Frase da Semana

Assim, tudo é de Deus, está em Deus e existe para Deus; ele é o começo, o meio e o fim.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Jonathan Edwards: Vida Familiar

Para informações sobre a vida familiar de Edwards, veja as seguintes obras: 

Kenneth P. Minkema, “Hannah and her Sisters: Sisterhood, Courtship, and Marriage in the Edwards Family in the Early Eighteenth Century”, New England Historical and Genealogical Register CXLVI (1992), 35-56.
Ola Winslow, Jonathan Edwards (New York, 1940), chs. 1-2.
Jonathan Edwards: A Life, by George Marsden

Família de Edwards – Kenneth P. Minkema

            A família Edwards era originária do País de Gales, mas Jonathan Edwards traçou sua linhagem pessoal a Londres do início do século 17, quando os puritanos criticavam ardentemente a corrupção da Igreja Anglicana. O Rev. Richard Edwards deixou sua terra natal para tornar-se reitor da Ratcliffe Free School. Pouco sabemos sobre este personagem, exceto que ele morreu na praga de 1625. Sua viúva, Anne, casou-se com James Cole, um tanoeiro (construtor de barris) e dissidente religioso. James, Anne, seu filho William Edwards de dezesseis anos de idade e sua irmã Abigail Cole emigraram para Cambridge, Massachusetts, em 1635, a fim de escapar da prisão por dívida. Ali, eles se juntaram ao grupo de Thomas Hooker, que estava se preparando para partir e estabelecer uma colônia em Connecticut. James transmitiu sua s habilidades de fazer barril para seu meio filho, o qual, por sua vez, deixou o negócio da família em herança para seu único filho, Richard, nascido em Hartford, em 1647. Richard estabeleceu uma atividade comercial próspera e, em 1708, foi nomeado como o primeiro representante/procurador da rainha da colônia.
            Richard Edwards casou-se com Elizabeth Tuthill, de New Haven, em 1667. Seu relacionamento foi conflituoso desde o início. Apenas três meses após seu casamento, ela confessou estar grávida de outro homem. Ao invés de separar-se, Richard concordou em deixar os pais de sua esposa criarem a criança, e pagou a multa por fornicação. (Na Nova Inglaterra colonial, se um casal tivesse um filho apenas sete meses depois do casamento, presumia-se que houve relação sexual antes do casamento e, portanto, o casal era culpado de fornicação.) Durante os vinte e quatro anos seguintes, o casal teve sete filhos – um filho e seis filhas – embora sua relação fosse de mal a pior. A tradição familiar tem retratado Richard como virtuoso e paciente, enquanto que Elizabeth, quando ela é mencionada, é considerada insana. Houve algum fundamento para isso; houve uma história de violência em sua família. Seu irmão matou a irmã com um machado, e outra irmã cometera infanticídio. Quer Elizabeth fosse insana ou não, ou que participação Richard tinha no mau relacionamento do casal, nunca será totalmente conhecido. Alegadamente, Elizabeth estava sujeita a ataques de depressão, violência e abuso verbal, ameaçando matar seu marido. Supostamente, ela se recusou a ter “comunhão conjugal” com ele. Com base no testemunho de seus próprios filhos, ela abandonou o marido e a família por vários anos. O que está claro, também, é que Richard pediu o divórcio, o qual finalmente foi concedida em 1691. Os avós de Edwards estiveram entre os primeiros casais a se divorciarem na Nova Inglaterra colonial. No ano seguinte, Richard se casou novamente com Mary Talcott, de New Haven, e o casal teve seis filhos, quatro dos quais viveram além da infância.
            O primeiro filho que Richard e Elizabeth tiveram, Timothy, nasceu em 1669. Ele estudou no Harvard College, mas foi excluído do campus em seu segundo ano por causa de alguma indiscrição, possivelmente decorrente dos primórdios do processo de divórcio de seus pais (ele foi um dos dois filhos que tiveram de testemunhar no tribunal contra sua própria mãe). Ele foi estudar com Rev. Pelatiah Glover de Springfield, e retomou sua vida. Em 04 de julho de 1691, ele chegou a Cambridge e passou nos exames tanto para o bacharelado quanto para o mestrado em um único dia. De lá, ele aceitou um convite para a cidade de Windsor Farmes, ou East (agora do Sul) Windsor, Connecticut, no lado leste do rio Connecticut, no outro lado de Windsor. Ele ajudou a reunir uma nova igreja, e deu início uma pastorado de mais de sessenta anos. A personalidade obsessiva de Timothy, o desejo de controle e a inveja por seu salário tornaram a relação com sua congregação tensa, às vezes – ao ponto de ele mesmo suspender a Ceia do Senhor por três anos! – mas durou. Avivamentos foram uma característica regular da vida da igreja em East Windsor. Timothy tinha uma reputação como o mais bem-sucedido pregador de avivamento em Connecticut, e era o segundo na Nova Inglaterra, apenas abaixo do seu sogro, Stoddard, que teve uma série de “colheitas” ao longo do final do século 17 e início do século18.
