Com exceção de sua longa defesa em Justification by Faith Alone (Justificação Somente pela Fé), o primeiro dos Discourses on Various Important Subjects (Discursos sobre vários assuntos importantes), o único outro sermão sobre o qual Edwards comenta é o último, e isso mais por seu lugar no livro do que por sua doutrina. “O que é publicado no final, concernente à excelência de Cristo, é acrescentado por minha própria iniciativa”, escreve ele no prefácio, “considerando que um discurso sobre um assunto evangélico como este deve apropriadamente seguir os outros que foram principalmente legais e despertadores, e que algo sobre a excelência do Salvador era apropriado para vir depois das coisas que deviam mostrar a necessidade da salvação.” Assim, The Excellency of Christ (A Excelência de Cristo) vem depois de uma página (e dezesseis meses) da esplêndida miséria de The Justice in the Damnation of Sinners (A justiça de Deus na condenação dos pecadores), tempera sua justiça com misericórdia e repete seu recente e fugaz sentimento sobre a redenção. “De tamanha dignidade e excelência é Cristo aos olhos de Deus que, visto que sofreu tanto pelos pobres pecadores, Deus está disposto a estar em paz com eles, por mais vis e indignos que tenham sido, e por quantas razões a punição seria justa.” E assim, ao justapor um sermão imprecatório e um sermão sacramental, as palavras de um ressoando no outro, Edwards pode insinuar sobre seus leitores, como não pôde sobre seus ouvintes, o paradoxo central de seu ministério de que há vida após a morte por meio de Cristo. Sem dúvida, ele “escolheu este discurso, em particular, em parte porque [ele] foi intensamente importunado por uma cópia dele para ser impresso por alguns de outra cidade, a cujos ouvidos foi ocasionalmente pregado”; sem dúvida ele se convenceu de que era incapaz de “escrever polidamente” ou com “elegância de linguagem”. Ainda assim, um sermão baseado em mais um paradoxo concorda com a arquitetura da coleção e, se não fosse coincidente, seu relato sobre a edição do livro, que está no início, poderia até ser considerado como adicionando um toque de elegância.
O livro mencionado em Apocalipse é o livro dos
decretos de Deus e, como os livros “dos tempos antigos”, feito de “largas
folhas de pergaminho, ou papel, ou algo dessa natureza, unidas em uma
extremidade e assim enroladas, e então seladas, ou presas juntas de alguma
forma, para evitar seu desdobramento e abertura”. Um livro que ninguém, exceto
Cristo, poderia abrir quebrando seus sete selos em ordem, a figura bíblica da
perfeição, especula Edwards, derivada dos dias da criação. Pergaminhos e
números explicados, ele se concentra em “dois títulos distintos” de Cristo em
seu texto, o cordeiro e o leão, do mesmo modo, mais tarde, na Aplicação, ele
escolhe, a partir da Escritura “uma grande variedade de coisas perceptíveis”
com as quais Cristo é comparado: o sol, a estrela da manhã, uma corça, um
cervo, uma rocha, uma pérola, um noivo, uma rosa, um lírio, uma árvore da vida.
Aqui, o Cordeiro de Deus e o Leão de Judá são “docemente unidos” em Cristo e em
seus atos. As infinitas excelências encontradas em Cristo são tão diferentes
umas das outras quanto a justiça é da graça, ou a perfeição da condescendência;
tão incompatíveis, por exemplo, como glória e humildade, majestade e mansidão,
reverência para com Deus e igualdade com ele; e são expressas em justiça,
misericórdia e verdade para com os homens, de modo que as ameaças da lei e as
promessas de libertação, as obras e a fé, sejam resolvidas nele. Visto que Deus
se tornou homem, Cristo manifesta esses traços conjuntos na companhia dos
homens mediante a “inferioridade exterior” de seu nascimento e mediante a “glória
divina” de sua juventude, mediante sua pregação exterior e, “notavelmente”,
mediante seu sofrimento em uma cruz, uma agonia que Edwards detalha em uma
série de nuncas, como neste, o primeiro dos sete subtítulos:
Nunca
esteve ele sujeito a tal ignomínia como então; nunca ele sofreu tanta dor em
seu corpo, ou tanta tristeza em sua alma; nunca esteve ele em tão grande
exercício de sua condescendência, humildade, mansidão e paciência, como o fez
nestes sofrimentos finais; nunca sua glória e majestade divinas foram cobertas
por um véu tão espesso e escuro; nunca ele esvaziou a si mesmo e se fez sem
reputação, como nesta ocasião. E ainda assim, nunca sua glória divina foi tão
manifestada, mediante qualquer ato seu, como nesse ato de render-se a esses
sofrimentos.
Tais excelências multiformes ainda residem em Cristo
no céu, Edwards assegura aos santos, e permanecerão no Juízo Final, quando
serão “docemente convidadas” a reinar com ele para sempre. Agora, porém, ele
implora às almas perdidas e angustiadas que aceitem o convite de Cristo para “participar
com ele de suas iguarias”, do pão e do vinho de sua mesa, enquanto a “doce
graça” do Cordeiro de Deus os chama e o “glorioso poder” do Leão de Judá as
defende. Escolhendo a Cristo como sua porção, elas habitarão em “íntima
comunhão”, não apenas com ele, mas também com Deus. Como Edwards descreve na
conclusão: “Cristo fez acontecer, que aqueles que o Pai lhe deu deveriam ser
trazidos para a casa de Deus; que ele, seu Pai e seu povo deveriam ser como se
fossem uma sociedade, uma família; que a igreja deveria ser, por assim dizer,
admitida no convívio da bem-aventurada Trindade”.
Porém, em razão de Justification by Faith Alone
(Justificação somente pela fé), os manuscritos que compõem os Discourses
on Various Important Subjects (Discursos sobre vários assuntos
importantes) impresso têm “pouco adicionado” a eles, observa Edwards no
prefácio, embora The Excellency of Christ (A Excelência de Cristo)
tenha mais do que os outros. Com 43 páginas impressas, é um quinto mais longo
do que seu manuscrito de trinta e duas folhas em duodécimo sugeriria, produto
de mais adições do que de exclusões. Edwards reduz o texto mediante parênteses
(L. 1v. nos livros enrolados e L. 4r. nos “negros pobres”), mediante uma linha centralizada
(L. 3r.), ou, impressionantemente, mediante ausência de artifício. Ele
simplesmente descarta o primeiro uso de instrução na Aplicação, uma discussão
de três páginas sobre a autoridade dos magistrados civis baseada na humildade e
majestade de seu “grande Senhor e mestre” (LL. 22v.–23v.), E remove um
subtítulo que começa: “Considere que, se você não for a [ele], aprenda como ele
finalmente rasgará você em pedaços como um leão” (LL. 30v.–31r.), uma passagem
mais adequada ao sermão anterior. Em outros lugares, ele inverte a ordem com
símbolos (LL. 2v.–3r.), e sem eles (LL. 25v.–26v. e LL. 29r.–29v.). Apenas duas
folhas (L. 1v. e 14r.) possuem notáveis entrelinhas,[1]
ambas as passagens bíblicas, mas no manuscrito para a impressão Edwards faz
adições ao texto de inúmeras maneiras: “João” torna-se “o apóstolo João” na
primeira linha, por exemplo, e o primeiro tópico numerado cresce com: “E também
ao estandarte do acampamento de Judá no deserto, no qual era exibido um leão,
de acordo com a antiga tradição dos judeus”, “da qual Davi era”, e “e era
descendente de Davi”. Na conclusão do texto, Edwards revisa o terceiro tópico
(as duas últimas folhas do manuscrito) e adiciona um primeiro e segundo sub
tópico a ele, terminando o sermão publicado não no “notável testemunho” do amor
de Cristo (L. 32v.), mas na união triádica do Pai, do Filho e da igreja. “Sacramento
de Agosto de 1736” aparece no canto superior direito da primeira folha,
marcando o último dos cinco discursos como um sermão sacramental.[2]
As visões e revelações que o apóstolo João teve dos eventos futuros da providência de Deus são introduzidas aqui com uma visão do livro dos decretos de Deus, pelo qual esses eventos foram preordenados; o qual é apresentado em Apocalipse 5.1 como um livro na mão direita daquele que estava sentado no trono, “escrito por dentro e por fora, de todo selado com sete selos”. Os livros, na forma em que costumavam ser feitos, eram folhas largas de pergaminho, ou papel, ou algo dessa natureza, unidas em uma borda e, então, enroladas e depois seladas, ou presas juntas de alguma forma, para evitar o seu desdobramento e abertura. Por isso, lemos sobre o “rolo, um livro” (Jeremias 36.2). Parece ter sido de um livro como este que João teve a visão aqui; e, por isso é dito que está “escrito por dentro e por fora”, isto é, nas páginas internas e também em uma das páginas externas, a saber, aquilo que foi enrolado ao enrolar o livro. E é dito que foi “de todo selado com sete selos”, para indicar que o que estava escrito nele era perfeitamente oculto e secreto; ou que os decretos de Deus dos eventos futuros estão selados e trancados, longe de toda possibilidade de serem descobertos pelas criaturas até que Deus se agrade de torná-los conhecidos. Descobrimos que sete é frequentemente usado nas Escrituras como o número da perfeição, para indicar o grau superlativo ou o grau mais perfeito de qualquer coisa; o que provavelmente veio do fato de que Deus viu as obras da criação terminadas no sétimo dia, e descansou e se regozijou nelas, como sendo completas e perfeitas.
1. Ele é chamado de leão. “Eis que o Leão da tribo de
Judá”. Parece que ele é chamado de Leão da tribo de Judá em alusão ao que Jacó
disse, em sua bênção sobre as tribos, em seu leito de morte, quando foi
abençoar a Judá, comparando-o a um leão, Gênesis 49.9: “Judá é leãozinho; da
presa subiste, filho meu. Encurva-se e deita-se como leão e como leoa; quem o despertará?”
E também ao estandarte do acampamento de Judá, no deserto, no qual era exibido
um leão, de acordo com a antiga tradição dos judeus. É muito por causa dos atos
valentes de Davi, que a tribo de Judá, da qual Davi era, é comparada a um leão na
bênção profética de Jacó; mas, mais especialmente com um olhar para Jesus
Cristo, que também era daquela tribo e era descendente de Davi. E é chamado em
nosso texto de Raiz de Davi e, portanto, Cristo é chamado aqui de Leão da tribo
de Judá.
2. Ele é chamado de Cordeiro. João foi informado sobre
um leão que prevaleceu para abrir o livro, e provavelmente esperava ver um leão
em sua visão, mas, enquanto ele está esperando, eis que aparece um cordeiro
para abrir o livro, uma espécie de criatura extremamente diferente de um leão! O
leão é um devorador, que costuma fazer uma terrível matança de outros, e
nenhuma criatura cai mais facilmente em sua presa do que um cordeiro. E Cristo
é representado aqui não apenas como um cordeiro, uma criatura muito suscetível
de ser morta, mas um “Cordeiro como tendo sido morto”, isto é, com as marcas de
suas feridas mortais aparecendo nele.
O que eu devo observar a partir das palavras para o tema
do meu presente discurso é este, a saber,
I. Mostrar onde há uma admirável combinação de várias
excelências em Cristo.
II. Como esta admirável combinação de excelências se
torna visível nos atos de Cristo. E então fazer a aplicação.
I. Gostaria de mostrar onde há uma admirável combinação
de várias excelências em Jesus Cristo. O que se torna visível em três coisas:
primeiro, há uma combinação de tais excelências em Cristo, pois, em nossa
maneira de conceber, são muito diferentes umas das outras; segundo, há uma combinação
de excelências realmente diferentes nele que, de outra forma, nos teriam
parecido totalmente incompatíveis no mesmo sujeito; terceiro, tais excelências diferentes
são exercidas nele com respeito aos homens que, de outra forma, pareceriam
impossíveis de serem exercidas com respeito ao mesmo objeto.
Primeiro.
Há uma conjunção de tais excelências em Cristo, visto que, em nossa maneira de
conceber, são muito diferentes umas das outras. Assim são as várias perfeições
e excelências divinas que Cristo possui. Cristo é uma pessoa divina, ou um que
é Deus; e, portanto, tem todos os atributos de Deus. A diferença que existe
entre as excelências é principalmente relativa e em nossa maneira de
concebê-las. E aquelas que, neste sentido, são mais diferentes, encontram-se na
pessoa de Cristo. Mencionarei dois exemplos.
