente, necessidade de alguém que vos ensine, de novo, quais são os princípios elementares dos oráculos de Deus”. Por esta razão, o apóstolo, no início do próximo capítulo, os aconselha a “Por isso, pondo de parte os princípios elementares da doutrina de Cristo, deixemo-nos levar para o que é perfeito”.
2. Podemos observar em que se torna evidente o erro desta falha, a saber, em que eles não adquiriram proficiência de acordo com seu tempo. Em virtude do tempo, eles deveriam ter sido mestres. Visto que eram cristãos, a sua ocupação era aprender e adquirir conhecimento cristão. Eles eram estudantes na escola de Cristo; e, se tivessem aproveitado seu tempo de aprendizagem, como deveriam ter feito, poderiam, na época em que o apóstolo escreveu, estar aptos para serem mestres nesta escola. Qualquer que seja a ocupação à qual alguém se dedique, pode-se esperar que sua perfeição nela seja correspondente ao tempo que ele teve para aprender e se aperfeiçoar. Os cristãos não devem permanecer sempre crianças, mas devem crescer no conhecimento cristão; e deixando o alimento dos bebês, que é o leite, devem aprender a digerir alimento sólido.
Doutrina.
Todo cristão deve se esforçar para crescer no conhecimento da teologia.
Esta é, de fato, considerada a ocupação de teólogos e ministros; geralmente se pensa que é seu trabalho, por meio do estudo das Escrituras e de outros livros instrutivos, obter conhecimento; e a maioria parece pensar que isso pode ser deixado para eles, como algo que não pertence a outros. Porém, se o apóstolo nutrisse essa noção, ele nunca teria culpado os hebreus cristãos por não terem adquirido conhecimento suficiente para serem mestres; ou, se ele tivesse pensado que isso dizia respeito aos cristãos em geral apenas como uma coisa secundária, e que seu tempo não devesse, em uma medida considerável, se envolver com essa atividade, ele nunca os teria culpado tanto de que sua proficiência no conhecimento não correspondia ao tempo que eles tiveram para aprender.
Ao tratar deste assunto, mostrarei:
I. O que é teologia.
II. Que tipo de conhecimento de teologia é pretendido na doutrina.
III. Porque é necessário o conhecimento da teologia.
IV. Porque todos os cristãos deveriam se esforçar para crescer neste conhecimento.
I. Mostrarei, de forma muito breve, o que é teologia.
Várias definições têm sido dadas por aqueles que trataram do assunto. Não me deterei para investigar agora qual é, de acordo com as regras da ciência, a definição mais precisa; mas a definirei ou a descreverei, pois penso que tem a maior tendência de transmitir uma noção dela a este auditório.
Por teologia entende-se aquela ciência ou doutrina que compreende todas as verdades e regras que dizem respeito ao grande assunto da religião. Existem vários tipos de artes e ciências ensinadas e aprendidas nas escolas, as quais tratam de vários objetos; sobre as obras da natureza em geral, como a filosofia; ou os céus visíveis, como a astronomia; ou o mar, como a navegação; ou a terra, como a geografia; ou o corpo do homem, como a medicina e a anatomia; ou a alma do homem, no que diz respeito aos seus poderes e qualidades naturais, como a lógica e a pneumatologia; ou sobre o governo humano, como a política e a jurisprudência. Porém existe uma ciência, ou um certo tipo de conhecimento e doutrina, que está acima de todo o restante, visto que diz respeito a Deus e ao grande assunto da religião: esta é a teologia; a qual não é aprendida, como outras ciências, meramente pelo aperfeiçoamento da razão natural do homem, mas é ensinada pelo próprio Deus em certo livro que ele deu para esse fim, cheio de instrução. Esta é a regra que Deus deu ao mundo para ser seu guia na busca por esse tipo de conhecimento, e é um resumo de todas as coisas desta natureza que precisamos conhecer. Por esse motivo, a teologia é melhor chamada de doutrina do que de arte ou de ciência.
Na verdade, existe o que é chamado de religião ou teologia natural. Existem muitas verdades a respeito de Deus e de nosso dever para com ele que são evidentes mediante a luz da natureza. Porém a teologia cristã, propriamente dita, não é evidente mediante a luz da natureza; ela depende de revelação. São tais as nossas circunstâncias agora, em nosso estado decaído, que nada que é necessário sabermos a respeito de Deus é manifestado mediante a luz da natureza da maneira pela qual é necessário que o conheçamos. Pois o conhecimento da verdade na teologia não tem qualquer importância para nós, a não ser porquê de uma forma ou de outra pertença ao esquema do evangelho, ou visto que diz respeito a um Mediador. Contudo, a luz da natureza não nos ensina nenhuma verdade da teologia desta maneira. Portanto, não pode ser dito que chegamos ao conhecimento de qualquer parte da teologia cristã mediante a luz da natureza. A luz da natureza não ensina a verdade como ela é em Jesus. É apenas a Palavra de Deus, contida no Antigo e no Novo Testamentos, que nos ensina a teologia cristã.
A teologia compreende tudo o que é ensinado nas Escrituras e, portanto, tudo o que precisamos saber, ou devemos saber, a respeito de Deus e de Jesus Cristo, a respeito de nosso dever para com Deus e de nossa felicidade em Deus. A teologia é comumente definida como a doutrina de viver para Deus; e, por alguns que parecem ser mais precisos, a doutrina de viver para Deus por meio de Cristo. Ela compreende todas as doutrinas cristãs tal como são em Jesus, e todas as regras cristãs que nos orientam no viver para Deus por meio de Cristo. Não há nada na teologia, nenhuma doutrina, nenhuma promessa, nenhuma regra, exceto o que de uma forma ou de outra diz respeito à vida cristã e divina, ou ao nosso viver para Deus por meio de Cristo. Todas essas coisas (doutrina, promessa e regra) dizem respeito a isso em dois aspectos, a saber, porque tendem a promover nosso viver para Deus aqui neste mundo, em uma vida de fé e santidade, e também porque tendem a nos levar a uma vida de perfeita santidade e felicidade, no pleno gozo de Deus no futuro. Mas apresso-me à
II. [Segunda] coisa proposta, a saber, mostrar que tipo de conhecimento de teologia é pretendido na doutrina.
Aqui eu gostaria de observar,
Primeiro. Que existem dois tipos de conhecimento das coisas da teologia, a saber, o especulativo e o prático, ou, em outras palavras, o natural e o espiritual. O primeiro fica apenas na cabeça. Nenhuma outra faculdade além do entendimento está envolvida nele. Consiste em ter um conhecimento natural ou racional das coisas da religião, ou um certo conhecimento que pode ser obtido pelo exercício natural de nossas próprias faculdades, sem qualquer iluminação especial do Espírito de Deus. O último não reside inteiramente na cabeça ou nas ideias especulativas das coisas, mas o coração está envolvido nele; consiste principalmente no senso do coração. O mero intelecto, sem o coração, a vontade ou a inclinação, não é a sua sede. E não pode ser chamado apenas de ver, mas de sentir ou de saborear. Portanto, há uma diferença entre ter uma noção especulativa correta das doutrinas contidas na Palavra de Deus e ter o devido senso delas no coração. A primeira consiste no conhecimento especulativo ou natural das coisas da teologia; o último consiste no conhecimento espiritual ou prático delas.
