Em 28 de setembro de 1752, Edwards pregou um sermão
diante do Sínodo Presbiteriano de Nova York, reunido naquela ocasião em Newark,
Nova Jersey. De acordo com uma prática invariável desde seus primeiros dias em
Northampton, ele escolheu um antigo sermão para a ocasião. Neste caso, ele escolheu
um sermão de 1746 (nº 852), um discurso original que pondera sobre os dois
eventos mais importantes em sua vida pastoral durante a década de 1740: o
Grande Avivamento e a controvérsia sobre as qualificações para a comunhão. Redigido
e pregado pela primeira vez no ano em que foi publicado A Treatise Concerning Religious Affections (Um Tratado sobre as
Afeições Religiosas), o sermão pondera sobre as questões controversas do
Grande Avivamento, mas antecipa, simultaneamente, a controvérsia seguinte sobre
as qualificações para a comunhão. De fato, ele foi escrito mais ou menos na
época em que Edwards estava finalmente estabelecendo sua opinião em oposição à
prática da comunhão de Stoddard. A própria estratégia do sermão, como expressa
em seu título, de fazer distinção não apenas entre santos e pessoas naturais ou
hipócritas, mas entre santos e demônios,
é indicativa da postura radical que o envolve.
Considerando primeiro o argumento, relacionado ao Grande
Avivamento, Edwards insiste que a salvação não é uma questão de informação ou de
“fé especulativa”. Satanás, ele argumenta, foi testemunha da criação e de todas
as grandes realizações de Cristo, todavia ele não se beneficiou desse
conhecimento sobre-humano; além disso, Satanás tornou-se um verdadeiro
estudante de teologia como resultado de suas lutas com Deus pelos corações dos
homens ao longo da história durante a obra de redenção. Assim, a fé salvadora
deve transcender tudo o que pode ser meramente observado ou compreendido,
embora ela claramente inclua isso. Outro ponto reiterado no argumento de
Edwards é que estava havendo muita ênfase no processo de conversão. Os terrores
preparatórios, uma consciência culpada e outros “passos” em uma morfologia
prescrita de conversão não têm valor imprescindível, nem qualquer fórmula
particular concernente às impressões adequadas sobre a grandeza de Deus. Em vez
disso, Edwards insiste que as pessoas devem examinar a base e a tendência de suas
próprias experiências religiosas, em busca de evidências de uma apreciação
radicalmente nova da beleza da santidade como personificada em Cristo, e um
novo senso de amor abnegado. Ao desenvolver sua crítica sobre os confortos
ilusórios e concepções errôneas que acompanham os períodos de avivamento
religioso, Edwards é sempre pastoral e prático, mas notavelmente meticuloso e
abrangente, no espírito de Religious
Affections (Afeições Religiosas).
A outra dimensão deste sermão, que antecipa a renúncia
pública de Edwards das práticas de Stoddard a respeito da membresia da igreja e
do sacramento, é menos específica do que algumas das críticas sobre as ilusões
relacionadas ao avivamento, mas não menos completas. É claro que muitos de seus
pontos podem ser lidos como aplicáveis à experiência do Grande Avivamento ou
à controvérsia sobre as qualificações. Assim, sua oposição à noção de passos
previsíveis na conversão também sugere seu ceticismo quanto a uma “ordenança
convertedora”. Da mesma forma, a noção de “aprender” o caminho para a igreja
através da observação e da repetição é implicitamente questionada, juntamente
com todas as reivindicações a favor da graça comum. Porém o mais importante em
relação à questão sobre as qualificações é a ênfase de Edwards na diferença absoluta
entre o melhor das pessoas naturais e o verdadeiramente gracioso, pois Edwards
identifica claramente todas as pessoas naturais com o grupo de Satanás. O
sermão desmantela sistematicamente todas as noções de aproximação à piedade,
visto que as muitas reivindicações de pretendentes e de pessoas que buscam
complacência são demonstradas, em sucessivos tópicos, como não sendo diferentes
em si mesmas daquilo que os demônios também desfrutam. Sem a experiência da luz
divina e do amor santo que constitui o “conhecimento espiritual”, insiste
Edwards, não há verdadeira qualificação.
A escolha de Edwards do sermão sobre Tiago 2.19 para ser repetido
diante de uma audiência culta e influente no sínodo de 1752 é uma questão em
aberto. Edwards tinha acabado de publicar as Misrepresentations Corrected (Distorções Corrigidas), sua resposta
a Salomão Williams que pos fim ao prolongado debate sobre as qualificações para
a comunhão, e assim a segunda dimensão de seu sermão apenas parece levantar
mais uma vez questões supostamente resolvidas. Além disso, o sermão é um
discurso eminentemente pastoral, se for considerado o tom e a maneira, ou a
forma do sermão. A forma, de fato, sugere um sermão pastoral prático, visto que
o Proveito (Improvement) – normalmente um pouco mais longo que a Doutrina – é
cinco vezes mais longo aqui. Se a primeira dimensão do sermão, concernente aos
avivamentos, for levada em consideração, a forma implicitamente não se refere
apenas aos tratados e panfletos sobre os avivamentos, mas a mais do que a eles,
a uma das primeiras palestras de Edwards sobre o assunto: A Divine and Supernatural Light (Uma Luz Divina e Sobrenatural,
1734). Estas duas composições, a primeira, uma palestra teórica, e, a última,
um sermão pastoral, são complementares quanto à forma e ao tema, resumindo
muito do ensino pastoral de Edwards sobre a experiência da fé salvadora. Porém
esses aspectos sobre o contexto histórico do sermão podem não ter sido tão
imediatamente claros aos seus ouvintes nas colônias do Atlântico Médio. No
mínimo, Edwards pode ter desejado resumir sua pregação perante uma audiência
que poderia custear sua publicação.[1] E, de fato, True Grace (A Verdadeira Graça) provou
ser o último sermão que ele publicou.
Como ocorre com todos os sermões impressos sob a
supervisão real ou virtual de Edwards, a primeira edição é preferível ao
manuscrito. Neste caso, uma cópia da primeira edição, pertencente a biblioteca
da New York Historical Society, contém correções feitas pelo autor, e estas
foram incorporadas ao presente texto. A página de título diz: “True
Grace, / Distinguished from the Experience Of Devils; In A / Sermon, / Preached
before the / Synod Of New-York, / Convened at / New-Ark, in New-Jersey, / On
September 28. N.S. 1752. / By Jonathan Edwards, A.M. / Pastor of the Church of Christ
in Stockbridge in New-England. / (Printed by the Desire of the Synod.) / 2
Corinthians 9.3. [quotation and from 2 Corinthians 9.14] / New-York: / Printed
by James Parker, at the New Printing Office in / Beaver-Street, MDCCLIII.” (“Verdadeira Graça, / Distinguida
da / Experiência dos Demônios; / Em um / Sermão, / Pregado perante o / Sínodo
de Nova York, / Reunido em / New-Ark, em Nova Jersey, / Em 28 de setembro. N.S.
1752. / Por Jonathan Edwards, A.M. / Pastor da Igreja de Cristo em Stockbridge,
na Nova Inglaterra. / (Impresso pelo Desejo do Sínodo.) / 2 Coríntios 9: 3.
[Citação e de 2 Coríntios 9:14] / Nova York: / Impresso por James Parker, no
New Printing Office em / Beaver-Street, MDCCLIII”. O pequeno livreto in-quarto
(1/4 de página) compreende quarenta e duas páginas.
O manuscrito sobrevive na coleção da Beinecke Library de
Yale. É um livreto duodécimo de vinte e quatro folhas de bom papel, escritas em
duas colunas, costuradas em um único ajuntamento e datadas de “Dezem. 1746”. Embora
não haja nenhuma anotação no livreto que indique a nova pregação de 1752, há
algumas modificações e acréscimos dos últimos anos de Edwards. A mais
significativa é uma nota que aponta para o acréscimo de um novo tópico, agora a
primeira inferência sob o uso da instrução do Proveito (“Nada que os homens amaldiçoados
façam, ou jamais experimentem, pode ser qualquer sinal seguro de graça”).
A Verdadeira Graça, Distinguida da Experiência dos
Demônios
“Crês, tu, que Deus é um só? Fazes bem. Até os
demônios creem e tremem.” (Tiago 2.19)
Observe
nessas palavras:
1. Algo de que
alguns dependiam, como evidência de seu bom estado e aceitação como os objetos
do favor de Deus, a saber, uma fé especulativa, ou uma crença nas doutrinas da
religião. A grande doutrina da existência de um único Deus é particularmente
mencionada; provavelmente porque esta era uma doutrina na qual havia, de modo
especial, uma distinção visível e notável entre os cristãos professos e os
pagãos, entre os quais os cristãos naqueles dias estavam dispersos; e,
portanto, era nisso que muitos confiavam como o que os recomendava ou, pelo
menos, era uma evidência de seu interesse pelos grandes privilégios espirituais
e eternos, nos quais os cristãos verdadeiros se distinguiam do restante do
mundo.
2. Quanto é
levado em consideração em relação a essa fé, a saber, que é uma boa realização:
“Fazes bem”. Ela era boa, visto que era necessária. Essa doutrina era uma das
doutrinas fundamentais do cristianismo; e, em alguns aspectos, acima de todas
as outras fundamental. Era necessário ser crida para a salvação; e uma pessoa
sem a crença nesta doutrina, especialmente naqueles que tinham esta vantagem de
conhecer, como eles tinham, a quem o apóstolo escreveu, seria um grande pecado
e o que iria agravar muito a sua condenação. Essa crença era boa também, visto que
tinha uma boa tendência em muitos aspectos.
3. O que é implicitamente negado a
respeito disso, a saber, que é alguma evidência de uma pessoa estar em um
estado de salvação. Todo o contexto mostra que este é o propósito do apóstolo
nas palavras, e, é particularmente manifesto pela conclusão do versículo; que é
a
4. Coisa
observável nas palavras, a saber, o argumento pelo qual o apóstolo prova que
este não é sinal de um estado de graça, a saber, que essa crença é encontrada
nos demônios. Eles acreditam que existe um só Deus e que ele é um Deus que
odeia o pecado; e que ele é o Deus da verdade e cumprirá suas ameaças, mediante
as quais ele tem proclamado julgamentos futuros e um grande aumento de miséria
sobre eles; e que ele é o Deus Todo-poderoso e capaz de executar sua vingança
ameaçada sobre eles.
Portanto, a
doutrina que deduzo das palavras, para elaborar o assunto do meu discurso
atual, é esta:
DOUTRINA: Nada
na mante do homem, que seja da mesma natureza daquilo que os demônios experimentam
ou sejam seus objetos, é qualquer sinal seguro da graça salvadora.
Se existe algo
que os demônios possuem, ou encontrem em si mesmos, que seja uma evidência da
graça salvadora do Espírito de Deus, então o argumento do apóstolo não é bom; o
qual é claramente este: aquilo que está nos demônios, ou que eles fazem, não é
uma evidência segura da graça. Porém os demônios acreditam que existe um só
Deus. Portanto, a tua crença de que existe um Deus não é uma evidência segura
de que és agradável. De modo que todo o fundamento do argumento do apóstolo
reside nesta proposição: aquilo que está nos demônios não é um sinal segura da
graça.
No entanto,
mencionarei duas ou três razões adicionais, ou argumentos sobre a verdade desta
doutrina.
I. Os demônios
não possuem nenhum grau de santidade e, portanto, aquelas coisas, que não são
nada além daquilo de que eles são os objetos, não podem ser experiências
santas.
O diabo foi
santo outrora, mas, quando ele caiu, perdeu toda a sua santidade e tornou-se
perfeitamente perverso. Ele é o maior pecador e, em certo sentido, o pai de
todo pecado. João 8.44 diz: “Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis
satisfazer-lhe os desejos. Ele foi homicida desde o princípio e jamais se
firmou na verdade; porque nele não há verdade. Quando ele profere mentira, fala
do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira.” 1 João 3.8 diz: “Aquele
que pratica o pecado procede do diabo, porque o diabo vive pecando desde o
princípio”. Ele é frequentemente mencionado como, por eminência, “o maligno”. Assim,
Mateus 13.19 diz: “A todos os que ouvem a palavra do reino e não a compreendem,
vem o maligno e arrebata o que lhes foi semeado no coração”. Mateus 13.38 diz: “o
joio são os filhos do maligno”. 1 João 2.13 afirma: “Jovens, eu vos escrevi,
porque sois fortes, e a palavra de Deus permanece em vós, e tendes vencido o Maligno”.
