Kenneth P. Minkema, “Hannah and her Sisters:
Sisterhood, Courtship, and Marriage in the Edwards Family in the Early
Eighteenth Century”, New England Historical and Genealogical Register
CXLVI (1992), 35-56.
Ola Winslow, Jonathan Edwards (New
York, 1940), chs. 1-2.
Jonathan
Edwards: A Life, by George Marsden
Família
de Edwards – Kenneth P. Minkema
A família Edwards era originária do
País de Gales, mas Jonathan Edwards traçou sua linhagem pessoal a Londres do
início do século 17, quando os puritanos criticavam ardentemente a corrupção da
Igreja Anglicana. O Rev. Richard Edwards deixou sua terra natal para tornar-se
reitor da Ratcliffe Free School. Pouco sabemos sobre este personagem, exceto
que ele morreu na praga de 1625. Sua viúva, Anne, casou-se com James Cole, um
tanoeiro (construtor de barris) e dissidente religioso. James, Anne, seu filho
William Edwards de dezesseis anos de idade e sua irmã Abigail Cole emigraram
para Cambridge, Massachusetts, em 1635, a fim de escapar da prisão por dívida.
Ali, eles se juntaram ao grupo de Thomas Hooker, que estava se preparando para
partir e estabelecer uma colônia em Connecticut. James transmitiu sua s
habilidades de fazer barril para seu meio filho, o qual, por sua vez, deixou o
negócio da família em herança para seu único filho, Richard, nascido em
Hartford, em 1647. Richard estabeleceu uma atividade comercial próspera e, em
1708, foi nomeado como o primeiro representante/procurador da rainha da
colônia.
Richard Edwards casou-se com
Elizabeth Tuthill, de New Haven, em 1667. Seu relacionamento foi conflituoso
desde o início. Apenas três meses após seu casamento, ela confessou estar
grávida de outro homem. Ao invés de separar-se, Richard concordou em deixar os
pais de sua esposa criarem a criança, e pagou a multa por fornicação. (Na Nova
Inglaterra colonial, se um casal tivesse um filho apenas sete meses depois do
casamento, presumia-se que houve relação sexual antes do casamento e, portanto,
o casal era culpado de fornicação.) Durante os vinte e quatro anos
seguintes, o casal teve sete filhos – um filho e seis filhas – embora sua
relação fosse de mal a pior. A tradição familiar tem retratado Richard como
virtuoso e paciente, enquanto que Elizabeth, quando ela é mencionada, é
considerada insana. Houve algum fundamento para isso; houve uma história de
violência em sua família. Seu irmão matou a irmã com um machado, e outra irmã
cometera infanticídio. Quer Elizabeth fosse insana ou não, ou que participação
Richard tinha no mau relacionamento do casal, nunca será totalmente conhecido.
Alegadamente, Elizabeth estava sujeita a ataques de depressão, violência e
abuso verbal, ameaçando matar seu marido. Supostamente, ela se recusou a ter “comunhão
conjugal” com ele. Com base no testemunho de seus próprios filhos, ela
abandonou o marido e a família por vários anos. O que está claro, também, é que
Richard pediu o divórcio, o qual finalmente foi concedida em 1691. Os avós de
Edwards estiveram entre os primeiros casais a se divorciarem na Nova Inglaterra
colonial. No ano seguinte, Richard se casou novamente com Mary Talcott, de New
Haven, e o casal teve seis filhos, quatro dos quais viveram além da infância.
