Frase da Semana

Assim, tudo é de Deus, está em Deus e existe para Deus; ele é o começo, o meio e o fim.

sábado, 17 de setembro de 2022

A verdadeira graça distinguida da experiência dos demônios

Em 28 de setembro de 1752, Edwards pregou um sermão diante do Sínodo Presbiteriano de Nova York, reunido naquela ocasião em Newark, Nova Jersey. De acordo com uma prática invariável desde seus primeiros dias em Northampton, ele escolheu um antigo sermão para a ocasião. Neste caso, ele escolheu um sermão de 1746 (nº 852), um discurso original que pondera sobre os dois eventos mais importantes em sua vida pastoral durante a década de 1740: o Grande Avivamento e a controvérsia sobre as qualificações para a comunhão. Redigido e pregado pela primeira vez no ano em que foi publicado A Treatise Concerning Religious Affections (Um Tratado sobre as Afeições Religiosas), o sermão pondera sobre as questões controversas do Grande Avivamento, mas antecipa, simultaneamente, a controvérsia seguinte sobre as qualificações para a comunhão. De fato, ele foi escrito mais ou menos na época em que Edwards estava finalmente estabelecendo sua opinião em oposição à prática da comunhão de Stoddard. A própria estratégia do sermão, como expressa em seu título, de fazer distinção não apenas entre santos e pessoas naturais ou hipócritas, mas entre santos e demônios, é indicativa da postura radical que o envolve.

Considerando primeiro o argumento, relacionado ao Grande Avivamento, Edwards insiste que a salvação não é uma questão de informação ou de “fé especulativa”. Satanás, ele argumenta, foi testemunha da criação e de todas as grandes realizações de Cristo, todavia ele não se beneficiou desse conhecimento sobre-humano; além disso, Satanás tornou-se um verdadeiro estudante de teologia como resultado de suas lutas com Deus pelos corações dos homens ao longo da história durante a obra de redenção. Assim, a fé salvadora deve transcender tudo o que pode ser meramente observado ou compreendido, embora ela claramente inclua isso. Outro ponto reiterado no argumento de Edwards é que estava havendo muita ênfase no processo de conversão. Os terrores preparatórios, uma consciência culpada e outros “passos” em uma morfologia prescrita de conversão não têm valor imprescindível, nem qualquer fórmula particular concernente às impressões adequadas sobre a grandeza de Deus. Em vez disso, Edwards insiste que as pessoas devem examinar a base e a tendência de suas próprias experiências religiosas, em busca de evidências de uma apreciação radicalmente nova da beleza da santidade como personificada em Cristo, e um novo senso de amor abnegado. Ao desenvolver sua crítica sobre os confortos ilusórios e concepções errôneas que acompanham os períodos de avivamento religioso, Edwards é sempre pastoral e prático, mas notavelmente meticuloso e abrangente, no espírito de Religious Affections (Afeições Religiosas).

A outra dimensão deste sermão, que antecipa a renúncia pública de Edwards das práticas de Stoddard a respeito da membresia da igreja e do sacramento, é menos específica do que algumas das críticas sobre as ilusões relacionadas ao avivamento, mas não menos completas. É claro que muitos de seus pontos podem ser lidos como aplicáveis ​​à experiência do Grande Avivamento ou à controvérsia sobre as qualificações. Assim, sua oposição à noção de passos previsíveis na conversão também sugere seu ceticismo quanto a uma “ordenança convertedora”. Da mesma forma, a noção de “aprender” o caminho para a igreja através da observação e da repetição é implicitamente questionada, juntamente com todas as reivindicações a favor da graça comum. Porém o mais importante em relação à questão sobre as qualificações é a ênfase de Edwards na diferença absoluta entre o melhor das pessoas naturais e o verdadeiramente gracioso, pois Edwards identifica claramente todas as pessoas naturais com o grupo de Satanás. O sermão desmantela sistematicamente todas as noções de aproximação à piedade, visto que as muitas reivindicações de pretendentes e de pessoas que buscam complacência são demonstradas, em sucessivos tópicos, como não sendo diferentes em si mesmas daquilo que os demônios também desfrutam. Sem a experiência da luz divina e do amor santo que constitui o “conhecimento espiritual”, insiste Edwards, não há verdadeira qualificação.

A escolha de Edwards do sermão sobre Tiago 2.19 para ser repetido diante de uma audiência culta e influente no sínodo de 1752 é uma questão em aberto. Edwards tinha acabado de publicar as Misrepresentations Corrected (Distorções Corrigidas), sua resposta a Salomão Williams que pos fim ao prolongado debate sobre as qualificações para a comunhão, e assim a segunda dimensão de seu sermão apenas parece levantar mais uma vez questões supostamente resolvidas. Além disso, o sermão é um discurso eminentemente pastoral, se for considerado o tom e a maneira, ou a forma do sermão. A forma, de fato, sugere um sermão pastoral prático, visto que o Proveito (Improvement) – normalmente um pouco mais longo que a Doutrina – é cinco vezes mais longo aqui. Se a primeira dimensão do sermão, concernente aos avivamentos, for levada em consideração, a forma implicitamente não se refere apenas aos tratados e panfletos sobre os avivamentos, mas a mais do que a eles, a uma das primeiras palestras de Edwards sobre o assunto: A Divine and Supernatural Light (Uma Luz Divina e Sobrenatural, 1734). Estas duas composições, a primeira, uma palestra teórica, e, a última, um sermão pastoral, são complementares quanto à forma e ao tema, resumindo muito do ensino pastoral de Edwards sobre a experiência da fé salvadora. Porém esses aspectos sobre o contexto histórico do sermão podem não ter sido tão imediatamente claros aos seus ouvintes nas colônias do Atlântico Médio. No mínimo, Edwards pode ter desejado resumir sua pregação perante uma audiência que poderia custear sua publicação.[1] E, de fato, True Grace (A Verdadeira Graça) provou ser o último sermão que ele publicou.

Como ocorre com todos os sermões impressos sob a supervisão real ou virtual de Edwards, a primeira edição é preferível ao manuscrito. Neste caso, uma cópia da primeira edição, pertencente a biblioteca da New York Historical Society, contém correções feitas pelo autor, e estas foram incorporadas ao presente texto. A página de título diz: “True Grace, / Distinguished from the Experience Of Devils; In A / Sermon, / Preached before the / Synod Of New-York, / Convened at / New-Ark, in New-Jersey, / On September 28. N.S. 1752. / By Jonathan Edwards, A.M. / Pastor of the Church of Christ in Stockbridge in New-England. / (Printed by the Desire of the Synod.) / 2 Corinthians 9.3. [quotation and from 2 Corinthians 9.14] / New-York: / Printed by James Parker, at the New Printing Office in / Beaver-Street, MDCCLIII.” (“Verdadeira Graça, / Distinguida da / Experiência dos Demônios; / Em um / Sermão, / Pregado perante o / Sínodo de Nova York, / Reunido em / New-Ark, em Nova Jersey, / Em 28 de setembro. N.S. 1752. / Por Jonathan Edwards, A.M. / Pastor da Igreja de Cristo em Stockbridge, na Nova Inglaterra. / (Impresso pelo Desejo do Sínodo.) / 2 Coríntios 9: 3. [Citação e de 2 Coríntios 9:14] / Nova York: / Impresso por James Parker, no New Printing Office em / Beaver-Street, MDCCLIII”. O pequeno livreto in-quarto (1/4 de página) compreende quarenta e duas páginas.

O manuscrito sobrevive na coleção da Beinecke Library de Yale. É um livreto duodécimo de vinte e quatro folhas de bom papel, escritas em duas colunas, costuradas em um único ajuntamento e datadas de “Dezem. 1746”. Embora não haja nenhuma anotação no livreto que indique a nova pregação de 1752, há algumas modificações e acréscimos dos últimos anos de Edwards. A mais significativa é uma nota que aponta para o acréscimo de um novo tópico, agora a primeira inferência sob o uso da instrução do Proveito (“Nada que os homens amaldiçoados façam, ou jamais experimentem, pode ser qualquer sinal seguro de graça”).

 

A Verdadeira Graça, Distinguida da Experiência dos Demônios

“Crês, tu, que Deus é um só? Fazes bem. Até os demônios creem e tremem.” (Tiago 2.19)

 

Observe nessas palavras:

 

1. Algo de que alguns dependiam, como evidência de seu bom estado e aceitação como os objetos do favor de Deus, a saber, uma fé especulativa, ou uma crença nas doutrinas da religião. A grande doutrina da existência de um único Deus é particularmente mencionada; provavelmente porque esta era uma doutrina na qual havia, de modo especial, uma distinção visível e notável entre os cristãos professos e os pagãos, entre os quais os cristãos naqueles dias estavam dispersos; e, portanto, era nisso que muitos confiavam como o que os recomendava ou, pelo menos, era uma evidência de seu interesse pelos grandes privilégios espirituais e eternos, nos quais os cristãos verdadeiros se distinguiam do restante do mundo.

            2. Quanto é levado em consideração em relação a essa fé, a saber, que é uma boa realização: “Fazes bem”. Ela era boa, visto que era necessária. Essa doutrina era uma das doutrinas fundamentais do cristianismo; e, em alguns aspectos, acima de todas as outras fundamental. Era necessário ser crida para a salvação; e uma pessoa sem a crença nesta doutrina, especialmente naqueles que tinham esta vantagem de conhecer, como eles tinham, a quem o apóstolo escreveu, seria um grande pecado e o que iria agravar muito a sua condenação. Essa crença era boa também, visto que tinha uma boa tendência em muitos aspectos.

            3. O que é implicitamente negado a respeito disso, a saber, que é alguma evidência de uma pessoa estar em um estado de salvação. Todo o contexto mostra que este é o propósito do apóstolo nas palavras, e, é particularmente manifesto pela conclusão do versículo; que é a

4. Coisa observável nas palavras, a saber, o argumento pelo qual o apóstolo prova que este não é sinal de um estado de graça, a saber, que essa crença é encontrada nos demônios. Eles acreditam que existe um só Deus e que ele é um Deus que odeia o pecado; e que ele é o Deus da verdade e cumprirá suas ameaças, mediante as quais ele tem proclamado julgamentos futuros e um grande aumento de miséria sobre eles; e que ele é o Deus Todo-poderoso e capaz de executar sua vingança ameaçada sobre eles.

Portanto, a doutrina que deduzo das palavras, para elaborar o assunto do meu discurso atual, é esta:

 

DOUTRINA: Nada na mante do homem, que seja da mesma natureza daquilo que os demônios experimentam ou sejam seus objetos, é qualquer sinal seguro da graça salvadora.

Se existe algo que os demônios possuem, ou encontrem em si mesmos, que seja uma evidência da graça salvadora do Espírito de Deus, então o argumento do apóstolo não é bom; o qual é claramente este: aquilo que está nos demônios, ou que eles fazem, não é uma evidência segura da graça. Porém os demônios acreditam que existe um só Deus. Portanto, a tua crença de que existe um Deus não é uma evidência segura de que és agradável. De modo que todo o fundamento do argumento do apóstolo reside nesta proposição: aquilo que está nos demônios não é um sinal segura da graça.

No entanto, mencionarei duas ou três razões adicionais, ou argumentos sobre a verdade desta doutrina.

 

I. Os demônios não possuem nenhum grau de santidade e, portanto, aquelas coisas, que não são nada além daquilo de que eles são os objetos, não podem ser experiências santas.