1 João 3.12 declara: “Não segundo Caim, que era do Maligno”. 1 João 5.18 diz: “Sabemos
que todo aquele que é nascido de Deus não vive em pecado; antes, Aquele que
nasceu de Deus o guarda, e o Maligno não lhe toca”. Igualmente, os demônios são
chamados de “espíritos maus”, “espíritos impuros”, “poderes das trevas”, “dominadores
das trevas deste mundo” e “perversidade” em si mesmos. Efésios 6:12 diz: “porque
a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e
potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais
do mal, nas regiões celestiais”.
Portanto,
certamente aquelas coisas que são objetos das mentes dos demônios nada podem
ter da natureza da verdadeira santidade nelas. O conhecimento e a compreensão
que eles têm das coisas de Deus e da religião não podem ser da natureza da luz
divina e santa, nem de qualquer conhecimento que seja meramente do mesmo tipo.
Nenhuma dessas impressões que são produzidas sobre seus corações pode ser de
natureza espiritual. Esse tipo de senso que eles têm das coisas divinas, por
maior que seja, não pode ser um senso santo. Estas afeições que movem seus
corações, por mais poderosos que sejam, não podem ser afeições santas. Se não há
santidade nelas, visto que estão no diabo, não pode haver santidade nelas quando
estão no homem; a menos que algo lhes seja acrescentado além do que está nelas,
visto que[2] elas estão no diabo. E se
algo for adicionado a elas, então elas não são as mesmas coisas, mas são algo
além do que é objeto dos demônios; o que é contrário à suposição; pois a
proposição sobre a qual estou é, que aquelas coisas que são da mesma natureza,
e nada além do que é objeto dos demônios, não podem ser experiências santas.
Não é o objeto que torna a afeição, a experiência ou a qualidade santa, mas é a
qualidade que torna o objeto santo.
E se essas
qualidades e experiências, que são objetos dos demônios, nada têm da natureza
da santidade nelas, então elas não podem ser sinais seguros de que as pessoas
que as possuem são santas ou agradáveis. Não há sinal seguro de graça
verdadeira, exceto aquelas coisas que são espirituais e graciosas. É esta
imagem de Deus que é o seu selo e marca, o timbre pelo qual aqueles que são dele
são conhecidos.[3]
Porém aquilo que não tem nada da natureza da santidade não tem nada desta
imagem. Aquilo que é um sinal seguro da graça deve ser algo que tenha a
natureza e a essência da graça, ou esteja fluindo dela, ou, de alguma forma,
pertença à sua essência. Pois aquilo que distingue as coisas umas das outras é
a sua essência, ou algo relacionado à sua essência. E, portanto, aquilo que às
vezes é encontrado totalmente sem a essência da santidade ou da graça não pode
ser uma marca essencial, segura ou distintiva da graça.
II. Os
demônios não apenas estão absolutamente sem a verdadeira santidade, mas não são
objetos de qualquer graça comum.
Se alguns
imaginam que algumas coisas podem ser sinais da graça que não sejam a própria
graça, ou que nada tenham da natureza e da essência da graça e da santidade
nelas; todavia, certamente permitirão que as qualificações, que são evidências
seguras da graça, sejam coisas que se pareçam com a graça ou que tenham alguma
notável afinidade com ela. Porém os demônios não são apenas totalmente
destituídos de qualquer santidade verdadeira, mas eles estão muito distantes
dela e não têm nada neles de algum modo parecido com ela.
Há muitos,
neste mundo, que são totalmente desprovidos da graça salvadora que, ainda assim,
têm a graça comum. E eles não têm a verdadeira santidade, mas, no entanto, têm
algo daquilo que é chamado de “virtude moral”, e são objetos de algum grau das
influências comuns do Espírito de Deus. É assim com aqueles que, em geral,
vivem sob a luz do evangelho e não estão entregues à cegueira e dureza
judicial. Até mesmo aqueles que estão assim entregues ainda têm algum grau de
graça restritiva enquanto vivem neste mundo, sem a qual a terra não poderia
suportá-los, e de forma alguma seriam membros toleráveis da sociedade humana.
Porém, quando são condenados ou lançados no inferno, como os demônios são, Deus
retira totalmente sua graça restritiva e todas as influências misericordiosas
de seu Espírito, e eles não têm nem a graça salvadora, nem a graça comum; nem a
graça do Espírito, nem qualquer dos dons comuns do Espírito, nem verdadeira
santidade, nem virtude moral de qualquer espécie. Consequentemente, quando eles
são condenados, surge o grande aumento do exercício da maldade nos corações dos
homens. E aqui está a principal diferença entre os condenados no inferno e os
homens não regenerados e sem a graça neste mundo; não que os perversos neste
mundo tenham mais santidade ou verdadeira virtude do que os condenados, ou que
os perversos, quando deixam este mundo, tenham qualquer princípio de perversidade
infundido neles, mas quando os homens são lançados no inferno Deus tira seu
Espírito completamente deles, tanto quanto todas as suas misericordiosas
influências comuns, e retira totalmente deles todas as restrições de seu
Espírito e da boa providência.
III. Não é
razoável supor que, sendo uma pessoa, em qualquer aspecto, como o diabo é, deve
ser um sinal seguro que ela é muito diferente e oposta a ele, e futuramente não
terá sua parte com ele. Os verdadeiros santos são extremamente diferentes e
contrários ao diabo, tanto relativa quanto realmente. Eles são diferentes e
contrários relativamente. O diabo é o
grande rebelde, o principal inimigo de Deus e de Cristo, o objeto da maior ira
de Deus, um malfeitor condenado, totalmente rejeitado e expulso por ele, para
sempre excluído de sua presença, o prisioneiro da sua justiça, um habitante
eterno do mundo infernal. Os santos, ao contrário, são os cidadãos da Jerusalém
celestial, membros da família do glorioso Rei do céu, os filhos de Deus, os
irmãos e a esposa de seu amado Filho, herdeiros de Deus, co herdeiros com
Cristo; reis e sacerdotes para Deus. E eles são extremamente diferentes realmente. O diabo, por causa de sua
natureza odiosa e daquelas malditas disposições que reinam nele, é chamado de “Satanás”,
“o adversário”, “Abadom” e “Apoliom”, “o grande destruidor”, “o lobo”, “o leão
que ruge”, “o grande dragão”, “a antiga serpente”. Os santos são apresentados
como “os santos de Deus”, seus “ungidos”, “os excelentes da terra”; “os mansos
da terra”; “cordeiros e pombas”; “filhinhos de Cristo”, tendo a “imagem de Deus”,
“puros de coração”; “joias de Deus”; “lírios no jardim de Cristo”; “plantas do
paraíso”; “estrelas do céu”; “templos do Deus vivo”. Os santos, na medida em
que são santos, são tão diferentes do diabo quanto o céu é do inferno, e muito
mais contrários do que a luz é em relação as trevas; e o estado eterno para o
qual eles são designados é correspondentemente diferente e contrário.
Ora, não é
razoável supor que, sendo em qualquer aspecto como Satanás é, ou sendo objeto
de qualquer uma das mesmas propriedades, qualificações, afeições ou ações que
estão nele, seja alguma evidência segura de que as pessoas são assim muitíssimo
diferentes dele, e estão em circunstâncias tão diferentes e estão designadas
para um estado eterno tão extremamente contrário em todos os aspectos. Os
perversos são chamados nas Escrituras de “filhos do diabo”. Ora, é razoável
supor que, sendo dos homens, em algum aspecto, como o diabo é, pode ser um
sinal seguro de que eles não são seus filhos, mas os filhos do Deus
infinitamente santo e bendito? Somos informados de que os perversos terão a sua
parte com os demônios; serão sentenciados ao mesmo fogo eterno que está preparado
para o diabo e seus anjos. Ora, pode um homem, sendo como o diabo em qualquer
aspecto, ser um sinal seguro de que ele não terá a sua parte com ele, mas com
anjos gloriosos e com Jesus Cristo, morando com ele onde ele está, de modo que possa
contemplar e participar da sua glória?
PROVEITO
I. O primeiro
uso pode estar em várias inferências para nossa instrução.
Primeiro. A partir do que foi dito pode-se inferir, pela paridade
da razão, que nada que os condenados façam ou experimentem pode ser algum sinal
seguro da graça.
Os homens
condenados são como os demônios; são conformados a eles quanto à natureza e ao estado.
Eles não têm nada melhor em si do que os demônios; não tem princípios mais
elevados em seus corações, não experimentam nada e nada fazem de um tipo mais
excelente, visto que são filhos e servos do diabo; e, como tais, devem habitar
com ele e serem participantes com ele da mesma miséria. Como Cristo diz,
concernente aos santos em seu estado futuro, Mateus 22.30, que “são, porém,
como os anjos no céu”; assim pode ser dito sobre os homens ímpios em seu estado
futuro, que eles serão como os anjos caídos e perversos no inferno.
Cada uma das
razões supramencionadas, dadas para mostrar a verdade da doutrina com relação
aos demônios, é válida[4] para os homens condenados.
Os homens condenados não têm nenhum grau de santidade e, portanto, aquelas coisas
que não são nada além do que eles têm não podem ser experiências santas.
Portanto, é verdade que os homens condenados não apenas são absolutamente
destituídos de toda a verdadeira santidade, mas não têm sequer qualquer graça
comum. E, por fim, não é razoável supor que, sendo pessoa em algum aspecto como
os condenados no inferno são, deve ser um sinal seguro de que ela é muito
diferente e oposta a eles, e que, futuramente, não terá sua parte com eles.
Segundo.
Podemos inferir, consequentemente, que nenhum grau de conhecimento especulativo
das coisas da religião é algum sinal seguro da graça salvadora. O diabo, antes
de sua queda, estava entre aqueles anjos reluzentes e gloriosos do céu, os
quais são apresentados como estrelas da manhã e chamas de fogo, que se destacam
em força e sabedoria. E embora ele seja agora pecador, seu pecado não eliminou
as faculdades da natureza angélica; como quando o homem caiu ele não perdeu as
faculdades da natureza humana. O pecado destrói os princípios espirituais, mas
não as faculdades naturais. É verdade que o pecado, quando em pleno domínio,
impede completamente o exercício das faculdades naturais na compreensão santa e
espiritual, e coloca muitos impedimentos no caminho de seu exercício apropriado
em outros aspectos; coloca a faculdade natural da razão sob grandes
desvantagens por meio de muitos e fortes preconceitos sob os quais o poder da
mente é trazido, e, nos homens caídos, as faculdades da alma, são, sem dúvida,
grandemente impedidas em seu exercício através daquela grande fraqueza e
desordem do órgão corpóreo, ao qual está estritamente unida; que é a
consequência do pecado. Porém parece não haver nada na natureza do pecado, ou
na corrupção moral, que tenha alguma tendência de destruir a capacidade natural
ou mesmo de diminuí-la, propriamente falando. Se o pecado fosse de tal
natureza, para ter necessariamente essa tendência e efeito, então se poderia
esperar que homens perversos, em um estado futuro onde são completamente
entregues ao exercício desenfreado de suas corrupções e luxúria, e o pecado, em
todos os aspectos, é levado à sua maior perfeição neles, teriam a capacidade de
suas almas grandemente diminuída. O que não temos razão para supor, mas antes, ao
contrário, que suas capacidades são grandemente ampliadas e que seu
conhecimento real é amplamente aumentado. E isso até mesmo com respeito ao ser
divino e as coisas de religião, e as grandes preocupações das almas imortais
dos homens; e que, com respeito a estas coisas, os olhos dos perversos são
abertos, e eles, em alguns aspectos, emergem da escuridão para a clara luz
quando entram no outro mundo.
A grandeza da habilidades dos
demônios pode ser deduzida da apresentação em Efésios 6.12: “porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne,
e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo
tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes”. O mesmo
pode ser deduzido a partir do que as Escrituras dizem sobre a sutileza de
Satanás (Gênesis 3.1; 2 Coríntios 11.3; Atos 13.10).
E visto que o diabo tem uma
faculdade de compreensão de grande capacidade, ele é capaz de um grande
conhecimento especulativo sobre as coisas de Deus e sobre o mundo invisível e
eterno, assim como sobre outras coisas; e necessita, na verdade, ter um grande
entendimento dessas coisas, visto que estas são as coisas que sempre estiveram
principalmente em sua visão, e visto que suas circunstâncias, desde sua
existência anterior, foram as que mais tenderam a envolvê-lo a cuidar dessas
coisas. Antes de sua queda, ele foi um daqueles anjos que continuamente
contemplaram a face do Pai, que está no céu. E o pecado não tem a tendência de
destruir a memória e, portanto, não tem a menor tendência de apagar dela
qualquer conhecimento especulativo que existia anteriormente.