1. Encontram-se em Jesus Cristo infinita alteza e
infinita condescendência. Cristo, visto que ele é Deus, é infinitamente
magnífico e excelente acima de tudo. Ele é mais sublime que os reis da terra,
pois ele é o Rei dos reis e o Senhor dos senhores. Ele é mais sublime que os
céus e mais sublime que os mais altos anjos do céu. Ele é tão magnífico, que
todos os homens, todos os reis e príncipes, são como vermes do pó diante dele;
todas as nações são como a gota do balde e o pó fino da balança; sim, e os
próprios anjos são como nada diante dele. Ele é tão sublime que está
infinitamente acima de qualquer necessidade nossa; além de nosso alcance, de
modo que não podemos ser proveitosos para ele, e acima de nossas concepções, de
modo que não podemos compreendê-lo. Provérbios 30.4: “Qual é o seu nome, e qual
é o nome do seu Filho, se é que o sabes?” Nossos entendimentos, se nunca os
esticarmos tão longe, não podem alcançar sua glória divina. Jó 11.8: “Como as
alturas dos céus é a sua sabedoria; que poderás fazer?” Cristo é o Criador e
grande possuidor do céu e da terra; ele é o senhor soberano de tudo; ele
governa todo o universo e tudo o que lhe agrada. Seu conhecimento é ilimitado;
sua sabedoria é perfeita e ninguém pode frustrar. Seu poder é infinito, e
ninguém pode resistir a ele. Suas riquezas são imensas e inexauríveis. Sua
majestade é infinitamente terrível.
E, no entanto, ele é de infinita condescendência.
Ninguém é tão baixo ou inferior, mas a condescendência de Cristo é suficiente
para dar graciosa atenção a eles. Ele é condescendente não apenas com os anjos,
humilhando-se para observar as coisas que são feitas no céu, mas também é
condescendente com criaturas tão pobres como os homens; e isso não apenas para
dar atenção aos príncipes e grandes homens, mas àqueles que são de posição e
grau mais baixos, “os que para o mundo são mundo” (Tiago 2.5). Cristo não
despreza aqueles que são comumente desprezados por seus semelhantes. 1
Coríntios 1.28, “Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e desprezadas.”
Cristo é condescendente em tomar conhecimento de mendigos (Lucas 16.22), de
servos e de pessoas das nações mais desprezadas. Em Cristo Jesus não há “bárbaro,
cita, escravo, livre” (Colossenses 3.11). Aquele que é tão sublime, condescende
em dar atenção graciosa às criancinhas. Mateus 19.14, “Deixai os pequeninos,
não os embaraceis de vir a mim.” Sim, o que é muito mais, sua condescendência é
suficiente para dar graciosa atenção às criaturas mais indignas e pecaminosas,
aquelas que não têm bons méritos e aquelas que têm infinitos maus méritos.
Sim, a sua condescendência é tão magnífica, que não é
apenas suficiente para dar graciosa atenção a criaturas pecadoras como estas,
mas suficiente para tudo que seja um ato de condescendência. Sua
condescendência é grande o suficiente para se tornar seu amigo; é grande o
suficiente para se tornar seu companheiro, para unir suas almas a ele em
casamento espiritual; é grande o suficiente para assumir sua natureza para si,
para se tornar uma delas, de modo que ele possa ser um com elas; sim, é grande
o suficiente humilhar-se ainda mais por elas, até mesmo ao ponto de expor-se à
vergonha e ao cuspe; sim, ao ponto de entregar-se a uma morte ignominiosa por
elas. E que ato de maior condescendência pode ser concebido? No entanto, sua
condescendência produziu um ato como este em favor daqueles que são tão pobres
e mesquinhos, desprezíveis e indignos!
Uma conjunção como essa de tão infinita alteza e
humilde condescendência, na mesma pessoa, é admirável. Vemos, mediante vários
exemplos, qual tendência os homens em alta posição tem para criar neles uma disposição totalmente
oposta. Se um verme é exaltado um pouco acima de outro, por ter mais pó ou um
monturo maior, quanto ele promove a si mesmo! Que distância ele mantém daqueles
que estão abaixo dele! E um pouco de condescendência é o que ele espera que
seja valorizado e grandemente reconhecido. Cristo condescende em lavar nossos
pés, mas como os grandes homens (ou melhor, os vermes mais importantes) se
considerariam humilhados por atos de muito menos condescendência!
2. Encontram-se em Jesus Cristo a justiça infinita e a
graça infinita. Visto que Cristo é uma pessoa divina, ele é infinitamente santo
e justo, odiando infinitamente o pecado e disposto a executar a merecida
punição pelo pecado. Ele é o Juiz do mundo, e o juiz infinitamente justo dele,
e de modo algum absolverá o ímpio, ou, por qualquer meio, inocentará o culpado.
E, no entanto, ele é infinitamente gracioso e
misericordioso. Embora sua justiça seja tão rigorosa com relação a todo pecado
e toda violação da lei, ainda assim, ele tem graça suficiente para todo
pecador, e até mesmo para o principal dos pecadores. E não é suficiente para
com os mais indignos, apenas para mostrar-lhes misericórdia e conceder-lhes
algum bem, mas para conceder o maior bem. Sim, é suficiente conceder-lhes todo
o bem e fazer todas as coisas por eles. Não há benefício ou bênção tão grande
que eles possam receber, mas a graça de Cristo é suficiente para concedê-la ao
maior pecador que já viveu. E não só isso, mas a sua graça é tão grande que
nada é mais do que o meio deste bem; é suficiente não apenas fazer grandes
coisas, mas também para sofrer para isso; e não apenas sofrer, mas sofrer
extremamente, até a morte, o mais terrível dos males naturais; e não apenas a
morte, mas a mais ignominiosa e atormentadora, e, em todos os sentidos, a morte
mais terrível que os homens poderiam infligir; sim, e sofrimentos maiores do
que os homens poderiam infligir, que podiam atormentar somente o corpo, mas
também aqueles sofrimentos em sua alma, que eram os frutos mais imediatos da
ira de Deus contra os pecados daqueles por quem ele a experimentou.
Segundo.
Existem, na pessoa de Cristo, tais excelências realmente diferentes que, de
outra forma, seriam consideradas absolutamente incompatíveis no mesmo sujeito;
tais que não são unidas em nenhuma outra pessoa, seja divina, humana ou
angélica; e tais como nem os homens nem os anjos jamais imaginariam que
poderiam ser encontradas na mesma pessoa, se não tivessem sido vistas na pessoa
de Cristo. Eu devo dar alguns exemplos:
1. Na pessoa de Cristo, encontramos glória infinita e
a mais humilde humildade. A glória infinita e a virtude da humildade não são encontradas
em outra pessoa, exceto em Cristo. Elas não são encontradas em nenhuma pessoa
criada, pois nenhuma pessoa criada tem glória infinita. E elas não são
encontradas em nenhuma outra pessoa divina, exceto em Cristo. Pois, embora a
natureza divina abomine infinitamente ao orgulho, a humildade não é
propriamente um atributo de Deus, o Pai, e de Deus, o Espírito Santo, que
existem apenas na natureza divina. Porque ela é uma excelência própria apenas
de uma natureza criada; pois ela consiste fundamentalmente no sentido de uma
comparativa humildade e pequenez diante de Deus, ou da grande distância entre
Deus e o sujeito dessa virtude. Mas seria uma contradição supor tal coisa em
Deus.
Porém, em Jesus Cristo, que é Deus e homem, essas duas
excelências diferentes estão docemente unidas. Ele é uma pessoa infinitamente
exaltada em glória e dignidade. Filipenses 2.6, “Pois ele, subsistindo em forma
de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus”. Há igual honra devida a
ele como ao Pai. João 5.23, “A fim de que todos os homens honrem o Filho, do
modo por que honram o Pai”. O próprio Deus lhe diz: “O teu trono, ó Deus, é
para todo o sempre” (Hebreus 1.8). E há o mesmo respeito supremo e adoração
divina, prestados a ele pelos anjos do céu como ao Deus Pai; como em Hebreus
1.6: “E todos os anjos de Deus o adorem”.
Porém, por mais que ele esteja assim acima de tudo,
ele é o mais humilde de todos em humildade. Nunca houve um exemplo tão grande
dessa virtude, entre homens ou anjos, como Jesus. Ninguém jamais foi tão
consciente da distância entre Deus e ele, ou teve um coração tão humilde diante
de Deus, como o homem Cristo Jesus (Mateus 11.29). Que maravilhoso espírito de
humildade tornou-se visível nele, quando esteve aqui na terra, em todo o seu
comportamento! Em seu contentamento em sua condição externa pobre, vivendo
contente na família de José, o carpinteiro, e de Maria, sua mãe, por trinta
anos. E depois escolhendo a pobreza, a escassez e o desprezo externos, em vez
de grandeza terrena; ao lavar os pés de seus discípulos, e em todos os seus
discursos e conduta para com eles; ao suportar alegremente a forma de servo por
toda a vida e a se submeter a uma imensa humilhação na morte!
2. Encontram-se, na pessoa de Cristo, majestade
infinita e mansidão transcendente. Estas são, novamente, duas qualificações que
não são encontradas em nenhuma outra pessoa a não ser em Cristo. A mansidão,
propriamente dita, é uma virtude própria apenas da criatura. Raramente
encontramos a mansidão mencionada como um atributo divino nas Escrituras, pelo
menos não no Novo Testamento. Pois esse parece ser significado: uma calma e
quietude de espírito que surgem da humildade, em seres mutáveis, que são
naturalmente suscetíveis de serem perturbados pelos assaltos de um mundo tempestuoso
e prejudicial. Cristo, porém, sendo Deus e homem, tem majestade infinita e
mansidão suprema.
Cristo foi uma pessoa de infinita majestade. É dele
que se fala no Salmo 45.3: “Cinge a tua espada no teu flanco, herói, cinge a
tua glória e a tua majestade!” Ele é aquele que é poderoso, que cavalga nos
céus, e em sua excelência no firmamento. Aquele que é terrível fora de seus
lugares santos; que é “mais poderoso do que o bramido das grandes águas, do que
as poderosos vagalhões do mar”; diante de quem “vai um fogo que lhe consome os
inimigos ao redor”; em cuja presença a terra treme e os montes se derretem; que
“está assentado sobre a redondeza da terra, e todos os seus moradores são como
gafanhotos”; que “repreende o mar e ele seca, e seca os rios”; cujos “olhos são
como chama de fogo”, de cuja presença e da glória do seu poder os ímpios serão
punidos com destruição eterna; que é o “bendito e único Soberano, o Rei dos
reis e Senhor dos senhores”, que tem o céu por seu trono e a terra por escabelo
de seus pés, e é “o alto e sublime que habita a eternidade”, cujo “reino é um
reino eterno”, e cujo domínio não tem fim.
E, no entanto, ele foi o exemplo mais maravilhoso de
mansidão e humilde quietude de espírito, que jamais existiu, de acordo com as
profecias a seu respeito. Mateus 21.4-5: “Ora, isto aconteceu para se cumprir o
que foi dito por intermédio do profeta: Dizei à filha de Sião: Eis aí te vem o
teu Rei, humilde, montado em jumento, num jumentinho, cria de animal de carga.”
E de acordo com o que Cristo declara sobre si mesmo, Mateus 11.29: “sou manso e
humilde de coração”. E de acordo com o que foi manifestado em seu comportamento
aqui neste mundo. Pois nunca foi visto na terra um exemplo de comportamento
manso como este, sob injúrias e reprovações, e em relação aos inimigos; que,
quando ultrajado, não revidava com ultraje; que tinha um maravilhoso espírito
de perdão, estando pronto para perdoar seus piores inimigos e orou por eles com
orações fervorosas e eficazes. Com que mansidão ele se apresentou, quando no
ringue dos soldados, que o desprezavam e zombavam dele, quando ficou em
silêncio e não abriu a boca, mas foi como um cordeiro ao matadouro. Assim é
Cristo, na majestade, um leão, na mansidão, um cordeiro.
3. Encontram-se na pessoa de Cristo a mais profunda
reverência para com Deus e a igualdade com Deus. Cristo, quando esteve aqui na
terra, mostrou-se cheio de santa reverência para com o Pai; ele prestou a mais
reverente adoração a ele, orando com posturas de reverência. Assim, lemos sobre
ele ajoelhar-se e orar (Lucas 22.41).[3]
Cristo se tornou assim, pois ele foi aquele que assumiu a natureza humana.