O primeiro filho que Richard e
Elizabeth tiveram, Timothy, nasceu em 1669. Ele estudou no Harvard College, mas
foi excluído do campus em seu segundo ano por causa de alguma indiscrição,
possivelmente decorrente dos primórdios do processo de divórcio de seus pais
(ele foi um dos dois filhos que tiveram de testemunhar no tribunal contra sua
própria mãe). Ele foi estudar com Rev. Pelatiah Glover de Springfield, e retomou
sua vida. Em 04 de julho de 1691, ele chegou a Cambridge e passou nos exames
tanto para o bacharelado quanto para o mestrado em um único dia. De lá, ele
aceitou um convite para a cidade de Windsor Farmes, ou East (agora do Sul)
Windsor, Connecticut, no lado leste do rio Connecticut, no outro lado de
Windsor. Ele ajudou a reunir uma nova igreja, e deu início uma pastorado de
mais de sessenta anos. A personalidade obsessiva de Timothy, o desejo de
controle e a inveja por seu salário tornaram a relação com sua congregação
tensa, às vezes – ao ponto de ele mesmo suspender a Ceia do Senhor por três
anos! – mas durou. Avivamentos foram uma característica regular da vida da
igreja em East Windsor. Timothy tinha uma reputação como o mais bem-sucedido
pregador de avivamento em Connecticut, e era o segundo na Nova Inglaterra,
apenas abaixo do seu sogro, Stoddard, que teve uma série de “colheitas” ao
longo do final do século 17 e início do século18.
Como o relacionamento ganho/perda de
seu pai com sua congregação indica, a cultura da família de Jonathan e os
exemplos que ele tinha diante de si, são importantes para sua compreensão.
Antes do estabelecimento de Timothy em East Windsor, ele se casara com Esther
Stoddard, filha do influente ministro Solomon Stoddard, de Northampton. O casal
teve onze filhos, dez meninas – Timothy refere-se a seus “sessenta pés de
filhas” – e um filho, Jonathan, nascido em 1703. Timothy e Esther tanto educaram
seus filhos, quanto deram a suas filhas uma educação preparatória de faculdade
ao lado de seu filho. As irmãs de Jonathan estão entre os membros mais
interessantes de sua família. Eram quase todas muito inteligentes, muito
teimosas, com raciocínio rápido e gostos cosmopolitas, ao mesmo tempo,
completamente parte da cultura religiosa evangélica do Vale. Das irmãs de
Jonathan, duas Jerusha e Lucy – morreram jovens, vítimas de epidemias; outra,
Mary, permaneceu solteira e cuidou, primeiro, de seus avós e, depois, de seus
pais; e as restantes casaram-se com pastores e outros homens de destaque. Há
muitas histórias sobre suas relações como irmãs, seus namoros e casamentos,
alguns tristes, outros humorísticos. Hannah, por exemplo, era persona non gratis em East Windsor, por
causa de um contínuo desacordo com um jovem da cidade, que insistia que ela
estava legalmente obrigada a se casar com ele; somente após mais de uma década
de ser molestada, ela foi finalmente capaz de casar-se com uma pessoa de sua
escolha e ser feliz. Uma história sobre Martha oferece uma amostra de sua
reputação na família. O Rev. Moses Tuthill veio até seu pai, pedindo permissão
para pedir sua mão. Quando Timothy hesitou, Moses perguntou se ela não era uma
pessoa religiosa. “Oh, sim”, respondeu Timothy; “Martha é uma boa menina. Porém,
irmão Tuttle, a graça de Deus vai onde você e eu não poemos.”
Jonathan se casou com Sarah
Pierpont, de New Haven, em 1727, apenas, do modo como seu pai, quando ele
estava prestes a se estabelecer como pastor assistente em Northampton. Jonathan
e Sarah também tiveram onze filhos, oito filhas e três filhos, todos viveram
até a idade adulta, exceto Jerusha, que morreu depois de cuidar do moribundo
missionário David Brainerd – embora ela tenha morrido devido a uma febre, não
de tuberculose, como Brainerd. O fato de que Jerusha cuidou David em sua doença
final, e que viajaram para Boston juntos, deu origem a uma tradição que eles
estavam romanticamente envolvidos, até mesmo noivos. Não há nenhuma evidência
que apoie isto. Jerusha tinha apenas dezesseis anos no período em que ela
cuidou de Brainerd, bem abaixo da média de idade para se casar na época. Além
disso, era comum homens jovens acompanharem as mulheres jovens em viagens
longas; esta impropriedade parece, na verdade, apenas ser ofensiva às
sensibilidades vitorianas posteriores, e assim um “noivado” foi inventado.
