Antes
de entrar em seu “discurso pretendido” sobre um princípio central da teologia da
aliança, Edwards fez uma pausa em sua palestra de novembro de 1734 para dar à
sua congregação um “breve relato” sobre seus oponentes, tão familiares a
Northampton, aparentemente, que ele os deixa sem nome. Aqui, na versão reformulada
e ampliada, publicada em Discourses on Various Importants Subjects (Discursos
sobre Diversos Assuntos Importantes) quatro
anos depois de descartar certa informalidade para uma abertura convencional do
texto, ele está bem dentro do argumento doutrinário antes de reconhecer seus
adversários como “teólogos modernos”. Ele persegue tão incansavelmente seu assunto
que simplesmente ignora os “teólogos do esquema arminiano”, como ele os chama
agora, até que os confronta a respeito da obediência imperfeita e os acusa de “absurdidade
e autocontradição”, erros tanto lógicos quanto teológicos. Seu texto extraído
de Romanos, “Mas, ao que não trabalha, porém crê naquele que justifica o ímpio,
a sua fé lhe é atribuída como justiça”, parece tão “evidente” para ele, uma
declaração tão “clara” do contraste entre o que um homem faz e o que ele crê,
suas obras e sua fé, que Edwards extrai sua doutrina diretamente “das palavras”
em si: “Somos justificados somente pela fé em Cristo, e não por qualquer forma
de virtude ou bondade nossa.” Embora as palavras possam ser “meros sons vazios,
nem bons nem maus”, como ele observa no manuscrito, grande parte do sermão Justification
by Faith Alone (Justificação Somente
Pela Fé) depende de sua análise delas.
Edwards
explica seu texto menos pelo contexto do que pela linguagem, examinando
cuidadosamente “expressões sinônimas” em Romanos, contada, por
exemplo, traduzida como atribuída em
um versículo e traduzida como imputada
em outro – e “metáforas obscuras e figuras de linguagem ininteligíveis” acusadas
pela oposição. Em outro lugar ele se concentra na semântica. Justificado, “um termo forense” com implicações da lei, não envolve apenas significados
ligeiramente diferentes como favorece sua “etimologia, e significação natural”,
mas também concorda com “a força da palavra” na Escritura. A frase “justificação
pela fé” cria “grande dificuldade” para muitos crentes, principalmente por
causa do “significado e força da partícula pela”. A noção subsequente, “somente pela
fé”, significa mais estritamente união com Cristo, retratada na Bíblia mediante
as metáforas do corpo, da árvore ou do casamento, embora Edwards seja obrigado
a acrescentar para que não haja qualquer equívoco com ele, “[Se] qualquer um tem
aversão a palavra união, como obscura
e ininteligível, a palavra relação serve
igualmente ao meu propósito.” Ele explica o significado da condição
ambígua; as metáforas bíblicas “VENHA a Cristo e RECEBA-o”; a sinonímia de justiça própria e obras da lei em Paulo; o uso moderno de obediência que “é um perfeito estranho às Escrituras”; metanoia, Novo Testamento Grego para arrependimento; e fé e arrependimento como “explicativo um do outro.” Tudo
isso o leva, como ele sabia que seria, a alguns textos irritantes,
especialmente um de Tiago, “Verificais que uma pessoa é justificada por obras e
não por fé somente”, que está desconfortavelmente em desacordo com seus
empréstimos de Paulo. Se tanto Paulo quanto Tiago usam fé e justificação “precisamente
no mesmo sentido”, então o que um afirma deve ser “uma contradição precisa,
direta e completa do outro”. Porém é de outra forma. Os teólogos modernos “modificam
livremente” o sentido de fé em seu
esquema de justificação, todavia lutam contra significados diferentes de justificar em outro. “Se o sentido de
uma das palavras deve ser diferente em qualquer esquema,... então o texto se
encaixa tão bem em um esquema como em outro, e não pode ser uma objeção mais favorável
contra o nosso esquema do que contra o deles.” O problema aqui (e a “grande deslealdade”
daqueles que o citam) reside apenas em tais significados diferentes de justificar, pois as palavras são apenas “sinais
do que está dentro”. Justificar, “na linguagem comum”, sempre significa “indiferentemente”
seja para aprovar ou para declarar solenemente a aprovação, “às vezes um, e, às
vezes, o outro. E isto por serem ambos iguais, apenas um é externamente o que o
outro é internamente.” Tiago parece usar a palavra externamente para significar “justificação manifestativa”, assim como uma árvore se manifesta por seus frutos; e obras, neste contexto, significa
evidências ou sinais da justificação não o caminho para ela. Em resumo, não
existe contradição entre Paulo e Tiago, apenas nuança semântica.
No
final, Edwards tenta afastar seus leitores de seu erro, “ao qual eles podem ter
sido levados mediante o ensino ou pelo sofisma astuto de outros”, e que pode
ser “contrário às disposições predominantes de seus corações e contrário à sua
prática”. Equívocos e termos imprecisos podem explicar isso; se a doutrina da justificação
fosse “explicada claramente” ela seria abraçada; certamente, “grandes auxílios
devem ser produzidos”. Ainda assim, “ensinar e propagar doutrinas e esquemas
contrários”, ele está convencido, é uma “tendência perniciosa e fatal”, e ele
está em grandes dores verbais para reprimir esse ensino neste seu primeiro
tratado publicado.
Se
o manuscrito de Edwards, de 56 folhas de 12,5 por 18,5 cm, tivesse sido
publicado mais ou menos intacto, em 1738, ele teria se estendido por cerca de 65
pequenas páginas impressas em oitavo.[1] Que isto
é, de fato, o dobro do tamanho, é devido principalmente às suas adições, uma
vez que preserva grande parte das duas unidades originais da pregação, recebendo
duas dúzias de folhas de inclusão por meio de linhas verticais na margem
esquerda ou no meio da página, e incorporando um elaborado sistema de
transposições de letras e símbolos, mais de vinte de cada; suas eliminações e
inserções adicionam pouco. Parte do aumento pode ser explicado pelo número e
extensão das citações das Escrituras e longos comentários feitos por John
Tillotson e, notavelmente, John Locke, nenhum dos quais aparece no manuscrito. Ali
Edwards frequentemente reduz textos bíblicos e nunca abre referências, citando
John Hurrion, Francis Turretin, Peter van Mastricht, as Miscellanies e suas “notas” sobre Efésios 4.1, mas
não citando nenhum.[2]
A maior parte do acréscimo, então, vem de sua propensão à minuciosidade de
provas lógicas e bíblicas, o tipo de minuciosidade que caracteriza o trabalho
de seus anos em Stockbridge, e da necessidade de se opor, agora como então, ao
que ele chama no manuscrito de “esquema neonomiano”.[3]
Página 104 (folha 52 verso) do manuscrito de Justification by Faith Alone, com as
marcas de Edwards (linhas verticais e letras na margem) para revisão na edição
impressa de 1738. Cortesia da Biblioteca Beinecke de Livros Raros e
Manuscritos, Universidade de Yale.
JUSTIFICAÇÃO APENAS PELA FÉ
Mas àquele que não trabalha, mas crê naquele que justifica o ímpio, sua
fé é contada para justiça (Romanos 4.5)
Ora, ao que não trabalha, porém crê naquele que justifica o ímpio, a sua
fé lhe é atribuída como justiça (Romanos 4.5 – ARA).
As
seguintes coisas podem ser observadas neste versículo:
1.
Essa Justificação diz respeito ao homem como ímpio. Isso é evidente por essas
palavras – “que justifica o ímpio”. Palavras que não podem implicar em menos do
que Deus no ato de justificação, que não levam em consideração a pessoa
justificada, como piedade ou qualquer bondade nela, mas que, próximo ou
imediatamente antes deste ato, Deus o contempla apenas como uma criatura ímpia
ou perversa; de modo que a piedade na pessoa a ser justificada não é antecedente
à sua justificação quanto a ser o fundamento dela. Quando se diz que Deus
justifica o ímpio, é tão absurdo supor que nossa piedade, tomada como alguma
bondade em nós, seja o fundamento de nossa justificação como quando se diz que
Cristo deu visão ao cego, supor que a visão era anterior e o fundamento desse
ato de misericórdia em Cristo, ou como se fosse dito que, por sua generosidade,
um homem pobre se tornou rico, supor que a riqueza deste homem pobre foi o
fundamento desta generosidade para com aquele e foi o preço pelo qual foi
adquirida.
2.
Parece que por “ao que não trabalha”, neste versículo, não se quer dizer apenas
alguém que não está de acordo com a lei cerimonial, porque evidentemente “ao
que não trabalha” e “o ímpio” são expressões sinônimas, ou, o que significa o
mesmo, torna-se óbvio pela maneira de sua conexão; se não é assim, com que
propósito a última expressão, “o ímpio”, é apresentada? O contexto não dá outra
razão para isso, exceto para mostrar que a graça do evangelho aparece em que Deus,
na justificação, não considera qualquer piedade de nossa parte. O versículo
anterior é: “Ora, ao que trabalha, o salário não considerado como favor, e sim
como dívida”. É evidente nesse versículo que a graça do evangelho consiste nas
recompensas que são dadas sem obras. E, neste versículo que o segue de perto e
no sentido está conectado a ele, é evidente que a graça do evangelho consiste
em um homem que é “ímpio” ser justificado, mediante o que é mais claro que por “ao
que não trabalha” e aquele que é “ímpio” significam a mesma coisa; e que,
portanto, não apenas as obras da lei cerimonial são excluídas neste assunto da justificação,
mas obras de moralidade e de piedade.
3.
É evidente nas palavras que, pela fé que aqui é expressa, pela qual somos
justificados, não significa a mesma coisa que um comportamento de obediência ou
de justiça, mediante a expressão pela qual esta fé está aqui indicada, a saber,
“crê naquele que justifica o ímpio”. Aqueles que se opõem aos solifidianos,
como os chamam, insistem muito nisso, de modo que devemos tomar as palavras das
Escrituras concernentes a esta doutrina em seu significado mais natural e
óbvio; e como eles criticam nosso obscurecimento desta doutrina com metáforas
obscuras e figuras de linguagem ininteligíveis! Porém isso é interpretar as
Escrituras de acordo com seu significado mais óbvio, quando a Escritura fala sobre
nós crermos “naquele que justifica o ímpio”, ou os infratores de sua lei, dizer
que seu significado é empreender um comportamento de obediência à sua lei e
evitar as violações dela? Crer em Deus como justificador certamente é uma coisa
diferente de submeter-se a Deus como legislador; especialmente crer nele como
justificador do ímpio, ou de rebeldes contra o Legislador.
4.
É evidente que o tema da justificação é considerado como destituído de qualquer
justiça em si mesmo mediante essa expressão, “é contada”, ou imputada a ele “como
justiça”. A frase, como o apóstolo a usa aqui e no contexto, claramente significa
que Deus, de sua graça soberana, está satisfeito em suas relações com o
pecador, para tomar e considerar o que de fato não é justiça, e em alguém que
não tem justiça, de modo que a consequência será a mesma como se tivesse
justiça (o que pode ser proveniente da consideração de algo que é de fato
justiça). Está claro que esta é a força da expressão nos versículos anteriores.
No penúltimo versículo, é evidente que o apóstolo coloca a ênfase de seu
argumento a favor da livre graça de Deus, a partir desse texto que ele cita do
Antigo Testamento sobre Abraão, na palavra contada
ou imputada, e que esta é a coisa que
ele supôs que Deus mostra em sua graça, a saber, em sua consideração de algo como
justiça em suas consequentes relações com Abraão, que não era justiça em si. E,
no versículo seguinte, que precede o texto imediatamente: “Ora, ao que trabalha,
o salário não é considerado como favor, e sim como dívida”, a palavra ali
traduzida como considerado é a mesma
que nos outros versículos é traduzida como imputada
e contada; e é como se o apóstolo tivesse dito: “Quanto ao que trabalha,
não há necessidade de qualquer acerto de contas gracioso, ou considerá-lo como
justiça, e fazendo com que a recompensa resulte como se fosse justiça; pois se
ele tem obras ele tem o que é uma justiça em si, à qual a recompensa propriamente
pertence.” Isso é ainda mais evidente pelas palavras que seguem, Romanos 4.6, “E é assim também que Davi declara
ser bem-aventurado o homem a quem Deus atribui justiça, independentemente de
obras”. O que pode ser pretendido aqui mediante o imputar justiça sem obras, exceto
imputar justiça àquele que não tem nenhuma de si mesmo? Romanos 4.7-8, “Bem-aventurados aqueles cujas iniquidades são
perdoadas, e cujos pecados são cobertos; bem-aventurado o homem a quem o Senhor
jamais imputará pecado.” De que maneira essas palavras de Davi servem ao
propósito do apóstolo? Ou de que maneira elas provam tal coisa como esta
justiça ser imputada sem obras, a menos que seja porque a palavra imputada é usada e o tema da imputação é
mencionado quanto a um pecador e, consequentemente, destituído de justiça
moral? Pois Davi não diz tal coisa quanto a ser ele perdoado sem as obras da
lei cerimonial; não há nenhum indício da lei cerimonial ou referência a ela nas
palavras. Por conseguinte, ousarei inferir essa doutrina a partir das palavras
para o tema do meu presente discurso, a saber:
Doutrina.
Somos justificados somente pela fé em Cristo e não por qualquer forma de
virtude ou bondade de nossa parte.
Uma
afirmação como esta, estou consciente, muitos estariam prontos a proclamar como
absurda, revelando grande quantidade de ignorância e contendo muita
inconsistência, mas peço paciência a todos até que eu tenha concluído. Ao lidar
com essa doutrina eu devo:
I. Explicar seu
significado e mostrar como devo ser compreendido ao fazer esta afirmação.
II. Prosseguir para a
consideração da evidência da sua verdade.
III. Mostrar como a
obediência evangélica diz respeito a este assunto.
IV. Responder as
objeções.
V. Considerar a
importância da doutrina.
I.
Eu devo explicar o significado da doutrina, ou mostrar em que sentido a afirmo,
e me esforçar para provar a sua verdade. O que pode ser feito ao responder a
essas duas perguntas, a saber, primeira, o que significa ser “justificado”;
segunda, o que se quer dizer quando se diz que ela é “somente pela fé” sem
qualquer tipo de virtude ou bondade de nossa parte?
Primeiro. Eu devo mostrar o que é justificação, ou
o que eu suponho que a Escritura quer dizer por ser “justificado”. E aqui não devo
estender-me e, por isso, respondo resumidamente.
Diz-se
que uma pessoa é justificada quando ela é aceita por Deus como livre da culpa
do pecado, de sua merecida punição e quando tem essa justiça pertencente a ela de
modo que lhe dá direito à recompensa da vida. Que devemos tomar a palavra neste
sentido e entendê-la como os juízes, que aceitam uma pessoa como tendo uma
justiça negativa e positiva pertencentes a ela, e que olham para ela, portanto,
não apenas como desembaraçada ou livre de qualquer obrigação de punição, mas
também como justa e reta, e assim como tendo direito a uma recompensa positiva,
não está apenas de acordo com a etimologia e o significado natural da palavra, a
qual significa tornar justo ou tomar alguém por justo no julgamento, mas também
evidentemente de acordo com a força da palavra como usada nas Escrituras.
Alguns
supõem que, por justificação, nada mais é pretendido nas Escrituras do que
apenas a remissão dos pecados; é muito estranho se for assim se considerarmos a
natureza do caso; pois é mais evidente, e ninguém negará, que é com respeito à
prescrição ou à lei de Deus sob a qual estamos que nos é dito nas Escrituras
sermos justificados ou condenados. Ora, o que é justificar uma pessoa, quanto
ao tópico de uma lei ou prescrição, senão julgá-la ou olhar para ela e aprová-la
como estando correta em relação a essa prescrição? Justificar uma pessoa em um
caso específico é aprová-la como correta com respeito à lei ou prescrição naquele
caso; e justificar, em geral, é aprová-la em julgamento como estando correta,
em um estado correspondente à lei ou prescrição em geral. Porém, certamente,
para que uma pessoa seja considerada como reta em relação à prescrição em
geral, ou em um estado correspondente à lei de Deus, é necessário mais do que o
que é negativo ou não ter a culpa de pecado; pois qualquer que seja essa lei,
seja nova ou antiga, sem dúvida, ainda é necessário algo positivo para que seja
satisfeita. Não somos mais justificados pela voz da lei, ou por aquele que julga
segundo ela, mediante um mero perdão do pecado do que Adão, nosso primeiro fiador,
foi justificado pela lei no primeiro ponto de sua existência, antes de ter
feito ele a obra ou cumprido a obediência da lei, ou tivesse tido qualquer tipo
de prova para cumprir ou não. Se Adão tivesse completado seu curso de perfeita obediência,
ele teria sido justificado; e certamente sua justificação teria implicado em algo
mais do que o que é meramente negativo; ele teria sido aprovado como tendo
cumprido a justiça da lei e, consequentemente, teria sido sentenciado para a
sua recompensa. Assim Cristo, nosso segundo fiador (em cuja justificação todos
que creem nele, e de quem ele é fiador, são realmente justificados), não foi
justificado até que tivesse feito a obra que o Pai lhe designou e guardado os
mandamentos do Pai através de todas as provações, e então, em sua ressurreição,
ele foi justificado. Quando aquele que foi entregue à morte na carne foi vivificado
pelo Espírito (1 Pedro 3.18), então
aquele que foi manifestado na carne foi justificado no Espírito (1 Timóteo 3.16). Porém Deus, quando o
justificou ao ressuscitá-lo dos mortos, não apenas o libertou de sua humilhação
pelo pecado e o dispensou de qualquer sofrimento ou humilhação adicional por causa
do pecado, mas o admitiu àquela vida eterna e imortal, e ao início daquela
exaltação que era a recompensa pelo que ele tinha feito. E, de fato, a justificação
de um crente não é outra senão ser admitido à comunhão ou à participação da justificação
deste Cabeça e Fiador de todos os crentes; pois visto que Cristo sofreu a
punição do pecado, não como uma pessoa individual, mas como nosso fiador, assim
quando, depois desse sofrimento, ele foi ressuscitado dos mortos, ele foi
justificado, não como uma pessoa individual, mas como o fiador e representante
de todos que creem nele; de modo que ele foi ressuscitado não apenas para si
mesmo, mas também para a nossa justificação, de acordo com o apóstolo. Romanos 4.25, “O qual foi entregue por causa
das nossas transgressões e ressuscitou por causa da nossa justificação.” E é
por isso que o apóstolo diz, como faz em Romanos
8.34, “Quem os condenará? É Cristo Jesus quem morreu ou, antes, quem
ressuscitou.”
É
mais diretamente ensinado na Escritura que a justificação de um crente implica
não apenas na remissão dos pecados, ou na isenção da ira devido a ele, mas
também em uma admissão ao direito a essa glória que é a recompensa da justiça,
é mais diretamente ensinado nas Escrituras, como particularmente em Romanos 5.1-2, onde o apóstolo menciona
ambos como benefícios comuns implícitos na justificação: “Justificados, pois,
mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo, por
intermédio de quem obtivemos igualmente acesso, pela fé, a esta graça na qual
estamos firmes, e gloriamo-nos na esperança da glória de Deus.” Assim, a
remissão dos pecados e a herança entre os que são santificados são mencionadas
juntas como o que é obtido conjuntamente pela fé em Cristo. Atos 26.18 “a fim de que recebam eles
remissão de pecados e herança entre os que são santificados pela fé em mim.”
Ambos estão, sem dúvida, implícitos na passagem da morte para a vida, da qual
Cristo fala como o fruto da fé e que ele contrapõe à condenação. João 5.24 “Em verdade, em verdade vos
digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna,
não entra em juízo, mas passou da morte para a vida.” Prossigo agora para,
Segundo. Mostrar o que se quer dizer quando é dito
que essa justificação é somente pela fé e não por qualquer virtude ou bondade de
nossa parte.
Esta
pode ser subdividida em duas, a saber, primeira, como é pela fé; segunda, como é
pela fé somente, sem qualquer tipo de bondade de nossa parte.
1. De
que maneira a justificação é pela fé. Aqui, a grande dificuldade tem estado no significado
e na força da partícula pela, ou qual
é essa influência que a fé tem na questão da justificação que é expressa nas
Escrituras como sendo “justificado pela
fé”.
Aqui,
se posso expressar humildemente o que me parece evidente, embora a fé seja de
fato a condição da justificação de modo que nada mais é, ainda assim este
assunto não é claro e suficientemente explicado ao se dizer que a fé é a condição da justificação; e que, como a
palavra parece ambígua tanto no uso comum quanto também como usada na teologia.
Em um sentido, somente Cristo efetua a condição de nossa justificação e
salvação; em outro sentido, a fé é a condição da justificação; em outro
sentido, outras qualificações e atos são condições da salvação e da justificação
também. Parece haver muita ambiguidade nessas expressões como são comumente
utilizadas (as quais, todavia, somos forçados a usar), tal como “condição de
salvação”; “o que é necessário para a salvação ou justificação”; “os termos da
aliança”, e afins; e creio que elas são compreendidas em sentidos muito
diferentes por pessoas diferentes. E, além da palavra condição ser muito frequentemente entendida no uso comum da
linguagem, a fé não é a única coisa em nós que é a condição de justificação;
pois pela palavra condição, como é
muitas vezes (e talvez mais comumente) usada, queremos dizer qualquer coisa que
possa ter o lugar de uma condição em uma proposta condicional, e como tal está
verdadeiramente ligada com o consequente, especialmente se a proposta se mantém
tanto na afirmativa quanto na negativa quando a condição é afirmada ou negada. Se
for aquilo com o que ou o que sendo suprimido uma coisa deve ser, e sem o que
ou sendo negado uma coisa não será, nós, neste caso, a chamamos de condição
dessa coisa; mas nesse sentido a fé não é a única condição de salvação ou de justificação,
pois há muitas coisas que acompanham e fluem da fé, que são coisas com as quais
a justificação deve ser e sem a qual ela não será, e por isso são encontradas
nas Escrituras em propostas condicionais com a justificação e a salvação em
multidões de lugares, são elas: “amor a Deus” e “amor aos nossos irmãos”, “perdoar
os homens suas transgressões” e muitas outras boas qualificações e atos. E há
muitas outras coisas além da fé que são diretamente propostas para serem adotadas
ou realizadas por nós, a fim de termos a vida eterna, como aquelas que se forem
feitas ou obtidas teremos a vida eterna, e se não forem feitas ou não obtidas
certamente pereceremos. E se fosse assim, que a fé era a única condição da justificação
nesse sentido, ainda assim não compreendo que dizer que a fé era a condição da justificação
expressaria o sentido dessa frase das Escrituras de ser “justificado pela fé”. Há uma diferença entre ser
justificado por uma coisa, e essa coisa universal, necessária e
inseparavelmente presente ou que acompanha a justificação; pois assim fazemos
muitas coisas pelas quais não dizemos ser justificados. Não é a conexão
inseparável com a justificação que o Espírito Santo expressaria (ou que é
naturalmente significada) por uma frase como esta, mas alguma influência
particular que a fé tem na questão, ou alguma certa dependência que esse efeito
tem sobre sua influência.
Alguns
que têm consciência disso presumiram que a influência ou dependência poderia ser
muito bem expressa pela fé como sendo o instrumento de nossa justificação. O que
foi mal compreendido, prejudicialmente representado e ridicularizado por
aqueles que negam a doutrina da justificação somente pela fé, como se tivessem presumido
que a fé foi usada como um instrumento na mão de Deus, pelo qual ele realizou e
fez acontecer esse seu ato, a saber, aprovação e justificação do crente. Considerando
que não foi pretendido que a fé fosse o instrumento pelo qual Deus justifica,
mas o instrumento pelo qual recebemos a justificação; não o instrumento com o
qual o justificador age na justificação, mas com o qual o receptor da justificação
age na aceitação da justificação. Porém também deve ser reconhecido que este é
um modo obscuro de falar, e certamente deve haver alguma impropriedade em
chamá-la de instrumento pelo qual recebemos ou aceitamos a justificação; pois
as próprias pessoas que explicam assim a questão falam da fé como sendo a
recepção ou a aceitação em si; e, se assim for, como pode ser o instrumento de
recepção ou de aceitação? Certamente há uma diferença entre o ato e o
instrumento. E além de suas próprias descrições de fé, Cristo, o Mediador, por
quem, e sua justiça, pela qual somos justificados, é mais diretamente o objeto
dessa aceitação; e a justificação, que é o benefício decorrente, mais
indiretamente; e, portanto, se a fé for um instrumento, é mais propriamente o
instrumento pelo qual recebemos a Cristo do que o instrumento pelo qual
recebemos a justificação.