Porém, ao mesmo tempo, ele existia na natureza divina, pela qual sua pessoa
era, em todos os aspectos, igual à pessoa do Pai. O Deus Pai não tem atributo
ou perfeição que o Filho não tenha em igual grau e igual glória. Essas coisas
não são encontradas em nenhuma outra pessoa, exceto em Jesus Cristo.
4. Estão unidas, na pessoa de Cristo, infinita
dignidade do bem e a maior paciência sob os sofrimentos do mal. Ele era
perfeitamente inocente e não merecia sofrimento. Ele não merecia nada de Deus
mediante qualquer culpa própria; e ele não merecia nenhum mal da parte dos
homens. Sim, ele não era apenas inocente e indigno de sofrimento, mas era
infinitamente digno, digno do amor infinito do Pai, digno de felicidade
infinita e eterna, e infinitamente digno de toda estima, amor e serviço
possíveis da parte de todos os homens.
E, no entanto, ele foi perfeitamente paciente sob os maiores sofrimentos
que já foram suportados neste mundo. Hebreus 12.2, ele “suportou a cruz, não
fazendo caso da ignomínia”. Ele não sofreu nas mãos de seu Pai por suas faltas,
mas pelas nossas; e ele sofreu nas mãos dos homens não por suas faltas, mas por
aquelas coisas pelas quais ele era infinitamente digno de seu amor e honra; o
que tornou sua paciência mais maravilhosa e mais gloriosa. 1 Pedro 2.20-24: “Pois
que glória há, se, pecando e sendo esbofeteados por isso, o suportais com
paciência? Se, entretanto, quando praticais o bem, sois igualmente afligidos e
o suportais com paciência, isto é grato a Deus. Porquanto para isso fostes
chamados, pois que também Cristo sofreu em vosso lugar, deixando-vos exemplo
para seguirdes os seus passos, o qual não cometeu pecado, nem dolo algum se
achou em sua boca; pois ele, quando ultrajado, não revidava com ultraje; quando
maltratado, não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga retamente,
carregando ele mesmo em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados, para que
nós, mortos para o pecado, vivamos para a justiça; por suas chagas fostes
sarados”. Não existe tal conjunção de inocência, dignidade e paciência sob
sofrimentos como na pessoa de Cristo.
5. Estão unidos, na pessoa de Cristo, um excelente
espírito de obediência e domínio supremo sobre o céu e a terra. Cristo é o
Senhor de todas as coisas em dois aspectos. Ele é assim como Deus-homem e Mediador;
e, desta forma, seu domínio é designado e dado pelo Pai, e é por delegação de
Deus, e é como se ele fosse o vice gerente do Pai. Porém ele é o Senhor de
todas as coisas em outro aspecto, a saber, visto que ele é (por sua natureza
original) Deus. E, assim, por direito natural, ele é o Senhor de todos e
supremo sobre todos, tanto quanto o Pai. Consequentemente, ele tem domínio
sobre o mundo, não por delegação, mas por direito próprio; ele não é um deus
menor, como supõem os arianos, mas para todos os efeitos, Deus supremo.
E, no entanto, na mesma pessoa, encontra-se o maior
espírito de obediência aos mandamentos e à lei de Deus que já existiu no
universo; o qual foi manifesto em sua obediência aqui neste mundo. João 14.31. “e
que faço como o Pai me ordenou”. João 15.10, “Assim como também eu tenho
guardado os mandamentos de meu Pai e no seu amor permaneço”. A grandeza de seu
espírito de obediência se manifesta na perfeição de sua obediência e em sua
obediência a ordens de tão grande dificuldade. Jamais alguém recebeu ordens de
Deus de tamanha dificuldade e que se constituíram em tão grande prova de
obediência como Jesus Cristo. Um dos mandamentos de Deus para ele era que ele
se entregasse àqueles sofrimentos terríveis pelos quais passou. Veja João 10.18:
“Ninguém a tira de mim; pelo contrário, eu espontaneamente a dou... Este
mandato recebi de meu Pai”. E Cristo foi completamente obediente a este
mandamento de Deus. Hebreus 5.8: “Embora sendo Filho, aprendeu a obediência
pelas coisas que sofreu”. Filipenses 2.8, “a si mesmo se humilhou, tornando-se
obediente até à morte e morte de cruz”. Nunca houve tal exemplo de obediência,
em homem nem em anjo, como este; embora aquele que obedeceu fosse, ao mesmo
tempo, Senhor supremo sobre anjos e homens.
6. Estão unidas, na pessoa de Cristo, a soberania
absoluta e a resignação perfeita. Esta é outra conjunção sem paralelo. Cristo,
visto que ele é Deus, é o soberano absoluto sobre o mundo; ele é o soberano
determinador de todos os eventos. Os decretos de Deus são todos seus decretos
soberanos; e a obra da criação e todas as obras da providência de Deus, são
suas obras soberanas. Ele é aquele que faz todas as coisas segundo o conselho
de sua própria vontade. Colossenses 1.16-17, “Tudo foi criado por meio dele e
para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste”. João 5.17, “Meu
Pai trabalha até agora, e eu trabalho também”. Mateus 8.3: “Quero, fica limpo!”
Contudo, ainda assim, Cristo foi o exemplo mais
maravilhoso de resignação que já apareceu no mundo. Ele foi absoluta e
perfeitamente resignado quando teve uma perspectiva íntima e imediata de seus
terríveis sofrimentos, e do terrível cálice que ele deveria beber, cujo
conhecimento e expectativa fizeram sua alma extremamente triste, até a morte, e
o colocou em tal agonia que seu suor se tornou grandes gotas ou coágulos de
sangue, caindo ao chão. Porém, em tais circunstâncias, ele foi totalmente
resignado à vontade de Deus. Mateus 26.39: “Meu Pai, se possível, passa de mim
este cálice! Todavia, não seja como eu quero, e sim como tu queres”. Mateus
26.42: “Meu Pai, se não é possível passar de mim este cálice sem que eu o beba,
faça-se a tua vontade!”
7. Encontramos juntos em Cristo autossuficiência e uma
completa confiança em Deus e dependência dele; o que é outra conjunção peculiar
à pessoa de Cristo. Visto que ele é uma pessoa divina, ele é autossuficiente,
não necessitando de nada. Todas as criaturas dependem dele, mas ele não depende
de nenhuma, antes, é absolutamente independente. Sua procedência do Pai, em sua
geração ou filiação eterna, não indica uma dependência inerente da vontade do
Pai; pois essa procedência era natural e necessária e não arbitrária. Contudo,
ainda assim, Cristo confiou inteiramente em Deus. Seus inimigos dizem isso
dele: “Confiou em Deus; pois venha livrá-lo agora, se, de fato, lhe quer bem”
(Mateus 27.43). E o apóstolo testifica, 1 Pedro 2.23, que ele “se entregava” a
Deus.
Terceiro.
Essas excelências diferentes são expressas nele para com os homens que, de
outra forma, pareceriam impossíveis de serem exercidas no mesmo objeto; como
por exemplo particularmente essas três: justiça, misericórdia e verdade. As
mesmas que são mencionadas no Salmo 85.10, “Encontram-se a graça e a verdade, a
justiça e a paz se beijaram”. A rigorosa justiça de Deus, e até mesmo sua
justiça vingativa e aquela contra os pecados dos homens, nunca se manifestaram
tão gloriosamente como em Cristo. Ele manifestou uma consideração infinita para
com o atributo da justiça de Deus nisto, quando ele se dispôs para salvar os
pecadores, ele se dispôs a sofrer tais sofrimentos extremos em vez de sua
salvação for em prejuízo da honra desse atributo. E, visto que ele é o juiz do
mundo, ele mesmo exerce rigorosa justiça; ele não inocentará o culpado, nem
absolverá o perverso no julgamento. E, no entanto, quão maravilhosamente a
misericórdia infinita para com os pecadores é exibida nele! E que graça e amor
gloriosos e inefáveis foram e são exercidos por ele para com os homens
pecadores! Embora ele seja o justo Juiz de um mundo pecador, ele também é o
Salvador do mundo. Embora seja um fogo consumidor para o pecado, ele é a luz e
a vida dos pecadores. Romanos 3.25-26: “A quem Deus propôs, no seu sangue, como
propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua
tolerância, deixados impunes os pecados anteriormente cometidos; tendo em vista
a manifestação da sua justiça no tempo presente, para ele mesmo ser justo e o
justificador daquele que tem fé em Jesus”.
Desse modo, a verdade imutável de Deus, nas ameaças de
sua lei contra os pecados dos homens, nunca foi tão manifestada como em Jesus
Cristo; pois nunca houve outra prova tão grande da inalterabilidade da verdade
de Deus, nessas ameaças, como quando o pecado foi imputado ao seu próprio
Filho. E então, em Cristo, já foi vista uma realização real e completa dessas
ameaças; a qual nunca foi nem será vista em qualquer outra ocasião; porque a
eternidade que será consumida no cumprimento dessas ameaças sobre os outros
nunca cessará. Cristo manifestou uma consideração infinita para com esta
verdade de Deus em seus sofrimentos. E, em seu julgamento do mundo, ele faz da
aliança das obras, que contém essas terríveis ameaças, sua regra do julgamento.
Ele cuidará para que seja transgredido, de maneira alguma, um jota ou til; ele
não fará nada contrário as ameaças da lei e ao seu completo cumprimento. E,
ainda assim, temos nele mui grandes e preciosas promessas, promessas de perfeita
libertação da penalidade da lei. E esta é a promessa que ele fez, a vida
eterna. E todas as promessas de Deus têm nele o sim e Amém.
Tendo mostrado, dessa forma, onde á uma admirável
conjunção de excelências em Cristo, prossigo agora para
II. Mostrar como esta admirável conjunção de
excelências se mostra nos atos de Cristo.
Primeiro.
Essa admirável conjunção de excelências torna-se visível no que Cristo fez ao
assumir para si nossa natureza. Neste ato, sua infinita condescendência
tornou-se maravilhosamente visível; pois aquele que era Deus se tornou homem;
pois o Verbo se fez carne e assumiu para si uma natureza infinitamente inferior
à sua natureza original! E se torna visível de modo ainda mais notável nas circunstâncias humildes de sua encarnação: ele
foi concebido no ventre de uma jovem pobre, cuja pobreza é vista nisto, quando
ela veio oferecer sacrifícios para sua purificação, ela trouxe o que era
permitido na lei somente no caso de pobreza, conforme Lucas 2.24, “e para
oferecer um sacrifício, segundo o que está escrito na referida Lei: Um par de
rolas ou dois pombinhos”. Isso só era permitido se a pessoa fosse tão pobre que
não pudesse oferecer um cordeiro (Levítico 12.8).
E embora sua infinita condescendência se torne visível
assim na maneira de sua encarnação, sua dignidade divina também se tornou
visível nela; pois, embora ele tenha sido concebido no ventre de uma pobre
virgem, ainda assim ele foi concebido pelo poder do Espírito Santo. E sua
dignidade divina também se tornou visível na santidade de sua concepção e
nascimento. Embora ele tenha sido concebido no ventre de uma linhagem corrupta
da humanidade, ainda assim ele foi concebido e nasceu sem pecado. Como o anjo disse
à bem-aventurada virgem, Lucas 1.35: “Descerá sobre ti o Espírito Santo, e o
poder do Altíssimo te envolverá com a sua sombra; por isso, também o ente santo
que há de nascer será chamado Filho de Deus”.
Sua infinita condescendência se torna maravilhosamente
visível na maneira de seu nascimento. Ele nasceu em um estábulo, porque não
havia lugar para eles na estalagem. A estalagem estava ocupada por outras
pessoas que eram vistas como de maior importância. A bem-aventurada virgem,
sendo pobre e desprezada, foi mandada embora ou excluída. Embora ela estivesse
em circunstâncias tão necessárias, ainda assim aqueles que se consideravam seus
superiores não deram lugar a ela. E, por isso, no tempo de seu parto, ela foi
forçada a se dirigir a um estábulo e, quando a criança nasceu, foi envolta em
faixas e colocada em uma manjedoura. E ali Cristo deitou como uma criancinha, e
ali ele apareceu eminentemente como um cordeiro. Contudo, ainda assim, essa
criança frágil, que nasceu dessa forma em um estábulo e foi colocada em uma
manjedoura, nasceu para conquistar e triunfar sobre Satanás, aquele leão que
ruge. Ele veio para subjugar o poderoso poder das trevas e exibi-lo
abertamente, e, assim, restaurar a paz na terra, manifestar a boa vontade de
Deus para com os homens e dar glória a Deus nas alturas; conforme o propósito
de seu nascimento, o qual foi declarado pelos cânticos jubilosos das gloriosas
hostes de anjos que apareceram aos pastores, ao mesmo tempo em que a criança
estava na manjedoura, pelos quais sua dignidade divina foi manifestada.