O diabo foi santo outrora, mas, quando ele caiu, perdeu toda a sua santidade e tornou-se perfeitamente perverso. Ele é o maior pecador e, em certo sentido, o pai de todo pecado. João 8.44 diz: “Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos. Ele foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade; porque nele não há verdade. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira.” 1 João 3.8 diz: “Aquele que pratica o pecado procede do diabo, porque o diabo vive pecando desde o princípio”. Ele é frequentemente mencionado como, por eminência, “o maligno”. Assim, Mateus 13.19 diz: “A todos os que ouvem a palavra do reino e não a compreendem, vem o maligno e arrebata o que lhes foi semeado no coração”. Mateus 13.38 diz: “o joio são os filhos do maligno”. 1 João 2.13 afirma: “Jovens, eu vos escrevi, porque sois fortes, e a palavra de Deus permanece em vós, e tendes vencido o Maligno”. 1 João 3.12 declara: “Não segundo Caim, que era do Maligno”. 1 João 5.18 diz: “Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não vive em pecado; antes, Aquele que nasceu de Deus o guarda, e o Maligno não lhe toca”. Igualmente, os demônios são chamados de “espíritos maus”, “espíritos impuros”, “poderes das trevas”, “dominadores das trevas deste mundo” e “perversidade” em si mesmos. Efésios 6:12 diz: “porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestiais”.

Portanto, certamente aquelas coisas que são objetos das mentes dos demônios nada podem ter da natureza da verdadeira santidade nelas. O conhecimento e a compreensão que eles têm das coisas de Deus e da religião não podem ser da natureza da luz divina e santa, nem de qualquer conhecimento que seja meramente do mesmo tipo. Nenhuma dessas impressões que são produzidas sobre seus corações pode ser de natureza espiritual. Esse tipo de senso que eles têm das coisas divinas, por maior que seja, não pode ser um senso santo. Estas afeições que movem seus corações, por mais poderosos que sejam, não podem ser afeições santas. Se não há santidade nelas, visto que estão no diabo, não pode haver santidade nelas quando estão no homem; a menos que algo lhes seja acrescentado além do que está nelas, visto que[2] elas estão no diabo. E se algo for adicionado a elas, então elas não são as mesmas coisas, mas são algo além do que é objeto dos demônios; o que é contrário à suposição; pois a proposição sobre a qual estou é, que aquelas coisas que são da mesma natureza, e nada além do que é objeto dos demônios, não podem ser experiências santas. Não é o objeto que torna a afeição, a experiência ou a qualidade santa, mas é a qualidade que torna o objeto santo.

E se essas qualidades e experiências, que são objetos dos demônios, nada têm da natureza da santidade nelas, então elas não podem ser sinais seguros de que as pessoas que as possuem são santas ou agradáveis. Não há sinal seguro de graça verdadeira, exceto aquelas coisas que são espirituais e graciosas. É esta imagem de Deus que é o seu selo e marca, o timbre pelo qual aqueles que são dele são conhecidos.[3] Porém aquilo que não tem nada da natureza da santidade não tem nada desta imagem. Aquilo que é um sinal seguro da graça deve ser algo que tenha a natureza e a essência da graça, ou esteja fluindo dela, ou, de alguma forma, pertença à sua essência. Pois aquilo que distingue as coisas umas das outras é a sua essência, ou algo relacionado à sua essência. E, portanto, aquilo que às vezes é encontrado totalmente sem a essência da santidade ou da graça não pode ser uma marca essencial, segura ou distintiva da graça.

 

II. Os demônios não apenas estão absolutamente sem a verdadeira santidade, mas não são objetos de qualquer graça comum.

Se alguns imaginam que algumas coisas podem ser sinais da graça que não sejam a própria graça, ou que nada tenham da natureza e da essência da graça e da santidade nelas; todavia, certamente permitirão que as qualificações, que são evidências seguras da graça, sejam coisas que se pareçam com a graça ou que tenham alguma notável afinidade com ela. Porém os demônios não são apenas totalmente destituídos de qualquer santidade verdadeira, mas eles estão muito distantes dela e não têm nada neles de algum modo parecido com ela.

Há muitos, neste mundo, que são totalmente desprovidos da graça salvadora que, ainda assim, têm a graça comum. E eles não têm a verdadeira santidade, mas, no entanto, têm algo daquilo que é chamado de “virtude moral”, e são objetos de algum grau das influências comuns do Espírito de Deus. É assim com aqueles que, em geral, vivem sob a luz do evangelho e não estão entregues à cegueira e dureza judicial. Até mesmo aqueles que estão assim entregues ainda têm algum grau de graça restritiva enquanto vivem neste mundo, sem a qual a terra não poderia suportá-los, e de forma alguma seriam membros toleráveis ​​da sociedade humana. Porém, quando são condenados ou lançados no inferno, como os demônios são, Deus retira totalmente sua graça restritiva e todas as influências misericordiosas de seu Espírito, e eles não têm nem a graça salvadora, nem a graça comum; nem a graça do Espírito, nem qualquer dos dons comuns do Espírito, nem verdadeira santidade, nem virtude moral de qualquer espécie. Consequentemente, quando eles são condenados, surge o grande aumento do exercício da maldade nos corações dos homens. E aqui está a principal diferença entre os condenados no inferno e os homens não regenerados e sem a graça neste mundo; não que os perversos neste mundo tenham mais santidade ou verdadeira virtude do que os condenados, ou que os perversos, quando deixam este mundo, tenham qualquer princípio de perversidade infundido neles, mas quando os homens são lançados no inferno Deus tira seu Espírito completamente deles, tanto quanto todas as suas misericordiosas influências comuns, e retira totalmente deles todas as restrições de seu Espírito e da boa providência.

 

III. Não é razoável supor que, sendo uma pessoa, em qualquer aspecto, como o diabo é, deve ser um sinal seguro que ela é muito diferente e oposta a ele, e futuramente não terá sua parte com ele. Os verdadeiros santos são extremamente diferentes e contrários ao diabo, tanto relativa quanto realmente. Eles são diferentes e contrários relativamente. O diabo é o grande rebelde, o principal inimigo de Deus e de Cristo, o objeto da maior ira de Deus, um malfeitor condenado, totalmente rejeitado e expulso por ele, para sempre excluído de sua presença, o prisioneiro da sua justiça, um habitante eterno do mundo infernal. Os santos, ao contrário, são os cidadãos da Jerusalém celestial, membros da família do glorioso Rei do céu, os filhos de Deus, os irmãos e a esposa de seu amado Filho, herdeiros de Deus, co herdeiros com Cristo; reis e sacerdotes para Deus. E eles são extremamente diferentes realmente. O diabo, por causa de sua natureza odiosa e daquelas malditas disposições que reinam nele, é chamado de “Satanás”, “o adversário”, “Abadom” e “Apoliom”, “o grande destruidor”, “o lobo”, “o leão que ruge”, “o grande dragão”, “a antiga serpente”. Os santos são apresentados como “os santos de Deus”, seus “ungidos”, “os excelentes da terra”; “os mansos da terra”; “cordeiros e pombas”; “filhinhos de Cristo”, tendo a “imagem de Deus”, “puros de coração”; “joias de Deus”; “lírios no jardim de Cristo”; “plantas do paraíso”; “estrelas do céu”; “templos do Deus vivo”. Os santos, na medida em que são santos, são tão diferentes do diabo quanto o céu é do inferno, e muito mais contrários do que a luz é em relação as trevas; e o estado eterno para o qual eles são designados é correspondentemente diferente e contrário.

Ora, não é razoável supor que, sendo em qualquer aspecto como Satanás é, ou sendo objeto de qualquer uma das mesmas propriedades, qualificações, afeições ou ações que estão nele, seja alguma evidência segura de que as pessoas são assim muitíssimo diferentes dele, e estão em circunstâncias tão diferentes e estão designadas para um estado eterno tão extremamente contrário em todos os aspectos. Os perversos são chamados nas Escrituras de “filhos do diabo”. Ora, é razoável supor que, sendo dos homens, em algum aspecto, como o diabo é, pode ser um sinal seguro de que eles não são seus filhos, mas os filhos do Deus infinitamente santo e bendito? Somos informados de que os perversos terão a sua parte com os demônios; serão sentenciados ao mesmo fogo eterno que está preparado para o diabo e seus anjos. Ora, pode um homem, sendo como o diabo em qualquer aspecto, ser um sinal seguro de que ele não terá a sua parte com ele, mas com anjos gloriosos e com Jesus Cristo, morando com ele onde ele está, de modo que possa contemplar e participar da sua glória?

 

PROVEITO

I. O primeiro uso pode estar em várias inferências para nossa instrução.

Primeiro. A partir do que foi dito pode-se inferir, pela paridade da razão, que nada que os condenados façam ou experimentem pode ser algum sinal seguro da graça.

Os homens condenados são como os demônios; são conformados a eles quanto à natureza e ao estado. Eles não têm nada melhor em si do que os demônios; não tem princípios mais elevados em seus corações, não experimentam nada e nada fazem de um tipo mais excelente, visto que são filhos e servos do diabo; e, como tais, devem habitar com ele e serem participantes com ele da mesma miséria. Como Cristo diz, concernente aos santos em seu estado futuro, Mateus 22.30, que “são, porém, como os anjos no céu”; assim pode ser dito sobre os homens ímpios em seu estado futuro, que eles serão como os anjos caídos e perversos no inferno.

            Cada uma das razões supramencionadas, dadas para mostrar a verdade da doutrina com relação aos demônios, é válida[4] para os homens condenados. Os homens condenados não têm nenhum grau de santidade e, portanto, aquelas coisas que não são nada além do que eles têm não podem ser experiências santas. Portanto, é verdade que os homens condenados não apenas são absolutamente destituídos de toda a verdadeira santidade, mas não têm sequer qualquer graça comum. E, por fim, não é razoável supor que, sendo pessoa em algum aspecto como os condenados no inferno são, deve ser um sinal seguro de que ela é muito diferente e oposta a eles, e que, futuramente, não terá sua parte com eles.

            Segundo. Podemos inferir, consequentemente, que nenhum grau de conhecimento especulativo das coisas da religião é algum sinal seguro da graça salvadora. O diabo, antes de sua queda, estava entre aqueles anjos reluzentes e gloriosos do céu, os quais são apresentados como estrelas da manhã e chamas de fogo, que se destacam em força e sabedoria. E embora ele seja agora pecador, seu pecado não eliminou as faculdades da natureza angélica; como quando o homem caiu ele não perdeu as faculdades da natureza humana. O pecado destrói os princípios espirituais, mas não as faculdades naturais. É verdade que o pecado, quando em pleno domínio, impede completamente o exercício das faculdades naturais na compreensão santa e espiritual, e coloca muitos impedimentos no caminho de seu exercício apropriado em outros aspectos; coloca a faculdade natural da razão sob grandes desvantagens por meio de muitos e fortes preconceitos sob os quais o poder da mente é trazido, e, nos homens caídos, as faculdades da alma, são, sem dúvida, grandemente impedidas em seu exercício através daquela grande fraqueza e desordem do órgão corpóreo, ao qual está estritamente unida; que é a consequência do pecado. Porém parece não haver nada na natureza do pecado, ou na corrupção moral, que tenha alguma tendência de destruir a capacidade natural ou mesmo de diminuí-la, propriamente falando. Se o pecado fosse de tal natureza, para ter necessariamente essa tendência e efeito, então se poderia esperar que homens perversos, em um estado futuro onde são completamente entregues ao exercício desenfreado de suas corrupções e luxúria, e o pecado, em todos os aspectos, é levado à sua maior perfeição neles, teriam a capacidade de suas almas grandemente diminuída. O que não temos razão para supor, mas antes, ao contrário, que suas capacidades são grandemente ampliadas e que seu conhecimento real é amplamente aumentado. E isso até mesmo com respeito ao ser divino e as coisas de religião, e as grandes preocupações das almas imortais dos homens; e que, com respeito a estas coisas, os olhos dos perversos são abertos, e eles, em alguns aspectos, emergem da escuridão para a clara luz quando entram no outro mundo.

            A grandeza da habilidades dos demônios pode ser deduzida da apresentação em Efésios 6.12: “porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes”. O mesmo pode ser deduzido a partir do que as Escrituras dizem sobre a sutileza de Satanás (Gênesis 3.1; 2 Coríntios 11.3; Atos 13.10).