Porém
eu humildemente concebo que estamos prontos para ir mais longe a fim de
descobrir o que é essa influência da fé em nossa justificação, ou o que é a
dependência desse efeito sobre a fé, indicada pela expressão de ser “justificado
pela fé”, ignorando aquilo que é mais obviamente apontado na expressão, a
saber, que, sendo o caso como é (há um Mediador que comprou a justificação), a
fé neste Mediador é aquilo que a torna uma coisa adequada e conveniente aos
olhos de Deus que o crente em vez de outros deve ter esse benefício comprado
atribuído a ele. Há esse benefício comprado, que Deus vê como a coisa mais
adequada e conveniente que deve ser atribuída a alguns em vez de a outros,
porque ele os vê qualificados de forma diferente; essa qualificação na qual a
adequabilidade para esse benefício, como o caso consiste, é aquilo em nós pelo
que somos justificados. Se Cristo não tivesse vindo ao mundo e morrido, etc.
para comprar a justificação, nenhuma qualificação em nós poderia torná-la uma
coisa adequada ou conveniente para que sejamos justificados; mas o caso sendo
como está agora, a saber, que Cristo realmente comprou a justificação mediante
seu próprio sangue para criaturas infinitamente indignas, pode haver uma certa
qualificação encontrada em algumas pessoas, que, seja pela relação que possui
com o Mediador e seus méritos ou por outra razão, é a coisa que, aos olhos de
Deus, torna-se a coisa adequada e condecenta[4] de modo que elas devem ter interesse neste benefício comprado, e do qual
se alguma encontra-se destituída torna-a a coisa inadequada e não conveniente para
que elas devem tê-lo. A sabedoria de Deus em suas constituições, sem dúvida,
aparece muito na conveniência e na beleza delas, de modo que essas coisas sejam
estabelecidas para serem feitas o que são aptas a serem feitas, e que essas
coisas estão conectadas em sua constituição, que são apropriadas umas as outras.
Assim Deus justifica um crente de acordo com sua constituição revelada, sem
dúvida, porque ele vê algo nessa qualificação que, como é o caso, a torna a
coisa adequada pela qual o crente deve ser justificado; seja porque a fé é o
instrumento ou, por assim dizer, pela qual aquele que comprou a justificação é
apreendido e aceito, ou porque é a própria aceitação, ou o que quer que seja. Ser
justificado é ser aprovado por Deus como um objeto apropriado de perdão e com
direito à vida eterna; e, portanto, quando se diz que somos justificados pela fé, o que mais pode ser entendido
por isso do que essa fé ser aquilo pelo
que somos tornados aprováveis, aptos e, de fato, como é o caso, objetos apropriados
deste benefício?
Trata-se
de algo diferente de a fé ser a condição da justificação apenas para estar
inseparavelmente ligada à justificação. Assim são muitas outras coisas além da
fé, e ainda assim nada em nós, mas a fé, a torna adequada para que tenhamos a justificação
atribuída a nós; como eu mostrarei em breve de que maneira, em resposta a
próxima pergunta, a saber,
2.
Como isso é dito ser somente pela fé, sem qualquer tipo de virtude ou bondade de
nossa parte. Isso pode parecer a alguns estar ligado a duas dificuldades, a
saber, como isso pode ser dito ser somente pela fé, sem qualquer virtude ou
bondade de nossa parte, quando a fé em si é uma virtude e uma parte de nossa
bondade; e não é apenas algum tipo de bondade de nossa parte, mas é uma
qualificação muito excelente e uma parte essencial da santidade inerente de um
cristão? E se faz parte de nossa bondade ou excelência inerente (seja ela esta
parte ou qualquer outra), isso a torna uma coisa condecenta ou conveniente
que devemos ter esse benefício de Cristo atribuído a nós, o que é menos do que
o que eles querem dizer quando falam de um mérito de congruência? E, além
disso, se esta parte da nossa santidade cristã nos qualifica aos olhos de Deus
para este benefício de Cristo, e o torna uma coisa conveniente ou adequada aos
seus olhos, de modo que devemos tê-la; por que não outras partes da santidade e
da conformidade com Deus, que também são muito excelentes, têm tanto da imagem
de Cristo nelas e não são menos atraentes aos olhos de Deus, nos qualificam
tanto e têm tanta influência para nos fazer adequados aos olhos de Deus a um
benefício como este? Consequentemente, eu respondo,
Quando
se diz que não somos justificados por qualquer justiça ou bondade nossa, o que se
quer dizer é que ela não é por consideração à excelência ou bondade de
quaisquer qualificações ou atos em nós, quaisquer que sejam, que Deus julga
adequado que este benefício de Cristo seja nosso; e não é de forma alguma por causa
de qualquer excelência ou valor que haja na fé, que parece aos olhos de Deus
uma coisa adequada que aquele que crê que tenha esse benefício de Cristo
atribuído a ele, mas puramente a partir da relação que a fé tem com a pessoa em
quem esse benefício deve ser possuído, ou quando se une a esse Mediador, em e
por quem somos justificados. Aqui, para maior clareza, eu me explicarei
particularmente sob várias proposições.
(1)
É certo que há alguma união ou relação que o povo de Cristo tem com ele, que é
expressa nas Escrituras de tempos em tempos mediante o estar em Cristo, e é
representada frequentemente por aquelas metáforas de ser membro de Cristo, ou
estar unido a ele como membros a cabeça, e ramos ao tronco,[5] e é comparada a uma união matrimonial
entre marido e mulher. Eu não pretendo determinar agora de que tipo esta união
é; nem é necessário ao meu propósito atual entrar em qualquer tipo de disputa
sobre isso; se alguém está desgostoso com a palavra união, como obscura e ininteligível, a palavra relação serve igualmente ao meu propósito. Não desejo estabelecer agora
algo mais sobre isso do que todos, todos os tipos, permitirão prontamente, a
saber, que há uma relação peculiar entre os verdadeiros cristãos e Cristo, ou
uma certa relação entre ele e eles, que não há entre ele e outros; o que é indicado
por essas expressões metafóricas nas Escrituras de estar em Cristo, ser membro
de Cristo etc.
(2)
Esta relação ou união com Cristo, pela qual é dito que os cristãos estão em Cristo (seja lá o que for), é o
fundamento de seu direito aos seus benefícios. Isso não precisa de provas; a
razão da coisa, à primeira vista, demonstra isso, mas é demasiadamente evidente
também pelas Escrituras. 1 João 5.12,
“Aquele que tem o Filho tem a vida; aquele que não tem o Filho de Deus não tem
a vida.” 1 Coríntios 1.30, “Mas vós
sois dele, em Cristo Jesus, o qual se tornou, da parte de Deus, sabedoria, e
justiça, e santificação, e redenção.” Primeiro devemos estar nele, e então ele
será feito justiça ou justificação para nós. Efésios 1.6, “que ele nos concedeu gratuitamente no Amado.” Nosso
estar nele é o fundamento de sermos
aceitos. Assim é naquelas uniões que o Espírito Santo considerou apropriadas comparar
com esta união; a união dos membros do corpo com a cabeça é o fundamento de sua
participação na vida da cabeça; é a união dos ramos ao tronco que é o fundamento
de sua participação na seiva e na vida do tronco; é a relação da esposa com o esposo
que é o fundamento de seu interesse comum em seu patrimônio, eles são considerados,
em vários aspectos, como um segundo a lei; por isso há uma união legal entre
Cristo e os cristãos verdadeiros, de modo que (como todos, exceto os socinianos,
admitem) um, em alguns aspectos, é aceito pelo outro pelo Supremo Juiz.
(3)
E, portanto, é essa fé, é essa qualificação em alguma pessoa, que a torna apropriada
aos olhos de Deus, de modo que ela deve ser considerada como tendo a satisfação
e a justiça de Cristo pertencentes a ela, a saber, porque ela está nele,
o que, da sua parte, produz essa união entre ele e Cristo. Pelo que foi
observado agora, é o estar de uma pessoa, de acordo com a frase das Escrituras,
“em Cristo”, que é a razão de ter sua satisfação e méritos pertencentes a ela,
e direito aos benefícios obtidos por meio disso. E a razão disso é clara, é
fácil ver como nosso ter os méritos e benefícios de Cristo pertencentes a nós
vem do nosso ter (se posso falar assim) o próprio Cristo pertencente a nós, ou estar
unido a ele. E, se assim for, também deve ser fácil ver como ou de que maneira isto,
em uma pessoa, que de sua parte produz a união entre sua alma e Cristo, deve
ser a coisa por causa da qual Deus olha para ficar satisfeito que ela tenha os
méritos de Cristo pertencentes a ela; e também que é uma coisa muito diferente
para Deus atribuir a uma determinada pessoa um direito aos méritos e benefícios
de Cristo a partir da consideração de qualquer qualificação nela, neste aspecto,
de sua obra para ele, em apreço ao valor ou beleza dessa qualificação ou como
recompensa por sua excelência.
Como
não há ninguém além de mim que admitirá que há uma relação peculiar entre
Cristo e seus verdadeiros discípulos, pela qual é dito nas Escrituras, em certo
sentido, que eles são um; então suponho que não haja ninguém além de mim que admitirá
que pode haver algo que o verdadeiro cristão faça de sua parte, pelo que ele é
ativo para entrar nessa relação ou união, algum ato da alma do cristão que seja
o ato de união do cristão, ou o que é feito para esta união ou relação (ou como
quer que agrade chamá-lo) da parte do cristão. Ora, eu suponho ser a fé este
ato.
Não
pretendo definir agora a fé justificadora, ou determinar precisamente quanto
está contido nela, mas apenas determinar o quanto diz respeito a ela, a saber,
que ela é aquilo pelo qual a alma, que antes estava separada e alienada de
Cristo, une-se a ele, ou deixa de estar naquele estado de alienação e entra nesta
união ou relação acima mencionada com ele, ou, para usar a frase das
Escrituras, é aquilo pela que a alma vem a Cristo e o recebe; e isso é evidente
pelas Escrituras que usam essas mesmas expressões para indicar a fé. João 6.35-38,[6] “O que vem a mim jamais terá fome; e o que crê em mim jamais terá sede. Porém eu já
vos disse que, embora me tenhais visto, não credes.
Todo aquele o Pai me dá, esse virá a
mim; e o que vem a mim, de modo
nenhum o lançarei fora. Porque eu desci do céu, não para fazer a minha própria
vontade, e sim a vontade daquele que me enviou.” João 6.40, “De fato, a vontade de meu Pai [e que todo homem que vir
o Filho e nele crer tenha a vida
eterna: e eu o ressuscitarei no último dia.” João 5.28-40[7],
“...porque não credes naquele a quem ele enviou. Examinais as Escrituras...,
e são elas que testificam de mim. Contudo, não quereis vir a mim para terdes
vida.” João 6.43-44[8], “Eu vim em nome do meu Pai, e não
me recebeis; se outro virá em seu próprio nome, certamente, o recebereis.
Como podeis crer, vós os que aceitais
glória uns dos outros...?” João 5.12[9],
“Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhe o poder de serem feitos
filhos de Deus, a saber, aos que creem
no seu nome.” Se for dito que estas figuras de linguagem são obscuras, que, não
obstante tenham sido bem compreendidas antigamente entre aqueles que comumente
usavam essas metáforas, todavia são difíceis de se entender agora. Admito que
as expressões “receber” a Cristo e “vir” a Cristo são expressões metafóricas; e
ainda que eu deva admitir que sejam metáforas obscuras, no entanto, muito, pelo
menos, é certamente claro nelas, a saber, que a fé é aquilo pelo que aqueles
que antes estavam separados e à distância de Cristo (isto quer dizer que não estavam
tão relacionados e unidos a ele como seu povo está), faz com que tal distância
deixe de existir e faz entrar nessa relação e proximidade; a menos que elas sejam
tão ininteligível que nada possa ser entendido delas.
Deus
não dá àqueles que creem uma união com
ou um interesse no Salvador como
recompensa pela fé, mas apenas porque a fé é a união ativa da alma com Cristo,
ou é em si o próprio ato de união da sua parte. Deus considera adequado que,
para que uma união seja estabelecida entre dois seres ou pessoas ativas
inteligentes, de modo que eles devem ser considerados como um, deve haver o ato
mútuo de ambos, que cada um deve receber o outro, ativamente unindo-se um ao
outro. Deus, ao exigir isso a fim de que haja uma união com Cristo como um de
seu povo, trata os homens como criaturas racionais, capazes de agir e escolher,
e, por isso, considera adequado que somente aqueles, que são um com Cristo por
seu próprio ato devem ser considerados como um segundo a lei. O que é real na
união entre Cristo e seu povo é o fundamento do que é legal, ou seja, é algo
realmente neles e entre eles, unindo-os, que é a razão da adequação deles serem
contados como um pelo Juiz. E se há algum ato ou qualificação nos crentes, este
ato é dessa natureza unificadora, que é satisfeito por causa do que o Juiz considera
neles e os aceita como um só. Não é de admirar que, por causa do mesmo ato ou
qualificação, ele deve aceitar a satisfação e os méritos de um em favor do
outro, como se fossem suas satisfações e seus méritos; isto necessariamente
segue, ou melhor, está implícito.
E
assim é que a fé justifica, ou produz interesse na satisfação e nos méritos de
Cristo, e no direito aos benefícios adquiridos por meio deles, a saber, pois
assim torna Cristo e o crente um na aceitação do Supremo Juiz. É pela fé que
temos o direito à vida eterna, porque é pela fé que temos o Filho de Deus, por
quem a vida é. O apóstolo João, nessas palavras, 1 João 5.12, “Aquele que tem o Filho tem a vida”, parece se referir
evidentemente às palavras de Cristo que ele relata em seu evangelho. João 3.36, “Por isso, quem crê no Filho
tem vida eterna, e o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a
vida.” E nos mesmos lugares que a Escritura fala da fé como a alma “recebendo”
ou “indo a Cristo”, ela também fala desse recebimento ou do ir, ou do se unir a
Cristo, como a base do interesse em seus benefícios: “Mas, a todos quantos o
receberam, deu-lhe o poder de serem feitos filhos de Deus”; Contudo,
não quereis vir a mim para terdes vida”[10] E há uma grande diferença entre ser considerado adequado que a
satisfação e os méritos de Cristo devem ser daqueles que creem, porque o
interesse nessa satisfação e méritos é apenas uma recompensa adequada da fé, ou
um testemunho adequado do apreço de Deus à amabilidade e excelência dessa
graça, e apenas ser considerado que a satisfação e os méritos de Cristo sejam
deles porque Cristo e eles estão tão unidos que, aos olhos do Juiz, eles podem
ser considerados e tomados como um só.
Embora,
por causa da fé no crente, seja, aos olhos de Deus, adequado e conveniente que aquele
que crê deve ser considerado como em Cristo também seja considerado como tendo
interesse em seus méritos, da maneira que foi explicado; todavia parece que
isso é muito amplo a partir de um mérito de coerência ou, de fato, de qualquer coerência
moral para qualquer um. Há uma dupla adequação a um estado; não sei como dar-lhes
nomes distintos do que chamando uma adequação de moral e a outra de natural. Uma pessoa tem uma adequação moral
a um estado quando sua excelência moral o recomenda a ele, ou quando ser
colocado neste estado bom é apenas um testemunho adequado ou conveniente do apreço
ou do amor à excelência moral, ou valor, ou amabilidade de qualquer uma de suas
qualificações ou atos. Uma pessoa tem uma adequação natural a um estado quando
parece satisfazer e condecenta que deve estar em tal estado ou
circunstâncias, apenas a partir da concordância ou conformidade natural que há
entre estas qualificações e aquelas circunstâncias; não porque as qualificações
são atraentes ou desagradáveis, mas apenas porque as qualificações e as
circunstâncias são semelhantes umas às outras, ou fazem sua natureza ser
conveniente e concordarem ou unirem uma à outra. E é somente nesta última hipótese
que Deus considera adequada, mediante uma adequação natural, que aquele cujo
coração sinceramente se une a Cristo como seu Salvador seja considerado como
unido a esse Salvador, e assim tenha interesse nele; e não a partir de qualquer
adequação moral que haja entre a excelência desta qualificação como fé, e desta
bênção gloriosa como o ter interesse em Cristo. A concessão de Cristo e seus
benefícios por Deus a uma alma em consequência da fé, por consideração apenas da
concordância natural que há entre esta qualificação de uma alma e essa união
com Cristo e interesse nele, torna o caso muito amplamente diferente do que
seria se ele concedesse isso em consideração a qualquer adequação moral. Pois,
no primeiro caso, é apenas a partir do amor de Deus pela ordem que ele concede
essas coisas por causa da fé. No último, Deus as dá por amor à graça da própria
fé. Deus não considerará os méritos de Cristo como nossos, nem declarará seus
benefícios como nossos, até que estejamos em
Cristo; nem nos considerará como estando nele
sem uma união ativa de nossos corações e almas com ele; porque ele é um ser
sábio e se deleita na ordem, não na confusão, e porque as coisas devem estar
juntas ou de acordo com sua natureza. E sua criação de tal constituição é um
testemunho de seu amor à ordem, enquanto que, se fosse por consideração a
qualquer adequação ou conveniência moral entre a fé e tal bem-aventurança,
seria um testemunho de seu amor ao ato ou à qualificação em si. Um supõe que
esta constituição divina seja uma manifestação do apreço de Deus pela beleza do
ato de fé, o outro supõe apenas que seja uma manifestação de seu apreço pela
beleza dessa ordem que há em unir aquelas coisas que têm uma concordância, coerência
e união naturais de uma com a outra. De fato, uma adequação ou conveniência
moral a um estado inclui uma adequação natural; pois nunca é assim que, se
houver uma adequação moral, uma pessoa deve estar em tal estado, também há uma adequação
natural, mas tal adequação natural, como eu descrevi, de modo algum inclui necessariamente
uma moral.
Isso
é claramente o que nossos teólogos pretendem quando dizem que a fé não
justifica como uma obra ou uma justiça, a saber, que não justifica como parte
de nossa bondade ou excelência moral, ou que ela não justifica como uma obra no
sentido que o homem deveria ter sido justificado por suas obras mediante a
aliança da obras, que devia ter direito a vida eterna, dado a ele por Deus como
testemunho de sua satisfação com suas obras, ou sua consideração pela
excelência e beleza inerentes de sua obediência. E certamente isso é o que o
apóstolo Paulo quer dizer quando insiste tanto em que não somos justificados
por obras, a saber, que não somos justificados por elas como boas obras, ou por
qualquer bondade, valor ou excelência de nossas obras. Para a prova disso
mencionarei, no momento, apenas uma coisa (é como ter a oportunidade de dizer o
que se manifestará mais abundantemente depois), e esta é, o apóstolo de tempos
em tempos fala de não sermos justificados pelas obras como a coisa que exclui
toda a jactância (Efésios 2.9; Romanos 3.27 e Romanos 4.2).
Agora, de que modo o fazer obras dá ocasião para a jactância senão como boas? O
que os homens usam para se vangloriarem senão algo que eles supõem ser bom ou
excelente? E por que eles se vangloriam de alguma coisa senão pela suposta
excelência que está nela?
A
partir dessas coisas podemos aprender de que maneira a fé é a única condição para
a justificação e para a salvação. Pois, embora não seja a única condição, assim
como somente a verdade tem lugar de condição em uma proposição hipotética, na
qual a justificação e a salvação são as consequentes, ainda assim é a condição para
a justificação de uma maneira peculiar a ela, e de modo que nada mais tenha
influência paralela com ela; porque a fé inclui todo o ato de união com Cristo
como Salvador. Toda a união ativa da alma, ou tudo o que é chamado de “ir a”
Cristo e “receber” dele, é chamada de fé nas Escrituras; e não obstante outras
coisas possam não ser menos excelentes do que a fé, todavia não é a natureza de
quaisquer outras graças ou virtudes diretamente unidas a Cristo como Mediador, qualquer
coisa além dela, entrar na constituição da fé justificadora e pertencer à sua
natureza.
Assim,
expliquei meu pensamento, ao afirmá-lo como uma doutrina do evangelho, de que
somos justificados somente pela fé, sem qualquer tipo de bondade de nossa parte.
Eu prossigo, em
II.
[Segundo] lugar, para prová-lo. O que me esforçarei para produzir nos seguintes
argumentos:
Primeiro. Este é o nosso caso e o estado das
coisas, que nem a fé, nem qualquer outra qualificação, ou ato, ou curso de ação
faz, ou pode tornar conveniente ou adequado que uma pessoa tenha interesse no
Salvador, e assim direito a seus benefícios, por causa de qualquer excelência
nela, ou qualquer outro modo senão apenas como algo nela pode uni-lo ao
Salvador. Não é conveniente que Deus dê ao homem caído um interesse em Cristo e
em seus méritos, como um testemunho de sua consideração por qualquer coisa como
uma beleza nele; e isto porque não é até que um pecador seja realmente
justificado que alguma coisa nele deve ser aceita por Deus, como alguma
excelência ou beleza de sua pessoa; ou que Deus, por qualquer ato, deve de alguma
forma ou em algum grau declarar ter algum prazer nele, ou favor para com ele,
por causa de qualquer coisa inerente no homem caído. E isto por duas razões:
primeira, porque a natureza das coisas não admitirá isso; segunda, porque uma
constituição divina antecedente está no seu caminho.
1.
A natureza das coisas não admitirá isso. E isso torna-se óbvio a partir da
culpa infinita sob a qual o pecador está até ser justificado; a qual procede do
mal infinito ou da hediondicidade do pecado. Porém, porque isso é o que alguns
negam, eu devo primeiro estabelecer esse ponto, e mostrar que o pecado é uma
coisa que é de fato propriamente de infinita hediondicidade; e então mostrar a
consequência, e mostrar que é assim, e desse modo o pecador, sob culpa infinita
aos olhos de Deus, não pode ser adequado, até que o pecador seja realmente
justificado, que Deus deva, por qualquer ato, declarar ter prazer em, ou
aceitação de, qualquer coisa como alguma excelência ou beleza em sua pessoa, ou
mesmo ter qualquer aceitação dele ou declarar ter prazer nele.
Que
o mal e o demérito do pecado são infinitamente grandes é demonstravelmente muito
evidente, porque aquilo em que consiste o mal ou a iniquidade do pecado é a
violação de uma obrigação, a realização do contrário ao que somos obrigados a
fazer, ou fazer o que não devemos fazer; e, portanto, quanto a maior for a obrigação
que é violada, tanto maior é a iniquidade da violação. Mas certamente nossa
obrigação de amar ou honrar algum ser é grande em proporção à grandeza ou
excelência desse ser, ou sua dignidade de ser amado e honrado. Estamos sob
maiores obrigações de amar um ser mais adorável do que um ser menos adorável; e,
se um ser for infinitamente excelente e adorável, nossas obrigações de amá-lo
são infinitamente grandes. A questão é tão simples que parece desnecessário
dizer muito sobre ela.
Alguns
têm argumentado de modo muitíssimo estranho contra o infinito mal do pecado
pelo fato de ser cometido contra um objeto infinito. Se assim for, então pode
muito bem ser argumentado que há também um valor ou excelência infinito na
santidade e no amor a Deus, porque este também tem um objeto infinito. Considerando
que o argumento da paridade da razão o levará ao contrário: o pecado da
criatura contra Deus é não mérito em proporção à distância que existe entre
Deus e a criatura, a grandeza do objeto e a torpeza do sujeito o agrava; porém
é o contrário em relação à dignidade do respeito da criatura para com Deus, é sem
merecimento (e não merecedor) em proporção à torpeza do sujeito; quanto maior a
distância entre Deus e a criatura tanto menor é o apreço da criatura merecedora
da atenção ou da consideração de Deus. A indignidade do pecado ou da oposição a
Deus cresce e é maior em proporção à dignidade do objeto e à inferioridade do
sujeito; mas, ao contrário, a dignidade ou valor do apreço cresce
proporcionalmente ao valor do sujeito; e isto, por essa simples razão, a saber,
que o mal da desconsideração é proporcional à obrigação que reside sobre o
sujeito para com o objeto; que obrigação é aumentada mais evidentemente pela
excelência e superioridade do objeto; mas, ao contrário, o merecimento do apreço
para com um ser é proporcional à obrigação que reside sobre aquele que é o
objeto (ou melhor, a razão que ele tem) de considerar o sujeito, o que
certamente é proporcional ao valor ou excelência do sujeito. O pecado ou a
desconsideração é mau ou hediondo em proporção ao grau do que ele nega no
objeto, e, por assim dizer, tira dele, a saber, sua excelência e dignidade de apreço;
ao contrário, o apreço é valioso proporcionalmente ao valor do que é dado ao
objeto neste aspecto, o que, sem dúvida (outras coisas sendo iguais), é maior
em proporção ao valor do sujeito ou a dignidade da consideração; porque o
sujeito, ao dar sua consideração, não pode dar mais do que ele mesmo; na medida
em que ele dá sua consideração ele dá a si mesmo ao objeto; e, portanto, sua
dádiva é de maior ou menor valor em proporção ao valor dele mesmo.
Consequentemente
(a propósito), o amor, a honra e a obediência de Cristo para com Deus tem valor
infinito a partir da excelência e da dignidade da pessoa em quem essas
qualificações eram inerentes. E a razão pela qual precisávamos de uma pessoa de
infinita dignidade para obedecer por nós, era por causa de nossa comparativa infinita
maldade, que desobedecemos, por meio da qual nossa desobediência foi
infinitamente agravada. Precisávamos de alguém cujo valor da obediência pudesse
corresponder a indignidade de nossa desobediência. E, portanto, precisávamos de
alguém que fosse tão grande e digno quanto nós éramos indignos.