Segundo. Essa
admirável conjunção de excelências torna-se visível nos atos e em várias
passagens da vida de Cristo. Embora Cristo tenha habitado na terra em
circunstâncias externas pobres, pelas quais sua condescendência e humildade se
tornam especialmente visíveis, e sua majestade foi encoberta; ainda assim, sua
dignidade e glória divinas brilharam através do véu em muitos de seus atos, e
tornaram distintamente visível que ele era não apenas o Filho do homem, mas o
grande Deus.
Assim, nas circunstâncias de sua infância, sua pobreza
exterior se tornou visível; todavia, havia algo para mostrar sua dignidade
divina, nos magos sendo incitados a vir do leste para dar-lhe honra, sendo
conduzidos por uma estrela milagrosa, e vindo, ajoelhando e adorando-o, e
presenteando-o com ouro, incenso e mirra. Sua humildade e mansidão se tornaram
maravilhosamente visíveis em sua sujeição à mãe e ao suposto pai quando
criança. Ele se mostrou aqui como um cordeiro. Porém sua glória divina irrompeu
e brilhou quando, aos doze anos, ele discutiu com os doutores no templo. Nisto
ele se mostrou, em certa medida, como o Leão da tribo de Judá.
E igualmente, depois que ele iniciou seu ministério
público, sua maravilhosa humildade e mansidão se manifestaram em sua escolha de
mostrar-se em circunstâncias externas tão pobres, e em se contentar com elas.
Por exemplo, quando ele era tão pobre que não tinha onde reclinar a cabeça e
dependia da caridade de alguns de seus seguidores para sua subsistência; como
aparece em Lucas 8, no início. Como também em seu tratamento manso,
condescendente e familiar de seus discípulos; em suas conversas com eles,
tratando-os como um pai a seus filhos, sim, como amigos e companheiros; e em
sua paciência, suportando tanta aflição e vitupério, e tantos insultos dos
escribas, dos fariseus e de outros. Nessas coisas ele se mostrou como um
cordeiro. E, no entanto, ao mesmo tempo, ele mostrou de muitas maneiras sua
majestade e glória divinas; particularmente nos milagres que fez, que eram evidentemente
obras divinas, manifestavam poder onipotente e, assim, o declararam ser o Leão
da tribo de Judá. Suas obras maravilhosas e milagrosas mostraram claramente que
ele era o Deus da natureza, pois se tornava visível, por elas, que ele tinha
toda a natureza em suas mãos, e que podia detê-la, parar e mudar seu curso,
como quisesse. Ao curar os enfermos, abrir os olhos dos cegos, destapar os
ouvidos dos surdos e curar os coxos, ele mostrou que era o Deus que formou os
olhos, criou os ouvidos e foi o autor da estrutura do corpo do homem. Mediante
a ressurreição dos mortos sob sua ordem, tornou-se visível que ele era o autor
e a fonte da vida, e que “Deus, o Senhor, a quem pertencem as ordens/questões
de morte”. Ao andar sobre o mar em uma tempestade, quando as ondas se
levantavam, ele mostrou ser aquele Deus mencionado em Jó 9.8, que “anda sobre
os altos do mar”. Ao acalmar a tempestade e abrandar a fúria do mar, mediante
sua potente ordem, dizendo: "Acalma-te, emudece!", ele mostrou ser aquele
que tem o controle sobre o universo e ser aquele Deus que faz as coisas pela
palavra do seu poder, que fala e é feito, que ordena e permanece firme, e
aquele de quem é dito, no Salmo 65.7, que “aplaca o ruído dos mares, o ruído
das suas ondas”. E no Salmo 107.29, que “Fez cessar a tormenta, e as ondas se
acalmaram”. E no Salmo 89.8-9: “Ó Senhor, Deus dos Exércitos, quem é poderoso
como tu és, com a tua fidelidade ao redor de ti?! Dominas sobre a fúria do mar;
quando as suas ondas se levantam, tu as amainas”. Cristo, ao expulsar demônios,
se tornou notavelmente visível como o Leão da tribo de Judá, e mostrou que era
mais forte do que aquele leão que ruge, que procura a quem possa devorar.[4]
Ele ordenou que saíssem, e eles foram forçados a obedecer. Eles tinham muito
medo dele; se prostram diante dele e imploram que não os atormente. Ele obriga uma legião
inteira deles a abandonar seu antigo domínio por meio de sua palavra poderosa;
e eles não puderam entrar nos porcos sem sua permissão. Ele mostrou a glória de
sua onisciência ao revelar os pensamentos dos homens, como temos relatado
muitas vezes. Nisto ele mostrou ser aquele de quem Deus falou, Amós 4.13, que
“declara ao homem qual é o seu pensamento”. Assim, no meio de sua pobreza e
humilhação, sua glória divina se tornou visível em seus milagres. João 2.11: “Com
este, deu Jesus princípio a seus sinais em Caná da Galileia; manifestou a sua
glória”.
E embora Cristo se torne geralmente visível sem glória
externa e em grande obscuridade, ainda assim, em certa ocasião, ele tirou o véu
e se mostrou em sua majestade divina, na medida em que podia ser manifestada
externamente aos homens neste estado frágil, quando ele foi transfigurado no
Monte. O apóstolo Pedro fala disso em 2 Pedro 1.16-17, falando de si mesmo como
alguém que foi testemunha ocular de sua majestade, “pois ele recebeu de Deus
Pai, honra e glória, quando pela Glória Excelsa lhe foi enviada a seguinte voz:
Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo”; cuja voz, que veio do céu, eles
ouviram quando estavam com ele no monte santo.
E, ao mesmo tempo em que Cristo costumava mostrar-se
com tanta mansidão, condescendência e humildade em suas conversas íntimas com
seus discípulos, mostrando-se como o Cordeiro de Deus nelas, ele também
costumava mostrar-se como o Leão da tribo de Judá, com autoridade e majestade
divinas, ao repreender tão duramente os escribas, os fariseus e outros
hipócritas.
Terceiro.
Esta admirável conjunção de excelências torna-se notavelmente visível em sua
oferta de se si mesmo em sacrifício pelos pecadores em seus sofrimentos finais.
Visto que esta era a maior em todas as obras de redenção, o maior ato de Cristo
nessa obra; assim, especialmente neste ato, torna-se visível aquela admirável
conjunção de excelências de que se fala. Cristo nunca se mostrou tanto como um
cordeiro, como quando foi morto; ele veio como “um cordeiro para o matadouro”
(Isaías 53.7). Pois ele foi oferecido a Deus como um cordeiro sem defeito e sem
mancha; consequentemente ele se mostrou especialmente como o antítipo do
Cordeiro da Páscoa, 1 Coríntios 5.7: “Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi
imolado”. E, no entanto, nesse ato, ele se mostrou de um modo especial como o
Leão da tribo de Judá; sim, neste, acima de todos os outros atos, em muitos
aspectos, como se torna evidente nas seguintes coisas.
1. Neste caso, Cristo estava no maior grau de sua
humilhação e, ainda assim, acima de todas as outras coisas, sua glória divina
se torna visível. Grande foi a humilhação de Cristo ao nascer em tão humilde
condição, de uma virgem pobre e num estábulo. Grande foi a sua humilhação ao
submeter-se a José, o carpinteiro, e a Maria, sua mãe, e, depois, viver na
pobreza, não tendo onde reclinar a cabeça e sofrendo tantas e amargas censuras
como sofreu, enquanto pregava e operava milagres. Porém sua humilhação nunca
foi tão grande como em seus sofrimentos finais, começando com sua agonia no
Jardim até que expirou na cruz. Nunca esteve sujeito a tamanha ignomínia como
nesta ocasião; nunca sofreu tanta dor em seu corpo, nem tanta tristeza em sua
alma; nunca esteve em tão grande exercício de sua condescendência, humildade,
mansidão e paciência, como nestes sofrimentos finais; nunca sua glória e
majestade divinas foram cobertas com um véu tão espesso e escuro; nunca se
esvaziou tanto de si mesmo, e fez de si mesmo sem nenhuma reputação, como nesta
ocasião. E, no entanto, nunca sua glória divina foi tão manifestada, mediante
qualquer ato seu, como neste ato de se entregar a esses sofrimentos. Quando seu
fruto se tornou visível, e seu mistério e os seus propósitos foram revelados no
seu resultado, então a sua glória se tornou visível; então esse se mostrou como
o ato mais glorioso de Cristo que ele já praticou para com a criatura. Este seu
ato é celebrado pelos anjos e hostes do céu com louvores peculiares, como
aquele que está acima de todos os outros gloriosos, como pode ser visto no
contexto de Apocalipse 5.9-12: “E entoavam novo cântico, dizendo: Digno és de
tomar o livro e abrir-lhe os selos, porque foste morto e com o teu sangue
compraste para Deus os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação e para
o nosso Deus os constituíste reino e sacerdotes, e reinarão sobre a terra. Vi e
ouvi uma voz de muitos anjos ao redor do trono, dos seres viventes e dos
anciãos, cujo número era milhões de milhões e milhares de milhares, proclamando
em grande voz: Digno é o Cordeiro que foi MORTO de receber o poder, e riqueza,
e sabedoria, e força, e honra, e glória e louvor”.
2. Ele nunca, em qualquer ato, fez uma manifestação
tão grande de amor a Deus e, ainda assim, nunca manifestou tanto seu amor para
com aqueles que eram inimigos de Deus, como neste ato. Cristo nunca fez nada
pelo que seu amor para com o Pai fosse tão eminentemente manifestado como ao
entregar sua vida, sob tais sofrimentos inexprimíveis, em obediência a sua
ordem e em favor da reivindicação da honra de sua autoridade e majestade; nem
jamais qualquer mera criatura deu um testemunho de amor a Deus como este. E,
ainda assim, esta foi a maior expressão de todas de seu amor para com os homens
pecadores, que eram inimigos de Deus. Romanos 5.10: “Quando éramos inimigos,
fomos reconciliados com Deus mediante a morte de seu Filho”. A grandeza do amor
de Cristo para com eles não se torna visível tanto como em ser amor
agonizante/sacrificial. Aquele sangue de Cristo que suou e que caiu em grandes
gotas ao chão, em sua agonia, foi derramado por amor aos inimigos de Deus e
seus. Aquela vergonha e cuspe, aquele tormento do corpo e aquele grande
sofrimento, até a morte, que ele suportou em sua alma, foi o que ele sofreu por
amor aos rebeldes contra Deus, a fim de salvá-los do inferno e comprar para
eles a glória eterna. Cristo nunca mostrou tão eminentemente sua consideração
para com a honra de Deus como ao oferecer-se como vítima à justiça vingativa, a
fim de reivindicar a honra de Deus; e, ainda assim, acima de tudo, ele
manifestou seu amor para com aqueles que desonraram a Deus de modo a trazer tal
culpa sobre si mesmos, que nada menos que seu sangue poderia fazer expiação por
isso.
3. Cristo nunca se mostrou tão eminentemente a favor
da justiça divina e, ainda assim, nunca sofreu tanto por causa da justiça
divina, como quando se ofereceu em sacrifício pelos nossos pecados. Nos grandes
sofrimentos de Cristo, sua infinita consideração para com a honra da justiça de
Deus mostrou-se de modo distinto. Pois foi por causa disso que ele se humilhou,
e, no entanto, nesses sofrimentos, Cristo foi a marca das expressões vingativas
dessa mesma justiça de Deus. A justiça vingativa, nessa ocasião, exauriu toda a
sua força sobre ele por causa de nossa culpa que foi imposta sobre ele. Ele não
foi poupado; antes Deus esgotou as flechas de sua vingança sobre ele, o que o
fez suar sangue e clamar na cruz, e provavelmente rasgou seus órgãos vitais,
despedaçou seu coração, a fonte de sangue, ou alguns outros vasos sanguíneos
internos, e, mediante violenta fermentação, transformou seu sangue em água;
pois o sangue e a água que saíram de seu lado, quando perfurado pela lança,
parece ter sido sangue extravasado. E, assim, pode haver uma espécie de
cumprimento literal do dito no Salmo 22.14: “Derramei-me como água, e todos os
meus ossos se desconjuntaram; meu coração fez-se como cera, derreteu-se dentro
de mim”. E este foi o caminho e o modo pelos quais Cristo se levantou para
honrar a justiça de Deus, a saber, sofrendo suas terríveis execuções desse
modo. Pois quando ele se comprometeu com os pecadores e se colocou no seu
lugar, a justiça divina não poderia ter sua devida honra de nenhuma outra
maneira senão mediante o sofrer suas vinganças.