            E visto que o diabo tem uma faculdade de compreensão de grande capacidade, ele é capaz de um grande conhecimento especulativo sobre as coisas de Deus e sobre o mundo invisível e eterno, assim como sobre outras coisas; e necessita, na verdade, ter um grande entendimento dessas coisas, visto que estas são as coisas que sempre estiveram principalmente em sua visão, e visto que suas circunstâncias, desde sua existência anterior, foram as que mais tenderam a envolvê-lo a cuidar dessas coisas. Antes de sua queda, ele foi um daqueles anjos que continuamente contemplaram a face do Pai, que está no céu. E o pecado não tem a tendência de destruir a memória e, portanto, não tem a menor tendência de apagar dela qualquer conhecimento especulativo que existia anteriormente.

            Assim como a sutileza do diabo mostra sua grande capacidade, assim a maneira pela qual sua sutileza é exercida e manifestada, que está principalmente em sua administração astuciosa com respeito às coisas da religião, suas representações muitíssimo sutís, insinuações, raciocínios e tentações concernentes a estas coisas, demonstram sua grande compreensão real delas. A fim de ser um debatedor muito hábil em qualquer ciência, embora seja apenas para confundir e enganar os que são proficientes na ciência, uma pessoa precisa ter uma grande e extensa familiaridade com as coisas que pertencem a essa ciência.[5]

            Consequentemente, o diabo tem, sem dúvida, um grande grau de conhecimento especulativo em teologia; tendo sido, por assim dizer, instruído na melhor escola de teologia do universo, a saber, o céu dos céus. Ele deve ter um conhecimento muito mais extenso e preciso quanto à natureza e atributos de Deus, como nós, vermes do pó, em nosso estado atual, não somos capazes de ter. E ele deve ter um conhecimento muito mais amplo das obras de Deus, como da obra da criação em particular, pois ele foi um espectador da criação deste mundo visível; ele foi uma daquelas estrelas da alva da qual lemos em Jó 38.4-7 que cantaram juntas, e daqueles filhos de Deus que gritaram de alegria quando Deus lançou os fundamentos da terra e colocou as suas medidas, e estendeu o cordel sobre ela. E, assim, ele deve ter um conhecimento muito grande das obras da providência de Deus; ele é um espectador da sequência dessas obras desde o princípio; ele tem visto como Deus governa o mundo em todas as eras; ele tem visto toda a série das maravilhosas dispensações sucessivas da providência para com a sua igreja, de geração em geração. E ele não é um espectador indiferente, mas a grande oposição que há entre Deus e ele, em todo o curso dessas dispensações, tem, obrigatoriamente, atraído sua atenção na mais estrita observação delas. Ele deve ter um grande grau de conhecimento concernente a Jesus Cristo, como o Salvador dos homens, da natureza e método da obra da redenção, e da maravilhosa sabedoria de Deus neste plano. É essa obra de Deus, na qual, acima de todas as outras, Deus age em oposição a ele, e na qual ele principalmente se coloca em oposição a Deus. É com relação a esta questão que essa imensa guerra tem sido mantida, a qual tem sido levada adiante entre Miguel e seus anjos e o diabo e seus anjos, através de todas as eras desde o princípio do mundo; e especialmente, desde que Cristo apareceu no mundo. O diabo tem tido o suficiente para atrair sua atenção para os passos da sabedoria divina nesta obra, pois é contra essa sabedoria que ele opõe sua sutileza; e ele tem visto e descoberto, para sua grande decepção e tormento indescritível, como a sabedoria divina exercida nessa obra tem frustrado e destruído seus artifícios. Ele tem um grande conhecimento das coisas do outro mundo, pois as coisas desse mundo estão em sua visão imediata. Ele tem um grande conhecimento do céu, pois ele foi um habitante daquele mundo de glória; e ele tem um grande conhecimento do inferno e da natureza de sua miséria, porque é o primeiro habitante do inferno, e, acima de todos os outros habitantes, tem experiência do seu tormento, e os tem sentido constantemente por mais de cinquenta e sete centenas de anos.[6] Ele deve ter um grande conhecimento das sagradas Escrituras, pois é evidente que ele não é impedido de saber o que está escrito ali pelo uso que fez das palavras da Escritura em sua tentação de nosso Salvador. E se ele pode saber, ele tem muita oportunidade de saber, e deve ter uma disposição para saber com a maior exatidão, para que possa, com maior efeito, perverter[7] e torcer as Escrituras, e impedir tal efeito da palavra de Deus no coração dos homens, visto que tenderá a derrubar seu reino. Ele deve ter um grande conhecimento sobre a natureza da humanidade, sua capacidade, suas disposições e as corrupções de seus corações, porque ele tem longa e grande observação e experiência. É com o coração do homem que ele principalmente trata em seus sutís artifícios, grandes esforços, operações incansáveis ​​e infatigáveis ​​e esforços próprios desde o começo do mundo. E é evidente que ele tem um grande conhecimento especulativo sobre a natureza da religião experimental, por ele ser capaz de imitá-la de maneira tão engenhosa, e de tal maneira, a ponto de transformar-se em um anjo de luz.

            Portanto, é evidente, a partir do meu texto e da doutrina, que nenhum grau de conhecimento especulativo das coisas religiosas é algum sinal seguro de verdadeira piedade. Quaisquer que sejam as noções claras que um homem possa ter sobre os atributos de Deus e sobre a doutrina da trindade, sobre a natureza dos dois pactos, sobre a economia das pessoas da trindade e sobre a parte que cada pessoa tem na questão da redenção do homem; se ele nunca pode discursar de modo tão excelente sobre os ofícios de Cristo e o caminho da salvação por meio dele, e sobre os admiráveis ​​métodos da sabedoria divina, e sobre a harmonia dos vários atributos de Deus nesse caminho; se ele nunca pode falar de modo tão claro e exato sobre o método da justificação de um pecador, sobre a natureza da conversão e sobre as operações do Espírito de Deus aplicando a redenção de Cristo, dando boas distinções, resolvendo dificuldades e respondendo objeções alegremente, de uma maneira que tende grandemente à iluminação do ignorante, à edificação da igreja de Deus e à convicção dos que negam, e ao grande aumento de luz no mundo; se ele tem mais conhecimento desse tipo do que centenas de verdadeiros santos, de uma educação comum e da maioria dos teólogos, todavia, tudo isso não é uma evidência certa de qualquer grau de graça salvadora no coração.

            É verdade que as Escrituras frequentemente falam sobre o conhecimento das coisas divinas como aquilo que é peculiar aos verdadeiros santos; como em João 17.3, “E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste”. Mateus 11.27, “Ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar”. Salmo 9.10, “Em ti, pois, se confiam os que conhecem o teu nome, porque tu, Senhor, não desamparas os que te buscam”. Filipenses 3.8, “Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Jesus Cristo, meu Senhor, por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo”. Mas, por outro lado, devemos entendê-lo como um tipo diferente de conhecimento daquele entendimento especulativo que o diabo tem em tão grande grau. Também será admitido que o conhecimento espiritual salvador de Deus e das coisas divinas promovem grandemente o conhecimento especulativo, visto ele envolve a mente em sua busca de coisas desse tipo, e ajuda muito na compreensão distinta delas; de modo que, sendo as outras coisas iguais, aqueles que têm conhecimento espiritual, têm muito mais probabilidade do que outros de ter um bom conhecimento doutrinário das coisas religiosas; mas, no entanto, tal conhecimento não pode ser uma característica distintiva dos verdadeiros santos.

            Terceiro. Também pode ser deduzido, a partir do que foi observado, que as pessoas meramente darem um consentimento especulativo às doutrinas da religião como verdadeiras não é uma evidência segura de um estado de graça. Meu texto nos diz que os demônios “creem” e acreditam que existe um só Deus, por isso acreditam na verdade das doutrinas da religião em geral. O diabo é ortodoxo em sua fé; ele acredita no esquema verdadeiro de doutrina; ele não é deísta, sociniano, ariano, pelagiano ou antinomiano; os artigos de sua fé são todos sadios e nos quais ele está completamente estabelecido.

Portanto, uma pessoa acreditar nas doutrinas do cristianismo meramente a partir da influência das coisas especulativas ou da força dos argumentos, discernidas apenas pela especulação, não é evidência da graça.

Embora seja provavelmente uma coisa muito rara, para os homens não regenerados, ter uma forte persuasão da verdade das doutrinas da religião, especialmente aquelas que são muito misteriosas e estão muito acima da compreensão da razão; ainda assim[8], é evidente que não temos garantia para determinar que nunca pode ser assim, ou para considerar tal persuasão como uma evidência infalível da graça; e que ninguém pode determinar com segurança seu estado de ser bom a partir de tal evidência. Sim,[9] se ele, não apenas ele mesmo, parece estar muito confiante sobre a verdade do cristianismo e sobre suas doutrinas, mas é capaz de argumentar com mais vigor para prová-las; ainda assim, ele não vai além do diabo; o qual, sem dúvida, tem um grande conhecimento dos argumentos racionais pelos quais a verdade da religião cristã e seus vários princípios são evidenciados.

E, portanto, quando a Escritura fala de “crer que Jesus é o Filho de Deus” como uma evidência segura da graça, como em 1 João 5.1 e outros lugares, deve ser entendido não como um mero consentimento especulativo, mas como outro tipo e maneira de crer, que é chamado de a fé dos eleitos de Deus (Tito 1.1). Existe uma convicção espiritual da verdade, que é peculiar aos verdadeiros santos: crer com todo o coração; do que eu devo falar particularmente daqui a pouco.

Quarto. Pode ser deduzido, a partir da doutrina sobre a qual se insiste, que não é sinal seguro de que as pessoas sejam convertidas de maneira salvadora se elas são objetos de grande angústia e terrores da mente, por causa das apreensões da ira de Deus e do medo da condenação.

Que os demônios são objetos de grandes terrores, por causa das apreensões da ira de Deus e do medo dos seus efeitos futuros, está implícito em meu texto; o qual fala não apenas de sua crença, mas do seu tremer. Não deve ser um pequeno grau de terror que faz tremer esses principados e potestades, esses seres poderosos, orgulhosos e fortes.

Há muitos terrores, aos quais algumas pessoas que estão preocupadas com sua salvação estão sujeitos, que não provém de qualquer despertamento adequado da consciência ou de apreensões da verdade, mas provém de impressões melancólicas ou assustadoras em sua imaginação, ou de algumas apreensões infundadas e de ilusões e de falsas sugestões de Satanás. Porém, se nunca tiveram terrores tão grandes e duradouros, provenientes de verdadeiros despertamentos e convicções da verdade, e da visões das coisas como são, isto não é mais do que aquilo que está nos demônios, e estará em todos os perversos no outro mundo. Por mais estúpidos e insensatos que os homens mais ímpios sejam agora, todos serão finalmente despertados; não haverá descanso no inferno. Há muitos que não podem ser despertados pelas mais solenes advertências e horríveis ameaças da Palavra de Deus, os discursos mais alarmantes do púlpito e as mais despertadoras e terríveis providências, mas todos serão completamente despertados pelo som da última trombeta e pela aparição de Cristo para o julgamento, e todos os tipos ficarão cheios com os terrores mais assombrosos provenientes da apreensões da verdade, e verão as coisas como elas são; quando “os reis da terra, os grandes, os comandantes, os ricos, os poderosos (como foram os mais eminentes e destemidos, mais prontos a tratar as coisas da religião com desprezo) “e todo escravo e todo livre se esconderam nas cavernas e nos penhascos dos montes e disseram aos montes e aos rochedos: Caí sobre nós e escondei-nos da face daquele que se assenta no trono e da ira do Cordeiro, porque chegou o grande Dia da ira deles; e quem é que pode suster-se?” (Apocalipse 6.15-17)

Portanto, se pessoas foram inicialmente despertadas e, mais tarde, tiveram conforto e alegria, isto não é sinal seguro de que seus confortos são do tipo certo, que foram precedidos por terrores muito grandes.

Quinto. Pode ser deduzido mais da doutrina, que nenhuma obra da lei nos corações dos homens, em convicção de culpa, e apenas deserto de punição, é um argumento seguro de que uma pessoa foi convertida de forma salvadora.