Tal como acontece com os irmãos de
Jonathan, há muitas coisas para contar sobre seus filhos, mas deve ser
suficiente aqui apenas alguns exemplos ilustrativos. Mary, que se casou com
Timothy Dwight (e cujo filho veio a ser o presidente de Yale e útil no Segundo
Grande Avivamento), carregou para sempre um rancor contra Northampton pela
demissão de seu pai. Embora tenha vivido na cidade até sua morte, ela se
recusou a entrar no santuário; em vez disso, assentava-se em uma cadeira no
corredor qua levava ao santuário durante os serviços, e participava do
sacramento em uma igreja vizinha. Esther, certamente, se casou com Aaron Burr,
pastor de Elizabethtown, Nova Jersey, e antecessor de Jonathan como presidente
do College of New Jersey; seu filho, Aaron Jr., tornou-se vice-presidente dos
Estados Unidos com Jefferson, mas sua carreira terminou quando ele atirou e
matou Alexander Hamilton, em um famoso duelo em 1803. Jonathan Jr. tornou-se um
ministro e presidente de faculdade como o seu pai, e, de fato, existem muitas
semelhanças estranhas entre sua trajetória, incluindo a demissão de um
pastorado de muitos anos seguido de “exílio” em uma igreja do interior.
Pierpont, o filho mais novo, foi um tipo de rebelde da família – ele se tornou jeffersoniano,
maçom e advogado – três ataques contra ele na Nova Inglaterra federalista e
calvinista. A filha de Pierpont, Henrietta, casou-se com Eli Whitney, o famoso
inventor.
Jonathan e Sarah: “União Excepcional”
Em 1723 ou aproximadamente, Jonathan Edwards escreveu uma apóstrofe para
uma jovem mulher de “esta cidade”, significando, com toda a probabilidade, New
Haven. Esta breve peça, um poema em prosa, do qual não existe nenhum manuscrito
original, tem sido tradicionalmente interpretado como hino de louvor para a
mulher com quem ele iria se casar em 1727. Se Edwards não tinha encontrado
Sarah Pierpont antes de vir estudar em New Haven, ele certamente começou seu
tempo de residência no alojamento para estudantes da faculdade em 1719. Ele
tinha vinte anos e Sarah treze anos quando ele, aparentemente, apresentou à
filha do ministro New Haven um livro com uma inscrição na folha em branco.
A intenção de Edwards de um epitalâmio não era para ser espirituoso ou
elegante. O tema da sua meditação era a rica comunhão de Pierpont com o
Criador. A introdução do Apóstrofe diz:
Eles dizem que há uma jovem senhora em [New Haven] que é amada daquele Ser Todo-poderoso, que fez e governa o mundo, e que há determinadas épocas do ano em que este grande Ser, de uma forma ou outra invisível, vem a ela e enche sua mente com excelente e doce deleite, e que ela quase não se preocupa com nada, exceto meditar sobre ele – que ela espera que depois de algum tempo ser recebida onde ele está, a ser levantada para fora do mundo e ser levada rapidamente ao céu; estando segura de que ele a ama muito para deixar que ela fique sempre a certa distância (ao longe) dele.
Para Edwards, Pierpont era um
ser etéreo, quase angelical. Ela tinha uma fonte de alegria que era um mistério
para os outros, embora não para ele. Ela tinha mais conversa com o Grande Ser
do que com outras criaturas, e estava contente com isso. Como Edwards, que em
“Personal Narrative” (Narrativa Pessoal) descreveu a sua experiência de “doçura
interior” como culminando em “uma espécie de visão... de estar sozinho nas
montanhas,... conversando docemente com Cristo”, Pierpont gostava de “passear
nos campos e nas montanhas”, onde ela podia ter comunhão com Deus. Ela resumiu
o ideal de piedade de Edwards: doçura, virtude, pureza e mentalidade celestial.
Há, na apóstrofe, uma corrente
subjacente de desejo, até mesmo inveja, pelo mesmo acesso a Deus que Pierpont desfrutava.