            Como o relacionamento ganho/perda de seu pai com sua congregação indica, a cultura da família de Jonathan e os exemplos que ele tinha diante de si, são importantes para sua compreensão. Antes do estabelecimento de Timothy em East Windsor, ele se casara com Esther Stoddard, filha do influente ministro Solomon Stoddard, de Northampton. O casal teve onze filhos, dez meninas – Timothy refere-se a seus “sessenta pés de filhas” – e um filho, Jonathan, nascido em 1703. Timothy e Esther tanto educaram seus filhos, quanto deram a suas filhas uma educação preparatória de faculdade ao lado de seu filho. As irmãs de Jonathan estão entre os membros mais interessantes de sua família. Eram quase todas muito inteligentes, muito teimosas, com raciocínio rápido e gostos cosmopolitas, ao mesmo tempo, completamente parte da cultura religiosa evangélica do Vale. Das irmãs de Jonathan, duas Jerusha e Lucy – morreram jovens, vítimas de epidemias; outra, Mary, permaneceu solteira e cuidou, primeiro, de seus avós e, depois, de seus pais; e as restantes casaram-se com pastores e outros homens de destaque. Há muitas histórias sobre suas relações como irmãs, seus namoros e casamentos, alguns tristes, outros humorísticos. Hannah, por exemplo, era persona non gratis em East Windsor, por causa de um contínuo desacordo com um jovem da cidade, que insistia que ela estava legalmente obrigada a se casar com ele; somente após mais de uma década de ser molestada, ela foi finalmente capaz de casar-se com uma pessoa de sua escolha e ser feliz. Uma história sobre Martha oferece uma amostra de sua reputação na família. O Rev. Moses Tuthill veio até seu pai, pedindo permissão para pedir sua mão. Quando Timothy hesitou, Moses perguntou se ela não era uma pessoa religiosa. “Oh, sim”, respondeu Timothy; “Martha é uma boa menina. Porém, irmão Tuttle, a graça de Deus vai onde você e eu não poemos.”
            Jonathan se casou com Sarah Pierpont, de New Haven, em 1727, apenas, do modo como seu pai, quando ele estava prestes a se estabelecer como pastor assistente em Northampton. Jonathan e Sarah também tiveram onze filhos, oito filhas e três filhos, todos viveram até a idade adulta, exceto Jerusha, que morreu depois de cuidar do moribundo missionário David Brainerd – embora ela tenha morrido devido a uma febre, não de tuberculose, como Brainerd. O fato de que Jerusha cuidou David em sua doença final, e que viajaram para Boston juntos, deu origem a uma tradição que eles estavam romanticamente envolvidos, até mesmo noivos. Não há nenhuma evidência que apoie isto. Jerusha tinha apenas dezesseis anos no período em que ela cuidou de Brainerd, bem abaixo da média de idade para se casar na época. Além disso, era comum homens jovens acompanharem as mulheres jovens em viagens longas; esta impropriedade parece, na verdade, apenas ser ofensiva às sensibilidades vitorianas posteriores, e assim um “noivado” foi inventado.
            Tal como acontece com os irmãos de Jonathan, há muitas coisas para contar sobre seus filhos, mas deve ser suficiente aqui apenas alguns exemplos ilustrativos. Mary, que se casou com Timothy Dwight (e cujo filho veio a ser o presidente de Yale e útil no Segundo Grande Avivamento), carregou para sempre um rancor contra Northampton pela demissão de seu pai. Embora tenha vivido na cidade até sua morte, ela se recusou a entrar no santuário; em vez disso, assentava-se em uma cadeira no corredor qua levava ao santuário durante os serviços, e participava do sacramento em uma igreja vizinha. Esther, certamente, se casou com Aaron Burr, pastor de Elizabethtown, Nova Jersey, e antecessor de Jonathan como presidente do College of New Jersey; seu filho, Aaron Jr., tornou-se vice-presidente dos Estados Unidos com Jefferson, mas sua carreira terminou quando ele atirou e matou Alexander Hamilton, em um famoso duelo em 1803. Jonathan Jr. tornou-se um ministro e presidente de faculdade como o seu pai, e, de fato, existem muitas semelhanças estranhas entre sua trajetória, incluindo a demissão de um pastorado de muitos anos seguido de “exílio” em uma igreja do interior. Pierpont, o filho mais novo, foi um tipo de rebelde da família – ele se tornou jeffersoniano, maçom e advogado – três ataques contra ele na Nova Inglaterra federalista e calvinista. A filha de Pierpont, Henrietta, casou-se com Eli Whitney, o famoso inventor.

