Frase da Semana

Assim, tudo é de Deus, está em Deus e existe para Deus; ele é o começo, o meio e o fim.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Jonathan Edwards e o Avivamento

1

Jonathan Edwards, santo, estudioso, pregador, pastor, metafísico, teólogo, calvinista e líder do avivamento, viveu de 1703 até 1758. Ele era alto, reservado, de fala baixa, assertivo e humilde de coração. Em 1727, após cinco anos no ministério, tornou-se copastor da maior e elegante igreja em Northampton, New Hampshire; onde seu avô, Solomon Stoddard, o principal idoso da vida eclesiástica no Valle do Connecticut, agora um patriarca de oitenta e três anos, ministrava desde 1669. Northampton era uma cidade de cerca de 2.000 habitantes, e sua igreja era a melhor conhecida e a mais influente na Nova Inglaterra fora a de Boston. Stoddard era quase idolatrado pela congregação, muito da qual cresceu sob seu ministério. Dois anos mais tarde, em 1729, a morte de Stoddard pôs fim a seu pastorado de sessenta anos, e a partir de então Edwards foi ministro sozinho. Em 1734-35 e 1740-42, ele viu movimentos extraordinários do Espírito de Deus em sua congregação e, no último caso, por toda a Nova Inglaterra. A partir de 1743, contudo, Edwards esteve em problemas com sua igreja por várias razões, e, em 1750, ele foi demitido do pastorado porque insistiu em restaurar a exigência, suspendida por Stoddard, de confissão de fé pessoal como condição sine qua non para ser membro comungante da igreja. Edwards, então, mudou-se para um posto missionário no pequeno vilarejo fronteiriço de Stockbridge, e foi ali que ele escreveu seus grandes tratados sobre A Liberdade da Vontade e Pecado Original. Em 1757, ele se tornou Presidente do Princeton College. Viajou para Princeton para dar início a seu mandato em fevereiro de 1758. Sua primeira ação foi ser inoculado contra a varíola, mas a inoculação produziu febre e, no mês seguinte, ele morreu.

2

            Edwards foi um puritano nascido fora do tempo. Dificilmente seja muito dizer, como um escritor recente, que o Puritanismo é o que Edwards foi. Todas as suas raízes estavam na teologia e na perspectiva dos pais fundadores da Nova Inglaterra, homens como Hooker e Shepard, Cotton e Davenport. Ele foi um verdadeiro puritano, primeiro, em sua devoção à Bíblia. Durante toda sua vida ele trabalhou, sem medo e de forma incansável, para entender e aplicar a Bíblia, e suas obras escritas (com exceção, talvez, das sobre profecia) revelam uma perspicácia exegética comparável à de Calvino, ou Owen, ou Hodge, ou Warfield. Durante toda sua vida ele alimentou sua alma com a Bíblia; e durante toda sua vida ele alimentou seu rebanho com a Bíblia.
            Novamente, ele foi um verdadeiro puritano em suas convicções doutrinárias. Numa época em que, como na Inglaterra, um Latitudinarianismo (liberdade de pensamento) racionalista – a “perspectiva livre e católica de Charles Chauncy e seus amigos – estava corroendo a herança puritana, Edwards mostrou-se como um calvinista sobrenaturalista inflexível e franco, diagnosticando o conceito da moda como Arminianismo e se opondo a ele; como os puritanos tinham se oposto ao Arminianismo de seus dias, com base em suas implicações religiosas. Edwards argumentou que o Arminianismo em qualquer forma – qualquer forma, isto é, do sinergismo que produz convicção da verdade espiritual obra de Deus, mas a conversão em si do homem – enfraquece a verdadeira piedade. Ele faz Deus menor do que Deus; é três quartos do caminho para o Deísmo e meio caminho para o verdadeiro Ateísmo. Ele destrói a devida reverência a Deus porque nega nossa completa dependência dele. Ele contribui para o orgulho, ao representar o ato decisivo em nossa salvação como nossa própria obra. Assim, ele introduz na religião um princípio de autoconfiança; que é, de fato, tornar a religião irreligiosa e basear a forma de piedade em uma negação da questão. Esses eram pontos puritanos e, ao promovê-los, Edwards mostrou-se um verdadeiro herdeiro da tradição puritana quanto à teologia.
            Em terceiro lugar, Edwards foi um verdadeiro puritano em seu conceito sobre a natureza da piedade cristã. Em essência, Edwards sustentou, piedade é uma questão de glorificar o criador mediante humilde dependência e grata obediência. Em termos cristãos isto significa reconhecer nossa completa dependência de Deus quanto à vida e saúde, igualmente por graça e glória, e amá-lo, louvá-lo e servi-lo por tudo que ele nos tem dado gratuitamente por meio de seu Filho. Edwards tocou essa nota em 1731, em seu primeiro sermão publicado, um discurso sobre 1 Coríntios 1.29-31, intitulado, “Deus é glorificado na dependência do homem”. O tema do sermão é que Deus é glorificado na obra de redenção nisto, que aparece nela uma dependência tão absoluta e universal da redenção nele.” E o sermão termina assim:
Estejamos exortados a exaltar somente a Deus, e a atribuir a ele toda a glória da redenção. Esforcemo-nos por obter uma sensibilidade de nossa grande dependência de Deus, e cresçamos nisso. [...] para mortificar a disposição autodependente e de justiça própria. O homem é naturalmente inclinado de modo excessivo a exaltar a si mesmo e a depender de seu próprio poder de bondade. [...] Porém, esta doutrina deve nos ensinar a exaltar somente a Deus; tanto pela confiança e dependência, quanto pelo louvor. Que seja ele glorificado, glória no Senhor. Algum homem tem esperança de que é convertido e santificado [...], que seus pecados estão perdoados, que foi recebido no favor de Deus, exaltado à honra e bem-aventurança de ser filho de Deus, e herdeiro da vida eterna? Dê ele a Deus toda glória; que o torna diferente do pior dos homens neste mundo, ou do mais miserável dos condenados ao inferno. [...] Algum homem é eminente em santidade e abundante em boas obras, não tome a glória disso para si mesmo, mas atribua àquele que o fez “feitura dele, criado em Cristo Jesus para as boas obras”.[1]