Edwards a elogiou como um modelo a imitar por suas virtudes espirituais. Neste
sentido, a pessoa retratada era uma expressão da visão de Edwards do verdadeiro
santo. No entanto, Edwards não era o único homem a ficar impressionado com
Pierpont. George Whitefield orou para que Deus lhe enviasse uma esposa como
Sarah Pierpont Edwards, e Samuel Hopkins, o mais famoso discípulo de Edwards,
foi grandemente influenciado por sua piedade auto-negadora em sua formulação do
“desinteresse”. Assim, o esforço de Edwards para retratar a piedade de modo teórico
e em vidas concretas começou com sua futura esposa, como verdadeira crente e
santa ideal, como visto em composições futuras, incluindo a sua própria “Personal
Narrative” (Narrativa Pessoal) e outras biografias espirituais. Uma dessas
oportunidade se apresentou em 1742, no auge do Grande Avivamento, quando Sarah
experimentou uma série de episódios religiosos dramáticos. Aqui, ela apareceu
mais humana do que na apóstrofe, e mais dedicada a preocupações mundanas, mas
elas forneciam o trampolim emocional para transes e “êxtases” prolongados a um “elísio
celestial”.
Se “On Sarah Pierpont” (Sobre Sarah
Pierpont) foi simbólico, ele também foi extremamente pessoal. Jonathan e Sarah
foram casados por vinte e um anos, criaram onze filhos, e sofreram muitas
dificuldades juntos. Porém aqueles que os observavam e a sua família comentavam
sobre sua vida extraordinária juntos. Whitefield não conseguia se lembrar, em
todas as suas viagens, de um “casal mais carinhoso”. John Wesley escreveu,
“Certamente há uma... União de alma entre os crentes, uma doçura perceptível em
algumas [ve]zes; eu penso que eu amo o Sr. Edwards e sua esposa, porque eu vejo
muito [da] imagem de Deus neles”. Cinco anos mais tarde, Joseph Emerson, de
Concord, descreveu a família Edwards como “a família mais encantadora que
jamais conheci. [M]uito da Presença de Deus ali”. Em seu leito de morte,
Jonathan falou da “união excepcional” que o ligara a Sarah, uma união que, o
mais importante para ele, era espiritual.
Haviam, no entanto, aspectos menos
auspiciosos para o seu relacionamento. A família de Jonathan tinha um passado
obscuro, que incluía um relacionamento violento entre seus avós, o qual
terminou em um prolongado processo de divórcio. Os êxtases de Sarah de 1742
começaram quando ela temia que ela, angustiada que tivesse atraído sobre si a
“má vontade” de Jonathan sobre uma “questão de prudência”, e, em um fragmento não
publicado de sua narrativa, o imaginou “chicoteando-a” fora da cidade. Edwards
incentivou sua esposa a escrever a narrativa de suas experiências, a qual ele
usou em “Some Thoughts Concerning the Revival” (Alguns pensamentos concernentes
ao Avivamento); apesar de elogiá-la grandemente, ele apresentou seu texto de
forma neutra, de forma eficaz “silenciando” a verdadeira voz de Sarah.
De maneira intrigante, Edwards
ofereceu algumas posições hipócritas (com duas faces) sobre questões de gênero.
Um dos aspectos distintivos da família de Edwards foi a preponderância de
mulheres nela. Jonathan cresceu como o único filho de uma família de onze, e
ele e sua esposa Sarah Pierpont criaram oito filhas, as quais eram muito educadas
e eruditas. Os membros da família de Edwards eram bastante cosmopolitas em seus
conceitos sobre gênero e casamento, apesar de não refutar a sabedoria recebida
da antiga cultura europeia moderna que, dentro da ordem da natureza, as
mulheres eram os “vasos mais fracos”. Mesmo assim, Edwards sentia que, entre
seus parentes e esferas adequadas, homens e mulheres eram iguais, e que o
casamento era uma relação de companheirismo. Estamos apenas começando a
apreciar a parte de Edwards na história do gênero. Ele foi um patriarca
tradicional, mas não misógino (homem que tem repulsa às mulheres). Ele procurou
abreviar o discurso público feminino, mas reconheceu que elas eram mais
espirituais que os homens. A maioria dos seus sustentadores em Northampton eram
mulheres. As pessoas que ele escolheu como exemplos de verdadeira santidade
eram todas mulheres – Abigail Hutchinson, Phoebe Bartlett, sua esposa Sarah –
com exceção do decididamente não-viril David Brainerd. E a assim chamada
espiritualidade “femininizada” de Edwards, com sua ênfase nos afetos e na
expressão das emoções, exerceu uma grande influência na literatura de
sentimentalismo que surgiu em escritoras femininas durante o período de anterior
à Guerra Civil americana.