Segundo. Nenhum destes é pretendido na doutrina excluindo-se o outro, mas pretende-se que devemos procurar o primeiro em prol do último. O último, igualmente um conhecimento espiritual e prático da teologia, é da maior importância; pois um conhecimento especulativo dela, sem um conhecimento espiritual, é em vão e sem propósito, a não ser para tornar nossa condenação ainda maior. No entanto, um conhecimento especulativo também é de infinita importância neste aspecto, pois sem ele não podemos ter conhecimento espiritual ou prático; como pode ser mostrado de passagem.
Já mostrei que o apóstolo fala não apenas de um conhecimento espiritual, mas de um conhecimento que pode ser adquirido e comunicado de um para outro. No entanto, não se deve pensar que ele se refere exclusivamente ao outro. Mas ele gostaria que os hebreus cristãos buscassem um em prol do outro. Portanto, o primeiro é o primeiro e mais diretamente pretendido; pretende-se que os cristãos, por meio da leitura e de outros meios adequados, busquem um bom conhecimento racional das coisas da teologia. O último é pretendido de forma mais indireta, uma vez que deve ser procurado por meio do outro como seu fim. Mas eu prossigo para a
III. [Terceira] coisa proposta, a saber, mostrar a utilidade e a necessidade do conhecimento de teologia.
Primeira. Não há outra maneira pela qual qualquer meio de graça possa trazer algum benefício a não ser mediante o conhecimento. Todo ensino é em vão sem aprendizado. Portanto, a pregação do evangelho seria totalmente inútil se não transmitisse conhecimento à mente. Há uma categoria de homens que Cristo designou propositalmente para serem mestres em sua igreja. Eles devem ensinar as coisas da teologia. Porém eles ensinam em vão se nenhum conhecimento destas coisas for adquirido mediante seu ensino. É impossível que seu ensino e pregação sejam um meio de graça, ou de qualquer bem no coração de seus ouvintes, de outra forma que não seja mediante o conhecimento transmitido ao entendimento. Caso contrário, seria igualmente benéfico para o auditório se o ministro pregasse em alguma língua desconhecida. A diferença é que a pregação numa língua conhecida transmite algo ao entendimento, o que a pregação numa língua desconhecida não transmite. Por esse motivo tal pregação deve ser inútil. Os homens nada recebem, em coisas como estas, quando nada entendem; e não são edificados afinal, a menos que algum conhecimento seja transmitido; de acordo com o argumento do apóstolo em 1 Coríntios 14.2-6.
Nenhum discurso pode ser um meio de graça a não ser por meio da transmissão de conhecimento. Caso contrário, o discurso é desperdiçado, como se não houvesse nenhum homem ali, e aquele que falou tivesse falado apenas para o ar; como se conclui na passagem que acabamos de citar, 1 Coríntios 14.6-10. Aquele que não entende não pode receber fé, nem qualquer outra graça, pois Deus lida com o homem como uma criatura racional; e quando a fé está em exercício, não se trata de algo que ele não conhece. Portanto, o ouvir é absolutamente necessário à fé, porque o ouvir é necessário ao entendimento, Romanos 10.14. “E como crerão naquele de quem nada ouviram?”
Igualmente não pode haver amor sem conhecimento. Não está de acordo com a natureza da alma humana amar um objeto que é totalmente desconhecido. O coração não pode fixar-se num objeto do qual não há ideia no entendimento. As razões que induzem a alma ao amor devem ser primeiro compreendidas, antes que possam exercer uma influência racional sobre o coração.
Deus nos deu a Bíblia, que é um livro de instruções. Porém este livro não pode nos trazer qualquer benefício a não ser que transmita algum conhecimento à mente; ela não pode nos beneficiar mais do que se fosse escrita na língua chinesa ou tártara, das quais não conhecemos uma palavra.
Da mesma maneira os sacramentos do evangelho não podem ter um efeito adequado de outra maneira senão ao transmitir algum conhecimento. Eles representam certas coisas por meio de sinais visíveis. E qual é a finalidade dos sinais senão transmitir algum conhecimento das coisas significadas? Tal é a natureza do homem que nada pode chegar ao coração senão através da porta do entendimento; e não pode haver conhecimento espiritual daquilo sobre o que não haja primeiro um conhecimento racional. É impossível que alguém veja a verdade ou a excelência de qualquer doutrina do evangelho sem saber o que é essa doutrina. Um homem não pode ver a maravilhosa excelência e amor de Cristo, em fazer tais e tais coisas pelos pecadores, a menos que seu entendimento seja primeiro informado de como essas coisas foram feitas. Ele não pode provar a doçura e a excelência divina de tais e tais coisas contidas na teologia a menos que primeiro tenha uma noção de que existem tais e tais coisas.
Segunda. Sem conhecimento da teologia ninguém seria diferente dos pagãos mais ignorantes e bárbaros. Os pagãos permanecem em densas trevas pagãs porque não são instruídos e não obtiveram o conhecimento das verdades da teologia. Portanto, se vivermos sob a pregação do evangelho, isso nos fará diferir deles apenas por nos transmitir mais conhecimento das coisas da teologia.