            O pensamento sobre a completa dependência do homem de um Deus livre e onipotente Deus controlou toda a perspectiva religiosa de Edwards, e agiu como o princípio orientador de toda sua teologia.
            Para Edwards, portanto, a verdadeira religião era muito mais do que ortodoxia ou ética, ou as duas juntas. Edwards não advogou a favor de uma crença fácil, ou de um moralismo, ou de um formalismo que algum tipo. A verdadeira piedade era, para ele, um dom sobrenatural; dinâmico quanto ao caráter e intensamente experimental em suas realizações externas. Era, na verdade, uma concreta comunhão com Deus por meio de Cristo, produzida no ser pelo Espírito Santo e expressa em afeições e atividades reativas.
            A raiz da piedade, Edwards sustentou, é uma convicção sincera (em suas palavras, um “senso cordial”) da realidade e glória das coisas divinas e celestiais faladas no evangelho. Esta convicção é mais do que uma compreensão intelectual das ideias teológicas, ou um tomar a verdade cristã como certa sob a pressão constrangedora da opinião da comunidade; ela é, antes, o resultado da iluminação divina direta que acompanha a Palavra de Deus escrita ou falada; como Edwards explicou em 1734, em seu segundo sermão publicado, sobre Mateus 16.17, intitulado, “Uma luz divina e sobrenatural, imediatamente transmitida à alma pelo Espírito de Deus, apresentada como uma doutrina tanto escriturística como racional”.
            A iluminação divina resulta em conversões.
Essa luz é tal que influencia eficazmente a inclinação e muda a natureza da alma. Ela assemelha nossa natureza à Natureza divina. [...] este conhecimento afastará do mundo e elevará a inclinação para as coisas celestiais. Ele fará o coração voltar-se para Deus como a fonte do bem e a escolhê-lo como a única porção. Esta luz, e esta somente, trará a alma a uma união salvadora com Cristo. Ela conforma o coração ao evangelho, mortifica seus inimigos e oposições contra o plano de salvação nele revelado: ela faz o coração abraçar alegre notícias, e aderir inteiramente a revelação de Cristo como nosso Salvador, e concordar com ela: ela faz toda a alma concordar e estar em sintonia com ele [...] apegando-se a ele com plena inclinação e afeição; e dispõe eficazmente a alma a dar-se inteiramente a Cristo. [...] Quando ela alcança o fundo do coração e muda a natureza, ela dispõe eficazmente a uma obediência universal. Ela mostra Deus como digno de ser obedecido e servido. Ela suscita no coração um sincero amor por Deus [...] e o convence da realidade daquelas gloriosas recompensas que Deus tem prometido àqueles que lhe obedecem.[2]

            A partir dessa renovação interna pela luz vivificante saem boas obras e mudança de atitudes básicas. O ceticismo dos racionalistas e as ilusões dos “entusiastas” acerca dos estados de espírito e coração autenticamente cristãos forçou Edwards a dedicar atenção especial a este assunto, e, em seu Treatise concerning Religious Affections (publicado em 1746, pregado inicialmente como uma série de sermões em 1742-43), ele deu ao mundo o fruto de seu estudo. Ele começa argumentando que, na medida em que as afeições são as funções fundamentais da vontade, a origem da ação, segue, inevitavelmente, que “a verdadeira religião consiste, em grande parte, em santas afeições”. Edwards explica:
Visto que as afeições pertencem não apenas necessariamente à natureza humana, mas são uma parte muito grande dela, assim (na medida em que, mediante a regeneração, as pessoas são renovadas no homem todo) afeições santas pertencem não apenas necessariamente à verdadeira religião, mas são uma parte muito grande dessa religião. E visto que a verdadeira religião é prática, e Deus constituiu a natureza humana assim, que as afeições são muito as fontes das ações dos homens, isto também mostra que a verdadeira religião deve consistir muito nas afeições.[3]

            Tendo estabelecido isto, Edwards prossegue para caracterizar as “afeições verdadeiramente graciosas e santas” com uma perspicácia pastoral e teológica que tem assegurado a este livro um lugar indisputável entre os clássicos de discipulado e devoção de todos os tempos.
            Em tudo isto, o que Edwards está fazendo é esclarecer e justificar o conceito puritano da religião experimental contra o frio moralismo da escola de Tillotson. É como o herdeiro espiritual de Shepard, Flavel e Stoddard, os quais ele cita constantemente em suas notas de rodapé (o primeiro especialmente), que Edwards está escrevendo. Como eles, ele está interessado em insistir que o cristianismo verdadeiro e vital é uma religião do coração bem como da cabeça, e mostrar tão exatamente quanto possível como o coração deveria estar engajado nela. Este, como temos visto, é um interesse peculiarmente puritano, e Edwards mostra sua identidade com a perspectiva puritana ao adotá-lo.
            Em quarto lugar, Edwards foi um verdadeiro puritano em sua abordagem a pregação. Como seus predecessores do século dezessete, ele pregou com um tríplice objetivo: fazer os homens entenderem, sentirem e responderem à verdade do evangelho. Como eles, preparou o assunto de seus sermões segundo o tríplice “método” de proposição, prova e aplicação – “doutrina, razão e uso”, como os puritanos o chamavam. Como eles, ele visou sinceridade de estilo, escondendo sua erudição de baixo de uma clareza de afirmação deliberadamente sem enfeites. Às vezes, é suposto que, porque ele lia um manuscrito no púlpito em um tom firme, calmo e uniforme, e evitava olhar para sua congregação enquanto falava, ele não participava do interesse puritano de pregar com integridade, autoridade e poder sentido – o interesse que Baxter divulgou quando falou de seu desejo de ser “um pregador absolutamente sincero e insistente”, um que
Pregava certo de que nunca pregaria novamente,
E como um moribundo a moribundos.

            Porém, isto é um equívoco. Edwards sabia muito bem que “o principal benefício obtido pela pregação é mediante a impressão produzida na mente na ocasião, e não por meio de um efeito que surge mais tarde mediante uma lembrança do que foi pregado”.[4] E quando a seriedade e veemência evangelística de Whitefield e dos Tennents, durante o avivamento de 1749, encontrou-se sob fogo dos Latitudinarianos, que o viam como um lapso lamentável no “entusiasmo”, no sentido de fantasia fanática, Edwards correu em sua defesa:
Penso ser um caminho excessivamente amoroso pregar acerca das grandes coisas da religião não ter em si a tendência de gerar falsas apreensões delas, mas, pelo contrário, uma tendência muito maior de gerar verdadeiras apreensões delas do que um caminho moderado, tedioso e indiferente de falar delas. [...] Se o assunto for em sua própria natureza digno de muita afeição, então falar dele com grande afeição está mais de acordo com a natureza deste assunto [...], portanto, tem a tendência de gerar verdadeiras ideias dele. [...] Devo considerar a mim mesmo no caminho de meu dever excitar as afeições de meus ouvintes tão alto quanto possivelmente eu puder, desde que eles sejam afetados com nada mais que a verdade. [...] Sei que é moda desprezar um modo de pregação muito ardente e emocional; e somente têm sido avaliados como pregadores os que mostram a grande extensão de erudição, força de argumento e exatidão de método e linguagem. Porém, humildemente entendo que tem sido por busca de entendimento ou por considerar propriamente a natureza humana, que estes pregadores têm sido considerados ter a maior tendência de responder aos fins da pregação. [...] Um aumento no conhecimento especulativo da divindade não é o que nosso povo tanto necessita como outra coisa. Homens podem abundar neste tipo de luz e não ter calor. [...] Nosso povo não tem tanta necessidade de ter suas cabeças abastecidas, como ter seus corações tocados; e eles têm maior necessidade deste tipo de pregação, a qual tem a maior tendência de fazer isto.[5]