Edwards e sua extensa família eram
parte do que tem sido chamado de “o refinamento da América”, no qual os colonos
britânicos do século 18 procuravam imitar a última moda e predileção inglesa. O
inventário dos bens de consumo da família Edwards revela principalmente
dispositivos funcionais, mas os gostos relativamente refinados da família são demonstrados
por meio de certos itens. O próprio Edwards usava um chapéu de castor, um belo colete
calamanco (Flanders de lã tecida com uma sarja de cetim), fivelas curvas de
prata, óculos e uma bengala. Sua esposa usava ruge e vestidos de chita azul, e
possuía uma pequena caixa de remendo de prata entalhada, que não continha itens
para remendar, mas sim marcas de beleza redondas de feltro, que se assemelham a
verrugas, que eram coladas na face. Até mesmo nos confins de Stockbridge, ela
manteve as marcas literais de alta cultura europeia. A família tinha um serviço
de chá e comia em pratos e copos de porcelana, com toalhas de mesa e
guardanapos de damasco, e as paredes eram decoradas com espelhos, e “pequenos quadros”
– gravuras emolduradas ou possivelmente até mesmo aquarelas pintadas por Sarah
ou suas filhas – uma versão da vida provincianamente requintada, embora sem
ostentação.
O senso de status de Edwards
estendia-se para questões que envolviam corrida. Ser dono de escravos era um
símbolo de status social, e durante sua vida ele foi dono de uma série de
escravos africanos. De fato, Edwards defendeu a instituição da escravidão como
ordenado por Deus nas Escrituras. No entanto, ele chegou a se opor ao comércio
de escravos como um impedimento para a propagação do evangelho na África, fornecendo
assim uma base para o abolicionismo defendido por seu filho, Jonathan Jr. e por
discípulos como Samuel Hopkins. Para Edwards, assim como a sociedade branca era
ordenada verticalmente, havia hierarquias raciais também. Durante grande parte
de sua vida, ele aderiu à sabedoria aceitável da época, que os africanos, os índios
e os judeus eram culturalmente inferiores aos cristãos brancos europeus.
Sarah, como reguladora da esfera
doméstica, era quem provavelmente estava mais diretamente interessada na
supervisão diária dos escravos da família do que Jonathan, procurava com rigor
potenciais escravos, o que mostra que as mulheres exerciam uma habilidade tão
ativa no mercado de escravos quanto os homens. Escrevendo, em 1746, a um colega
ministro que agia como um intermediário, Jonathan escreveu, “Minha esposa pede
que a pessoa que você adquirir... seja sua empregada, seja alguém esforçada na
fiação de linho fino”. Em 1754, Sarah expressou (via uma carta de seu esposo)
interesse na compra de uma “mulher negra” pertencente ao Rev. Joseph Bellamy, e
novamente, em 1757, ela perguntou sobre a compra de Harry, um escravo que tinha
pertencido a seu falecido genro, o Rev. Aaron Burr. Sarah morreu de desinteria,
na Filadélfia, em outubro de 1758, seis meses depois de seu esposo sucunbir
diante das complicações resultantes de uma vacinação de varíola, em Princeton.
Seu testamento, escrito em seu leito de morte, não fez provisão quanto à libertação
dos escravos casados, Joseph e Sue, antes, repartiu sua propriedade igualmente
entre seus filhos. Em 1759, o casal foi “vendido, conduzido e entregue no
mercado aberto” pelos executores designados por Sarah de sua última vontade e
testamento, seu filho Timothy e seu genro Timothy Dwight.