Terceira. Se os homens não tiverem conhecimento destas coisas a faculdade de raciocinar será totalmente inútil neles. As faculdades da razão e da compreensão foram dadas para a compreensão e o conhecimento reais. Se um homem não tiver conhecimento real, a faculdade ou a capacidade de conhecer não será útil para ele. E se ele tiver conhecimento real, se for, todavia, destituído do conhecimento daquelas coisas que são o fim último de seu ser, e por causa do conhecimento das quais ele recebeu mais entendimento do que os animais, então, ainda assim, sua faculdade da razão é inútil; ele poderia muito bem ter sido uma fera, como um homem com esse conhecimento. Porém as coisas da teologia são as coisas para se conhecer, [para] as quais nos foi dada a faculdade da razão. São as coisas que pertencem à finalidade do nosso ser e à grande ocupação para a qual fomos feitos. Portanto, um homem não pode ter sua faculdade de compreensão para qualquer propósito, algo mais do que possuir conhecimento das coisas da teologia.
De modo que esse tipo de conhecimento é absolutamente necessário. Outros tipos de conhecimento podem ser muito úteis. Algumas outras ciências, como a astronomia, a filosofia natural e a geografia, podem ser excelentes em seu gênero. Porém o conhecimento desta ciência divina é infinitamente mais útil e importante do que o de todas as outras ciências.
IV. Chego agora à quarta e principal coisa proposta pela doutrina, a saber, apresentar as razões pelas quais todos os cristãos deveriam se esforçar para crescer no conhecimento da teologia. Isto implica em duas coisas.
Primeira. Que os cristãos não devem se contentar com os graus de conhecimento da teologia que já obtiveram. Não deveria satisfazê-los o fato de que sabem tanto quanto é absolutamente necessário para a salvação, mas deveriam procurar fazer progresso.
Segunda. Que este esforço para progredir em tal conhecimento não deve ser encarado como uma coisa secundária, mas todos os cristãos devem fazer disso uma ocupação; eles devem considerá-lo como parte de sua atividade diária, e não uma pequena parte dela. Deve ser encarado como uma parte considerável do trabalho da sua sublime vocação. A razão de ambas pode tornar-se óbvia nas seguintes coisas.
1. Nossa ocupação deveria, sem dúvida, consistir em empregar muito aquelas faculdades, pelas quais nos distinguimos dos animais, naquelas coisas que são o objetivo principal dessas faculdades. A razão pela qual nos foram dadas faculdades superiores às dos animais irracionais é que fomos realmente projetados para um empreendimento superior. Aquilo que o Criador pretendia que fosse o nosso principal empreendimento é algo acima do que ele pretendia que os animais fizessem e, por esta razão, nos deu poderes superiores. Portanto, sem dúvida, deveria ser uma parte considerável da nossa ocupação cultivar essas faculdades superiores. Porém a faculdade pela qual principalmente nos distinguimos dos animais irracionais é a faculdade do entendimento. Segue-se, então, que devemos ter como nossa principal ocupação cultivar esta faculdade, e de forma alguma devemos considerá-la uma ocupação secundária. Para nós, fazer do cultivo desta faculdade uma ocupação secundária é, na verdade, fazer da própria faculdade do entendimento uma faculdade secundária, se assim posso falar, uma faculdade de menor importância que outras, embora, na verdade, seja a faculdade mais sublime que temos.
Contudo, não podemos fazer do cultivo da nossa faculdade intelectual uma ocupação, a não ser fazendo do aperfeiçoamento real de nós mesmos na compreensão e no conhecimento uma ocupação. Assim, aqueles que não fazem muito disso a sua ocupação, mas, em vez de cultivar a sua compreensão para adquirir conhecimento, dedicam-se principalmente às suas faculdades inferiores, a fim de prover meios de agradar aos seus sentidos e satisfazer os seus apetites animais; e assim preferem fazer do seu entendimento um servo dos seus poderes inferiores do que de seus poderes inferiores servos do seu entendimento; não apenas se comportam de maneira a não se tornarem cristãos, mas também agem como se tivessem esquecido que são homens, e que Deus os colocou acima dos animais irracionais ao dar-lhes entendimento.
Deus deu ao homem algumas coisas em comum com os animais irracionais, como seus sentidos externos, seus apetites corporais, a capacidade de sentir prazer e dor corporais, e outras faculdades animais; e lhe deu algumas coisas superiores às dos animais, cuja principal é uma faculdade do entendimento e da razão. Ora, Deus nunca deu ao homem essas faculdades, pelas quais ele está acima dos animais, para estarem sujeitas àquelas que ele tem em comum com os animais. Isto seria uma grande confusão e equivalente a fazer do homem um servo dos animais. Pelo contrário, ele deu esses poderes inferiores para serem empregados em subserviência ao entendimento do homem; e, portanto, deve ser uma grande parte da ocupação principal do homem cultivar seu entendimento por meio da aquisição de conhecimento. Se assim for, então seguir-se-á que deve ser uma parte essencial da sua ocupação cultivar o seu entendimento na aquisição do conhecimento divino, ou o conhecimento das coisas da teologia; pois o conhecimento destas coisas é o fim principal desta faculdade. Deus deu ao homem a faculdade do entendimento, principalmente, para que ele pudesse compreender as coisas divinas.
Os pagãos mais sábios4 tinham consciência de que a principal tarefa do homem era o aperfeiçoamento e o exercício do seu entendimento. Porém eles estavam nas trevas, pois não conheciam o objeto sobre o qual o entendimento deveria ser principalmente empregado. A ciência sobre a qual muitos deles pensavam que deveriam empregar principalmente o entendimento era a filosofia; e, consequentemente, eles fizeram da sua principal ocupação estudá-la. Porém nós que desfrutamos da luz do evangelho somos mais felizes, não ficamos, quanto a este particular, nas trevas. Deus nos disse sobre quais coisas devemos empregar principalmente nossos entendimentos, tendo-nos dado um livro cheio de instruções divinas, apresentando muitos objetos gloriosos sobre os quais todas as criaturas racionais deveriam empregar principalmente seus entendimentos. Estas instruções são adaptadas a pessoas de todas as capacidades e condições, e adequadas para serem estudadas, não apenas por homens instruídos, mas por pessoas de toda condição, instruídas e não instruídas, jovens e idosos, homens e mulheres. Portanto, a aquisição de conhecimento destas coisas deveria ser a principal ocupação de todos aqueles que têm a vantagem de desfrutar das Sagradas Escrituras.