As diversas excelências que se encontraram na pessoa
de Cristo se tornam visíveis nisto, a saber, sua infinita consideração para com
a justiça de Deus e em tanto amor por aqueles que se expuseram a ela, que o
induziram a se entregar a ela.
4. A santidade de Cristo nunca brilhou tão
distintamente como em seus sofrimentos finais e, ainda assim, ele nunca foi
tratado como culpado a tal ponto. A santidade de Cristo nunca teve tal provação
como nesta ocasião e, por isso, nunca teve uma manifestação tão grande. Quando
ela foi provada nesta fornalha, saiu como ouro, ou como prata purificada sete
vezes. Sua santidade então se tornou visível, acima de tudo, em sua busca
constante da honra de Deus e em sua obediência a ele; pois entregar-se à morte
foi, de modo transcendente, o maior ato de obediência que já foi prestado a
Deus, por qualquer pessoa desde a fundação do mundo.
E, no entanto, Cristo foi tratado, no mais alto grau,
como uma pessoa perversa. Ele foi preso e amarrado como um malfeitor. Seus
acusadores o apresentaram como o mais miserável perverso. Em seus sofrimentos
antes de sua crucificação, ele foi tratado como se tivesse sido o pior e mais
vil dos homens; e, em seguida, ele foi condenado a uma espécie de morte que
ninguém, exceto o pior tipo dos malfeitores, costumava sofrer, aqueles que eram
os mais abjetos em suas pessoas e culpados dos crimes mais horrendos. E ele
sofreu como se fosse culpado segundo o próprio Deus, porque a nossa culpa foi imputada
a ele; porque aquele que não conheceu pecado foi feito pecado por nós; ele foi
sujeitado à ira como se ele próprio fosse pecador; ele foi feito maldição por
nossa causa.
Cristo nunca manifestou tão grandemente seu ódio para
com o pecado, como contra Deus, como ao morrer para tirar a infâmia que o
pecado havia feito a Deus; e, no entanto, ele nunca esteve tão sujeito aos
terríveis efeitos do ódio de Deus para com o pecado e à sua ira contra ele,
como esteve nesta ocasião. Nisto se tornam visíveis as diferentes excelências
reunidas em Cristo, a saber, amor a Deus e graça aos pecadores.
5. Ele nunca foi tratado com tanta indignidade como em
seus sofrimentos finais e, no entanto, é principalmente por causa deles que ele
é considerado digno. Ele foi tratado como se não fosse digno de viver. As
pessoas gritaram: “Fora! Fora! Crucifica-o!” (João 19.15). E eles preferiram
Barrabás a ele. E ele sofreu da parte do Pai como alguém cujos deméritos eram
infinitos, por causa dos nossos deméritos que foram colocados sobre ele. E,
ainda assim, foi especialmente por esse ato de se sujeitar a esses sofrimentos
que ele mereceu, e por principalmente cuja causa ele foi considerado digno, a
glória de sua exaltação. Filipenses 2.8-9, “a si mesmo se humilhou, tornando-se
obediente até à morte;... Pelo que Deus o exaltou sobremaneira”. E vemos que é
principalmente por causa disso que ele é exaltado como digno pelos santos e
anjos no contexto: “Digno”, dizem eles, “é o Cordeiro que foi morto...”. Isso
mostra uma admirável conjunção nele de dignidade infinita e de infinita
condescendência e amor ao infinitamente indigno.
6. Em seus sofrimentos finais, Cristo sofreu mais
extremamente da parte daqueles a quem ele estava mostrando, naquela ocasião,
seu maior ato de amor. Ele nunca sofreu tanto da parte de seu Pai (embora não
de ódio para com ele, mas de ódio para com os nossos pecados), pois ele então o
abandonou (como Cristo o expressa na cruz), ou tirou o conforto de sua
presença; e então “ao Senhor agradou moê-lo, fazendo-o enfermar”, conforme
Isaías 53.10. E, no entanto, nunca ofereceu tão grande manifestação de amor a
Deus como naquela ocasião, como já foi observado. Igualmente, Cristo nunca
sofreu tanto nas mãos dos homens como naquela ocasião e, ainda assim, nunca
houve um exercício tão elevado de amor aos homens. Ele nunca foi tão maltratado
por seus discípulos, os quais estavam tão despreocupados com seus sofrimentos
que não vigiaram com ele uma hora em sua agonia; e, quando ele foi preso, todos
o abandonaram e fugiram, exceto Pedro, que o negou com juramentos e maldições.
E, ainda assim, ele estava sofrendo, derramando seu sangue e derramando sua
alma até a morte por eles. Sim, provavelmente ele estava derramando seu sangue
por alguns daqueles que derramaram seu sangue; ele estava morrendo por alguns
que o mataram; por aqueles por quem ele orou enquanto o crucificavam e
provavelmente foram, mais tarde, levados a Cristo pela pregação de Pedro.
Compare Lucas 23.34, Atos 2.23, Atos 2.36, Atos 2.37, Atos 2.41, Atos 3.17 e
Atos 4.4. Isso mostra uma admirável confluência de justiça e graça na redenção
de Cristo.
7. Foi sobretudo nos sofrimentos finais de Cristo que
ele foi entregue ao poder de seus inimigos; e, todavia, foi sobretudo por estes
que ele obteve vitória sobre seus inimigos. Cristo nunca esteve tão nas mãos de
seus inimigos como na ocasião de seus sofrimentos finais. Eles atentaram contra
sua vida antes, mas, de tempos em tempos, eram contidos e Cristo escapava de
suas mãos. E a razão dada para isso, é que sua hora ainda não havia chegado.
Porém, agora, eles foram autorizados a realizar sua vontade sobre ele; ele foi
entregue à malícia e crueldade de homens ímpios e demônios em grande medida; e,
por isso, quando os inimigos de Cristo vieram prendê-lo, Jesus lhes disse, Lucas
22.53: "Diariamente, estando eu convosco no templo, não pusestes as mãos
sobre mim. Esta, porém, é a vossa hora e o poder das trevas."
E, no entanto, foi principalmente por meio desses
sofrimentos que ele venceu e derrotou seus inimigos. Cristo nunca feriu tão
eficazmente a cabeça de Satanás como quando Satanás feriu seu calcanhar. A arma
com a qual Cristo guerreou contra o diabo, obteve uma vitória mais completa e
um triunfo glorioso sobre ele foi a cruz, o instrumento e a arma com a qual o
diabo pensou que havia derrotado a Cristo e trazido sobre ele uma destruição
vergonhosa. Colossenses 2.14-15, “tendo cancelado o escrito de dívida, ...
encravando-o na cruz; e, despojando os principados e as potestades,
publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz.” Em seus
sofrimentos finais, Cristo solapou os próprios fundamentos do reino de Satanás;
ele venceu seus inimigos em seus próprios territórios, e os derrotou com suas
próprias armas; como Davi que cortou a cabeça de Golias com sua própria espada.
O diabo, por assim dizer, engoliu a Cristo, como a baleia fez com Jonas, mas
foi um veneno mortal para ele; Cristo lhe aplicou uma ferida mortal em suas
próprias entranhas. Ele logo ficou com náuseas de seu bocado e foi forçado a
vomitá-lo; e está até hoje desolado com o que ele engoliu como sua presa.
Nesses sofrimentos de Cristo, foi lançado o fundamento de toda aquela gloriosa
vitória que ele já obteve sobre Satanás; na destruição de seu reino pagão, no
império romano, em todo o sucesso que o evangelho teve desde então, e também em
toda a sua vitória futura e ainda mais gloriosa que deve ser obtida na terra.
Assim, o enigma de Sansão é mais eminentemente cumprido, Juízes 14.14: “Do
comedor saiu comida, e do forte saiu doçura”. E, desse modo, o verdadeiro
Sansão faz mais para a destruição de seus inimigos em sua morte do que em sua
vida; ao entregar-se à morte, ele demoli o templo de Dagon e destrói muitos
milhares de seus inimigos, exatamente quando eles estão zombando de seus
sofrimentos; e assim aquele cujo tipo era a arca, derruba Dagon e quebra sua
cabeça e mãos em seu próprio templo, exatamente quando é levado para lá como
cativo de Dagon.[5]
Desse modo, ao mesmo tempo e no mesmo ato, Cristo
apresenta-se como um leão e um cordeiro. Ele se mostra como um cordeiro nas
mãos de seus inimigos cruéis; como um cordeiro nas patas e entre as mandíbulas
devoradoras de um leão que ruge. Sim, ele foi um cordeiro realmente morto por
este leão. E, todavia, ao mesmo tempo, como o Leão da tribo de Judá, ele vence e
triunfa sobre Satanás, destruindo seu próprio devorador; como Sansão fez com o
leão que rugiu contra ele, quando ele o rasgou como se fosse um cabrito. E em
nada Cristo se mostrou tanto como um leão, em força gloriosa destruindo seus
inimigos, como quando foi levado como um cordeiro ao matadouro. Em sua maior
fraqueza, ele foi mais forte; e quando ele mais sofreu da parte de seus
inimigos, ele trouxe a maior perplexidade sobre seus inimigos.
Desse modo, esta admirável conjunção de diferentes
excelências foi manifestada por Cristo em sua oferta de si mesmo a Deus em seus
sofrimentos finais.
Quarto. Isto
ainda é manifesto em seus atos em seu presente estado de exaltação no céu. De
fato, em seu estado exaltado, ele se mostra mais eminentemente em uma
manifestação dessas excelências, por causa das quais ele é comparado a um leão.
Porém, ainda assim, ele se mostra como um cordeiro, Apocalipse 14: “Olhei, e
eis que o Cordeiro em pé sobre o monte Sião.” Embora, em seu estado de
humilhação, ele se manifestou principalmente como um Cordeiro, no entanto, ele
não se apresentou sem manifestações de sua majestade e poder divinos, como o
Leão da tribo de Judá. Embora Cristo esteja, agora, à mão direita de Deus,
exaltado como Rei do Céu e Senhor do Universo, visto que ele ainda possui
natureza humana, ele ainda se destaca em humildade. Embora o homem Cristo Jesus
seja a mais alta de todas as criaturas no céu, ele supera todas elas em
humildade, bem como em glória e dignidade; pois ninguém vê tanta distância
entre Deus e ele, como ele. E embora ele se mostre, agora, em tão gloriosa
majestade e domínio no céu, ele se mostra como um cordeiro em seu tratamento
condescendente, suave e doce para com seus santos ali; pois ainda é um
cordeiro, mesmo no meio do trono de sua exaltação. E aquele que é o pastor de
todo o rebanho, ele mesmo é um cordeiro e vai adiante deles no céu conforme
Apocalipse 7.17: “pois o Cordeiro que se encontra no meio do trono os
apascentará e os guiará para as fontes de água da vida. E Deus lhes enxugará
dos olhos toda lágrima.” Embora, no céu, todo joelho se dobre diante dele, e
embora os anjos se prostrem diante dele, adorando-o, ainda assim ele trata seus
santos com infinita condescendência, brandura e carinho. E, em seus atos para
com os santos na terra, ele ainda se mostra como um cordeiro, manifestando
grande amor e ternura em sua intercessão por eles, como alguém que experimentou
aflição e tentação. Ele não esqueceu o que são essas coisas, nem esqueceu como
ter compaixão daqueles que estão sujeitos a elas. E ele ainda manifesta suas
excelências como cordeiro em suas relações com seus santos na terra: em
admirável paciência, amor, gentileza e compaixão; instruindo, suprindo,
apoiando e confortando-os; frequentemente indo até eles e manifestando-se a
eles por seu Espírito, para que ele possa cear com eles, e eles com ele;
admitindo-os à doce comunhão com ele, capacitando-os com ousadia e confiança a
vir a ele, e a consolarem seus corações nele. E, no céu, Cristo ainda se
mostra, por assim dizer, com as marcas de suas feridas nele e, assim, se mostra
como o cordeiro que foi morto; como foi apresentado em visão a João, no texto,
quando se apresentou para abrir o livro selado com sete selos, o que faz parte
da glória de sua exaltação.
