Frase da Semana

Assim, tudo é de Deus, está em Deus e existe para Deus; ele é o começo, o meio e o fim.

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Jonathan Edwards: Pregador-Teólogo da América

Sobre este item

 

Jonathan Edwards é, provavelmente, a figura mais conhecida associada ao Grande Avivamento. Frequentemente ele tem sido caricaturado, no entanto, simplesmente como o pregador do fogo e enxofre de “Pecadores nas mãos de um Deus irado”. De fato, alguns escritores seculares, envergonhados com essa distorção, tentaram até mesmo reverter completamente esse quadro, ao retratar um brilhante pensador da Nova Inglaterra que era apenas incidentalmente religioso. A verdade é que Edwards era um homem multifacetado – certamente brilhante e inegavelmente um lógico perspicaz, mas também um homem intensamente religioso, de profunda e reverente piedade. É Jonathan Edwards, talvez, o filósofo Baruch Spinoza, quem merece a descrição “o homem intoxicado por Deus”.

 

Como citar este item

 

Panosian, Edward M. “Jonathan Edwards: America’s Theologian-Preacher”. In Faith of Our Fathers: Scenes from American Church History, org. por Mark Sidwell, 33-39. Greenville, SC: BJU Press, 1991.

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artigos, Congregacionalistas, Jonathan Edwards, Nova Inglaterra

 

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Ensaios e Artigos

 

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Pregador, erudito, missionário, filósofo, pai, teólogo e santo – esses foram os papéis terrenos de Jonathan Edwards. Gentil, firme, diligente, sério, profundo, disciplinado e equilibrado – essas eram suas características mais convincentes. Ele era um homem de caráter, envolvido em controvérsias, um homem que durante sua vida, não menos que agora, desperta o elogio de irmãos e a calúnia de inimigos.

Ele foi chamado para viver durante um período de difícil transição, do período colonial para o revolucionário. À distância atrás dele estavam as memórias desbotadas dos dias piedosos dos peregrinos e puritanos; à distância a frente dele, a antecipação da sociedade secular, a religião do “iluminismo” e a separação da igreja do estado. Enquanto ele procurava renovar o que era, ele estimulou o contraste com o que estava por vir.

Nascido em 1703, apenas três meses depois de John Wesley e um oceano separado, o único filho homem entre os onze filhos do Rev. Timothy e Esther Edwards, na paróquia de East Windsor, Connecticut, com ministros e comerciantes em sua herança de ambos os lados, esse rapaz, que viria a se tornar o principal teólogo da América primitiva, prometia antecipadamente ser diferente de seus pares. Quando criança, ele foi dócil, reflexivo, afetuoso e sensível, mas, acima de tudo, precoce. Sua atividade intelectual foi notável. Ele começou então o que deveria ser sua prática ao longo da vida: escrever para cultivar o pensamento.

Da caneta de Edwards, quando seus dedos tinham apenas doze e treze anos, vieram ensaios como um, de mil palavras, sobre os hábitos da aranha-do-campo. Outro foi uma análise das cores e do arco-íris. Outro foi uma demonstração de que a alma não é material. Se estes parecem assuntos estranhos para um rapaz tão novo, eles refletem algo da singularidade dessa mente fértil e de sua sede incomum de conhecimento.

Essa sede, talvez cultivada primeiramente durante o ensino fundamental fornecido por seu pai, respeitado como ministro e professor, foi aumentada pela entrada do rapaz no Yale College, em 1716, pouco antes de seu décimo terceiro aniversário. Aqui, ele fez o curso estabelecido de treinamento ministerial, leu Locke e Newton, escreveu ensaios sobre a filosofia de Berkeley, todavia refletia pouca participação nas atividades não acadêmicas típicas da vida universitária. Nunca extrovertido ou dado facilmente às graças sociais, pouco capaz de apreciar os frívolos ou os vaidosos, ele parecia distante de seus companheiros. Por ter servido como mordomo da faculdade em seu último ano, alguém que servia a carne e as batatas na hora das refeições, ele desfrutava de pouco convívio, mesmo nas refeições.

Após concluir o curso, em 1720, formado em Yale aos dezessete anos, ele permaneceu para mais estudos antes de assumir um púlpito presbiteriano, por breve tempo, em Nova York, em 1722. Por um tempo ainda mais breve ele pregou em Bolton, Connecticut, antes de ser convidado a voltar a Yale para fazer o mestrado, servir como tutor e desempenhar funções administrativas durante um intervalo de vários meses, quando Yale ficou sem presidente.

Foi durante esses anos, entre a formatura e seu “estabelecimento” na paróquia de Northampton, que se tornou inextricavelmente ligado ao seu nome que Jonathan Edwards se converteu, desfrutou daquele “doce prazer em Deus e nas coisas divinas”, e registrou em seu diário uma aliança e uma determinação de dedicar todo o seu esforço ao serviço de Deus. Ao ler a Primeira Epístola de Paulo a Timóteo, o versículo 17 do capítulo 1 tocou sua alma mais profundamente: “Agora, ao Rei eterno, imortal, invisível, Deus único, honra e glória pelos séculos dos séculos. Amém!”

Inexplicavelmente, esse versículo, tão atípico dos versículos que são usados frequentemente pelo Espírito Santo para produzir convicção e converter corações, fez com que a alma do jovem se voltasse para a compreensão de quem Deus é e de sua reivindicação sobre todo o ser do homem. Essa profundidade de entendimento e solenidade de propósito era típica desse filósofo-gênio, que foi igualmente um pregador que ganhava almas. Nas suas próprias palavras,

Quando eu li as palavras, entrou em minha alma. . . um senso da glória do Ser Divino; um novo sentido, completamente diferente de tudo que experimentei antes. Nunca nenhuma palavra das Escrituras me pareceu como essas palavras. Eu pensei comigo mesmo: quão excelente este Ser era, e quão feliz eu deveria ser se pudesse desfrutar desse Deus, e ser arrebatado por ele no Céu, e ser por assim dizer consumido nele para sempre! ... A partir desse momento, comecei a ter um novo tipo de apreensão ... de Cristo, da obra da redenção e do glorioso caminho da salvação por meio dele. Um senso interno e doce dessas coisas ... entrou no meu coração.

Pouco tempo depois, seu diário e seus cadernos de meditações refletem as resoluções de sua vontade no serviço de Cristo. De modo particular, começando em janeiro de 1723 e continuando até a primavera e o verão daquele ano, existem registros reveladores, como estes:

Agora, a partir de agora, não devo agir, de forma alguma, como meu. Agirei como se fosse meu se alguma vez fizer uso de qualquer um dos meus poderes, de qualquer coisa, que não seja para a glória de Deus, e não faça nada para produzi a glória Dele, toda e qualquer das minha ocupações; se eu murmurar na menor aflição; se lamentar pela prosperidade dos outros; se for de alguma maneira não caridoso; se ficar com raiva por causa de injúrias; se os vingar; se fizer alguma coisa puramente para me agradar, ou se evitar alguma coisa por minha própria vontade; se omitir alguma coisa porque é uma grande negação; se confiar em mim mesmo, se receber algum elogio por algum bem que fizer, ou que Deus fizer por meu intermédio; ou se for de alguma forma orgulhoso.

Resolvo que nenhum outro fim, a não ser a religião, terá qualquer influência sobre qualquer uma de minhas ações; e que nenhuma ação será, na menor circunstância, alguma outra coisa senão o fim religioso a conduzirá.

Nunca me deixe brincar com um livro com o qual talvez eu não tenha nenhuma preocupação no momento.

Essas amostras, de tantas outras como elas, refletem a dedicação e a singularidade da mente e do coração do homem de 23 anos que foi chamado como pastor auxiliar de seu avô materno, o Rev. Solomon Stoddard, em Northampton, Massachusetts, em novembro de 1726. Aqui ele trabalhou nesse serviço e devoção durante quase o quarto de século que se seguiu.

Northampton era a cidade mais importante do interior da Nova Inglaterra, perdendo eclesiástica apenas para Boston. A congregação procurava um provável sucessor ao idoso Sr. Stoddard, que foi pastor por mais de cinquenta anos. Mais de uma geração cresceu conhecendo apenas a ele como pastor. Edwards chegou com grandes expectativas.

Pouco depois de sua chegada, ele se casou, quando ela tinha dezessete anos, Sarah Pierrepont, filha do ministro de New Haven, bisneta de Thomas Hooker, combinando nesse casamento três famílias muito ilustres. Edwards a descreveu como “de uma maravilhosa doçura, calma e benevolência universal da mente.” Educada na casa pastoral de seu pai, ela foi facilmente capaz de fazer de seu esposo um lugar de piedade singular e prática. Tanto uma Maria como uma Marta, ela serviu e cuidou muito das necessidades materiais de uma família em crescimento (houve onze filhos no total); ela também era meditativa e espiritual, uma mulher de profunda sensibilidade.