            De fato, a própria pregação de Edwards foi poderosa num alto grau. Humanamente falando, ele tinha o dom único de tornar as ideias vivas por meio da precisão clara com que as expunha. Ele desenrola uma seção de raciocínio com uma precisão lenta e regular que é quase hipnótica em seu poder para fixar a atenção nos sucessivos apriscos da verdade que se transforma em conceitos. Tivesse Edwards tido não mais que um dom pagão de ensinos econômicos, ele teria sido, sem dúvida, um executor/cantor de qualidade “Ancient Mariner” na sala de leitura. A este poder expositivo convincente foi adicionado, no púlpito, uma solenidade terrível, indicativa do temor de Deus que estava constantemente sobre seu espírito; e o resultado foi uma pregação que sua congregação não podia resistir nem esquecer. Edwards podia fazer duas horas parecerem vinte minutos enquanto subjugava as consciências de seus ouvintes com as antigas verdades claras sobre o pecado e a salvação; e a calma majestade de sua análise inexorável não era menos usada por Deus para fazer os homens sentirem a força da verdade do que era a veemência cheia de entusiasmo de George Whitefield. Um de seus ouvintes, perguntado se Edwards era um pregador eloquente, respondeu:
Se você por eloquência quer dizer o que geralmente é pretendido em nossas cidades; ele não tem a pretensão de sê-lo. Ele não planejava a variação da voz, e nem ênfase forte. Ele raramente gesticulava ou mesmo se movia; e não fazia nenhuma tentativa pela eloquência de seu estilo, ou pela beleza de suas figuras, para satisfazer o gosto e fascinar a imaginação. Porém, se você por eloquência quer dizer o poder de apresentar uma verdade importante diante de uma audiência, com o peso devastador do argumento, e com esta intensidade de sentimento que toda a alma do orador é lançada em cada parte da concepção e pregação, de modo que é fixada a solene atenção de toda a audiência, do começo ao fim, e as impressões que são deixadas não podem ser apagadas, o Sr. Edwards foi o mais eloquente homem que jamais ouvi falar.[6]

            “Suas palavras”, escreveu seu primeiro biógrafo, Hopkins, “frequentemente revelavam muito de seu fervor interior, sem muito barulho ou emoção externa e caia com grande peso sobre as mentes de seus ouvintes; e ele falava de forma a revelar as fortes emoções de seu próprio coração, que tendia, de uma maneira muito natural e impressionante, a mexer e afetar outros.”[7] Uma comunicação de sentimentos como esta, da verdade sentida, era, de fato, precisamente o que os puritanos tinham em mente quando falavam de pregação “poderosa”.
            Como um amante da Bíblia, um calvinista, um mestre da religião do coração, um pregador do evangelho de unção e poder, e, acima de tudo, um homem que amava a Cristo, odiava o pecado e temia a Deus, Edwards era um puritano puro; de fato, um dos mais puros e maiores de todos os puritanos. Historiadores da cultura americana recentemente redescobriram Edwards como o maior contribuinte para a herança filosófica e literária americana. Deseja-se que os cristãos evangélicos atuais possam redescobrir por si mesmos a importante contribuição que este puritano moderno fez para a elucidação da fé bíblica.

3

            Evangelicais do último século, como um todo, admiraram Edwards, mas apesar de tudo eles lhe prestaram um triplo desserviço. Primeiro, o acusaram de ser ilegível. Porém, alguém deve fazer a experiência para descobrir que isto não é verdade em tudo. O nivelamento desta acusação era, de fato, um caso de grão e feixe. É verdade que Edwards não se encaixa no acolchoamento retórico que o século dezenove considerava como essencial ao bom estilo, mas isto é para seu crédito e não contra ele. Ele é, hoje, muito mais palatável como escritor do que muitos de seus críticos mais antigos. O máximo que alguém pode dizer contra ele é que, ocasionalmente, seu desejo por uma fria precisão de linguagem o leva a escrever sentenças que são muito longas e complexas para fácil assimilação na primeira leitura. Porém, essa é sua única falha estilística, e isto não é comum; na maior parte do tempo ele é admiravelmente claro, exato e penetrante.
            Então, em segundo lugar, o século passado tratou Edwards como um teólogo essencialmente filosófico, principalmente com base na intensidade de The Freedom of the Will (A Liberdade da Vontade). Agora, é verdade que Edwards tem um talento para o raciocínio abstrato, e que cedeu completamente a este nesse tratado particular. Porém, precisamos nos lembrar que tipo de tratado é A Liberdade da Vontade. Ele não é uma obra de teologia bíblica, mas um polêmico ensaio elaborado, dirigido contra o que é, como Edwards realmente via, uma posição essencialmente especulativa e filosófica – a do arminianismo racionalista, que edifica tudo sobre o axioma de que o controle divino da ação humana é incompatível com a responsabilidade moral do homem, e não pode, portanto, ser um fato. Edwards escolheu, obviamente, o caminho mais esmagador para lidar com essa posição – para voltar suas próprias armas contra si mesma; para dar-lhe pontos e uma surra, por assim dizer, em seu próprio terreno. Porém Liberdade da Vontade foi uma apresentação ocasional, e não é característico do restante da obra de Edwards. Fica claro, a partir de suas notas e memorandos privados, que a especulação metafísica o fascinava e era, de fato, seu passatempo, mas ele nunca deixou a filosofia ensiná-lo em sua fé, ou levá-lo para longe da Bíblia. Ele filosofou a partir da fé, não para ela; ele não considerava a especulação como necessária para a salvação, e nenhum indício de seus interesses filosóficos penetra em seus sermões. Ele adquiriu suas convicções e interesses da Bíblia, e é como um teólogo bíblico que sua verdadeira estatura deve ser medida.
            Finalmente – e este é o pior desserviço de todos – os admiradores de Edwards do século passado negligenciaram totalmente a principal contribuição original de Edwards para a teologia, a saber, sua elucidação pioneira do ensino bíblico sobre o tema do avivamento. Esse equívoco talvez seja perdoável, visto que o pensamento de Edwards sobre esse assunto estava publicado de modo fragmentado em cinco obras recentes que ele compôs em seus trinta anos: A Narrative of a Surprising Work of God in the Conversion of many hundred souls em Northampton and the neighbouring Towns and Villages (Uma narrativa da surpreendente obra de Deus na conversão de centenas de almas em Northampton e em cidades e vilas vizinhas, 1735); A History of the Work of Redemption (Uma história da obra de redenção, sermões pregados em 1739, publicados em 1744); The Distinguishing Marks of a Work of the Spirit of God (As marcas distintivas de uma obra do Espírito de Deus, 1741). Thoughts on the Revival of Religion in New England in 1740 (Pensamentos sobre o avivamento da religião na Nova Inglaterra em 1741, 1742); e o Treatise on the Religious Affections (Tratado sobre as afeições religiosas, 1746). Todas essas, salvo a segunda, estão preocupadas, de um modo ou de outro, em justificar os dois avivamentos que o próprio Edwards tinha visto contra a corrente acusação de que eram meras explosões de fanatismo. Esse objetivo imediato pode parecer limitar seu interesse para as futuras gerações de leitores. Incrustado nelas, contudo, está um relato bastante completo do avivamento como obra de Deus – em outras palavras, uma teologia do avivamento – que é mais completa que qualquer coisa produzida na época de Edwards, e é de valor permanente. Esta é, talvez, a contribuição individual mais importante de Edwards tem a fazer para o pensamento evangelical de nossos dias.
            É um fato notável que o interesse no tema do avivamento esteja aumentando nos dias atuais: testemunha o crescimento de sociedades de avivamento de vários tipos dentro das denominações protestantes. Está se espalhando mais e mais a convicção de que somente uma visitação do alto pode alcançar as necessidades das igrejas hoje. Porém, muitos de nós nos encontramos em dúvida quanto ao que o avivamento realmente é, e o que deve ser esperado acontecer se o avivamento vier. E existem dois tipos particulares de enganos neste ponto, aos quais estamos todos inclinados.
            O primeiro é a falácia antiquariana. Caímos vítimas desse engano quando formamos uma concepção do avivamento a partir da história de um avivamento particular no passado, e então construímos nossa concepção, assim formada como uma norma e parâmetro para qualquer movimento de avivamento no futuro. Fazer isso é expor-nos a um duplo perigo.
            Por um lado, nos predispomos a ser muito ligeiros em identificar com o avivamento explosões de excitamento religioso que exibem certos aspectos externos que marcaram algum avivamento do passado – prostrações, visões, canto espontâneo ou qualquer um dos aspectos que nos tem impressionado. Devemos lembrar que o diabo pode produzir formas exteriores de excitamento religioso, assim como o Espírito de Deus, e que, de fato, Satanás tem provocado confusão com frequência na igreja por meio de movimentos de fanatismo auto enganados, que proclamaram a si mesmos, sem dúvida de boa-fé, como movimentos do Espírito Santo em avivamento. Necessitamos de um critério para discernir as duas partes; de outro modo, Satanás estará livre para enganar-nos à medida que ele se deleita em satisfazer nossa fome de avivamento com sua própria marca particular de ilusões “entusiastas”. E precedente – “observação anterior”, como Edwards o chama – não é um critério suficiente por si mesmo para esse propósito. Nas palavras de Edwards, “o que a igreja tem usado não é uma regra pela qual nós devemos julgar”, nestes casos, de um modo ou de outro.[8] Necessitamos de um critério melhor do que este para discernir o espúrio do verdadeiro.
            Então, por outro lado, mediante o conceber o avivamento totalmente em termos de algum avivamento particular passado, tornamos mais difícil para nós mesmos reconhecer algum avivamento futuro que Deus envie. Pois não é o hábito de Deus repetir-se. Não há base para supor que a aparência do próximo avivamento será exatamente como a aparência do último, algo mais do que seria esperar duas pessoas passarem exatamente pela mesma sequência de experiências em suas conversões. Aqueles que somente admitirão que Deus está agindo quando o verem repetindo exatamente algo que ele fez antes, Edwards afirma, “limitam Deus onde ele não limita a si mesmo. E este é especialmente irracional neste caso [i.e., o do avivamento]”. Ele continua:
Todo aquele que tem pesado bem os métodos maravilhosos e misteriosos da sabedoria divina ao conduzir a obra da nova criação – ou no progresso da obra de redenção, desde a primeira promessa à semente da mulher até este tempo – pode facilmente observar que tem sido sempre o modo de Deus abrir novos cenários, e apresentar aos olhos coisas novas e maravilhosas [...], para assombro do céu e terra [...].[9]