Outra
objeção (que talvez possa ser considerada que dificilmente valha a pena
mencionar), é que supor que o pecado seja infinitamente hediondo é tornar todos
os pecados igualmente hediondos; pois como algum pecado pode ser mais do que
infinitamente hediondo? Porém tudo o que pode ser argumentado daqui é que
nenhum pecado pode ser maior em relação a esse agravamento, a dignidade do
objeto contra quem ele é cometido. Um pecado não pode ser mais agravado do que
outro nesse aspecto porque, neste aspecto, o agravamento de cada pecado é
infinito. Porém isso não impede que alguns pecados possam ser mais hediondos do
que outros em outros aspectos. Como se devêssemos supor que um cilindro
infinitamente longo não pode ser maior nesse aspecto, a saber, com relação ao seu
comprimento; mas ainda assim pode ser duplicado, triplicado e feito mil vezes maior
mediante o aumento de outras dimensões. Sobre pecados que são infinitamente
hediondos, alguns podem ser mais hediondos do que outros, bem como todas as calamidades
infinitamente terríveis são de diferentes punições, ou todas elas excedendo infinitamente
todas as calamidades finitas, de modo que não há calamidade finita, embora
grande, exceto a que é menos infinitamente terrível, ou mais desejável do que
qualquer uma delas, ainda que algumas delas possam ser mil vezes mais terríveis
que outras. Uma punição pode ser infinitamente terrível em razão da duração sua
infinita e consequentemente não possa ser maior em relação a esse seu
agravamento, a saber, seu comprimento de continuidade, mas ainda pode ser muito
mais terrível por outras razões.
Tendo
assim, como imagino, deixado claro que todo o pecado é infinitamente hediondo e,
consequentemente, que o pecador, antes de ser justificado, está sob infinita
culpa aos olhos de Deus, resta agora que eu mostre a consequência, ou como
segue daqui, que não é adequado que Deus dê ao pecador um interesse nos méritos
de Cristo e, desse modo, um direito a seus benefícios, proveniente da
consideração de qualquer qualificação, ou ato, ou curso de ação nele, por causa
de qualquer excelência ou bondade nele, mas apenas como unido a Cristo; ou (o
que implica plenamente) que não é adequado que Deus, por qualquer ato, de alguma
forma ou grau deva declarar qualquer aceitação ou prazer com alguma coisa, como
alguma virtude, ou excelência, ou qualquer parte da amabilidade, ou de valor em
sua pessoa, até que ela já esteja realmente interessada nos méritos de Cristo. O
que se torna óbvio por isso, que a partir das premissas conclui-se que antes do
pecador estar interessado em Cristo e ser justificado, é impossível que Deus tenha
qualquer aceitação da pessoa do pecador ou prazer nele, como agradável aos seus
olhos em algum grau ou, de fato, menos o objeto de seu desprazer e ira. Pois,
pela suposição, o pecador ainda permanece infinitamente culpado aos olhos de
Deus; pois a culpa não é removida exceto mediante o perdão. Porém supor o
pecador já está perdoado, é supor que ele já está justificado; o que é
contrário à suposição. Porém se o pecador ainda permanece infinitamente culpado
aos olhos de Deus, isso é o mesmo que ainda deve ser visto por Deus como
infinitamente o objeto de seu desprazer e ira, ou infinitamente odioso aos seus
olhos. E se assim for, onde há qualquer espaço para alguma coisa nele ser aceita
como de algum valor ou aceitação dele aos olhos de Deus, ou para algum ato de
favor de qualquer tipo para com ele, ou qualquer dádiva para ele, como
testemunho da consideração e da aceitação de Deus de algo amável e agradável
dele? Se supormos que poderia ser assim, que um pecador poderia ter fé, ou
alguma outra graça em seu coração, e ainda permanecer separado de Cristo; e
deve continuar a ser assim, que ele não é visto como estando em Cristo ou tendo
qualquer relação com ele, não seria apropriado que essa verdadeira graça seja
aceita por Deus como alguma amabilidade de sua pessoa aos olhos de Deus. Se isto
for aceito como a amabilidade da pessoa, que a pessoa deveria ser aceita como
em algum grau de amabilidade por Deus, mas isso não pode ser consistente com
sua permanência ainda sob culpa infinita, ou indignidade infinita aos olhos de
Deus, a qual essa bondade não tem excelência para equilibrar. Enquanto Deus
contemplar o homem como separado de Cristo ele deve vê-lo como ele é em si
mesmo; e assim sua bondade não pode ser contemplada por Deus, mas como considerado
com sua culpa e odiosidade, e como colocado na balança com ela e, sendo visto
assim, sua bondade não é nada; porque na balança há um finito contra um
infinito, cuja proporção a ele é nada. Nesse caso, se o homem for considerado
como ele é em si mesmo, o excesso do peso em uma escala superior a outra deve
ser considerado como a qualidade do homem. Esses contrários sendo considerados juntos,
um tira do outro, como um número é subtraído de outro; e o homem deve ser considerado
aos olhos de Deus de acordo com o que resta. Pois aqui, pela suposição, todos
os atos de graça ou favor, não imputando a culpa como ela é, são excluídos,
porque isso supõe um grau de perdão, e este supõe justificação, o que é
contrário ao que se supõe, a saber, que o pecador ainda não está justificado e,
portanto, as coisas devem ser tomadas estritamente como são; e assim o homem
ainda é infinitamente indigno e odioso aos olhos de Deus, como era antes, sem
diminuição, porque sua bondade não tem proporção com sua indignidade, e,
portanto, quando consideradas juntas ela não é nada.
Assim,
pode ser visto mais claramente a força dessa expressão no texto sobre crer
naquele que “justifica o ímpio”; pois embora haja, de fato, algo no homem que seja
real e espiritualmente bom, que seja anterior a justificação, todavia não há
nada que seja aceito como alguma piedade ou excelência da pessoa até depois da justificação.
A aceitação de Deus da bondade ou a amabilidade da pessoa, em qualquer grau,
não deve ser considerada como anterior, mas posterior na ordem e método de procedimento
de Deus neste caso; embora a consideração da adequação natural entre tal
qualificação e tal estado venha antes da justificação, todavia até a aceitação
da fé como alguma bondade ou amabilidade do crente, resulta da justificação. A
bondade está na conta supracitada vista justamente como nada até que o homem seja
justificado. E, portanto, o homem é considerado na justificação como
completamente odioso em si mesmo. Assim, a natureza das coisas não admitirá que
um homem tenha um interesse nos méritos ou nos benefícios de um Salvador dado a
ele por causa de qualquer coisa como justiça, ou virtude, ou excelência nele.
2.
Um estatuto divino que é antecedente ao que estabelece a justificação por meio
de um Salvador (e, de fato, a qualquer necessidade de um Salvador), está no seu
caminho, a saber, aquele estatuto ou lei original sob o qual o homem está, pelo
qual o pecador é condenado por ser um violador dessa lei; e permanece condenado
até que tenha realmente um interesse no Salvador, por meio de quem ele é liberto
dessa condenação. Porém supor que Deus dê a um homem um interesse em Cristo como
recompensa por sua justiça ou virtude é inconsistente com sua permanência ainda
sob condenação até que ele tenha interesse em Cristo, porque supõe que a
virtude do pecador é aceita, e ele aceito por causa dela, antes que tenha
interesse em Cristo; visto que um interesse em Cristo é dado como recompensa de
sua virtude; mas a virtude deve primeiro ser aceita antes de ser recompensada,
e o homem deve primeiro ser aceito por causa da sua virtude antes de ser
recompensado por ela com uma recompensa tão grande e gloriosa; pois a própria
noção de recompensa é algo bom concedido como declaração de consideração e
aceitação da virtude na pessoa recompensada. Não condiz com a honra da
majestade do Rei do Céu e da Terra aceitar algo de um malfeitor condenado,
condenado pela justiça de sua própria lei santa, até que essa condenação seja
removida. E então tal aceitação é inconsistente com e contraditória a essa
condenação remanescente; pois a lei condena aquele que a viola a ser totalmente
rejeitado e expulso por Deus; porém como um homem pode continuar sob esta
condenação, ou seja, continuar totalmente rejeitado e expulso por Deus e ainda
assim sua justiça ou virtude ser aceita, e ele próprio aceito por causa dela,
de modo a ter uma recompensa tão gloriosa como um interesse em Cristo concedido
como declaração dessa aceitação?
Sei
que a resposta que estará pronta para isso é que, agora, não estamos sujeitos a
esse estatuto sob o qual a humanidade esteve inicialmente, mas que Deus, em
misericórdia para com a humanidade, aboliu esse rigoroso estatuto ou lei sob o
qual ela estava originalmente e nos colocou sob uma nova lei, e introduziu um estatuto
mais brando; e visto que o estatuto ou lei em si não continua, não há
necessidade de supor que sua condenação continue a ficar no caminho da
aceitação de nossa virtude. E, de fato, não há outra maneira de evitar essa
dificuldade; a condenação da lei deve permanecer em vigor contra um homem até
que ele esteja realmente interessado no Salvador, que satisfez e obedeceu à lei
efetivamente para impedir qualquer aceitação de sua virtude, antes, ou a fim de
tal interesse, a menos que a lei ou o estatuto em si seja abolida. Porém o
esquema desses teólogos modernos, por quem isso é sustentado, parece conter uma
grande quantidade de absurdo e autocontradição. Eles sustentam que a antiga lei
dada a Adão, a qual requer obediência perfeita, encontra-se totalmente
revogada, e que, em vez disso, somos colocados sob uma nova lei, a qual exige
não mais do que obediência imperfeita, sincera, em conformidade com nossas
circunstâncias pobres, enfermas e impotentes desde a queda, onde por sermos
incapazes de efetuar essa obediência perfeita que era exigida pela primeira lei.
Pois eles sustentam vigorosamente que seria injusto Deus exigir qualquer coisa
de nós que esteja além do nosso poder e capacidade atuais de realizar; e ainda
assim eles sustentam que Cristo morreu para satisfazer as imperfeições de nossa
obediência, de modo que nossa obediência imperfeita possa ser aceita no lugar
da perfeita. Agora, como essas coisas podem ficar juntas? Eu perguntaria, essas
imperfeições de nossa obediência são uma violação de qual lei? Se não são uma
violação de nenhuma lei, então elas não pecados, e se elas não são pecados, qual
a necessidade da morte de Cristo para fazer satisfação por elas? Porém se elas
são pecados, e assim a violação de alguma lei, de qual lei? Elas não podem ser
uma violação de sua nova lei, pois esta não requer senão obediência imperfeita,
ou obediência com imperfeições; e elas não podem ser uma violação da antiga
lei, pois eles dizem que ela está inteiramente abolida, e nunca estivemos sob
ela; e não podemos infringir uma lei sob a qual nunca estivemos. Dizem que não
seria justo Deus exigir de nós a obediência perfeita, porque não seria justo
Deus exigir mais de nós do que podemos realizar em nosso estado atual e nos
punir por falharmos, e, portanto, mediante seu próprio esquema, as imperfeições
de nossa obediência não merecem ser punidas. Qual a necessidade, portanto, da
morte de Cristo para satisfazê-las? Qual a necessidade do sofrimento de Cristo
para fazer satisfação pelo que não é falha e em sua própria natureza não merece
sofrimento? Qual a necessidade da morte de Cristo para conseguir que nossa
obediência imperfeita seja aceita, quando, de acordo com seu esquema, seria
injusto em si mesmo que qualquer outra obediência a não ser a imperfeita deve
ser requerida? Qual a necessidade da morte de Cristo para abrir caminho para
que Deus aceite tal obediência, pois seria em si injusto ele não aceitar? Há
necessidade da morte de Cristo para persuadir a Deus a não agir injustamente?
Se for dito que Cristo morreu para satisfazer essa lei por nós para que não
estejamos sob essa lei, mas que sejamos libertos dela para que possa haver oportunidade
de estarmos sob uma lei mais branda; ainda assim eu perguntaria: Qual a
necessidade da morte de Cristo para que não estejamos sob uma lei sob a qual
(de acordo com seu esquema) seria em si mesmo injusto estarmos, porque em nosso
estado atual não somos capazes de guardá-la? Qual a necessidade da morte de
Cristo para que não estejamos sob uma lei sob a qual seria injusto estar se
Cristo morreu ou não?
Até
agora eu tenho argumentado principalmente a partir da razão e da natureza das
coisas. Eu prossigo agora para o
Segundo argumento, que é, que esta é uma doutrina
que a Sagrada Escritura, aquela revelação que Deus nos deu de sua mente e
vontade, pela qual nunca poderemos saber como aqueles que ofenderam Deus podem
vir a ser aceitos por ele e justificados aos seus olhos, é excessivamente
copiosa. Particularmente o apóstolo Paulo é abundante em ensinar que somos
justificados somente pela fé sem as obras da lei; não há uma doutrina sobre a
qual ele insista tanto e seja particular nele, e que ele lide com tanta
distinção, explicando e dando razões, e respondendo a objeções.
Não
é negado aqui, por ninguém, que o apóstolo afirma que somos justificados pela
fé sem as obras da lei, porque as palavras são categóricas, mas apenas é dito
que compreendemos errado suas palavras e entendemos por elas o que nunca esteve
em seu coração, pelas quais, quando ele exclui as obras da lei, nós o
entendemos como toda a lei de Deus ou a regra que ele deu à humanidade pela
qual caminhar, enquanto que tudo o que ele pretende é a lei cerimonial.
Alguns
que se opõem a essa doutrina de fato dizem que o apóstolo, às vezes, quer dizer
que é pela fé, ou seja, uma aceitação sincera do evangelho em seu primeiro ato,
somente ou sem qualquer vida santa anterior, que as pessoas são admitidas a um
estado justificado; mas, dizem eles, é mediante uma obediência perseverante que
elas continuam em um estado justificado, e é mediante esta obediência
perseverante que elas são finalmente justificadas. Porém isso é a mesma coisa
que dizer que um homem é condicionalmente justificado e perdoado em sua
aceitação inicial do evangelho. Perdoar o pecado é libertar o pecador da sua punição,
ou daquela miséria eterna que é devida a ele; e, portanto, se uma pessoa é
perdoada, ou libertada dessa miséria, em sua aceitação inicial do evangelho e, todavia,
não finalmente libertada, mas sua liberdade real ainda depende de alguma
condição ainda a ser realizada, é inconcebível como ela pode ser perdoada de
outra forma senão condicionalmente. Isto é, ela não é devidamente realmente perdoada
e livre da punição, mas apenas tem a promessa de Deus de que será perdoada por
meio de condições futuras. Deus lhe promete que se ela perseverar na obediência
será finalmente perdoada, ou realmente libertada do inferno. O que é não fazer
nada da grande doutrina da justificação somente pela fé do apóstolo; tal perdão
condicional não é perdão ou justificação, não mais do que toda a humanidade tem
se aceitar o evangelho ou não; pois todos têm a promessa de justificação final mediante
condições de obediência sincera futura, tanto quanto aquele que aceita o evangelho.
Porém para não discutir sobre isso, vamos supor que possa haver uma coisa ou
outra na aceitação inicial do evangelho pelo pecador, que pode ser devidamente
chamada de justificação ou perdão e, todavia, que a justificação final, ou a liberdade
real da punição do pecado, ainda está suspensa sob condições até então não
cumpridas. No entanto, aqueles que sustentam que os pecadores são justificados dessa
maneira ao aceitar o evangelho, supõem que eles são justificados por isso, a não
ser que seja um ato precedente de obediência, ou pelo menos como virtude e
bondade moral neles, e, portanto, seriam excluídos pelo apóstolo tanto quanto
qualquer outra virtude ou obediência, se for permitido que ele se refira à lei
moral quando exclui obras da lei. E, portanto, se esse ponto for consentido,
que o apóstolo se refere à moral e não apenas a lei cerimonial, todo o seu
esquema cai por terra.
E porque
o ponto de debate de todo o argumento desses textos nas epístolas de São Paulo
depende da determinação deste ponto, eu serei específico na sua discussão.
Alguns
de nossos oponentes nesta doutrina da justificação, quando negam que o apóstolo
se refere à lei moral, ou a toda a regra da vida que Deus deu à humanidade,
quando usa a expressão pela lei, parecem escolher se expressarem assim, que o apóstolo
pretende se referir apenas à dispensação mosaica. Porém isso é exatamente a
mesma coisa que se dissessem que o apóstolo apenas pretende excluir as obras da
lei cerimonial. Pois quando dizem que é pretendido apenas que não sejamos
justificados pelas obras da dispensação mosaica, se eles querem dizer alguma
coisa com isso, deve ser que não somos justificados por tomar parte e observar
o que é mosaico nessa dispensação, ou pelo o que era peculiar a ela, e no que
ela difere da dispensação cristã. O que é o mesmo que é cerimonial e positivo,
e não moral, nessa administração. Então é isso que eu tenho que refutar, a
saber, que o apóstolo, quando fala das obras da lei neste caso, se refere
apenas às obras da lei cerimonial, ou aquelas observâncias que eram peculiares
à administração do mosaica.
E
aqui deve ser notado que ninguém discute isso com eles, se as obras da lei
cerimonial não estão inclusas, ou se o apóstolo não argumenta particularmente
contra a justificação pela circuncisão e por outras observâncias cerimoniais. Mas
tudo o que está em discussão é, se quando ele nega a justificação pelas obras
da lei ele deve ser entendido como se referindo apenas à lei cerimonial, ou se
a lei moral também não está implícita e pretendida; e, portanto, os argumentos
que são trazidos para provar que o apóstolo se refere à lei cerimonial não servem
ao propósito, a menos que provem mais do que isso, a saber, que o apóstolo se
refere apenas a elas.
No
que se insiste muito é que foram os cristãos judaizantes, que gostavam tanto da
circuncisão e de outras cerimônias da lei, e dependiam tanto disso, que foram a
própria ocasião do apóstolo escrever contra a justificação pelas obras da lei. Porém
supondo que foi assim, que sua confiança nas obras da lei cerimonial foi a
única ocasião do apóstolo escrever (o que todavia não há razão para admitir,
como pode aparecer depois), se sua confiança em uma determinada obra como obra
de justiça foi tudo o que deu ocasião ao apóstolo de escrever, como segue,
portanto, que o apóstolo não escreveu naquela ocasião contra confiar em todas
as obras de justiça? Onde está o absurdo de supor que o apóstolo pôde aproveitar
a ocasião de observar alguns confiando em uma determinada obra como uma obra de
justiça escrever-lhes contra pessoas que confiavam totalmente em qualquer obra
de justiça, e esta era uma ocasião muito adequada também? Sim, teria sido
inevitável para o apóstolo ter argumentado contra confiar em uma determinada
obra nessa qualidade de uma obra de justiça, cuja qualidade era geral, mas ele
deve nesse sentido argumentar contra confiar nas obras de justiça em geral.
Supondo que tenha sido algum outro tipo particular de obras que foi a ocasião
do apóstolo escrever, como por exemplo, obras de caridade. O apóstolo deveria, consequentemente,
aproveitar a oportunidade para escrever-lhes a não confiar em suas obras. Poderia
o apóstolo por isso ser entendido como nenhuma outra obra além de obras de
caridade? Teria sido absurdo entendê-lo como escrevendo contra confiar em
qualquer obra, por que sua confiança era em uma obra particular que deu ocasião
ao seu escrito?
Outra
coisa alegada como prova de que o apóstolo se refere à lei cerimonial quando
diz que não podemos ser justificados pelas obras da lei, é que ele usa esse
argumento para provar isso, a saber, que esta lei da qual ele fala foi dada muito
tempo depois da aliança com Abraão em Gálatas
3.17, “E digo isto: uma aliança já anteriormente confirmada por Deus, a lei,
que veio quatrocentos e trinta anos depois, não a pode ab-rogar, de forma que
venha a desfazer a promessa.” Porém, dizem eles, foi apenas a administração mosaica
e não a aliança das obras que foi dada muito tempo depois. Porém, para eles,
parece que o argumento do apóstolo está claramente errado. O apóstolo não fala
de uma lei que começou a existir 430 anos depois; se ele o fez, haveria alguma
força em sua objeção, mas por meio da frase “dádiva da lei” ele faz referência
a uma certa transação solene, bem conhecida entre os judeus, a qual foi aquela
grande transação no Monte Sinai que temos registrada em Êxodo 19-20, que consiste especialmente na
entrega dos Dez Mandamentos de Deus, que é a lei moral, com uma voz terrível, cuja
lei ele deu depois em tábuas de pedra. Os judeus, no tempo do apóstolo,
interpretavam mal esta transação, eles a viam como o estabelecimento de Deus
como uma regra de justificação. É contra esta presunção[11] deles que o apóstolo traz este argumento
invencível, a saber, que Deus nunca cancelaria sua aliança com Abraão, a qual
era claramente uma aliança da graça, mediante uma transação com sua posteridade
que foi dada muito tempo depois dela, e que foi claramente construída sobre ela;
ele não destruiria uma aliança da graça que fora estabelecida muito antes com
Abraão, para ele e sua descendência (o que é muitas vezes mencionado como a
base sobre a qual Deus os faz seu povo), mediante o estabelecimento agora de uma
aliança de obras com eles, no Monte Sinai, como os judeus e cristãos judaizantes
supunham.
Porém
que o apóstolo não se refere apenas às obras da lei cerimonial, quando exclui
obras da lei na justificação, mas também às obras da lei moral e todas as obras
de obediência, virtude e justiça, pode tornar-se evidente pelas seguintes
coisas.
1.
O apóstolo não diz apenas que não somos justificados pelas obras da lei, mas
que não somos justificados por obras, utilizando um termo geral. Como é dito em
nosso texto: “ao que não trabalha, porém crê naquele que justifica”, etc., e em
Romanos 4.6, “E é assim também que
Davi declara ser bem-aventurado o homem a quem Deus atribui justiça,
independentemente de obras.” E Romanos 11.6,
“E, se é pela graça, já não é pelas obras, do contrário, a graça já não é
graça.”[12] Assim Efésios 2.8-9, “Porque pela graça sois
salvos, mediante a fé,... não de obras.” Por isso, não há razão no mundo para
entender o apóstolo de qualquer outro modo que não seja obras em geral, como
correlatos de uma recompensa, ou boas obras, ou obras de virtude e justiça.
Quando o apóstolo diz que não somos justificados ou salvos por obras, sem
qualquer termo anexado como “a lei”, ou qualquer outro acréscimo para limitar a
expressão, que permissão qualquer um tem de limitar-se a obras de uma
determinada lei, ou instituição, excluindo outras? Não existem observâncias de
outras leis divinas, assim como desta? Parece ser permitido pelos teólogos do
esquema arminiano, em sua interpretação de vários desses textos onde o apóstolo
menciona apenas obras sem qualquer acréscimo, que ele quer dizer nossas
próprias boas obras em geral, mas então eles dizem, ele apenas quer dizer
excluir qualquer mérito próprio nessas obras. Porém dizer que o apóstolo se
refere a uma coisa quando ele diz que não nos justificamos por obras, outra
quando ele diz que não somos justificamos pelas obras da lei, quando encontramos
as expressões misturadas e usadas no mesmo discurso, e quando o apóstolo está
evidentemente no mesmo argumento, é muito irracional, é esquivar-se e fugir das
Escrituras em vez de nos abrirmos e nos rendermos aos seus ensinos.
2. Em
Romanos 3, sermos culpados de
violações da lei moral, é um argumento que o apóstolo usa como a razão pela
qual não podemos ser justificados pelas obras da lei. Começando com Romanos 3.9, ele prova, a partir do
Antigo Testamento, que todos estão sob pecado; “não há justo, nem um sequer”, “a
garganta deles é sepulcro aberto; com a língua urdem engano”, “a boca, eles a têm
cheia de maldição e de amargura”, e “são os seus pés velozes para derramar
sangue”. E assim ele continua mencionando apenas aquelas coisas que são violações
da lei moral e, então, após ter feito, sua conclusão é, em Romanos 3.19-20, “Ora, sabemos que tudo o que a lei diz, aos que vivem
na lei o diz para que se cale toda boca, e todo o mundo seja culpável diante de
Deus, visto que ninguém será justificado diante dele obras da lei, em razão de
que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado.” Este é mais evidentemente o
seu argumento, porque todos pecaram (como foi dito em Romanos 3.9) e são culpados dessas violações da lei moral que ele
mencionou (e é repetido novamente, subsequentemente a Romanos 3.23). “Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus.”
Portanto, ninguém pode ser justificado pelas obras da lei. Agora, se o apóstolo
quis dizer apenas que não somos justificados pelas obras da lei cerimonial, que
tipo de argumentação seria: “a boca, eles a têm cheia de maldição e de amargura;
são os seus pés velozes para derramar sangue”, portanto, eles não podem ser
justificados pelas obras da administração mosaica? Eles são culpados das
violações da lei moral e por isso não podem ser justificados pelas obras da lei
cerimonial? Sem dúvida, o argumento do apóstolo é que a mesma lei que eles
infringiram e contra a qual pecaram nunca pode justificá-los como seus cumpridores,
porque toda lei não justifica, mas necessariamente condena seus infratores; e,
portanto, nossas violações da lei moral não argumentam senão que não podemos
ser justificados por essa lei que quebramos.
E
pode-se notar que o argumento do apóstolo aqui é o mesmo que eu já usei, a
saber, que visto que estamos em nós mesmos e fora de Cristo, estamos sob a
condenação dessa lei original ou estatuto que Deus estabeleceu com a humanidade,
e por isso não convém que qualquer coisa que façamos, qualquer virtude ou
obediência nossa, deve ser aceita, ou que sejamos aceitos por causa dessas
coisas.
3.
O apóstolo, em toda a parte anterior desta epístola, onde quer que ocorra a expressão
“a lei”, evidentemente intenta principalmente a lei moral. Como em Romanos 2.12, “Assim, pois, todos os que
pecaram sem lei também sem lei perecerão”. Evidentemente, o apóstolo se refere
à lei moral escrita, pelo versículo 14, “Quando, pois, os gentios que não têm
lei, procedem, por natureza, de conformidade com a lei...”, ou seja, a lei
moral que os gentios têm por natureza. E assim o próximo versículo, “Estes
mostram a norma da lei gravada no seu coração.” É a lei moral, não a cerimonial,
que está escrita nos corações daqueles que são destituídos da revelação divina.