Com a morte de Stoddard, dois anos depois de Edwards ter sido ordenado para sucedê-lo, o jovem agora assumia todas as responsabilidades da paróquia. Ele tinha 26 anos. Mais pregador e professor do que pastor, ele gastava regularmente treze horas diárias em seus estudos. Sua prática era levantar-se às quatro da manhã (às cinco, no inverno). Ele regulava cuidadosamente sua dieta, comendo o que poderia ser fácil e rapidamente digerido, para que sua mente permanecesse mais ativa. Para se exercitar, cortava lenha ou andava a cavalo. Sempre ansioso para “aproveitar seu tempo”, nas longas viagens ele pegava alfinetes e pedacinhos de papel; sempre que ele tinha uma ideia que desejava se lembrar, colocava um papel no casaco para lembrá-lo, depois do passeio, de escrever a ideia.

O púlpito era seu trono. Jonathan Edwards dedicou a maior parte de sua energia mental e física à preparação e pregação de sermões. Hoje, possuímos manuscritos ou esboços para cerca de mil deles. Ele pregava no domingo (geralmente por duas horas) e dava a palestra de ensino na quinta-feira. Para sua congregação, com cerca de seiscentos, ele costumava ler (a partir do pequeno livreto que fizera costurando pequenos pedaços de papel, 3 7/8 por 4 1/8 polegadas, a maioria dos quais tinha sido usada para outros fins do outro lado – uma imagem de sua frugalidade nativa, de coisas não menos que o tempo) - a exposição bem fundamentada no estilo puritano.

Cada sermão começava com a declaração de um assunto, “a doutrina”; a seguir, vinha a série de pontos desenvolvidos, “as razões ou provas”; finalmente, as aplicações ou “usos”. O texto muitas vezes não era imediatamente óbvio e geralmente desconhecido, mas maravilhosamente repleto da “doutrina” que ele estava apresentando. Seu sermão mais conhecido, por exemplo – “Pecadores nas mãos de um Deus irado” – foi desenvolvido a partir de um texto quase desconhecido: “A seu tempo, quando resvalar o seu pé” (Dt 32.35).

E o seu povo ouvia. Sua voz não era forte, mas solene e distinta. Ele possuía uma intensidade tranquila, “olhando e falando como na presença de Deus”. Ele era deliberado e penetrante. Ele falava menos uma série de palavras do que uma mensagem. Era sua eloquência que leva à ação depois que as palavras são esquecidas.

Contribuindo para suas dificuldades posteriores com seu povo estava sua preferência pelo estudo sobre seu convívio. Ele acreditava que poderia fazer mais bem ao seu povo escrevendo e pregando, catequizando as crianças em pequenos grupos e aconselhando seu povo com seu estudo do que visitando suas casas. Alguns interpretaram essa prática, tão diferente da do falecido Sr. Stoddard, como indiferença em vez de sua reticência natural. Fisicamente frágil a maior parte de sua vida, Edwards conservou sua energia para o que ele acreditava ser o uso mais proveitoso. No entanto, ele sempre ia ao seu povo quando chamado, aos doentes e aos aflitos. E os ministros e outros dignitários, quando passavam por ali, encontravam – e muitas vezes escreveram mais tarde sobre – sua cordial hospitalidade, cuidados graciosos e provisão para seu bem-estar. George Whitefield foi um desses.

Whitefield traz à memória a renovação do Grande Avivamento na Nova Inglaterra. Antes, nos últimos meses de 1734, uma série de sermões que Edwards pregou em sua paróquia foi seguida por várias conversões repentinas e ardentes, principalmente de indivíduos conhecidos por serem notórios pecadores. Naquele inverno e na primavera, um verdadeiro reavivamento eclodiu em Northampton, com talvez trezentos salvos. Conflitos, calúnias e fofocas diminuíram entre o povo. Quase tão rapidamente quanto começara, o reavivamento terminou em maio e junho. Nos anos seguintes, Edwards procurou reavivar o espírito de 1735.

Na década de 1740, o Avivamento, parte de um movimento iniciado simultaneamente nas colônias do meio, estava novamente fazendo uma colheita de almas na Nova Inglaterra. Whitefield estava ajudando a espalhá-lo também. Nunca um itinerante como Whitefield, Edwards foi ocasionalmente convidado a pregar em outras paróquias. Nesse contexto, ele pregou o sermão tão abençoado em Enfield, Connecticut, em 1741, “Pecadores nas mãos de um Deus irado”. Deus o honrou poderosamente.

Por causa dos excessos emocionais e físicos que acompanham parte do Avivamento, Edwards, por meio de uma série de escritos e mediante sua pregação, aconselhou moderação e equilíbrio, da cabeça e do coração. Ciente dos excessos e do “fogo falso”, ele sugeriu maneiras de distinguir conversões falsas das verdadeiras. Entre suas obras significativas nas décadas de 1730 e 1740 estão essas, seus títulos proclamando claramente seu conteúdo: Uma Narrativa Fiel da Surpreendente Obra de Deus; As marcas distintivas de Deus; As marcas distintivas de uma obra do Espírito de Deus; Narrativa pessoal; Alguns pensamentos sobre o presente avivamento na Nova Inglaterra; e Um tratado sobre as afeições religiosas.

Porém, para Jonathan Edwards, como ministro em Northampton, a maré estava virando e as areias estavam acabando. Em 1744, ele havia feito vários inimigos ao recusar-se a comprometer suas crenças sobre a disciplina da igreja quando um grupo de jovens foi descoberto lendo e trocando livros “lascivos e obscenos”, provavelmente manuais para parteiras. Embora a congregação tenha concordado que o assunto deveria ser investigado, quando o pastor leu publicamente uma lista de nomes daqueles que ele queria interrogar – imprudentemente não distinguindo testemunhas e acusados – a congregação se inflamou. Muitos filhos de muitas famílias de destaque foram incluídos na lista ainda indiscriminada. Essa atitude tornou mais ousada a insolência dos culpados e deixou o carvão em brasa muito depois que o fogo diminuiu.

No intervalo antes do conflito final, a casa de Edwards experimentou um evento doloroso. O jovem missionário entre os índios americanos, David Brainerd, noivo de Jerusha, filha de Jonathan e Sarah, morreu em sua casa após vários meses cuidando do corpo que fora consumido por vários anos por tuberculose. A própria Jerusha seguiu seu amado David na morte, após apenas quatro meses.

Restam dois breves capítulos. O primeiro é a demissão de Edwards de Northampton. A questão foi iniciada em 1749 e consumada em junho de 1750. Edwards, após mais de vinte anos de concordância, concluiu que o “Modo de Stoddard” estava errado. Stoddard havia ido além do “Pacto do Meio Termo”, de 1662 (que permitia uma membrezia de “meio-termo” na igreja para aqueles que foram batizados na infância, mas que nunca “possuíam a aliança”, fornecendo evidências ou relatos de conversão). Embora fosse negado a esses membros “meio-termo” o acesso à Ceia do Senhor, como membros não convertidos da igreja, Stoddard havia permitido que eles participassem dessa ordenança, dando a eles todos os privilégios dos crentes, desde que eles não fossem “abertamente escandalosos” em seu modo de vida.

Embora possamos nos perguntar sobre sua demora em fazê-lo, o Pastor Edwards, ao tentar restaurar definições mais rigorosas para os membros da igreja, publicou suas “Qualificações para a plena comunhão”, exigindo um exame das condições do coração daqueles que se apresentavam como membros. Isso nada mais era do que separar a palha do trigo, a ovelha dos bodes reconhecidos. Porém o episódio obsceno dos livros e a aparente indiferença de seu pastor se uniram agora a esse novo ressentimento para fazer com que o camelo, cuja cabeça foi permitida entrar na barraca, expulsasse o chefe da barraca. Em 1750, depois de 23 anos como pastor, aos 47 anos, com oito filhos em casa, Jonathan Edwards foi demitido do pastorado de sua vida, inexperiente nos caminhos do mundo, mas dependente da vontade do Céu.

O último capítulo é a colheita frutífera de Stockbridge, a cem quilômetros de distância. Aqui, Edwards foi chamado para ser pastor de um pequeno rebanho e missionário entre os índios Housatunnock. Doze famílias brancas e 250 famílias indígenas compunham a população. Não adequadamente preparado para esse papel, isolado ainda mais longe da agitação do mundo, ele recebeu de Deus a oportunidade de fazer com sua caneta a colheita de décadas de semear sementes de pensamentos. Foi aqui, em Stockbridge, que ele escreveu obras sobre a liberdade da vontade, sobre a natureza da virtude e sobre o pecado original, pelas quais ele é principalmente conhecido.