Sem levar em consideração, mais
tarde, e evento muito recente, a literatura evangélica romantizou a vida de
Jonathan e Sarah no interesse de criar um poema de vida familiar cristã.
Escritores da religião popular têm usado a “Apóstrofe” e as palavras
agonizantes de Edwards a sua esposa para criar um quadro romântico do
relacionamento entre eles, frequentemente recuperando sua descrição de seu
relacionamento como uma “união excepcional”. A importância de seu relacionamento
com Sarah era, não temos razão para duvidar, sua natureza espiritual. No
entanto, românticos têm, ocasionalmente, usado o pequeno conhecimento histórico
que temos sobre Sarah Pierpont para criar narrativas grandemente fictícias
sobre a vida doméstica do casal Edwards. A mais notável nesta inclinação é
“Marriage to a Difficult Man” (Casamento para/com um homem problemático, 1971)
de Elisabeth Dodds, e seus imitadores. Alguns escritores têm até mesmo
inventado memórias e cartas de Sarah no interesse de criar um poema de
felicidade doméstica na residência paroquial Edwards.
Dentro da cultura religiosa
evangélica dos séculos 19 e 20, esses relatos romantizados possuem um objetivo
didático definido. Foram escritos para apresentar o casal Edwards como modelo de
casamento e vida familiar cristãos. Como tais, estes relatos podem refletir,
falando de modo mais exato, mais as suposições dos autores do que a vida real
de Edwards e Sarah Pierpont.
Edwards e sua Posteridade
No Jonathan Edwards Center, frequentemente
recebemos perguntas sobra os descendentes de Edwards. Eles se tornaram muitas
coisas – inclusive presidente e vice-presidente dos Estados Unidos e primeiro
ministro inglês – e as altas posições que alcançaram na sociedade durante as
gerações como políticos, presidentes e professores da faculdades, juízes e
advogados, empresários e assim por diante. Certamente os descendentes da
Edwards que alcançaram papeis úteis e proeminentes na sociedade devem ser
observados, mas devemos ser cuidadosos quanto a uma visão muito seletiva da
virtuosidade exemplar dos descendentes de Edwards. Esta abordagem remonta ao
final do século 19, uma época em que a imigração, a industrialização e a
modernização eram vistas como ameaçando os valores e caráter nacionais “tradicionais”.
Basicamente, e tristemente, isto foi com certeza racismo e nativismo velado. Em
resposta à invasão de “estrangeiros” – sem mencionar o contínuo problema dos
descendentes dos primeiros escravos no meio – a elite cultural branca exigiu a
preservação do antigo “pedigree” e das características anglo-saxãs que podiam
ser traçadas até os primeiros colonizadores. Este monopólio de “sangue puro” da
“primeira classe” foi considerado de grande importância para as ameaças
internas e externas contra a república. A pseudociência, chamada de eugenia,
vagamente baseada na teoria da evolução de Darwin, objetivava identificar seres
humanos superiores com base em suas características hereditárias e físicas.
Associadamente, genealogia – história da família – tornou-se muito popular na
virada do século 19, e diversas genealogias da família Edwards foram
publicadas. Edwards e sua família eram os favoritos entre os eugenistas. Tanto
por causa de sem exemplo pessoal quanto pela estatura de seus descendentes
muito produtivos, ele foi frequentemente mencionado como fonte da virtude
americana.