            O segundo engano que nos ameaça é a falácia romântica. Caímos neste engano quando permitimos a nós mesmos imaginar que o avivamento, uma vez que ele veio, funcionaria como o último capítulo em uma história de detetive – resolvendo todos os nossos problemas, esclarecendo todas as dificuldades que têm surgido na igreja e deixando-nos em um estado de paz e contentamento idílicos, sem mais inquietação para nos deixar perplexos.
            Um estudo de Jonathan Edwards sobre o avivamento nos previne contra esses dois enganos. Em primeiro lugar, Edwards nos defende da falácia antiquariana ao nos ensinar os princípios bíblicos para determinar se uma erupção de excitamento religioso é um derramamento do Espírito de Deus ou não. “Temos uma regra ao alcance da mão”, ele afirma, “um livro sagrado que o próprio Deus colocou em nossas mãos, com marcas claras e infalíveis, suficiente para esclarecer-nos em coisas desta natureza.”[10] E ele trabalha para mostrar-nos detalhadamente quais são essas marcas.
            Depois, em segundo lugar, Edwards nos defende da falácia romântica ao dirigir constantemente nossa atenção para os problemas que o avivamento traz como consequência. O avivamento significa renovação da vida, e vida significa energia. É verdade que o avivamento liberta a igreja dos problemas criados pela apatia e indiferença, mas é igualmente verdade que o avivamento lança a igreja em um rebuliço de novos problemas criados pela enchente torrencial de vitalidade espiritual desordenada e indisciplinada. Em um avivamento, os santos são, repentinamente, despertados de um estado de indiferença e letargia mediante uma nova e devastadora consciência da realidade das coisas espirituais e de Deus. Eles são como dorminhocos sacudidos, despertados e, agora, meio cegos pelo brilho extraordinário do sol. Dificilmente eles sabem, por ora, onde estão; em um sentido, eles agora veem as coisas como nunca viram antes, todavia, em outro sentido, por causa do próprio brilho da luz, dificilmente eles veem alguma coisa. Eles caem em orgulho, ilusão, desequilíbrio, modo censurador de falar, formas extravagantes de ação. Pessoas não convertidas são envolvidas no que está acontecendo; elas sentem o poder da verdade, embora seus corações permaneçam não regenerados; elas tornam-se “entusiastas”, iludidas e autoconfiantes, duras e amargas, ardentes e presunçosas, excêntricas e fanáticas, briguentas e desordeiras. Então, talvez, elas caiam em pecado espetacular e apostasia total; ou então permaneçam na igreja para escandalizar o restante dos homens pela manutenção, em bases dogmáticas perfeccionistas, que enquanto o que elas fazem seja pecado em outros não é pecado nelas. Satanás (que, como Edwards observa em algum lugar, foi “treinado na melhor escola de teologia do universo”) vai passo a passo com Deus, ativamente pervertendo e fazendo caricatura de tudo o que o Criador faz.
            Um avivamento, consequentemente, é sempre uma obra de Deus desfigurada e, quanto mais poderoso o avivamento for, mais desfiguramentos escandalosos devemos esperar ver. Por isso, não podemos nos surpreender se o avivamento vier a ser negado amargamente por membros respeitáveis da igreja de discernimento espiritual limitado, por causa dos excessos ligados a ele; nem pode causar-nos surpresa descobrir – como regularmente acontece – que muitos ministros mantém-se contra o avivamento, e até mesmo preguem contra ele e tentem suprimi-lo, com base em que de modo algum ele é um fenômeno espiritual. Edwards teve de enfrentar tudo isto em sua própria experiência, e ele nos prepara para enfrentar também. “Nunca deve ser esperada uma obra de Deus sem pedras de tropeço”, ele escreveu de modo apavorante em 1741; “[...] provavelmente veremos mais exemplos de apostasia e iniquidade grosseira entre os que professam [...].”[11] Não; avivamento, embora em si mesmo uma obra purgadora e purificadora de Deus, nunca está livre de desfiguramentos que acompanham. Não precisamos ler mais que o Novo Testamento para apreciar isto. Todavia, isto não deve cegar-nos para o fato de que o avivamento é uma obra real e gloriosa de Deus, e uma grande bênção a ser desejada quando a vitalidade da igreja é baixa. Prosseguiremos, agora, para examinar o relato teológico do avivamento feito por Edwards.