Jonathan e Sarah: “União Excepcional”

Em 1723 ou aproximadamente, Jonathan Edwards escreveu uma apóstrofe para uma jovem mulher de “esta cidade”, significando, com toda a probabilidade, New Haven. Esta breve peça, um poema em prosa, do qual não existe nenhum manuscrito original, tem sido tradicionalmente interpretado como hino de louvor para a mulher com quem ele iria se casar em 1727. Se Edwards não tinha encontrado Sarah Pierpont antes de vir estudar em New Haven, ele certamente começou seu tempo de residência no alojamento para estudantes da faculdade em 1719. Ele tinha vinte anos e Sarah treze anos quando ele, aparentemente, apresentou à filha do ministro New Haven um livro com uma inscrição na folha em branco.
A intenção de Edwards de um epitalâmio não era para ser espirituoso ou elegante. O tema da sua meditação era a rica comunhão de Pierpont com o Criador. A introdução do Apóstrofe diz:

Eles dizem que há uma jovem senhora em [New Haven] que é amada daquele Ser Todo-poderoso, que fez e governa o mundo, e que há determinadas épocas do ano em que este grande Ser, de uma forma ou outra invisível, vem a ela e enche sua mente com excelente e doce deleite, e que ela quase não se preocupa com nada, exceto meditar sobre ele – que ela espera que depois de algum tempo ser recebida onde ele está, a ser levantada para fora do mundo e ser levada rapidamente ao céu; estando segura de que ele a ama muito para deixar que ela fique sempre a certa distância (ao longe) dele.