Em 1900, A. E. Winship publicou um
estudo comparativo sobre dois patriarcas e suas posteridades – Jonathan Edwards
e “Max Jukes”, um malandro holandês, criminoso e que nunca fez o bem – para
mostrar a importância da hereditariedade e da educação. O desafio que
culturalistas como Winship enfrentaram com as “grandes multidões” vindas do
exterior trazendo doenças morais e físicas era de “distinguir regenerados de
degenerados”. As declarações dos benefícios sociais do “sangue puro” foram
alvos de crítica e de sátira naquela mesma época (o controverso e sincero
advogado Clarence Darrow – que foi advogado de defesa no famoso julgamento de
John Scopes, em 1925 no Tennessee – escreveria mais tarde que preferiria ter
Max Junkes como vizinho do que Jonathan Edwards). De fato, o “Junkes” era uma
combinação de várias famílias, e os eugenistas e genealogistas ignoraram ou
encobriram o fato de que a avó de Edwards provavelmente fosse emocionalmente
perturbada e que membros de sua família fossem culpados de assassinato a
machadada e de infanticídio, que o próprio filho de Edwards, Piertont, tenha
sido um libertino; e que seu neto, Aaron Burr, um livre pensador que matou
Alexander Hamilton em um duelo vergonhoso. A engenharia social, então,
tornou-se um dos meios mais comuns – e inesperados – para que Edwards se
tornasse um símbolo cultural apropriado.
Abaixo estão extratos da obra de
Winship, Junkes-Edwards: A Study in
Education and Herity, que ilustram o preconceito a partir do qual ele
abordou seu assunto:
...Em vista do que temos aprendido acerca de Jonathan Edwards, seus
ancestrais e seus filhos, seus netos podem ter encontrado alguma justificativa
para presumir a capacidade e caráter que herdaram. Em suas veias estava o
sangue da famosa linhagem de homens e mulheres nobres; o sangue de Edwards,
Stoddard, Pierpont e Hooker estava palpitando/vibrando em seus pensamentos e
intensificando seu caráter. Eles herdaram a capacidade e o caráter em seu
melhor, mas eles não abusaram dele. Se alguma vez a herança justificaria
indiferença à educação, isto ocorreu no caso dos netos de Jonathan Edwards, mas
eles de forma alguma foram indiferentes a suas responsabilidades...
Os “Junkes” não tinham capacidade ou educação hereditária da qual
poderiam presumir. Sua única oportunidade estava em nutrir cada germe de
esperança por meio de dedicação ou educação, através da disciplina da fábrica,
a educação das escolas e a inspiração da igreja. Eles não a apreciavam? Longe
disto. Em vez de desenvolver a capacidade mediante a educação, nenhum dos 1.200
asseguraram até mesmo uma educação moderada, e apenas 20 deles tiveram uma ocupação,
e 10 destes a aprenderam na prisão estadual.
Por outro lado, embora a
família Edwards tenha herdado abundante capacidade e caráter, toda criança foi
educada desde a infância. Nem todos os membros da agremiação familiar foram
descobertos, e até agora os tenho encontrado entre os homens 285 graduados, e
um número surpreendentemente grande deles suplementaram o curso da faculdade
com pós-graduação ou de estudo profissional. Assim como os “Jukes”
intensificaram a sua degeneração mediante a negligência, a família Edwards tem
ampliado a capacidade e caráter mediante a ocupação e a educação.
Entre os 285
graduados da família Edwards, há treze presidentes de faculdade e outras
instituições de ensino superior, sessenta e cinco professores de faculdade, e
muitos diretores de universidades e seminários importantes. Quarenta e cinco
faculdades e universidades norte-americanas e estrangeiras têm esta família
entre os alunos...
Já foi
enfatizado que os Jukes sempre misturaram sangue de sua própria qualidade em
seus descendentes, e que a família Edwards invariavelmente escolheu sangue do
mesmo vigor e força gerais. Quem pode pensar, por um momento, que os Jukes
teriam permanecido em tão baixo nível se o sangue Edwards tivesse sido
misturado com o deles, ou que os Edwards teriam mantido sua supremacia
intelectual se tivessem se casado com Jukes. O fato é que em 150 anos os Jukes
nunca misturam o sangue da primeira classe com os seu, e a família Edwards não
tem, em 150 anos, se degenerado através do casamento.
De modo preeminente é verdade que uma força intelectual e moral poderosa prepara o canal de seu pensamento e caráter através de muitas gerações. Seria bom para qualquer cético estudar os registros de animais puros-sangues no mundo animal. O maior recorde de todos os tempos para o leite e manteiga foi por meio de um animal sem descendência, e ela era valioso apenas para o que poderia ganhar. Nada de seu poder foi para a sua prole. Ele era simplesmente uma aberração pomposa, mas um animal com um pedigree limpo apoiado em algum grande progenitor é valioso, independentemente das qualidades de ganhos individuais.