Assim
como a sutileza do diabo mostra sua grande capacidade, assim a maneira pela
qual sua sutileza é exercida e manifestada, que está principalmente em sua
administração astuciosa com respeito às coisas da religião, suas representações
muitíssimo sutís, insinuações, raciocínios e tentações concernentes a estas
coisas, demonstram sua grande compreensão real delas. A fim de ser um debatedor
muito hábil em qualquer ciência, embora seja apenas para confundir e enganar os
que são proficientes na ciência, uma pessoa precisa ter uma grande e extensa
familiaridade com as coisas que pertencem a essa ciência.[5]
Consequentemente,
o diabo tem, sem dúvida, um grande grau de conhecimento especulativo em
teologia; tendo sido, por assim dizer, instruído na melhor escola de teologia do
universo, a saber, o céu dos céus. Ele deve ter um conhecimento muito mais
extenso e preciso quanto à natureza e atributos de Deus, como nós, vermes do
pó, em nosso estado atual, não somos capazes de ter. E ele deve ter um
conhecimento muito mais amplo das obras de Deus, como da obra da criação em
particular, pois ele foi um espectador da criação deste mundo visível; ele foi
uma daquelas estrelas da alva da qual lemos em Jó 38.4-7 que cantaram juntas, e
daqueles filhos de Deus que gritaram de alegria quando Deus lançou os fundamentos
da terra e colocou as suas medidas, e estendeu o cordel sobre ela. E, assim,
ele deve ter um conhecimento muito grande das obras da providência de Deus; ele
é um espectador da sequência dessas obras desde o princípio; ele tem visto como
Deus governa o mundo em todas as eras; ele tem visto toda a série das
maravilhosas dispensações sucessivas da providência para com a sua igreja, de
geração em geração. E ele não é um espectador indiferente, mas a grande
oposição que há entre Deus e ele, em todo o curso dessas dispensações, tem,
obrigatoriamente, atraído sua atenção na mais estrita observação delas. Ele
deve ter um grande grau de conhecimento concernente a Jesus Cristo, como o
Salvador dos homens, da natureza e método da obra da redenção, e da maravilhosa
sabedoria de Deus neste plano. É essa obra de Deus, na qual, acima de todas as
outras, Deus age em oposição a ele, e na qual ele principalmente se coloca em
oposição a Deus. É com relação a esta questão que essa imensa guerra tem sido
mantida, a qual tem sido levada adiante entre Miguel e seus anjos e o diabo e
seus anjos, através de todas as eras desde o princípio do mundo; e
especialmente, desde que Cristo apareceu no mundo. O diabo tem tido o
suficiente para atrair sua atenção para os passos da sabedoria divina nesta
obra, pois é contra essa sabedoria que ele opõe sua sutileza; e ele tem visto e
descoberto, para sua grande decepção e tormento indescritível, como a sabedoria
divina exercida nessa obra tem frustrado e destruído seus artifícios. Ele tem
um grande conhecimento das coisas do outro mundo, pois as coisas desse mundo
estão em sua visão imediata. Ele tem um grande conhecimento do céu, pois ele foi
um habitante daquele mundo de glória; e ele tem um grande conhecimento do
inferno e da natureza de sua miséria, porque é o primeiro habitante do inferno,
e, acima de todos os outros habitantes, tem experiência do seu tormento, e os
tem sentido constantemente por mais de cinquenta e sete centenas de anos.[6] Ele deve ter um grande
conhecimento das sagradas Escrituras, pois é evidente que ele não é impedido de
saber o que está escrito ali pelo uso que fez das palavras da Escritura em sua
tentação de nosso Salvador. E se ele pode saber, ele tem muita oportunidade de
saber, e deve ter uma disposição para saber com a maior exatidão, para que
possa, com maior efeito, perverter[7] e torcer as Escrituras, e impedir
tal efeito da palavra de Deus no coração dos homens, visto que tenderá a
derrubar seu reino. Ele deve ter um grande conhecimento sobre a natureza da
humanidade, sua capacidade, suas disposições e as corrupções de seus corações,
porque ele tem longa e grande observação e experiência. É com o coração do
homem que ele principalmente trata em seus sutís artifícios, grandes esforços,
operações incansáveis e infatigáveis e esforços próprios desde o começo do
mundo. E é evidente que ele tem um grande conhecimento especulativo sobre a
natureza da religião experimental, por ele ser capaz de imitá-la de maneira tão
engenhosa, e de tal maneira, a ponto de transformar-se em um anjo de luz.
Portanto, é evidente, a partir do
meu texto e da doutrina, que nenhum grau de conhecimento especulativo das
coisas religiosas é algum sinal seguro de verdadeira piedade. Quaisquer que
sejam as noções claras que um homem possa ter sobre os atributos de Deus e
sobre a doutrina da trindade, sobre a natureza dos dois pactos, sobre a
economia das pessoas da trindade e sobre a parte que cada pessoa tem na questão
da redenção do homem; se ele nunca pode discursar de modo tão excelente sobre
os ofícios de Cristo e o caminho da salvação por meio dele, e sobre os
admiráveis métodos da sabedoria divina, e sobre a harmonia dos vários
atributos de Deus nesse caminho; se ele nunca pode falar de modo tão claro e
exato sobre o método da justificação de um pecador, sobre a natureza da
conversão e sobre as operações do Espírito de Deus aplicando a redenção de
Cristo, dando boas distinções, resolvendo dificuldades e respondendo objeções
alegremente, de uma maneira que tende grandemente à iluminação do ignorante, à
edificação da igreja de Deus e à convicção dos que negam, e ao grande aumento
de luz no mundo; se ele tem mais conhecimento desse tipo do que centenas de
verdadeiros santos, de uma educação comum e da maioria dos teólogos, todavia,
tudo isso não é uma evidência certa de qualquer grau de graça salvadora no
coração.
É verdade que as Escrituras
frequentemente falam sobre o conhecimento das coisas divinas como aquilo que é
peculiar aos verdadeiros santos; como em João 17.3, “E a vida eterna é esta:
que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem
enviaste”. Mateus 11.27, “Ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém
conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar”. Salmo 9.10,
“Em ti, pois, se confiam os que conhecem o teu nome, porque tu, Senhor, não
desamparas os que te buscam”. Filipenses 3.8, “Sim, deveras considero tudo como
perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Jesus Cristo, meu Senhor,
por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar
a Cristo”. Mas, por outro lado, devemos entendê-lo como um tipo diferente de
conhecimento daquele entendimento especulativo que o diabo tem em tão grande
grau. Também será admitido que o conhecimento espiritual salvador de Deus e das
coisas divinas promovem grandemente o conhecimento especulativo, visto ele
envolve a mente em sua busca de coisas desse tipo, e ajuda muito na compreensão
distinta delas; de modo que, sendo as outras coisas iguais, aqueles que têm
conhecimento espiritual, têm muito mais probabilidade do que outros de ter um
bom conhecimento doutrinário das coisas religiosas; mas, no entanto, tal
conhecimento não pode ser uma característica distintiva dos verdadeiros santos.
Terceiro. Também pode ser deduzido, a partir do que foi
observado, que as pessoas meramente darem um consentimento especulativo às
doutrinas da religião como verdadeiras não é uma evidência segura de um estado
de graça. Meu texto nos diz que os demônios “creem” e acreditam que existe um
só Deus, por isso acreditam na verdade das doutrinas da religião em geral. O
diabo é ortodoxo em sua fé; ele acredita no esquema verdadeiro de doutrina; ele
não é deísta, sociniano, ariano, pelagiano ou antinomiano; os artigos de sua fé
são todos sadios e nos quais ele está completamente estabelecido.
Portanto, uma
pessoa acreditar nas doutrinas do cristianismo meramente a partir da influência
das coisas especulativas ou da força dos argumentos, discernidas apenas pela
especulação, não é evidência da graça.
Embora seja
provavelmente uma coisa muito rara, para os homens não regenerados, ter uma
forte persuasão da verdade das doutrinas da religião, especialmente aquelas que
são muito misteriosas e estão muito acima da compreensão da razão; ainda assim[8], é evidente que não temos
garantia para determinar que nunca pode ser assim, ou para considerar tal
persuasão como uma evidência infalível da graça; e que ninguém pode determinar
com segurança seu estado de ser bom a partir de tal evidência. Sim,[9] se ele, não apenas ele
mesmo, parece estar muito confiante sobre a verdade do cristianismo e sobre
suas doutrinas, mas é capaz de argumentar com mais vigor para prová-las; ainda
assim, ele não vai além do diabo; o qual, sem dúvida, tem um grande conhecimento
dos argumentos racionais pelos quais a verdade da religião cristã e seus vários
princípios são evidenciados.
E, portanto,
quando a Escritura fala de “crer que Jesus é o Filho de Deus” como uma
evidência segura da graça, como em 1 João 5.1 e outros lugares, deve ser
entendido não como um mero consentimento especulativo, mas como outro tipo e
maneira de crer, que é chamado de a fé dos eleitos de Deus (Tito 1.1). Existe
uma convicção espiritual da verdade, que é peculiar aos verdadeiros santos:
crer com todo o coração; do que eu devo falar particularmente daqui a pouco.
Quarto. Pode ser deduzido, a partir da doutrina sobre a qual se
insiste, que não é sinal seguro de que as pessoas sejam convertidas de maneira
salvadora se elas são objetos de grande angústia e terrores da mente, por causa
das apreensões da ira de Deus e do medo da condenação.
Que os
demônios são objetos de grandes terrores, por causa das apreensões da ira de
Deus e do medo dos seus efeitos futuros, está implícito em meu texto; o qual
fala não apenas de sua crença, mas do seu tremer. Não deve ser um pequeno grau
de terror que faz tremer esses principados e potestades, esses seres poderosos,
orgulhosos e fortes.
Há muitos
terrores, aos quais algumas pessoas que estão preocupadas com sua salvação estão
sujeitos, que não provém de qualquer despertamento adequado da consciência ou de
apreensões da verdade, mas provém de impressões melancólicas ou assustadoras em
sua imaginação, ou de algumas apreensões infundadas e de ilusões e de falsas
sugestões de Satanás. Porém, se nunca tiveram terrores tão grandes e
duradouros, provenientes de verdadeiros despertamentos e convicções da verdade,
e da visões das coisas como são, isto não é mais do que aquilo que está nos
demônios, e estará em todos os perversos no outro mundo. Por mais estúpidos e
insensatos que os homens mais ímpios sejam agora, todos serão finalmente despertados;
não haverá descanso no inferno. Há muitos que não podem ser despertados pelas
mais solenes advertências e horríveis ameaças da Palavra de Deus, os discursos
mais alarmantes do púlpito e as mais despertadoras e terríveis providências,
mas todos serão completamente despertados pelo som da última trombeta e pela
aparição de Cristo para o julgamento, e todos os tipos ficarão cheios com os
terrores mais assombrosos provenientes da apreensões da verdade, e verão as
coisas como elas são; quando “os reis da terra, os grandes, os comandantes, os
ricos, os poderosos (como foram os mais eminentes e destemidos, mais prontos a
tratar as coisas da religião com desprezo) “e todo escravo e todo livre se esconderam
nas cavernas e nos penhascos dos montes e disseram aos montes e aos rochedos: Caí
sobre nós e escondei-nos da face daquele que se assenta no trono e da ira do Cordeiro,
porque chegou o grande Dia da ira deles; e quem é que pode suster-se?”
(Apocalipse 6.15-17)
Portanto, se
pessoas foram inicialmente despertadas e, mais tarde, tiveram conforto e
alegria, isto não é sinal seguro de que seus confortos são do tipo certo, que
foram precedidos por terrores muito grandes.
Quinto. Pode ser deduzido mais da doutrina, que nenhuma obra da
lei nos corações dos homens, em convicção de culpa, e apenas deserto de
punição, é um argumento seguro de que uma pessoa foi convertida de forma salvadora.
Não somente
não são despertamentos e terrores qualquer evidência certa disso, mas nenhuma
mera obra legal, seja qual for, embora elevada ao máximo que possa ser, nada em
que não haja graça ou luz espiritual, mas apenas a mera convicção da
consciência natural, e aqueles atos e operações da mente que são o resultado desta,
e assim são, por assim dizer, meramente forçados pela luz clara da consciência,
sem a concordância do coração e a inclinação com aquela luz, eu digo que estas
coisas não são um sinal seguro da graça salvadora de Deus, ou que uma pessoa
foi convertida salvadoramente em algum tempo.