2. As coisas da teologia são coisas de excelência superlativa e são dignas de que todos se esforcem para crescer no conhecimento delas. Não existem coisas tão dignas de serem conhecidas como essas. Elas estão tão acima das coisas tratadas em outras ciências quanto o céu está acima da terra. O próprio Deus, o eterno Três em Um, é o objeto principal desta ciência; em segundo lugar, Jesus Cristo, como Deus-homem e Mediador, e a gloriosa obra da redenção, a obra mais gloriosa que já foi realizada; depois, as grandes coisas do mundo celestial, a herança gloriosa e eterna comprada por Cristo e prometida no evangelho; a obra do Espírito Santo de Deus nos corações dos homens; nosso dever para com Deus e a maneira pela qual nós mesmos podemos nos tornar como anjos e como o próprio Deus em nossa medida; todas essas coisas são objetos desta ciência.
Coisas como essas foram o principal assunto de estudo dos santos patriarcas, profetas e apóstolos, e dos homens mais excelentes que já existiram no mundo, e igualmente são o assunto de estudo dos anjos no céu, 1 Pedro 1.10-12.
Essas coisas são tão excelentes e dignas de serem conhecidas, que o conhecimento delas recompensará ricamente todas as dores e labores de uma busca sincera por elas. Se houvesse um grande tesouro de ouro e pérolas escondido na terra, que fosse acidentalmente encontrado, e fosse aberto entre nós em tais circunstâncias que todos pudessem ter tanto quanto pudessem apanhar dele; não pensariam todos que valeria a pena se dedicar a apanhá-lo enquanto durasse? Porém este tesouro de conhecimento divino, o qual está contido nas Escrituras e é fornecido para que cada um colha para si o máximo que puder, é um tesouro muito mais rico que qualquer outro de ouro e pérolas. Quão ocupados estão todos os tipos de homens, em todo o mundo, em obter riquezas? Contudo, esse conhecimento é um tipo de riqueza muito melhor do que aquele que eles buscam com tanta diligência e laboriosidade.
3. As coisas da teologia não dizem respeito apenas aos ministros, mas são de infinita importância para todos os cristãos. Não acontece com as doutrinas da teologia como acontece com as doutrinas da filosofia e de outras ciências. Estas últimas são, geralmente, pontos especulativos, que pouco dizem respeito à vida humana; e altera muito pouco a situação quanto aos nossos interesses temporais ou espirituais, quer as conheçamos ou não. Os filósofos divergem sobre eles, sendo alguns de uma opinião e outros de outra. E enquanto eles estão envolvidos em discussões acaloradas sobre elas, outros podem muito bem deixá-los discutir entre si, sem se preocuparem muito com eles; sendo de pouca importância para eles se um ou outro está certo.
Porém não é assim em questões de teologia. As doutrinas desta dizem respeito a quase todos. Elas tratam de coisas que dizem respeito à salvação e felicidade eternas de cada homem. As pessoas comuns não podem dizer: “Deixemos estes assuntos para ministros e teólogos; deixe-os discuti-los entre si o quanto puderem; eles não nos dizem respeito”, pois são de infinita importância para cada homem. Aquelas doutrinas que dizem respeito à essência, atributos e existências de Deus dizem respeito a todos; visto que é de infinita importância para as pessoas comuns, assim como para os ministros, saber que tipo de ser Deus é. Pois ele é o Ser que nos criou a todos, em quem "vivemos, e nos movemos, e existimos”; que é o Senhor de tudo; o Ser a quem todos devemos prestar contas; é o fim último do nosso ser e a única fonte da nossa felicidade.
Também, as doutrinas que dizem respeito a Jesus Cristo, e sua mediação, sua encarnação, sua vida e morte, sua ressurreição e ascensão, seu assento à direita do Pai, sua satisfação e intercessão, dizem respeito infinitamente às pessoas comuns, assim como aos teólogos. Elas têm tanta necessidade deste Salvador e de interesse em sua pessoa e ofícios, e nas coisas que ele fez e sofreu, quanto os ministros e teólogos.
O mesmo pode ser dito das doutrinas que dizem respeito ao modo da justificação de um pecador, ou a maneira pela qual ele se interessa pela mediação de Cristo. Elas dizem respeito a todos igualmente; pois todos têm igual necessidade de justificação diante de Deus. Aquela condenação eterna, à qual todos estamos naturalmente expostos, é igualmente terrível. Igualmente, com respeito às doutrinas da teologia, as quais dizem respeito à obra do Espírito de Deus no coração, na aplicação da redenção em nosso chamado eficaz e santificação, todos estão igualmente interessados nelas. Não existe qualquer doutrina da teologia que não diga respeito, de uma forma ou de outra, ao interesse eterno de cada cristão. Nenhuma das coisas que Deus nos ensinou em sua Palavra são especulações desnecessárias ou assuntos triviais; todas elas são, de fato, pontos importantes.
4. Podemos argumentar a partir das grandes coisas que Deus fez para nos dar instrução nessas coisas. Quanto às outras ciências, ele nos deixou entregues a nós mesmos, à luz da nossa própria razão. Porém, sendo as coisas da teologia de importância infinitamente maior para nós, ele não nos entregou a um guia incerto, mas ele mesmo nos deu uma revelação da verdade nesses assuntos, e fez grandes coisas para transmitir e confirmar essa revelação a nós; levantando muitos profetas em diferentes épocas, inspirando-os imediatamente com seu Espírito Santo e confirmando sua doutrina com inúmeros milagres ou obras maravilhosas fora do curso estabelecido da natureza. Sim, ele levantou uma sucessão de profetas, a qual foi mantida por vários séculos.
Foi justamente para esse fim que Deus separou o povo de Israel, de uma maneira tão maravilhosa, de todos os outros povos, e os manteve separados; para que pudesse confiar a eles os oráculos de Deus, e para que, a partir deles, esses oráculos pudessem ser comunicados ao mundo. Frequentemente ele também enviou anjos para trazerem instruções divinas aos homens; e muitas vezes apareceu em símbolos milagrosos ou representações de sua presença; e agora, nestes últimos dias, enviou seu próprio Filho ao mundo para ser seu grande profeta, para nos ensinar a verdade divina, no começo de Hebreus 1. Finalmente, Deus deu um livro de instruções divinas, o qual contém a soma da teologia. Ora, Deus fez essas coisas, não apenas para a instrução de ministros e homens instruídos, mas para a instrução de todos os homens, de todos os tipos: homens, mulheres e crianças instruídos e iletrados. E, certamente, se Deus faz coisas tão grandes para nos ensinar, não devemos fazer pouco para aprender.