            Para Edwards, Pierpont era um ser etéreo, quase angelical. Ela tinha uma fonte de alegria que era um mistério para os outros, embora não para ele. Ela tinha mais conversa com o Grande Ser do que com outras criaturas, e estava contente com isso. Como Edwards, que em “Personal Narrative” (Narrativa Pessoal) descreveu a sua experiência de “doçura interior” como culminando em “uma espécie de visão... de estar sozinho nas montanhas,... conversando docemente com Cristo”, Pierpont gostava de “passear nos campos e nas montanhas”, onde ela podia ter comunhão com Deus. Ela resumiu o ideal de piedade de Edwards: doçura, virtude, pureza e mentalidade celestial.
            Há, na apóstrofe, uma corrente subjacente de desejo, até mesmo inveja, pelo mesmo acesso a Deus que Pierpont desfrutava. Edwards a elogiou como um modelo a imitar por suas virtudes espirituais. Neste sentido, a pessoa retratada era uma expressão da visão de Edwards do verdadeiro santo. No entanto, Edwards não era o único homem a ficar impressionado com Pierpont. George Whitefield orou para que Deus lhe enviasse uma esposa como Sarah Pierpont Edwards, e Samuel Hopkins, o mais famoso discípulo de Edwards, foi grandemente influenciado por sua piedade auto-negadora em sua formulação do “desinteresse”. Assim, o esforço de Edwards para retratar a piedade de modo teórico e em vidas concretas começou com sua futura esposa, como verdadeira crente e santa ideal, como visto em composições futuras, incluindo a sua própria “Personal Narrative” (Narrativa Pessoal) e outras biografias espirituais. Uma dessas oportunidade se apresentou em 1742, no auge do Grande Avivamento, quando Sarah experimentou uma série de episódios religiosos dramáticos. Aqui, ela apareceu mais humana do que na apóstrofe, e mais dedicada a preocupações mundanas, mas elas forneciam o trampolim emocional para transes e “êxtases” prolongados a um “elísio celestial”.
            Se “On Sarah Pierpont” (Sobre Sarah Pierpont) foi simbólico, ele também foi extremamente pessoal. Jonathan e Sarah foram casados por vinte e um anos, criaram onze filhos, e sofreram muitas dificuldades juntos. Porém aqueles que os observavam e a sua família comentavam sobre sua vida extraordinária juntos. Whitefield não conseguia se lembrar, em todas as suas viagens, de um “casal mais carinhoso”. John Wesley escreveu, “Certamente há uma... União de alma entre os crentes, uma doçura perceptível em algumas [ve]zes; eu penso que eu amo o Sr. Edwards e sua esposa, porque eu vejo muito [da] imagem de Deus neles”. Cinco anos mais tarde, Joseph Emerson, de Concord, descreveu a família Edwards como “a família mais encantadora que jamais conheci. [M]uito da Presença de Deus ali”. Em seu leito de morte, Jonathan falou da “união excepcional” que o ligara a Sarah, uma união que, o mais importante para ele, era espiritual.
            Haviam, no entanto, aspectos menos auspiciosos para o seu relacionamento. A família de Jonathan tinha um passado obscuro, que incluía um relacionamento violento entre seus avós, o qual terminou em um prolongado processo de divórcio. Os êxtases de Sarah de 1742 começaram quando ela temia que ela, angustiada que tivesse atraído sobre si a “má vontade” de Jonathan sobre uma “questão de prudência”, e, em um fragmento não publicado de sua narrativa, o imaginou “chicoteando-a” fora da cidade. Edwards incentivou sua esposa a escrever a narrativa de suas experiências, a qual ele usou em “Some Thoughts Concerning the Revival” (Alguns pensamentos concernentes ao Avivamento); apesar de elogiá-la grandemente, ele apresentou seu texto de forma neutra, de forma eficaz “silenciando” a verdadeira voz de Sarah.
            De maneira intrigante, Edwards ofereceu algumas posições hipócritas (com duas faces) sobre questões de gênero. Um dos aspectos distintivos da família de Edwards foi a preponderância de mulheres nela. Jonathan cresceu como o único filho de uma família de onze, e ele e sua esposa Sarah Pierpont criaram oito filhas, as quais eram muito educadas e eruditas. Os membros da família de Edwards eram bastante cosmopolitas em seus conceitos sobre gênero e casamento, apesar de não refutar a sabedoria recebida da antiga cultura europeia moderna que, dentro da ordem da natureza, as mulheres eram os “vasos mais fracos”. Mesmo assim, Edwards sentia que, entre seus parentes e esferas adequadas, homens e mulheres eram iguais, e que o casamento era uma relação de companheirismo. Estamos apenas começando a apreciar a parte de Edwards na história do gênero. Ele foi um patriarca tradicional, mas não misógino (homem que tem repulsa às mulheres). Ele procurou abreviar o discurso público feminino, mas reconheceu que elas eram mais espirituais que os homens. A maioria dos seus sustentadores em Northampton eram mulheres. As pessoas que ele escolheu como exemplos de verdadeira santidade eram todas mulheres – Abigail Hutchinson, Phoebe Bartlett, sua esposa Sarah – com exceção do decididamente não-viril David Brainerd. E a assim chamada espiritualidade “femininizada” de Edwards, com sua ênfase nos afetos e na expressão das emoções, exerceu uma grande influência na literatura de sentimentalismo que surgiu em escritoras femininas durante o período de anterior à Guerra Civil americana.