Finalmente, em 1757, Jonathan Edwards foi chamado para ser presidente do College of New Jersey, que havia se mudado para lá e que acabaria sendo conhecido como Princeton. No entanto, essa aparente honra terrena, um reconhecimento adequado de seus dons singulares e piedosos – numa época em que Princeton era conhecida por estas virtudes – não era para ser. Ele chegou em fevereiro de 1758 e foi instalado como presidente. Houve uma séria epidemia de varíola nas cidades vizinhas. Era sensato ser inoculado, e assim o foi o novo presidente uma semana depois. Um mês depois, ele estava morto.

Ele concluiu uma carreira e deixou uma herança de submissão ao Deus que faz todas as coisas bem. O que quer que e onde quer que em sua mudança de vida tenha chegado, sua vontade foi ativamente resignada à vontade de Deus. Ele defendeu a “religião do coração”. Ele se deleitou com as “doces coisas da religião”, e, em sua vida, procurou viver para a honra e glória do “Rei eterno, imortal, invisível, Deus único”. Quando veremos outro?

 

Sugestões para leitura adicional

Keith J. Hardman. The Spiritual Awakeners. Chicago: Moody Press, 1983. [Ver p. 61-73.]

“Jonathan Edwards and the Great Awakening”. Christian History, vol. 4, n. 4 (1985). [Edição completa]

Iain H. Murray. Jonathan Edwards: A New Biography. Edimburgo: Banner of Truth Trust, 1987.

 

Direito autoral

Este artigo foi retirado de Faith of Our Fathers: Scenes from American Church History, publicado pela BJU Press. Compre o livro para ler outros artigos sobre homens e mulheres cristãos.

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Tradução: Paulo Arantes

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Biografia: Jonathan Edwards

McClintock e Strong

        Nasceu em East Windsor, Connecticut, em 5 de outubro de 1703. Seu tataravô por parte de pai foi o Rev. Richard Edwards, um pastor em Londres na época da rainha Elisabeth. Seu bisavô, William Edwards, nascido na Inglaterra, veio para a América por volta de 1640, e foi um ilustre negociante em Hartford, Connecticut. Seu avô, Richard Edwards, nasceu em Hartford e passou sua vida ali como um respeitável e rico comerci­ante. Seu pai, o Rev. Timothy Edwards, nasceu em Hartford, em 14 de maio de 1669. Ele ingressou no Harvard College em 1687, e recebeu dois graus, de bacharel e de mes­tre em Artes, no mesmo dia, 4 de julho de 1961, um pela manhã, e o outro, à tarde, “um raro sinal de respeito por sua extraordinária proficiência no aprendizado”. Ele foi orde­nado pastor da igreja em East Windsor em maio de 1694. Em 1711, ele foi designado, pela Assembleia Legislativa de Connecticut, capelão das tropas enviadas em uma impor­tante expedição ao Canadá. Ele ficou famoso por sua erudição, fidelidade e influência de caráter. Em geral, ele pregava de improviso, e até passar dos setenta anos de idade ele sequer escrevia os títulos de seus discursos. Ele viveu para desfrutar da fama de seu filho, e morreu em 27 de janeiro de 1758. Por parte de mãe, o bisavô do Presidente Edwards foi o ilustríssimo Anthony Stoddard, que emigrou do oeste da Inglaterra para Boston, e foi membro da Assembleia Geral de 1665 até 1684. O avô de Edwards foi o Rev. Solomon Stoddard, de Northampton, Massachusetts; um dos mais eruditos e influentes pastores da Nova Ingla­terra. A mãe de Edwards foi Ester, a segunda filha do pastor de Northampton, uma mulher de excelente educação e de rara força de caráter.

        A história do Presidente Edwards não pode ser plenamente compreendida sem se considerar que, de ambos os lados, paterno e materno, ele estava ligado a famílias que pertenciam à aristocracia eclesiástica da Nova Inglaterra. Ele foi o único filho homem e teve dez irmãs, algumas das quais se tornaram esposas de homens eminentes. Ele foi educado por seu pai e por suas quatro irmãs mais velhas (todas eram hábeis eruditas) para o Yale College, no qual ele entrou em 1716, pouco antes de completar treze anos de idade. Durante o ano seguinte, seu estudo favorito foi Locke sobre o Human Understanding (Entendimento Humano). “Tomando este livro em suas mãos, em alguma ocasião não muito antes de sua morte, ele disse a alguns de seus mais seletos amigos que estavam com ele, que ficou inexpressivamente entretido e satisfeito com ele quando o leu em sua juventude, na faculdade; que ficou tão interessado e teve mais satisfação e prazer em estudá-lo do que o mais ganancioso sovina em encher as mãos de prata e ouro de algum tesouro recém descoberto.” Quando estava com cerca de 12 anos de idade, ele escreveu um ensaio que indica que ele estava completamente interessado na questão do Materialismo. Por volta da mesma época, ele escreveu alguns notáveis ensaios sobre questões de filosofia natural (física). Tendo se distinguido na faculdade como um pensador perspicaz, e também como um escritor apaixonado, ele recebeu seu grau de bacharel em 1720, e apresentou seu “discurso de saudação, o qual também foi o de despedida.”

            Quando ainda era um garoto, provavelmente por volta de sete ou oito anos de idade, ele começou a desenvolver seu caráter religioso. Ele escreve: “Naquele tempo, eu fique abalado por muitos meses, e preocupado acerca das coisas da religião e da salvação da minha alma, e era abundante nos deveres religiosos. Eu orava cinco vezes ao dia em secreto, e gastava muito tempo em conversas religiosas com outros garotos, e me encon­trava com eles para orarmos juntos. Eu não sei que tipo de prazer na religião experimentei. Eu, com alguns colegas de escola, nos juntamos e construímos uma tenda em um pântano, em um lugar muito retirado, como um local de oração; e, além disso, eu tinha meus próprios lugares secretos particulares no bosque, para onde costumava me retirar, e era, de tempos em tempos, muito abalado. Minhas afeições pareciam estar cheias de vida e ser facilmente excitadas, e eu parecia estar em meu ambiente quando me engajava nos deve­res religiosos.” Refletindo sobre essas ardentes emoções, Edwards não as considerou mais tarde como sinais de genuína piedade. Ele era perspicaz na análise do caráter e acostumado a encorajar não apenas a outros, mas também a si mesmo, ao hábito do rigo­roso autoexame e ao cuidado zeloso contra a influência do amor próprio. Embora desde sua infância ele tenha sido obediente, dócil e exemplar em seu comportamento exterior, ele escreveu acerca de sua infância e juventude: “Eu me sentia, às vezes, muito desconfor­tável, especialmente na última parte da minha época de faculdade, quando agradava a Deus acometer-me com uma pleurisia, na qual ele me levava para perto da sepultura e me sacudia sobre o abismo do inferno. Todavia, não muito depois de me recuperar eu caia novamente em meus antigos caminhos de pecado. Porém Deus não permitia que continu­asse com alguma tranquilidade. Eu tinha grandes e violentas lutas interiores, até que, de­pois de muitos conflitos com as inclinações perversas, repetidas resoluções e obrigações às quais eu me submetia por algum tipo de voto a Deus, fui levado a romper totalmente com todos os caminhos perversos anteriores, e com todo pecado exterior conhecido, e a aplicar-me a buscar a salvação e a praticar muitos deveres religiosos, mas sem aquele tipo de afeição e deleite que experimentara anteriormente.” Com sua fidelidade característica em examinar seus motivos, ele olhou com desconfiança para sua busca pelo Senhor se­gundo esta “maneira miserável que”, ele diz, “o fizera questionar algumas vezes se alguma vez resultou em que estava salvo, estando pronto a duvidar se uma busca tão miserável foi bem-sucedida em alguma ocasião.” Após um tempo, mas ele não declara precisamente em qual período, ele começou a receber uma contínua confiança quanto a ter sido regenerado pelo Santo Espírito. Em um estilo poético e fervoroso, que frequentemente caracteriza seus escritos, ele diz: “Comecei a ter novos tipos de apreensões e pensamentos sobre Cristo, a obra da redenção e o glorioso caminho da salvação por meio dele. Não sei como expressar isto de outra forma senão mediante uma calma e doce abstração de alma de todas as preocupações deste mundo, e, às vezes, um tipo de visão ou pensamentos e ima­ginações fixas de estar sozinho nas montanhas ou em algum deserto solitário, longe da humanidade, conversando docemente com Cristo, e arrebatado e consumido em Deus.” Em uma ocasião “eu andava sozinho, em um lugar solitário, nas pastagens de meu pai, para contemplação. A medida que caminhava ali e olhava para o céu e para as nuvens, veio à minha mente um senso tão doce da gloriosa majestade e graça de Deus que não sei como expressar. Tive a impressão de ver ambas em doce comunhão, majestade e mansidão uni­das; era uma majestade doce, gentil e santa, e também uma mansidão grandiosa, uma impressionante doçura, uma docilidade sublime, grande e santa. Depois disto, meu senso das coi­sas divinas aumentou gradualmente e tornou-se mais e mais vívido, e tinha mais daquela doçura interior. A aparência de todas as coisas foi alterada; parecia ser, por assim dizer, de um aspecto calmo, doce, ou aparência da glória divina em quase todas as coisas. A excelência de Deus, sua sabedoria, sua pureza e seu amor pareciam tornarem-se visíveis em cada coisa: no sol, na lua e nas estrelas; nas nuvens e no céu azul; na grama, nas flores, nas árvores; na água e em toda natureza em que costumava fixar grandemente minha mente. Frequentemente costumava sentar-me e observar a lua por muito tempo e, de dia, gastava muito tempo em observar as nuvens e o céu, para contemplar a doce glória de Deus nessas coisas, ao mesmo tempo cantando com uma voz baixa minhas contemplações do Criador e Redentor, e raramente algo em todas as obras da natureza era tão doce para mim como o trovão e o relâmpago; antigamente nada era mais terrível para mim. Antes, eu costumava ficar aterrorizado de modo incomum com o trovão, e a ficar acometido de terror quando via surgir uma tempestade com raios e trovões; mas agora, pelo contrário, me regozijo. Sinto Deus, se posso falar assim, à primeira aparição de uma tempestade de raios, e costumo usar a oportunidade para concentrar-me a fim de ver as nuvens, ver os relâmpagos e ouvir a majestosa e terrível voz do trovão de Deus; o que, às vezes, era extraordinariamente interessante, levando-me a doces contemplações de meu grande e glorioso Deus. Enquanto assim ocupado, sempre me parecia natural cantar ou salmodiar minhas meditações, exprimir meus pensamentos em solilóquios com voz de canto.”