A evidência
disso, a partir do meu texto e doutrina, é demonstrativa. Porque os demônios
são objetos dessas coisas, e todos os perversos que, finalmente, perecerão
serão objetos das mesmas. A consciência natural não é extinguida nos condenados
no inferno, mas, ao contrário, permanece e está em sua maior força, e é levada
ao mais perfeito exercício, mais plenamente para realizar sua devida função,
como vice-regente de Deus na alma, para condenar aqueles rebeldes contra o Rei
do céu e da terra e manifestar a justa ira e vingança de Deus, e atormentá-los
por esse meio e ser como um verme que nunca morre dentro deles. Os homens
miseráveis encontram meios, neste mundo, de cegar os olhos e fechar a boca
desse vice-regente de um Deus vingador do pecado, mas eles não poderão fazê-lo perpetuamente.
No outro mundo, os olhos e a boca da consciência serão totalmente abertos. Deus
fará com que os perversos vejam e conheçam estas coisas das quais agora, habilidosamente,
escondem seus olhos. Isaías 26.10-11, “Ainda que se mostre favor ao perverso, nem
por isso aprende a justiça; até na terra da retidão ele comete iniquidade e não
atenta para a majestade do Senhor. Senhor, a tua mão está levantada, mas nem
por isso a veem; porém verão o teu zelo pelo teu povo e se envergonharão; e o
teu furor, por causa dos teus adversários, que os consuma”. Temos essa
expressão frequentemente anexada às ameaças da ira de Deus a seus inimigos, “E
eles saberão que eu sou o Senhor”; isso será cumprido mediante sua triste experiência
e clara luz em suas consciências, pelas quais eles serão obrigados a saber,
quer queiram ou não, quão grande e terrível, santo e justo é o Deus Yahweh,
cuja autoridade eles desprezaram; e eles saberão que ele é justo e santo em sua
destruição. Todos os ímpios serão convencidos disto, no dia do julgamento, mediante
o trazer à luz toda a sua maldade de coração e prática, e ao colocar todos os
seus pecados, com todas os seus agravantes, em ordem, não apenas à vista dos
outros, até mesmo do mundo inteiro, mas à vista de suas próprias consciências.
Isto é ameaçado no Salmo 50.21, “Tens feito estas coisas, e eu me calei;
pensaste que eu era teu igual; mas eu te arguirei e porei tudo à tua vista”. Compare
isso com o Salmo 50.1-4, o fim do dia de julgamento não é descobrir o que é
justo, como acontece com os julgamentos humanos, mas sim manifestar o que é
justo; tornar a justiça de Deus conhecida, no julgamento que ele executará, às
próprias consciências dos homens e ao mundo. E, por isso, esse dia é chamado de
“dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus” (Romanos 2.5). Agora, os
pecadores criticam muitas vezes a justiça das dispensações de Deus e, particularmente,
a justiça do castigo com que Deus os ameaça por causa dos seus pecados,
desculpando-se e condenando a Deus; mas, quando Deus vier para manifestar a sua
iniquidade à luz daquele dia e os chamar para uma prestação de contas, eles
ficarão mudos. Mateus 22.11-12, “Entrando, porém, o rei para ver os que estavam
à mesa, notou ali um homem que não trazia veste nupcial e perguntou-lhe: Amigo,
como entraste aqui sem veste nupcial? E ele emudeceu”. Quando o Rei do céu e da
terra vier para julgar, suas consciências serão tão perfeitamente iluminadas e
convencidas pela luz que tudo perscruta, elas então permanecerão, de modo que
suas bocas serão caladas eficazmente, bem como todas suas próprias desculpas,
todas apelando para sua justiça própria para desculpá-las ou justificá-las; e
todas as objeções contra a justiça de seu Juiz, de modo que somente suas
consciências os condenarão, não Deus.
Consequentemente,
resulta da doutrina que não pode ser sinal seguro da graça que pessoas tenham
tido grandes convicções de pecado; tenham tido seus pecados de vida, com seus
agravantes, notavelmente colocados diante deles, de modo a afetá-los e
aterrorizá-los grandemente; e também tenham tido uma grande visão da perversidade
de seus corações e sido convencidos da grandeza do pecado da incredulidade, e
da indesculpabilidade e odiosidade de suas mais profundas iniquidades
espirituais; e tenham sido convencidos da absoluta insuficiência de sua justiça
própria; e desesperarem-se de serem recomendados a Deus por causa disso; tenham
sido tão desencorajados de sua justiça própria, como sempre são sob uma simples
humilhação legal; tenham sido convencidos de que estão totalmente sem desculpas
diante de Deus e merecem a condenação; e que Deus seria justo ao executar a
ameaça de punição sobre eles, embora seja tão terrível. Todas estas coisas
estarão em todos os ímpios no dia do julgamento, quando eles estiverem com os
demônios, à esquerda, e serem condenados como malditos ao fogo eterno com eles.
De fato, não
haverá submissão neles. Suas consciências estarão plenamente[10] convencida de que Deus é
justo em sua condenação, porém, ainda assim, suas vontades não se curvarão à
justiça de Deus. Não haverá aquiescência da mente a esse atributo divino,
nenhuma entrega da alma à soberania de Deus, mas o mais alto grau de inimizade
e oposição. Uma verdadeira submissão do coração e da vontade à justiça e à soberania
de Deus é, portanto, concedida como algo peculiar aos verdadeiros convertidos,
sendo algo do que os demônios e as almas condenadas estão e sempre estarão
longe; e para a que a mera obra da lei e as convicções da consciência, por
maiores e mais claras que sejam, nunca conduzirá os homens.
Quando os
pecadores são os objetos de grandes convicções da consciência e da notável atividade
da lei, isto é apenas uma transação comercial do dia do julgamento na
consciência de antemão. Deus está entronizado na consciência, como no último
dia ele se assentará entronizado nas nuvens do céu; o pecador é levado a
julgamento, por assim dizer, no tribunal de Deus, e Deus aparece em sua
terrível grandeza, como um Deus justo e santo, que odeia o pecado e vinga o
pecado, como ele fará então. As iniquidades do pecador são trazidas à luz, seus
pecados colocados em ordem diante dele, as coisas ocultas das trevas e os
conselhos do coração se tornam manifestos, como será então. Muitas testemunhas,
por assim dizer, se levantam contra o pecador sob convicções da consciência, visto
que concordam contra o perverso, no dia do julgamento; e os livros são abertos,
particularmente o livro da estrita e santa lei de Deus é aberto na consciência
e suas regras são aplicadas para a condenação do pecador, o qual é o livro que
será aberto no dia do julgamento como a grande regra de julgamento para todos
os homens perversos que viveram sob ele. E a sentença da lei é pronunciada
contra o pecador, e a justiça da sentença manifestada, como será no dia do
julgamento. A convicção de um pecador, no dia do julgamento, será uma atividade
da lei, assim como a convicção da consciência neste mundo; e a atividade da lei
(se a obra for meramente legal), esteja
certo, nunca é executada mais nas consciências dos pecadores agora do que será
naquele dia, quando sua atividade será perfeita em fechar completamente a boca
do pecador. Romanos 3.19, “Ora, sabemos que tudo o que a lei diz, aos que vivem
na lei o diz para que se cale toda boca, e todo o mundo seja culpável perante
Deus”. Toda boca será calada pela lei, agora ou no futuro; e todo o mundo se
tornará perceptivelmente culpado diante de Deus; culpado de morte, merecedor de
condenação. E, portanto, se os pecadores são objetos de uma grande obra da lei,
e têm assim se tornado culpados e suas bocas têm sido fechadas, isto não é
sinal seguro de que jamais foram convertidos.
De fato, a
falta de um completo senso de culpa, um deserto de punição e uma convicção da
justiça de Deus na condenação ameaçadora é um bom sinal negativo. É um sinal de
que a pessoa nunca foi convertida e verdadeiramente levada, com toda a alma, a
abraçar a Cristo como Salvador desta punição. Pois é facilmente demonstrável
que não existe uma coisa como esta, de aceitar inteira e cordialmente a oferta
de Deus, de um Salvador do castigo com o qual ele ameaça e que achamos que não
merecemos. Porém o fato de ter tal convicção não é sinal seguro de que as
pessoas têm fé verdadeira, ou de que verdadeiramente receberam a Cristo como
seu Salvador. E se as pessoas têm grande conforto, alegria e confiança, rapidamente
admitem em suas mentes, como consequência de grandes convicções, coisas como as
que foram mencionadas, não há evidências infalíveis de que seu conforto seja
construído sobre uma boa base.
É evidente,
portanto, que muita ênfase tem sido colocada, por muitas pessoas, em uma grande
atividade da lei precedendo seus confortos. Pessoas que parecem não apenas ter
olhado para tal atividade da lei como necessária para preceder a fé, mas também
a tem avaliado como a principal evidência da verdade e genuinidade da fé e dos
confortos que seguem. Deve-se estar apreensivo, muitos foram enganados e
estabelecidos em uma falsa esperança por este meio. E o que é para ser visto no
resultado das coisas, em vários exemplos, confirma isso. Pode ser seguramente admitido
não ser tão incomum[11] a grandes convicções de
consciência se mostrar abortivo e falhar em um bom assunto, quanto a convicções
menores. E, de modo mais geral, quando o Espírito de Deus procede até aqui com
os pecadores, na atividade da lei, a ponto de lhes dar uma grande visão de seus
corações e da odiosidade de suas iniquidades espirituais, e convencê-los de que
são indesculpáveis, e que toda a sua justiça nada pode fazer para merecer os
favores de Deus, antes, que eles estão expostos justamente à eterna vingança de
Deus sem misericórdia, isso resulta em uma obra de conversão salvadora. Porém
não podemos ter garantia para dizer que seja universalmente assim, ou
estabelecer como uma regra infalível que, quando as convicções de consciência
tiverem ido tão longe, resultarão certamente em fé salvadora e arrependimento.
Se alguém acha que tem base para tal determinação, porque não pode conceber que
fim Deus deveria ter ao levar uma obra de convicção a tal ponto e, assim,
preparar o coração para a fé, e, afinal, nunca dar a fé salvadora à alma. Eu
desejo que possa ser considerado, onde será o fim de nossas dúvidas e
dificuldades se nos considerarmos suficientes para determinar de forma tão
positiva e particular sobre os fins e desígnios de Deus naquilo que ele faz.
Pode ser perguntado a tal objetor, qual é o propósito de Deus em dar a um
pecador algum grau dos esforços de seu Espírito e da convicção de consciência
quando ele, depois de experimentar isso, chegar a nada e provar ser em vão? Se
ele pode dar algum grau que possa finalmente ser em vão, quem deve estabelecer
os limites e dizer quão grande será o grau? Quem pode, em bases seguras,
determinar que, quando um pecador tem tanto dessa convicção, a qual os demônios
e os condenados no inferno têm, verdadeira fé e salvação eterna serão as consequências
certas? Isto certamente podemos determinar, que, se o argumento do apóstolo no
texto é bom, e não qualquer coisa que os demônios tenham, certamente está
relacionado com esta consequência. Vendo que os pecadores, enquanto tais, são
capazes das mais perfeitas convicções, e as terão no dia do julgamento e no
inferno; quem dirá que Deus nunca fará com que os réprobos antecipem o futuro
julgamento e a condenação a esse respeito? E se assim fizer, quem lhe dirá: que
fazes? Ou o chame a prestar contas de seus objetivos ao fazê-lo. Não apenas que
muitos possíveis fins sábios possam ser considerados e mencionados, se fosse
necessário, ou eu tivesse agora espaço para isso. O Espírito de Deus é muitas
vezes extinto pelo exercício da maldade dos corações dos homens, depois que ele
foi longe em uma obra de convicção; de modo que suas convicções nunca têm um
bom resultado. E quem pode dizer que os pecadores, mediante o exercício de sua
oposição e inimizade contra Deus (que não são de todo mortificadas pelas
maiores convicções legais, nem nos condenados no inferno, nem nos pecadores na
terra), não podem incitar Deus a tirar seu Espírito deles, mesmo depois que ele
procedeu o maior comprimento em uma atividade de convicção? Quem pode dizer que
Deus nunca é incitado a destruir alguns, depois de tê-los trazido, por assim
dizer, através do deserto até as fronteiras da terra de descanso? Visto que ele
matou alguns dos israelitas até mesmo nas planícies de Moabe.