            Edwards e sua extensa família eram parte do que tem sido chamado de “o refinamento da América”, no qual os colonos britânicos do século 18 procuravam imitar a última moda e predileção inglesa. O inventário dos bens de consumo da família Edwards revela principalmente dispositivos funcionais, mas os gostos relativamente refinados da família são demonstrados por meio de certos itens. O próprio Edwards usava um chapéu de castor, um belo colete calamanco (Flanders de lã tecida com uma sarja de cetim), fivelas curvas de prata, óculos e uma bengala. Sua esposa usava ruge e vestidos de chita azul, e possuía uma pequena caixa de remendo de prata entalhada, que não continha itens para remendar, mas sim marcas de beleza redondas de feltro, que se assemelham a verrugas, que eram coladas na face. Até mesmo nos confins de Stockbridge, ela manteve as marcas literais de alta cultura europeia. A família tinha um serviço de chá e comia em pratos e copos de porcelana, com toalhas de mesa e guardanapos de damasco, e as paredes eram decoradas com espelhos, e “pequenos quadros” – gravuras emolduradas ou possivelmente até mesmo aquarelas pintadas por Sarah ou suas filhas – uma versão da vida provincianamente requintada, embora sem ostentação.
            O senso de status de Edwards estendia-se para questões que envolviam corrida. Ser dono de escravos era um símbolo de status social, e durante sua vida ele foi dono de uma série de escravos africanos. De fato, Edwards defendeu a instituição da escravidão como ordenado por Deus nas Escrituras. No entanto, ele chegou a se opor ao comércio de escravos como um impedimento para a propagação do evangelho na África, fornecendo assim uma base para o abolicionismo defendido por seu filho, Jonathan Jr. e por discípulos como Samuel Hopkins. Para Edwards, assim como a sociedade branca era ordenada verticalmente, havia hierarquias raciais também. Durante grande parte de sua vida, ele aderiu à sabedoria aceitável da época, que os africanos, os índios e os judeus eram culturalmente inferiores aos cristãos brancos europeus.
            Sarah, como reguladora da esfera doméstica, era quem provavelmente estava mais diretamente interessada na supervisão diária dos escravos da família do que Jonathan, procurava com rigor potenciais escravos, o que mostra que as mulheres exerciam uma habilidade tão ativa no mercado de escravos quanto os homens. Escrevendo, em 1746, a um colega ministro que agia como um intermediário, Jonathan escreveu, “Minha esposa pede que a pessoa que você adquirir... seja sua empregada, seja alguém esforçada na fiação de linho fino”. Em 1754, Sarah expressou (via uma carta de seu esposo) interesse na compra de uma “mulher negra” pertencente ao Rev. Joseph Bellamy, e novamente, em 1757, ela perguntou sobre a compra de Harry, um escravo que tinha pertencido a seu falecido genro, o Rev. Aaron Burr. Sarah morreu de desinteria, na Filadélfia, em outubro de 1758, seis meses depois de seu esposo sucunbir diante das complicações resultantes de uma vacinação de varíola, em Princeton. Seu testamento, escrito em seu leito de morte, não fez provisão quanto à libertação dos escravos casados, Joseph e Sue, antes, repartiu sua propriedade igualmente entre seus filhos. Em 1759, o casal foi “vendido, conduzido e entregue no mercado aberto” pelos executores designados por Sarah de sua última vontade e testamento, seu filho Timothy e seu genro Timothy Dwight.
            Sem levar em consideração, mais tarde, e evento muito recente, a literatura evangélica romantizou a vida de Jonathan e Sarah no interesse de criar um poema de vida familiar cristã. Escritores da religião popular têm usado a “Apóstrofe” e as palavras agonizantes de Edwards a sua esposa para criar um quadro romântico do relacionamento entre eles, frequentemente recuperando sua descrição de seu relacionamento como uma “união excepcional”. A importância de seu relacionamento com Sarah era, não temos razão para duvidar, sua natureza espiritual. No entanto, românticos têm, ocasionalmente, usado o pequeno conhecimento histórico que temos sobre Sarah Pierpont para criar narrativas grandemente fictícias sobre a vida doméstica do casal Edwards. A mais notável nesta inclinação é “Marriage to a Difficult Man” (Casamento para/com um homem problemático, 1971) de Elisabeth Dodds, e seus imitadores. Alguns escritores têm até mesmo inventado memórias e cartas de Sarah no interesse de criar um poema de felicidade doméstica na residência paroquial Edwards.
            Dentro da cultura religiosa evangélica dos séculos 19 e 20, esses relatos romantizados possuem um objetivo didático definido. Foram escritos para apresentar o casal Edwards como modelo de casamento e vida familiar cristãos. Como tais, estes relatos podem refletir, falando de modo mais exato, mais as suposições dos autores do que a vida real de Edwards e Sarah Pierpont.