E assim em Romanos 2.18, “que conheces
a sua vontade e aprovas as coisas excelentes, sendo instruídos na lei.” É a lei
moral que nos mostra a natureza das coisas e nos ensina o que é excelente. [E] Romanos 2.20, “tendo na lei a forma da sabedoria
e da verdade.” É a lei moral, como é evidente pelo que segue, Romanos 2.22-23, “Dizes que não deve
cometer adultério e o cometes? Abominas os ídolos e lhes roubas os templos? Tu,
que glorias na lei, desonras a Deus pela transgressão da lei?” Adultério,
idolatria e sacrilégio certamente são a quebra da moral, não da lei cerimonial.
Assim em Romanos 2.27, “E, que é
incircunciso por natureza cumpre a lei, certamente ele te julgará a ti, que não
obstante a letra e a circuncisão, és transgressor da lei”, ou seja, os gentios,
que você despreza porque são incircuncisos, se eles vivem vidas morais e santas,
em obediência à lei moral, condenarão embora você seja circuncidado. E assim
não há um lugar em toda a parte anterior da epístola onde o apóstolo fale da
lei que ele evidentemente não se refere principalmente à lei moral; e mesmo
quando o apóstolo, em continuidade do mesmo discurso, vem nos dizer que não
podemos ser justificados pelas obras da lei, então eles precisam tê-la, ele
quer dizer com isto apenas a lei cerimonial; sim, embora todo esse discurso
sobre a lei moral, mostrando como os judeus, bem como os gentios, a violaram, é
evidentemente preparatório e introdutório a essa doutrina, Romanos 3.20, que “nenhuma carne”, isto é, ninguém da humanidade,
nem judeus nem gentios, pode ser justificado pelas obras da lei.
4.
É evidente que, quando o apóstolo diz que não podemos ser justificados pelas
obras da lei, ele se refere tanto à lei moral quanto à cerimonial, ao
apresentar esta razão para isto, que “pela lei vem o pleno conhecimento do
pecado”, conforme Romanos 3.20, “Visto
que ninguém será justificado diante dele por obras da lei, em razão de que pela
lei vem o pleno conhecimento do pecado.” Ora, essa lei pela qual chegamos ao
conhecimento do pecado é principal e primeiramente a lei moral. Se esse
argumento do apóstolo é bom, que não podemos ser justificados pelas obras da
lei porque é pela lei que chegamos ao conhecimento do pecado, então isto prova
que não podemos ser justificados pelas obras da lei moral, nem pelos preceitos
do cristianismo, pois por meio deles vem o conhecimento do pecado. Se a razão é
boa, então onde a razão vigora, a verdade vigora. É um artifício miserável e
uma força violenta colocada sobre as palavras dizer que o significado é que o
conhecimento do pecado se dá mediante a lei da circuncisão, porque a
circuncisão significa o tomar o caminho do pecado, relembrar os homens do
pecado. O significado claro do apóstolo é que, visto que a lei proíbe mais
estritamente o pecado, ela tende a nos convencer do pecado e a levar nossas
próprias consciências a nos condenar em vez de nos justificar; que a função
dela é declarar nossa própria culpa e indignidade, o que é o inverso de nos
justificar e nos aprovar como virtuosos ou dignos. Este é o significado do apóstolo
se permitirmos que ele seja seu próprio intérprete; pois ele mesmo nos explica nesta
epístola como é que temos o conhecimento do pecado por meio da lei e que o
pecado é proibido pela lei. Romanos
7.7, “Mas eu não teria conhecido o pecado, senão por intermédio da lei;
pois não teria eu conhecido a cobiça, se a lei não dissera: Não cobiçarás.” Ali
o apóstolo estabelece duas coisas: primeira, que, o modo pelo qual, “pela lei
vem o pleno conhecimento do pecado”, o pecado é proibido pela lei; e, segunda,
o que está ligado até mais diretamente ao propósito, ele estabelece que é
mediante a lei moral que chegamos ao conhecimento do pecado; pois diz ele, “não
teria eu conhecido a cobiça, se a lei não dissera: Não cobiçará”. Assim sendo, é
a lei moral, não a lei cerimonial, que diz não cobiçarás. Portanto, quando o apóstolo
argumenta que nenhum ser vivo deve ser justificado pelas obras da lei, porque a
lei leva ao conhecimento do pecado, seu argumento prova (a menos que ele tenha
se enganado quanto à força de seu argumento) que não podemos ser justificados
pelas obras da lei moral.
5.
É evidente que o apóstolo não se refere apenas à lei cerimonial, porque ele apresenta
essa razão pela qual temos justiça e direito ao privilégio de filhos de Deus,
não pela lei, mas pela fé, “porque a lei suscita a ira”. Romanos 4.13-16, “Não foi por intermédio
da lei que a Abraão ou a sua descendência coube a promessa de
ser herdeiro do mundo, e sim mediante a justiça da fé. Pois, se os da lei é que
são os herdeiros, anula-se a fé e cancela-se a promessa, porque a lei suscita a
ira; mas onde não há lei, também não há transgressão. Essa é a razão por que
provém da fé, para que seja segundo a graça.” Ora, a forma como a lei provoca a ira,
pelo relato mostrado pelo apóstolo no argumento que ele mesmo anexa, é
proibindo o pecado e agravando a culpa da transgressão; “mas”, diz ele, “onde não
há lei, também não há transgressão”. E assim, Romanos 7:13, o pecado “pelo mandamento, se mostrasse sobremaneira
maligno.” Se, portanto, essa premissa do apóstolo é boa, ela é muito mais forte
contra a justificação mediante lei moral do que contra a lei cerimonial; pois é
principalmente pelas transgressões da lei moral que vem a ira; pois elas são
mais estritamente proibidas e terrivelmente ameaçadas.
6.
É evidente que, quando o apóstolo diz que não somos justificados pelas obras da
lei, ele exclui toda a nossa virtude, bondade ou excelência próprias, em
virtude da razão que ele dá para isso, a saber, Romanos 3.26-28, “tendo em vista a manifestação da sua justiça no
tempo presente, para ele mesmo ser justo e o justificador daquele que tem fé em
Jesus. Onde, pois, a jactância? Foi de todo excluída. Por que lei? Das obras?
Não, pelo contrário, pela lei da fé. Concluímos, pois, que o homem é
justificado pela fé, independentemente das obras da lei.” Efésios 2.8-9, Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto
não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie.” Ora,
do que os homens costumam se orgulhar a não ser do que eles consideram sua
própria bondade ou excelência? Se não somos justificados por obras da lei
cerimonial, ora como isso exclui a jactância, contanto que sejamos justificados
por nossa própria excelência, ou virtude e bondade próprias, ou obras de
justiça que fazemos?
Porém
é dito que a jactância é excluída, como a circuncisão foi excluída, que era o
que os judeus usavam especialmente para glorificarem-se e valorizarem-se sobre
as outras nações.
A
isso eu respondo, que os judeus não tinham apenas o hábito se orgulhar da
circuncisão, mas eram notórios por se orgulharem de sua justiça moral. Os
judeus daqueles dias eram, em geral, admiradores e seguidores dos fariseus, que
estavam cheios de seu orgulho por cauda da sua justiça moral, como podemos ver
pelo exemplo do fariseu mencionado no décimo oitavo capítulo de Lucas, a quem
Cristo menciona como descrevendo a disposição mental geral dessa seita; “Ó
Deus”, diz ele, “graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores,
injustos e adúlteros.” As obras das quais ele se orgulha eram principalmente
obras morais; ele dependia das obras da lei para a justificação e, por essa
razão, Cristo nos diz que o publicano, que renunciou a toda a sua própria
justiça, “desceu justificado para sua casa, e não aquele.” E em outros lugares
[Mateus 6.2] lemos sobre os fariseus
orando nos cantos das ruas e tocando uma trombeta diante deles quando davam
esmolas, mas essas obras, das quais eles tão vãmente se orgulhavam, eram obras
morais. E não apenas isso, mas o que o apóstolo, nesta mesma epístola, está
condenando nos judeus é a sua jactância da lei moral. Romanos 2.22-23, “Dizes que não se deve cometer adultério e o
cometes? Abominas os ídolos e lhes roubas os templos? Tu, que te glorias na
lei, desonras a Deus pela transgressão da lei?” A lei aqui mencionada, da qual
eles se orgulhavam, era aquela da qual o adultério, a idolatria e o sacrilégio
eram violações, que é a lei moral. De modo que esta é a jactância pela qual o
apóstolo os condena; e, por esta razão, se eles fossem justificados pelas obras
desta lei, então como é que o apóstolo diz que sua jactância é excluída? E,
além disso, quando eles se orgulhavam dos ritos da lei cerimonial era sob a
noção de ser parte de sua própria bondade ou excelência, ou o que os tornava
mais santos e mais amáveis aos olhos de Deus do que outros povos. E se eles não
foram justificados por esta parte de sua suposta bondade ou santidade próprias,
mas se foram por alguma outra, como isso excluiu a jactância? Como sua
jactância é excluída, a menos que toda bondade ou excelência próprias seja
excluída?
7.
A razão do por que podemos ser justificados somente pela fé e não pelas obras
da lei é dada pelo apóstolo em Gálatas 3,
a saber, que aqueles que estão sob a lei estão sob a maldição, torna evidente
que ele não se refere apenas à lei cerimonial. Neste capítulo, de modo
particular, o apóstolo insiste que Abraão foi justificado pela fé, e que é
apenas pela fé, não pelas obras da lei, que podemos ser justificados, nos
tornar filhos de Abraão e sermos participantes da bênção de Abraão. E ele apresenta
a razão para isso em Gálatas 3.10, “Todos
quantos, pois, são das obras da lei estão debaixo de maldição; porque está
escrito: Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no Livro
da Lei, para cumpri-las.” É evidente que essas palavras, citadas de Deuteronômio 27.26, são ditas não apenas
com relação a lei cerimonial, mas a toda a lei de Deus para a humanidade, e
principalmente a lei moral; e que toda a humanidade está, portanto, como está
em si mesma sob essa maldição, não apenas enquanto a lei cerimonial durou, mas
agora que ela cessou. E, portanto, todos os que são justificados são redimidos
dessa maldição, por Cristo tê-la carregado por eles; como lá em Gálatas 3.13, “Cristo nos resgatou da
maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar (porque está
escrito: Maldito todo aquele que for pendurado em madeiro).” Assim, portanto,
ou é dito assim, que amaldiçoado é “aquele que não permanece em todas as coisas
escritas no livro da lei, para cumpri-las”, é uma boa razão pela qual não
podemos ser justificados pelas obras dessa lei, da qual é isto dito, ou não é. Se
for, então é uma boa razão pela qual não podemos ser justificados pelas obras
da lei moral e por toda regra de comportamento que Deus deu à humanidade; pois
as palavras são ditas tanto acerca da lei moral quanto da cerimonial, e se
estendem a todos os mandamentos ou preceitos que Deus deu à humanidade, e
principalmente os preceitos morais, que estão mais estritamente unidos, e cujas
violações, tanto no Novo Testamento quanto no Antigo e nos livros de Moisés são
ameaçadas com a maldição mais terrível.[13]
8.
O apóstolo argumenta de forma semelhante contra o sermos justificados por nossa
justiça própria, como faz contra o sermos justificado pelas obras da lei; e
evidentemente usa as expressões “justiça própria” e “obras da lei” indiscriminadamente
e como significando a mesma coisa. Isto é particularmente evidente em Romanos 10.3, “Porquanto, desconhecendo
a justiça de Deus e procurando estabelecer a sua própria, não se sujeitaram à que
vem de Deus.” Aqui é claro que a mesma coisa é afirmada, como nos dois penúltimos
versículos do capítulo anterior, “e Israel, que buscava a lei de justiça, não
chegou a atingir essa lei. Por que? Porque não decorreu da fé, e sim como que
das obras da lei.” E é muito irracional, por várias razões, supor que o apóstolo
tenha em mente por “justiça própria” apenas sua justiça cerimonial. Pois,
quando o apóstolo nos adverte contra o confiar em nossa justiça própria para a justificação,
sem dúvida é legítimo interpretar a expressão de acordo com outras Escrituras,
onde somos advertidos a não pensar que é por causa de nossa justiça própria que
obtemos o favor e a bênção de Deus; como por exemplo particularmente em Deuteronômio 9.4-6, “Quando, pois, o Senhor, teu Deus, os tiver lançado de
diante de ti, não digas no teu coração: Por causa da minha justiça é que o Senhor me trouxe a esta terra para a
possuir, porque, pela maldade destas gerações é que o Senhor as lança de diante de ti. Não é por causa da tua
justiça, nem pela retitude do teu coração que entras a possuir a sua terra, mas
pela maldade destas nações o Senhor,
teu Deus, as laça de diante de ti; e para confirmar a palavra que o Senhor, teu Deus, jurou a teus pais,
Abraão, Isaque e Jacó. Sabe, pois, que não é por causa da tua justiça que o Senhor, teu Deus, te dá esta boa terra
para possuí-la, pois tu és povo de dura cerviz.”
Ninguém
pretenderá que a expressão “tua justiça” aqui significa apenas uma justiça
cerimonial, mas toda virtude ou bondade própria. Sim e a bondade interior do
coração, bem como a bondade exterior da vida; a qual aparece no início de Deuteronômio 9.5, “Não por causa da tua
justiça, nem pela retitude do coração,...”; e também pela antítese em Deuteronômio 9.6, “Não por causa da tua
justiça,... pois tu és povo de dura cerviz.” Sua dura cerviz era sua maldade
moral, obstinação e perversidade de coração; justiça, portanto, ao contrário,
significa sua virtude moral, e retidão de coração e de vida. Isto é o que eu
diria a partir daqui, que a expressão “nossa justiça própria”, quando usada nas
Escrituras em relação ao favor de Deus, e quando somos advertidos contra considerá-la
como aquilo pelo que esse favor ou seus frutos são obtidos, não significa
apenas uma justiça cerimonial, mas todo tipo de bondade de nossa parte.
Os
judeus também são condenados no Novo Testamento por confiarem em sua justiça própria
nesse sentido; Lucas 18.9, etc.,
“Propôs também esta parábola a alguns que confiavam em si mesmos, por se
considerarem justos.” Isso significa principalmente uma justiça moral, como torna-se
evidente pela própria parábola, na qual temos um relato da oração do fariseu, nas
coisas que ele menciona, quanto ao em que ele confia, são principalmente
qualificações e realizações morais, a saber, que ele não era um roubador, um
injusto, nem um adúltero etc.
Porém
não precisamos ir aos escritos de outros escritores da Escritura, mas se
permitirmos que o apóstolo Paulo seja seu próprio intérprete quando ele fala de
nossa justiça própria como aquilo pelo que não somos justificados ou salvos,
não se refere apenas a uma justiça cerimonial, nem pretende apenas um modo de
religião e de servir a Deus, de nossa própria preferência e escolha sem autorização
ou prescrição divinas, mas por nossa justiça própria ele quer dizer o mesmo que
uma justiça praticada por nós, seja um serviço ou justiça prescritos por Deus,
ou nossa própria realização injustificada (Não autorizada). Seja uma obediência
à lei cerimonial, ou uma obediência evangélica, ou o que for, se for uma
justiça praticada por nós é excluída pelo apóstolo neste caso, como é evidente
por Tito 3.5, “Não por obras de
justiça praticadas por nós.”[14] Porém
eu insistiria mais particularmente neste texto e, por isso, este pode ser o
9.
[Nono] argumento, de que o apóstolo, quando rejeita a justificação pelas obras,
por obras da lei e por nossa justiça própria, não se refere apenas às obras da
lei cerimonial, a saber, o que é dito pelo apóstolo em Tito 3.3-7, “Pois nós também, outrora, éramos néscios,
desobedientes, desgarrados, escravos de toda sorte de paixões e prazeres,
vivendo em malícia e inveja, odiosos e odiando-nos uns aos outros. Quando,
porém, se manifestou a benignidade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor para
com todos, não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo a sua
misericórdia, ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do
Espírito Santo, que ele derramou sobre nós ricamente, por meio de Jesus Cristo,
nosso Salvador, a fim de que, justificados por sua graça, nos tornemos seus
herdeiros, segundo a esperança da vida eterna.” São aqui excluídas as obras de
justiça praticadas, como aquilo pelo que não somos salvos nem justificados. O apóstolo
diz expressamente, não somos salvos por elas; e é evidente que, quando ele diz
isso, ele se refere à questão da justificação, e que ele quer dizer, não somos
salvos por elas nem somos justificados por elas, como o penúltimo versículo,
que faz parte da mesma frase, “justificados por sua graça, nos tornamos seus
herdeiros, segundo a esperança da vida eterna.”
São
várias as maneiras que manifestam que, neste texto, pela expressão “obras de
justiça praticadas por nós”, o apóstolo não se refere apenas às obras da lei
cerimonial. Isto torna-se óbvio por Tito
3.3, “Pois nós também, outrora, éramos néscios, desobedientes, desgarrados,
escravo de toda sorte de paixões e prazeres, vivendo em malícia e inveja,
odiosos e odiando-nos uns aos outros.” O apóstolo observa que eles viviam
nessas violações da lei moral antes de serem justificados; e é muito claro que é
isso que proporciona ao apóstolo a ocasião para fazer o comentário que faz em Tito 3.5, de que não foi pelas obras de
justiça que tinham feito que eles foram salvos ou justificados.
Porém
não precisamos ir ao contexto, é muitíssimo evidente, a partir das próprias
palavras, que o apóstolo não se refere apenas às obras da lei cerimonial. Se
ele tivesse dito apenas que não é por nossas próprias obras de justiça, o que
poderíamos entender por “obras de justiça” se não apenas “obras justas” ou, o que
é a mesma coisa, “boas obras”? E dizer que é por nossas próprias obras justas
que somos justificados, embora não por um tipo particular de obras justas,
certamente seria uma contradição a essa afirmação. Porém as palavras são expressas
de modo ainda mais forte, claro e determinado em seu sentido mediante essas
palavras adicionais, “praticadas por nós”; o que mostra que o apóstolo pretende
excluir todas as nossas próprias obras justas ou virtuosas universalmente. Se isso
deve ser afirmado em relação a qualquer mercadoria, tesouro ou joia preciosa
que não podem ser adquiridos por dinheiro, e não somente isso, mas para tornar
a afirmação mais forte, deve ser afirmado com palavras adicionais que não pode
ser adquirida pelo dinheiro que os homens possuem; quão irracional seria,
afinal, dizer que tudo a que se refere era que não podia ser adquirido com
dinheiro de metal?
E o
que torna a interpretação deste texto como se referindo as obras da lei
cerimonial ainda mais irracional é que essas obras não eram de fato obras de
justiça, mas eram apenas falsamente assim pressupostas pelos judeus; e que
nossos oponentes nesta doutrina pressupõem ser a própria razão pela qual não somos
justificados por elas, porque não são obras de justiça, ou porque (a lei
cerimonial sendo agora revogada) não há obediência nelas. Mas quão absurdo é
dizer que o apóstolo, quando diz que não somos justificados por obras de
justiça praticadas por nós, se refere apenas às obras da lei cerimonial, e que
por essa mesma razão não são obras de justiça. Para ilustrar isso mediante a
comparação mencionada. Se fosse afirmado que tal coisa não pode ser obtida mediante
o dinheiro que os homens possuem, como seria ridículo dizer que o significado é
somente que não pode ser adquirida por dinheiro falso; e isto por esta razão,
porque não era dinheiro. O que permanecerá das Escrituras se tomarem a
liberdade de manejar as Escrituras assim? Ou que texto há na Bíblia que não possa,
neste caso, ser totalmente explicado e deturpado para algum sentido que os
homens desejem.
Porém,
além disso, se permitirmos que o apóstolo pretenda apenas se opor à justificação
pelas obras da lei cerimonial neste texto, ainda é evidente, pela expressão que
ele usa, que ele pretende se opor à justificação sob essa noção, ou nessa
qualidade, da existência de obras de justiça praticadas por nós. Porém se o apóstolo
argumenta contra a nossa justificação pelas obras da lei cerimonial sob a noção
da existência dessa natureza e tipo, a saber, obras de nossa própria autoria,
então seguirá que o argumento do apóstolo é forte não apenas contra aquelas,
mas contra todas dessa natureza e tipo, igualmente todas que são de nossa
autoria.
Se
não houvesse outro texto na Bíblia acerca da justificação a não ser este, este
provaria clara e invencivelmente que não somos justificados mediante alguma bondade,
virtude ou justiça de nossa parte, ou pela excelência ou justiça de qualquer
coisa que fizermos na religião, por causa do que é tão plena e fortemente
afirmado aqui. Porém este texto confirma abundantemente outros textos do apóstolo,
onde ele nega a justificação pelas obras da lei. Não há dúvida de que pode ser
feito racionalmente apenas isto, quando o apóstolo mostra aqui que Deus nos
salva de acordo com sua misericórdia, em que ele não nos salva por “obras de
justiça praticadas por nós (Tito 3.5), e que, deste modo, somos “justificados
por graça” (Tito 3.7), aqui opondo
salvação pelas obras e salvação pela graça, ele se refere às mesmas obras como
faz em outros lugares, onde ele, da mesma forma, opõe as obras e a graça; as
mesmas obras de Romanos 11.6, “E, se é
pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça, mas se
for pelas obras, então não é mais graça; caso contrário, obra não é mais obra.”
E as mesmas obras como em Romanos 4.4,
“Ora, ao que trabalha, o salário não é considerado como favor, e sim como
dívida.” E as mesmas obras que são expressas no contexto de Romanos 3.24, o capítulo anterior, as
quais o apóstolo chama ali de obras da lei, “sendo justificados gratuitamente,
por sua graça...”. E em Romanos 4.16,
“Essa é a razão por que provém da fé, para que seja segundo a graça.” Onde, no
contexto, a justiça da fé é oposta à justiça da lei. Pois aqui Deus estar nos
salvando de acordo com sua misericórdia e nos justificando pela graça é oposto
a nos salvar por obras de justiça que fazemos, da mesma forma que naqueles
lugares que justificar-nos por sua graça é oposto a justificar-nos mediante as
obras da lei.
10.
O apóstolo não poderia se referir apenas às obras da lei cerimonial quando diz
que não somos justificados pelas obras da lei, por causa do que é declarado
acerca dos santos sob o Antigo Testamento, bem como sob o Novo. Se os homens
são justificados por sua obediência sincera, seguirá então que, anteriormente,
antes da lei cerimonial ser revogada, os homens eram justificados pelas obras
da lei cerimonial, bem como pela moral. Pois se somos justificados por nossa
obediência sincera, então não altera o caso se os mandamentos são morais, ou
positivos, desde que sejam mandamentos de Deus, e nossa obediência seja
obediência a Deus. E, assim, o caso deve ser o mesmo sob o Antigo Testamento,
com as obras da lei moral e cerimonial, de acordo com a medida da virtude da
obediência existente em uma ou outra. É verdade que sua obediência à lei
cerimonial nada tinha a ver com a questão da justificação, a menos que fosse
sincera; e assim tampouco as obras da lei moral. A obediência à lei moral teria
a ver com a questão, se sincera; e assim seria a obediência à cerimonial. Se a
obediência era o assunto, então a obediência à lei cerimonial enquanto esta
estava em vigor, e a obediência à lei moral tinham o mesmo tipo de relação, de
acordo com a proporção de obediência em que consiste cada uma. Como agora, sob
o Novo Testamento, se a obediência é aquilo pelo que somos justificados, essa
obediência deve, sem dúvida, compreender a obediência a todos os mandamentos de
Deus agora em vigor, aos preceitos positivos de comparecimento ao batismo e a
Ceia do Senhor, bem como aos preceitos morais. Se a obediência é o assunto, não
é porque seja obediência a tal tipo de mandamentos, mas porque é obediência. De
modo que, mediante essa suposição, os santos sob o Antigo Testamento foram
justificados, pelo menos em parte, por sua obediência à lei cerimonial.
Todavia,
é evidente que os santos sob o Antigo Testamento não foram justificados, em
nenhuma medida, pelas obras da lei cerimonial. Isso pode ser provado seguindo
os passos da própria interpretação de nossos adversários da frase do apóstolo “as
obras da lei”; e supondo que por essa frase ele se refere apenas às obras da
lei cerimonial. Para o caso de Davi, é evidente que ele não foi justificado de
maneira alguma pelas obras da lei cerimonial por Romanos 4.6-8, “E é assim também que Davi declarou ser
bem-aventurado o homem a quem Deus atribui justiça, independentemente de obras:
Bem-aventurados aqueles cujas iniquidades são perdoadas, e cujos pecados são
cobertos; bem-aventurado o homem a quem o Senhor jamais imputará pecado.” É
claro que o apóstolo está falando de justificação aqui pelo versículo anterior
e por todo o contexto; e o assunto expresso, a saber, perdão de iniquidades e
cobertura de pecados, é o que nossos próprios adversários supõem ser justificação,
e até mesmo toda a justificação. Este Davi, falando de si mesmo, diz (pela
interpretação do apóstolo) que ele não tinha obras. Pois é evidente que Davi,
nas palavras aqui citadas, do início do Salmo
32, diz respeito especialmente
a si mesmo. Ele fala de seus próprios pecados sendo perdoados e não imputados a
ele. Como torna-se óbvio pelas palavras que vêm em seguida: “Enquanto calei os
meus pecados, envelheceram os meus ossos pelos meus constantes gemidos todo o
dia. Porque a tua mão pesava dia e noite sobre mim, e o meu vigor se tornou em
sequidão de estio. Confessei-te o meu pecado e a minha iniquidade não mais
ocultei. Disse: confessarei ao Senhor
as minhas transgressões; e tu perdoaste a iniquidade do meu pecado.” Compreendamos,
portanto, o apóstolo da forma que quisermos quando ele diz “por obras”, “Davi
descreve a bem-aventurança do homem a quem o Senhor imputa justiça sem obras”,
seja de todos os tipos de obras, ou apenas as obras da lei cerimonial, contudo é
evidente, pelo menos, que Davi não foi justificado pelas obras da lei
cerimonial. Portanto, aqui está o argumento: se nossa própria obediência for
aquilo pelo que os homens são justificados, então, sob o Antigo Testamento, os
homens foram justificados em parte pela obediência à lei cerimonial (como foi
provado), mas os santos sob o Antigo Testamento não foram justificados em parte
pelas obras da lei cerimonial; portanto, a obediência dos homens não é aquilo
pelo que eles são justificados.