        A perspicácia de seu intelecto, a atividade de sua imaginação, a vivacidade de seus sentimentos e a profundidade de sua piedade, foram considerados como sinais de seu chamado para o ministério do Evangelho. Tendo sido aluno residente por quase dois anos no Yale College, depois de sua graduação, e tendo continuado seus estudos teológicos durante este período, ele foi “aprovado” como pregador em junho ou julho de 1722, vários meses antes de completar dezenove anos de idade. De agosto de 1722 até abril de 1723, ele pregou para uma pequena Igreja Presbiteriana na cidade de Nova York. Sua eloquên­cia fascinou seus ouvintes, mas ele se sentiu compelido a declinar de seus insistentes convites para tornar-se seu pastor. Em suas caminhadas solitárias ao longo das margens calmas do Hudson ele aprendeu mais e mais “sobre as insondáveis profundezas da corrupção e do engano ocultos” que faziam parte de seu coração, sobre a beleza e a amabilidade da ver­dadeira santidade. “Santidade, como a descrevi a partir de minhas meditações sobre ela, pareceu-me ser de uma natureza agradável, encantadora, serena e calma, que trazia uma pureza, brilho, quietude e arrebatamento inexprimíveis à alma. Em outras palavras, ela faz a alma como um campo ou jardim de Deus, com todo tipo de flores, desfrutando uma doce calma, e raios suaves e vivificantes do sol. A alma de um verdadeiro cristão, como descrevi em minhas meditações, parecia como uma pequena flor branca, como podemos ver na primavera, baixa e humilde no chão, abrindo seu centro para receber os agradáveis raios do sol da glória; regozijando-se, por assim dizer, em um calmo êxtase; difundindo ao redor uma fragrância doce; permanecendo calma e amorosamente no meio das outras flores ao redor, todas abrindo de igual maneira seu centro para beber da luz do sol.” Foi durante sua residência em Nova York que ele escreveu as primeiras trinta e quatro de suas famosas Resolutions (Resoluções) para a direção de sua vida.

Em setembro de 1723, ele foi chamado para uma tutoria no Yale College. Tendo passado o inverno e a primavera seguintes em rigoroso estudo na faculdade, ele iniciou sua tutoria em junho de 1724 e a deixou em setembro de 1726. Após ter declinado vários convites para assumir a supervisão de igrejas, ele foi ordenado, em 15 de fevereiro de 1727, como pastor da igreja em Northampton, auxiliar de seu famoso avô, Solomon Sto­ddard. Ele cresceu em eminência como pregador, especialmente como pregador da lei e da soberania divinas, da total pecaminosidade do homem por natureza, da justificação pela fé e da punição eterna. Frequentemente ele falava extempore; ele raramente fazia um gesto; sua voz não era imponente; seu poder era o do pensamento profundo e do sentimento forte. Dr. Trumbull diz que, quando o Sr. Edwards estava pregando em Enfield, Connec­ticut, “houve tal respiração de angústia e choro que o pregador foi obrigado a dirigir-se ao povo e pedir silêncio para que pudesse ser ouvido.” Um senhor fez uma observação ao Presidente Dwight de que, quando em sua juventude, ouviu o Sr. Edwards descrever o dia do julgamento, ele supôs plenamente que imediatamente após o término do sermão “o Juiz desceria e a separação final ocorreria.” Durante a pregação de um de seus discur­sos mais esmagadores, no púlpito de um ministro desacostumado a tal autoridade, é dito que este ministro perdeu a cabeça a ponto puxar o pregador pelo casaco e tentar parar a cor­rente de tão apavorante eloquência com a pergunta, “Sr. Edwards! Sr. Edwards! Deus não é um Ser misericordioso?”

Em fevereiro de 1729, em consequência da morte do Sr. Stoddard, todo encargo da congregação de Northampton foi transferido para o Sr. Edwards. Em 1734 e 1735 ocorreu um notável “avivamento” dos sentimentos religiosos em sua paróquia; outro ocorreu em 1740, em cujo período ele se tornou amigo íntimo de George Whitefield. Durante esses dois desenvolvimentos da atividade religiosa, ele pregou com uma força que intimidava seus ouvintes. Embora seus labores paroquiais fossem variados e intensos, ele estudou os fenômenos do avivamento com a perspicácia de um filósofo, e esses fenô­menos o instigaram a escrever uma de suas mais vívidas dissertações. De fato, quase todas as obras que ele publicou durante seu ministério em Northampton indicam o grau no qual ele trabalhou para a promoção ou para a direção daqueles “avivamentos” religiosos pelos quais seu ministério foi distinguido. Algumas dessas obras são simplesmente sermões, outras são tratados maiores. Elas trazem os seguintes títulos: God glorified in man's dependence (Deus é glorificado na dependência do homem – 1731); A divine and supernatural light imparted to the soul by the Spirit of God (Uma luz divina e sobrenatural é concedida à alma pelo Espírito de Deus – 1734; um sermão famoso por sua filosofia espiritual); Curse ye Meroz (Maldição de Jabes – 1735); A faithful narrative of the surprising work of God in the conversion of many hundred souls in Northampton, etc. (Uma narrativa fiel da surpreendente obra de Deus na conversão de muitas centenas de almas em Northampton, etc. – Londres, 1736); Five discourses prefixed to the american edition of this narrative (Cinco discursos prefaciados à edição americana desta narrativa – 1738); Sinners in the hands of an angry God (Pecadores nas mãos de um Deus irado – 1741, um dos sermões mais impressionante); Sorrows of the bereaved spread before Jesus (Tristezas do deso­lado estendidas perante Jesus – 1741); Distinguishing marks of a work of the true Spirit (Marcas distintivas de uma obra do verdadeiro Espírito – 1741); Thoughts on the revival in New England, etc. (Pensamentos sobre o avivamento na Nova Inglaterra, etc – 1742); The watchman's duty and account (Os deveres e o valor do vigia – 1743); The true excellency of a gospel minister (A verdadeira excelência de um ministro do evangelho – 1744); A treatise concerning religious affections (Um tratado concernente às afeições religiosas – 1745, uma de suas obras mais espiritual e analítica); An humble attenpt to promote explicit agreement and visible union among God's people in extraordinary prayer (Uma humilde tentativa de promover concordância explícita e união visível entre o povo de Deus em oração extraordinária – 1746); True saints, when absent from the body, presente with the Lord (Verdadeiros santos, quando ausentes do corpo, presentes com o Senhor – 1747); Gods awful judgments in breaking the strong rods of the community (Os terríveis julgamentos de Deus na quebra das varas fortes da comunidade – 1748); Life and Diary of the Reverend David Brainerd (A vida e o diário do Rev. David Brainerd – 1749; um livro que exerceu influência definitiva sobre Henry Martin, e tem influenciado o espírito missionário das igrejas inglesas e americanas); Christ the example of gospel ministers (Cristo, o exemplo dos ministros do evangelho – 1749); Qualifications for full communion in the visible church (Qualificações para plena comunhão na igreja visível – 1749; um tratado de importância tanto histórica quanto teológica); Farewell sermon to the people of Northampton (Sermão de despedida do povo de Northampton – 1750; chamado de “o melhor sermão de despedida jamais escrito”).