4

            Explanaremos seu ensino sob três tópicos principais.

Princípios concernentes a natureza do avivamento
            Aqui, há três proposições a serem consideradas, das quais a primeira é a mais importante e fundamental, e nos ocupará por mais tempo.
            Primeira, avivamento é uma obra extraordinária do Espírito Santo de Deus revigorando e propagando a piedade cristã em uma comunidade. A avivamento é uma obra extraordinária porque ela marca a inversão abrupta de uma tendência e estado das coisas estabelecidos entre aqueles que professam ser povo de Deus. Encarar Deus revivificando sua igreja é pressupor que a igreja tem crescido moribunda e adormecida antes. Falar de Deus derramando seu Espírito em um avivamento, como Edwards fala, seguindo as Escrituras, é concluir que Deus faz algo repentino e decisivo para mudar um estado das coisas, no qual a influência despertadora do Espírito e um vigoroso senso das realidades espirituais eram resultado de sua ausência.
            Avivamento é uma obra de revigoramento e propagação da piedade cristã. Embora seja por meio do conhecimento da verdade da Bíblia que o Espírito efetue sua obra revivificadora, o avivamento não é meramente, nem mesmo principalmente, uma restauração da ortodoxia. É essencialmente uma restauração da religião. Temos visto o que Edwards entendia ser a religião cristã: um conhecimento experimental com uma resposta prática e sincera às realidades divinas apresentadas no evangelho. É isto que definha durante o período de sono e esterilidade antes da chegada do avivamento, e é isto que o derramamento do Espírito renova. Por isso, “as marcas de uma obra do Espírito de Deus”, i.e., de um avivamento, têm a ver com uma intensificação da piedade experimental. Podemos citar, a partir da detalhada exposição de Edwards dessas marcas, no excelente pequeno tratado sobre 1 João 4.1, o qual traz exatamente a frase citada como seu título.  Tudo que é dito é relevante a nosso assunto, e a passagem como um todo é um exemplo magnífico do estilo expositor de Edwards.
Me limitarei inteiramente àquelas marcas que nos são dadas pelo apóstolo no capítulo em que está meu texto, onde esse assunto é particularmente tratado, e mais clara e plenamente do que qualquer outro lugar na Bíblia. E, ao falar dessas marcas, as tomarei na ordem em que as encontro no capítulo.
            1. Quando a operação é tal que eleva sua apreciação sobre aquele Jesus que nasceu da virgem e foi crucificado fora das portas de Jerusalém; e parece confirmar e estabelecer mais suas mentes na verdade do que o evangelho nos declara sobre ser ele o Filho de Deus e o Salvador dos homens; este é um sinal seguro de que ela é do Espírito de Deus. O apóstolo nos dá esse sinal nos versículos 2 e 3 [...] [que fala de] uma confissão não apenas de que existiu uma pessoa como esta que apareceu na Palestina, e fez e sofreu aquelas coisas que estão registradas sobre ela, mas que ele era o Cristo, i.e., o Filho de Deus, ungido para ser o Senhor e Salvador, como o nome Jesus Cristo significa....
            O diabo possui a inimizade mais amarga e implacável contra essa pessoa, especialmente em seu caráter de Salvador dos homens; ele odeia mortalmente a história e a doutrina de sua redenção; ele nunca cuidaria de gerar nos homens pensamentos mais corretos sobre ela....
            2. Quando o Espírito que está agindo opera contra os interesses do reino de Satanás, que jaz em encorajar e estabelecer o pecado e apreciar as concupiscências mundanas dos homens, este é um sinal seguro de que é um verdadeiro, não um falso, espírito. Este sinal nos é dado nos versículos 4 e 5 [...] por mundo [...] o apóstolo evidentemente quer dizer tudo que se refere ao interesse do pecado, e abrange todas as corrupções e concupiscências dos homens, e todos aqueles atos e objetos pelos quais eles são agradados.
            De modo que podemos determinar seguramente, a partir do que o apóstolo diz, que o espírito que está agindo entre o povo, conforme esse modo, a fim de diminuir a estima dos homens pelo prazer, lucros e honras do mundo, e a remover seus corações de uma busca ansiosa dessas coisas, e a engajá-los em uma profunda preocupação para com o estado futuro e felicidade eterna [...] e o espírito que os convence do horror do pecado, da culpa que ele traz e da miséria à qual ele expõe; deve necessariamente ser o Espírito de Deus.
            E não deve ser suposto que Satanás convença os homens do pecado e desperte a consciência [...]
3) O espírito que opera de tal maneira que causa nos homens maior respeito pelas Santas Escrituras e os fixa mais em sua verdade e divindade, certamente é o Espírito de Deus. Esta regra o apóstolo nos dá no versículo 6 [...] Somos de Deus, isto é, “Nós, os apóstolos, somos enviados de Deus, e ungidos por ele para ensinar ao mundo e para proferir aquelas doutrinas e instruções que devem ser sua regra; aquele que conhece a Deus nos ouve,” etc. O argumento do apóstolo, aqui, alcança igualmente todos que, no mesmo sentido, são de Deus, isto é, todos aqueles que Deus tem ungido e inspirado para entregar a sua igreja sua regra de fé e de prática; todos os profetas e apóstolos [...] em uma palavra, todos os escritores das Santas Escrituras. O diabo nunca tentaria gerar nas pessoas um respeito por esta palavra divina [...] Um espírito de ilusão não inclinará as pessoas a procurar direção na boca de Deus [...] O espírito do erro, a fim de enganar os homens, geraria neles uma opinião elevada sobre a regra infalível, os inclinaria a pensar muito sobre ela e a estar muito familiarizados com ela? O príncipe das trevas, a fim de promover seu reino de trevas, levaria os homens ao sol?
4) Outra regra para julgar os espíritos pode ser extraída dos títulos dados a espíritos opostos nas palavras finais do sexto versículo: “espírito da verdade e o espírito do erro”. Estas palavras exibem duas qualidades opostas, a do Espírito de Deus e a dos outros espíritos que falsificam suas operações. E, portanto, se ao observar o modo de operação de um espírito que está em ação no meio de um povo, vemos que ele age como espírito da verdade, conduzindo as pessoas à verdade, convencendo-as daquelas coisas que são verdade [...], por exemplo, se observamos que o espírito em ação torna os homens mais sensíveis do que eles costumam ser de que há um Deus, e que ele é um Deus grande e que odeia o pecado; que a vida é curta e muito incerta; e que há outro mundo; que eles têm almas imortais e devem prestar contas de si mesmos a Deus; que eles são excessivamente pecadores por natureza; que eles não podem ajudar a si mesmos; e os confirma em outras coisas que concordam com alguma doutrina sadia; o espírito que age assim opera como um espírito da verdade; ele apresenta as coisas como elas realmente são; podemos seguramente determinar que é um espírito correto e verdadeiro. E, portanto, podemos concluir que não é o espírito de trevas que assim revela e manifesta a verdade [...]
5) Se o espírito que está em ação no meio do povo age como um espírito de amor a Deus e ao homem, este é um sinal seguro de que é o Espírito de Deus. O apóstolo insiste neste sinal do versículo 6 até o final do capítulo (1 João 4.6-21). [...] e fala expressamente do amar a Deus e aos homens; de amar aos homens nos versículos 7, 11 e 12; e de amar a Deus nos versículos 17, 18 e 19; e de ambos nos dois últimos versículos. [...] O espírito que [...] opera neles um senso admirável e deleitoso da excelência de Jesus Cristo [...] cativando e atraindo o coração com aqueles motivos e incitamentos para amar, dos quais o apóstolo fala [...], a saber, o maravilhosamente livre amor de Deus ao dar seu Filho unigênito para morrer por nós, e o amor sacrificial de Cristo para conosco, que não tínhamos amor por ele, mas éramos seus inimigos; necessariamente deve ser o Espírito de Deus. [...] O espírito que [...] torna os atributos de Deus, como revelados no evangelho e manifestados em Cristo, deleitosos objetos de contemplação; e faz a alma ter saudades de Deus e de Cristo – por causa de sua presença e comunhão, familiaridade com eles e conformidade a eles – e viver de forma a agradar e honrar a eles; o espírito que reprime disputas entre os homens, oferece um espírito de paz e boa vontade, excita a atos de bondade exteriores e deseja sinceramente a salvação das almas [...] há o mais alto tipo de evidência da influência do espírito verdadeiro e divino.[12]