Quinto. E,
por fim, esta admirável conjunção de excelências será manifestada nos atos de
Cristo no Juízo Final. Ele, na ocasião, acima de todas as outras vezes, se
apresentará como o Leão da tribo de Judá em infinita grandeza e majestade,
quando vier na glória de seu Pai com todos os santos anjos, e a terra tremerá
diante dele e os montes derreterão. Isto é dito dele em Apocalipse 20.11, que
se sentará em um grande trono branco, diante de cuja presença a terra e o céu
fugirão. Ele então se mostrará da maneira mais terrível e assombrosa para os
ímpios. Os demônios tremem com os pensamentos dessa aparição. E quando ocorrer,
os reis, os grandes, os ricos, os capitães, os poderosos, todo escravo e todo
homem livre, se esconderão nas covas e nas rochas dos montes, e clamarão aos
montes e às rochas para que caiam sobre si, a fim de os esconder da face e da
ira do Cordeiro. E ninguém pode anunciar ou conceber as assombrosas
manifestações de ira, nas quais ele se manifestará para com estes; ou o tremor
e espanto, o grito e o ranger de dentes, com os quais estarão diante de seu
tribunal, e receberão a terrível sentença de sua ira.
E, ainda assim, ele se mostrará, ao mesmo tempo, como
um cordeiro para seus santos. Ele os receberá como amigos e irmãos, tratando-os
com infinita brandura e amor. Nele, não haverá nada terrível para eles, mas,
para com eles, ele se vestirá inteiramente de doçura e carinho. A igreja será,
então, admitida a ele como sua noiva; esse será o dia de seu casamento. Todos
os santos serão docemente convidados a irem com ele, a fim de herdar o reino e
reinar nele com ele, por toda a eternidade.
Aplicação
I. Desta doutrina podemos aprender uma razão pela qual
Cristo é chamado por tal variedade de nomes, e apresentado sob tal variedade de
representações nas Escrituras. É a melhor para expressar e exibir para nós essa
variedade de excelências que são encontradas e estão unidas nele. Muitos
títulos são mencionados juntos em um versículo, Isaías 9.6: “Porque um menino
nos nasceu, um filho se nos deu; o governo está sobre os seus ombros; e o seu
nome será: Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da
Paz”. Mostra uma maravilhosa conjunção de excelências que a mesma pessoa seja
um Filho nascido e dado, e, ainda assim, seja o Pai da Eternidade, sem começo
nem fim; que ele seja uma criança e, ainda assim, seja aquele cujo nome é
Conselheiro e Deus Forte; e apropriado que, em quem tais coisas estão unidas,
ele seja chamado de Maravilhoso.
Por causa da mesma maravilhosa conjunção, Cristo é
representado por uma grande variedade de coisas perceptíveis, que são, de certa
forma, excelentes. Assim, em alguns lugares ele é chamado de sol, como em
Malaquias 4.2; em outros, estrela, como em Números 24.17. E ele é especialmente
representado pela estrela da manhã, como sendo aquela que supera todas as
outras estrelas em brilho e é a precursora do dia (Apocalipse 22.16). E, como
em nosso texto, ele é comparado a um leão, em um versículo, e a um cordeiro, no
próximo. Igualmente, às vezes, ele é comparado a uma corça ou um veado, outra
criatura muito diferente de um leão. Também, em alguns lugares ele é chamado de
rocha, em outros, ele é comparado a uma pérola; em alguns lugares ele é chamado
de homem de guerra e capitão da nossa salvação, em outros lugares ele é
representado como um noivo. Em Cântico dos cânticos 2.1, ele é comparado a uma
rosa e um lírio, que são flores perfumadas e belas; no versículo 3, ele é
comparado a uma árvore que dá frutos doces. Em Isaías 53.2, ele é chamado de
raiz de uma terra seca; mas em outros lugares, em vez disso, ele é chamado de
árvore da vida, que cresce (não em solo seco ou estéril, mas) no meio do “paraíso
de Deus” (Apocalipse 2.7).
II. Deixe a consideração deste maravilhoso encontro de
diferentes excelências em Cristo induzir você a aceitá-lo e a unir-se a ele
como teu Salvador. Visto que todos os tipos de excelências são encontradas
nele, também nele concorrem todos os tipos de argumentos e motivos para levar
você a escolhê-lo como teu Salvador, e tudo o que tende a encorajar os pobres
pecadores a irem e depositarem sua confiança nele: sua plenitude e toda
suficiência como Salvador tornam-se gloriosamente visíveis nesta variedade de
excelências de que se falou.
O homem caído está em um estado de grande miséria e é
impotente; ele é uma pobre criatura fraca, como uma criança lançada em seu
sangue no dia em que nasce. Porém Cristo é o Leão da tribo de Judá; ele é
forte, embora nós sejamos fracos; ele prevaleceu para fazer por nós o que
nenhuma outra criatura poderia fazer. O homem caído é uma criatura vil e
desprezível, um verme desprezível. Mas Cristo, que se comprometeu por nós, é
infinitamente honrado e digno. O homem caído está corrompido, mas Cristo é
infinitamente santo; o homem caído é odioso, mas Cristo é infinitamente amável;
o homem caído é o objeto da indignação de Deus, mas Cristo é infinitamente
amado por ele. Nós provocamos terrivelmente a Deus, mas Cristo realizou aquela
justiça que é infinitamente preciosa aos olhos de Deus.
E aqui não há somente força e dignidade infinitas, mas
condescendência infinita; e amor e misericórdia tão grandes quanto poder e
dignidade. Se você é um pobre pecador aflito, cujo coração está pronto para
afundar por medo de que Deus nunca tenha misericórdia de você, você não precisa
ter medo de ir a Cristo, com medo de que ele seja incapaz ou não queira ajudar
você. Aqui está um sólido fundamento e um tesouro inesgotável para atender às
necessidades de tua pobre alma; e aqui está infinita graça e bondade para
convidar e encorajar uma pobre alma medrosa e indigna a ir a ela. Se Cristo
aceitar você, você não precisa temer, mas estará seguro; pois ele é um leão
forte para te defender. E, se você for a Cristo, não precisa temer, mas será
aceito; pois ele é como um cordeiro para todos os que vão a ele, e os recebe
com infinita graça e ternura. É verdade que ele tem uma majestade terrível; ele
é o grande Deus e está infinitamente acima de você, mas há isso para encorajar
e animar o pobre pecador: que Cristo é tanto homem quanto Deus; ele é uma
criatura, bem como o Criador; e ele é o mais humilde e manso de coração que
qualquer criatura no céu ou na terra. Isso pode muito bem tornar a pobre
criatura indigna ousada em ir até ele. Você não precisa hesitar por um momento,
mas pode correr para ele e lançar-se sobre ele. Você certamente será graciosa e
mansamente recebido por ele. Embora ele seja um leão, ele será apenas um leão
para teus inimigos, mas ele será um cordeiro para você. Não poderia ter sido
concebido, se não fosse assim na pessoa de Cristo, que poderia haver tanto em
qualquer Salvador que convide e tenda a encorajar os pecadores a confiar nele.
Quaisquer que sejam tuas circunstâncias, você não precisa ter medo de ir a um
Salvador como este. Seja você uma criatura tão perversa, aqui há dignidade
suficiente; seja você uma criatura tão pobre, vil e ignorante, não há perigo de
ser desprezado; pois embora ele seja muito maior do que você, ele também é
imensamente mais humilde do que você. Qualquer um de vocês, que seja pai ou
mãe, não desprezará um de seus próprios filhos que vem a você em aflição;
existe muito menos perigo de Cristo desprezar você, se você em teu coração for
a ele.
Deixe-me, aqui, discutir um pouco com a alma pobre,
sobrecarregada e aflita.
Primeiro.
De que você tem medo, de modo que você não ouse aventurar sua alma em Cristo?
Você tem medo de que ele não possa salvá-lo, que ele não seja forte o
suficiente para vencer os inimigos de tua alma? Porém como você pode desejar
alguém mais forte do que "o Deus Forte", como Cristo é chamado
(Isaías 9:6)? Há necessidade de força maior que infinita? Você tem medo de que
ele não esteja disposto a se inclinar tanto a ponto de prestar atenção em você?
Porém, neste caso, olhe para ele, enquanto ele se encontrava no círculo de
soldados, expondo seu rosto abençoado para ser esbofeteado e cuspido por eles!
Veja-o amarrado, com as costas descobertas para aqueles que o feriram! E veja-o
pendurado na cruz! Você acha que aquele que teve condescendência o suficiente
para se curvar a essas coisas, e isto em prol dos seus crucificadores, não
estará disposto a aceitá-lo se você for a ele? Ou você tem medo de que, se ele
aceitar você, o Deus Pai não o aceitará em teu lugar? Porém considere, Deus
rejeitará seu próprio Filho, em quem está seu deleite infinito, e tem sido
desde toda a eternidade, e que está tão unido a ele que, se ele o rejeitasse,
ele rejeitaria a si mesmo?
Segundo. O
que você pode desejar que esteja em um Salvador que não está em Cristo? Ou, em
que você desejaria que um Salvador fosse diferente de Cristo? Que excelência
está faltando? O que há que seja ótimo ou bom? O que há que seja venerável ou vencedor?
O que há que seja adorável ou amável? Ou, o que você pode pensar que seria
encorajador que não seja encontrado na pessoa de Cristo? Você gostaria que teu
Salvador fosse grande e honrado, porque não está disposto a ser devedor de uma
pessoa vil? E, Cristo não é uma pessoa honrada o suficiente para ser digna de
que você dependa dele? Ele não é uma pessoa distinta o suficiente para ser
digna de ser designada para uma obra tão honrosa como a tua salvação? Você não
gostaria apenas de ter um Salvador de condição superior, mas você gostaria de
tê-lo, apesar da sua exaltação e dignidade, feito também de condição inferior,
a fim de que ele experimentasse aflições e provações, aprendesse pelas coisas
que sofreu, a fim de compadecer-se dos que sofrem e são tentados? E Cristo não
foi feito humilde o suficiente por você? E ele não sofreu o suficiente? Você
gostaria que ele não apenas tivesse experiência das aflições que você sofre
agora, mas também daquela espantosa ira que você teme no futuro, a fim de que
ele saiba como ter compaixão daqueles que estão em perigo de sofrê-la e com
medo dela? Este Cristo teve experiência dela, experiência que lhe deu um senso
maior dela, mil vezes do que você ou qualquer homem vivo tem. Você gostaria que
teu Salvador fosse alguém que está perto de Deus, a fim de que sua mediação
pudesse prevalecer sobre ele? E você pode desejar que ele esteja mais perto de
Deus do que Cristo, que é seu Filho unigênito, da mesma essência com o Pai,
está? E você não gostaria de tê-lo perto de Deus, mas também perto de você, de
modo que você pudesse ter livre acesso a ele? E você gostaria de tê-lo mais
próximo de você do que ser da mesma natureza, e não apenas assim, mas unido a
você mediante uma união espiritual, tão próxima a ponto de ser adequadamente
representada pela união da esposa com o esposo, do ramo à videira, do membro à
cabeça, sim, de modo a ser considerado um e chamado um espírito? Pois ele se
unirá a você dessa forma se você o aceitar. Você gostaria de ter um Salvador
que deu um grande e extraordinário testemunho de misericórdia e amor aos
pecadores, mediante algo que ele fez, bem como mediante o que ele diz? E você
pode pensar ou conceber coisas maiores do que as que Cristo fez? Não foi uma
coisa formidável para ele, que era Deus, tomar sobre si a natureza humana; ser
não apenas Deus, mas homem desde então por toda a eternidade? Porém você
consideraria o sofrimento pelos pecadores como um testemunho ainda maior de
amor aos pecadores do que apenas fazer, embora nunca seja uma coisa que ele tenha
feito tão extraordinária? E você desejaria que um Salvador sofresse mais do que
Cristo sofreu pelos pecadores? O que está faltando, ou o que você acrescentaria
se pudesse, a fim de torná-lo mais apto para ser teu Salvador?
Contudo, além de persuadir você a aceitar a Cristo
como teu Salvador, considere duas coisas particularmente.