        As últimas duas publicações sugerem o evento mais lamentável na vida do Presi­dente Edwards. Ele foi demitido de seu pastorado em Northampton em 22 de junho de 1750. Já em 1744, ele havia ofendido a muitos, e entre esses algumas das famílias mais influentes de sua congregação, por causa de algumas medidas rigorosas que ele adotou em relação a alegadas imoralidades prevalecentes em Northampton. Toda a paróquia ficou estremecida com sua resoluta e inflexível reprovação, e ficou predisposta a resistir a qual­quer inovação subsequente que ele propusesse. Seu avô, o Sr. Stoddard, tinha favorecido o princípio de que pessoas não convertidas, que não fossem imorais, tinham o direito de participar da Ceia do Senhor. A influência dominante do Sr. Stoddard induziu não apenas a Igreja de Northampton, mas muitas outras igrejas também, a adotar este princípio. O Sr. Edwards, depois de prolongada deliberação, se opôs a isto. Toda a comunidade foi pro­vocada por sua coragem em contestar os ensinos de um homem como Solomon Stoddard, “cuja palavra era lei”. Após uma longa e intensa controvérsia, ele foi dispensado do ofício que adornara por mais de vinte e três anos. Ele nunca encontrou motivo para mudar as opiniões que eram tão odiosas a seu povo; e dois anos após sua demissão ele publicou uma obra intitulada: Misrepresentation corrected and truth vindicated in a reply to Mr. Solomon Williams’s book on qualifications for communion; to which is add a letter from Mr. Edwards to his late flock at Northampton (Distorção corrigida e verdade vindicada em uma resposta ao livro do Sr. Solomon Williams sobre as qualificações para a comu­nhão; à qual é adicionada uma carta do Sr. Edwards a seu último rebanho em Nor­thampton – 1752). Após sua morte, e depois de uma desastrosa controvérsia por todo o país, seus princípios prevaleceram entre as igrejas evangélicas.

Nos dias atuais, quando a demissão de pastores é tão frequente, não podemos ima­ginar com facilidade a aflição e injúria que Edwards sofreu em consequência das dificuldades com sua paróquia. Ele estava com quarenta e sete anos e não tinha acumu­lado bens para sustentar sua grande e dispendiosa família. Ele foi compelido a receber ajuda pecuniária de seus amigos de partes remotas deste país e da Grã-Bretanha. Sua esposa era descendente dos condes de Kingston, e uma dama de raras habilidades. A des­crição que ele fez dela, em sua mocidade, foi declarada pelo Dr. Chalmers como uma das mais belas composições no idioma. Ele casou-se com ela em 27 de julho de 1727, e, por ocasião de sua demissão, seu filho mais velho, mais tarde o juiz Timothy Edwards, estava com cerca de doze anos de idade; seu segundo filho, mais tarde o Dr. Jonathan Edwards, estava com cerca de cinco anos; e seu filho mais jovem, mais tarde o juiz Pierpont Edwards, era um bebé de dois ou três meses; sua terceira filha, mais tarde a mãe de Aaron Burr, estava com dezoito anos; e sua quarta filha, mais tarde a mãe do presidente Timothy Dwight, estava com dezesseis anos. Ele teve uma família de três filhos e sete filhas, outra filha, Jerusha, morrera três anos antes de sua demissão. Ela foi noiva de David Brainerd, que fora um estimado habitante na família de seu pai.

Em julho de 1751, cerca de um ano após sua demissão, Edwards foi instalado como pastor de uma pequena Igreja Congregacional em Stockbridge, Massachusetts, e missionário da tribo indígena housatônica daquele lugar. Ele pregava de improviso aos índios por meio de um intérprete. Neste território rude, ele foi tristemente afligido com febre e calafrio e outras doenças ligadas aos novos assentamentos. Ele publicou um sermão característico, em 1752, intitulado True grace distinguish from the experience of devils (Verdadeira graça distinta da experiência dos demónios).

Em 1754, ele publicou a mais famosa de suas obras – seu Essay on the Freedom of the Will (Ensaio sobre a liberdade da vontade). Existem interpretações conflitantes sobre esse ensaio. Uma escola de intérpretes afirma que ele cria em uma inabilidade literal da alma para agir de outra forma da qual ela age; outra escola afirma que ele não cria em uma inabilidade que é natural e literal, mas apenas em uma que é moral, figurativa, “uma inabilidade assim chamada impropriamente”. Uma escola sustenta que ele cria que a li­berdade consiste em mero poder de fazer o que a alma desejou previamente, de realizar externamente o que a alma já escolheu antecedentemente; outra escola sustenta que ele cria que a liberdade consiste no poder de escolher um dentre dois objetos – um poder tal que os homens não são “impedidos por alguma necessidade fatal de fazer, e até mesmo desejando e escolhendo como lhes agrada, com plena liberdade; sim, com o mais alto tipo de liberdade que jamais foi concebido, ou que possivelmente jamais poderia ser conce­bido no coração de algum homem” (Carta a um teólogo escocês). Uma escola considera Edwards como concordando com os calvinistas que sustentam que o “homem, em seu estado de inocência, tinha liberdade e poder de fazer o que é bom e agradável a Deus, mas, entretanto, era mutável, de modo que podia cair desse estado”, e que o “homem, mediante sua queda em um estado de pecado, perdeu totalmente toda habilidade de vontade para qualquer bem espiritual que acompanha a salvação”. Outra escola considera Edwards como negando esta proposição em seu sentido literal, e afirmando-a apenas em seu sen­tido figurativo, e crendo que desde a Oueda o homem possui toda liberdade ou permissão que sempre teve, ou pode ser suposto ter. Uma classe de críticos supõe que ele crê que os motivos são as causas eficientes ou necessárias das volições; outra classe supõe que ele crê que a volição é o resultado dos motivos como uma ocasião, em vez de efeito necessário do motivo como uma causa. A última classe interpreta toda sua teoria da von­tade à luz das seguintes observações de Edwards ao teólogo escocês: “Pelo contrário, tenho basicamente declarado que a conexão entre coisas antecedentes e consequentes, que ocorre com relação aos atos das vontades dos homens, que é chamada de necessidade moral, é chamada impropriamente pelo nome de necessidade, e que termos como obriga­ção, não pode, impossível, incapaz, irresistível, inevitável, invencível, etc, quando apli­cados aqui, não são aplicados em seu significado próprio, e são usados de forma ilógica e com perfeita insignificância, ou em um sentido completamente diferente de seu signifi­cado original e próprio, e de seu uso na linguagem comum, e que uma necessidade como esta que se ocupa dos atos das vontades dos homens é mais apropriadamente chamada de certeza do que de necessidade, não sendo outra senão a conexão certa entre o sujeito e o predicado da proposição que afirma sua existência.” E dito por muitos que Edwards não faz distinção entre a vontade e as sensibilidades; alguns pensam que ele faz distinção; os atos da vontade consistindo nos atos de escolha moral, o processo das sensibilidades con­sistindo o que em outro lugar ele chama de sentimentos ou afeições naturais ou ani­mais”.