11.
Outro argumento, de que o apóstolo quando fala das duas formas opostas de justificação,
uma pelas obras da lei e outra pela fé, não se refere apenas às obras da lei
cerimonial pode ser extraído deste lugar, Romanos
10.5-6, “Ora, Moisés escreveu que o homem que praticar a justiça decorrente
da lei viverá por ela. Mas a justiça decorrente da fé assim diz” etc. Duas
coisas são evidentes aqui:
(1)
Que o apóstolo fala aqui das mesmas duas formas opostas de justificação, uma
pela justiça que é da lei, a outra da pela fé, do que ele tratou na parte
anterior da epístola, e, portanto, deve ser a mesma lei que é expressa aqui. A
mesma lei é pretendida aqui como nos últimos versículos do capítulo anterior,
onde ele diz que os judeus “que buscava a lei de justiça, não chegou a atingir
essa lei. Por que? Porque não decorreu da fé, e sim como que das obras.” Como é
claro, porque o apóstolo ainda está falando da mesma coisa, as palavras são uma
continuação do mesmo discurso, como pode ser visto à primeira vista por
qualquer um que olhe para o contexto.
(2)
É evidente que Moisés, quando descreve a justiça decorrente da lei, ou a forma
de justificação pela lei, nas palavras aqui citadas: “o homem que praticar a
justiça decorrente da lei viverá por ela”, não fala apenas, nem principalmente,
das obras da lei cerimonial, pois ninguém pretenderá que Deus tenha feito tal aliança
com o homem, que aquele que guardar a lei cerimonial deveria viver por ela, ou
que nunca houve um período em que foi principalmente pelas obras da lei
cerimonial que os homens viveram e foram justificados. Sim, é evidente, pelo
referido exemplo de Davi, mencionado em Romanos 4 que nunca houve um tempo em
que os homens foram justificados em qualquer medida pelas obras da lei
cerimonial, como foi mostrado há pouco. Moisés, portanto, nessas palavras que o
apóstolo diz que são uma descrição da justiça que é da lei, não pode se referir
apenas à lei cerimonial. E, portanto, segue-se que, quando o apóstolo fala de justificação
pelas obras da lei como oposta à justificação pela fé, ele não se refere apenas
à lei cerimonial, mas também às obras da lei moral; que são as coisas expressas
por Moisés quando ele diz: “o homem que praticar a justiça decorrente da lei
viverá por ela”, e que são as coisas que o apóstolo, neste mesmo lugar, está
argumentando, que não podemos ser justificados por elas. Como é evidente pelo
contexto, os últimos versículos do capítulo anterior, “Israel, que buscava a
lei de justiça, não chegou a atingir essa lei. Por que? Porque não decorreu da
fé, e sim como que das obras” etc. E em Romanos
10.3 deste capítulo, “Porquanto, desconhecendo a justiça de Deus e procurando
estabelecer sua própria, não se sujeitaram à que vem de Deus.”
E,
além disso, como pode a descrição que o apóstolo dá aqui de Moisés, dessa forma
reprovada de justificação pelas obras da lei, concordar com o esquema arminiano
de uma forma de justificação em virtude de uma obediência sincera, que ainda
permanece como a verdadeira e única forma de justificação sob o evangelho? É
muito evidente que o propósito do apóstolo é dar uma descrição das formas de
justificação, tanto da legal rejeitada quanto da evangélica válida, em que elas
diferem ou são distintas uma da outra. Porém como é que, “o homem que praticar
a justiça da lei viverá por ela”, em que a forma de justificação pelas obras da
lei difere ou é distinta daquela no qual os cristãos, sob o evangelho, são
justificados concorda com seu esquema; pois ainda, segundo eles, pode ser dito,
da mesma forma, dos preceitos do evangelho, aquele que faz essas coisas viverá por
elas. A diferença está apenas nas coisas a serem feitas, mas não nisso, que a
ação deles não é a condição de vida neles, exatamente em um caso como no outro.
As palavras, “o homem que praticar a justiça da lei viverá por ela”, servirão
tão bem para uma descrição deste último como do primeiro. Pela declaração do apóstolo,
a justiça da lei é descrita assim, aquele que faz essas coisas viverá por elas,
mas a justiça da fé diz assim, claramente notifica que a justiça da fé diz o
contrário e de forma oposta. Porém, além disso, se essas palavras citadas de
Moisés são realmente ditas por ele sobre a lei moral bem como a cerimonial,
como é mais evidente que são, torna-se ainda mais absurdo supor que elas são mencionadas
pelo apóstolo como a própria nota de distinção entre a justificação mediante
uma obediência cerimonial e uma obediência moral sincera, como os arminianos
devem supor.
Assim,
declarei um segundo argumento para provar que não somos justificados por
qualquer forma de virtude ou bondade nossa, a saber, que supor de maneira
diferente é contrário à doutrina claramente frisada e abundantemente sustentada
pelo apóstolo Paulo em suas epístolas. Eu prossigo agora para um
Terceiro argumento, a saber, que supor que somos
justificados por nossa própria obediência sincera, ou por qualquer virtude ou
bondade própria, deprecia a graça evangélica.
Esse
esquema de justificação, que claramente tira ou diminui a graça de Deus, deve
ser, sem dúvida, rejeitado, pois o propósito declarado de Deus no evangelho é exaltar
a liberdade e as riquezas de sua graça, nesse método de justificação dos
pecadores, no modo de admiti-los ao seu favor e nos frutos abençoados dele que o
evangelho declara. A Escritura ensina que o modo da justificação, que é estabelecido
na aliança evangélica, é estabelecido como está para esse fim, que a livre graça
possa ser expressa e glorificada; Romanos
4.16: “Esta é a razão por que provém da fé, para que seja segundo a graça.”
O exercício e a exaltação da livre graça de Deus no plano do evangelho para a justificação
e salvação dos pecadores evidentemente são o seu propósito principal; e essa
liberdade e riquezas da graça do evangelho são expressos em todos os lugares
nas Escrituras como sua principal glória. Portanto, essa doutrina que deprecia
a livre graça de Deus em justificar os pecadores, visto que está mais oposta ao
propósito de Deus, por esta razão deve ser excessivamente ofensiva a ele.
Aqueles
que sustentam que somos justificados por nossa própria obediência sincera, julgam
que seu esquema não diminui a graça do evangelho, pois dizem que a graça de
Deus é maravilhosamente manifestada em estabelecer essa forma e método de
salvação mediante a obediência sincera, em nos ajudar a efetuar essa obediência
e em aceitar nossa obediência imperfeita no lugar da perfeita.
Examinemos,
portanto, essa questão, se seu esquema de um homem ser justificado por sua virtude
própria e obediência sincera deprecia a graça de Deus ou não, ou se a livre graça
não é mais exaltada ao supor, como fazemos, que somos justificados sem qualquer
tipo de bondade de nossa parte. Para isso, formularei essa auto evidente
Proposição, seja qual for o meio pela qual a
abundante benevolência do doador é expressa, e a gratidão no receptor é
obrigada, este meio exalta a livre graça. Isto, suponho, ninguém jamais contestará
ou disputará.
E
não é muito menos evidente que ambos os meios mostram uma benevolência mais
abundante no doador quando ele mostra bondade sem bondade ou excelência no
objeto para movê-lo em direção a ele; e que aumenta a obrigação de gratidão no
receptor.
1. O
meio mostra uma bondade mais abundante no doador, quando ele mostra bondade sem
qualquer excelência em nossa pessoa ou ações que devem mover o doador ao amor e
à beneficência. Pois ele certamente mostra a bondade mais abundante e
transbordante, ou disposição, para comunicar o bem por quanto menos amabilidade
ou excelência há para atrair a beneficência. Quanto menos há no receptor para
atrair boa vontade e bondade tanto maior quantidade há do princípio da boa
vontade e da bondade no doador; pois alguém que tem apenas um pouco de um
princípio de amor e de benevolência pode ser atraído para fazer o bem e mostrar
bondade quando há muito para atraí-lo, ou quando há muita excelência e amabilidade
no objeto para incitar a boa vontade. Quando aquele cuja bondade e benevolência
é mais abundante mostra bondade onde há menos para suscitá-la, pois ele não
precisa de algo externo para suscitá-la, ele tem o suficiente do princípio
dentro de si mesmo para movê-lo. Onde há mais do princípio, ali ele é muitíssimo
suficiente por si mesmo e está em menor necessidade de algo de fora excitá-lo. Pois
certamente uma bondade mais abundante flui mais facilmente com menos para impeli-la
ou para atraí-la do que onde há menos; ou, o que é a mesma coisa, quanto mais
alguém se dispõe a si mesmo menos ele precisa de algo externo a si mesmo para incitá-lo,
ou encorajá-lo a isto. E, portanto, sua bondade e benevolência parecem ser
maiores quando são concedidas sem qualquer excelência ou amabilidade no
receptor, ou quando o receptor é considerado na dádiva como totalmente sem
excelência. E muito mais ainda quando a benevolência do doador não apenas nada
encontra no receptor para atrai-lo, exceto uma grande quantidade de ódio para
repeli-lo; então a abundância da bondade é manifesta não apenas em fluir sem
nada extrínseco para promovê-lo, exceto em superar grande repulsa no objeto. E
então a bondade e o amor mostram-se mais triunfantes e maravilhosamente grandes
quando o receptor é considerado na dádiva não só como totalmente sem excelência
ou amabilidade para atraí-lo, mas como totalmente, sim, infinitamente vil e
odioso.
2. É
evidente também que isto aumenta a obrigação de gratidão no receptor. Isso está
de acordo com o senso comum da humanidade, que quanto menos digno ou excelente
o objeto da benevolência ou o receptor da bondade for, mais ele é obrigado e
maior a gratidão é devida. Portanto, aquele que recebe bondade sem qualquer
bondade ou excelência em si mesmo, exceto um ódio total e universal está mais
obrigado. E assim como está de acordo com o senso comum da humanidade, assim
está de acordo com a Palavra de Deus. Quão frequentemente, nas Escrituras, Deus
insiste neste argumento com os homens, para incitá-los a amá-lo e a reconhecer
sua bondade? Quanto ele insiste nisso como uma obrigação de gratidão daqueles
que são tão depravados e indignos, e não merecedores.
Portanto,
certamente segue que essa doutrina que ensina que Deus, quando justifica um
homem e lhe mostra essa grande bondade, visto que lhe dá direito à vida eterna,
não o faz por qualquer obediência, ou qualquer tipo de bondade do homem, mas
essa justificação considera o homem como ímpio e totalmente sem qualquer tipo
de virtude, beleza ou excelência. Eu digo, esta doutrina certamente exalta mais
a livre graça de Deus na justificação e a obrigação do homem de gratidão para
com ele por tal favor, do que a doutrina contrária, a saber, que Deus ao
mostrar essa bondade ao homem o considera como sinceramente obediente e virtuoso,
e como tendo algo nele que é verdadeiramente excelente, amável e aceitável ao
olhos de Deus, e que essa bondade ou excelência do homem é a condição
fundamental da concessão dessa bondade ao homem, ou da sua distinção dos outros
por meio desse benefício. Mas eu me apresso a um
Quarto argumento, para a verdade da doutrina,
que supor que um homem é justificado por sua própria virtude ou obediência deprecia
a honra do Mediador, e atribui à virtude do homem aquilo que pertence apenas à
justiça de Cristo. Esta suposição coloca o homem no lugar de Cristo, e faz dele
seu próprio salvador em um aspecto no qual somente Cristo é seu Salvador. E
assim é uma doutrina contrária à natureza e ao propósito do evangelho, que é humilhar
ao homem e atribuir toda a glória de nossa salvação a Cristo, o Redentor. Esta
suposição é inconsistente com a doutrina da imputação da justiça de Cristo, que
é uma doutrina evangélica.
Devo
explicar aqui, primeiro, o que queremos dizer por imputação da justiça de
Cristo; segundo, provar a coisa pretendida por ser ela verdadeira; e, terceiro,
mostrar que esta doutrina é totalmente inconsistente com a doutrina de sermos
justificados por nossa própria virtude ou obediência sincera.
1. Devo
explicar o que queremos dizer por imputação da justiça de Cristo. Às vezes, a
expressão é tomada por nossos teólogos em um sentido mais amplo para a
imputação de tudo o que Cristo fez e sofreu para nossa redenção, pela qual somos
livres da culpa e declarados justos aos olhos de Deus; e, deste modo, a
imputação implica tanto na satisfação quanto na obediência de Cristo. Mas aqui
eu a emprego em um sentido mais restrito para a imputação dessa justiça ou da bondade
moral, que consiste na obediência de Cristo. E essa justiça ser imputada a nós
não significa nada além disso, que essa justiça de Cristo é aceita a nosso
favor e admitida no lugar daquela justiça inerente perfeita que deveria estar
em nós. A obediência perfeita de Cristo deverá ser colocada na nossa conta, de
modo que teremos o seu benefício como se a tivéssemos realizado nós mesmos. E
assim supomos que o direito à vida eterna nos é dado como a recompensa desta
justiça. A Escritura usa a palavra imputar/atribuir
nesse sentido, a saber, para computar algo pertencente a uma pessoa na conta de
outra pessoa. Como por exemplo em Filemom, Filemom
18, “E, se algum dano te fez ou se te deve alguma coisa, lança tudo em
minha conta.” No original está tou¤to e©moi£ e©llo¢ga, impute
isso a mim. É uma palavra da mesma raiz que a traduzida como atribuir/imputar. Romanos 4.6, “o
homem a quem Deus atribui justiça, independentemente de obras.” E é a mesma
palavra usada em Romanos 5.13, que é
traduzida como levado em conta/imputado, “mas o pecado não é levado em conta
quando não há lei.”
Os
opositores desta doutrina supõem que há um absurdo nela. Dizem que supor que
Deus imputa a obediência de Cristo a nós é supor que Deus é enganado, e pensa
que realizamos essa obediência que Cristo realizou. Mas por que essa justiça
não pode ser colocada em nossa conta e ser aceita a nosso favor sem tal absurdidade?
Por que há mais absurdidade nisso do que na transferência mercantil de dívida
ou crédito da conta de um homem para outro, quando um homem paga um valor no
lugar de outro, de modo que será aceito como se o outro tivesse pago? Por que
há mais absurdidade em supor que a obediência de Cristo é imputada a nós do que
que sua satisfação é imputada? Se Cristo sofreu a punição da lei por nós e em
nosso lugar, então se concluirá que seu sofrer esta punição é imputado a nós, isto
é, que é aceito a nosso favor e em nosso lugar, e é computado em nossa conta
como se a tivéssemos sofrido. Porém, por que sua obediência à lei de Deus não pode
ser racionalmente colocada na nossa conta do mesmo modo como o seu sofrer a punição
da lei? Por que um valor que leva à dívida não pode ser racionalmente
transferido da conta de uma pessoa para outra do mesmo modo como um valor para
pagar uma dívida? Tendo assim explicado o que queremos dizer por imputação da
justiça de Cristo, eu prossigo,
2.
Para provar que a justiça de Cristo é imputada dessa maneira.
(1)
Há a real necessidade de Cristo obedecer a lei em nosso lugar, a fim de ser recompensado
por seu sofrer a punição da lei em nosso lugar para escaparmos da punição; e pela
mesma razão pela qual um como o outro devem ser aceitos em nossa conta, há a
mesma necessidade de um como do outro. Para que a lei de Deus seja satisfeita,
uma era tão necessária para satisfazer a lei como a outra. Isto é certo, que
essa foi a razão pela qual era necessário que Cristo sofresse a punição em
nosso lugar, precisamente para que a lei fosse satisfeita; pois a Escritura
ensina isto claramente. Isso é dado como a razão pela qual Cristo foi feito
maldição por nós, que a lei nos ameaçou de maldição (Gálatas 3.10, 3.13). Porém
a mesma lei que estabelece a maldição de Deus como a consequência de não permanecer
em todas as coisas escritas na lei para praticá-las (Gálatas 3.10), tem estabelecido o fazer essas coisas como um precedente
da vida nelas (como Gálatas 3.12, o versículo
seguinte): há tanta conexão estabelecida em um caso como no outro. Há,
portanto, exatamente a mesma necessidade de a lei da obediência perfeita ser
cumprida, a fim de obtermos a recompensa, como há de a morte ser sofrida, a fim
de escaparmos da punição, ou da mesma necessidade da lei da perfeita obediência
preceder a vida, como há de a desobediência ser sucedida pela morte. A lei é,
sem dúvida, uma regra estabelecida tanto em um caso como no outro.
Cristo,
mediante o sofrer a punição, e ao fazer assim a expiação por nós, apenas remove
a culpa de nossos pecados e nos coloca no mesmo estado que Adão tinha no
primeiro momento de sua criação. E não é mais adequado que obtenhamos a vida
eterna apenas por causa disso, do que que Adão teria a recompensa da vida
eterna, ou um estado de felicidade confirmado e inalterável no primeiro momento
de sua existência, sem qualquer obediência. Adão não devia ter a recompensa
apenas por causa de sua inocência, mas se assim for, ele a teria estabelecido
sobre si imediatamente, assim que foi criado, pois então ele era tão inocente
quanto poderia ser. Mas ele devia ter a recompensa por causa da sua atuação em
obediência, não meramente por causa de seu não ter feito o mal, mas por causa do
seu fazer o bem.
Assim,
pela mesma razão, não temos a vida eterna apenas por estarmos isentos de culpa
(como Adão estava inicialmente), o que temos mediante a expiação de Cristo, mas
por causa da atividade de Cristo em obediência e fazendo o bem. Cristo é o
nosso segundo cabeça (representante) federal. Ele é chamado de segundo Adão (1 Coríntios 15.22) porque ele realizou
por nós o dever que o primeiro Adão deveria ter realizado. Quando Cristo se
comprometeu em ficar em nosso lugar, ele foi considerado e tratado como se
fosse culpado com a nossa culpa e, mediante sua satisfação ou suportar a
punição ele o fez como libertando-se dessa culpa. Mas por meio disso, o segundo
Adão apenas levou-se ao estado em que o primeiro Adão estava no primeiro
momento de sua existência, a saber, um estado de mera liberdade da culpa; e,
por isso estava de fato livre de qualquer obrigação de sofrer punição. Porém, isso
sendo suposto, era necessário algo mais, até mesmo uma obediência positiva, a
fim de obter, como nosso segundo Adão, a recompensa da vida eterna.
Deus
considerou apropriado colocar o homem primeiro em um estado de teste e não
dar-lhe o direito à vida eterna assim que o fez, porque era sua vontade que o
homem desse primeiro honra à sua autoridade submetendo-se plenamente a ela, na
vontade e na ação, e obedecesse perfeitamente a sua lei. Deus insistiu que sua
santa majestade e lei deveriam ter seu devido reconhecimento e honra da parte do
homem, tal como se tornou a relação que o homem tinha com aquele Ser que o
criou, antes que concedesse a recompensa da felicidade confirmada e eterna
sobre ele; e, portanto, Deus lhe deu uma lei quando o criou, para que o homem tivesse
a oportunidade, ao dar a devida honra à sua autoridade obedecendo-a, de obter
essa felicidade. Cristo tornou-se, portanto, considerando que ao assumir o
homem para si mesmo ele obteve o direito a esta felicidade eterna a favor do
homem, após este ter infringido a lei, de modo que o próprio Cristo deveria se
tornar sujeito à autoridade de Deus e estar na forma de um servo, para que
pudesse prestar essa honra à autoridade de Deus em favor do homem mediante sua
obediência ao que Deus inicialmente exigiu do homem como condição de ele ter direito
a essa recompensa. Cristo veio ao mundo para esse fim, tornar a honra a
autoridade e a lei de Deus consistente com a salvação e a vida eterna de
pecadores; ele veio para salvá-los e também, além disso, declarar e reivindicar
a honra do Legislador e da sua santa lei. Agora, se o pecador, depois de seu
pecado ser satisfeito, tivesse a vida eterna concedida a ele sem justiça ativa,
a honra de sua lei não seria suficientemente vindicada. Supondo que isso fosse
possível, que o próprio pecador pudesse pagar a dívida e depois estar no mesmo
estado em que esteve antes de sua provação, quer dizer, negativamente justo ou
meramente sem culpa; se agora ele finalmente deve ter a vida eterna concedida a
ele sem satisfazer essa condição de obediência, então Deus desistiria de sua
lei e daria a recompensa prometida, e sua lei nunca teria respeito e honra
mostrados a ela pelo caminho da obediência. Porém agora Cristo, ao submeter-se
à lei e obedecendo-a, prestou grande honra à lei e à autoridade do Deus que a
deu. Que uma pessoa tão gloriosa se tornasse sujeita à lei e a cumprisse fez
muito mais para honrá-la do que se o mero homem a tivesse obedecido. Foi uma
coisa infinitamente honrosa para Deus que uma pessoa de infinita dignidade não tivesse
vergonha de chamá-lo de seu Deus, e adorá-lo e obedecê-lo como tal. Isso fez
mais para a honra de Deus do que se qualquer mera criatura, de qualquer
possível grau de excelência e dignidade, o tivesse feito.
É
absolutamente necessário que, a fim de um pecador ser justificado, a justiça de
algum outro deva ser colocada em sua conta; pois é declarado que a pessoa
justificada é considerada como ímpia (em si mesma), mas Deus não quer nem pode
justificar uma pessoa sem uma justiça; pois a justificação é claramente um
termo forense, tal como a palavra é usada nas Escrituras, e o assunto um assunto
judicial ou o ato de um juiz. De modo que, se uma pessoa deve ser justificada
sem uma justiça, o julgamento não seria de acordo com a verdade. A decisão de justificação
será uma decisão falsa a menos que haja uma justiça realizada que seja considerada
pelo juiz devidamente como sua. Dizer que Deus não justifica o pecador sem
sinceridade, apesar de uma obediência imperfeita, não ajuda o caso, pois uma
justiça imperfeita diante de um juiz não é justiça. Aceitar algo que está aquém
da regra em vez de outra coisa que satisfaça à regra não é ato judicial ou ato
de um juiz, mas um puro ato de soberania. Uma justiça imperfeita não é justiça
perante um juiz; pois “a justiça (como se observa) é um assunto relativo, e
sempre tem relação com uma lei. A natureza formal da justiça, devidamente
compreendida, reside em uma conformidade de ações com aquilo que é a regra e a
medida delas.” Portanto, somente é justiça aos olhos de um juiz o que satisfaz a
lei.[15] A lei é
a regra do juiz. Se ele perdoa e encobre o que realmente é, e assim não promulga
a decisão de acordo com o que as coisas são em si, ele não faz a parte de um
juiz ou então julga falsamente. A própria noção de julgar é determinar o que é,
e o que não é, no caso de alguém. O trabalho do juiz é duplo: é determinar
primeiro o que é fato, e depois se o que é fato está de acordo com a regra ou
de acordo com a lei. Se um juiz não tem nenhuma regra ou lei estabelecida de
antemão, pela qual ele deve proceder no julgamento, ele não tem fundamento para
continuar o julgamento, ele não tem oportunidade de ser juiz; nem é possível
que ele deva fazer a parte de um juiz. Julgar sem uma lei ou regra pela qual
julgar é impossível à própria noção de julgar, é impossível determinar se o
objeto de julgamento está de acordo com a regra, e por isso Deus declarou que,
quando ele agir como juiz, ele não justificará os ímpios e não poderá absolver
o culpado; e, pela paridade da razão, não pode justificar sem justiça.
E sendo
anulado o esquema da antiga e introduzida uma nova lei, não ajudará em nada
nessa dificuldade; pois uma justiça imperfeita não pode satisfazer a lei de
Deus sob a qual estamos, seja ela antiga ou nova; pois cada lei requer perfeita
obediência a si mesma. Cada regra requer perfeita conformidade. É uma
contradição supor o contrário, pois dizer que existe uma lei que não requer
obediência perfeita a si, é dizer que há uma lei que não exige tudo o que ela exige.
Essa lei que proíbe o pecado agora é certamente a lei sob a qual estamos agora
(seja uma antiga, ou uma nova); ou então não é pecado. O que não é proibido e não
é violação da lei não é pecado. Mas se agora somos proibidos de cometer pecado,
então é mediante uma lei sob a qual estamos agora, pois certamente não estamos
sob as proibições nem sob os mandamentos de uma lei sob a qual não estamos.
Portanto, se todo o pecado é agora proibido, então estamos agora sob uma lei
que exige obediência perfeita, e, por esta razão, nada pode ser aceito como
justiça aos olhos de nosso Juiz exceto justiça perfeita. De modo que nosso Juiz
não pode nos justificar a menos que ele veja uma justiça perfeita como
pertencendo de alguma forma a nós, ou realizada por nós mesmos ou por outra
pessoa, e justa e devidamente computada em nossa conta.