Não somente não são despertamentos e terrores qualquer evidência certa disso, mas nenhuma mera obra legal, seja qual for, embora elevada ao máximo que possa ser, nada em que não haja graça ou luz espiritual, mas apenas a mera convicção da consciência natural, e aqueles atos e operações da mente que são o resultado desta, e assim são, por assim dizer, meramente forçados pela luz clara da consciência, sem a concordância do coração e a inclinação com aquela luz, eu digo que estas coisas não são um sinal seguro da graça salvadora de Deus, ou que uma pessoa foi convertida salvadoramente em algum tempo.

A evidência disso, a partir do meu texto e doutrina, é demonstrativa. Porque os demônios são objetos dessas coisas, e todos os perversos que, finalmente, perecerão serão objetos das mesmas. A consciência natural não é extinguida nos condenados no inferno, mas, ao contrário, permanece e está em sua maior força, e é levada ao mais perfeito exercício, mais plenamente para realizar sua devida função, como vice-regente de Deus na alma, para condenar aqueles rebeldes contra o Rei do céu e da terra e manifestar a justa ira e vingança de Deus, e atormentá-los por esse meio e ser como um verme que nunca morre dentro deles. Os homens miseráveis ​​encontram meios, neste mundo, de cegar os olhos e fechar a boca desse vice-regente de um Deus vingador do pecado, mas eles não poderão fazê-lo perpetuamente. No outro mundo, os olhos e a boca da consciência serão totalmente abertos. Deus fará com que os perversos vejam e conheçam estas coisas das quais agora, habilidosamente, escondem seus olhos. Isaías 26.10-11, “Ainda que se mostre favor ao perverso, nem por isso aprende a justiça; até na terra da retidão ele comete iniquidade e não atenta para a majestade do Senhor. Senhor, a tua mão está levantada, mas nem por isso a veem; porém verão o teu zelo pelo teu povo e se envergonharão; e o teu furor, por causa dos teus adversários, que os consuma”. Temos essa expressão frequentemente anexada às ameaças da ira de Deus a seus inimigos, “E eles saberão que eu sou o Senhor”; isso será cumprido mediante sua triste experiência e clara luz em suas consciências, pelas quais eles serão obrigados a saber, quer queiram ou não, quão grande e terrível, santo e justo é o Deus Yahweh, cuja autoridade eles desprezaram; e eles saberão que ele é justo e santo em sua destruição. Todos os ímpios serão convencidos disto, no dia do julgamento, mediante o trazer à luz toda a sua maldade de coração e prática, e ao colocar todos os seus pecados, com todas os seus agravantes, em ordem, não apenas à vista dos outros, até mesmo do mundo inteiro, mas à vista de suas próprias consciências. Isto é ameaçado no Salmo 50.21, “Tens feito estas coisas, e eu me calei; pensaste que eu era teu igual; mas eu te arguirei e porei tudo à tua vista”. Compare isso com o Salmo 50.1-4, o fim do dia de julgamento não é descobrir o que é justo, como acontece com os julgamentos humanos, mas sim manifestar o que é justo; tornar a justiça de Deus conhecida, no julgamento que ele executará, às próprias consciências dos homens e ao mundo. E, por isso, esse dia é chamado de “dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus” (Romanos 2.5). Agora, os pecadores criticam muitas vezes a justiça das dispensações de Deus e, particularmente, a justiça do castigo com que Deus os ameaça por causa dos seus pecados, desculpando-se e condenando a Deus; mas, quando Deus vier para manifestar a sua iniquidade à luz daquele dia e os chamar para uma prestação de contas, eles ficarão mudos. Mateus 22.11-12, “Entrando, porém, o rei para ver os que estavam à mesa, notou ali um homem que não trazia veste nupcial e perguntou-lhe: Amigo, como entraste aqui sem veste nupcial? E ele emudeceu”. Quando o Rei do céu e da terra vier para julgar, suas consciências serão tão perfeitamente iluminadas e convencidas pela luz que tudo perscruta, elas então permanecerão, de modo que suas bocas serão caladas eficazmente, bem como todas suas próprias desculpas, todas apelando para sua justiça própria para desculpá-las ou justificá-las; e todas as objeções contra a justiça de seu Juiz, de modo que somente suas consciências os condenarão, não Deus.

Consequentemente, resulta da doutrina que não pode ser sinal seguro da graça que pessoas tenham tido grandes convicções de pecado; tenham tido seus pecados de vida, com seus agravantes, notavelmente colocados diante deles, de modo a afetá-los e aterrorizá-los grandemente; e também tenham tido uma grande visão da perversidade de seus corações e sido convencidos da grandeza do pecado da incredulidade, e da indesculpabilidade e odiosidade de suas mais profundas iniquidades espirituais; e tenham sido convencidos da absoluta insuficiência de sua justiça própria; e desesperarem-se de serem recomendados a Deus por causa disso; tenham sido tão desencorajados de sua justiça própria, como sempre são sob uma simples humilhação legal; tenham sido convencidos de que estão totalmente sem desculpas diante de Deus e merecem a condenação; e que Deus seria justo ao executar a ameaça de punição sobre eles, embora seja tão terrível. Todas estas coisas estarão em todos os ímpios no dia do julgamento, quando eles estiverem com os demônios, à esquerda, e serem condenados como malditos ao fogo eterno com eles.

De fato, não haverá submissão neles. Suas consciências estarão plenamente[10] convencida de que Deus é justo em sua condenação, porém, ainda assim, suas vontades não se curvarão à justiça de Deus. Não haverá aquiescência da mente a esse atributo divino, nenhuma entrega da alma à soberania de Deus, mas o mais alto grau de inimizade e oposição. Uma verdadeira submissão do coração e da vontade à justiça e à soberania de Deus é, portanto, concedida como algo peculiar aos verdadeiros convertidos, sendo algo do que os demônios e as almas condenadas estão e sempre estarão longe; e para a que a mera obra da lei e as convicções da consciência, por maiores e mais claras que sejam, nunca conduzirá os homens.

Quando os pecadores são os objetos de grandes convicções da consciência e da notável atividade da lei, isto é apenas uma transação comercial do dia do julgamento na consciência de antemão. Deus está entronizado na consciência, como no último dia ele se assentará entronizado nas nuvens do céu; o pecador é levado a julgamento, por assim dizer, no tribunal de Deus, e Deus aparece em sua terrível grandeza, como um Deus justo e santo, que odeia o pecado e vinga o pecado, como ele fará então. As iniquidades do pecador são trazidas à luz, seus pecados colocados em ordem diante dele, as coisas ocultas das trevas e os conselhos do coração se tornam manifestos, como será então. Muitas testemunhas, por assim dizer, se levantam contra o pecador sob convicções da consciência, visto que concordam contra o perverso, no dia do julgamento; e os livros são abertos, particularmente o livro da estrita e santa lei de Deus é aberto na consciência e suas regras são aplicadas para a condenação do pecador, o qual é o livro que será aberto no dia do julgamento como a grande regra de julgamento para todos os homens perversos que viveram sob ele. E a sentença da lei é pronunciada contra o pecador, e a justiça da sentença manifestada, como será no dia do julgamento. A convicção de um pecador, no dia do julgamento, será uma atividade da lei, assim como a convicção da consciência neste mundo; e a atividade da lei (se a obra for meramente legal), esteja certo, nunca é executada mais nas consciências dos pecadores agora do que será naquele dia, quando sua atividade será perfeita em fechar completamente a boca do pecador. Romanos 3.19, “Ora, sabemos que tudo o que a lei diz, aos que vivem na lei o diz para que se cale toda boca, e todo o mundo seja culpável perante Deus”. Toda boca será calada pela lei, agora ou no futuro; e todo o mundo se tornará perceptivelmente culpado diante de Deus; culpado de morte, merecedor de condenação. E, portanto, se os pecadores são objetos de uma grande obra da lei, e têm assim se tornado culpados e suas bocas têm sido fechadas, isto não é sinal seguro de que jamais foram convertidos.

De fato, a falta de um completo senso de culpa, um deserto de punição e uma convicção da justiça de Deus na condenação ameaçadora é um bom sinal negativo. É um sinal de que a pessoa nunca foi convertida e verdadeiramente levada, com toda a alma, a abraçar a Cristo como Salvador desta punição. Pois é facilmente demonstrável que não existe uma coisa como esta, de aceitar inteira e cordialmente a oferta de Deus, de um Salvador do castigo com o qual ele ameaça e que achamos que não merecemos. Porém o fato de ter tal convicção não é sinal seguro de que as pessoas têm fé verdadeira, ou de que verdadeiramente receberam a Cristo como seu Salvador. E se as pessoas têm grande conforto, alegria e confiança, rapidamente admitem em suas mentes, como consequência de grandes convicções, coisas como as que foram mencionadas, não há evidências infalíveis de que seu conforto seja construído sobre uma boa base.

É evidente, portanto, que muita ênfase tem sido colocada, por muitas pessoas, em uma grande atividade da lei precedendo seus confortos. Pessoas que parecem não apenas ter olhado para tal atividade da lei como necessária para preceder a fé, mas também a tem avaliado como a principal evidência da verdade e genuinidade da fé e dos confortos que seguem. Deve-se estar apreensivo, muitos foram enganados e estabelecidos em uma falsa esperança por este meio. E o que é para ser visto no resultado das coisas, em vários exemplos, confirma isso. Pode ser seguramente admitido não ser tão incomum[11] a grandes convicções de consciência se mostrar abortivo e falhar em um bom assunto, quanto a convicções menores. E, de modo mais geral, quando o Espírito de Deus procede até aqui com os pecadores, na atividade da lei, a ponto de lhes dar uma grande visão de seus corações e da odiosidade de suas iniquidades espirituais, e convencê-los de que são indesculpáveis, e que toda a sua justiça nada pode fazer para merecer os favores de Deus, antes, que eles estão expostos justamente à eterna vingança de Deus sem misericórdia, isso resulta em uma obra de conversão salvadora. Porém não podemos ter garantia para dizer que seja universalmente assim, ou estabelecer como uma regra infalível que, quando as convicções de consciência tiverem ido tão longe, resultarão certamente em fé salvadora e arrependimento. Se alguém acha que tem base para tal determinação, porque não pode conceber que fim Deus deveria ter ao levar uma obra de convicção a tal ponto e, assim, preparar o coração para a fé, e, afinal, nunca dar a fé salvadora à alma. Eu desejo que possa ser considerado, onde será o fim de nossas dúvidas e dificuldades se nos considerarmos suficientes para determinar de forma tão positiva e particular sobre os fins e desígnios de Deus naquilo que ele faz. Pode ser perguntado a tal objetor, qual é o propósito de Deus em dar a um pecador algum grau dos esforços de seu Espírito e da convicção de consciência quando ele, depois de experimentar isso, chegar a nada e provar ser em vão? Se ele pode dar algum grau que possa finalmente ser em vão, quem deve estabelecer os limites e dizer quão grande será o grau? Quem pode, em bases seguras, determinar que, quando um pecador tem tanto dessa convicção, a qual os demônios e os condenados no inferno têm, verdadeira fé e salvação eterna serão as consequências certas? Isto certamente podemos determinar, que, se o argumento do apóstolo no texto é bom, e não qualquer coisa que os demônios tenham, certamente está relacionado com esta consequência. Vendo que os pecadores, enquanto tais, são capazes das mais perfeitas convicções, e as terão no dia do julgamento e no inferno; quem dirá que Deus nunca fará com que os réprobos antecipem o futuro julgamento e a condenação a esse respeito? E se assim fizer, quem lhe dirá: que fazes? Ou o chame a prestar contas de seus objetivos ao fazê-lo. Não apenas que muitos possíveis fins sábios possam ser considerados ​​e mencionados, se fosse necessário, ou eu tivesse agora espaço para isso. O Espírito de Deus é muitas vezes extinto pelo exercício da maldade dos corações dos homens, depois que ele foi longe em uma obra de convicção; de modo que suas convicções nunca têm um bom resultado. E quem pode dizer que os pecadores, mediante o exercício de sua oposição e inimizade contra Deus (que não são de todo mortificadas pelas maiores convicções legais, nem nos condenados no inferno, nem nos pecadores na terra), não podem incitar Deus a tirar seu Espírito deles, mesmo depois que ele procedeu o maior comprimento em uma atividade de convicção? Quem pode dizer que Deus nunca é incitado a destruir alguns, depois de tê-los trazido, por assim dizer, através do deserto até as fronteiras da terra de descanso? Visto que ele matou alguns dos israelitas até mesmo nas planícies de Moabe.