Durante seu quase banimento para Stockbridge, ele escreveu outra de suas mais famosas obras, intitulada The Great Christian Doctrine of Original Sin Defended, etc (A grande doutrina do pecado original defendida, etc). A obra foi concluída em 26 de maio de 1757, mas não foi publicada até 1758, vários meses após sua morte. Talvez a peculia­ridade mais marcante desse tratado seja sua defesa da doutrina de que havia uma unidade ou identidade constituída de Adão e sua posteridade; “eles são constituídos”, por assim dizer, uma pessoa complexa, ou um todo moral”; como uma árvore quando, um século mais velha, é uma planta com o pequeno broto da qual cresceu – como o corpo do homem quando, quarenta anos mais velho, é um com o corpo bebé do qual cresceu – como o corpo e a alma são um um com o outro, assim há uma “constituição” divina, segundo a qual Adão e sua posteridade são vistos como um, e tratados como tal”; que em sua descen­dência “a primeira existindo de uma disposição corrupta não deve ser considerada como pecado pertencente a ela, distinta de sua participação no primeiro pecado de Adão”; que “a culpa que um homem tem sobre sua alma em sua primeira existência é uma e simples, a saber, a culpa da apostasia original, a culpa do pecado pelo qual as espécies se rebelaram contra Deus. Esta, e a culpa que surge da primeira corrupção ou disposição depravada do coração, não devem ser consideradas como duas coisas distintamente imputadas e credi­tadas aos homens aos olhos de Deus”, mas são uma e a mesma coisa, segundo uma cons­tituição arbitrária, como a que causa a contínua identidade de um rio que flui constante­mente, ou do corpo de um animal que flutua constantemente. “Quando chamo isto de constituição arbitrária, quero dizer que é uma constituição que não depende de nada exceto da vontade divina, que a vontade divina não depende de nada exceto da sabedoria divina”. Durante seu isolamento em Stockbridge, Edwards escreveu sua Dissertation Concerning the End for which God Created the World (Dissertação acerca do fim pelo qual Deus criou o mundo), e também sua Dissertation Concerning the Nature of True Virtue (Dissertação acerca da natureza da verdadeira virtude). Ele gastou muito estudo no pri­meiro destes tratados e, no segundo, toda sua vida. Uma classe de seus intérpretes acredita que ele escreveu o primeiro deles com o propósito, e que o tratado alcançou o resultado, de modificar o aspecto popular do calvinismo e, com isso, remover algumas das objeções populares ao sistema como anteriormente sustentado. Eles creem que Edwards tinha o propósito de tomar a soberania de Deus mais agradável ao mostrar que ela objetiva os mais elevados interesses de suas criaturas; que a glória de Deus e o bem-estar do universo são uma e a mesma coisa, e, portanto, quando é dito que Deus governa o universo para sua própria glória, também é dito que ele o governa para seu bem-estar. No segundo dos dois últimos tratados citados, um tratado que, como o primeiro e como muitos de seus outros ensaios, tinha o propósito de reconciliar a razão com a fé – um tratado cujos rudi­mentos foram escritos em sua mocidade, e são encontrados espalhados por muitas de suas obras publicadas – ele reduz toda bondade moral “ao amor do ser em geral”, e ele consi­dera este amor como um ato da vontade, distinto do “sentimento animal ou natural”. Aqueles teólogos calvinistas que creem que todas as virtudes, tais como fé, justiça e etc, estão ativas em sua natureza e são meras formas de benevolência, e que todo pecado está igualmente ativo e é a preferência escolhida de um bem inferior sobre um superior, ape­lam para a Dissertation on Virtue (Dissertação sobre a virtude) de Edwards como tendo dado um notável impulso ao que tem sido chamado por vários nomes, tais como nova teologia, teologia da Nova Inglaterra ou teologia hopkinsiana. As duas últimas disserta­ções supramencionadas não foram publicadas até 1788, trinta anos depois de sua morte. Em 1764, dezoito sermões de Edwards foram publicados em um volume, ao qual o Dr. Samuel Hopkins prefaciou com suas memórias. Em 1777, sua famosa History of Redemption (História da Redenção); em 1788, um novo volume de seus sermões, em 1789, outro volume de seus sermões, em 1793, sua Miscellaneous observations on importante theological subjects (Miscelânea de observações sobre assuntos teológicos importantes), em 1796, sua Remarks on important theological controversies (Notas sobre controvérsias te­ológicas importantes) foram publicadas em Edimburgo, Escócia. Suas obras publicadas foram reunidas e impressas em oito volumes em Worcester, Massachusetts, sob o trabalho editorial do Dr. Samuel Austin, em 1809, e têm sido reimpressas repetidamente na Ingla­terra e na América. Uma edição maior de seus escritos, em dez volumes, incluindo uma autobiografia e muito material novo, especialmente sua Notes on the Bible (Notas sobre a Bíblia), foi publicada em Nova York, em 1829, sob o cuidado editorial do Rev. Dr. Sereno Edwards Dwight. Partes desta edição têm sido reimpressas na Inglaterra. Em 1852, sua obra intitulada Charity and its fruits (Caridade e seus frutos) foi publicada pela primeira vez, e, mais recentemente, um volume de seus escritos foi impresso na Ingla­terra, o qual nunca foi impresso na América.

            Um dos aspectos mais interessantes nos quais o presidente Edwards pode ser visto é o de sua influência sobre Whitefield, Brainerd e dois de seus pupilos teológicos: Bel­lamy e Hopkins. Outro aspecto, é o de sua influência sobre estudiosos e teólogos euro­peus. Vários de seus tratados foram publicados na Grã-Bretanha antes de serem publica­dos na América, e a avaliação feita sobre ele pelo Dr. Erskine, Dr. Chalmers, Robert Hall, Dugald Stewart, Sir Henry Moncrief, Sir James Mackintosh, Dr. Priestley, Dr. George Hill, Isaac Taylor e outros é mais elevada do que a expressa pelos homens da mesma posição neste país. É um fato notável que, enquanto vivia em um tipo de exílio como missionário entre os índios, em Stockbridge, ele foi convidado para a presidência da fa­culdade em Princeton, Nova Jersey. Ele foi eleito para o ofício em 26 de setembro de 1757. Em sua primeira resposta aos administradores, ele expressou sua grande surpresa por sua nomeação e, entre outras razões para declinar, disse com sua simplicidade característica: “Tenho uma constituição peculiarmente desafortunada em muitos aspectos, ligada a comidas sólidas moles, insípidas, grandes e escassas de fluídos, e um baixo fluxo de entusiasmo, ocasionando frequentemente um tipo de fraqueza infantil e desprezo de expressão, presença e conduta, com uma desagradável melancolia e obstinação muito imprópria para a conversa, mas especialmente para a administração de uma faculdade.” Ele foi demitido de seu pastorado em Stockbridge em 4 de janeiro de 1758, depois de ter trabalhado nele por seis anos e meio. Ele passou uma parte de janeiro e todo o mês de fevereiro em Princeton, cumprindo alguns deveres na faculdade, mas não foi empossado senão em 16 de fevereiro de 1758. Ele foi vacinado contra varíola em 23 do do mesmo mês e, após os efeitos ordinários da inoculação terem cedido um pouco, uma segunda febre sobreveio e ele morreu em 22 de março de 1758. Ele residiu em Princeton por cerca de nove semanas, e fora empossado como presidente da faculdade apenas há cinco semanas. Estava com 54 anos, 5 meses e 17 dias de idade. Seu pai morreu aos 89 anos, apenas dois meses antes del; seu genro, o presidente Burr, morreu com 42 anos, apenas seis meses antes dele; sua filha, a presidente Sra. Burr, morreu com 27 anos, apenas dezesseis dias antes dele; sua esposa morreu com 49 anos, apenas seis meses e dez dias depois dele. Os três últimos supracitados esão enterrados no mesmo cemitério, em Princeton.

(E. A. P.)

 

Extraído da Enciclopédia da Literatura Bíblica, Teológica e Eclesiástica McClintock e Strong

Disponível em AGES Digital Library

Tradução: Paulo Corrêa Arantes

terça-feira, 29 de setembro de 2020

Jonathan Edwards (1703-1758), Pregador do Século 18

Bernard L. Brock

 

            Jonathan Edwards nasceu em 5 de outubro de 1703, o único filho homem e o quinto de onze filhos de Esther Stoddard e Timothy Edwards. Como filho de um ministro e neto do aristocrata e reavivalista Solomon Stoddard, a educação inicial de Jonathan, conduzida por seu pai, mãe e irmãs mais velhas, enfatizou o Grego, o Latim e a Bíblia. Seu interesse precoce pela religião era evidente em sua prática de orar cinco vezes por dia e na discussão de questões religiosas com amigos em uma cabana isolada. A mente perspicaz e o poder de observação de Edwards foram demonstrados durante a idade de onze e doze anos quando ele escreveu os ensaios “Of Insects” (Sobre Insetos) e “Of the Rainbow” (Sobre o Arco-íris). Sua compreensão sobre as aranhas e a natureza somente poderia ser o resultado de observação paciente e intensa combinada com deduções sadias.

            A educação formal de Jonathan começou aos treze anos com sua entrada no Yale College. Em Yale, ele leu Locke e Newton, e refletiu as ideias desses autores em seus escritos “Notes on the Mind” (Notas sobre a Mente) e “Notes on Natural Science” (Notas sobre a Ciência Natural). Edwards expandiu o conceito de Locke de que “conhecimento é a percepção da concordância ou discordância entre duas ideias”, e estabeleceu sua própria definição de verdade: “VERDADE é A percepção das relações existentes entre as ideias. Falsidade é a suposição das relações entre ideias que são inconsistentes com aquelas ideias em si mesmas; não sua discordância exterior com as coisas. Toda verdade está na mente, e somente ali.” Edwards podia facilmente ter tido uma carreira de sucesso na ciência. Em setembro de 1720, Jonathan formou-se, mas permaneceu em Yale para estudar para o ministério.

