Frase da Semana

Assim, tudo é de Deus, está em Deus e existe para Deus; ele é o começo, o meio e o fim.

terça-feira, 29 de maio de 2018

Jonathan Edwards: Homem de Cartas

Encontra-se, a seguir, um breve extrato da introdução ao Volume 16 de Obras de Jonathan Edwards, “Cartas e Escritos Pessoais”, escrita por George Claghorn. George Claghorn é professor de Filosofia na West Chester University.

“Um Observador Atento”

“As cartas e escritos pessoais mostram o Edwards privado e humano, o homem por trás dos tratados e sermões. Edwards emerge desses escritos não como um erudito austero e distante, mas como um observador atento, ardentemente interessado tantos nos eventos locais quanto nos mundiais, e como um leitor perspicaz de pessoas e situações. As cartas, em particular, revelam muitos aspectos do mundo pessoal de Edwards. Elas variam quanto ao temperamento, do agressivamente argumentativo passando pelo gentilmente encorajador até o intelectual e espiritualmente pesquisador…

Escrevendo Cartas e Narrativa Pessoal

Escrever cartas era necessário para aqueles que viviam muito distantes em uma época anterior às conveniências de transporte e comunicações modernos. No século 18, além disso, a preocupação com a comunidade e uma nova interação social entre, até agora, grupos exclusivos, criou uma confluência entre o ensaio formal e a comunicação pessoal, que resultou no meio termo designado como “epistolar”. O contemporâneo de Edwards, Benjamin Franklin, talvez o mais perspicaz explorador das tendências culturais na história da civilização Americana, não se tornou um mestre das diversas formas epistolares à toa. Das brilhantes cartas familiar de Abigail Adams, ou a imensa correspondência intelectual e política de Thomas Jefferson, até as várias formas de discursos informais de Franklin, o cenário americano foi ativo com novos modos de expressão pessoal durante o século 18…
Na cultura provincial da Nova Inglaterra, o modo epistolar pode ter recebido algum reforço a partir da narrativa de conversão e outros relatos anteriores que enfatizavam a experiência de um indivíduo por meio da narrativa pessoal. Certamente algumas das composições mais impressionantes de Edwards foram entregues no modo epistolar: sua carta a Paul Dudley, descrevendo o voo da aranha (21/outubro/1723), sua carta a Benjamin Colman, detalhando os avivamentos de Northampton (30/maio/1735) e sua “Narrativa Pessoal”, que provavelmente foi parte de uma carta a Aaron Burr (14/dezembro/1740). Esses documentos demonstram não apenas conveniência de cartas como um artifício prático, mas também o senso de Edwards das convenções epistolares de seus dias. Jonathan Edwards não era uma Abigail Adams nem um Benjamin Franklin como escritor de cartas, mas ele exibe por toda parte um senso apurado das convenções epistolares com respeito ao envolvimento subjetivo, um reconhecimento cuidadosamente ajustado do leitor, e uma voz adaptada precisamente ao assunto à mão…

Uma ampla audiência

O maior meio de expressão de Edwards foi sua pena. Conforme ele disse aos Curadores do College of New Jersey, em sua carta de 19 de outubro de 1757, ‘Até onde sou capaz de julgar quais talentos eu tenho, para beneficiar minhas criaturas amigas pela palavra, eu penso que posso escrever melhor do que falar.’ Sentado em seu escritório com uma pena nas mãos, ele colaborou e competiu com muitas das mentes mais brilhantes de seus dias, que incluíam líderes educacionais, políticos e militares. Embora o registro existente represente apenas uma fração das cartas que ele escreveu, esse registro confirma amplamente se poder de atrair e persuadir. Além disso, as cartas registram seu relacionamento com as pessoas comuns: família, vizinhos, congregações e colegas de ministério. Elas também ilustram seu relacionamento com os discípulos, como Joseph Bellamy, que perpetuou seu legado. Ao mesmo tempo, as cartas de Edwards revelam suas fraquezas e defeitos, como sua justiça própria e orgulho, e, às vezes, sua adesão autodestrutiva ao dever.” [1]

[1] Claghorn, George, “Introduction to ‘Letters and Personal Writings”, in Works of Jonathan Edwards, Vol. 16, org. George Claghorn (New Haven: Yale University Press, 1999), p. 3-5.

Veja também, Correspondência de, para e acerca de Edwards e sua Família (WJE Online, Vol. 32)


Disponível no Jonathan Edwards Center, Yale University. www.edwards.yale.edu

Tradução: Paulo Corrêa Arantes

terça-feira, 22 de maio de 2018

Jonathan Edwards e a Bíblia


O que segue é um breve extrato da introdução a um dos volumes dos comentários bíblicos de Edwards, elaborado pelo Professor Stephen Stein, chamado “Notas sobre a Escritura”, publicado como Vol. 15 da Edição das Obras de Jonathan Edwards, da Yale University Press.