Deus,
na sentença de justificação, declara um homem perfeitamente justo, ou então o
homem precisaria de uma nova justificação depois de ser justificado. Seus
pecados serem removidos mediante a expiação de Cristo não é suficiente para sua
justificação; pois justificar um homem, como já foi mostrado, não é meramente declará-lo
inocente ou sem culpa, mas encontrar-se justo no que diz respeito à regra sob a
qual ele está, e idôneo para a vida, mas isso, de acordo com a regra
estabelecida da natureza, da razão e do mandato divino, é uma justiça perfeita
positiva.
Como
há a mesma necessidade de que a obediência de Cristo deve ser colocada em nossa
conta, como esta sua expiação deve, então há a mesma razão pela qual a justiça deve.
Assim como, se Adão tivesse perseverado e concluído seu curso de obediência, nós
deveríamos ter recebido o benefício de sua obediência, tanto quanto temos o prejuízo
de sua desobediência; assim, da mesma forma, há razão para que devemos receber
o benefício da obediência do segundo Adão, como resultado da sua expiação de
nossa desobediência. Nas Escrituras, os crentes são apresentados como estando em Cristo, visto que eles são legalmente
um, ou aceito como um, pelo Juiz Supremo. Cristo assumiu nossa natureza, e
assumiu tudo nessa natureza que lhe pertence, em uma união tal consigo mesmo
que ele se tornou seu cabeça e os tomou para serem seus membros. E, portanto, o
que Cristo fez em nossa natureza, pela qual ele honrou a lei e a autoridade de
Deus mediante seus atos, bem como a reparação à honra da lei mediante seus
sofrimentos, é colocado na conta do crente; de modo que o crente deve ser feito
feliz porque foi feito tão bom e digno por seu cabeça, bem como liberto de ser
miserável porque ele sofreu por nosso mal e indignidade.
Quando
Cristo se comprometeu com Deus para nos representar e colocar-se sob a nossa
lei, ele foi obrigado a sofrer por essa lei e foi obrigado a obedecer pela
mesma lei. Pela mesma lei, depois que assumiu a culpa do homem sobre si, ele
próprio sendo nosso fiador, não poderia ser absolvido até ter sofrido, nem
recompensado até ter obedecido. Porém ele não foi absolvido como um indivíduo,
mas como nosso cabeça, e os crentes são absolvidos em sua absolvição; nem recebeu
uma recompensa por sua obediência como um indivíduo, mas como nosso cabeça, e recebemos
uma recompensa em sua aprovação. A Escritura nos ensina que, quando Cristo foi
ressuscitado dos mortos, ele foi justificado; cuja justificação, como já
demonstrei, implica tanto em sua absolvição de nossa culpa quanto em sua
aceitação à exaltação e glória, que eram a recompensa de sua obediência. Porém
os crentes, assim que creem, são admitidos para participar com Cristo nesta sua
justificação, por esta razão nos é dito que ele foi “ressuscitado para nossa justificação”
(Romanos 4.25). O que é verdade não apenas
para aquela parte de sua justificação que consiste em sua absolvição, mas
também em seu recebimento da sua recompensa. A Escritura nos ensina que ele
está exaltado e foi para o céu, a fim de tomar posse da glória em nosso nome,
como nosso precursor (Hebreus 6.20). Somos como se estivéssemos
“ressuscitados juntamente com Cristo, e também feitos assentados nos lugares
celestiais em Cristo Jesus” (Efésios 2.6).
Se
for objetado aqui, que há essa razão pela qual o que Cristo sofreu deve ser recebido
em nossa conta em vez da obediência que ele prestou, que ele era obrigado a
obedecer por si mesmo, mas não era obrigado a sofrer exceto apenas por nossa causa.
A isso eu respondo que Cristo não estava obrigado por sua própria causa a se
comprometer a obedecer. Cristo, em suas circunstâncias originais, não estava em
nenhuma sujeição ao Pai, sendo completamente igual a ele. Cristo não tinha a obrigação
de se colocar no lugar do homem e sob a lei do homem, ou de se colocar em
qualquer estado de sujeição a Deus. Houve uma transação entre o Pai e o Filho,
que foi antecedente a Cristo se tornar homem e ser feito sob a lei sob qual ele
se comprometeu a se colocar, e tanto obedecer quanto sofrer; transação na qual
essas coisas já foram praticamente feitas aos olhos de Deus; como é evidente
por isso, que Deus agiu com base nessa transação justificando e salvando
pecadores, como se as coisas comprometidas tivessem sido realmente realizadas
muito antes de serem realizadas de fato. E, portanto, sem dúvida, a fim de avaliar
o valor e a validade do que Cristo fez e sofreu, devemos rememorar essa
transação na qual essas coisas foram primeiramente realizadas e praticamente
feitas aos olhos de Deus, e ver em qual capacidade e circunstâncias Cristo agiu
na época, e então descobriremos que Cristo não estava sob nenhuma forma de
obrigação, seja para obedecer a lei ou para sofrer a punição dela. Após esta
transação, ele estava igualmente obrigado a ambas; pois daqui em diante ele se colocou
como nosso fiador ou representante e, portanto, essa obrigação consequente pode
ser tanto uma objeção contra a validade de seu sofrer a punição quanto contra
sua obediência. Porém se olharmos para essa transação original entre o Pai e o
Filho, na qual ambos estavam comprometidos e aceitaram como praticamente feito aos
olhos do Pai, encontraremos Cristo agindo em relação a ambas, como alguém
perfeitamente em seu próprio direito, e de forma alguma sob obrigação anterior
para obstruir a validade de qualquer uma.
(2)
Supor que tudo o que Cristo faz é apenas fazer expiação por nós mediante o
sofrimento é torná-lo nosso Salvador apenas em parte. É privá-lo de metade de
sua glória como Salvador. Pois, se assim for, tudo o que ele faz é nos livrar
do inferno; ele não compra o céu para nós. O esquema oposto supõe que ele
compra o céu para nós, neste sentido, que ele satisfaz as imperfeições de nossa
obediência e assim consegue que nossa sincera obediência imperfeita seja aceita
como a condição para a vida eterna; e assim compra uma oportunidade para
obtermos o céu mediante nossa própria obediência. Porém comprar o céu para nós apenas
nesse sentido é comprá-lo em sentido algum, pois tudo que vem dele não é mais
do que uma satisfação por nossos pecados, ou remoção da punição mediante o sofrer
em nosso lugar. Pois eles dizem que toda compra, para que nossa obediência
imperfeita seja aceita, é apenas sua satisfação pela imperfeição pecaminosa de
nossa obediência, ou (o que é a mesma coisa) fazer expiação pelo pecado que está
ligado a nossa obediência. Mas isso não é comprar o céu, apenas nos coloca em
liberdade novamente para que possamos ir e obter o céu pelo que nós mesmos
fazemos. Tudo o que Cristo faz é apenas pagar uma dívida por nós; não há compra
positiva de qualquer bem. Somos ensinados nas Escrituras que o céu é comprado
para nós, isto é chamado de “resgate da sua propriedade” (Efésios
1.14). O evangelho propõe a herança eterna, não a ser adquirida, como fazia
a primeira aliança, mas como já adquirida e comprada. Porém não pode ser dito
que aquele que paga a dívida de um homem por ele, e assim o livra da escravidão,
lhe compra uma propriedade apenas porque o coloca em liberdade, de modo que,
daqui para frente, ele tem a oportunidade de obter uma propriedade mediante seu
próprio trabalho manual. De modo que, de acordo com este esquema, os santos no
céu não têm motivos para agradecer a Cristo por lhes comprar o céu, ou por redimi-los
para Deus, e torná-los reis e sacerdotes, como temos o relato de que eles são
em Apocalipse 5.10.
(3)
Justificação mediante a justiça e a obediência de Cristo é uma doutrina que as
Escrituras ensinam em termos muito completos. Romanos 5.18-19, “por um só ato de justiça, veio a graça sobre
todos os homens para a justificação que dá vida. Porque, como pela
desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também, por
meio da obediência de um só, muitos se tornarão justos.” Aqui, em um versículo,
nos é dito que temos a justificação mediante a justiça de Cristo, e que não
haja espaço para entender a justiça expressa apenas como expiação de Cristo
mediante seu sofrimento da punição. No versículo seguinte isto é colocado em
outros termos e declarado que é por meio da obediência de Cristo que somos
feitos justos. É pouco concebível que algo deva ser mais completo e determinado.
Os termos, tomados isoladamente, são tais que determinam seu próprio
significado, e tomados juntos, eles determinam o significado um do outro. As
palavras mostram que somos justificados por meio dessa justiça de Cristo, que
consiste em sua obediência, e que somos feitos justos ou justificados por essa sua
obediência, que é sua justiça ou bondade moral diante de Deus.
Aqui,
possivelmente, pode ser objetado que este texto significa apenas que somos
justificados mediante a obediência passiva de Cristo.
A
isso respondo, seja ela ativa ou passiva, não altera o caso quanto ao presente argumento,
visto que é evidente pelas palavras que não é meramente sob a noção de uma
expiação pela desobediência, ou uma satisfação pela injustiça, mas sob a noção
de uma obediência positiva, e uma justiça ou bondade moral que nos justifica,
ou nos faz justos; porque ambas as palavras justiça
e obediência são usadas, e usadas
também como opostas a pecado e desobediência, e uma ofensa. “Pois assim como, por uma só
ofensa, veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também, por
um só ato de justiça, veio a graça sobre todos os homens para a justificação que
dá vida. Porque, como, pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram
pecadores, assim também, por meio da obediência de um só, muitos se tornarão
justos.” Ora, o que se quer dizer por justiça quando expressa como oposta ao pecado ou ao mal moral, exceto
bondade moral apenas? Qual é a justiça que é o oposto de uma ofensa, exceto
apenas o comportamento que é agradável? E o que se quer dizer por obediência
quando expressa como o oposto de desobediência, ou ir contra um mandamento, exceto
uma obediência positiva e um cumprimento real do mandamento? De modo que não há
espaço para qualquer distinção inventada entre ativa e passiva para prejudicar
o argumento desta Escritura, visto que é evidente por ela como algo pode ser,
que os crentes são justificados por meio da justiça e da obediência de Cristo
sob a noção de sua bondade moral, sua obediência positiva e realmente cumprindo
os mandamentos de Deus, e que o seu comportamento que, devido à sua
conformidade aos seus mandamentos, foi agradável aos seus olhos. Isso é tudo o
que qualquer um necessita desejar ter confirmado nesta disputa.
Mediante
isso parece que, se a morte de Cristo for incluída aqui nas palavras justiça e obediência não é
meramente como uma propiciação, ou suportar em nosso lugar punição de uma lei
quebrada, mas como sua sujeição e entrega voluntárias a esses sofrimentos, foi
um ato de obediência aos mandamentos do Pai, e assim foi parte de sua justiça
positiva ou bondade moral.
De
fato, toda obediência, considerada sob a noção de obediência ou justiça, é algo
ativo, algo feito em submissão ativa e voluntária a uma ordem. Se aquilo que
fazemos é algo fácil e algo que pode ser feito sem sofrimento, ou se é algo
difícil e penoso, no entanto, como é obediência, ou justiça, ou bondade moral,
deve ser considerado como algo voluntário e ativo. Se alguém recebe a ordem de
passar por dificuldades e sofrimentos, e ele, em submissão a esta ordem,
voluntariamente faz isso, ele obedece adequadamente ao fazê-lo; e visto que ele
faz voluntariamente em submissão a uma ordem, sua obediência é tão ativa quanto
qualquer outra. É o mesmo tipo de obediência, uma coisa da mesma natureza, como
quando um homem, em submissão a uma ordem, realiza uma parte de um serviço difícil
ou passa por trabalho severo; e não há espaço para distinguir entre esta
obediência e outra que seja mais fácil, e produzir um tipo diferente de
obediência da ordem, como se fosse uma coisa de natureza totalmente diferente, mediante
estes termos opostos como ativo e passivo. Toda a distinção que pode ser pretendida
é aquela que existe entre obedecer a uma ordem fácil e uma difícil. Mas a
obediência em si não é da mesma natureza visto que as ordens a serem obedecidas
são algumas delas mais difíceis do que outras? Existe, portanto, algum fundamento
para criar duas espécies de obediência, uma ativa e outra passiva? Não há nenhuma
manifestação de tal distinção entrando nos corações de qualquer um dos escritores
das Escrituras.
É
verdade que, nos últimos tempos, quando um homem se recusa a obedecer ao
preceito de uma lei humana, mas pacientemente se entrega para sofrer a punição da
lei, isto é chamado de obediência passiva. Porém eu suponho que isto é apenas
um uso moderno da palavra obediência. Tenha certeza[16] é um sentido da palavra que é um perfeito
estranho a Escritura e é indevidamente chamada de obediência, a menos que haja
tal preceito na lei, de que ele se entregará pacientemente a sofrer, ao que assim
fazendo será uma conformidade voluntária ativa. Pode, em algum sentido, ser
dito ser uma conformidade com a lei uma pessoa sofrer a punição da lei, mas
nenhuma outra conformidade à lei é apropriadamente chamada de obediência a ela,
mas uma conformidade voluntária ativa aos seus preceitos. A palavra obedecer é frequentemente encontrada nas
Escrituras em relação à lei de Deus para o homem, mas nunca em qualquer outro
sentido. É verdade que a disposição de Cristo de passar por aqueles sofrimentos
que ele suportou é uma grande parte dessa obediência ou justiça pela qual somos
justificados. Os sofrimentos de Cristo são mencionados nas Escrituras sob uma
dupla consideração, meramente como nosso substituto, ou colocando-se em nosso
lugar, ao sofrer a punição da lei. E assim seus sofrimentos são considerados
como uma satisfação e propiciação pelo pecado. Ou, visto que ele, em obediência
a uma lei ou ordem do Pai, voluntariamente submeteu-se a esses sofrimentos e
ativamente entregou-se a suportá-los, e assim eles são considerados como sua
justiça e uma parte de sua obediência ativa. Cristo sofreu a morte em
obediência a ordem do Pai. Salmo 40.6-8,
“Sacrifícios e ofertas não quisestes; abriste os meus ouvidos; holocaustos e
ofertas pelo pecado não requeres. Então, eu disse: eis aqui estou, no rolo do
livro está escrito a meu respeito; agrada-me fazer a tua vontade, ó Deus meu;
dentro do meu coração está a tua lei.”[17] João 10.17-18 “Por isso, o Pai me ama, porque eu dou a minha vida para a
reassumir. Ninguém a tira de mim; pelo contrário, eu espontaneamente a dou.
Tenho autoridade para a entregar e também para reavê-la. Este mandato recebi de
meu Pai.” João 18.11, “não beberei,
porventura, o cálice que o Pai me deu?” E isso é parte, e de fato a parte
principal, dessa obediência ativa pela qual somos justificados.
Não
pode ser razoável a objeção contra isso de que a ordem do Pai a Cristo, de que
ele deveria sacrificar sua vida, não fazia parte da lei que quebramos e,
portanto, que a sua obediência a esta ordem não poderia fazer parte daquela
obediência que ele prestou por nós, porque não precisávamos que ele obedecesse
a nenhuma outra lei por nós, mas apenas aquela que quebramos ou falhamos em
obedecer. Pois embora deva ser a mesma autoridade legislativa, cuja honra é
reparada pela obediência de Cristo, que ofendemos mediante nossa desobediência;
no entanto, não há necessidade de que a lei que Cristo obedece seja
precisamente a mesma que Adão deveria ter obedecido, no sentido de que não
deveria haver preceitos positivos ausentes, nem algum adicionado. Ali estava
ausente o preceito sobre o fruto proibido, e ali foi adicionada a lei
cerimonial. A coisa requerida era a obediência perfeita. Não importa se os
preceitos positivos eram os mesmos, se eram equivalentes. Os preceitos
positivos que Cristo devia obedecer eram muito mais do que equivalentes ao que estavam
ausentes, porque infinitamente mais difícil, particularmente a ordem que ele
recebeu para sacrificar sua vida, a qual era seu principal ato de obediência, e
que, acima de todos os outros, diz respeito à nossa justificação. Assim como
aquele ato de desobediência pelo qual caímos foi a desobediência a um preceito
positivo sob o qual Cristo nunca esteve, a saber, o de abster-se da árvore do
conhecimento do bem e do mal, assim aquele ato de obediência pelo qual somos principalmente
redimidos é obediência a um preceito positivo sob o qual Adão nunca esteve, a
saber, o preceito de sacrificar sua vida. Era adequado que fosse um preceito
positivo que pusesse à prova tanto a obediência de Adão quanto a de Cristo. Tais
preceitos são o maior e mais adequado julgamento da obediência porque, neles, o
único fundamento da obediência (e nada da natureza das coisas em si) é a mera
autoridade e vontade do Legislador; e, portanto, eles são o maior julgamento da
deferência de qualquer pessoa a essa autoridade e vontade.
A
lei a qual Cristo estava sujeito e obedeceu era, de certa forma, a mesma que fora
dada a Adão. Há inúmeros deveres particulares que são exigidos pela lei apenas de
modo condicional; e, nestas circunstâncias, estão compreendidos em alguma regra
grande e geral dessa lei. Assim, por exemplo, há inúmeros atos de deferência e
obediência aos homens, os quais são exigidos pela lei da natureza (que foi uma
lei dada a Adão), os quais todavia não exigem absolutamente nada exceto em
muitas condições pré-requisitos; como, por exemplo, que haja homens em tais condições
de relação para conosco e que deem tais ordens, e semelhantemente, tantos atos
de deferência e obediência a Deus estão incluídos da mesma forma na lei moral
de modo condicional, ou tais e tais coisas sendo supostas, como Abraão prestes
a sacrificar seu filho, os judeus circuncidando seus filhos de oito dias de
idade e Adão não comer o fruto proibido. Esses atos estão basicamente
compreendidos nessa grande regra geral da lei moral, que devemos obedecer a
Deus e estarmos sujeitos a ele em qualquer coisa que ele queira nos ordenar.
Certamente a lei moral exige tanto que obedeçamos aos mandamentos positivos de
Deus, quanto exige que obedeçamos às ordens positivas de nossos pais. E assim,
tudo o que foi ordenado a Adão e tudo o que foi ordenado Cristo, até mesmo sua
observação dos ritos e cerimônias da adoração judaica, e o sacrifício de sua
vida, estava basicamente incluído nesta mesma grande lei.[18]
Não
é nenhuma objeção contra a última coisa mencionada, mesmo Cristo sacrificando
sua vida, esta sendo incluído na lei moral dada a Adão, porque essa própria lei
não concedeu nenhuma ocasião para tal coisa; pois a lei moral praticamente
inclui todos os atos certos, em todas as ocasiões possíveis, mesmo nas ocasiões
que a própria lei não permite. Por conseguinte, somos obrigados pela lei moral
a mortificar nossas cobiças e nos arrependermos de nossos pecados, embora essa
lei não permita que nenhuma cobiça a mortificar ou algum pecado do qual se
arrepender.
Há,
de fato, apenas uma grande lei de Deus, e essa é a mesma lei que diz: “Se você
pecar, você morrerá”, e “Amaldiçoado é todo aquele que não permanece em todas
as coisas contidas nesta lei para cumpri-las”. Todos os deveres de instituição
positiva estão basicamente compreendidos nesta lei. E, portanto, se os judeus
frearem a lei cerimonial, ela os expõe à punição da lei, ou à aliança das
obras, a qual ameaçaram: “Você certamente morrerá.” A lei é a regra eterna e
inalterável da justiça entre Deus e o homem e, portanto, é a regra de
julgamento pela qual tudo o que um homem faz deve ser justificado ou condenado;
e nenhum pecado expõe à condenação exceto pela lei. Então, agora, aquele que se
recusa a obedecer aos preceitos que exigem uma presença nos sacramentos do Novo
Testamento está exposto à condenação em virtude da lei ou da aliança das obras.
Pode-se, além disso, argumentar que todos os pecados são violações da lei ou da
aliança das obras, porque todos os pecados, mesmo as violações dos preceitos
positivos bem como dos outros, têm expiação pela morte de Cristo, mas o pelo que
Cristo morreu, foi satisfazer a lei, ou suportar a maldição da lei. Como
aparece em Gálatas 3.10-13 e Romanos 8.3-4.
De
modo que Cristo sacrificando sua vida pudesse ser parte dessa obediência pela
qual somos justificados, embora fosse um preceito positivo não dado a Adão.
Foi, sem dúvida, o principal ato de obediência de Cristo, porque era a
obediência a uma ordem que foi desempenhada imensamente com a maior
dificuldade, e assim a uma ordem que era o maior teste de sua obediência. Sua
deferência mostrada a Deus nela e sua honra à autoridade de Deus foi
proporcionalmente grande, são expressas nas Escrituras como o principal ato de
obediência de Cristo. Filipenses 2.7-8, “antes, a si mesmo se esvaziou,
assumindo a forma de um servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido
em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e
morte de cruz.” Hebreus 5.8, “embora sendo
Filho, aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu.” Foi principalmente por
meio deste ato de obediência que Cristo comprou uma recompensa tão gloriosa
para si mesmo; como naquele lugar em Filipenses, Filipenses 2.8-9, “tornando-se obediente até à morte e morte de
cruz. Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está
acima de todo nome.” E, portanto, conclui-se a partir do que já foi dito, que é
principalmente por este ato de obediência que os crentes em Cristo também têm a
recompensa da glória, ou participarão com Cristo em sua glória. Somos tão
salvos pela morte de Cristo, visto que sua entrega à morte foi um ato de
obediência, como nós somos, visto que foi uma propiciação por nossos pecados. Pois,
visto que não foi o único ato de obediência que se tornou merecedor, ele
realizou atos meritórios de obediência durante todo o curso de sua vida; também
nem foi o único sofrimento que foi propiciatório, todo o seu sofrimento durante
todo o curso de sua vida foi propiciatório, bem como cada ato de obediência
meritória. Na verdade, este foi o seu principal sofrimento, e foi seu principal
ato de obediência.
Consequentemente,
podemos ver como a morte de Cristo não apenas fez expiação, mas também mereceu
a vida eterna. E, por esta razão, podemos ver como mediante o sangue de Cristo
não somos apenas redimidos do pecado, mas redimidos para Deus. E, por isso, a
Escritura parece atribuir, em toda parte, toda a salvação ao sangue de Cristo. Este
precioso sangue é tanto o preço principal pelo qual o céu é comprado, como é o
preço principal pelo qual somos resgatados do inferno. A justiça positiva de
Cristo, ou aquele preço pelo qual ele se tornou merecedor, era de igual valor àquilo
pelo qual ele ficou satisfeito; pois, de fato, era o mesmo preço. Ele derramou
seu sangue para satisfazer, e, em razão da dignidade infinita de sua pessoa,
seus sofrimentos foram considerados como de valor infinito, e equivalente aos
sofrimentos eternos de uma criatura finita. Ele derramou seu sangue por deferência
a honra à majestade de Deus e em submissão à sua autoridade, que tinha ordenado
que ele assim fizesse; e, nesse sentido, sua obediência foi de valor infinito,
tanto pela dignidade da pessoa que a executou, quanto porque ele se sujeitou a
um custo infinito para realizá-la, por meio disto tornou-se visível o grau
infinito de sua deferência a autoridade de Deus.
Pode-se
perguntar o que os arminianos querem dizer por méritos de Cristo. Eles falam
dos méritos de Cristo tanto quanto qualquer um, e todavia negam a imputação da
justiça positiva de Cristo. O que deveria haver para que alguém merecesse ou fosse
digno de qualquer coisa além de justiça ou bondade? Se alguma coisa que Cristo
fez ou sofreu mereceu ou foi digna alguma coisa, foi em virtude da sua bondade,
ou justiça, ou santidade. Se os sofrimentos e a morte de Cristo mereceram o
céu, deve ser porque havia uma excelente justiça e bondade moral transcendente
naquele ato de sacrificar sua vida. E se por essa excelente justiça ele mereceu
o céu para nós, então certamente essa justiça é colocada em nossa conta, temos
o benefício dela, ou, o que é a mesma coisa, ela é imputada a nós.
Assim,
espero ter tornado evidente que a justiça de Cristo é realmente imputada a nós.
Eu prossigo agora para a
3.
[Terceira,] e última coisa sob este argumento, esta doutrina da imputação da
justiça de Cristo é totalmente inconsistente com a doutrina de sermos
justificados por nossa própria virtude ou obediência sincera. Se a aceitação ao
favor de Deus e o direito à vida forem dados aos crentes como recompensa pela
obediência de Cristo, então não são dados como recompensa por nossa própria
obediência. Em qual sentido Cristo é nosso Salvador que, sem dúvida, nos exclui
sermos nossos próprios salvadores nesse mesmo sentido. Se pudermos ser nossos
próprios salvadores no mesmo sentido que Cristo é, conclui-se que a salvação de
Cristo é desnecessária nesse sentido. De acordo com o raciocínio do apóstolo, Gálatas 5.4, “De Cristo vos desligastes,
vós que procurais justificar-vos na lei; da graça decaístes.” Sem dúvida, é
prerrogativa de Cristo ser o nosso Salvador nesse sentido em que ele é o nosso
Salvador. E, portanto, se for mediante a sua obediência que somos justificados,
então não é mediante nossa própria obediência.