            Em agosto de 1722, Edwards aceitou seu primeiro convite para tornar-se pastor da Igreja Presbiteriana Escocesa em Nova York. Ele retornou ao Yale College para obter o mestrado em Artes, em 1723, e logo tornou-se assistente. Seu próximo lance foi o pastorado auxiliar com seu avô, Solomon Stoddard, em Northampton, Massachusetts, em 1727. Em 28 de julho, ele se casou com Sarah Pierrepont e, em 22 de fevereiro de 1729, Solomon Stoddard faleceu. Jonathan Edwards pregou o sermão fúnebre e assumiu o ministério de seu avô. A partir do púlpito de Northampton, a igreja mais proeminente fora de Boston, Edwards começou sua carreira de pregador.

 

Jonathan Edwards como Pregador do Avivamento

 

            A vida de Jonathan Edwards foi dedicada a trazer o povo crescentemente secular de volta para o calvinismo puro por meio de sua pregação e escritos. Este sonho, o qual por vezes parecia ao seu alcance, nunca foi concretizado.

            O primeiro desafio para a habilidade de pregação de Edwards foi o convite do clero da Nova Inglaterra para apresentar uma palestra pública, na Primeira Igreja de Boston, em 8 de julho de 1731. A atenção estava sobre Edwards, não apenas por ser ele herdeiro de Stoddard e o principal graduado de Yale, mas também porque ele poderia permitir que diferenças religiosas dividisses as comunidades novamente. O Pacto do Meio-Termo, o qual estendia a membresia da igreja e o batismo aos que forneciam evidências convincentes, era a concessão da igreja com o conceito calvinista tradicional de permitir apenas aos eleitos de Deus, que tinham experimentado uma experiência de conversão pessoal, entrar nos círculos internos da igreja. Stoddard, contudo, liberalizou essa concessão e exigia apenas uma profissão de fé e arrependimento dos pecados. Ao manter essa posição, Stoddard foi bem-cucedido em tirar as igrejas do Vale do Connecticut do controle de Cotton e Increase Mather, de Boston. O clero de Boston estava curioso quanto a se Edwards seguiria a tradição liberal de Stoddard e em quão formidável oponente ele seria. Edwards pregou sobre “God Glorified in Man’s Dependence” (Deus é Glorificado na Dependência do Homem). Seu estilo de discurso e de linguagem foram claros, mas a mensagem bem fundamentada e conservadora – “que a criatura não é nada, e que Deus é tudo” – era o que o clero desejava ouvir, embora não tenha visto suas plenas implicações. Edwards passou no teste, e seu sermão foi publicado.

            A abordagem de Jonathan Edwards a pregação combinava cuidadosamente o pensamento científico moderno de John Locke e Sir Isaac Newton com a filosofia calvinista. Seus primeiros escritos refletiram sua leitura do Essay Concerning Human Understanding de Locke. Edwards continuou a seguir as ideias de Locke por toda a sua carreira. Em agosto de 1733, Edwards pregou e publicou mais tarde um sermão que apresenta sua filosofia: “A Divine and Supernatural Light, Immediately Imparted to the Soul by the Spirit of God, Shown to Be Both a Scriptural, and Rational Doctrine” (Uma Luz Divina e Sobrenatural, Comunicada Imediatamente à Alma pelo Espírito de Deus, Demonstrada Ser uma Doutrina Tanto Bíblica quanto Racional). Edwards cria que a percepção da realidade era central à experiência do homem e que a iluminação espiritual ocorria por meio dos sentidos. Locke argumentava que os homens adquirem os materiais para a razão e conhecimento somente da experiência, e, para Edwards, Deus falava ao homem por meio das experiências de seus sentidos. Ele demonstrou sua doutrina básica em um sermão curto. Esta abordagem simples (básica), contudo, tornou-se poderosa em 1734-1735, quando Edwards comandou um avivamento religioso.

            Northampton era uma comunidade inquieta quando Edwards substituiu Stoddard; contudo, sob sua pregação, feudos e disputas foram colocadas de lado e as pessoas ficaram cheias com o poder das emoções religiosas. Em seis meses houve mais de 300 conversões, e cerca de 100 pessoas foram admitidas na igreja. No final do avivamento, Edwards, em A Faithful Narrative of the Surprising Work of God in the Conversion of Many Hundred Souls in Northampton, and the Neighboring Towns and Villages (Uma Narativa Fiel sobre a Surpreendente Obra de Deus na Conversão de Muitas Centenas de Almas em Northampton e nas Cidades e Vilas Vizinhas), forneceu um relato das ações e dos eventos. Este documento, que consiste em uma declaração introdutória, uma descrição do processo de conversão e dois estudos detalhados de caso, tornou-se o manual do avivalismo. Muito do poder retórico do documento veio da descrição vívida das experiências religiosas de Abigail Hutchinson e Phebe Bartlet, adulta e criança, respectivamente. Esses dois casos eram aplicações claras do conceito de Locke de que as palavras representam a experiência do sentido, de modo que a linguagem pode ser usada de modo eficaz para comunicar a experiência e alcançar o conhecimento. Edwards descreveu o terror de Abigail “Seu maior terror, disse ela, era que ela tinha pecado contra Deus; sua aflição cresce mais e mais por três dias; até que ela via ‘nada mais que a ira de Deus’.” Ele também descreveu seu conforto; “Ela teve por vários dias consecutivos um doce senso da excelência e amabilidade de Cristo em sua humildade.” A reputação de pregador de Edwards cresceu, assim ele foi capaz de publicar quatro de seus sermões de avivamento sob o título de Justification of Faith Alone (Justificação Somente Pela Fé). Este livro foi tão bem recebido que teve três reedições. Edwards constatou, no entanto, que o avivamento tinha seus perigos. A histeria aumentou nas comunidades ao ponto de um comerciante proeminente cometer suicídio. Esta atmosfera se espalhou quando outras pessoas disseram que ouviam vozes dizendo para cortarem suas gargantas. Este suicídio e a histeria foram os fatores da diminuição do avivamento.

            O avivamento inspirado por Edwards em 1734-1735 foi apenas um precursor do Grande Avivamento ocorrido em 1740-1741, que irrompeu na onda de George Whitefield quando ele viajou por toda a Nova Inglaterra. Diferente de Edwards, que era conhecido por sua pregação simples, Whitefield foi um avivalista espirituoso e emocional. Em 8 de julho de 1741, em Enfield, Edwards pregou o que foi seu sermão mais popular, “Sinners in the Hands of na Angry God” (Pecadores nas mãos de um Deus irado). A resposta foi extraordinária: mulheres desmaiaram e homens gritaram e choraram. A mensagem de Edwards de que um Deus Todo-Poderoso controlava as pessoas, as quais estavam completamente à sua mercê, foi totalmente clara: “O Deus que segura você sobre o abismo do inferno, como alguém segura uma aranha ou um inseto repugnante sobre o fogo, odeia você e é terrivelmente provocado; sua ira para com você queima como o fogo; ele considera você como digno de nada mais senão ser lançado no fogo.” O sermão descreve o terrível estado do homem, mas também apresenta a esperança de salvação por meio de Cristo: “E agora, você tem uma oportunidade extraordinária, um dia no qual Cristo abre a grande porta da misericórdia e está chamando e clamando em alta voz aos pobres pecadores.” O sermão de Edwards estava de acordo com a mensagem de avivamento da época. Sua mensagem se concentrou mais na aplicação do que na filosofia, sua linguagem foi surpreendentemente forte e vívida, e sua estrutura foi incomumente simples. As pessoas estavam levando a religião para suas vidas e Edwards viu seu sonho como parcialmente realizado.

            Novamente, o avivamento religioso teve seu preço para Edwards. Thomas Clap, um religioso conservador e reitor de Yale, se opôs ao Grande Avivamento, em parte porque ele pensava que Whitefield desejava expulsar os clérigos de longa data da Nova Inglaterra em favor dos jovens metodistas da Inglaterra. Embora Edwards tenha negado associação com o plano de Whitefield, desenvolveu-se uma contenda pessoal entre Edwards e Clap. Como resultado, Edwards deixou de comparecer à cerimônia de formatura de Yale em favor da do College de Nova Jersey, a qual finalmente tornou-se Princeton. Em setembro de 1741, em sua última cerimônia de formatura em Yale, Edwards defendeu seu papel no Grande Avivamento contra os ataques de Charles Chauncy em “The Distinguishing Marks of a Work of the Spirit of God” (As Marcas Distintivas de uma Obra do Espírito de Deus). Nesse sermão, Edwards identificou as cinco marcas distintivas de uma obra divina. Ele argumentou que o avivamento era inspirado por Deus embora houvesse alguns excessos.