“Um ávido estudante”

            “A reputação de Edwards como um ávido estudante da Bíblia começou durante sua vida; ele estava metido em sua difusão. Em 1757, Edwards esboçou, para os Curadores do College of New Jersey, vários projetos que esperava publicar no futuro, os quais incluíam History of the Work of Redemption (História da Obra da Redenção), e Harmony of the Old and New Testament (Harmonia do Antigo e Novo Testamentos). O primeiro devia apresentar a teologia cristã como uma história, na qual todos os eventos seriam considerados ‘até onde as Escrituras lançavam alguma luz’. O último devia lidar de modo contínuo com as profecias sobre o Messias, tipos no Antigo Testamento e ‘harmonia do Antigo e Novo Testamentos’. Acerca desse segundo projeto, a ‘Harmonia’, Edwards escreveu: ‘No decurso dessa obra, eu acho que haverá ocasião para uma explicação sobre grande parte da Santa Escritura; que pode, nessa perspectiva, ser explicada em um método que me parece mais interessante e proveitoso, que tende melhor a levar a mente a uma visão do verdadeiro espírito, propósito, vida e alma das Escrituras, assim como a seu uso apropriado e aperfeiçoamento’. A morte prematura de Edwards, um ano mais tarde, impediu-o de cumprir esses planos.” [1]

Crenças acerca da Escritura

            “Suas crenças centrais como exegeta da Bíblia incluíam um sobrenaturalismo que afirmava um Deus revelado por meio dos textos sagrados, e um universo de três andares habitado por serem humanos e espíritos, bons e maus. Para Edwards, os limites do cânon cristão não eram discutíveis. Ele aceitava o conceito prevalecente de que o cânon bíblico já estava fechado a muito tempo, e que não havia necessidade de aumenta-lo. Ele mostrava pouca paciência para com aqueles, em seus dias, que reivindicavam inspiração para novas revelações. [Ele] também concebia a Bíblia como uma fonte compreensiva de conhecimento. Escrevendo no final de 1729 ou início de 1729, Edwards afirmou que ‘as doutrinas da Palavra de Deus são o fundamento de todo conhecimento útil e excelente... Revelação é aquela luz no mundo, de onde é transmitido não apenas o conhecimento da religião, mas toda verdade preciosa; ela é a fonte daquela luz que tem iluminado o entendimento dos homens com todos os tipos de conhecimentos’. Em seu julgamento, o cânon bíblico era uma fonte coerente e ordenada de conhecimento benéfico e de verdade histórica, bem como uma revelação do plano de Deus para a salvação.
            Segundo a tradição dos comentários, a tarefa do exegeta é interpretar os textos sagrados, e identificar e reconciliar elementos conflitantes dentro do cânon. O comentarista dele esclarecer obscuridades, encontrar coerência naquilo que parece ser incoerente, harmonizar elementos que parecem discordantes, e propor possibilidades morais onde o texto parece aprovar ações imorais. Em seu esforço para interpretar a Bíblia, Edwards utilizou-se dessas mesmas estratégias dos comentários consagrados pelo tempo. Ele encontrou significado em passagens obscuras ao lê-las em contraste com outras, como quando ele interpretou a luta de Jacó e Esaú no ventre da mãe (Gn. 25.22) como uma referência à guerra entre a carne e o espírito (Gl 5.17). Ele reconciliou diferenças entre textos paralelos ao lançar mão de argumentos linguísticos e sintáticos, como no caso dos relatos muito diferentes da passagem de Jesus por Jericó (Mt. 20; Mc 10; e Lc 18). Ele descobriu virtude no escatológico quando examinado de uma perspectiva espiritual, por exemplo, propondo um significado místico para a severa penalidade de morte aplicada à mulher que agarrou os genitais do oponente de seu marido (Dt 25.11-12). Ele usou múltiplos níveis de significado para elevar-se acima da ofensa do literal, mostrando como o voto feito por Jefté, o gileadita, não precisava resultar na oferta de sua filha em holocausto (Jz 11.3-40). Porém, ao mesmo tempo, Edwards se recusou a fundir ou confundir seu comentário com o cânon, afirmando o princípio protestante de que somente a Escritura é a fonte autoritativa do ensino cristão. Ele reconheceu que os intérprete, inclusive ele, podia errar.” [2]

Influência de Edwards

            “O renovado interesse em Edwards (na segunda metade do século 20), despertado em parte pelo movimento Neo-Ortdoxo e pelo ressurgimento do evangelicalismo, produziu crescente atenção para o lado bíblico de sua atividade intelectual. A influência de Edwards sobre personagens como H. Richard Niebuhr é de conhecimento comum agora. O estudo clássico de Niebuhr, The Kingdom of God in America (O Reino de Deus na América), por exemplo, contém extensa discussão sobre o evangelicalismo, calvinismo e milenarismo de Edwards. Outros estudiosos, influenciados por Niebuhr, concentraram-se mais diretamente no uso de Edwards da Bíblia. Conrad Cherry, por exemplo, demonstrou o papel crítico exercido pela Bíblia em muitos dos escritos de Edwards como a forma primária de prova e evidência. O contexto da teologia de Edwards era bíblico, isto é, ele deve ser entendido dentro da estrutura da obra da redenção. Escrevendo mais tarde em outro local, Cherry afirmou que ‘Jonathan Edwards era preeminentemente um teólogo bíblico’, e observou de modo perceptivo: ‘Ao dar sua dedicada atenção, a moda puritana, à tipologia bíblica e, por extensão, à cósmica, ele antecipou nossa absorção com o significado e função do simbolismo religioso’.” [3]

[1] Stein, Stephen, “Introduction to Notes on Scripture”, em Works of Jonathan Edwards, vol. 15, org. Stephen Stein (New Haven: Yale University Press, 1998), p. 29.

[2] Ibid. p. 5-6.

[3] Ibid. p. 32-33.

Para mais fonte secundária:
A Blank Bible, em Works of Jonathan Edwards, vol. 24, org. Stephen Stein (New Haven: Yale University Press, 2006)


Disponível no Jonathan Edwards Center, Yale University. www.edwards.yale.edu

Tradução: Paulo Corrêa Arantes