Aqui,
talvez, possa ser dito que o direito à salvação não é dado diretamente como a
recompensa por nossa obediência; pois este direito não é mediante nada nosso,
mas somente pela satisfação e justiça de Cristo; embora, porém, um interesse
nessa satisfação e justiça seja dado como recompensa por nossa obediência.
Porém
isso não ajuda em nada o caso; pois isso é atribuir tanto à nossa obediência quanto
se atribuíssemos a salvação a ela diretamente, sem a intervenção da justiça de
Cristo. Pois seria uma coisa tão grande para Deus nos dar Cristo, e sua
satisfação e justiça, em recompensa por nossa obediência como nos dar o céu
imediatamente. Seria uma grande recompensa e quão grande testemunho de consideração
por nossa obediência. E, se Deus dá uma coisa tão grande como a salvação por
nossa obediência, por que ele não poderia muito bem dar a própria salvação
diretamente? E então não haveria necessidade da justiça de Cristo. E, de fato,
se Deus nos der Cristo ou um interesse nele devidamente como recompensa por
nossa obediência, ele realmente nos dá a salvação como recompensa por nossa
obediência; pois a primeira implica na última; sim, implica como o maior
implica no menor. De modo que, de fato, exalta mais nossa virtude e obediência
supor que Deus nos dá Cristo como recompensa por essa virtude e obediência do
que se nos desse a salvação sem Cristo.
A
coisa contra a qual as Escrituras protegem e militam, é a nossa imaginação de que
é nossa própria bondade, virtude ou excelência que nos coloca na aceitação e
favor de Deus. Porém supor que Deus nos dá um interesse em Cristo como
recompensa por nossa virtude é um argumento tão grande de que isto nos coloca
no favor de Deus como se ele concedesse o direito à vida eterna como sua
recompensa direta. Se Deus nos der interesse em Cristo como recompensa por
nossa obediência, seguirá então que estamos inseridos na aceitação e favor de
Deus por causa de nossa própria obediência antecedente a termos interesse em
Cristo. Pois recompensar a excelência de alguém sempre pressupõe favor e
aceitação por causa dessa excelência. Esta é a própria noção de recompensa, que
é uma coisa boa concedida como testemunho da consideração e favor pela virtude
ou excelência recompensada. De modo que não é em virtude do nosso interesse em
Cristo e em seus méritos que entramos inicialmente no favor de Deus, de acordo
com este esquema; pois estamos no favor de Deus antes de termos qualquer
interesse nesses méritos, na medida em que temos interesse nesses méritos dados
como fruto do favor de Deus para com nossa própria virtude. Se nosso interesse
em Cristo é fruto do favor de Deus, então não pode ser a base dele. Se Deus não
nos aceitasse e não tivesse nenhum favor para conosco por causa de nossa
própria excelência, ele nunca nos daria uma recompensa tão grande como o
direito a satisfação e justiça de Cristo. De modo que este esquema destrói a si
mesmo, pois supõe que a satisfação e a justiça de Cristo são necessárias para
nos recomendarmos ao favor de Deus; e, todavia, supõe que temos o favor e a
aceitação de Deus antes de termos a satisfação e a justiça de Cristo, e tê-los recebido
como fruto do favor de Deus.
De
fato, nem a salvação em si, nem Cristo, o Salvador, são dados como recompensa por
qualquer coisa no homem. Não são dados como uma recompensa pela fé, nem por qualquer
outra coisa nossa. Não estamos unidos a Cristo como recompensa por nossa fé,
mas temos união com ele pela fé apenas porque a fé é o próprio ato de unir-se
ou de aproximar-se de nossa parte. Como quando um homem se oferece a uma mulher
em casamento, ele não se entrega a ela como uma recompensa por ela recebê-lo em
casamento; o ato dela recebê-lo não é considerado como um ato digno nela pelo
qual ele a recompensa dando-se a ela; mas é pelo ato dela recebê-lo que a união
é feita, mediante o qual ela o tem como seu marido, é a parte dela na união em
si. Por essas coisas fica claro o quão contrário ao esquema do evangelho de
Cristo é o esquema que diz que a fé justifica como um princípio de obediência,
ou como o principal ato de obediência; ou (como outros) a essência e a compreensão
de toda obediência evangélica. pois é mediante isso que a obediência ou virtude
está na fé, que é a coisa que lhe dá sua influência justificadora; e isso é a
mesma coisa que dizer, que somos justificados por nossa própria obediência,
virtude ou bondade.
Tendo
assim considerado a evidência sobre a verdade da doutrina, eu prossigo agora
para a
III.
[Terceira] coisa proposta, saber, mostrar em que sentido os atos de uma vida
cristã, ou de obediência evangélica, podem ser vistos como dizendo respeito a
essa questão.
Pelo
que já foi dito, é evidente que esses atos não podem ter qualquer participação
nesta questão como boas obras, ou mediante a virtude de qualquer bondade moral
neles; não como obras da lei, ou como aquela excelência moral, ou qualquer
parte dela, que é a satisfação ou cumprimento dessa grande, universal e eterna
lei ou aliança das obras, que o grande Legislador estabeleceu como a mais alta
e inalterável regra de julgamento, a qual somente Cristo satisfaz, de fazer
algo concernente a ela.
E
foi demonstrado, a partir das Escrituras, que é apenas pela fé, ou o
recebimento da alma e a união ao Salvador que produziu nossa justiça, de modo
que somos justificados. Permanece, portanto, que os atos de uma vida cristã não
podem participar nesta questão de outra forma senão a medida que eles implicam
e são as expressões de fé, e podem ser considerados como tantos atos de
recepção de Cristo, o Salvador.
Porém
a determinação do que diz respeito aos atos de obediência cristã pode ter na
justificação neste aspecto dependerá da solução de outro ponto, a saber, se
qualquer outro ato de fé além do primeiro ato tem alguma participação em nossa justificação,
ou até que ponto a perseverança na fé, ou nos atos contínuos e renovados de fé,
têm influência nesta questão.
E
parece evidente que a justificação é pelo primeiro ato de fé, em alguns
aspectos, de forma peculiar, porque um pecador é real e finalmente justificado
assim que ele realiza um ato de fé. E a fé em seu primeiro ato, pelo menos,
depende de Deus para perseverança e dá direito a este entre outros benefícios. Porém
ainda assim a perseverança da fé não é excluída nesta questão; certamente ela
não está ligada à justificação, mas não deve ser excluída daquilo sobre o que a
justificação de um pecador tem dependência, ou aquilo pelo que ele é justificado.
Mostrei
que a forma como a justificação tem dependência da fé é que ela é a
qualificação sobre a qual a congruência de um interesse na justiça de Cristo
depende, ou em que tal aptidão consiste. Mas a consideração da perseverança da
fé não pode ser excluída dessa congruência ou aptidão, pois é congruente que
aquele que crê em Cristo deve ter interesse na justiça de Cristo, e assim nos
benefícios eternos adquiridos por ela, porque a fé é aquilo pelo que a alma tem
união ou unidade com Cristo, e há uma congruência natural nela; de modo que aqueles
que são um com Cristo devem ter um interesse conjunto com ele em seus
benefícios eternos. Porém ainda assim essa congruência depende de ser uma união
permanente. Como é necessário que o ramo permaneça na videira, a fim de receber
os benefícios duradouros da raiz, assim é necessário que a alma permaneça em
Cristo, a fim de receber os benefícios duradouros da aceitação e favor eternos de
Deus. João 15.6-7, “Se alguém
não permanecer em mim, será lançado fora, à semelhança do ramo, e secará; e o
apanham, lançam no fogo e o queimam. Se permanecerdes em mim, e as minhas
palavras permanecem em vós, pedireis o que quiserdes, e vos será feito.” João 15.9-10, “Como o Pai me amou,
também eu vos amei; permanecei no meu amor. Se guardardes (ou obedecerdes) os
meus mandamentos, permanecereis no meu amor; assim como também eu tenho guardado
os mandamentos de meu Pai, e no seu amor permaneço.” Há a mesma razão pela qual
é necessário que a união com Cristo permaneça, quanto ao porquê deve ser
iniciada, ao porquê deve continuar a ser, ao porquê deve ser algum dia. Se deve
ser iniciada sem permanecer, o início será em vão. A fim de a alma estar agora
em um estado justificado e livre da condenação é necessário que esteja agora em
Cristo, e não apenas que deveria ter estado algum dia nele. Romanos 8.1, “Agora, pois, nenhuma
condenação há para os que estão em Cristo Jesus.” A alma é salva em Cristo,
como estando agora nele quando a salvação é concedida, e não apenas como lembrança
de que já esteve nele algum dia. Filipenses
3.9, “e ser achado nele, não tendo justiça própria, que procede de lei, senão
a que é mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus, baseada na fé.”
1 João 2.28, “Filhinhos, agora,
permanecei nele, para que, quando ele se manifestar, tenhamos confiança e dele
não nos afastemos envergonhados na sua vinda.” Para que as pessoas sejam
abençoadas após a morte é necessário não apenas que elas estejam nele algum dia,
mas que elas morram nele. Apocalipse 14.13,
“Bem-aventurados os mortos que, desde agora, morrem no Senhor.”
E
há a mesma razão pela qual a fé, a qualificação que une, deve permanecer, para
que a união permaneça, quanto ao porquê deveria ser antes, a fim de ser união
de uma vez.
De
modo que, embora o pecador seja real e finalmente justificado no primeiro ato
de fé, no entanto, a perseverança da fé, mesmo assim, entra em consideração
como uma coisa sobre a qual depende a conveniência da aceitação para a vida. O
ato de justificação de Deus, que é transmitido à primeira fé de um pecador, diz
respeito à perseverança como estando basicamente contida naquele primeiro ato
de fé, e é considerado e tomado por aquele que justifica como sendo se fosse
uma propriedade nessa fé que então é. Deus tem consideração para com a
continuidade do crente na fé, e ele é justificado por isso, como se já fosse,
porque ela continuará pelo estabelecimento divino; e estando ligada pelo
estatuto divino a essa primeira fé, tanto quanto se fosse uma propriedade nela,
ela é então considerada como tal, e assim a justificação não é suspendida; mas
se não fosse por isso seria necessário que ela fosse suspensa até que o pecador
tivesse realmente perseverado na fé.
E isto
é assim, que Deus, no ato da justificação final que ele sanciona na conversão
do pecador, tem consideração para com perseverança na fé e futuros atos de fé
como estando basicamente implícitos no primeiro ato, é ainda mais manifestado
por isso, a saber, que, na justificação de um pecador em sua conversão, está
contido praticamente um perdão quanto à punição eterna e merecida, não apenas
de todos os pecados passados, mas também de todas as futuras enfermidades e
atos de pecado dos quais eles serão culpados. Porque essa primeira justificação
é decisiva e final. E todavia o perdão, na ordem da natureza, segue
adequadamente ao crime, e também segue aqueles atos de arrependimento e fé que dizem
respeito ao crime perdoado, como é manifesto tanto pela razão quanto pelas
Escrituras. Davi, no início do Salmo 32, fala do perdão dos seus pecados, os
quais foram, sem dúvida, cometidos muito tempo depois que ele era piedoso, como
sendo consequência desses pecados e por meio de seu arrependimento e fé em
relação a eles. E ainda assim esse perdão é expresso pelo apóstolo, no quarto
capítulo de Romanos, como um exemplo de justificação pela fé. Provavelmente o
pecado de que Davi fala seja o mesmo que ele cometeu no caso de Urias, e assim
o perdão, o mesmo com aquela libertação da morte, ou do castigo eterno, da qual
o profeta Natã fala. 2 Samuel 12.13, “Também o Senhor te perdoou o teu
pecado; não morrerás.” Não apenas a manifestação deste perdão segue ao pecado
na ordem do tempo, mas o próprio perdão, na ordem da natureza, segue o
arrependimento e a fé de Davi em relação a este pecado; pois ele é expresso no Salmo 32 como dependendo dele.[19]
Porém,
na medida em que um pecador, em sua justificação inicial, é sempre justificado
e livre de toda a obrigação de punição eterna, segue daqui a necessidade de que
a fé e o arrependimento futuros sejam contemplados nessa justificação como praticamente
contidos nessa fé e arrependimento iniciais; porque o arrependimento desses
pecados futuros e a fé em um Redentor com respeito a eles ou, pelo menos, a
continuidade desse hábito e princípio no coração, que tem um arrependimento e
fé tão reais em sua natureza e tendência, é agora assegurada pela promessa de
Deus.
Se
a remissão dos pecados cometidos após a conversão, na ordem da natureza, segue aquela
fé e arrependimento que é posterior a eles, então segue-se que os pecados
futuros são considerados na justificação inicial, não de forma diferente de como
a fé e o arrependimento futuros são considerados nela. E o arrependimento e a
fé futuros são considerados por aquele que justifica como basicamente implícitos
no primeiro arrependimento e fé, da mesma forma que a justificação dos pecados
futuros está basicamente implícita na justificação inicial; que é a coisa que deve
ser provada.
Além
disso, se nenhum outro ato de fé pode dizer respeito à justificação exceto o
primeiro ato, seguirá então que os cristãos nunca devem buscar a justificação
por qualquer outro ato de fé. Pois se a justificação não deve ser obtida por
atos posteriores de fé, então certamente não é um dever procurá-la por meio
desses atos. E por isso nunca pode ser um dever das pessoas, depois de uma vez
convertidas, buscar a Deus pela fé, ou, olhar para ele crendo para a remissão
do pecado, ou para a libertação da sua culpa, porque a libertação da culpa do
pecado é parte do que pertence à justificação. E se não é apropriado para os
convertidos olhar pela fé para Deus através de Cristo para ela, então seguirá
que não é apropriado para eles orarem por ela, pois a oração cristã a Deus por
uma bênção é apenas uma expressão da fé em Deus para essa bênção; a oração é
apenas a voz da fé. Porém se essas coisas são assim, seguirá que a petição da
Oração do Senhor, “perdoa-nos as nossas dívidas”, não é adequada para ser alçada
pelos discípulos de Cristo, ou para ser usada em assembleias cristãs; e que
Cristo dirigiu indevidamente seus discípulos a usar essa petição, quando todos
eles eram, exceto Judas, já convertidos. A dívida, pela qual Cristo dirige seus
discípulos a orar por perdão, não pode significar nada mais senão a punição que
o pecado merece, ou a dívida que temos para com a justiça divina, os dez mil
talentos que devemos ao nosso Senhor. Orar para que Deus perdoe nossas dívidas
é, sem dúvida, a mesma coisa que orar para que Deus nos liberte da obrigação à
devida punição; mas libertar da obrigação para com a devida punição ao pecado e
perdoar a dívida que temos para com a justiça divina é o que pertence a justificação.
E
então supor que nenhum ato posterior de fé diz respeito ao assunto da justificação,
e de modo que não seja apropriado para qualquer um jamais buscar a justificação
por meio desses atos, seria excluir para sempre aqueles cristãos, que estão em
dúvida em relação ao seu primeiro ato de fé, da alegria e da paz do crer. Como a
ocupação da fé justificadora é obter perdão e paz com Deus, olhando para Deus e
confiando nele para essas bênçãos, assim a alegria e a paz dessa fé estão na
apreensão do perdão e da paz obtidas mediante essa confiança. Este cristão que está
em dúvida de seu primeiro ato de fé, não pode ter a partir desse ato porque,
pela suposição, ele tem dúvidas se é um ato de fé, e assim se obteve o perdão e
a paz por meio desse ato. O remédio adequado, em tal caso, é olhar agora pela
fé para Deus em Cristo para essas bênçãos, mas ele é excluído deste remédio
porque ele está em dúvida se tem garantia para fazer, pois ele não tem como exceto
que já creu; e se assim for, então ele não tem nenhuma garantia para olhar para
Deus pela fé para essas bênçãos agora, porque, pela suposição, nenhum novo ato
de fé é um meio adequado de obter essas bênçãos. E assim ele nunca pode obter
adequadamente a alegria da fé, pois há atos de fé verdadeira que são atos muito
fracos, e o primeiro ato pode ser assim, bem como outros. Pode ser como o
primeiro movimento do bebê no útero, pode ser um ato tão fraco que o cristão,
examinando-o, nunca será capaz de determinar se foi um verdadeiro ato de fé ou
não. E é evidente, a partir do fato e da experiência abundante, que muitos
cristãos sempre estão em um esforço inútil para determinar qual foi seu
primeiro ato de fé. E aqueles santos que tiveram um bom grau de satisfação em
relação à sua fé podem estar sujeitos a grandes declínios e quedas, nesse caso,
estão sujeitos a grandes temores de punição eterna. E a maneira adequada de
libertação é abandonar seu pecado mediante o arrependimento e, pela fé, vir agora
a Cristo para a libertação da merecida punição eterna; porém isso não ocorreria
se a libertação dessa punição não devesse ser obtida desse modo.
Porém
o que é uma evidência ainda mais clara e direta do que estou defendendo, é que
o ato de fé que Abraão exerceu na grande promessa da aliança da graça que Deus
lhe fez, da qual é expressamente dito, Gênesis
15.16,[20]
“e isso lhe foi imputado para justiça”; que é o grande exemplo e prova do que o
apóstolo insiste tanto em Romanos 4
e Gálatas 3.
Gálatas 3, para confirmar sua doutrina da justificação
somente pela fé, não foi o primeiro ato de fé de Abraão, mas foi exercido muito
depois de ter abandonado seu próprio país pela fé (Hebreus 11.8), e foi tratado como um eminente amigo de Deus.
Além
disso, o apóstolo Paulo, em Filipenses 3,
nos mostra como ele procurou sinceramente a justificação pela fé, ou ganhar a
Cristo e obter aquela justiça que era pela fé nele, o que ele fez após sua
conversão. Filipenses 3.8-9, “Sim,
deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de
Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero
como refugo, para ganhar a Cristo e ser achado nele, não tendo justiça própria,
que procede da lei, senão a que é mediante a fé em Cristo, a justiça que procede
de Deus, baseada na fé.” E, nos dois versículos seguintes, ele expressa a mesma
coisa em outras palavras, e nos diz como ele passou por sofrimentos e se
conformar à morte de Cristo, para que pudesse ser participante com Cristo no
benefício de sua ressurreição; o que o mesmo apóstolo nos ensina em outro
lugar, é especialmente justificação. A ressurreição de Cristo era sua justificação
nisso, aquele que foi morto na carne, foi justificado pelo espírito e aquele
que foi entregue por nossas ofensas, ressuscitou para nossa justificação. E o apóstolo
nos diz, nos versículos seguintes, em Filipenses
3, que ele procurou assim alcançar a justiça que é mediante a fé de Cristo,
e assim participar do benefício de sua ressurreição ainda, como se já não
tivesse alcançado, mas que ele continuava a buscá-la.
No
geral, parece que é necessária a perseverança na fé, até mesmo para a coerência
da justificação, e não menos, porque um pecador é justificado e a perseverança
prometida no ato inicial de fé, mas Deus, nessa justificação, refere-se não
apenas ao ato passado de fé, mas à sua própria promessa de atos futuros e à conveniência
de uma qualificação vista ainda apenas em sua própria promessa.
E,
essa perseverança na fé é, portanto, necessária à salvação, não meramente como
um sine qua non, ou como seu concomitante universal, mas em razão de tal
influência e dependência parece ser manifesta por muitas Escrituras. Eu menciono
duas ou três: Hebreus 3.6, “Cristo,
porém, como Filho, em sua casa; a qual casa somos nós, se guardarmos firme, até
ao fim, a ousadia e a exultação da esperança.” Hebreus 3.14, “Porque nos temos tornado participantes de Cristo,
se, de fato, guardamos firme, até ao fim, a confiança que, desde o princípio,
tivemos.” Hebreus 6.12, “Para que não
vos torneis indolentes, mas imitadores daqueles que, pela fé e pela
longanimidade, herdam as promessas.” Romanos
11.20, “Bem, pela sua incredulidade, foram quebrados; tu, porém, mediante a
fé, estás firme. Não te ensoberbeças, mas teme.”
E
como a congruência a uma justificação final depende da perseverança na fé, bem
como do primeiro ato, muitas vezes a manifestação da justificação na
consciência surge muito mais dos atos posteriores do que do primeiro ato. E
toda a diferença pela qual o primeiro ato de fé diz respeito a esta questão,
que é peculiar, parece ser como se fosse apenas uma diferença acidental,
decorrente da circunstância do tempo, ou ser o primeiro na ordem do tempo, e
não de qualquer consideração peculiar que Deus tenha por ele, ou qualquer
influência que tenha de natureza peculiar na questão da nossa salvação.
E
assim é que uma caminhada verdadeiramente cristã e os atos de uma obediência
evangélica infantil dizem respeito à nossa justificação, e parecem ser, às
vezes, tão mencionados nas Escrituras, a saber, como expressão de uma fé
perseverante no Filho de Deus, o único Salvador. A fé une a Cristo e, assim, dá
uma congruência à justificação, não apenas como um princípio adormecido no
coração, mas como sendo e aparecendo em suas expressões ativas.
A
obediência de um cristão, na medida em que é verdadeiramente evangélica e
realizada com o espírito do Filho enviado ao coração, tem toda a relação com
Cristo, o Mediador, e é apenas uma expressão da união da alma do crente com
Cristo. Todas as obras evangélicas são obras dessa fé que opera pelo amor; e cada
ato dessa obediência, que é interior, e o ato da alma, é apenas um novo ato
efetivo de recepção de Cristo e de adesão ao glorioso Salvador. É por esta
razão que o apóstolo diz, Gálatas 2.20,
“Logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora,
tenho na carne, vivo pela fé do Filho de Deus.” E consequentemente somos
orientados, no que quer que façamos, seja em palavra ou ação, a fazer tudo em
nome do Senhor Jesus Cristo (Colossenses
3.17).
E
que Deus, na justificação, leva em consideração não só o primeiro ato de fé,
mas também os futuros atos perseverantes nesse sentido, a saber, como expressos
na vida, parece evidente em Romanos 1.17,
“Visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está
escrito: O justo viverá por fé.” E Hebreus
10.38-39, “Todavia, o meu justo viverá pela fé; e: Se retroceder, nele não
se compraz a minha alma. Nós, porém, não somos dos que retrocedem para a
perdição; somos, entretanto, da fé, para a conservação da alma.”
De
modo que, assim como foi dito antes sobre a fé pode ser dito de uma obediência cristã
infantil, nada tem a ver com justificação mediante qualquer virtude ou
excelência nela; mas apenas porque há uma recepção de Cristo nela. E isso não é
mais contrário à afirmação frequente do apóstolo de sermos justificados sem as
obras da lei do que dizer que justificarmos pela fé por causa da fé é tanto uma
obra ou um ato de obediência cristã quanto as expressões de fé na vida e na
caminhada espiritual. E, portanto, como dizemos que a fé não justifica como uma
obra, assim dizemos sobre todas essas expressões eficazes de fé.
Isto
é o oposto do esquema de nossos teólogos modernos, que sustentam que a fé
justifica apenas como um ato ou expressão de obediência; enquanto que, na
verdade, a obediência não diz respeito à justificação de outra forma que não
como expressão de fé. Agora eu prossigo para a
IV.
[Quarta] coisa proposta, a saber, responder as objeções.
Objeção 1. Encontramos frequentemente promessas de
vida eterna e salvação, e, às vezes, da justificação em si, feitas à nossa
própria virtude e obediência. A vida eterna é prometida à obediência em Romanos 2.7, “a vida eterna aos que,
perseverando em fazer o bem, procuram glória, honra e incorruptibilidade”. E
assim em inúmeros outros lugares. E a justificação em si é prometida àquela
virtude de um espírito ou temperamento perdoador em nós, Mateus 6.14-15, “Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também
vosso Pai celeste vos perdoará; se, porém, não perdoardes aos homens [as suas
ofensas], tampouco vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas”. Todos admitem que
essa justificação consiste em grande parte no perdão dos pecados. A isso eu
respondo:
(1)
Essas coisas que são prometidas à nossa virtude e obediência não afirmam mais
do que haver uma conexão entre elas e a obediência evangélica; o que já
observei não ser o assunto em disputa. Tudo o que pode ser provado pela
obediência e a salvação estando conectadas na promessa é que a obediência e a
salvação estão conectadas de fato. O que ninguém nega; e se é reconhecida ou
negada, como foi mostrado, nada serve ao propósito. Não há necessidade de que a
admissão a um direito de salvação deve ser dado por causa de nossa obediência para
que as promessas sejam verdadeiras. Se encontrarmos tal promessa, que aquele
que obedece será salvo, ou aquele que é santo será justificado, tudo o que é
necessário para que tais promessas sejam verdadeiras é que seja realmente
assim, que aquele que obedece será salvo e que a santidade e a justificação
realmente andam juntas. Essa proposição pode ser uma verdade, que aquele que
obedecer será salvo, porque a obediência e a salvação estão ligadas de fato; e todavia
a aceitação de um direito a salvação não ser concedido por causa de qualquer
virtude ou obediência nossa. O que é uma promessa senão apenas uma declaração da
verdade futura, para o conforto e encorajamento da pessoa a quem ela é feita?
Promessas são proposições condicionais e, como já foi observado, não é o
assunto em disputa, se outras coisas além da fé não podem ter o lugar da
condição em proposições nas quais o perdão e a salvação são os consequentes.
(2)
Promessas podem ser feitas racionalmente a sinais e evidências de fé, e ainda
assim a coisa prometida não ser por causa do sinal, mas da coisa significa.