            A resistência ao avivamento havia crescido tanto que, quando Whitefield retornou a Boston para sua segunda visita, sua recepção foi fria. Contudo, a filosofia de Edwards de que a experiência religiosa originada dos sentidos o forcava a crer que a agitação religiosa era basicamente boa, assim ele continuou a defender o Grande Avivamento. Em 1742, ele expandiu seu sermão anterior ao adicionar a experiência religiosa de sua esposa em Some Thoughts Concerning the Present Revial of Religion in New England (Alguns Pensamentos Concernentes ao Presenta Avivamento da Religião na Nova Inglaterra). Ele apresentou a experiência de Sarah Edwards da mesma forma que tinha descrito duas conversões anteriores. Apear de compreender que o avivamento não era mais popular, Edwards continuou a levar seu pensamento adiante. Aparentemente ele desejava compreender a natureza precisa da experiência religiosa. Ele retrabalhou alguns sermões antigos e, em 1746, publicou A Treatise Concerning Religious Affections (Um Tratado Concernente as Afeições Religiosas). Seu propósito era fazer distinção entre emoções ou reações físicas das glândulas e as verdadeiras experiências espirituais: “As provações, acima de todas as outras coisas, tem a tendência de distinguir a verdadeira religião e a falsa, e a fazer a diferença entre elas aparecer de modo evidente.” Edwards empregou uma metáfora: como o ouro é purificado pelo fogo, assim a religião pura é fortalecida por meio das perseguições. “Amar a Cristo” e “Alegria em Cristo” operam no verdadeiro cristão para produzir as afeições de beleza e amabilidade. Por outro lado, o corpo produz paixões e fluidos que “são apenas efeitos ou acompanhamentos das afeições.” A defesa de Edwards do Grande Avivamento passou basicamente imperceptível; a atenção havia mudado para outras preocupações. Esta dedicação à verdade foi a característica da vida de Jonathan Edwards. Porém, ao distinguir entre a verdadeira e a falsa experiência religiosa, Edwards argumentou que algumas pessoas não tinham sido verdadeiramente convertidas, todavia foram admitidas na igreja.

            O auge do avivamento e da pregação de Edwards passaram porque agora as pessoas estavam mais interessadas em resolver os problemas diários de suas vidas. Além disso, uma série de eventos levou Edwards a ações que enfraqueceram sua posição na igreja. Em março de 174, Edwards falou contra e até mesmo citou os nomes de jovens que tinha lido um “mau livro” – um manual de parteira. Northampton entrou em alvoroço porque alguns das melhores famílias estavam envolvidos. Também, a obra Religious Affections de Edwards o convenceu de que o Pacto do Meio-Termo tinha conduzido a práticas que eram inconsistentes com os verdadeiros sentimentos religiosos, assim ele voltou à prática calvinista estrita de fazer uma confissão de fé cristã pública e prover prova de uma experiência de conversão como requerimentos para a membresia da igreja. Quando Edwards abandonou a tradição mais liberal de Solomon Stoddard, a maior parte de sua congregação se opôs ativamente a ele nessa questão. Além disso, o Coronel John Stoddard, tio de Edwards e protetor em Boston, morreu, deixando-o mais vulnerável a ataques. Finalmente, em junho de 1748, Edwards pregou o sermão fúnebre: “Account of the Life of the Late Reverend Mt. David Brainerd” (Relato sobre a vida do Falecido Reverendo David Brainerd). Brainerd, um estudante de Yale, muito emotivo, mas sincero, fora expulso pelo Reito Thomas Clap. Ele fora afetado pela tuberculose e morreu na casa de Edwards enquanto estava sendo cuidado por Jerusha, filha de Edwards e noiva de David. O amor de Edwards por sua filha e por David o levou a uma eloquente oração por seu futuro genro. Edwards compreendeu que estes eventos estavam tornando sua posição insustentável e seu sonho inatingível, mas ele se recusou a ceder.

            Em 1749, o confronto entre Edwards e sua igreja não podia ser mais evitado. A exigência de uma confissão pública de experiência de conversão tinha impedido novo membros por quatro anos porque Edwards insistia nela e membros da igreja não a permitiam. Ele explicou esta posição em An Humble Inquiry into the Rulers of the Word of God Concerning the Qualification Requisite to a Compleat Standing and Full Communion (Uma Humilde Investigação das Regras da Palavra de Deus Concernentes ao Requisito de Qualificação para uma Posição Completa e Plena Comunhão), e, em abril, ofereceu sua resignação, exigindo que seus oponentes lessem sua declaração e aceitassem sua argumentação ou rejeitassem sua declaração e a ele. Sua congregação se recusou a ler sua argumentação e, por volta de julho de 1750 eles foram capazes de encontrar um concílio de ministros que, pelo voto de cinco a quatro, demitiram Jonathan Edwards da Igreja de Northampton.

            Em julho de 1750, Jonathan Edwards pregou seu “Sermão de Despedida” em Northampton. Ele falou diretamente sobre o assunto à mão em seu modo contido e bem racional usual. Ele recapitulou seu tempo com eles e disse adeus até encontrá-los “um ao outro diante do grande tribunal no dia do julgamento.” No entanto, esta não foi a despedida, porque Edwards não tinha outro emprego e passaram-se anos antes que a igreja encontrasse um substituto disposto. Por cerca de um ano ele continuou a pregar em Northampton, até que lhe foi oferecido e ele aceitou uma posição dupla como ministro em Stockbridge e missionário aos índios.

            Jonathan Edwards estava agora fora dos holofotes, e podia dedicar-se a escrever. Como resultado, este foi o período mais pacífico e produtivo de sua vida. Em 1754, ele publicou A Careful and Strict Enquiry into the modern Prevailing Notions of That Freedom of Will, Which is Supposed to Be Essential to Moral Agency, Virtue and Vice, Reward and Punishments, Praise and Blame (Uma Cuidados e Estrita Investigação das Noções Modernas Prevalecentes desta Liberdade da Vontade, a Qual é Suposta Ser Essencial a Agência Moral, a Virtude e ao Vício, a Recompensa e a Punição, Louvor e Culpa). Edwards defendeu a posição que ele sempre aceitou de que era impossível ao homem ter uma vontade livre visto que o governo de Deus era completo. Em 1755, ele deu início a dois documentos, The Nature of True Virtue (A Natureza da Verdadeira Virtude) e Concerning End for which God created the World (Concernente ao Fim para o qual Deus criou o Mundo). Estas obras, juntamente com Freedom of Will, representam o pensamento mais original de Edwards. O discurso e os escritos de Edwards propõem uma resposta ao homem: Deus é Todo-Poderoso, e a identidade do homem é Deus.

            Em 1757, foi oferecido a Edwards a presidência da faculdade em Princeton. Ele aceitou, colocando um fim neste período sossegado e produtivo de sua vida. Em 22 de março de 1758, após receber uma vacina contra a varíola, Jonathan Edwards morreu.

            Jonathan Edwards foi um orador paradoxal. Seu conteúdo e sua forma eram tradicionais, mas seu uso da linguagem era radical. A mensagem de Edwards era que a verdadeira religião estava contida na Bíblia, que o homem era um pecador que estava completamente dependente de Deus, e que Deus é soberano e supremo. Seus sermões eram complexos e altamente organizados. Sua tese era cuidadosamente estabelecida, desenvolvida e aplicada conforme a tradição da pregação americana antiga. As provas de Edwards eram completamente racionais, empregando autoridade, geralmente a Bíblia, e a experiência. Sua forma era caracteristicamente dedutiva, mas argumentos individuais eram frequentemente indutivos. O estilo de Jonathan Edwards era claro, como era sua pregação. Ele usava palavras e frases curtas, que podiam ser facilmente entendidas por sua audiência. Suas imagens e metáforas eram geralmente baseadas na Bíblia. Sua eficácia estava na estrutura racional e lógica de seu argumento e, paradoxalmente, na linguagem experimental lockeana e newtoniana de sua mensagem.

            Edwards perdeu em seu esforço de levar a América de volta ao calvinismo puro, mas ele tem sido reconhecido como um dos pensadores verdadeiramente notáveis da América por seu desenvolvimento de um sistema retórico baseado nos escritos de Locke e Newton. Ironicamente, a abordagem científica a linguagem de Edwards baseada em Locke e Newton foi mais responsável por seu importante lugar na história do que a filosofia calvinista que ele pregou por toda a sua vida.

 

Extraído de “Jonathan Edwards (1703-1758), eighteenth-century preacher”, Bernard L. Brock, in American Orators before 1900.

Tradução: Paulo Corrêa Arantes