O julgamento de Edwards é que onde quer que esses frutos estejam aparecendo, ali o Espírito de Deus está em ação; e, portanto, que estes são os sinais que indicam infalivelmente se uma erupção de excitamento religioso, desordenadamente e de algum modo doloroso quanto possa ser, é uma obra de avivamento ou não. O critério do avivamento não é o excitamento e o barulho dos encontros, mas o fruto do Espírito – fé em e amor pelo Pai, pelo Filho e pela Escritura e seu ensino, e boas obras em benefício de outros homens. Onde esses frutos começam a aparecer repentinamente em uma igreja ou comunidade, depois de um período de esterilidade, ali começou, em algum grau, o avivamento, não importa se desfiguramentos possam aparecer ao mesmo tempo.
            A essência da religião, como Edwards a concebia (e ele era um verdadeiro puritano para enfatizar isso), é comunhão consciente com Deus e, sob a intensa influência do Espírito derramado em um período de avivamento, o senso do indivíduo da presença de Deus, o aprofundamento no conhecimento dele e a alegria na segurança de seu amor podem ser elevados a alturas muito extraordinárias. Edwards viu uma grande quantidade disto entre seu povo, mas nenhum caso lhe parecer mais excelente do que o de sua própria esposa, cujas experiências ele descreveu detalhadamente (sem dizer quem era) em Pensamentos sobre o Avivamento, I:v (uma seção intitulada simplesmente: “A natureza da obra em um exemplo particular”). A descrição deveria ser lida totalmente; temos espaço para citar apenas umas poucas frases. A experiência de Sarah Edwards, escreve seu esposo, incluiu os seguintes elementos:
Uma habitação muito frequente por algum tempo considerável em visões da glória das perfeições divinas e das excelências de Cristo; de modo que a alma tem sido como se fosse perfeitamente subjugada e absorvida com luz e amor, uma doce consolação, e um descanso e alegria completamente inexplicáveis. [...] Este grande regozijo tem sido com temor, i.e., acompanhado com um senso profundo e vivo da grandeza e majestade de Deus, e da própria excessiva pequenez e vileza. [...] As coisas já mencionadas têm sido acompanhadas com [...] um senso extraordinário da terrível majestade, grandeza e santidade de Deus. [...] As forças do corpo eram de modo muito frequente tiradas com uma lamentação profunda pelo pecado, como cometido contra um Deus tão santo e bom. [...] Tem havido ali um senso muito grande da verdade exata das grandes coisas reveladas no evangelho; um senso esmagador da glória da obra de redenção e do caminho da salvação por Jesus Cristo. [...] A pessoa sentiu um grande deleite em cantar louvores a Deus e a Jesus Cristo, e um desejo de que esta presente vida pudesse ser, por assim dizer, um contínuo cântico de louvor a Deus. Havia um desejo, como a pessoa expressou, de sentar-se e cantar esta vida continuamente; e um prazer dominante nos pensamentos de gastar a eternidade neste exercício [...].[13]

            Este era o âmago interior da comunhão concretizada com Deus, a verdadeira e pura piedade cristã, para a qual todos os santos são levados, mais ou menos profundamente, mediante a obra revificadora do Espírito Santo. “Se tais coisas são entusiasmo e os frutos de um cérebro destemperado”, escreve Edwards com excelente ironia, “que meu cérebro seja eternamente possuído deste feliz destempero!” Experiências como estas, ele sustentou (e, seguramente, com justiça) eram prova positiva de que o Espírito Santo de Deus estava em ação nos movimentos religiosos dos quais as experiências vinham.
            Deve ser enfatizado, finalmente, sob esse título, que, para Edwards, avivamento significava a restauração da piedade cristã em uma comunidade. O objeto do avivamento era a igreja, e o efeito da bênção era propagar a fé para o não convertido fora da igreja. Avivamento é uma ocupação corporativa. Foi sobre o grupo dos discípulos que o Espírito foi derramado no Pentecoste; é para a igreja que Deus traz despertamento (cf. Is 51.17; 52.1). Isto não é, certamente, negar que cristãos individuais possam ser vivificados espiritualmente enquanto a igreja ao redor permanece morta, mas simplesmente afirmar que a obra característica de Deus, a qual estamos discutindo agora sob o nome de avivamento, é uma obra que, em algum sentido, tem a igreja, não apenas um cristão individual, como seu objeto.
            Segundo, avivamentos possuem um lugar central nos propósitos revelados de Deus. “A finalidade de Deus ao criar o mundo”, declara Edwards, “era preparar um reino para seu Filho (pois ele foi designado herdeiro do mundo).”[14] Essa finalidade deve ser cumprida, primeiro por meio da redenção realizada por Cristo no calvário, e, depois, por meio dos triunfos do seu reino. “Todas as dispensações da providência de Deus daí em diante (desde a ascensão de Cristo), até a consumação final de todas as coisas, são para dar a Cristo sua recompensa e cumprir o fim pelo qual ele fez e sofreu na terra.”[15] É prometido a Cristo um domínio universal, e no período intermediário antes da consumação final, o Pai implementa essa promessa em parte mediante sucessivos derramamentos do Espírito, o que prova a realidade do reino de Cristo a um mundo cético e serve para estender seus limites entre antigos inimigos de Cristo.
Quando Deus manifesta-se com tal poder glorioso em uma obra desta natureza (tal como o avivamento na Nova Inglaterra), ele parece especialmente determinado a atribuir honra a seu Filho, e cumprir o juramento que lhe fez, de que todo joelho se dobraria [...] diante dele. Deus tem tido isto em seu coração desde toda a eternidade, glorificar seu amado e unigênito Filho; e existem algumas ocasiões especiais que ele determina para esse fim, nas quais ele vem com poder onipotente para cumprir sua promessa [...] para com ele. Agora são essas ocasiões de extraordinário derramamento de seu Espírito para promover seu reino; esse é o dia de seu poder [...].[16]