Deus não fez com que dar instruções aos homens sobre assuntos teológicos fosse uma tarefa secundária, mas uma ocupação que ele empreendeu e conduziu em um curso de grandes e maravilhosas dispensações, como uma ocupação na qual seu coração esteve grandemente envolvido; o que, às vezes, nas Escrituras é indicado pela expressão Deus se levantou cedo para nos ensinar e para enviar profetas e mestres a nós. Jeremias 7.25: “Desde o dia em que vossos pais saíram da terra do Egito até hoje, enviei-vos todos os meus servos, os profetas, todos os dias; começando de madrugada, eu os enviei.” E também, Jeremias 7.13: “Agora, pois, visto que fazeis todas estas obras, diz o Senhor, e eu vos falei, começando de madrugada, e não me ouvistes, chamei-vos, e não me respondestes”. Este é um discurso figurativo, que significa que Deus não fez isso como uma ocupação secundária, mas como uma ocupação de grande importância, na qual ele tomou muito cuidado e teve seu coração muito engajado; porque as pessoas costumam acordar cedo para exercer as atividades nas quais estão seriamente empenhadas. Se Deus esteve tão empenhado no ensino, certamente não deveríamos ser negligentes no aprendizado, nem deveríamos fazer do crescimento no conhecimento uma atividade secundária, mas uma grande parte das atividades das nossas vidas.
5. Pode-se argumentar com base na abundância das instruções que Deus nos deu, na grandeza deste livro que Deus nos deu para nos ensinar a teologia, e na grande variedade que ele contém. Muito foi ensinado por meio de Moisés dos tempos antigos o que temos transmitido para nós; depois disso, outros livros foram acrescentados de tempos em tempos; muito nos é ensinado por meio de Davi e Salomão; e muitas e excelentes são as instruções comunicadas pelos profetas; todavia, Deus não achou tudo isso suficiente, mas depois disso enviou Cristo e seus apóstolos, por meio dos quais foi acrescentado um grande e excelente tesouro a este livro sagrado, o qual deve ser nossa regra no estudo deste importante assunto.
Este livro foi escrito para uso de todos; todos são orientados a pesquisar as Escrituras. João 5.39, “Examinai as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas que testificam de mim”; e Isaías 34.16, “Buscai no livro do Senhor e lede”. Aqueles que leem e entendem são declarados abençoados. Apocalipse 1.3, “Bem-aventurados aqueles que leem e aqueles que ouvem as palavras da profecia.” Se isso é verdade para este livro específico do Apocalipse, muito mais é verdade para a Bíblia em geral. Não se deve acreditar que Deus teria dado instruções em tal abundância, se ele tivesse pretendido que receber instruções fosse apenas uma preocupação secundária para nós.
Deve-se considerar que todas as abundantes instruções contidas nas Escrituras foram escritas para que pudessem ser compreendidas, caso contrário, não são instruções. Aquilo que não é dado para que o aluno possa compreender, não é dado para a instrução do aluno; e, a menos que nos esforcemos para crescer no conhecimento da teologia, uma grande parte dessas instruções será em vão; pois não podemos receber mais benefícios por meio das Escrituras do que entendemos, não mais do que se elas estivessem encerradas em uma língua desconhecida. Temos motivos para louvar a Deus por ele nos ter dado instruções tão variadas e abundantes em sua Palavra, mas seremos hipócritas ao fazê-lo se, apesar de tudo, nos contentarmos com apenas um pouco desta instrução.
Quando Deus abre um grande tesouro diante de nós, a fim de suprir nossas necessidades, e lhe agradecemos por nos ter dado tanto, se, ao mesmo tempo, estivermos dispostos a permanecer desprovidos da maior parte dele porque temos preguiça de adquiri-lo, isso não mostrará a sinceridade da nossa gratidão. Temos agora vantagens muito maiores para adquirir conhecimento na teologia do que o povo de Deus tinha antigamente, porque o cânon das Escrituras aumentou muito desde aquela época. Porém, se negligenciarmos as nossas vantagens, poderemos nunca ser melhores por causa delas e poderemos permanecer com tão pouco conhecimento como eles.
6. Por mais diligentemente que nos apliquemos, há espaço suficiente para aumentar o nosso conhecimento da verdade divina, sem chegar ao fim. Ninguém tem esta desculpa para não se aplicar diligentemente para obter conhecimento da teologia, pois já sabe tudo; nem pode dar a desculpa de que não precisa aplicar-se diligentemente para saber tudo o que há para ser conhecido. Ninguém pode desculpar-se por causa necessidade das ocupações às quais se dedica. Há espaço suficiente para nos dedicarmos para sempre a esta ciência divina com a máxima aplicação. Aqueles que se dedicaram mais firmemente, estudaram por mais tempo e obtiveram maiores realizações neste conhecimento, sabem muito pouco do que deve ser conhecido. O assunto é inesgotável. Esse Ser Divino, que é o tema principal desta ciência, é infinito e não há fim para a glória de suas perfeições. Suas obras são, ao mesmo tempo, maravilhosas e não podem ser descobertas com perfeição; especialmente a obra da redenção, que é aquela obra de Deus sobre a qual a ciência da teologia está principalmente relacionada, está cheia de maravilhas insondáveis.
A Palavra de Deus, que é dada para nossa instrução na teologia, contém o suficiente para nos ocupar até o fim de nossas vidas, e então deixaremos o suficiente sem investigação para ocupar as cabeças dos teólogos mais capazes até o fim do mundo. O salmista encontrou um fim para as coisas humanas, mas ele nunca conseguiu encontrar um fim para o que está contido na Palavra de Deus. Salmos 119.96, “Tenho visto que toda perfeição tem seu limite; mas o teu mandamento é ilimitado.” Há o suficiente nesta ciência divina para ocupar o entendimento dos santos e dos anjos por toda a eternidade.
7. Sem dúvida, é da responsabilidade de cada um esforçar-se por se destacar no conhecimento das coisas que pertencem à sua profissão ou vocação principal. Se diz respeito aos homens se destacarem em alguma coisa, ou em alguma ciência ou conhecimento, certamente lhes diz respeito se destacarem nos assuntos de sua profissão e trabalho principais. Porém o chamado e o trabalho de todo cristão é viver para Deus. É dito que esta é a sua soberana vocação, Filipenses 3.14. Esta é a ocupação e, se assim posso dizer, a profissão de um cristão, seu trabalho principal e, na verdade, deveria ser seu único trabalho. Nenhuma ocupação deveria ser feita por um cristão, exceto quando, de uma forma ou de outra, ela faça parte desta. Portanto, o cristão certamente deve se esforçar por estar bem familiarizado com as coisas que pertencem a esta obra, para que possa cumpri-la e estar completamente equipado para ela.