E que seja
considerado onde está nossa garantia, nas Escrituras, para fazer uso de
quaisquer convicções legais, ou qualquer método ou ordem de eventos sucessivos
em uma atividade da lei, e consequentes confortos, como um sinal seguro de
regeneração. A Escritura é abundante em mencionar expressamente as evidências
da graça e de um estado do favor de Deus, e as características dos verdadeiros
santos, mas onde é que encontramos coisas como estas entre essas evidências? Ou
onde encontramos outros sinais sobre os quais insistir, além da própria graça,
sua natureza, seus exercícios e seus frutos? Estas foram as evidências nas
quais Jó confiou; essas foram as coisas sobre as quais o salmista insiste em
todos os lugares como evidências de sua sinceridade e, particularmente, no Salmo
119, do começo ao fim. Estes foram os sinais nos quais Ezequias confiou em sua enfermidade.
Estas são as
características daqueles que são verdadeiramente felizes, dadas por nosso
Salvador, no início do seu Sermão no Monte. Estas são as coisas que Cristo
menciona como as verdadeiras evidências de sermos seus verdadeiros discípulos,
em seu último e agonizante discurso a seus discípulos, em João 14-16, e em sua
oração intercessora, capítulo dezessete. Essas são as coisas das quais o
apóstolo Paulo frequentemente fala como evidências de sua sinceridade e direito
seguro a uma coroa de glória. E estas são as coisas que ele frequentemente
menciona a outros, em suas epístolas, como as evidências apropriadas do
verdadeiro cristianismo: um estado justificado e um direito à glória. Ele
insiste no “fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade,
benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio”, como as
evidências características do estar em Cristo e do “viver no Espírito” (Gálatas
5.22-25). É nessa caridade, ou amor divino, que “é, primeiramente, pura;
depois, pacífica, indulgente, tratável, cheia de misericórdia e de bons frutos”,
etc., que ele insiste como a evidência mais essencial da verdadeira piedade;
sem a qual todas as outras coisas são nada. Estes são os sinais sobre os quais
o apóstolo Tiago insiste como a evidência apropriada de um homem
verdadeiramente sábio e bom, Tiago 3.17, “A sabedoria, porém, lá do alto é,
primeiramente pura; depois, pacífica, indulgente, tratável, cheia de
misericórdia e de bons frutos, imparcial e sem fingimento”. E esses são os
sinais do verdadeiro cristianismo, nos quais o apóstolo João insiste em todas
as suas epístolas. E nunca temos, em qualquer lugar da Bíblia, desde o início
até o fim, quaisquer outros sinais de piedade do que estes. Se as pessoas têm
coisas como estas claramente nelas, deve ser determinado que elas são
verdadeiramente convertidas, sem que seja insistido que sejam primeiro
conhecidos quais passos ou método o Espírito de Deus usou para introduzir essas
coisas na alma; o que, muitas vezes, é totalmente impossível de ser rastreado.
Todas as obras de Deus são, em alguns aspectos, inescrutáveis, mas a Escritura apresenta
muitas vezes as obras do Espírito de Deus como peculiarmente assim: Isaías 40.13,
“Quem guiou o Espírito do Senhor? Ou, como seu conselheiro, o ensinou?”
Eclesiastes 11.5, “Assim como tu não sabes qual o caminho do vento, nem como se
formam os ossos no ventre da mulher grávida, assim também não sabes as obras de
Deus, que faz todas as coisas”. João 3.8, “O vento sopra onde quer, ouves a sua
voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido
do Espírito”.
Sexto. Segue-se, do meu texto e doutrina, que não é sinal seguro
da graça se as pessoas têm desejos e anseios sinceros pela salvação.
Os demônios,
sem dúvida, anseiam por libertação da miséria que sofrem e daquela miséria
maior que eles aguardam. Se eles tremerem de medo dela, devem necessariamente
desejar ardentemente serem libertos dela. Os perversos são apresentados, nas
Escrituras, como ansiando pelos privilégios dos justos quando a porta está
fechada e eles são excluídos; eles vêm até a porta e clamam, “Senhor, Senhor,
abre-nos a porta!” Por isso, não devemos olhar para todos os desejos, ou para todos
os desejos que são muito sinceros e veementes, como evidências certas de um
coração piedoso. Há desejos sinceros de natureza religiosa, os quais os santos
têm, que são os sopros inerentes de uma nova natureza e as qualidades
distintivas dos verdadeiros santos; mas também há anseios que os homens não
regenerados podem ter, os quais, muitas vezes, são confundidos com as marcas de
piedade. Eles acham que têm fome e sede de justiça, que têm desejos sinceros
por Deus e por Cristo, e anseiam pelo céu, quando, na verdade, tudo deve ser explicado
em termos de desejos de salvação, de amor-próprio, e, assim, é um desejo que
não surge de princípios mais elevados do que os desejos sinceros dos demônios.
Sétimo. Pode ser inferido, a partir do que foi observado, que
as pessoas que não têm a graça podem ter grande noção de uma glória externa nas
coisas celestiais e divinas, e de tudo o que é externo relativo às coisas da
religião.
Se as pessoas têm
ideias deste tipo fortemente impressas em suas mentes, as quais são obtidas
pelos sentidos externos; se essas ideias são daquele tipo que entra pelo
ouvido, como qualquer tipo de som, seja a música mais agradável ou palavras de
excelente significado proferidas, palavras da Escritura, ou qualquer outra
imediatamente sugeridas, como se fossem ditas, embora nunca pareçam ser tão
adequadas ao seu caso, ou adaptadas ao assunto de suas meditações; ou se são daquele
tipo que é obtida pelos olhos, como noções sobre uma beleza e glória visíveis,
uma luz brilhante, uma glória externa do céu, ruas de ouro, paredes e portões
de pedras preciosas, palácios esplêndidos, habitantes gloriosos brilhando como
o sol, um trono magnífico rodeado de anjos e santos resplandecentes em fileiras.
Ou qualquer coisa externa que diz respeito a Jesus Cristo; quer em seu estado
de humilhação, como o de Jesus pendurado na cruz com a coroa de espinhos, as
feridas abertas e o sangue escorrendo, ou em seu estado glorificado, com
terrível majestade ou deslumbrante beleza e doçura em seu semblante, seu rosto
brilhando mais que o brilho do sol e coisas do tipo. Essas coisas não são
sinais seguros da graça.
Multidões que
estão agora no inferno terão noção da glória externa que diz respeito às coisas
celestiais muito além do que qualquer um tem neste mundo. Eles verão toda essa
glória e beleza externas, na qual Cristo aparecerá no dia do julgamento, quando
o sol se converterá em escuridão diante dele; o que, sem dúvida, será dez mil
vezes maior do que jamais foi impresso na imaginação de santos ou pecadores,
neste estado atual, ou jamais foi concebido por qualquer homem mortal.
Oitavo. Pode ser deduzido, a partir da doutrina, que pessoas
que não têm a graça podem ter um senso muito grande e impactante de muitas
coisas divinas em seus corações.
O diabo não
tem apenas grande conhecimento especulativo, ele também tem um senso de muitas
coisas divinas que o afetam profundamente, e é impresso muitíssimo fortemente
em seu coração. Visto que:
1. Os demônios
e as almas condenadas têm um grande senso da imensa importância das coisas do
outro mundo. Eles estão no mundo
invisível, e eles veem e sabem quão grandes são as coisas desse mundo; a sua
experiência os ensina da maneira mais impactante. Eles têm um grande senso do
valor da salvação, do valor das almas imortais e da grande importância daquelas
coisas que dizem respeito ao bem-estar eterno dos homens. A parábola no final
do capítulo 16 de Lucas ensina isto, ao apresentar o homem rico, no inferno,
como suplicando que Lázaro fosse enviado “a seus cinco irmãos; para que lhes dê
testemunho, a fim de não virem para este lugar de tormento”. Aqueles que sofrem
os tormentos do inferno têm, sem dúvida, um senso mais vivo e impactante da
vastidão de uma eternidade sem fim e da comparativa transitoriedade desta vida,
e da vaidade das preocupações e prazeres do momento. Eles estão eficazmente convencidos
de que todas as coisas deste mundo, mesmo aquelas que parecem maiores e mais
importantes para os habitantes da terra, são ninharias desprezíveis em
comparação com as coisas do mundo eterno. Eles têm um grande senso da
preciosidade do tempo, dos meios da graça e do inestimável valor dos
privilégios que desfrutam aqueles que vivem sob o evangelho. Eles estão
totalmente conscientes da insensatez daqueles que continuam no pecado,
negligenciam suas oportunidades, não levando a sério os conselhos e as
advertências de Deus; e amargamente lamentam a loucura suprema de seus próprios
pecados, pelo quais trouxeram sobre si tão grande e irremediável miséria.
Quando os pecadores, mediante lamentável experiência, conhecerem o terrível resultado
do seu mau caminho, eles gemerão “no fim de tua vida, quando se consumirem a
tua carne e o teu corpo, e digas: Como aborreci o ensino! E desprezou o meu
coração a disciplina! E não escutei à voz dos que me ensinavam, nem a meus
mestres inclinei os ouvidos!” (Provérbios 5.11-13).
Por essa razão,
não obstante a verdadeira piedade esteja ligada a um grande senso da
importância das coisas divinas, e seja raro que os homens que não têm a graça
mantenham tal senso de maneira firme e perseverante, ainda assim é evidente que
essas coisas não são uma evidência segura da graça. Homens não regenerados
podem ter uma noção da importância das coisas da eternidade e da vaidade das
coisas do tempo, do trabalho de almas imortais, da preciosidade do tempo e dos
meios da graça, e da insensatez dos caminhos do pecado permitido; e podem ter
uma tal percepção dessas coisas, visto que podem afetá-los profundamente e
levá-los a lamentar por seus próprios pecados, e a estar muito preocupados pelos
outros. Embora isto seja verdade, eles não têm essas coisas da mesma maneira e
em todos os aspectos, a partir dos mesmos princípios e conceitos, como os
homens piedosos as têm.
2. Demônios e
homens condenados têm um senso forte e mais impactante da sublime grandeza e
majestade de Deus. A sublime majestade de Deus é[12] grandemente manifestada
nas execuções[13]
da ira divina da qual eles são os objetos. Tornar isso conhecido é uma coisa
que Deus tem como propósito em sua vingança contra seus inimigos. Romanos 9.22:
“Que diremos, pois, se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu
poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição”.
Os demônios tremem diante deste grande e terrível Deus, e sob um forte senso de
sua sublime majestade. Isso é grandemente manifesto a eles e às almas
condenadas agora, mas será manifestado em outro grau “naquele dia, quando o
Senhor Jesus for revelado do céu, em chamas de fogo, para se vingar deles”, e
quando eles desejarem ardentemente voar e se esconderem da face “daquele que
está assentado no trono” (o que será por causa da “glória da sua majestade”,
Isaías 2.10), e quando eles “serão castigados com a destruição eterna, [banidos]
da presença do Senhor e da glória do seu poder”. Quando Cristo vier, no último
dia, na glória de seu Pai, “todo olho o verá” naquela glória (neste aspecto que
eles verão sua sublime majestade) “e até quantos o traspassaram” (Apocalipse
1.7). Tanto aqueles demônios como os perversos, que o atormentaram e o
insultaram quando ele apareceu em miséria e ignomínia, então o verão na glória
de seu Pai.
É evidente,
portanto, que uma percepção da terrível majestade de Deus não é evidência segura
da graça salvadora, pois vemos que os perversos e os demônios são capazes
disso; sim, muitos perversos neste mundo a têm atualmente. Esta é uma
manifestação que Deus fez de si mesmo aos olhos daquela congregação perversa no
Monte Sinai, a qual viram e foram profundamente impactados por ela, “de maneira
que todo o povo que estava no acampamento se estremeceu” (Êxodo 19.16).
3. Demônios e
homens condenados têm algum tipo de convicção e senso de todos os atributos de
Deus, tanto naturais quanto morais, que são fortes e muito impactantes.