Edwards e sua Posteridade

            No Jonathan Edwards Center, frequentemente recebemos perguntas sobra os descendentes de Edwards. Eles se tornaram muitas coisas – inclusive presidente e vice-presidente dos Estados Unidos e primeiro ministro inglês – e as altas posições que alcançaram na sociedade durante as gerações como políticos, presidentes e professores da faculdades, juízes e advogados, empresários e assim por diante. Certamente os descendentes da Edwards que alcançaram papeis úteis e proeminentes na sociedade devem ser observados, mas devemos ser cuidadosos quanto a uma visão muito seletiva da virtuosidade exemplar dos descendentes de Edwards. Esta abordagem remonta ao final do século 19, uma época em que a imigração, a industrialização e a modernização eram vistas como ameaçando os valores e caráter nacionais “tradicionais”. Basicamente, e tristemente, isto foi com certeza racismo e nativismo velado. Em resposta à invasão de “estrangeiros” – sem mencionar o contínuo problema dos descendentes dos primeiros escravos no meio – a elite cultural branca exigiu a preservação do antigo “pedigree” e das características anglo-saxãs que podiam ser traçadas até os primeiros colonizadores. Este monopólio de “sangue puro” da “primeira classe” foi considerado de grande importância para as ameaças internas e externas contra a república. A pseudociência, chamada de eugenia, vagamente baseada na teoria da evolução de Darwin, objetivava identificar seres humanos superiores com base em suas características hereditárias e físicas. Associadamente, genealogia – história da família – tornou-se muito popular na virada do século 19, e diversas genealogias da família Edwards foram publicadas. Edwards e sua família eram os favoritos entre os eugenistas. Tanto por causa de sem exemplo pessoal quanto pela estatura de seus descendentes muito produtivos, ele foi frequentemente mencionado como fonte da virtude americana.
            Em 1900, A. E. Winship publicou um estudo comparativo sobre dois patriarcas e suas posteridades – Jonathan Edwards e “Max Jukes”, um malandro holandês, criminoso e que nunca fez o bem – para mostrar a importância da hereditariedade e da educação. O desafio que culturalistas como Winship enfrentaram com as “grandes multidões” vindas do exterior trazendo doenças morais e físicas era de “distinguir regenerados de degenerados”. As declarações dos benefícios sociais do “sangue puro” foram alvos de crítica e de sátira naquela mesma época (o controverso e sincero advogado Clarence Darrow – que foi advogado de defesa no famoso julgamento de John Scopes, em 1925 no Tennessee – escreveria mais tarde que preferiria ter Max Junkes como vizinho do que Jonathan Edwards). De fato, o “Junkes” era uma combinação de várias famílias, e os eugenistas e genealogistas ignoraram ou encobriram o fato de que a avó de Edwards provavelmente fosse emocionalmente perturbada e que membros de sua família fossem culpados de assassinato a machadada e de infanticídio, que o próprio filho de Edwards, Piertont, tenha sido um libertino; e que seu neto, Aaron Burr, um livre pensador que matou Alexander Hamilton em um duelo vergonhoso. A engenharia social, então, tornou-se um dos meios mais comuns – e inesperados – para que Edwards se tornasse um símbolo cultural apropriado.
            Abaixo estão extratos da obra de Winship, Junkes-Edwards: A Study in Education and Herity, que ilustram o preconceito a partir do qual ele abordou seu assunto:

...Em vista do que temos aprendido acerca de Jonathan Edwards, seus ancestrais e seus filhos, seus netos podem ter encontrado alguma justificativa para presumir a capacidade e caráter que herdaram. Em suas veias estava o sangue da famosa linhagem de homens e mulheres nobres; o sangue de Edwards, Stoddard, Pierpont e Hooker estava palpitando/vibrando em seus pensamentos e intensificando seu caráter. Eles herdaram a capacidade e o caráter em seu melhor, mas eles não abusaram dele. Se alguma vez a herança justificaria indiferença à educação, isto ocorreu no caso dos netos de Jonathan Edwards, mas eles de forma alguma foram indiferentes a suas responsabilidades...

Os “Junkes” não tinham capacidade ou educação hereditária da qual poderiam presumir. Sua única oportunidade estava em nutrir cada germe de esperança por meio de dedicação ou educação, através da disciplina da fábrica, a educação das escolas e a inspiração da igreja. Eles não a apreciavam? Longe disto. Em vez de desenvolver a capacidade mediante a educação, nenhum dos 1.200 asseguraram até mesmo uma educação moderada, e apenas 20 deles tiveram uma ocupação, e 10 destes a aprenderam na prisão estadual.

Por outro lado, embora a família Edwards tenha herdado abundante capacidade e caráter, toda criança foi educada desde a infância. Nem todos os membros da agremiação familiar foram descobertos, e até agora os tenho encontrado entre os homens 285 graduados, e um número surpreendentemente grande deles suplementaram o curso da faculdade com pós-graduação ou de estudo profissional. Assim como os “Jukes” intensificaram a sua degeneração mediante a negligência, a família Edwards tem ampliado a capacidade e caráter mediante a ocupação e a educação.

Entre os 285 graduados da família Edwards, há treze presidentes de faculdade e outras instituições de ensino superior, sessenta e cinco professores de faculdade, e muitos diretores de universidades e seminários importantes. Quarenta e cinco faculdades e universidades norte-americanas e estrangeiras têm esta família entre os alunos...

Já foi enfatizado que os Jukes sempre misturaram sangue de sua própria qualidade em seus descendentes, e que a família Edwards invariavelmente escolheu sangue do mesmo vigor e força gerais. Quem pode pensar, por um momento, que os Jukes teriam permanecido em tão baixo nível se o sangue Edwards tivesse sido misturado com o deles, ou que os Edwards teriam mantido sua supremacia intelectual se tivessem se casado com Jukes. O fato é que em 150 anos os Jukes nunca misturam o sangue da primeira classe com os seu, e a família Edwards não tem, em 150 anos, se degenerado através do casamento.

De modo preeminente é verdade que uma força intelectual e moral poderosa prepara o canal de seu pensamento e caráter através de muitas gerações. Seria bom para qualquer cético estudar os registros de animais puros-sangues no mundo animal. O maior recorde de todos os tempos para o leite e manteiga foi por meio de um animal sem descendência, e ela era valioso apenas para o que poderia ganhar. Nada de seu poder foi para a sua prole. Ele era simplesmente uma aberração pomposa, mas um animal com um pedigree limpo apoiado em algum grande progenitor é valioso, independentemente das qualidades de ganhos individuais.