E que seja considerado onde está nossa garantia, nas Escrituras, para fazer uso de quaisquer convicções legais, ou qualquer método ou ordem de eventos sucessivos em uma atividade da lei, e consequentes confortos, como um sinal seguro de regeneração. A Escritura é abundante em mencionar expressamente as evidências da graça e de um estado do favor de Deus, e as características dos verdadeiros santos, mas onde é que encontramos coisas como estas entre essas evidências? Ou onde encontramos outros sinais sobre os quais insistir, além da própria graça, sua natureza, seus exercícios e seus frutos? Estas foram as evidências nas quais Jó confiou; essas foram as coisas sobre as quais o salmista insiste em todos os lugares como evidências de sua sinceridade e, particularmente, no Salmo 119, do começo ao fim. Estes foram os sinais nos quais Ezequias confiou em sua enfermidade.

Estas são as características daqueles que são verdadeiramente felizes, dadas por nosso Salvador, no início do seu Sermão no Monte. Estas são as coisas que Cristo menciona como as verdadeiras evidências de sermos seus verdadeiros discípulos, em seu último e agonizante discurso a seus discípulos, em João 14-16, e em sua oração intercessora, capítulo dezessete. Essas são as coisas das quais o apóstolo Paulo frequentemente fala como evidências de sua sinceridade e direito seguro a uma coroa de glória. E estas são as coisas que ele frequentemente menciona a outros, em suas epístolas, como as evidências apropriadas do verdadeiro cristianismo: um estado justificado e um direito à glória. Ele insiste no “fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio”, como as evidências características do estar em Cristo e do “viver no Espírito” (Gálatas 5.22-25). É nessa caridade, ou amor divino, que “é, primeiramente, pura; depois, pacífica, indulgente, tratável, cheia de misericórdia e de bons frutos”, etc., que ele insiste como a evidência mais essencial da verdadeira piedade; sem a qual todas as outras coisas são nada. Estes são os sinais sobre os quais o apóstolo Tiago insiste como a evidência apropriada de um homem verdadeiramente sábio e bom, Tiago 3.17, “A sabedoria, porém, lá do alto é, primeiramente pura; depois, pacífica, indulgente, tratável, cheia de misericórdia e de bons frutos, imparcial e sem fingimento”. E esses são os sinais do verdadeiro cristianismo, nos quais o apóstolo João insiste em todas as suas epístolas. E nunca temos, em qualquer lugar da Bíblia, desde o início até o fim, quaisquer outros sinais de piedade do que estes. Se as pessoas têm coisas como estas claramente nelas, deve ser determinado que elas são verdadeiramente convertidas, sem que seja insistido que sejam primeiro conhecidos quais passos ou método o Espírito de Deus usou para introduzir essas coisas na alma; o que, muitas vezes, é totalmente impossível de ser rastreado. Todas as obras de Deus são, em alguns aspectos, inescrutáveis, mas a Escritura apresenta muitas vezes as obras do Espírito de Deus como peculiarmente assim: Isaías 40.13, “Quem guiou o Espírito do Senhor? Ou, como seu conselheiro, o ensinou?” Eclesiastes 11.5, “Assim como tu não sabes qual o caminho do vento, nem como se formam os ossos no ventre da mulher grávida, assim também não sabes as obras de Deus, que faz todas as coisas”. João 3.8, “O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito”.

Sexto. Segue-se, do meu texto e doutrina, que não é sinal seguro da graça se as pessoas têm desejos e anseios sinceros pela salvação.

Os demônios, sem dúvida, anseiam por libertação da miséria que sofrem e daquela miséria maior que eles aguardam. Se eles tremerem de medo dela, devem necessariamente desejar ardentemente serem libertos dela. Os perversos são apresentados, nas Escrituras, como ansiando pelos privilégios dos justos quando a porta está fechada e eles são excluídos; eles vêm até a porta e clamam, “Senhor, Senhor, abre-nos a porta!” Por isso, não devemos olhar para todos os desejos, ou para todos os desejos que são muito sinceros e veementes, como evidências certas de um coração piedoso. Há desejos sinceros de natureza religiosa, os quais os santos têm, que são os sopros inerentes de uma nova natureza e as qualidades distintivas dos verdadeiros santos; mas também há anseios que os homens não regenerados podem ter, os quais, muitas vezes, são confundidos com as marcas de piedade. Eles acham que têm fome e sede de justiça, que têm desejos sinceros por Deus e por Cristo, e anseiam pelo céu, quando, na verdade, tudo deve ser explicado em termos de desejos de salvação, de amor-próprio, e, assim, é um desejo que não surge de princípios mais elevados do que os desejos sinceros dos demônios.

Sétimo. Pode ser inferido, a partir do que foi observado, que as pessoas que não têm a graça podem ter grande noção de uma glória externa nas coisas celestiais e divinas, e de tudo o que é externo relativo às coisas da religião.

Se as pessoas têm ideias deste tipo fortemente impressas em suas mentes, as quais são obtidas pelos sentidos externos; se essas ideias são daquele tipo que entra pelo ouvido, como qualquer tipo de som, seja a música mais agradável ou palavras de excelente significado proferidas, palavras da Escritura, ou qualquer outra imediatamente sugeridas, como se fossem ditas, embora nunca pareçam ser tão adequadas ao seu caso, ou adaptadas ao assunto de suas meditações; ou se são daquele tipo que é obtida pelos olhos, como noções sobre uma beleza e glória visíveis, uma luz brilhante, uma glória externa do céu, ruas de ouro, paredes e portões de pedras preciosas, palácios esplêndidos, habitantes gloriosos brilhando como o sol, um trono magnífico rodeado de anjos e santos resplandecentes em fileiras. Ou qualquer coisa externa que diz respeito a Jesus Cristo; quer em seu estado de humilhação, como o de Jesus pendurado na cruz com a coroa de espinhos, as feridas abertas e o sangue escorrendo, ou em seu estado glorificado, com terrível majestade ou deslumbrante beleza e doçura em seu semblante, seu rosto brilhando mais que o brilho do sol e coisas do tipo. Essas coisas não são sinais seguros da graça.

Multidões que estão agora no inferno terão noção da glória externa que diz respeito às coisas celestiais muito além do que qualquer um tem neste mundo. Eles verão toda essa glória e beleza externas, na qual Cristo aparecerá no dia do julgamento, quando o sol se converterá em escuridão diante dele; o que, sem dúvida, será dez mil vezes maior do que jamais foi impresso na imaginação de santos ou pecadores, neste estado atual, ou jamais foi concebido por qualquer homem mortal.

Oitavo. Pode ser deduzido, a partir da doutrina, que pessoas que não têm a graça podem ter um senso muito grande e impactante de muitas coisas divinas em seus corações.

O diabo não tem apenas grande conhecimento especulativo, ele também tem um senso de muitas coisas divinas que o afetam profundamente, e é impresso muitíssimo fortemente em seu coração. Visto que:

1. Os demônios e as almas condenadas têm um grande senso da imensa importância das coisas do outro mundo. Eles estão no mundo invisível, e eles veem e sabem quão grandes são as coisas desse mundo; a sua experiência os ensina da maneira mais impactante. Eles têm um grande senso do valor da salvação, do valor das almas imortais e da grande importância daquelas coisas que dizem respeito ao bem-estar eterno dos homens. A parábola no final do capítulo 16 de Lucas ensina isto, ao apresentar o homem rico, no inferno, como suplicando que Lázaro fosse enviado “a seus cinco irmãos; para que lhes dê testemunho, a fim de não virem para este lugar de tormento”. Aqueles que sofrem os tormentos do inferno têm, sem dúvida, um senso mais vivo e impactante da vastidão de uma eternidade sem fim e da comparativa transitoriedade desta vida, e da vaidade das preocupações e prazeres do momento. Eles estão eficazmente convencidos de que todas as coisas deste mundo, mesmo aquelas que parecem maiores e mais importantes para os habitantes da terra, são ninharias desprezíveis em comparação com as coisas do mundo eterno. Eles têm um grande senso da preciosidade do tempo, dos meios da graça e do inestimável valor dos privilégios que desfrutam aqueles que vivem sob o evangelho. Eles estão totalmente conscientes da insensatez daqueles que continuam no pecado, negligenciam suas oportunidades, não levando a sério os conselhos e as advertências de Deus; e amargamente lamentam a loucura suprema de seus próprios pecados, pelo quais trouxeram sobre si tão grande e irremediável miséria. Quando os pecadores, mediante lamentável experiência, conhecerem o terrível resultado do seu mau caminho, eles gemerão “no fim de tua vida, quando se consumirem a tua carne e o teu corpo, e digas: Como aborreci o ensino! E desprezou o meu coração a disciplina! E não escutei à voz dos que me ensinavam, nem a meus mestres inclinei os ouvidos!” (Provérbios 5.11-13).

Por essa razão, não obstante a verdadeira piedade esteja ligada a um grande senso da importância das coisas divinas, e seja raro que os homens que não têm a graça mantenham tal senso de maneira firme e perseverante, ainda assim é evidente que essas coisas não são uma evidência segura da graça. Homens não regenerados podem ter uma noção da importância das coisas da eternidade e da vaidade das coisas do tempo, do trabalho de almas imortais, da preciosidade do tempo e dos meios da graça, e da insensatez dos caminhos do pecado permitido; e podem ter uma tal percepção dessas coisas, visto que podem afetá-los profundamente e levá-los a lamentar por seus próprios pecados, e a estar muito preocupados pelos outros. Embora isto seja verdade, eles não têm essas coisas da mesma maneira e em todos os aspectos, a partir dos mesmos princípios e conceitos, como os homens piedosos as têm.

2. Demônios e homens condenados têm um senso forte e mais impactante da sublime grandeza e majestade de Deus. A sublime majestade de Deus é[12] grandemente manifestada nas execuções[13] da ira divina da qual eles são os objetos. Tornar isso conhecido é uma coisa que Deus tem como propósito em sua vingança contra seus inimigos. Romanos 9.22: “Que diremos, pois, se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição”. Os demônios tremem diante deste grande e terrível Deus, e sob um forte senso de sua sublime majestade. Isso é grandemente manifesto a eles e às almas condenadas agora, mas será manifestado em outro grau “naquele dia, quando o Senhor Jesus for revelado do céu, em chamas de fogo, para se vingar deles”, e quando eles desejarem ardentemente voar e se esconderem da face “daquele que está assentado no trono” (o que será por causa da “glória da sua majestade”, Isaías 2.10), e quando eles “serão castigados com a destruição eterna, [banidos] da presença do Senhor e da glória do seu poder”. Quando Cristo vier, no último dia, na glória de seu Pai, “todo olho o verá” naquela glória (neste aspecto que eles verão sua sublime majestade) “e até quantos o traspassaram” (Apocalipse 1.7). Tanto aqueles demônios como os perversos, que o atormentaram e o insultaram quando ele apareceu em miséria e ignomínia, então o verão na glória de seu Pai.

É evidente, portanto, que uma percepção da terrível majestade de Deus não é evidência segura da graça salvadora, pois vemos que os perversos e os demônios são capazes disso; sim, muitos perversos neste mundo a têm atualmente. Esta é uma manifestação que Deus fez de si mesmo aos olhos daquela congregação perversa no Monte Sinai, a qual viram e foram profundamente impactados por ela, “de maneira que todo o povo que estava no acampamento se estremeceu” (Êxodo 19.16).

3. Demônios e homens condenados têm algum tipo de convicção e senso de todos os atributos de Deus, tanto naturais quanto morais, que são fortes e muito impactantes.