Os demônios
conhecem o poder onipotente de Deus: eles viram uma grande manifestação dele
quando viram Deus assentar os alicerces da terra, etc., e foram muito
impactados com isso. E eles têm visto inumeráveis outras grandes
demonstrações de seu poder: como no dilúvio universal, na destruição de Sodoma,
nas maravilhas no Egito, no Mar Vermelho, no deserto, fazendo com que o sol
ficasse parado no tempo de Josué, e muitos outros. E eles tiveram uma
manifestação muito impactante do poderoso poder de Deus sobre si mesmos, ao lançar
todas as suas hostes do céu para o inferno, e têm uma experiência impactante contínua
dela, ao Deus reservá-los em fortes cadeias de escuridão e nas fortes dores que
sentem; e, no futuro, terão uma experiência muito mais impactante, quando forem
“banidos da face do Senhor e da glória do seu poder”, com aquela poderosa
destruição, da qual eles agora tremem em expectativa [2 Tessalonicenses 1.9]. Igualmente,
os demônios têm um grande conhecimento da sabedoria de Deus: eles tiveram
indizivelmente mais oportunidade e ocasião de observá-la, na obra da criação e
também nas obras da providência, do que qualquer homem mortal jamais teve; e
eles mesmos têm sido objetos de inúmeras manifestações impactantes dela, quando
Deus os desaponta e os confunde em seus artifícios mais sutis de maneira tão
maravilhosa e surpreendente. Igualmente, eles veem e constatam a infinita
pureza e santidade da natureza divina da maneira mais impactante, visto que ela
se manifesta em seu infinito ódio ao pecado, no que eles sentem dos terríveis
efeitos desse ódio. Eles já sabem, pelo que sofrem, e saberão no futuro em
maior grau e de maneira muito mais impactante, que esta é a oposição da
natureza de Deus ao pecado, a qual é como um fogo consumidor que arde com
infinita veemência contra ele; eles sentirão o calor veemente deste fogo de uma
maneira muito terrível. Eles também verão a santidade de Deus exercida em seu
amor à justiça e à santidade, no que eles verão da recompensa da justiça de
Cristo e da santidade de seu povo, na glória de Cristo e de sua igreja; o que
também impactará muito os demônios e os perversos. E a justa justiça de Deus
será manifestada a eles na luz mais clara e mais forte, mais convincente e mais
impactante, no dia do julgamento. Quando eles também verão grandes e impactantes
demonstrações das riquezas da sua graça nos frutos maravilhosos do seu amor aos
vasos de misericórdia; quando os virem à direita de Cristo, resplandecendo como
o sol, no reino de seu Pai, e ouvirão a sentença de bênção pronunciada sobre
eles; e serão profundamente impactados por isso, como parece naturalmente
implícito em Lucas 13.28-29. Os demônios conhecem a verdade de Deus e, portanto,
acreditam em suas ameaças e tremem na expectativa de sua realização. E os perverso
que, agora, duvidam de sua verdade e não ousam confiar em sua palavra, no
futuro, da maneira mais convincente e impactante, descobrirão que sua palavra é
verdadeira em tudo o que ele ameaçou, e verão que ele é fiel às suas promessas,
nas recompensas a seus santos. Demônios e homens condenados sabem que Deus é
eterno e imutável e, por isso, eles se desesperam de não haver um fim para sua
miséria.
Por essa razão,
é evidente que as pessoas que simplesmente têm um senso impactante de alguns,
ou até mesmo de todos os atributos de Deus, não é um sinal seguro de que têm a
verdadeira graça de Deus em seus corações.
Objeção. Aqui,
possivelmente, alguns podem objetar contra a força do raciocínio precedente. De
que os homens ímpios neste mundo se encontram em circunstâncias diferentes das
em que os demônios estão, e das em que os ímpios estarão no dia do julgamento.
Aquelas coisas que são visíveis e presentes a estes, são, agora, futuras e
invisíveis aos outros. E os perversos neste mundo estão no corpo que obstrui e
impede a alma, e estão cercados de objetos que os cegam e entorpecem. E, por
isso, não segue que, porque os perversos em outro mundo têm uma grande
apreensão e um senso vivo de tais e tais coisas sem a graça, os ímpios, em seu
estado atual, podem ter o mesmo.
Resposta. A
isto respondo: Não é suposto que os homens, nesta vida, tenham todas aquelas
coisas que foram mencionadas no mesmo grau em que os demônios e os condenados
as têm. Ninguém supõe que qualquer um nesta vida tenha terrores de consciência
em igual grau ao deles. Não se pode supor que algum homem mortal, piedoso ou
ímpio, tenha um grau igual de conhecimento especulativo ao do diabo. E, como
foi observado há pouco, os perversos, no dia do julgamento, terão uma noção
muito maior da glória externa de Cristo do que qualquer um tem no presente estado.
Assim, sem dúvida, eles terão um senso muito maior da tremenda grandeza e da
terrível majestade de Deus do que qualquer um poderia suportar neste estado
frágil. Assim, podemos concluir que os demônios e os perversos, no inferno, têm
um senso maior e mais impactante da vastidão da eternidade, e (em alguns
aspectos) um senso maior da importância das coisas do outro mundo do que
qualquer um tem aqui. E eles também têm desejos acerca da salvação em um grau
mais alto do que qualquer perverso neste mundo.
Porém, no
entanto, é evidente que os homens neste mundo podem ter coisas do mesmo tipo
que os demônios e homens condenados. O mesmo tipo de luz no entendimento, os
mesmos conceitos e as mesmas afeições; o mesmo senso das coisas, o mesmo tipo
de impressões sobre a mente e sobre o coração. Se a objeção é contra o caráter
conclusivo do raciocínio que foi usado para provar isso, é contra o caráter
conclusivo do raciocínio que é mais propriamente do apóstolo do que meu. O
apóstolo o julgou um argumento conclusivo, contra ser considerado sua crença de
que havia um Deus uma evidência de serem agradáveis, o fato de que os demônios
acreditavam da mesma forma. Assim, o argumento é exatamente o mesmo contra os
que pensam que têm a graça porque acreditam que Deus é um Deus santo, ou porque
têm um senso da tremenda majestade de Deus. O mesmo pode ser observado sobre
outras coisas que foram mencionadas. Meu texto tem relação não apenas com o ato
do entendimento dos demônios em crer, mas com aquela afeição de seus corações que
acompanha as visões que eles têm, visto que o tremer é um efeito da afeição do
coração. O que mostra que, se os homens têm os mesmos conceitos de entendimento
e também as mesmas afeições de coração que os demônios, isto não é sinal da
graça.
E quanto ao
grau particular ao qual estas coisas podem ser levadas nos homens sem a graça,
neste mundo, parece não ser seguro pretender determiná-lo e fixá-lo, de modo a
utilizá-lo como uma regra infalível para determinar o estado dos homens. Eu não
sei onde temos qualquer regra a seguir para fixar o grau preciso no qual Deus,
por sua providência ou por suas influências comuns na mente, excitará nos
perversos, neste mundo, os mesmos conceitos e afeições que o os perversos têm no
outro mundo; que é evidente que os primeiros são tão capazes quanto os últimos,
tendo as mesmas faculdades e princípios de alma, e quais conceitos e afeições,
é evidente; frequentemente são, na verdade, seus objetos algum grau, alguns em maior
e alguns em menor grau. As evidências infalíveis da graça, que são
estabelecidas na Escritura, são de outro tipo; são todas de natureza santa e
espiritual, e, portanto, coisas daquele tipo que um coração que é totalmente
carnal e corrupto não pode receber ou ter qualquer experiência (1 Coríntios 2.14).
Eu também devo
acrescentar aqui que a observação e a experiência, em muitos casos, parecem
confirmar o que a Escritura e a razão ensinam sobre essas coisas.
II. O
segundo uso pode ser o do autoexame.
Deixemos que
as coisas que têm sido observadas examinem e investiguem a si mesmas se possuem
alguma evidência melhor da graça salvadora do que as que foram mencionadas.
Vemos como o
infalível Espírito de Deus, no texto, apresenta claramente as coisas das quais
os demônios são objetos como sinais[14] não seguros da graça. E
agora, em alguns casos, temos observado até onde os demônios e os homens condenados
vão e irão em sua experiência, seu conhecimento das coisas divinas, sua crença
na verdade, seus despertamentos e terrores de consciência, sua convicção de
culpa e da justiça de Deus em sua terrível condenação eterna, seus anseios pela
salvação, sua visão da glória externa de Cristo e das coisas celestiais; seu
senso da grande importância das coisas da religião e do outro mundo; seu senso
da terrível grandeza e terrível majestade de Deus, sim, de todos os atributos
de Deus. Essas coisas podem nos instigar a sério autoexame, se temos alguma
coisa para evidenciar nosso bom estado, além daquele do qual os demônios são objetos.
Cristo disse aos seus discípulos: “Se a vossa justiça não exceder em muito a
dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus” (Mateus 5.20); igualmente
o Espírito de Cristo, em seu apóstolo Tiago, de fato diz, no meu texto: a menos
que o que vocês experimentam em vossas almas vá além das experiências de
demônios, de forma alguma vocês entrarão no reino de Deus.
Objeção: Aqui,
pode acontecer que alguns estejam prontos a dizer: Eu tenho algo além de todas
essas coisas que foram mencionadas; eu tenho coisas que os demônios não têm,
amor e alegria certamente.
Resposta: Eu
respondo que você pode ter algo além das experiências dos demônios e, no
entanto, nada além delas. Embora a
experiência seja diferente, ela pode não ser devida a qualquer princípio
diferente, mas apenas às diferentes circunstâncias sob as quais esses
princípios são empregados. Os princípios de onde surgem as coisas mencionadas
nos demônios e nos homens condenados são estes dois: a compreensão natural e o
amor-próprio. É a partir da compreensão ou da razão natural que eles têm aquele
grau de conhecimento das coisas divinas e aquela crença nelas. É a partir
desses princípios da compreensão natural e do amor-próprio, empregados com
respeito as suas próprias disposições e ações, e Deus como seu juiz, que eles
têm consciência natural; e têm aquelas convicções de consciência, como tem sido
dito. É a partir desses princípios que eles têm um senso da importância das
coisas da religião e do mundo eterno, e aqueles anseios pela salvação. É a
partir[15] do exercício conjunto
desses dois princípios que eles são tão sensíveis à sublime majestade de Deus e
a todos os atributos da natureza divina, e são tão grandemente impactados por
eles. E é a partir destes princípios, unidos ao senso externo, que os ímpios,
no dia do julgamento, terão tão grande apreensão e serão tão grandemente impactados
pela glória externa de Cristo e de seus santos. E o fato de você ter um tipo de
amor ou gratidão e alegria que demônios e homens condenados não têm pode,
possivelmente, não surgir de quaisquer outros princípios em teu coração
diferentes destes dois, mas somente destes princípios empregados em circunstâncias
diferentes. Por exemplo, sendo você um objeto da graça restringidora de Deus e
estando sob circunstâncias de esperança e de recebimento de misericórdia. O
entendimento natural e o amor-próprio dos demônios, podem, possivelmente,
afetá-los da mesma maneira, se estiverem nas mesmas circunstâncias. Se o teu
amor por Deus tem sua fonte primária em nada mais que um suposto testemunho
divino imediato, ou alguma outra suposta evidência, de que Cristo morreu por
você em particular e de que Deus te ama, isto não provém de princípios
superiores ao amor-próprio; que é um princípio que reina nos corações dos
demônios. O amor-próprio é suficiente, sem a graça, para fazer com que os
homens amem aqueles que os amam, ou que imaginem amá-los e apreciá-los; Lucas 6.32:
“Se amais os que vos amam, qual é a vossa recompensa? Porque até os pecadores
amam aos que os amam”. E os corações dos demônios não ficariam cheios de grande
alegria se, de alguma maneira, eles abraçassem a firme convicção de que Deus os
tinha perdoado e se tornado seu amigo, e que estariam libertos daquela ira da qual
tremem, agora, em expectativa. Se os demônios vão tão longe como você tem ouvido,
mesmo em suas circunstâncias, sendo totalmente rejeitados e entregues à perversidade
irrestrita, sem esperança, sabendo que Deus é e sempre será seu inimigo, que sofrem
sua ira sem misericórdia; até onde podemos supor razoavelmente que possam ir,
imitando a graça e a experiência piedosa, se eles tivessem o mesmo grau de
conhecimento, conceitos claros e convicção forte sob circunstâncias de
esperança e ofertas de misericórdia; e sendo objetos da graça comum, que restringe
suas corrupções e ajuda e excita os princípios naturais da razão, da
consciência, etc.? Aquelas coisas das quais os demônios são objetos: aquela
grande convicção de consciência, aquele senso da importância das coisas eternas,
aqueles conceitos impactantes da terrível majestade, grandeza, poder,
santidade, justiça e verdade de Deus, e aquele senso de sua grande graça para com
os santos; se essas, ou qualquer coisa semelhante, devem estar no coração de um
pecador neste mundo, ao mesmo tempo em que ele, a partir de alguma impressão
forte em sua imaginação de Cristo lhe aparecendo, ou de palavras doces faladas
a ele, ou por algum outro meio, subitamente, após grandes terrores, absorve uma
forte confiança de que agora este Grande Deus, seu amigo e pai, o libertou de
toda a miséria que temia e lhe prometeu felicidade eterna; eu digo que tais
coisas, sem dúvida, aumentariam enormemente seu êxtase de alegria e provocariam
o exercício da gratidão natural (aquele princípio pelo qual os pecadores amam
aqueles que os amam), e ocasionaria uma grande imitação de muitas graças em convincentes
exercícios. É de admirar, então, que multidões sob tal tipo de afeição estejam
enganadas? Especialmente quando elas têm demônios para ajudar a promover a
ilusão, cuja grande sutileza tem sido exercida principalmente em enganar a
humanidade por todas as gerações passadas.