Ninguém faria qualquer uma alegação de que os Jukes não teriam sido imensamente melhorados pela educação e meio ambiente, ou que a família Edwards poderia ter mantido o seu registro sem educação, formação e meio ambiente. Os fatos mostram que os Jukes, primeiros e últimos, e o tempo todo, negligenciaram estas vantagens, e que a família Edwards, com todos os seus casamentos dentro da família, nunca os negligenciou.

Os Jukes foram notórios infratores, enquanto que a família Edwards forneceu praticamente não infratores e uma grande exibição de mais de 100 advogados, trinta juízes e provavelmente o professor de direito mais eminente no país.

Quando se estuda o lado legal da família [Edwards] parece que ela era instintiva e principalmente de advogados e juízes. Isto significa simplesmente que tudo o que a família Edwards fez, fez de modo hábil e nobre.

Dos Jukes, 440 foram mais ou menos viciosamente doentes. A família Edwards foi saudável e de vida longa. Dos onze filhos do Sr. e Sra. Edwards, quatro viveram até mais de setenta anos de idade. . . O recorde de saúde e longevidade continua através de todas as gerações. Eles também fizeram muito para aliviar os sofrimentos da humanidade. Houve sessenta médicos, todos homens marcantes.

Os Jukes negligenciaram todos os privilégios religiosos, desafiaram e se opuseram a igreja e a tudo o que ela representava, enquanto que a família Edwards tem mais de uma centena de pastores, missionários e professores teológicos, muitos dos mais eminentes na história do país.

Nenhum um dos Jukes jamais foi eleito para um cargo público, enquanto que mais de oitenta da família de Jonathan Edwards foram especialmente honrados. Assembleias Legislativas em todas as partes do país, conselhos de governador, departamentos de tesouro e outros cargos eletivos foram preenchidos por esses homens.... Eles têm representado os Estados Unidos em vários tribunais estrangeiros; vários têm sido membros do Congresso; três foram senadores; e um vice-presidente dos Estados Unidos.

Faltam aos Jukes a coragem física e moral, bem como o propósito patriótico, para alistarem-se, mas havia setenta e cinco oficiais da família do Sr. Edwards no exército e na marinha. Esta família tem se destacado como administradores, capelães, ou cirurgiões, no exército e na marinha nas três grandes guerras.

Os Jukes se encontram tão longe da literatura quanto possível. Eles não apenas nunca criaram nada, mas eles nunca leram qualquer coisa que possa, por qualquer esforço da imaginação, ser denominado boa leitura. Na família Edwards, sessenta alcançaram proeminência na autoria ou na vida editorial. Richard Carvel, é via Sr. Winston Churchill,* um descendente do Sr. Edwards, e encontrei 35 livros de valor escritos pela família. Dezoito revistas e periódicos consideráveis foram editados e vários outros importantes fundados pela família Edwards.

Os Jukes não se desviaram para muito longe dos lugares frequentados por Max. Eles estagnaram como a piscina imóvel, enquanto que a família Edwards é um fator de destaque no mercantil, industrial, e na vida profissional de trinta e três estados da União e em vários países estrangeiros, em noventa e duas cidades americanas e em muitas estrangeiras. Eles têm sido, de forma predominante, administradores de homens.

Seja o que for que os Jukes representem, a família Edwards não representa. Seja qual for a fraqueza que os Jukes apresentem, seu antídoto é encontrado na família Edwards, que nada custa ao país quanto à pobreza, ao crime, ao serviço hospitalar ou de asilo. Pelo contrário, ela representa a maior utilidade na invenção, na fabricação, no comércio, na fundação de asilos e hospitais, estabelecendo e desenvolvendo missões, projetando e energizando as melhores entidades filantrópicas.


Disponível no Jonathan Edwards Center, Yale University. www.edwards.yale.edu
Tradução: Paulo Corrêa Arantes

Nenhum comentário:

Postar um comentário