1. Quanto Cristo aparece, como o Cordeiro de Deus, em
seus convites a você para vir a ele e confiar nele. Com que doce graça e
bondade ele, de tempos em tempos, chama e convida você conforme as palavras de
Provérbios 8.4: “A vós, ó homens, clamo; e a minha voz se dirige aos filhos dos
homens." E conforme Isaías 55.1-3: “Ah! Todos vós, os que tendes sede,
vinde às águas; e vós, os que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei; sim,
vinde e comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite.” Quão gracioso ele é
aqui ao convidar a todos os que têm sede, e ao repetir seu convite repetidas
vezes: “vinde às águas, vinde, comprai e comei, sim vinde”; e ao declarar a
excelência deste acolhimento que ele convida você a aceitar: “Vinde e
comprai... vinho e leite”; e ao assegurar-lhe que tua pobreza e o não ter nada
para pagar por isso não será objeção: “vinde e comprai, sem dinheiro e sem
preço”. E nos argumentos e censuras graciosos que ele usa com você. Como é dito
a seguir: “Por que gastais dinheiro naquilo que não é pão, e o vosso suor,
naquilo que não satisfaz? Ouvi-me atentamente, comei o que é bom e vos
deleitareis com finos manjares.” Tanto como dizer: “É totalmente desnecessário
que você continue trabalhando e labutando por aquilo que nunca pode servir ao
seu propósito de buscar descanso no mundo e em tua justiça própria; ... eu
tenho provisão abundante para você daquilo que é realmente bom, satisfará
plenamente teus desejos, servirá ao seu propósito e estará pronto para
aceitá-lo; você não precisa ter medo; se você vier a mim eu me comprometerei a
ver todas as tuas necessidades supridas, e fazer de você uma criatura feliz.”
Como ele promete em Isaías 55.3: “Inclinai os ouvidos e vinde a mim; ouvi, e a
vossa alma viverá; porque convosco farei uma aliança perpétua, que consiste nas
fiéis misericórdias prometidas a Davi”. E também em Provérbios 9, no início,
quão gracioso e doce é o convite ali! “Quem é simples, volta-te para aqui”;
nunca seja uma criatura tão pobre, ignorante e cega, você será bem-vindo. E
Cristo apresenta a provisão que ele fez para você nas seguintes palavras: “Vinde
comer do meu pão e beber do vinho que misturei”. Você está em um pobre estado
de fome e não tem nada com que alimentar tua alma perecível; você tem buscado
algo, mas, ainda assim, permanece necessitado. Ouça como Cristo te chama para
comer do seu pão e beber do vinho que ele misturou! E quão semelhante a um
cordeiro Cristo se mostra em Mateus 11.28-30: “Vinde a mim, todos os que estais
cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e
aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso
para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve.” Ó tu pobre
e aflita alma! Quem quer que seja que tenha medo de nunca ser salvo, considere
que isso que Cristo menciona é o teu próprio caso, quando ele chama aqueles que
trabalham e estão sobrecarregados! E como ele repetidamente promete descanso se
você for a ele! Em Mateus 11.28 ele diz: “E eu vos aliviarei”; e em Mateus
11.29: “Achareis descanso para a vossa alma.” Isso é o que você quer! Esta é a
coisa que você tem procurado em vão há tanto tempo! Oh, quão doce seria para
você o descanso se você pudesse obtê-lo! Venha a Cristo e você o obterá. E ouça
como Cristo, para encorajá-lo, se apresenta como um cordeiro! Ele diz a você
que é manso e humilde de coração; e você tem medo de vir a alguém assim? E,
novamente, Apocalipse 3.20: “Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a
minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele,
comigo.” Cristo condescende não apenas em chamar você para ele, mas ele vem até
você; ele vem à tua porta e bate nela. Ele podia enviar um oficial e prender
você como um malfeitor rebelde e vil, mas, em vez disso, ele vem e bate à tua
porta, e pede que você o receba em tua casa como teu amigo e Salvador. E ele
não apenas bate à tua porta, mas fica lá esperando enquanto você está relutante
e sem vontade. E não apenas isso, mas ele promete o que fará por você se você o
admitir, que privilégios ele concederá a você; ele "ceara com você, e
você, com ele”. E, novamente, Apocalipse 22.16-17: “Eu sou a Raiz e a Geração
de Davi, a brilhante e a estrela da manhã. E o Espírito e a noiva dizem: Vem!
Aquele que ouve, diga: Vem! Aquele que tem sede venha; e quem quiser receba de
graça da água da vida”. Como Cristo, aqui, graciosamente coloca diante de você
sua própria excelência atraente e vencedora! E como ele condescende em declarar
a você não apenas seu próprio convite, mas o convite do Espírito e da noiva, se
de alguma forma ele pode encorajá-lo a vir! E como ele convida a todos que
quiserem, para que possam “receber de graça a água da vida”, a fim de que
possam receber um dom gratuito, por mais precioso que seja, e embora seja a
água da vida!
2. Se você vier a Cristo, ele se mostrará como um
leão, em seu glorioso poder e domínio, para defender você. Todas aquelas suas
excelências, nas quais ele se mostra como um leão, serão tuas e serão
empregadas em teu favor, em tua defesa, em favor da tua segurança e para
promover a tua glória. Ele será como um leão para lutar contra os teus
inimigos; quem tocar ou ofender você provocará a sua ira, como quem atiça a um
leão. A menos que teus inimigos possam vencer este leão, eles não serão capazes
de destruir ou machucar você. A menos que sejam mais fortes do que ele, não
poderão impedir tua felicidade. Isaías 31.4: “Porque assim me disse o Senhor:
Como o leão e o cachorro do leão rugem sobre a sua presa, ainda que se convoque
contra eles grande número de pastores, e não se espantam das suas vozes, nem se
abatem pela sua multidão, assim o Senhor dos Exércitos amparará a Jerusalém;
protegê-la-á e salvá-la-á, poupá-la-á e livrá-la-á.”
III. Deixe que o que foi dito seja melhorado para
persuadir você a amar o Senhor Jesus Cristo, e a escolhê-lo como teu amigo e
porção. Visto que há um encontro tão admirável de diferentes excelências em
Cristo, há tudo nele para torná-lo digno de teu amor e escolha, e para
conquistar e comprometer esse amor e escolha. Tudo o que há, ou pode haver, que
seja desejável estar em um amigo, está em Cristo, e isso no mais alto grau que
pode ser desejado.
Você escolheria para ser amigo uma pessoa de grande
dignidade? É uma coisa comum aos homens terem como amigos pessoas que estão
muito acima deles; porque se consideram honrados pela amizade delas. Assim como
seria com uma donzela inferior ser objeto do afetuoso amor de algum grande e
excelente príncipe. Porém Cristo está infinitamente acima de você e acima de
todos os príncipes da terra; pois ele é o Rei dos reis. Uma pessoa tão ilustre
como esta se oferece a você em amizade mais próxima e afetuosa.
E você escolheria ter um amigo não apenas nobre, mas
bom? Em Cristo, são encontradas grandeza e bondade infinitas, e recebem brilho
e glória uma da outra. Sua grandeza se apresenta de modo gracioso mediante sua
bondade. Quanto mais sem bondade alguém é, tanto maior o mal; mas quando a
bondade infinita se junta à grandeza, ela a torna uma grandeza gloriosa e
adorável. Assim, por outro lado, sua bondade infinita recebe o brilho de sua
grandeza. Aquele que é de grande entendimento e habilidade, e, ao mesmo tempo,
de boa e excelente disposição, é merecidamente mais estimado do que um ser mais
baixo e inferior com a mesma inclinação e boa vontade. De fato, a bondade é
excelente em qualquer objeto em que se encontre; é a própria beleza e
excelência, e torna excelentes todos os que a possuem. E ainda mais excelente
quando unida à grandeza, exatamente como as excelentes qualidades do ouro
tornam o corpo ao qual são inerentes mais precioso e de maior valor, quando
combinados com dimensões maiores do que quando com menores. E quão gloriosa é a
visão, ver aquele que é o grande Criador e supremo Senhor do céu e da terra
cheio de condescendência, terna piedade e misericórdia para com os vis e
indignos! Seu poder onipotente, majestade infinita e autossuficiência tornam
seu amor e graça extraordinários ainda mais surpreendentes. E como sua
condescendência e compaixão valorizam sua majestade, poder e domínio, e tornam
esses atributos agradáveis, os quais, de outra forma, seriam simplesmente
terríveis! Você não desejaria que teu amigo, considerado grande e honrado,
fosse de tal condescendência e graça, e, assim, tivesse o caminho aberto para
livre acesso a ele, de modo que sua exaltação acima de você não impedisse seu
livre desfrute de sua amizade?
E você escolheria, não apenas, que a grandeza e
majestade infinitas de seu amigo fossem, por assim dizer, suavizadas e
abrandadas com condescendência e graça, mas também desejaria ter seu amigo em
sua própria essência, a fim de que ele pudesse se aproximar de você? Você
escolheria um amigo muito acima de você e, no entanto, por assim dizer, que
estivesse no mesmo nível de você também? (Embora seja difícil para os homens
ter um amigo próximo e querido de dignidade superior, ainda assim há neles uma
inclinação de ter seu amigo, um participante, com eles nas circunstâncias.)
Assim é Cristo. Embora ele seja o grande Deus, ele se rebaixou para estar no
mesmo nível que você, de modo a se tornar homem como você, para que ele não
seja apenas teu senhor, mas teu irmão, e para que ele possa ser o mais adequado
para ser companheiro para tal verme do pó. Este é um dos objetivos de Cristo
tomar sobre si a natureza do homem, para que seu povo possa viver sob as
vantagens de uma conversa mais familiar com ele do que a distância infinita da
natureza divina permitiria. E por isso a igreja ansiava pela encarnação de
Cristo. Cântico dos cânticos 8.1: “Tomara fosses como meu irmão, que mamou os
seios de minha mãe! Quando te encontrasse na rua, beijar-te-ia, e não me
desprezariam.”[6]
Um dos desígnios de Deus no evangelho é levar-nos a fazer de Deus o objeto de
nosso apreço não dividido, para que ele possa ocupar nosso apreço de todas as
maneiras, de modo que ele seja o centro de qualquer inclinação natural que
exista em nossas almas. Para que Deus seja tudo em todos. Porém há uma
inclinação na criatura, não apenas para a adoração de um senhor e soberano, mas
para a complacência em alguém como amigo, para amar e deleitar-se com alguém com
quem se pode conversar como companheiro. E a virtude e a santidade não destroem
nem enfraquecem esta inclinação da nossa natureza. Mas Deus planejou dessa
forma no caso da nossa redenção, que uma pessoa divina pode ser o preciso
objeto dessa inclinação de nossa natureza. E, para isso, tal pessoa desceu até
nós, tomou nossa natureza, se tornou um de nós e chama a si mesmo de nosso
amigo, irmão e companheiro. Salmos 122.8: “Por amor dos meus irmãos e amigos,
eu peço: haja paz em ti”.
Contudo, não é suficiente convidar e encorajar [você]
ao livre acesso a um amigo tão grande e sublime, que ele é de infinita graça
condescendente, e também tomou tua própria natureza e se tornou homem? Porém,
para te encorajar e cativar, você desejaria que ele fosse um homem de maravilhosa
mansidão e humildade? Porquê essa pessoa é Cristo! Ele não apenas se tornou
homem em teu favor, mas de longe o mais manso e humilde de todos os homens, o
maior exemplo dessas doces virtudes que já existiu ou existirá. E além destas,
ele tem todas as outras excelências humanas na mais alta perfeição. Estas, de
fato, não são um acréscimo adequado às suas excelências divinas. Cristo não tem
mais excelência em sua pessoa desde sua encarnação do que tinha antes; pois a
excelência divina é infinita e nada pode ser adicionado a ela. Todavia, suas
excelências humanas são manifestações adicionais de sua glória e excelência a
nós, e são recomendações adicionais dele à nossa estima e amor, que são de
extensão finita. Embora suas excelências humanas sejam apenas comunicações e
reflexos de sua divindade. E embora essa luz, conforme refletida, fique
infinitamente aquém da fonte de luz divina em sua glória imediata; no entanto,
o reflexo não brilha sem suas próprias vantagens, como apresentado à nossa
visão e afeição. À medida que a glória de Cristo aparece nas qualificações de
sua natureza humana, ela se mostra a nós em excelências que são de nossa
própria espécie, e são exercidas a nosso próprio modo e costume, e, assim, em
alguns aspectos, são particularmente adequadas para convidar nosso entendimento
e atrair nossa afeição. A glória de Cristo, como se apresenta em sua divindade,
embora seja muito mais brilhante, também fascina mais nossos olhos e excede a
força ou a compreensão de nossa visão; mas quando brilha nas excelências
humanas de Cristo, é trazida mais ao nível de nossas concepções e adequação à
nossa natureza e costume; mantendo, no entanto, uma aparência da mesma beleza
divina e um sabor da mesma doçura divina. Contudo, visto que as excelências
divinas e humanas se encontram em Cristo, elas destacam e recomendam umas às
outras a nós. Isto é o que tende a tornar valiosas para nós a divina e infinita
majestade e santidade de Cristo, que são atributos de uma pessoa que vive com
nossa natureza, que é um de nós, que se tornou nosso irmão, e é o mais manso e
humilde dos homens. Isto nos encoraja a olhar para essas perfeições divinas,
por mais sublimes e excelentes que sejam, como algo com que temos algum
interesse familiar, e mais como um direito e liberdade para desfrutar
livremente. E, por outro lado, quão mais gloriosas e surpreendentes a mansidão,
a humildade, a obediência, a resignação e outras excelências humanas de Cristo
se tornam visíveis, quando consideramos que estão e uma pessoa tão excelente
como o eterno Filho de Deus, o Senhor do céu e da terra!