Ninguém faria qualquer uma
alegação de que os Jukes não teriam sido imensamente melhorados pela educação e
meio ambiente, ou que a família Edwards poderia ter mantido o seu registro sem
educação, formação e meio ambiente. Os fatos mostram que os Jukes, primeiros e
últimos, e o tempo todo, negligenciaram estas vantagens, e que a família
Edwards, com todos os seus casamentos dentro da família, nunca os negligenciou.
Os Jukes foram notórios
infratores, enquanto que a família Edwards forneceu praticamente não infratores
e uma grande exibição de mais de 100 advogados, trinta juízes e provavelmente o
professor de direito mais eminente no país.
Quando se estuda o lado legal da família [Edwards] parece que ela era instintiva e principalmente de advogados e juízes. Isto significa simplesmente que tudo o que a família Edwards fez, fez de modo hábil e nobre.
Dos Jukes, 440
foram mais ou menos viciosamente doentes. A família Edwards foi saudável e de
vida longa. Dos onze filhos do Sr. e Sra. Edwards, quatro viveram até mais de
setenta anos de idade. . . O recorde de saúde e longevidade continua através de
todas as gerações. Eles também fizeram muito para aliviar os sofrimentos da
humanidade. Houve sessenta médicos, todos homens marcantes.
Os Jukes
negligenciaram todos os privilégios religiosos, desafiaram e se opuseram a
igreja e a tudo o que ela representava, enquanto que a família Edwards tem mais
de uma centena de pastores, missionários e professores teológicos, muitos dos
mais eminentes na história do país.
Nenhum um dos Jukes jamais foi eleito para um cargo público, enquanto que mais de oitenta da família de Jonathan Edwards foram especialmente honrados. Assembleias Legislativas em todas as partes do país, conselhos de governador, departamentos de tesouro e outros cargos eletivos foram preenchidos por esses homens.... Eles têm representado os Estados Unidos em vários tribunais estrangeiros; vários têm sido membros do Congresso; três foram senadores; e um vice-presidente dos Estados Unidos.
Faltam aos
Jukes a coragem física e moral, bem como o propósito patriótico, para
alistarem-se, mas havia setenta e cinco oficiais da família do Sr. Edwards no
exército e na marinha. Esta família tem se destacado como administradores,
capelães, ou cirurgiões, no exército e na marinha nas três grandes guerras.
Os Jukes se
encontram tão longe da literatura quanto possível. Eles não apenas nunca
criaram nada, mas eles nunca leram qualquer coisa que possa, por qualquer esforço
da imaginação, ser denominado boa leitura. Na família Edwards, sessenta alcançaram
proeminência na autoria ou na vida editorial. Richard Carvel, é via Sr. Winston
Churchill,* um descendente do Sr. Edwards, e encontrei 35 livros de valor
escritos pela família. Dezoito revistas e periódicos consideráveis foram editados
e vários outros importantes fundados pela família Edwards.
Os Jukes não
se desviaram para muito longe dos lugares frequentados por Max. Eles estagnaram
como a piscina imóvel, enquanto que a família Edwards é um fator de destaque no
mercantil, industrial, e na vida profissional de trinta e três estados da União
e em vários países estrangeiros, em noventa e duas cidades americanas e em
muitas estrangeiras. Eles têm sido, de forma predominante, administradores de
homens.
Seja o que for que os Jukes representem, a família Edwards não representa. Seja qual for a fraqueza que os Jukes apresentem, seu antídoto é encontrado na família Edwards, que nada custa ao país quanto à pobreza, ao crime, ao serviço hospitalar ou de asilo. Pelo contrário, ela representa a maior utilidade na invenção, na fabricação, no comércio, na fundação de asilos e hospitais, estabelecendo e desenvolvendo missões, projetando e energizando as melhores entidades filantrópicas.
Disponível no Jonathan Edwards
Center, Yale University. www.edwards.yale.edu
Tradução:
Paulo Corrêa Arantes
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