Os demônios conhecem o poder onipotente de Deus: eles viram uma grande manifestação dele quando viram Deus assentar os alicerces da terra, etc., e foram muito impactados com isso. E eles têm visto inumeráveis ​​outras grandes demonstrações de seu poder: como no dilúvio universal, na destruição de Sodoma, nas maravilhas no Egito, no Mar Vermelho, no deserto, fazendo com que o sol ficasse parado no tempo de Josué, e muitos outros. E eles tiveram uma manifestação muito impactante do poderoso poder de Deus sobre si mesmos, ao lançar todas as suas hostes do céu para o inferno, e têm uma experiência impactante contínua dela, ao Deus reservá-los em fortes cadeias de escuridão e nas fortes dores que sentem; e, no futuro, terão uma experiência muito mais impactante, quando forem “banidos da face do Senhor e da glória do seu poder”, com aquela poderosa destruição, da qual eles agora tremem em expectativa [2 Tessalonicenses 1.9]. Igualmente, os demônios têm um grande conhecimento da sabedoria de Deus: eles tiveram indizivelmente mais oportunidade e ocasião de observá-la, na obra da criação e também nas obras da providência, do que qualquer homem mortal jamais teve; e eles mesmos têm sido objetos de inúmeras manifestações impactantes dela, quando Deus os desaponta e os confunde em seus artifícios mais sutis de maneira tão maravilhosa e surpreendente. Igualmente, eles veem e constatam a infinita pureza e santidade da natureza divina da maneira mais impactante, visto que ela se manifesta em seu infinito ódio ao pecado, no que eles sentem dos terríveis efeitos desse ódio. Eles já sabem, pelo que sofrem, e saberão no futuro em maior grau e de maneira muito mais impactante, que esta é a oposição da natureza de Deus ao pecado, a qual é como um fogo consumidor que arde com infinita veemência contra ele; eles sentirão o calor veemente deste fogo de uma maneira muito terrível. Eles também verão a santidade de Deus exercida em seu amor à justiça e à santidade, no que eles verão da recompensa da justiça de Cristo e da santidade de seu povo, na glória de Cristo e de sua igreja; o que também impactará muito os demônios e os perversos. E a justa justiça de Deus será manifestada a eles na luz mais clara e mais forte, mais convincente e mais impactante, no dia do julgamento. Quando eles também verão grandes e impactantes demonstrações das riquezas da sua graça nos frutos maravilhosos do seu amor aos vasos de misericórdia; quando os virem à direita de Cristo, resplandecendo como o sol, no reino de seu Pai, e ouvirão a sentença de bênção pronunciada sobre eles; e serão profundamente impactados por isso, como parece naturalmente implícito em Lucas 13.28-29. Os demônios conhecem a verdade de Deus e, portanto, acreditam em suas ameaças e tremem na expectativa de sua realização. E os perverso que, agora, duvidam de sua verdade e não ousam confiar em sua palavra, no futuro, da maneira mais convincente e impactante, descobrirão que sua palavra é verdadeira em tudo o que ele ameaçou, e verão que ele é fiel às suas promessas, nas recompensas a seus santos. Demônios e homens condenados sabem que Deus é eterno e imutável e, por isso, eles se desesperam de não haver um fim para sua miséria.

Por essa razão, é evidente que as pessoas que simplesmente têm um senso impactante de alguns, ou até mesmo de todos os atributos de Deus, não é um sinal seguro de que têm a verdadeira graça de Deus em seus corações.

Objeção. Aqui, possivelmente, alguns podem objetar contra a força do raciocínio precedente. De que os homens ímpios neste mundo se encontram em circunstâncias diferentes das em que os demônios estão, e das em que os ímpios estarão no dia do julgamento. Aquelas coisas que são visíveis e presentes a estes, são, agora, futuras e invisíveis aos outros. E os perversos neste mundo estão no corpo que obstrui e impede a alma, e estão cercados de objetos que os cegam e entorpecem. E, por isso, não segue que, porque os perversos em outro mundo têm uma grande apreensão e um senso vivo de tais e tais coisas sem a graça, os ímpios, em seu estado atual, podem ter o mesmo.

Resposta. A isto respondo: Não é suposto que os homens, nesta vida, tenham todas aquelas coisas que foram mencionadas no mesmo grau em que os demônios e os condenados as têm. Ninguém supõe que qualquer um nesta vida tenha terrores de consciência em igual grau ao deles. Não se pode supor que algum homem mortal, piedoso ou ímpio, tenha um grau igual de conhecimento especulativo ao do diabo. E, como foi observado há pouco, os perversos, no dia do julgamento, terão uma noção muito maior da glória externa de Cristo do que qualquer um tem no presente estado. Assim, sem dúvida, eles terão um senso muito maior da tremenda grandeza e da terrível majestade de Deus do que qualquer um poderia suportar neste estado frágil. Assim, podemos concluir que os demônios e os perversos, no inferno, têm um senso maior e mais impactante da vastidão da eternidade, e (em alguns aspectos) um senso maior da importância das coisas do outro mundo do que qualquer um tem aqui. E eles também têm desejos acerca da salvação em um grau mais alto do que qualquer perverso neste mundo.

Porém, no entanto, é evidente que os homens neste mundo podem ter coisas do mesmo tipo que os demônios e homens condenados. O mesmo tipo de luz no entendimento, os mesmos conceitos e as mesmas afeições; o mesmo senso das coisas, o mesmo tipo de impressões sobre a mente e sobre o coração. Se a objeção é contra o caráter conclusivo do raciocínio que foi usado para provar isso, é contra o caráter conclusivo do raciocínio que é mais propriamente do apóstolo do que meu. O apóstolo o julgou um argumento conclusivo, contra ser considerado sua crença de que havia um Deus uma evidência de serem agradáveis, o fato de que os demônios acreditavam da mesma forma. Assim, o argumento é exatamente o mesmo contra os que pensam que têm a graça porque acreditam que Deus é um Deus santo, ou porque têm um senso da tremenda majestade de Deus. O mesmo pode ser observado sobre outras coisas que foram mencionadas. Meu texto tem relação não apenas com o ato do entendimento dos demônios em crer, mas com aquela afeição de seus corações que acompanha as visões que eles têm, visto que o tremer é um efeito da afeição do coração. O que mostra que, se os homens têm os mesmos conceitos de entendimento e também as mesmas afeições de coração que os demônios, isto não é sinal da graça.

E quanto ao grau particular ao qual estas coisas podem ser levadas nos homens sem a graça, neste mundo, parece não ser seguro pretender determiná-lo e fixá-lo, de modo a utilizá-lo como uma regra infalível para determinar o estado dos homens. Eu não sei onde temos qualquer regra a seguir para fixar o grau preciso no qual Deus, por sua providência ou por suas influências comuns na mente, excitará nos perversos, neste mundo, os mesmos conceitos e afeições que o os perversos têm no outro mundo; que é evidente que os primeiros são tão capazes quanto os últimos, tendo as mesmas faculdades e princípios de alma, e quais conceitos e afeições, é evidente; frequentemente são, na verdade, seus objetos algum grau, alguns em maior e alguns em menor grau. As evidências infalíveis da graça, que são estabelecidas na Escritura, são de outro tipo; são todas de natureza santa e espiritual, e, portanto, coisas daquele tipo que um coração que é totalmente carnal e corrupto não pode receber ou ter qualquer experiência (1 Coríntios 2.14).

Eu também devo acrescentar aqui que a observação e a experiência, em muitos casos, parecem confirmar o que a Escritura e a razão ensinam sobre essas coisas.

 

II. O segundo uso pode ser o do autoexame.

Deixemos que as coisas que têm sido observadas examinem e investiguem a si mesmas se possuem alguma evidência melhor da graça salvadora do que as que foram mencionadas.

Vemos como o infalível Espírito de Deus, no texto, apresenta claramente as coisas das quais os demônios são objetos como sinais[14] não seguros da graça. E agora, em alguns casos, temos observado até onde os demônios e os homens condenados vão e irão em sua experiência, seu conhecimento das coisas divinas, sua crença na verdade, seus despertamentos e terrores de consciência, sua convicção de culpa e da justiça de Deus em sua terrível condenação eterna, seus anseios pela salvação, sua visão da glória externa de Cristo e das coisas celestiais; seu senso da grande importância das coisas da religião e do outro mundo; seu senso da terrível grandeza e terrível majestade de Deus, sim, de todos os atributos de Deus. Essas coisas podem nos instigar a sério autoexame, se temos alguma coisa para evidenciar nosso bom estado, além daquele do qual os demônios são objetos. Cristo disse aos seus discípulos: “Se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus” (Mateus 5.20); igualmente o Espírito de Cristo, em seu apóstolo Tiago, de fato diz, no meu texto: a menos que o que vocês experimentam em vossas almas vá além das experiências de demônios, de forma alguma vocês entrarão no reino de Deus.

Objeção: Aqui, pode acontecer que alguns estejam prontos a dizer: Eu tenho algo além de todas essas coisas que foram mencionadas; eu tenho coisas que os demônios não têm, amor e alegria certamente.

Resposta: Eu respondo que você pode ter algo além das experiências dos demônios e, no entanto, nada além delas. Embora a experiência seja diferente, ela pode não ser devida a qualquer princípio diferente, mas apenas às diferentes circunstâncias sob as quais esses princípios são empregados. Os princípios de onde surgem as coisas mencionadas nos demônios e nos homens condenados são estes dois: a compreensão natural e o amor-próprio. É a partir da compreensão ou da razão natural que eles têm aquele grau de conhecimento das coisas divinas e aquela crença nelas. É a partir desses princípios da compreensão natural e do amor-próprio, empregados com respeito as suas próprias disposições e ações, e Deus como seu juiz, que eles têm consciência natural; e têm aquelas convicções de consciência, como tem sido dito. É a partir desses princípios que eles têm um senso da importância das coisas da religião e do mundo eterno, e aqueles anseios pela salvação. É a partir[15] do exercício conjunto desses dois princípios que eles são tão sensíveis à sublime majestade de Deus e a todos os atributos da natureza divina, e são tão grandemente impactados por eles. E é a partir destes princípios, unidos ao senso externo, que os ímpios, no dia do julgamento, terão tão grande apreensão e serão tão grandemente impactados pela glória externa de Cristo e de seus santos. E o fato de você ter um tipo de amor ou gratidão e alegria que demônios e homens condenados não têm pode, possivelmente, não surgir de quaisquer outros princípios em teu coração diferentes destes dois, mas somente destes princípios empregados em circunstâncias diferentes. Por exemplo, sendo você um objeto da graça restringidora de Deus e estando sob circunstâncias de esperança e de recebimento de misericórdia. O entendimento natural e o amor-próprio dos demônios, podem, possivelmente, afetá-los da mesma maneira, se estiverem nas mesmas circunstâncias. Se o teu amor por Deus tem sua fonte primária em nada mais que um suposto testemunho divino imediato, ou alguma outra suposta evidência, de que Cristo morreu por você em particular e de que Deus te ama, isto não provém de princípios superiores ao amor-próprio; que é um princípio que reina nos corações dos demônios. O amor-próprio é suficiente, sem a graça, para fazer com que os homens amem aqueles que os amam, ou que imaginem amá-los e apreciá-los; Lucas 6.32: “Se amais os que vos amam, qual é a vossa recompensa? Porque até os pecadores amam aos que os amam”. E os corações dos demônios não ficariam cheios de grande alegria se, de alguma maneira, eles abraçassem a firme convicção de que Deus os tinha perdoado e se tornado seu amigo, e que estariam libertos daquela ira da qual tremem, agora, em expectativa. Se os demônios vão tão longe como você tem ouvido, mesmo em suas circunstâncias, sendo totalmente rejeitados e entregues à perversidade irrestrita, sem esperança, sabendo que Deus é e sempre será seu inimigo, que sofrem sua ira sem misericórdia; até onde podemos supor razoavelmente que possam ir, imitando a graça e a experiência piedosa, se eles tivessem o mesmo grau de conhecimento, conceitos claros e convicção forte sob circunstâncias de esperança e ofertas de misericórdia; e sendo objetos da graça comum, que restringe suas corrupções e ajuda e excita os princípios naturais da razão, da consciência, etc.? Aquelas coisas das quais os demônios são objetos: aquela grande convicção de consciência, aquele senso da importância das coisas eternas, aqueles conceitos impactantes da terrível majestade, grandeza, poder, santidade, justiça e verdade de Deus, e aquele senso de sua grande graça para com os santos; se essas, ou qualquer coisa semelhante, devem estar no coração de um pecador neste mundo, ao mesmo tempo em que ele, a partir de alguma impressão forte em sua imaginação de Cristo lhe aparecendo, ou de palavras doces faladas a ele, ou por algum outro meio, subitamente, após grandes terrores, absorve uma forte confiança de que agora este Grande Deus, seu amigo e pai, o libertou de toda a miséria que temia e lhe prometeu felicidade eterna; eu digo que tais coisas, sem dúvida, aumentariam enormemente seu êxtase de alegria e provocariam o exercício da gratidão natural (aquele princípio pelo qual os pecadores amam aqueles que os amam), e ocasionaria uma grande imitação de muitas graças em convincentes exercícios. É de admirar, então, que multidões sob tal tipo de afeição estejam enganadas? Especialmente quando elas têm demônios para ajudar a promover a ilusão, cuja grande sutileza tem sido exercida principalmente em enganar a humanidade por todas as gerações passadas.