Convém a alguém que é chamado para ser soldado, e ir para a guerra, se esforçar a fim de se destacar na arte da guerra. Convém a alguém que é chamado a ser marinheiro, e a passar a vida navegando no oceano, esforçando-se para se destacar na ciência da navegação. Convém a alguém que professa ser médico, e se dedica a esse trabalho, esforçar-se para se destacar no conhecimento das coisas que pertencem à ciência da medicina. Igualmente, convém a todos os que professam ser cristãos e se dedicam à prática do cristianismo, esforçarem-se para se destacarem no conhecimento da teologia.
8. Pode-se argumentar a partir disso que Deus designou uma categoria de homens para esse fim, para ajudar as pessoas a obterem conhecimento dessas coisas. Ele os designou para serem professores. 1 Coríntios 12.28, “A uns estabeleceu Deus na igreja, primeiramente, apóstolos; em segundo lugar, profetas; em terceiro lugar, mestres.” Efésios 4.11-12, “E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo.” Se Deus os designou para serem professores, fazendo disso a sua ocupação, então ele fez com que a sua tarefa fosse transmitir conhecimento. Mas que tipo de conhecimento? Não o conhecimento da filosofia, ou das leis humanas, ou das ciências mecânicas, mas da teologia.
Se Deus fez com que a ocupação de alguns fosse ser professores, seguir-se-á que ele fez com que a ocupação de outros fosse serem alunos; pois professores e alunos são correlatos, um dos quais nunca foi pretendido que existisse sem o outro. Deus nunca determinou ser o dever de alguns esforçarem-se para ensinar aqueles que não são obrigados a esforçarem-se para aprender. Ele não ordenou aos ministros que se gastem para transmitir conhecimento àqueles que não são obrigados a aplicarem-se para recebê-lo.
O nome pelo qual os cristãos são comumente chamados no Novo Testamento é discípulos, cujo significado é estudantes ou aprendizes. Todos os cristãos são colocados na escola de Cristo, onde sua função é aprender ou receber o conhecimento de Cristo, seu Mestre e Professor comum, e daqueles professores inferiores designados por ele para instruírem em seu nome.
9. Deus revelou claramente nas Escrituras que é sua vontade que todos os cristãos se esforcem diligentemente para se destacarem no conhecimento das coisas divinas. É a vontade revelada de Deus que os cristãos não apenas tenham algum conhecimento das coisas desta natureza, mas que sejam enriquecidos com todo o conhecimento. 1 Coríntios 1.4-5: “Sempre dou graças a meu Deus a vosso respeito, a propósito da sua graça, que vos é dada em Cristo Jesus; porque, em tudo fostes enriquecidos nele, em toda a palavra e em todo o conhecimento”. Igualmente, o apóstolo orou fervorosamente para que os cristãos filipenses pudessem abundar mais e mais, não apenas em amor, mas em conhecimento cristão. Filipenses 1.9, “E também faço esta oração: que o vosso amor aumente mais e mais em pleno conhecimento e toda percepção.” Também, o apóstolo Pedro aconselha “reunindo toda a vossa diligência, associai com a vossa fé a virtude; com a virtude, o conhecimento” (2 Pedro 1.5). E o apóstolo Paulo, no capítulo seguinte àquele em que está o texto, aconselha os hebreus cristãos a porém de parte os princípios elementares da doutrina de Cristo, e a deixarem-se levar para o que é perfeito. De forma alguma ele queria que eles ficassem sempre parados apenas naquelas doutrinas fundamentais de arrependimento, fé, ressurreição dos mortos e julgamento eterno, nas quais foram doutrinados quando foram batizados no início, e tiveram as mãos do apóstolo impostas sobre eles, na sua iniciação no cristianismo. Veja Hebreus 6, no início.
Aplicação.
O uso que faço desta doutrina é no sentido de exortar todos a se esforçarem diligentemente para obter esse tipo de conhecimento.
Considerem-se como alunos ou discípulos, matriculados na escola de Cristo; e, consequentemente, sejam diligentes em adquirir proficiência no conhecimento cristão. Não se contentem com aquilo que vocês aprenderam do catecismo em vossa infância, nem com tanto aquilo que conhecem dos princípios da religião quanto é necessário para a salvação. Desse modo vocês serão culpados daquilo contra o que o apóstolo adverte, a saber, não indo além de lançar novamente “a base do arrependimento de obras mortas”, etc. (Hebreus 6.1)
Todos vocês são chamados para serem cristãos, e esta é a vossa profissão. Esforcem-se, portanto, para adquirir conhecimento das coisas que dizem respeito à vossa profissão. Não deixem que seus professores tenham motivos para reclamar, pois enquanto eles se gastam e são consumidos para transmitir conhecimento a vocês, vocês se esforçam pouco para aprender. É um grande incentivo para um instrutor ensinar pessoas que fazem do aprendizado uma ocupação, dedicando suas mentes a isso. Isto torna o ensino um prazer, ao mesmo tempo em que o contrário será uma tarefa muito pesada e opressiva.
Todos vocês possuem um grande tesouro de conhecimento divino, pois possuem a Bíblia em suas mãos; portanto, não se contentem em possuir apenas um pouco deste tesouro. Deus falou muito com vocês nas Escrituras; esforce-se para entender o máximo que puderem do que ele diz. Deus fez de todos vocês criaturas racionais; por esta razão, não deixem que a nobre faculdade da razão ou do entendimento seja negligenciada. Não se contentem em ter tanto conhecimento quanto é jogado em vosso caminho, nem tanto quanto vocês recebem, em certo sentido inevitavelmente, pela frequente inculcação da verdade divina na pregação da Palavra, da qual vocês são obrigados a serem ouvintes, ou tanto quanto vocês acidentalmente obtêm em conversa; antes seja vossa maior ocupação procurar esse conhecimento, e isso com a mesma diligência e esforço com que os homens costumam cavar minas de prata e ouro.