Pergunta.
Aqui, possivelmente, alguns podem estar prontos a perguntar: Se pode haver
tantas coisas que os homens não podem experimentar a partir de princípios mais
elevados do que os que estão nas mentes e nos corações dos demônios; quais são
esses exercícios e afeições que são de natureza mais elevada que devo encontrar
em meu coração, e que posso considerar legitimamente como sinais seguros da
graça salvadora do Espírito de Deus?
Resposta. Eu
respondo, esses exercícios e afeições, que são boas evidências da graça,
diferem de tudo de que os demônios são objetos e de tudo o que pode surgir dos
princípios que estão em seus corações em duas coisas, a saber, seu fundamento e sua tendência.
1. Eles
diferem em seu fundamento, ou naquilo que lhes pertence, o que é mais
fundamental neles e o fundamento de todo o resto que diz respeito a eles, a
saber, uma apreensão ou senso da suprema beleza santa e da graça das coisas
divinas, como elas são em si mesmas ou em sua própria natureza.
Os demônios e
condenados no inferno são e para sempre serão totalmente destituídos dela. Os
demônios já a tiveram, enquanto permaneceram em sua integridade, mas eles a perderam
completamente quando caíram; e esta é a única coisa que pode ser mencionada,
referente à apreensão e ao senso do ser divino por parte do diabo, que ele
perdeu. Nada mais pertencente ao conhecimento de Deus do qual ele foi
destituído pode ser imaginado. Foi observado que não existe um único atributo
da natureza divina, senão os quais ele é sensível e conhece, e dos quais tem
uma convicção forte e muito impactante; e isso, eu penso, é evidente e
inegável. Porém, quanto à suprema beleza da natureza divina, ele é totalmente
cego, ele não vê mais dela do que um homem nascido completamente cego vê de
cores. A grande visão que ele tem dos atributos de Deus lhe dá uma ideia e um
forte senso de sua terrível majestade, mas nenhuma ideia de sua beleza e graça.
Embora ele tenha visto muitas das maravilhosas obras do poder, da sabedoria, da
santidade, da justiça e da verdade de Deus, e suas maravilhosas obras da graça
para com a humanidade, isto por tantos milhares de anos, e tenha tido a
oportunidade de observá-las com a mais intensa atenção, tudo isso não serve
para lhe dar o menor senso da beleza divina delas. E embora os demônios devam
continuar a exercer seus fortes poderes mentais com a intenção mais forte; e
devam considerar as coisas sob todos os pontos de vista possíveis, em todas as
ordens e arranjos, ainda assim eles nunca verão essa beleza. Igualmente, de
algum modo semelhante, é o conhecimento que eles têm sobre essa beleza, pois o
grande grau desse conhecimento não os conduz para mais perto dela. No entanto,
quanto mais conhecimento desse tipo eles têm de Deus, mais eles odeiam a Deus.
Aquilo em que a beleza da natureza divina consiste mais essencialmente, a
saber, sua santidade ou excelência moral, parece aos olhos deles mais distante
da beleza; é principalmente nesse aspecto que ele parece odioso a eles. Quanto
mais santidade eles veem nele, mais odioso ele aparece; quanto maior a visão
deles é de sua santidade, maior é o ódio deles pelo seu ressuscitado. E por
causa do seu ódio por sua santidade, eles o odeiam mais quanto mais veem de
seus outros atributos. Eles odiariam um ser santo, quaisquer que fossem seus
outros atributos, mas eles odeiam este ser santo mais por ele ser infinitamente
sábio, e infinitamente poderoso, etc., mais do que eles odiariam se vissem nele
menos poder e menos sabedoria.
Os ímpios, no
dia do julgamento, verão tudo o mais em Cristo, exceto sua beleza e amabilidade.
Não há uma única qualidade ou propriedade de sua pessoa que possa ser considerada
exceto a que será colocada diante deles sob a luz mais forte naquele dia, mas
apenas a que consiste nisso. Eles o verão nas nuvens do céu “com poder e muita
glória, na glória de seu Pai” (Mateus 24.30; 16.27). Eles terão essa visão de
sua glória externa, a qual está muito além do que podemos ter qualquer
imaginação; e eles terão as demonstrações mais fortes e convincentes de todos
os seus atributos e perfeições. Eles terão um senso de sua grande majestade, o
que será, por assim dizer, infinitamente impactante a eles. Eles serão feitos
efetivamente conscientes de que ele é o
Senhor. Eles verão o que ele é e o que ele faz: sua natureza e suas obras
aparecerão na visão mais forte. Porém a sua santa e infinita beleza e
amabilidade, que é tudo em todos e sem a qual todas as outras qualidades e
propriedades são nada, e pior do que nada, eles não verão nada delas.
Portanto, é
uma visão ou senso disso que é a coisa em que constitui fundamentalmente a
diferença entre aquelas coisas em que consiste a graça salvadora do Espírito de
Deus e as experiências dos demônios e das almas condenadas. Este é o fundamento
de tudo o mais que é distinguido na verdadeira experiência cristã. Este é o
fundamento da fé dos eleitos de Deus. Isto concede à mente uma fé salvadora sobre
a verdade das coisas divinas. É uma visão da excelência das coisas exibidas no
evangelho, ou do senso da beleza divina e da amabilidade do esquema de doutrina
ali exibido, que salvadoramente convence a mente de que é, de fato, divina ou
de Deus. Esta consideração do assunto está claramente implícita em 2 Coríntios 4.3-4,
“Mas, se o nosso evangelho ainda está encoberto, é para os que se perdem que
está encoberto, nos quais o deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos,
para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é
a imagem de Deus”; e, 2 Coríntios 4.6, “Porque Deus, que disse: Das trevas
resplandecerá a luz, ele mesmo resplandeceu em nosso coração, para iluminação
do conhecimento da glória de Deus, na face de Cristo”. É muito evidente que uma
fé salvadora do evangelho é mencionada aqui pelo apóstolo como decorrente de
uma visão da glória ou da beleza divinas das coisas que ela exibe. É por meio dessa
visão que a alma de um verdadeiro convertido é habilitada salvadoramente para
ver a suficiência de Cristo para sua salvação. Aquele que tem seus olhos abertos
para contemplar a beleza superlativa e a amabilidade divinas de Jesus Cristo é
convencido de sua suficiência para se colocar como mediador entre ele, um
miserável culpado merecedor do inferno, e um Deus infinitamente santo, de uma
maneira excessivamente diferente da que ele jamais pode ser convencido por
todos os argumentos que são utilizados pelos mais[16] excelentes autores ou
pregadores.
Quando ele chega
a ver a amabilidade divina de Cristo, ele não se surpreende mais de que seja
considerado digno por Deus, o Pai, de ser aceito a favor do mais vil pecador.
Agora não é difícil para ele conceber como o sangue de Cristo deve ser avaliado
por Deus como tão precioso, a ponto de ser digno de ser aceito como compensação
pelos maiores pecados. A alma agora enxerga corretamente a preciosidade de
Cristo e, assim, vê e compreende adequadamente a própria base e a razão de sua
aceitabilidade diante de Deus e o valor que Deus atribui a seu sangue,
obediência e intercessão. Isso satisfaz a pobre alma culpada e lhe dá descanso;
quando os melhores e mais elaborados discursos sobre a suficiência de Cristo e sobre
a adequação do caminho da salvação não o fariam. Quando um homem chega a ver o
fundamento apropriado da fé e do juramento com seus próprios olhos, ele crê
salvadoramente. “De fato a vontade de meu Pai é que todo homem que vir o Filho
e nele crer tenha a vida eterna” (João 6.40). Quando Cristo manifesta assim o
nome de Deus aos homens, então eles creem que todas as coisas que Deus deu a
Cristo são dele, e creem que Cristo foi enviado por Deus (João 17.6-8). E “Em
ti, pois, confiam os que conhecem o teu nome” (Salmo 9.10). A fim de produzir verdadeira
fé em Jesus Cristo, o Filho de Deus é revelado nos homens (Gálatas 1.15-16). E
é essa visão da beleza divina de Cristo que inclina as vontades e atrai os
corações dos homens. Uma visão da grandeza de Deus em seus atributos pode oprimir
os homens e ser mais do que eles podem suportar, mas a inimizade e a oposição
do coração podem permanecer em toda a sua força, e a vontade permanecerá
inflexível; enquanto que, um vislumbre da glória moral e espiritual de Deus, e da
suprema amabilidade de Jesus Cristo brilhando no coração, supera e abole essa
oposição, e inclina a alma para Cristo, por assim dizer, mediante um poder
onipotente; de modo que agora, não apenas o entendimento, mas a vontade e toda
a alma recebem e abraçam o Salvador.
Esta é
certamente a descoberta, que é o primeiro fundamento interno de uma fé
salvadora em Cristo, na alma do verdadeiro convertido; e não por ter
imediatamente sugerido e revelado à alma, mediante um texto da Escritura, ou
qualquer testemunho exterior ou interior imediato, de que Cristo a ama, ou que
morreu por ela em particular, e é seu Salvador; gerando assim confiança e
alegria, e um aparente amor por Cristo porque ele a ama; por cujo tipo de fé e
conversão (demonstravelmente vaidosa e falsa) multidões têm sido iludidas. A
visão da glória de Deus, na face de Jesus Cristo, opera verdadeiro amor supremo
por Deus; esta é uma visão do fundamento apropriado do amor supremo por Deus, a
saber, a suprema amabilidade de sua natureza; e um amor para com ele nesta base
está verdadeiramente acima de qualquer coisa que possa vir de um mero princípio
de amor próprio, que está nos corações dos demônios bem como nos dos homens. E
isso gera verdadeira alegria espiritual e santa na alma, a qual é, de fato,
alegria em Deus, e nos gloriarmos nele e não nos regozijarmos em nós mesmos.
Essa visão da
beleza das coisas divinas estimulará os verdadeiros desejos e anseios da alma
acerca daquelas coisas; não como os desejos dos demônios, ou quaisquer desejos
forçados como os de um homem em grande perigo de morte por algum remédio
amargo, que ele espera que salve sua vida; mas desejos naturais livres, os
desejos de apetite, os anseios de uma nova natureza; como um bebê recém-nascido
deseja o seio da mãe, e como um homem faminto anseia por alguma comida que
pensa ser agradável, ou como o veado sedento anseia pelo riacho fresco e
límpido.
Esse senso de
beleza divina é a primeira coisa na verdadeira mudança feita na alma na
verdadeira conversão, e é o fundamento de tudo mais que pertence a esta
mudança; como é evidente por essas palavras do apóstolo, 2 Coríntios 3.18, “E
todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do
Senhor, somos transformados, de glória em glória, na própria imagem, como pelo
Senhor, o Espírito”.
2. As afeições
e os exercícios da mente verdadeiramente graciosos diferem daqueles que são
falsificações, as quais surgem de princípios não superiores aos que estão no
coração dos demônios em sua tendência, e isto neste dois aspectos:
(1) As afeições e exercícios da
mente são de uma tendência e influência muito contrárias àquela que foi
especialmente o pecado do diabo, o orgulho. Que o orgulho foi, de uma maneira
peculiar, o pecado do diabo é declarado em 1 Timóteo 3.6: “Não seja neófito,
para não suceder que se ensoberbeça e incorra na condenação do diabo”.