Pergunta. Aqui, possivelmente, alguns podem estar prontos a perguntar: Se pode haver tantas coisas que os homens não podem experimentar a partir de princípios mais elevados do que os que estão nas mentes e nos corações dos demônios; quais são esses exercícios e afeições que são de natureza mais elevada que devo encontrar em meu coração, e que posso considerar legitimamente como sinais seguros da graça salvadora do Espírito de Deus?

Resposta. Eu respondo, esses exercícios e afeições, que são boas evidências da graça, diferem de tudo de que os demônios são objetos e de tudo o que pode surgir dos princípios que estão em seus corações em duas coisas, a saber, seu fundamento e sua tendência.

1. Eles diferem em seu fundamento, ou naquilo que lhes pertence, o que é mais fundamental neles e o fundamento de todo o resto que diz respeito a eles, a saber, uma apreensão ou senso da suprema beleza santa e da graça das coisas divinas, como elas são em si mesmas ou em sua própria natureza.

Os demônios e condenados no inferno são e para sempre serão totalmente destituídos dela. Os demônios já a tiveram, enquanto permaneceram em sua integridade, mas eles a perderam completamente quando caíram; e esta é a única coisa que pode ser mencionada, referente à apreensão e ao senso do ser divino por parte do diabo, que ele perdeu. Nada mais pertencente ao conhecimento de Deus do qual ele foi destituído pode ser imaginado. Foi observado que não existe um único atributo da natureza divina, senão os quais ele é sensível e conhece, e dos quais tem uma convicção forte e muito impactante; e isso, eu penso, é evidente e inegável. Porém, quanto à suprema beleza da natureza divina, ele é totalmente cego, ele não vê mais dela do que um homem nascido completamente cego vê de cores. A grande visão que ele tem dos atributos de Deus lhe dá uma ideia e um forte senso de sua terrível majestade, mas nenhuma ideia de sua beleza e graça. Embora ele tenha visto muitas das maravilhosas obras do poder, da sabedoria, da santidade, da justiça e da verdade de Deus, e suas maravilhosas obras da graça para com a humanidade, isto por tantos milhares de anos, e tenha tido a oportunidade de observá-las com a mais intensa atenção, tudo isso não serve para lhe dar o menor senso da beleza divina delas. E embora os demônios devam continuar a exercer seus fortes poderes mentais com a intenção mais forte; e devam considerar as coisas sob todos os pontos de vista possíveis, em todas as ordens e arranjos, ainda assim eles nunca verão essa beleza. Igualmente, de algum modo semelhante, é o conhecimento que eles têm sobre essa beleza, pois o grande grau desse conhecimento não os conduz para mais perto dela. No entanto, quanto mais conhecimento desse tipo eles têm de Deus, mais eles odeiam a Deus. Aquilo em que a beleza da natureza divina consiste mais essencialmente, a saber, sua santidade ou excelência moral, parece aos olhos deles mais distante da beleza; é principalmente nesse aspecto que ele parece odioso a eles. Quanto mais santidade eles veem nele, mais odioso ele aparece; quanto maior a visão deles é de sua santidade, maior é o ódio deles pelo seu ressuscitado. E por causa do seu ódio por sua santidade, eles o odeiam mais quanto mais veem de seus outros atributos. Eles odiariam um ser santo, quaisquer que fossem seus outros atributos, mas eles odeiam este ser santo mais por ele ser infinitamente sábio, e infinitamente poderoso, etc., mais do que eles odiariam se vissem nele menos poder e menos sabedoria.

Os ímpios, no dia do julgamento, verão tudo o mais em Cristo, exceto sua beleza e amabilidade. Não há uma única qualidade ou propriedade de sua pessoa que possa ser considerada exceto a que será colocada diante deles sob a luz mais forte naquele dia, mas apenas a que consiste nisso. Eles o verão nas nuvens do céu “com poder e muita glória, na glória de seu Pai” (Mateus 24.30; 16.27). Eles terão essa visão de sua glória externa, a qual está muito além do que podemos ter qualquer imaginação; e eles terão as demonstrações mais fortes e convincentes de todos os seus atributos e perfeições. Eles terão um senso de sua grande majestade, o que será, por assim dizer, infinitamente impactante a eles. Eles serão feitos efetivamente conscientes de que ele é o Senhor. Eles verão o que ele é e o que ele faz: sua natureza e suas obras aparecerão na visão mais forte. Porém a sua santa e infinita beleza e amabilidade, que é tudo em todos e sem a qual todas as outras qualidades e propriedades são nada, e pior do que nada, eles não verão nada delas.

Portanto, é uma visão ou senso disso que é a coisa em que constitui fundamentalmente a diferença entre aquelas coisas em que consiste a graça salvadora do Espírito de Deus e as experiências dos demônios e das almas condenadas. Este é o fundamento de tudo o mais que é distinguido na verdadeira experiência cristã. Este é o fundamento da fé dos eleitos de Deus. Isto concede à mente uma fé salvadora sobre a verdade das coisas divinas. É uma visão da excelência das coisas exibidas no evangelho, ou do senso da beleza divina e da amabilidade do esquema de doutrina ali exibido, que salvadoramente convence a mente de que é, de fato, divina ou de Deus. Esta consideração do assunto está claramente implícita em 2 Coríntios 4.3-4, “Mas, se o nosso evangelho ainda está encoberto, é para os que se perdem que está encoberto, nos quais o deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus”; e, 2 Coríntios 4.6, “Porque Deus, que disse: Das trevas resplandecerá a luz, ele mesmo resplandeceu em nosso coração, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Cristo”. É muito evidente que uma fé salvadora do evangelho é mencionada aqui pelo apóstolo como decorrente de uma visão da glória ou da beleza divinas das coisas que ela exibe. É por meio dessa visão que a alma de um verdadeiro convertido é habilitada salvadoramente para ver a suficiência de Cristo para sua salvação. Aquele que tem seus olhos abertos para contemplar a beleza superlativa e a amabilidade divinas de Jesus Cristo é convencido de sua suficiência para se colocar como mediador entre ele, um miserável culpado merecedor do inferno, e um Deus infinitamente santo, de uma maneira excessivamente diferente da que ele jamais pode ser convencido por todos os argumentos que são utilizados pelos mais[16] excelentes autores ou pregadores.

Quando ele chega a ver a amabilidade divina de Cristo, ele não se surpreende mais de que seja considerado digno por Deus, o Pai, de ser aceito a favor do mais vil pecador. Agora não é difícil para ele conceber como o sangue de Cristo deve ser avaliado por Deus como tão precioso, a ponto de ser digno de ser aceito como compensação pelos maiores pecados. A alma agora enxerga corretamente a preciosidade de Cristo e, assim, vê e compreende adequadamente a própria base e a razão de sua aceitabilidade diante de Deus e o valor que Deus atribui a seu sangue, obediência e intercessão. Isso satisfaz a pobre alma culpada e lhe dá descanso; quando os melhores e mais elaborados discursos sobre a suficiência de Cristo e sobre a adequação do caminho da salvação não o fariam. Quando um homem chega a ver o fundamento apropriado da fé e do juramento com seus próprios olhos, ele crê salvadoramente. “De fato a vontade de meu Pai é que todo homem que vir o Filho e nele crer tenha a vida eterna” (João 6.40). Quando Cristo manifesta assim o nome de Deus aos homens, então eles creem que todas as coisas que Deus deu a Cristo são dele, e creem que Cristo foi enviado por Deus (João 17.6-8). E “Em ti, pois, confiam os que conhecem o teu nome” (Salmo 9.10). A fim de produzir verdadeira fé em Jesus Cristo, o Filho de Deus é revelado nos homens (Gálatas 1.15-16). E é essa visão da beleza divina de Cristo que inclina as vontades e atrai os corações dos homens. Uma visão da grandeza de Deus em seus atributos pode oprimir os homens e ser mais do que eles podem suportar, mas a inimizade e a oposição do coração podem permanecer em toda a sua força, e a vontade permanecerá inflexível; enquanto que, um vislumbre da glória moral e espiritual de Deus, e da suprema amabilidade de Jesus Cristo brilhando no coração, supera e abole essa oposição, e inclina a alma para Cristo, por assim dizer, mediante um poder onipotente; de modo que agora, não apenas o entendimento, mas a vontade e toda a alma recebem e abraçam o Salvador.

Esta é certamente a descoberta, que é o primeiro fundamento interno de uma fé salvadora em Cristo, na alma do verdadeiro convertido; e não por ter imediatamente sugerido e revelado à alma, mediante um texto da Escritura, ou qualquer testemunho exterior ou interior imediato, de que Cristo a ama, ou que morreu por ela em particular, e é seu Salvador; gerando assim confiança e alegria, e um aparente amor por Cristo porque ele a ama; por cujo tipo de fé e conversão (demonstravelmente vaidosa e falsa) multidões têm sido iludidas. A visão da glória de Deus, na face de Jesus Cristo, opera verdadeiro amor supremo por Deus; esta é uma visão do fundamento apropriado do amor supremo por Deus, a saber, a suprema amabilidade de sua natureza; e um amor para com ele nesta base está verdadeiramente acima de qualquer coisa que possa vir de um mero princípio de amor próprio, que está nos corações dos demônios bem como nos dos homens. E isso gera verdadeira alegria espiritual e santa na alma, a qual é, de fato, alegria em Deus, e nos gloriarmos nele e não nos regozijarmos em nós mesmos.

Essa visão da beleza das coisas divinas estimulará os verdadeiros desejos e anseios da alma acerca daquelas coisas; não como os desejos dos demônios, ou quaisquer desejos forçados como os de um homem em grande perigo de morte por algum remédio amargo, que ele espera que salve sua vida; mas desejos naturais livres, os desejos de apetite, os anseios de uma nova natureza; como um bebê recém-nascido deseja o seio da mãe, e como um homem faminto anseia por alguma comida que pensa ser agradável, ou como o veado sedento anseia pelo riacho fresco e límpido.

Esse senso de beleza divina é a primeira coisa na verdadeira mudança feita na alma na verdadeira conversão, e é o fundamento de tudo mais que pertence a esta mudança; como é evidente por essas palavras do apóstolo, 2 Coríntios 3.18, “E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito”.