Ao escolher a Cristo como teu amigo e porção você
obterá esses dois benefícios infinitos.
Primeiro.
Cristo dará a si mesmo a você, com todas as várias excelências que se encontram
nele, para teu gozo pleno e eterno. Ele sempre tratará você como seu amado
amigo; e em breve você estará onde ele está, verá a sua glória e habitará com
ele na mais livre e íntima comunhão e gozo.
Quando os santos chegarem ao céu, eles não apenas
verão a Cristo e terão que lidar com ele como súditos e servos de um glorioso e
gracioso senhor e soberano, mas Cristo os receberá como amigos e irmãos. Isso
podemos aprender a partir do modo como Cristo conversou com seus discípulos
aqui na terra. Embora ele fosse seu senhor soberano e não recusasse, mas
exigisse seu supremo respeito e adoração, ele não os tratou como os soberanos
terrenos costumam fazer a seus súditos. Ele não os manteve a uma terrível
distância, mas conversava com eles o tempo todo com a mais amigável
familiaridade; como um pai entre um grupo de filhos; sim, como com irmãos. Ele
agiu assim com os doze, e com Maria, Marta e Lázaro. Ele disse a seus
discípulos que não os chamava de servos, mas de amigos. E lemos sobre um deles
que se deitou em seu seio.[7]7
E, sem dúvida, ele não tratará seus discípulos com menos liberdade e carinho no
céu. Ele não os manterá a uma distância maior por estar em estado de exaltação,
mas ele os levará a um estado de exaltação com ele. Este será o aperfeiçoamento
que Cristo fará de sua própria glória, tornar seus amados amigos participantes
com ele, glorificá-los em sua glória. Como ele disse a seu Pai, João 17.22-23: “Eu
lhes tenho transmitido a glória que tens dado, para que sejam um, como nós o
somos; eu neles”, etc. Devemos considerar que, embora Cristo seja grandemente
exaltado, ele não é exaltado como uma pessoa individual, apenas em prol de si
mesmo, mas como cabeça de seu povo. Ele é exaltado em seu nome e por causa
deles, como as primícias e como representando toda a colheita. Ele não é
exaltado para estar a uma distância maior deles, mas para que eles sejam
exaltados com ele. A exaltação e honra da cabeça não é produzir uma distância
maior entre a cabeça e os membros, mas para que os membros tenham a mesma
relação e união com a cabeça que tinham antes, e sejam honrados com a cabeça.
E, em vez de a distância ser maior, a união será mais próxima e mais perfeita.
Quando os crentes chegarem ao céu, Cristo os conformará a si mesmo; Visto que
ele está assentado no trono de seu Pai, igualmente eles se assentarão com ele
em seu trono, e serão feitos à sua medida como ele.
Quando Cristo estava indo para o céu, ele confortou
seus discípulos com isso, que, depois de um tempo, ele viria novamente e os
levaria para si, para que pudessem estar com ele novamente. E não devemos supor
que, quando os discípulos chegaram ao céu, o encontraram mantendo uma distância
maior do que costumava fazer. Não, sem dúvida, ele os abraçou como amigos e os
acolheu na sua casa, e deles, na casa do Pai, e na sua glória, e deles. Aqueles
que foram seus amigos neste mundo, que estiveram juntos com ele aqui, e juntos
participaram de tristezas e sofrimentos, agora, são recebidos por ele para
descansar e participar da glória com ele. Ele os tomou e os levou para seus
aposentos, e mostrou-lhes toda a sua glória; como ele orou, João 17.24:
"Pai, a minha vontade é que onde eu estou, estejam também comigo os que me
deste, para que vejam a minha glória que me conferiste." E ele os conduziu
às suas fontes das águas da vida, os fez participar de suas delícias; como ele
orou, João 17.13: “Para que eles tenham o meu gozo completo em si mesmos”. E os
pôs com ele à sua mesa, no seu reino, e os fez participar com ele das suas
iguarias, conforme a sua promessa (Lucas 22.30). E os conduziu à sua casa de
banquetes, e os fez beber vinho novo com ele no reino de seu Pai celestial;
como ele predisse quando instituiu a Ceia do Senhor (Mateus 26.29).
Sim, a conversa dos santos com Cristo no céu não será
apenas tão íntima, e seu acesso a ele tão livre, como dos discípulos na terra,
mas, em muitos aspectos, muito mais. Pois, no céu, essa união vital será
perfeita, o que é extremamente imperfeita aqui. Enquanto os santos estão neste
mundo, há grandes resquícios de pecado e trevas para separá-los ou desuni-los
de Cristo; os quais, então, serão todos removidos. Este não é o tempo para esse
conhecimento completo e para aquelas gloriosas manifestações de amor que Cristo
tem em vista para seu povo no futuro; que parece ser o indicado pelo discurso
de Cristo a Maria Madalena, quando prepara-se para abraçá-lo, quando ela o
encontrou após sua ressurreição; conforme João 20.17: “Recomendou-lhe Jesus:
Não me detenhas; porque ainda não subi para meu Pai”.
Quando os santos virem a glória e a exaltação de
Cristo no céu, isto, de fato, se apoderará de seus corações com maior admiração
e apreço adorador, mas não os intimidará a qualquer separação, antes, servirá
apenas para aumentar sua surpresa e alegria quando encontrarem Cristo
condescendendo em admiti-los a um acesso tão íntimo, e comunicando-se tão livre
e totalmente com eles.
De modo que, se escolhermos a Cristo como nosso amigo
e porção, seremos, a partir de agora, tão recebidos por ele que não haverá nada
que impeça o pleno gozo dele, para a satisfação dos maiores anseios de nossas
almas. Podemos dar o nosso máximo para satisfazer nosso apetite espiritual por
esses prazeres santos. Cristo dirá então, como em Cântico dos cânticos 5.1:
“Comei e bebei, amigos; bebei fartamente, ó amados”.[8]
E isso será nosso acolhimento por toda a eternidade! Nunca haverá qualquer fim
a esta felicidade, ou qualquer coisa para interromper nosso gozo dela, ou para
nos molestar no mínimo nela!
Segundo. Por
estar unido a Cristo, você terá uma união mais gloriosa com o Deus Pai e gozo
nele do que poderia existir de outra forma. Pois a relação dos santos com Deus
se torna muito mais próxima por este meio; eles são filhos de Deus de uma
maneira mais elevada do que poderia ser de outra forma. Por serem membros do próprio
Filho natural de Deus, são, de certa forma, participantes de sua relação com o
Pai; não são apenas filhos de Deus por regeneração, mas mediante uma forma de
comunhão na filiação do Filho eterno. Essa parece ser a intenção em Gálatas
4.4-6: “Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para
resgatar os que estavam sob a lei, a fim de que recebêssemos a adoção de
filhos. E, porque sois filhos, enviou Deus ao nosso coração o Espírito de seu
Filho, que clama: Aba, Pai”. A igreja é filha de Deus, não apenas porque ele a
gerou por sua Palavra e Espírito, mas porque ela é a esposa de seu Filho
eterno.
Igualmente, sendo membros do Filho, somos
participantes, em nossa medida, do amor do Pai para com o Filho e da
complacência nele. João 17.23, “Eu neles, e tu em mim... tu me enviaste e os
amaste, como amaste a mim.” E João 17.26: "A fim de que o amor com que me
amaste esteja neles.” E João 16.27: “Porque o próprio Pai vos ama, visto que me
tendes amado e tendes crido que eu vim da parte de Deus.” Assim, seremos, de
acordo com nossas capacidades, participantes do gozo do Filho em Deus, e
teremos sua alegria cumprida em nós (João 17.13). E, por este meio, chegaremos
a um gozo imensamente superior, mais íntimo e pleno de Deus do que poderia ter
sido de outra forma. Pois há, sem dúvida, uma intimidade infinita entre o Pai e
o Filho, a qual é expressa por ele estar no seio do Pai. E, os santos estando
nele, em sua medida e a seu modo, participarão com ele nessa intimidade e da
sua bem-aventurança.
E assim é ordenado a questão da nossa redenção, que
sejamos levados desse modo a um tipo imensamente mais exaltado de união com
Deus e de gozo dele, tanto com o Pai quanto com o Filho, do que poderia ter
sido de outra forma. Por Cristo estar unido à natureza humana, temos a vantagem
de um gozo mais livre e completo dele do que poderíamos ter se ele tivesse
permanecido apenas na natureza divina. Dessa forma, novamente, estando unidos a
uma pessoa divina, como seus membros, podemos ter uma união e um relacionamento
mais íntimos com o Deus Pai, o qual existe apenas na natureza divina, do que
poderíamos ter. Cristo, que é uma pessoa divina, ao assumir a nossa natureza,
desce da distância e altura infinitas acima de nós e é trazido para perto de
nós; por meio do que temos a vantagem do pleno gozo dele. E, por outro lado,
nós, estando em Cristo, uma pessoa divina, como que ascendemos a Deus através
da distância infinita, e temos aqui a vantagem do pleno gozo dele também.
Este foi o propósito de Cristo, fazer acontecer que
ele, seu Pai e seu povo estivessem todos unidos em um. João 17.21-23: “a fim de
que todos sejam um; e como tu és, ó Pai, em mim e eu em ti, também eles sejam
em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste. Eu lhes tenho transmitido a
glória que me deste, para que sejam um, como nós o somos; eu neles, e tu em
mim, a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade”. Cristo fez acontecer que
aqueles que o Pai lhe deu fossem conduzidos à casa de Deus; que ele, seu Pai e
seu povo fossem, por assim dizer, uma sociedade, uma família; que a igreja
fosse, por assim dizer, admitida na sociedade da bendita Trindade.
Extraído
de WJE; Vol. 19; p. 561-595; org. Ed M. X. Lesser
Disponível
em: edwards.yale.edu; JE Center; Yale University.
Tradução:
Paulo Arantes
[1] Uma terceira entrelinha (L. 8v.) é
um fragmento de Faithful Narrative (Uma narrativa fiel): “Em um
sermão que preguei mais tarde a partir daquelas palavras em Mateus 5.15
(14), ‘Não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte”, informei a
congregação de que a recente obra notável de Deus nesta cidade e em geral.” JE
confunde a citação aqui, mas inclui o texto (sem ela) e seu comentário
(levemente alterado) tanto no resumo de Benjamin Colman de sua carta de 6 de
novembro de 1736 sobre as surpreendentes conversões e na primeira edição da
versão expandida; veia Works, 4, 127 e 210.
[2] Publicado como intitulado nos Five
Discourses (Cinco Discursos), p. 244-86. Veja também palestra JE de Boston
sobre Cântico dos cânticos 1.3 (1733), que trata do mesmo tópico; MS na
Beinecke Library, Yale.
[3] [JE cita Mateus, mas a referência
está em Lucas.]
[4] [JE relata Marcos 5.8-13.]
[5] [Juízes 16.23-30 é a fonte da
narrativa.]
[6] [Veja um sermão sem data de JE
sobre esse texto (No. 118, c. 1729), MS na Beinecke Library, Yale.]
[7] [Isto é, o apóstolo João; ver João
13.23.]
[8] [Veja o sermão sem data de JE
sobre este texto (No. 117, c. 1729), MS na Beinecke Library, Yale.]