De modo especial, eu aconselho aqueles que são jovens a ocuparem-se desta forma. Os homens nunca são velhos demais para aprender; mas o período da juventude é especialmente a época da aprendizagem; é particularmente adequado para adquirir e armazenar conhecimento. Além disso, para incitar todos, tanto idosos como jovens, a este dever, deixem-me pedir que considerem:
Primeiro. Se vocês se dedicarem diligentemente a este trabalho, não desejarão ocupação quando estiverem livres de suas atividades seculares comuns. Dessa forma, vocês poderão encontrar algo em que possam se dedicar proveitosamente nessas longas noites de inverno. Vocês encontrarão outra coisa para fazer, além de ir de casa em casa, gastando uma hora após a outra em conversas inúteis ou, na melhor das hipóteses, sem outro propósito senão divertirem-se, preencherem e gastarem seu tempo. E é de recear que grande parte do tempo gasto em nossas visitas noturnas de inverno seja gasto com um propósito muito pior do que este que mencionei agora. Salomão nos diz, em Provérbios 10.19, que “No muito falar não falta transgressão”. E não é isso que se verifica naqueles que não encontram nada mais o que fazer, durante uma parte tão grande do inverno, a não ser irem às casas uns dos outros e passarem o tempo em certa conversa à medida que a próxima vem, ou como a presente disposição de alguém sugerir?
Alguma diversão é, sem dúvida, lícita, mas o fato de os cristãos passarem tanto tempo, tantas noites longas, em nenhuma outra conversa senão aquela que tende a divertir e a fazer rir, se não pior, é uma maneira pecaminosa de passar o tempo e tende, pelo menos, à pobreza da alma, se não à pobreza externa. Provérbios 14.23, “Em todo trabalho há proveito, meras palavras, porém, levam à penúria.” Além disso, quando as pessoas, durante grande parte do seu tempo, não têm mais nada a fazer senão sentarem-se, conversarem e tagarelarem nos cantos das chaminés umas das outras, há grande perigo de caírem em conversas tolas e pecaminosas, dando vazão às suas disposições corruptas ao falar contra os outros, expressando seus ciúmes e más suposições em relação aos seus vizinhos; sem considerarem o que Cristo disse em Mateus 12.36, “Digo-vos que de toda palavra frívola que proferirem os homens, dela darão conta no Dia do Juízo”.
Se você concordar com o que ouviu desta doutrina, encontraria outra coisa para passar seus invernos, um inverno após o outro, além da discórdia, ou do falar sobre aqueles assuntos públicos que tendem à discórdia. Os jovens poderiam encontrar outra coisa para fazer além de passar o tempo em vãs companhias; algo que seria muito mais proveitoso para eles, pois realmente tirariam alguma boa vantagem; algo que, ao fazer, os afastaria mais do caminho do diabo, do caminho da tentação, e os colocaria mais no caminho do dever e de uma bênção divina. E mesmo as pessoas idosas teriam algo em que se ocupar, depois de se tornarem incapazes de trabalhar fisicamente. Seu tempo, como muitas vezes acontece agora, não lhes seria pesado, pois estariam, com proveito e prazer, empenhados em pesquisar as Escrituras, e em comparar e meditar sobre as várias verdades que ali encontrariam.
Segundo. Esta seria uma maneira nobre de gastar seu tempo. O Espírito Santo atribui esse epíteto aos bereanos, porque eles se dedicaram diligentemente a essa ocupação. Atos 17.11, “Ora estes de Bereia eram mais nobres do que os de Tessalônica; pois receberam a palavra com toda a avidez, examinando as Escrituras todos os dias para ver se essas coisas eram, de fato, assim”. Esta é basicamente a ocupação do céu. Os habitantes daquele mundo gastam muito do seu tempo pesquisando as grandes coisas da teologia, e esforçando-se para adquirir conhecimento delas, como nos é dito sobre os anjos, 1 Pedro 1.12, “coisas essas que os anjos anelam perscrutar”. Isto será muito adequado ao que você espera que seja a tua ocupação por toda a eternidade, pois sem dúvida espera juntar-se à mesma atividade que os anjos de luz. Salomão diz, Provérbios 25.2, que é honra dos reis “esquadrinhá-las”, e certamente, acima de todos os outros, pesquisar assuntos divinos. Agora, se esta é a honra até mesmo dos reis, não é igualmente, se não muito mais, a tua honra?
Terceiro. Esta é uma maneira agradável de aproveitar o tempo. O conhecimento é agradável e deleitoso para as criaturas inteligentes e, acima de tudo, o conhecimento das coisas divinas; pois nelas estão as verdades mais excelentes e os objetos mais belos e amáveis apresentados à vista. Por mais tedioso que seja o trabalho necessário para desempenhar essa ocupação, o conhecimento, uma vez obtido, recompensará fartamente o esforço necessário para obtê-lo. “Porquanto a sabedoria entrará no teu coração, e o conhecimento será agradável à tua alma” (Provérbios 2.10).
Quarto. Este conhecimento é extremamente útil na prática cristã. Aqueles que têm muito conhecimento da teologia têm grandes meios e vantagens para o conhecimento espiritual e salvador; pois nenhum meio de graça, como foi dito antes, tem efeito salvador no coração a não ser pelo conhecimento que transmitem. Quanto mais vocês tiverem do conhecimento racional das coisas do evangelho, mais oportunidades haverão, quando o Espírito for soprado em seus corações, de ver a excelência dessas coisas e de provar a doçura delas. Os pagãos, que não têm conhecimento racional das coisas do evangelho, não têm oportunidade de ver a excelência delas; e, portanto, quanto mais conhecimento racional vocês tiverem dessas coisas, mais oportunidades e vantagens terão de ver a excelência e a glória divinas delas.
Novamente, quanto mais conhecimento vocês tiverem das coisas divinas, melhor conhecerão seu dever; seu conhecimento será de grande utilidade para orientá-los quanto ao seu dever em casos particulares. Vocês também estarão mais bem equipados contra as tentações do diabo. Pois o diabo, muitas vezes, se aproveita da ignorância das pessoas para submetê-las a tentações que, de outra forma, não as dominariam.
Por terem muito conhecimento, vocês terão maiores vantagens para se comportarem com prudência e discrição em sua conduta cristã, e assim viverem muito mais para a honra de Deus e da religião. Muitos que têm boas intenções e estão cheios de boa disposição, todavia, por falta de prudência, comportam-se de modo a ofender a religião. Muitos têm um zelo por Deus que faz mais mal do que bem, porque não é “com entendimento” (Romanos 10.2). A razão pela qual muitos homens bons não se comportam melhor em muitos casos não é tanto porque carecem de graça, mas sim porque carecem de conhecimento.
Além disso, um aumento de conhecimento seria de grande ajuda para uma conversa proveitosa. Isso lhes forneceria assuntos para conversar quando vocês se reunirem ou quando visitarem seus vizinhos; e assim vocês teriam menos tentação de gastar o tempo em conversas que tendem a prejudicar a si mesmos e aos outros.