 

2. As afeições e os exercícios da mente verdadeiramente graciosos diferem daqueles que são falsificações, as quais surgem de princípios não superiores aos que estão no coração dos demônios em sua tendência, e isto neste dois aspectos:

            (1) As afeições e exercícios da mente são de uma tendência e influência muito contrárias àquela que foi especialmente o pecado do diabo, o orgulho. Que o orgulho foi, de uma maneira peculiar, o pecado do diabo é declarado em 1 Timóteo 3.6: “Não seja neófito, para não suceder que se ensoberbeça e incorra na condenação do diabo”. Experiências falsas e ilusórias sempre tendem a isso, embora, muitas vezes, sob o disfarce de grande e extraordinária humildade. O orgulho espiritual é o temperamento prevalecente e o caráter geral dos hipócritas, iludidos com falsas descobertas e afeições. Os hipócritas são, em geral, de uma disposição diretamente contrária a essas duas coisas que pertencem ao temperamento cristão apontadas pelo apóstolo: a primeira, em Romanos 12.16, “Não sejais sábios aos vossos próprio olhos”; e a outra, em Filipenses 2.3, “Considerando cada um os outros superiores a si mesmo. A falsa experiência é concebida por si mesma e influenciada por si mesma. Assim, aquele que tem falsa humildade é muito influenciado a pensar em como ele se humilha diante de Deus; aquele que tem um amor falso é influenciado quando pensa na grandeza de seu amor. A própria comida e nutrição da falsa experiência é ver a si mesma e prestar atenção em si mesma; e sua própria respiração e vida é falar muito de si mesma, ou se mostrar de alguma maneira. Enquanto que os conceitos e afeições verdadeiramente graciosos são de tendência completamente contrária; eles não nutrem nenhuma arrogância ou pretensão, nenhuma presunção exaltada de justiça própria, experiência ou privilégios do homem, nenhuma grande presunção de suas humilhações. Eles não se inclinam para a ostentação, nem para a auto-exaltação, sob qualquer disfarce que seja. Porém esse senso da suprema santa beleza e glória de Deus e de Cristo, que é o fundamento dos conceitos e afeições verdadeiramente graciosos, e somente este senso, mortifica o orgulho e verdadeiramente humilha a alma. Esse senso não corta apenas alguns dos ramos mais externos (fazendo com que muitos galhos cresçam, onde estava somente um antes), mas golpeia a própria raiz do orgulho; ele altera a própria natureza e disposição do coração. A luz da beleza de Deus, e somente esta, mostra verdadeiramente à alma sua própria deformidade, e a inclina eficazmente a exaltar a Deus e a humilhar-se.

            (2) Esses exercícios e afeições graciosos diferem dos outros em sua tendência para destruir o interesse de Satanás.

a. Na própria pessoa, em sua tendência a fazer com que a alma odeie todo o mal e o falso caminho, e a produzir santidade universal de coração e de vida, dispondo-a para fazer o serviço de Deus e a promover a sua glória e o bem da humanidade; a verdadeira ocupação de sua vida.
            Considerando que aquelas falsas descobertas e afeições não têm esse efeito. De fato, pode haver grande zelo e muito do que é chamado de religião, mas não é um zelo verdadeiramente cristão, não é um ser zeloso de boas obras; sua religião não é o serviço de Deus, não é um buscar e servir a Deus, mas, de fato, um buscar e servir a si mesmas. Embora possa haver uma mudança de vida, não é uma mudança de todo caminho perverso para uma vida e prática cristãs uniformes, mas apenas um virar o fluxo de corrupção de um canal para outro. O apóstolo Tiago distingue dessa forma, em nosso contexto, a fé verdadeira da fé dos demônios, Tiago 2.19-20, “Crês, tu, que Deus é um só. Fazes bem. Até os demônios creem e tremem. Queres, pois, ficar certo, ó homem insensato, de que a fé sem as obras é inoperante?” E, da mesma forma, o apóstolo João distingue a verdadeira comunhão com Deus, 1 João 1.6-7, “Se dissermos que mantemos comunhão com ele e andarmos em trevas, mentimos e não praticamos a verdade. Se, porém, andarmos na luz, como[17] ele está na luz, mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado”. Com isso ele distingue o verdadeiro conhecimento espiritual, 1 João 2.3-4, “Ora, sabemos que o temos conhecido por isto: se guardamos os seus mandamentos. Aquele que diz: Eu o conheço e não guarda os seus mandamentos é mentiroso, e nele não está a verdade”. E com isso o mesmo apóstolo distingue o verdadeiro amor, 1 João 3.18-19, “Filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas de fato (“em obras”, como a palavra significa) e de verdade. E nisto conheceremos que somos da verdade, bem como, perante ele, tranquilizaremos o nosso coração”.

b. Experiências verdadeiramente graciosas tendem a destruir o interesse de Satanás no mundo.

A falsa religião, que consiste nas falsificações das operações do Espírito de Deus e em altas pretensões e grandes aparências de religião experimental interior, quando esta prevalece no meio de um povo, embora no presente possa surpreender a muitos, e pode ser a ocasião de alarmar e despertar alguns pecadores; contudo, no resultado final das coisas, tende a ferir e a enfraquecer grandemente a causa da religião vital, e a fortalecer muito o interesse de Satanás de endurecer o coração dos pecadores, de encher excessivamente o mundo com preconceito contra o poder da piedade, de promover a infidelidade e os princípios e práticas licenciosos, de edificar e fortalecer o reino do diabo no mundo mais do que o vício e a profanação abertos, ou o ateísmo declarado, ou a perseguição pública, e, talvez, mais do que qualquer outra coisa.

Porém não é assim com a verdadeira religião em sua beleza genuína. Esta, se prevalece em grande poder, sem dúvida excitará a ira do diabo e de muitos outros inimigos da religião. No entanto, dá grande vantagem a seus amigos e fortalece muito sua causa, e tende a convencer ou a confundir os inimigos. A verdadeira religião é uma luz divina nas almas dos santos; e, a medida que brilha na conversa diante dos homens, tende a induzir os outros a glorificarem a Deus. Não há nada como ela (quanto aos meios) para despertar as consciências dos homens, convencer os infiéis e fechar as bocas dos opositores. Embora os homens odeiem naturalmente o poder da piedade, todavia, quando veem os seus frutos, há um testemunho em suas consciências a seu favor. “Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo. Aquele que deste modo serve a Cristo é agradável a Deus e aprovado pelos homens” (Romanos 14.17-18). A predominância da religião verdadeira sempre tende à honra da religião no mundo, embora geralmente isto seja a ocasião de grande perseguição. Uma coisa é certa, quanto mais ela aparece e é exemplificada aos olhos do mundo, mais sua honra e a honra de seu Autor serão promovidas. Filipenses 1.11, “Cheios dos fruto da justiça, o qual é mediante Jesus Cristo, para glória e louvor de Deus”.

 

III. O terceiro uso pode ser de exortação a buscar aquelas qualificações e afeições distintivas da alma, as quais nem o diabo, nem qualquer ser ímpio, tem ou pode ter.

            Quão excelente é essa virtude e religião interior que consiste nelas! Nisto consiste a mais excelente experiência dos santos e dos anjos no céu. Nisto consiste a melhor experiência do homem, Cristo Jesus, seja em seu estado humilde ou glorificado. Nisto consiste a imagem de Deus; sim, isso é mencionado nas Escrituras como a comunicação de algo da própria beleza e excelência de Deus, participação na natureza divina (2 Pedro 1.4); participação na sua santidade (Hebreus 12.10); participação na plenitude de Cristo (João 1.16). Nisto os santos são “tomados de toda a plenitude de Deus” (Efésios 3.18-19). Por este meio eles têm “comunhão com o Pai e com seu Filho” (1 João 1.3), isto é, eles participam com eles em sua felicidade. Sim, por meio dessa virtude divina há uma habitação mútua de Deus e dos santos; 1 João 4.16, “Deus é amor, e aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele”.

Esta qualificação deve fazer a pessoa que a possui excelente e feliz de fato, e, sem dúvida, é a mais alta dignidade e bem-aventurança de qualquer criatura. Este é o dom peculiar de Deus, o qual ele concede somente aos seus favoritos especiais. Quanto à prata, ao ouro e aos diamantes, às coroas e aos reinos terrenos, ele frequentemente os lança àqueles que ele considera como cães e porcos; mas esta é a bênção peculiar de seus queridos filhos, é isso que a carne e o sangue não podem conceder, e da qual todos os demônios no inferno não podem ter o menor grau em qualquer coração; somente Deus pode concedê-la. Este foi o benefício especial pelo qual Cristo morreu para obter a favor de seus eleitos, o mais excelente sinal de seu amor eterno, o principal fruto de seus grandes labores e a mais preciosa aquisição de seu sangue.
            Por isso, acima de todas as outras coisas, os homens glorificam a Deus. Por isso, acima de todas as outras coisas, os santos brilham como luzes no mundo e são bênçãos para a humanidade. E isso, acima de tudo, tende ao seu próprio conforto; daí surge a “paz que excede todo entendimento”, e aquela “alegria indizível e cheia de glória”. E isso é o que certamente resultará na salvação eterna daqueles que o têm; é impossível que a alma onde esta qualificação está afunde e pereça; é uma semente imortal; é a vida eterna iniciada e, portanto, aqueles que a possuem nunca podem morrer.

É o alvorecer da luz da glória. É a estrela da alva que nasce no coração, que é precursora segura daquele amanhecer que trará o dia eterno [2 Pedro 1.19]. Esta é a água que Cristo dá, a qual é naquele que a bebe, “uma fonte a jorrar para a vida eterna” (João 4.14). É algo do céu, é de natureza celestial e tende para o céu. E aqueles que o têm, por mais que vaguem no deserto, ou sejam jogados para lá e para cá num oceano tempestuoso, certamente chegarão finalmente ao céu, onde esta centelha celestial será aumentada e aperfeiçoada; e as almas dos santos, todas, sejam transformadas em uma chama brilhante e pura, e elas brilharão como o sol no reino de seu Pai. Amém.

 

Título original: True Grace, Distinguished from the Experience of Devils – 1752

Extraído de Works of Jonathan Edwards, vol. 23, p. 606-641; org. Wilson H. Kimnack

Disponível em: edwards.yale.edu; JE Center; Yale University

Tradução: Paulo Arantes



[1] O convite feito a JE para pregar diante do Sínodo de Nova York foi, sem dúvida, o resultado da influência do Rev. Aaron Burr, o presidente do College of New Jersey, em Newark, que se casara com a filha de JE, Esther, no mês de junho antes do Sínodo. O Sínodo votou pela publicação do sermão.

[2] [Primeira edição, p. 5: “ou”.]

[3] [Imagem, selo e timbre são termos literalmente relacionados à tipologia, o grego “tipos” se refere a uma marca deixada por um golpe, e, em tempos mais recentes, a impressão de um selo na cera. Aqui, JE identifica claramente os sinais da graça com o sistema de tipos que ele encontrava por toda a criação.]

[4] [Primeira edição, p. 9: “é válido, vigora, mantem-se firme”.]

[5] [Aqui, “ciência” se refere a qualquer conjunto de conhecimento sistemático. JE usava o termo “filosofia natural” para o pensamento científico como é entendido agora.]

[6] [Esta referência à idade da terra e da queda de Satanás, após sua rebelião, na época da criação, reflete o amor de JE ao modo histórico de determinar pontos teológicos. Também pode refletir o estímulo produzido pela leitura recente de Paradise Lost de Milton. Veja também “Miscellanies” No. 800, em Works, 20, 137.]

[7] [Primeira edição, p. 12: “impedir”. A cópia NYHS tem a letra de mão de JE mudada para “perverter”.]

[8] [Primeira edição, p. 14: “Sim”. A cópia NYHS tem a letra de mão de JE mudada para “Todavia, Ainda assim”.]

[9] [Primeira Edição, p. 14: “Todavia”. A cópia NYHS tem a letra de mão de JE mudada para “Sim”.]

[10] [Primeira edição, p. 18: “livremente”. A cópia NYHS tem a letra de mão de JE mudada para “plenamente”.]

[11] [Primeira edição, p. 20: “usual”.]

[12] [Primeira edição, p. 26: “são”. A cópia NYHS tem a letra de não de JE mudada para “é”.]

[13] [Primeira edição, p. 26: “Execução”. A cópia NYHS tem a letra de mão de JE mudada para o plural.]

[14] [Primeira edição, p. 30: “Sinal”. A cópia NYHS tem a letra de mão de JE mudada para o plural.]

[15] [Primeira edição, p. 31: “por”. A cópia NYHS tem a letra de mão de JE mudada para “a partir de”.]

[16] [Adicionada à cópia NYHS por JE.]

[17] [primeira edição, p. 39: “ou”. A KJV lê “como”.]

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