E Edwards vai além. Ele declara:
Desde a queda do homem até nossos dias, a obra da redenção, em seus efeitos, tem sido principalmente conduzida mediante extraordinárias comunicações do Espírito de Deus. Embora haja uma influência mais constante do Espírito de Deus acompanhando em algum grau suas ordenanças, todavia, o caminho pelo qual as maiores coisas têm sido feitas para conduzir essa obra sempre tem sido mediante efusões extraordinárias, em ocasiões especiais de misericórdia [...].[17]

            Com base na pressuposição de que cada avivamento da piedade vital entre o povo de Deus registrado indica um derramamento do Espírito, Edwards procura mostrar que essa generalização tem relação com a história bíblica, e que não temos razão para duvidar que ainda tem. Edwards, como um pós-milenista, estava ansioso pela conversão do mundo; e ele predizia confiantemente que esta seria a consequência direta de um poderoso avivamento por toda a igreja, que levaria a uma ofensiva missionária sem precedentes a todas as partes do globo.
            Consequentemente, quando a vida da igreja se encontra em decadência e os julgamentos de Deus sobre ela falham, e o trabalho missionário está em declínio, o cristão deveria esperar por um derramamento do Espírito que inverterá a forma como as coisas estão. E ele tem autorização para acolher uma esperança como esta, e expressá-la em suas orações: autorização não com base em qualquer mérito por parte da igreja, mas na determinação eterna do Pai de glorificar o Filho em seu reino.
            Terceiro, os avivamentos são as mais gloriosas de todas as obras de Deus no mundo. Edwards insiste nisto para envergonhar os que não manifestavam interesse no avivamento divino que viera à Nova Inglaterra, e insinuavam por sua atitude que a mente do cristão poderia estar ocupada de modo mais proveitoso com outros assuntos.
Tal obra é, em sua natureza e tipo, a mais gloriosa dentre as obras de Deus, seja qual for [Edwards protesta]. É uma obra de redenção (a grande finalidade de todas as outras obras de Deus, e da qual a obra da criação era apenas uma sombra) [...] é a obra da nova criação, a qual é infinitamente mais gloriosa que a antiga. Ouso dizer que a obra de Deus na conversão de uma alma [...] é mais gloriosa obra de Deus do que a criação de todo o universo material [...].[18]

            Em consequência, portanto, Edwards sugere que o tema do avivamento será doce e apaixonante para o cristão de mente correta, cujo coração se regozija quando vê a glória de Deus, e que o crente professo que não pode despertar interesse no assunto deve estar espiritualmente em um estado muito pobre.

Princípios concernentes à forma externa do avivamento

            Podemos ser breves aqui, pois já temos indicado como Edwards concebia esse assunto. Ele mesmo expõe todos os pontos que estão sob esse título com aplicação particular ao avivamento na Nova Inglaterra, mas nós os expressaremos de uma forma mais generalizada.
            Avivamento, Edwards nos diz, é uma obra mista. O joio de Satanás se intromete em cada ponto entre o trigo de Deus. De um ponto de vista, isto torna a obra de Deus mais evidente.
A glória do poder e da graça divinos são realçados com maior resplendor pelo que aparece, ao mesmo tempo, da fraqueza do vaso de barro. É do agrado de Deus manifestar a fraqueza e indignidade do objeto ao mesmo tempo que ele exibe a excelência do seu poder e as riquezas de sua graça.[19]

            Deus se agrada em permitir a fraqueza e o pecado humanos irromperem-se em tempos de avivamento, a fim de tornar evidente, além de toda dúvida, que os frutos espirituais do movimento nascem, não de qualquer bondade nas pessoas interessadas, mas somente de sua obra da graça. Assim que Edwards escreve novamente:
É muito análogo ao modo de Deus lidar com seu povo permitir uma grande quantidade de erro, e tolerar o aparecimento da debilidade de seu povo no começo de uma obra gloriosa de sua graça, para felicidade de seu povo ensiná-lo o que ele é, humilhá-lo e prepará-lo para aquela gloriosa prosperidade à qual ele está prestes a levá-lo, e assegurar para si a honra dessa obra gloriosa. Pois, mediante a excessiva fraqueza do homem aparecendo no começo dela, fica evidente que Deus não coloca o fundamento dela na força ou sabedoria do homem.[20]

Consequentemente, Satanás não está impedido de trabalhar em tempos de avivamento. E Satanás tem uma estratégia característica, a qual ele emprega em tempos como este.
Quando ele descobre que não pode mais manter os homens quietos e seguros, então ele os dirige a excessos e extravagâncias. Ele os detém o quanto pode, mas quando não pode mais fazê-lo, então os empurra e, se possível, os faz bater suas cabeças.[21]

            Assim, ele procura fascinar os crentes avivados por meio da exploração da força de seus sentimentos, tentando-os ao orgulho, à disposição de condenar e criticar, à impaciência para com toda ordem estabelecida na igreja, e a uma crença persistente de que o Espírito tem mais liberdade para trabalhar quando os cristãos se deixam em um estado de desorganização, e quando os ministros pregam sem perder tempo preparando seus sermões; como se espontaneidade repentina fosse a forma ou a condição suprema de espiritualidade. Satanás, além disso, procura iludir os crentes avivados mediante sugestões e inspirações imediatas, convidando-os a concluir que todos os pensamentos e textos que veem à sua mente espontaneamente devem ser mensagens de Deus. Por este e por outros meios, ele procura levá-los a imprudências de todos os tipos no calor de seu zelo. Este é seu modo normal de procedimento quando um avivamento está em progresso. Edwards o delineia mais plenamente na quarta parte de seu Pensamentos sobre o Avivamento.
            É por essa razão, Edwards insiste, que é de vital importância julgar os movimentos espirituais, não por seus fenômenos imediatos ou derivados, mas por seus efeitos finais nas vidas dos envolvidos neles. Se você se concentrar no fenômeno, você sempre pode encontrar uma grande quantidade que é espúria, imponderada, teimosa, bárbara e fanática; e então você tentará concluir que não há nada de Deus no movimento. Porém, como vimos, o caminho correto para avaliar o que está acontecendo é ver se, em meio ao tumulto e desordem, aparecem as “marcas distintivas de uma obra do Espírito de Deus”. Se elas estão ali, então podemos saber que é Deus em ação.
            Seremos sábios em não concluir muito apressadamente que o que Edwards está dizendo não significa nada para nós. Seria insensato imaginar que, se Deus derramasse seu Espírito hoje, nós seríamos capazes de reconhecer imediatamente o que está acontecendo. Avivamento sempre vem por caminhos inesperados, por meio de pessoas inesperadas e frequentemente não desejadas. Não devemos descartar a possibilidade de que um dia nós mesmos estaremos confusos diante de um movimento espiritual efervescente e barulhento, duvidando se é de Deus, e nos encontrarmos fortemente impelidos por nosso desgosto natural por seus rudimentos superficiais e estupidez na teologia, adoração e moralidade a não olhar além, mas rejeitar imediatamente. Em tais ocasiões, necessitaremos trazer em mente o que Edwards nos tem dito sobre o caráter misto dos avivamentos e os princípios de julgamento que devem ser aplicados em casos assim.