Quinto. Considere as vantagens que vocês têm de crescer no conhecimento da teologia. Temos agora vantagens muito maiores para obter muito conhecimento da teologia do que o povo de Deus sob o Antigo Testamento, tanto porque o cânon das Escrituras foi muito ampliado desde então, como também porque as verdades evangélicas são agora reveladas muito mais claramente. De modo que os homens comuns estão agora, em alguns aspectos, sob a vantagem de saberem mais sobre a teologia do que os maiores profetas tinham naquele tempo. Assim, aquela palavra de Cristo é, em certo sentido, aplicável a nós, Lucas 10.23-24, “Bem-aventurados os olhos que veem as coisas que vós vedes. Pois eu vos afirmo que muitos profetas e reis quiseram ver o que vedes e não viram; e ouvir o que ouvis e não o ouviram”. Em alguns aspectos, temos vantagens muito maiores para obter conhecimento, agora, nestas últimas eras da igreja, do que os cristãos tiveram anteriormente; especialmente por causa da arte da impressão, da qual Deus nos deu o benefício, por meio da qual Bíblias e outros livros de teologia são muitíssimos multiplicados, e as pessoas podem agora receber ajuda para a obtenção do conhecimento cristão a um preço muito mais acessível e barato do que podiam anteriormente.
Sexto. Não sabemos que oposição podemos enfrentar nos princípios que defendemos na teologia. Sabemos que existem muitos adversários do evangelho e das suas verdades. Se, portanto, abraçamos essas verdades, devemos esperar ser atacados pelos referidos adversários; e, a menos que estejamos bem-informados sobre as coisas divinas, como poderemos nos defender? Além disso, o apóstolo Pedro nos ordena que estejamos sempre prontos para dar uma resposta a todo aquele que nos perguntar a razão da esperança que há em nós (1 Pedro 3.15). Porém não podemos esperar fazer isso sem um conhecimento considerável das coisas divinas.
Concluirei agora meu discurso com algumas orientações para a aquisição deste conhecimento.
Primeira. Seja assíduo na leitura das Sagradas Escrituras. Esta é a fonte de onde todo o conhecimento da teologia deve derivar. Portanto, não deixe este tesouro ser negligenciado por você. Todo homem de bom entendimento, que sabe ler, pode, se quiser, instruir-se bem com as Escrituras. E que excelente realização seria esta!
Segunda. Não se contente apenas com uma leitura superficial, sem levar em conta o sentido. Esta é uma maneira imprópria de ler, à qual, no entanto, muitos se acostumam todos os dias. Ao ler, observe o que você lê. Observe como as coisas acontecem. Observe o rumo do discurso e compare uma Escritura com outra. Pois a Escritura, pela harmonia de suas diferentes partes, lança grande luz sobre si mesma. Somos expressamente orientados por Cristo a “examinar as Escrituras”, o que evidentemente pretende algo mais do que uma mera leitura superficial. E use meios para descobrir o significado das Escrituras. Quando você a tiver explicada na pregação da palavra, preste atenção nela, e se, a qualquer momento, um texto que você não entendeu for esclarecido de forma satisfatória, marque-o, guarde-o e, se possível, lembre-se dele.
Terceira. Procure e use diligentemente outros livros que possam ajudar você a desenvolver esse conhecimento. Existem muitos livros excelentes, os quais podem ajudar muito neste conhecimento e proporcionar a você um entretenimento muito proveitoso e agradável em suas horas livres. Há, sem dúvida, um grande defeito em muitos, que, por aversão a serem um pouco caros, eles se abastecem com mais ajuda dessa natureza. Na verdade, eles têm alguns livros que leem de vez em quando, nos sábados, mas eles os têm há tanto tempo e os leem com tanta frequência que estão cansados deles, e agora se tornou uma história enfadonha, uma mera tarefa lê-los.
Quarta. Melhore a conversa com outras pessoas para esse fim. Quanto as pessoas poderiam promover de conhecimento umas às outras nas coisas divinas se melhorassem a conversa como podem; se os homens ignorantes não tivessem vergonha de mostrar sua ignorância e estivessem dispostos a aprender com os outros; se, quem tem conhecimento, o comunicasse sem orgulho e ostentação; e se todos estivessem mais dispostos a iniciar uma conversa que seria para sua edificação e instrução mútua.
Quinta. Principalmente, não procure crescer em conhecimento para receber aplausos e para ser capaz de discutir com os outros, mas o busque para o benefício de suas almas e para praticar. Se o aplauso for o teu objetivo, será provável que você não seja levado ao conhecimento da verdade, mas poderá com justiça, como muitas vezes é o caso daqueles que se orgulham de seu conhecimento, ser levado ao erro, para a sua própria perdição. Sendo este o teu objetivo, se você obtiver muito conhecimento racional, provavelmente não será de nenhum benefício para você, mas te encheria de orgulho. 1 Coríntios 8.1, “O saber ensoberbece”.
Sexta. Busque a Deus para que ele te direcione e abençoe nesta busca pelo conhecimento. Esta é a orientação do apóstolo. Tiago 1.5, “Se, porém, algum de vós necessita de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente e nada lhes impropera”. Deus é a fonte de todo conhecimento divino. Provérbios 2.6, “Porque o Senhor dá sabedoria, e da sua boca vem a inteligência e o entendimento.” Se esforce para ter consciência da tua própria cegueira e ignorância, e de tua necessidade da ajuda de Deus, a fim de não ser levado ao erro em vez de ao verdadeiro conhecimento. 1 Coríntios 3.18, “Se alguém” quiser ser sábio, “faça-se estulto para se tornar sábio”.
Sétima. Proceda de acordo com o conhecimento que você possui. Esta será a forma de saber mais. O salmista recomenda vivamente esta forma de procurar o conhecimento da verdade divina, a partir da sua própria experiência. Salmo 119.100, “Sou mais prudente que os idosos, porque guardo os teus preceitos.” Cristo também recomenda o mesmo. João 7.17, “Se alguém quiser fazer a vontade dele, conhecerá a respeito da doutrina, se ela é de Deus ou se eu falo de mim mesmo”.
4 Por “pagãos mais sábios” JE se referia aos antigos filósofos gregos e romanos.
Tradução:
De: Sermons and Discourses 1739-1742
Works, vol. 22 – Org. Harry S. Stout
Por: Paulo Arantes
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