Experiências falsas e ilusórias sempre tendem a isso, embora, muitas vezes, sob
o disfarce de grande e extraordinária humildade. O orgulho espiritual é o
temperamento prevalecente e o caráter geral dos hipócritas, iludidos com falsas
descobertas e afeições. Os hipócritas são, em geral, de uma disposição
diretamente contrária a essas duas coisas que pertencem ao temperamento cristão
apontadas pelo apóstolo: a primeira, em Romanos 12.16, “Não sejais sábios aos
vossos próprio olhos”; e a outra, em Filipenses 2.3, “Considerando cada um os
outros superiores a si mesmo. A falsa experiência é concebida por si mesma e influenciada
por si mesma. Assim, aquele que tem falsa humildade é muito influenciado a
pensar em como ele se humilha diante de Deus; aquele que tem um amor falso é influenciado
quando pensa na grandeza de seu amor. A própria comida e nutrição da falsa
experiência é ver a si mesma e prestar atenção em si mesma; e sua própria
respiração e vida é falar muito de si mesma, ou se mostrar de alguma maneira. Enquanto
que os conceitos e afeições verdadeiramente graciosos são de tendência completamente
contrária; eles não nutrem nenhuma arrogância ou pretensão, nenhuma presunção
exaltada de justiça própria, experiência ou privilégios do homem, nenhuma
grande presunção de suas humilhações. Eles não se inclinam para a ostentação,
nem para a auto-exaltação, sob qualquer disfarce que seja. Porém esse senso da
suprema santa beleza e glória de Deus e de Cristo, que é o fundamento dos
conceitos e afeições verdadeiramente graciosos, e somente este senso, mortifica
o orgulho e verdadeiramente humilha a alma. Esse senso não corta apenas alguns
dos ramos mais externos (fazendo com que muitos galhos cresçam, onde estava
somente um antes), mas golpeia a própria raiz do orgulho; ele altera a própria
natureza e disposição do coração. A luz da beleza de Deus, e somente esta,
mostra verdadeiramente à alma sua própria deformidade, e a inclina eficazmente
a exaltar a Deus e a humilhar-se.
(2) Esses exercícios e afeições
graciosos diferem dos outros em sua tendência para destruir o interesse de
Satanás.
a. Na própria
pessoa, em sua tendência a fazer com que a alma odeie todo o mal e o falso
caminho, e a produzir santidade universal de coração e de vida, dispondo-a para
fazer o serviço de Deus e a promover a sua glória e o bem da humanidade; a verdadeira
ocupação de sua vida.
Considerando que aquelas
falsas descobertas e afeições não têm esse efeito. De fato, pode haver grande
zelo e muito do que é chamado de religião, mas não é um zelo verdadeiramente
cristão, não é um ser zeloso de boas obras; sua religião não é o serviço de
Deus, não é um buscar e servir a Deus, mas, de fato, um buscar e servir a si
mesmas. Embora possa haver uma mudança de vida, não é uma mudança de todo
caminho perverso para uma vida e prática cristãs uniformes, mas apenas um virar
o fluxo de corrupção de um canal para outro. O apóstolo Tiago distingue dessa
forma, em nosso contexto, a fé verdadeira da fé dos demônios, Tiago 2.19-20, “Crês,
tu, que Deus é um só. Fazes bem. Até os demônios creem e tremem. Queres, pois,
ficar certo, ó homem insensato, de que a fé sem as obras é inoperante?” E, da
mesma forma, o apóstolo João distingue a verdadeira comunhão com Deus, 1 João 1.6-7,
“Se dissermos que mantemos comunhão com ele e andarmos em trevas, mentimos e
não praticamos a verdade. Se, porém, andarmos na luz, como[17] ele está na luz, mantemos
comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de
todo pecado”. Com isso ele distingue o verdadeiro conhecimento espiritual, 1
João 2.3-4, “Ora, sabemos que o temos conhecido por isto: se guardamos os seus
mandamentos. Aquele que diz: Eu o conheço e não guarda os seus mandamentos é
mentiroso, e nele não está a verdade”. E com isso o mesmo apóstolo distingue o
verdadeiro amor, 1 João 3.18-19, “Filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua,
mas de fato (“em obras”, como a palavra significa) e de verdade. E nisto
conheceremos que somos da verdade, bem como, perante ele, tranquilizaremos o
nosso coração”.
b.
Experiências verdadeiramente graciosas tendem a destruir o interesse de Satanás
no mundo.
A falsa
religião, que consiste nas falsificações das operações do Espírito de Deus e em
altas pretensões e grandes aparências de religião experimental interior, quando
esta prevalece no meio de um povo, embora no presente possa surpreender a
muitos, e pode ser a ocasião de alarmar e despertar alguns pecadores; contudo,
no resultado final das coisas, tende a ferir e a enfraquecer grandemente a
causa da religião vital, e a fortalecer muito o interesse de Satanás de
endurecer o coração dos pecadores, de encher excessivamente o mundo com
preconceito contra o poder da piedade, de promover a infidelidade e os
princípios e práticas licenciosos, de edificar e fortalecer o reino do diabo no
mundo mais do que o vício e a profanação abertos, ou o ateísmo declarado, ou a
perseguição pública, e, talvez, mais do que qualquer outra coisa.
Porém não é
assim com a verdadeira religião em sua beleza genuína. Esta, se prevalece em
grande poder, sem dúvida excitará a ira do diabo e de muitos outros inimigos da
religião. No entanto, dá grande vantagem a seus amigos e fortalece muito sua
causa, e tende a convencer ou a confundir os inimigos. A verdadeira religião é
uma luz divina nas almas dos santos; e, a medida que brilha na conversa diante
dos homens, tende a induzir os outros a glorificarem a Deus. Não há nada como
ela (quanto aos meios) para despertar as consciências dos homens, convencer os
infiéis e fechar as bocas dos opositores. Embora os homens odeiem naturalmente
o poder da piedade, todavia, quando veem os seus frutos, há um testemunho em
suas consciências a seu favor. “Porque o reino de Deus não é comida nem bebida,
mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo. Aquele que deste modo serve a
Cristo é agradável a Deus e aprovado pelos homens” (Romanos 14.17-18). A predominância
da religião verdadeira sempre tende à honra da religião no mundo, embora
geralmente isto seja a ocasião de grande perseguição. Uma coisa é certa, quanto
mais ela aparece e é exemplificada aos olhos do mundo, mais sua honra e a honra
de seu Autor serão promovidas. Filipenses 1.11, “Cheios dos fruto da justiça, o
qual é mediante Jesus Cristo, para glória e louvor de Deus”.
III. O terceiro uso pode ser de
exortação a buscar aquelas qualificações e afeições distintivas da alma, as
quais nem o diabo, nem qualquer ser ímpio, tem ou pode ter.
Quão excelente é essa virtude e
religião interior que consiste nelas! Nisto consiste a mais excelente
experiência dos santos e dos anjos no céu. Nisto consiste a melhor experiência
do homem, Cristo Jesus, seja em seu estado humilde ou glorificado. Nisto
consiste a imagem de Deus; sim, isso é mencionado nas Escrituras como a
comunicação de algo da própria beleza e excelência de Deus, participação na
natureza divina (2 Pedro 1.4); participação na sua santidade (Hebreus 12.10);
participação na plenitude de Cristo (João 1.16). Nisto os santos são “tomados
de toda a plenitude de Deus” (Efésios 3.18-19). Por este meio eles têm “comunhão
com o Pai e com seu Filho” (1 João 1.3), isto é, eles participam com eles em
sua felicidade. Sim, por meio dessa virtude divina há uma habitação mútua de
Deus e dos santos; 1 João 4.16, “Deus é amor, e aquele que permanece no amor permanece
em Deus, e Deus nele”.
Esta qualificação deve fazer a
pessoa que a possui excelente e feliz de fato, e, sem dúvida, é a mais alta
dignidade e bem-aventurança de qualquer criatura. Este é o dom peculiar de
Deus, o qual ele concede somente aos seus favoritos especiais. Quanto à prata,
ao ouro e aos diamantes, às coroas e aos reinos terrenos, ele frequentemente os
lança àqueles que ele considera como cães e porcos; mas esta é a bênção
peculiar de seus queridos filhos, é isso que a carne e o sangue não podem
conceder, e da qual todos os demônios no inferno não podem ter o menor grau em
qualquer coração; somente Deus pode concedê-la. Este foi o benefício especial pelo
qual Cristo morreu para obter a favor de seus eleitos, o mais excelente sinal
de seu amor eterno, o principal fruto de seus grandes labores e a mais preciosa
aquisição de seu sangue.
Por isso, acima de todas as
outras coisas, os homens glorificam a Deus. Por isso, acima de todas as outras
coisas, os santos brilham como luzes no mundo e são bênçãos para a humanidade.
E isso, acima de tudo, tende ao seu próprio conforto; daí surge a “paz que
excede todo entendimento”, e aquela “alegria indizível e cheia de glória”. E
isso é o que certamente resultará na salvação eterna daqueles que o têm; é
impossível que a alma onde esta qualificação está afunde e pereça; é uma
semente imortal; é a vida eterna iniciada e, portanto, aqueles que a possuem nunca
podem morrer.
É o alvorecer da luz da glória. É
a estrela da alva que nasce no coração, que é precursora segura daquele
amanhecer que trará o dia eterno [2 Pedro 1.19]. Esta é a água que Cristo dá, a
qual é naquele que a bebe, “uma fonte a jorrar para a vida eterna” (João 4.14).
É algo do céu, é de natureza celestial e tende para o céu. E aqueles que o têm,
por mais que vaguem no deserto, ou sejam jogados para lá e para cá num oceano
tempestuoso, certamente chegarão finalmente ao céu, onde esta centelha
celestial será aumentada e aperfeiçoada; e as almas dos santos, todas, sejam
transformadas em uma chama brilhante e pura, e elas brilharão como o sol no
reino de seu Pai. Amém.
Título
original: True Grace, Distinguished from the Experience of Devils – 1752
Extraído de
Works of Jonathan Edwards, vol. 23, p. 606-641; org. Wilson H. Kimnack
Disponível
em: edwards.yale.edu; JE Center; Yale University
Tradução:
Paulo Arantes
[1] O convite feito a JE para pregar
diante do Sínodo de Nova York foi, sem dúvida, o resultado da influência do
Rev. Aaron Burr, o presidente do College of New Jersey, em Newark, que se
casara com a filha de JE, Esther, no mês de junho antes do Sínodo. O Sínodo
votou pela publicação do sermão.
[2] [Primeira edição, p. 5: “ou”.]
[3] [Imagem, selo e timbre são termos literalmente
relacionados à tipologia, o grego “tipos” se refere a uma marca deixada por um
golpe, e, em tempos mais recentes, a impressão de um selo na cera. Aqui, JE
identifica claramente os sinais da graça com o sistema de tipos que ele encontrava
por toda a criação.]
[4] [Primeira edição, p. 9: “é válido,
vigora, mantem-se firme”.]
[5] [Aqui, “ciência” se refere a
qualquer conjunto de conhecimento sistemático. JE usava o termo “filosofia
natural” para o pensamento científico como é entendido agora.]
[6] [Esta referência à idade da terra
e da queda de Satanás, após sua rebelião, na época da criação, reflete o amor
de JE ao modo histórico de determinar pontos teológicos. Também pode refletir o
estímulo produzido pela leitura recente de Paradise
Lost de Milton. Veja também “Miscellanies” No. 800, em Works, 20, 137.]
[7] [Primeira edição, p. 12:
“impedir”. A cópia NYHS tem a letra de mão de JE mudada para “perverter”.]
[8] [Primeira edição, p. 14: “Sim”. A
cópia NYHS tem a letra de mão de JE mudada para “Todavia, Ainda assim”.]
[9] [Primeira Edição, p. 14:
“Todavia”. A cópia NYHS tem a letra de mão de JE mudada para “Sim”.]
[10] [Primeira edição, p. 18:
“livremente”. A cópia NYHS tem a letra de mão de JE mudada para “plenamente”.]
[11] [Primeira edição, p. 20: “usual”.]
[12] [Primeira edição, p. 26: “são”. A
cópia NYHS tem a letra de não de JE mudada para “é”.]
[13] [Primeira edição, p. 26:
“Execução”. A cópia NYHS tem a letra de mão de JE mudada para o plural.]
[14] [Primeira edição, p. 30: “Sinal”.
A cópia NYHS tem a letra de mão de JE mudada para o plural.]
[15] [Primeira edição, p. 31: “por”. A
cópia NYHS tem a letra de mão de JE mudada para “a partir de”.]
[16] [Adicionada à cópia NYHS por JE.]
[17] [primeira edição, p. 39: “ou”. A
KJV lê “como”.]
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