Oração por avivamento

            “É da vontade de Deus”, escreveu Edwards,
por meio de sua maravilhosa graça, que as orações de seus santos seja um dos principais e maiores meios de realizar os desígnios do reino de Cristo no mundo. Quando Deus tem algo muito grande a realizar a favor de sua igreja, é sua vontade que isso seja precedido por orações extraordinárias de seu povo; como é evidente em Ezequiel 36.37, “Assim diz o Senhor Deus: Ainda nisto permitirei que seja eu solicitado pela casa de Israel: que lhe multiplique eu os homens como um rebanho.” [veja o contexto]. E é revelado que, quando Deus está prestes a realizar grandes coisas a favor de sua igreja, ele começará mediante um extraordinário derramamento do espírito de graça e de súplica, Zacarias 12.10.[22]

            Sendo assim, os cristãos que desejam o avivamento possuem um forte incentivo para orar por ele. Isto não é tudo, os cristãos têm o dever positivo de orar por ele. Edwards procurou provar isto em Uma humilde tentativa de promover explícita concordância e união visível do povo de Deus em oração extraordinária pelo avivamento da religião, um tratado que escreveu em apoio a uma petição que circulou por toda a cristandade de fala inglesa, em 1746, feita por alguns ministros escoceses, convocando para oração “extraordinária” especial pela conversão do mundo, no sábado à noite, no domingo pela manhã e na primeira quinta-feira de cada trimestre, durante um período de sete anos. Edwards defendeu o dever de se fazer orações como estas a partir de predições e promessas bíblicas sobre a expansão da igreja, as quais mostravam estar de acordo com a vontade de Deus que os homens orassem por um avivamento mundial, a partir dos termos da Oração do Senhor e também a partir da necessidade incontestável de avivamento na igreja mundial dos dias de Edwards. (O avivamento na Nova Inglaterra tinha diminuído grandemente em 1742.) Citamos duas passagens provocadoras:
Se examinarmos a Bíblia toda e observarmos todos os exemplos de oração que encontramos registrados ali, não encontraremos tantas orações por alguma outra misericórdia quanto por libertação, restauração e prosperidade da igreja, e o progresso da glória de Deus e do reino da graça no mundo [...] a maior parte do Livro dos Salmos é composta de orações por essa misericórdia, profecias sobre ela e louvores proféticos sobre ela [...].

A Escritura não apenas manifesta abundantemente ser o dever do povo de Deus estar muito em oração por essa grande misericórdia, mas ela também é abundante com múltiplas considerações para encorajá-lo nela. [...] Talvez não haja uma coisa que a Bíblia prometa tanto, a fim de encorajar a fé, a esperança e as orações dos santos, quanto isto; que se permita ao povo de Deus a evidência mais clara de que é seu dever estar muito em oração por esta misericórdia. Pois, indubitavelmente, o que Deus faz abundantemente assunto de suas promessas, o povo de Deus deve fazer abundantemente o assunto de suas orações [...].[23]

            É natural querer saber qual o resultado deste chamado à oração de 1746. Não podemos, certamente, saber quantas orações foram feitas durante os sete anos que se seguiram, nem se a oração “extraordinária” continuou depois de 1753 entre os que tinham criado o hábito. Com certeza, nada muito surpreendente aconteceu no início. O avivamento evangelical na velha Inglaterra esfriou um pouco após sua primeira década maravilhosa, 1735-45, e a Nova Inglaterra ficou espiritualmente seca por uma geração depois do Grande Avivamento. Porém, a partir da década de 1770 em diante, pregadores metodistas na Grã-Bretanha e na América do Norte viram um grande crescimento e condições renovadas de avivamento ocasionalmente; o Segundo Grande Avivamento floresceu na década de 1790; e a mesma década viu o avivamento na Noruega sob Hauge e na Finlândia sob Ruotsalainen, acrescido do início do movimento missionário protestante que, dentro de uma geração, deu ao cristianismo evangelical pelo menos um apoio para os pés em todas as partes do mundo conhecido da época. Esta fresca explosão de energia espiritual vital estava relacionada às orações que foram feitas décadas antes? Teria ele ocorrido como ocorreu sem elas? É fascinante conjecturar – apesar de conjecturas continuarem conjecturas, quando tudo está dito e feito.
            Porém, seja como for, aqui está uma tarefa para todo o povo de Deus em todas as épocas: orar para que Deus edifique Sião e faça sua glória aparecer nela mediante a bênção do avivamento. Faremos bem em tomar as palavras de Edwards no coração, e com elas suas observações finais neste tratado, com as quais terminamos este capítulo:
E eu espero que todos quantos estão convencidos de que é seu dever cumprir e encorajar este desígnio, se lembrarão que devemos não apenas nos apressar em orar diante do Senhor, e buscar sua misericórdia, mas também devemos ser constantes em orar. Devemos unir em nossa prática estas duas coisas, as quais nosso Salvador une em seu preceito, Orar e Não Esmorecer. Se continuarmos orando por alguns anos, e nada extraordinário for provido, ainda que Deus tenha ouvido e respondido, devemos agir como crentes muito inconvenientes, se, portanto, devemos ficar desanimados, entediados e negligente em buscar em Deus tão grande misericórdia. É evidente, na Palavra de Deus, que ele costuma testar frequentemente a fé e a paciência de seu povo, quando este clama a ele por alguma grande e importante clemência, retendo a misericórdia buscada, por um período; e não apenas dessa forma, mas em um primeiro momento para acusar um aumento das manifestações das trevas. E ainda assim, ele, sem falhar, por fim torna vitoriosos aqueles que continuam em oração, com toda perseverança, e “não o deixará ir a menos que abençoe [...]”. Quaisquer que sejam nossas esperanças, devemos nos contentar em ser ignorantes acerca dos tempos e estações, que o Pai tem em seu controle; e devemos estar dispostos pois Deus responde às oração e cumpre suas promessas gloriosas, em seu próprio tempo.[24]

“Jonathan Edwards and Revival” in A Quest for Godliness: The Puritan Vision of the Christian Life. Wheaton, Illinois: Crossway Books, 1990
Tradução: Paulo Corrêa Arantes


[1] Jonathan Edwards, Works, II:7; o sermão começa na p. 3.
[2] Ibid, II:7; o sermão começa na p. 12.
[3] Ibid, I:237, 238.
[4] Ibid, I:394.
[5] Ibid, I:391.
[6] Ibid, I:ccxxxii (de Dwight’s Memories of Edwards).
[7] Loc cit.
[8] Ibid, II:261.
[9] Ibid, I:369.
[10] Ibid, I:375.
[11] Ibid, II:273.
[12] Ibid, II:266-269.
[13] Ibid, I:376f.
[14] Ibid, I:584.
[15] Ibid, I:583.
[16] Ibid, I:380. No contexto, Edwards se refere aos Salmo 2 e 110.
[17] Ibid, I:539.
[18] Ibid, I:379.
[19] Ibid, I:380.
[20] Ibid, I:374.
[21] Ibid, I:397.
[22] Ibid, I:426.
[23] Ibid, II:291.
[24] Ibid, II:312.

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