Assim, por exemplo, o governo humano pode racionalmente fazer promessas de tais
e tais privilégios àqueles que podem mostrar evidências de estarem livres de
tal cidade, ou membros de corporação tal, ou descendentes de família tal;
quando não é de todo por causa daquilo que é a evidência ou sinal, considerada em
si mesma, que eles são admitidos a tal privilégio, mas apenas e puramente por
causa daquilo que é evidência.
E
embora Deus não precise de sinais para saber se temos fé verdadeira ou não, todavia
nossas próprias consciências têm; de modo que é em grande parte para o nosso
conforto que promessas são feitas a sinais de fé. Uma descoberta em nós mesmos de
um temperamento e disposição perdoadores pode ser uma evidência mais adequada e
natural para nossas consciências de que nossos corações têm, em um sentido de
nossa própria indignidade absoluta, verdadeiramente encontrado e se unido ao
caminho do perdão livre e infinitamente gracioso de nossos pecados, por meio de
Jesus Cristo. Por esse motivo podemos ser habilitados com o maior conforto a
aplicar a nós mesmos as promessas de perdão por meio de Cristo.
(3)
Foi demonstrado precisamente agora de que modo os atos da obediência evangélica
de fato dizem respeito a nossa justificação em si, e não são excluídos daquela
condição da qual a justificação depende, sem o menor prejuízo a essa doutrina da
justificação pela fé sem qualquer bondade nossa, que tem sido sustentada, e,
portanto, não pode ser nenhuma objeção contra esta doutrina que temos, algumas
vezes, promessas de perdão e aceitação feitas nas Escrituras a tais atos de
obediência.
(4)
Promessas de benefícios particulares, implícitas na justificação e na salvação,
podem ser especialmente feitas adequadamente a tais expressões e evidências de
fé, pois têm uma semelhança natural peculiar e adequação. Pois o perdão é
prometido a um espírito perdoador em nós; obtenção de misericórdia é adequadamente
prometida à misericórdia em nós; e assim por diante. E que em vários relatos
são as evidências mais naturais da união do nosso coração a esses benefícios
pela fé; pois eles mostram especialmente o doce acordo e o consentimento que há
entre o coração e esses benefícios. E, em razão da semelhança natural que
existe entre a virtude e o benefício, o primeiro tem maior tendência de trazer
o segundo à mente; a prática da virtude tende mais a renovar o senso e
refrescar a esperança da bênção prometida, e também a convencer a consciência
da justiça de ser negado o benefício se o dever for negligenciado.
E,
além disso, o senso e a manifestação do perdão divino em nossas próprias
consciências, sim, e muitos exercícios da misericórdia perdoadora de Deus, pois
dizem respeito ao descontentamento paternal de Deus, que são concedidos após a justificação
ao longo da vida de um cristão, podem ser dados como recompensas adequadas da
virtude de um espírito perdoador. E ainda assim isso não será de todo prejudicial
a doutrina que sustentamos, como será plenamente evidente quando respondermos
outra objeção, a ser mencionada daqui em diante.
Objeção 2. Nossa própria obediência e santidade
inerentes são necessárias para preparar os homens para o céu, e, portanto, sem
dúvida, é o que recomenda as pessoas à aceitação de Deus como herdeiros do céu.
A isso eu respondo:
(1)
Nossa própria obediência ser necessária como uma preparação para uma verdadeira
concessão da glória não é argumento de que é a coisa em virtude da qual somos
aceitos ao direito a ela. Deus pode, e faz, fazer muitas coisas para preparar
os santos para a glória depois que ele os aceita como os herdeiros da glória.
Um pai pode fazer muito para preparar um filho para a herança em sua educação
depois que ele é herdeiro. Sim, há muitas coisas necessárias para qualificar um
filho para a posse real da herança que não são necessárias para que ele tenha
direito à herança.
(2)
Se tudo que é necessário para preparar os homens para a glória deve ser a
condição adequada da justificação, então a santidade perfeita é a condição da justificação.
Os homens devem ser feitos perfeitamente santos antes que sejam admitidos ao
gozo da bênção do céu; pois de forma alguma deve entrar ali qualquer
contaminação espiritual. E, portanto, quando um santo morre, quando ele deixa o
corpo, ele deixa todo o seu pecado e corrupção.
Objeção 3. Nossa obediência não está apenas
indissoluvelmente ligada à salvação e é preparatória a ela, mas a Escritura
fala expressamente de conceder bênçãos eternas como recompensa pelas boas obras
dos santos. Mateus 10.42, “E quem der
a beber, ainda que seja um copo de água fria, um destes pequenos, por ser este
meu discípulo, em verdade vos digo que de modo algum perderá o seu galardão.” 1 Coríntios 3.8, “Cada um receberá o seu
galardão, segundo o seu próprio trabalho.” E em muitos outros lugares. Isso
parece militar contra a doutrina que tem sido sustentada de duas maneiras. Em
primeiro lugar, a concessão de uma recompensa carrega em si uma consideração
por uma aptidão moral, na coisa recompensada, à recompensa. A própria noção de
uma recompensa como sendo um benefício concedido em testemunho da aceitação e do
apreço para com a bondade ou amabilidade de alguma qualificação ou obra na
pessoa recompensada. E, além disso, as Escrituras parecem explicarem-se nesta questão
em Apocalipse 3.4, “Tens, contudo, em
Sardes, umas poucas pessoas que não contaminaram as suas vestiduras e andarão
de branco junto comigo, pois são dignas.” Isto é dado aqui como a razão pela
qual elas deveriam ter tal recompensa, “pois são dignas”. O que, embora supomos
que não implique em nenhum mérito propriamente dito, todavia pelo menos implica
uma aptidão moral, ou que a excelência de sua virtude aos olhos de Deus as
recomenda a tal recompensa; o que parece diretamente repugnante ao que foi suposto,
a saber, que somos aceitos e aprovados por Deus, como herdeiros da salvação,
não em consideração à excelência de nossa própria virtude ou bondade, ou
qualquer aptidão moral nela para tal recompensa, mas apenas por causa da
dignidade e aptidão moral da justiça de Cristo. Em segundo lugar, sermos
eternamente recompensados por nossa própria santidade e boas obras,
necessariamente pressupõe que nossa felicidade futura será maior ou menor em
alguma proporção, visto que nossa própria santidade e obediência é mais ou
menos. E que existem diferentes graus de glória de acordo com diferentes graus
de virtude e de boas obras, é uma doutrina muito expressa e frequentemente
ensinada nas Escrituras. Porém isso parece bastante inconsistente com todos os santos
tendo sua bem-aventurança futura como recompensa da justiça de Cristo; pois se
a justiça de Cristo for imputada a todos, e isso é o que dá a cada um o direito
à glória, então é a mesma justiça que dá direito a um à glória que dá direito a
outro; mas se todos têm glória como recompensa da mesma justiça, por que todos
não têm a mesma glória? A mesma justiça não merece tanta glória quando imputada
a um como quando imputada a outro?
Em
resposta à primeira parte desta objeção, gostaria de observar que ela não afirma
que somos justificados por nossas boas ações, que teremos bênçãos eternas como
recompensa por elas; pois é em consequência de nossa justificação que nossas
boas ações se tornam recompensáveis com recompensas espirituais e eternas. A
aceitação, e assim a recompensa de nossa virtude, não é antecedente à justificação,
mas a segue, e é construída inteiramente sobre ela. O que é o inverso do que supõem
aqueles no esquema contrário de justificação, a saber, que a justificação é
construída sobre a aceitabilidade e a recompensabilidade de nossa virtude. Eles
supõem que um interesse salvador em Cristo é dado como recompensa por nossa
virtude, ou (o que é a mesma coisa) como um testemunho da aceitação de Deus de
nossa excelência, em nossa virtude. Porém o contrário é verdade; que a consideração
de Deus por nossa virtude, como nossa amabilidade aos seus olhos e sua
aceitação dela como recompensável, é inteiramente construída sobre o interesse
em Cristo já estabelecido. De modo que a relação com Cristo, pela qual é dito
que os crentes, na linguagem das Escrituras, estão em Cristo, é a própria base de nossas virtudes e boas ações serem
aceitas por Deus, e assim serem recompensadas; pois uma recompensa é um
testemunho de aceitação. Pois nós, e tudo o que fazemos, somos aceitos apenas “no
Amado” (Efésios 1.6). Nossos sacrifícios são aceitáveis apenas por meio de
nosso interesse nele, e por meio de sua dignidade e preciosidade sendo como
feitas nossas. 1 Pedro 2.4-5, “Chegando-vos para ele, a pedra que
vive, rejeitada, sim, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa, também
vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para serdes
sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais agradáveis a
Deus por intermédio de Jesus Cristo.” Aqui, um ser realmente construído sobre
esta pedra, preciosa para Deus, é mencionado como o fundamento da
aceitabilidade de nossas boas obras por Deus, e do tornarmo-nos também preciosos
aos seus olhos. Assim, Hebreus 13.21,
“Vos aperfeiçoe em todo o bem, para cumprirdes a sua vontade, operando em vós o
que é agradável diante dele, por Jesus Cristo.” E, por isso, somos
direcionados, o que quer que ofereçamos a Deus, para oferecê-lo em nome de
Cristo, como esperando não tê-lo aceito de outra forma a não ser a partir da
estima que Deus tem para com esse nome. Colossenses 3.17, “E tudo o que fizerdes, seja em palavra, seja em ação,
fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai.” Agir em nome
de Cristo é agir sob ele, como nosso Cabeça, e como tendo-o como responsável
por nós e nos representando diante de Deus.
A
razão disso pode ser vista a partir do que já foi dito, mostrar que não é
encontrado nada em nós que deva ser aceito por Deus, como por exemplo qualquer
excelência nossa, até que estejamos realmente em Cristo e justificados por meio
dele. A amabilidade da virtude das criaturas caídas não é nada aos olhos de
Deus até que ele as veja em Cristo, e vestidas com sua justiça. Primeiro,
porque até lá estamos condenados perante Deus por sua própria lei santa à sua
total rejeição e aversão. E, segundo, porque somos infinitamente culpados
diante dele, e a amabilidade de nossa virtude não tem proporção à nossa culpa;
e, portanto, deve ser tomada como nada diante de um juiz rigoroso. E, terceiro,
porque nossas boas ações e os próprios atos virtuosos são, em certo sentido,
corruptos, e a odiosidade da corrupção deles, se formos contemplados como somos
em nós mesmos, ou separados de Cristo, supera infinitamente a amabilidade do
bem que está nelas. De modo que, se nenhum outro pecado for considerado, mas
apenas o que se aplica ao ato da própria virtude, a amabilidade desaparece em
nada em comparação com ela. E, portanto, a virtude deve ser tomada como nada
fora de Cristo. Não apenas os nossos melhores deveres estão contaminados ao
serem praticados com os exercícios do pecado e da corrupção que os precedem e
os seguem, e estão misturados com atos santos, mas mesmo os próprios atos
santos e os exercícios graciosos do piedoso, embora o ato mais simplesmente
considerado seja bom, ainda assim tomar os atos em sua medida e dimensões, e a
maneira como eles são exercidos, eles são atos corruptos; ou seja, eles são
defeituosamente corruptos, ou pecaminosamente defeituosos. Há esse defeito
neles, que pode muito bem ser chamado de corrupção deles; este defeito é
propriamente pecado, expressão de uma pecaminosidade vil do coração, e o que
tende a provocar a justa ira de Deus; não porque o exercício do amor e de outras
graças não seja igual à amabilidade de Deus; pois é impossível que o amor das
criaturas (homens ou anjos) seja assim, mas porque o ato é tão desproporcional
à ocasião dada pelo amor ou por outra graça, considerando a amabilidade de Deus
e a manifestação que é feita dela, e os exercícios de bondade, e a capacidade
da natureza humana e nossas vantagens (e assim por diante) juntos. Uma
expressão negativa da corrupção pode ser tão verdadeiramente pecado e tão justa
causa de provocação quanto a positiva. Assim, se um homem, uma pessoa digna e
excelente, deve, a partir da mera generosidade e bondade, dispor-se
excessivamente, e deve, com grande despesa e sofrimento, salvar a vida de
outro, ou redimi-lo de alguma calamidade extrema; e quando tiver feito tudo, esta
outra pessoa nunca lhe agradeça por isso, ou de alguma maneira expresse a menor
gratidão, esta seria uma expressão negativa de sua ingratidão e vileza, mas é
equivalente a um ato de ingratidão, ou o exercício positivo de um vil espírito
indigno, e é realmente uma expressão dele; e traz tanta culpa como se ele, por
algum ato positivo, tivesse prejudicado muito outra pessoa. E assim seria
(apenas em menor grau), se a gratidão, embora fosse muito pequena, não estando
em proporção ao benefício e obrigação; como se ele não expressasse mais
gratidão por uma bondade tão grande e extraordinária do que teria para com uma
pessoa que lhe desse apenas um copo de água quando sedento, ou lhe mostrasse o
caminho em uma jornada quando perdido ou lhe feito alguma pequena bondade. Se
ele deve ir ao seu benfeitor para expressar sua gratidão e fazer segundo este costume,
dele pode realmente ser dito agir indigna e odiosamente, ele mostra um espírito
mais ingrato; e seu agir segundo tal costume poderia justamente ser abominável a
todos. E ainda assim a gratidão, este pouco que há dela, considerada mais
simplesmente, e até onde ela vai, é boa. E assim é com respeito ao nosso
exercício de amor, gratidão e de outras graças para com Deus, eles são defeituosamente
corruptos e pecaminosos; e tomá-los como são, em sua maneira e medida, podem
justamente ser odiosas e provocantes a Deus, e necessariamente são assim se formos
contemplados fora de Cristo. Pois de fato este defeito é pecado, ele é
infinitamente odioso; e assim a odiosidade do próprio ato supera infinitamente a
sua amabilidade; porque todo pecado tem odiosidade e crueldade infinitas, mas
nossa santidade tem pouco valor e amabilidade como tem sido demonstrado em
outros lugares.
Consequentemente,
embora seja verdade que os santos são recompensados por suas boas obras, todavia
é apenas por causa de Cristo não pela excelência de suas obras consideradas em
si mesmas ou contempladas separadamente de Cristo; pois conforme foi mostrado eles
não têm excelência aos olhos de Deus, ou aceitabilidade diante dele, como foi
mostrado agora. É reconhecido que Deus, ao recompensar a santidade e as boas
obras dos crentes, lhes dá felicidade em algum aspecto como um testemunho de sua
consideração para com a beleza de sua santidade e boas obras aos seus olhos. Pois
essa é a própria noção de recompensa, mas em um sentido muito diferente do que
teria sido se o homem não tivesse caído; a qual teria sido conceder a vida
eterna ao homem como um testemunho da consideração de Deus à amabilidade do que
o homem fez, considerada como em si mesma e como no homem, separadamente por si
mesmo e não visto como um membro de Cristo. Em cujo sentido também o esquema de
justificação ao qual nos opomos necessariamente supõe, a excelência de nossa
virtude a ser considerada e recompensada; pois supõe que um interesse salvador
em Cristo em si deve ser dado como recompensa dele.
Duas
coisas acontecem relacionadas com a recompensa dos santos por sua justiça inerente
em virtude de sua relação com Cristo. Primeira, a culpa de suas pessoas está
toda liquidada, e a poluição e a odiosidade que acompanham e estão dentro de
suas boas obras estão escondidas. Segunda, sua relação com Cristo agrega um
valor positivo e dignidade às suas boas obras aos olhos de Deus. Essa pequena
santidade e aqueles débeis e fracos atos de amor e outras graças recebem um
valor superior aos olhos de Deus em virtude de Deus contemplá-los como em
Cristo, e como membros de alguém tão infinitamente digno aos seus olhos. E isso
porque Deus olha para as pessoas como pessoas de maior dignidade por causa
disto. Isaías 43.4, “Visto que
foste precioso aos meus olhos, digno de honra.” Deus, por causa de Cristo e
porque eles são membros de seu próprio Filho justo e amado, estabelece um valor
superior em suas pessoas, e consequentemente segue que ele também estabelece um
grande valor a seus bons atos e ofertas. O mesmo amor e obediência, em uma
pessoa de maior dignidade e valor aos olhos de Deus, são mais preciosos aos
seus olhos do que em uma de menor dignidade. O amor e o apreço (como foi
observado antes) são preciosos proporcionalmente à dignidade da pessoa de quem
é o amor; porque, na medida em que alguém dá seu amor a outro ele dá a si
mesmo, nisto ele dá seu coração; mas esta é uma oferta mais excelente na
proporção em que a pessoa cujo eu é oferecido é mais digna. Os crentes
tornam-se imensamente mais honrados na avaliação de Deus em virtude de sua
relação com Cristo do que o homem teria sido considerado por si mesmo, embora estivesse
livre do pecado; como uma pessoa má torna-se mais honrosa quando casada com um
rei. Por esta razão, Deus provavelmente recompensará o pequeno amor fraco e a
obediência pobre e excessivamente imperfeita dos crentes em Cristo com uma
recompensa mais gloriosa do que ele teria feito com a obediência perfeita de
Adão. De acordo com o teor da primeira aliança, a pessoa deveria ser aceita e
recompensada apenas por causa das obras, mas mediante a aliança da graça, as
obras são aceitas e recompensadas apenas por causa da pessoa; a pessoa sendo
contemplada antecedentemente como membro de Cristo e vestida com sua justiça. De
modo que, embora a santidade inerente dos santos seja recompensada, todavia
esta mesma recompensa não é, de fato, menos fundamentada na dignidade e na
justiça de Cristo. Nada do valor que suas obras têm aos seus olhos, nem
qualquer parte da aceitação que os santos têm com ele está fora de Cristo, e
fora de sua justiça, mas sua dignidade como Mediador é a base principal e único
fundamento sobre o qual tudo é construído, e a fonte universal de onde tudo
surge. Deus realmente faz grandes coisas em relação à amabilidade dos santos,
mas é apenas como uma amabilidade secundária e derivada, por assim dizer.
Quando falo de uma amabilidade derivada, não quero dizer apenas que as próprias
qualificações que são aceitas como amáveis são derivadas de Cristo, e vem do
seu poder e compra, mas que a aceitação delas como amabilidade, e todo o valor
que é colocado sobre elas, e toda a sua conexão com a recompensa, estão fundamentadas
na, e são derivadas da justiça e da dignidade de Cristo.
Se
supormos que não apenas graus mais elevados de glória no céu, mas o próprio
céu, é em algum aspecto dado em recompensa pela santidade e boas obras dos
santos, neste sentido secundário e derivativo, isto não prejudicará a doutrina
que temos sustentado. Não é impossível que Deus conceda a glória do céu
totalmente em apreço a justiça de Cristo, e ainda em recompensa pela santidade
inerente do homem, em diferentes aspectos e modos diferentes. Pode ser apenas a
justiça de Cristo que Deus considere, por sua própria causa, a aceitação
independente e sua dignidade sendo suficientes em si mesmas para recomendar todo
que crê em Cristo ao direito a esta glória; e assim pode ser apenas por isso
que as pessoas tenham direito ao céu, ou tenham seu direito principal a ele; e
ainda assim Deus também pode ter apreço pela própria santidade dos santos por
causa de Cristo e como derivando um valor do mérito de Cristo, do qual ele pode
testemunhar concedendo-lhes o céu. Os santos, sendo contemplados como membros
de Cristo, sua obediência é vista por Deus como algo de Cristo, sendo a
obediência dos membros de Cristo; como os sofrimentos dos membros de Cristo são
vistos, em algum aspecto, como os sofrimentos de Cristo. Por isso o apóstolo,
falando de seu sofrimento, diz, Colossenses
1.24, “Agora, me regozijo nos
meus sofrimentos por vós; e preencho o que resta das aflições de Cristo, na
minha carne.” Para o mesmo propósito é Mateus 25.35, etc. “Eu tive fome, estava nu, enfermo e na prisão”, etc. E
assim em Apocalipse 11.8, “E o seu
cadáver ficará estirado na praça da grande cidade que, espiritualmente, se
chama Sodoma e Egito, onde também o seu Senhor foi crucificado.”
Mediante
o mérito e a justiça de Cristo, tal favor de Deus para com o crente pode ser
obtido, visto que Deus pode, por este meio, já estar, como estava, disposto a torná-los
perfeita e eternamente felizes, mas isso ainda não atrapalha, senão que Deus,
em sua sabedoria, pode optar por conceder essa felicidade perfeita e eterna
desta forma, a saber, em algum aspecto como recompensa por sua santidade e
obediência. Não é impossível, exceto que a bem-aventurança pode ser concedida
como recompensa pelo que é feito depois que um interesse já é obtido nesse
favor, o qual (falar de Deus segundo a maneira dos homens) desobriga Deus de
conceder a bem-aventurança. Nosso Pai celestial já pode ter esse favor por um filho,
por meio do qual ele pode estar completamente pronto para dar ao filho uma
herança porque é seu filho; o que ele é mediante a compra da justiça de Cristo;
e ainda assim isso não atrapalha, senão que deve ser possível que o Pai possa
optar por conceder a herança ao filho como uma forma de recompensa por sua obediência
e comportamento[21] se tornando um filho. E tão grande e excelente
recompensa não pode ser considerada como mais do que uma recompensa apropriada
por sua obediência; exceto que uma recompensa tão grande é considerada como
apropriada não se origine da excelência da obediência, considerada absolutamente,
mas de sua posição tão próxima e uma relação honrável com Deus, como a de um filho
que é obtida apenas pela justiça de Cristo. E assim a recompensa, e a grandeza
dela, surge adequadamente da justiça de Cristo, embora seja de fato, de algum
tipo, a recompensa por sua obediência. Como um pai pode justamente avaliar a
herança não mais do que uma recompensa apropriada pela obediência de seu filho,
e ainda assim avaliá-la como mais do que uma recompensa apropriada pela
obediência de um servo. O favor de onde o Pai celestial de um crente concede a
herança eterna e seu título de herdeiro está fundamentado nessa relação na qual
ele permanece como um filho comprado pela justiça de Cristo; embora ele, em
sabedoria, escolha concedê-la de tal maneira, e desta maneira testemunhar sua
aceitação da amabilidade de sua obediência em Cristo.
Os
crentes, tendo direito ao céu mediante a fé antecedente à sua obediência, ou
sendo absolutamente prometido a eles antes, não atrapalha senão que a
verdadeira concessão do céu também pode ser um testemunho do apreço de Deus por
sua obediência, embora realizada depois. Foi assim com Abraão, o pai e o padrão
de todos os crentes. Deus lhe concedeu aquela bênção de multiplicar sua semente
como as estrelas do céu, e de fazer com que em sua semente todas as famílias da
terra fossem abençoadas, como recompensa por sua obediência ao oferecer ao seu
filho Isaque. Gênesis 22.16-18, “E
disse: Jurei, por mim mesmo, diz o Senhor,
porquanto fizeste isso e não me negaste o teu único filho, que deveras te
abençoarei e certamente multiplicarei a tua descendência como as estrelas dos
céus e como a areia na praia do mar; a tua descendência possuirá a cidade dos
seus inimigos, nela serão benditas todas as nações da terra, porquanto obedeceste
à minha voz.” E, todavia, as mesmas bênçãos foram, de tempos em tempos,
prometidas a Abraão nos termos mais positivos, e a promessa foi confirmada e
selada com grande solenidade, como Gênesis
12.2-3; Gênesis 13.16; Gênesis 15.1, Gênesis 15.4-7, etc.; Gênesis
15.17, por toda parte; Gênesis 18.10,
Gênesis 18.18.
A
partir do que foi dito podemos facilmente resolver a dificuldade decorrente
desse texto, em Apocalipse 3.4, “E
andarão de branco junto comigo, pois são dignas.” O que é paralelo com aquele
texto em Lucas 20.35, “Mas os que são
havidos por dignos de alcançar a era vindoura e a ressurreição dentre os
mortos...”. Permito (como na objeção) que essa dignidade denota, sem dúvida,
uma aptidão moral para a recompensa, ou que Deus olhe para esses benefícios
gloriosos como um testemunho apropriado de seu apreço para com o valor que suas
pessoas e realizações têm aos seus olhos.
(1)
Deus olha para esses benefícios gloriosos como um testemunho apropriado ao
valor que suas pessoas têm aos seus olhos. Porém ele coloca esse valor sobre
suas pessoas puramente por causa de Cristo. Elas são tais joias e têm tal
preciosidade aos seus olhos apenas porque são contempladas em Cristo, e em
razão da dignidade do cabeça, de quem são membros, e da linhagem na qual são
enxertados. E esse valor que Deus lhes dá por causa disso é tão grande que Deus
considera adequado, a partir da sua consideração, admiti-los a uma glória tão excelente.
Os santos, por causa de sua relação com Cristo, são joias tão preciosas aos
olhos de Deus que são considerados dignos de ocupar um lugar em sua própria
coroa (Malaquias 3.17; Zacarias 9.16). Até onde é dito que os
santos são valiosos aos olhos de Deus, em qualquer relato que seja assim, até aqui
eles podem ser devidamente considerados dignos ou apropriados para essa honra
que é responsável por esse valor ou preço que Deus lhes dá. Um filho, ou esposa
de um príncipe, é digno de ser tratado com grande honra e, portanto, se uma
pessoa miserável deve ser adotada como filho de um príncipe, ou deve ser desposada
por um príncipe, seria apropriado dizer que essa pessoa era digna de tal e tal
honra e respeito, e não haveria força nas palavras em dizer que ela deveria ter
tal respeito dado a ela, pois ela é digna, embora seja apenas por causa de sua
relação com o príncipe que é assim.
(2)
A partir do valor que Deus coloca sobre suas pessoas, por causa da dignidade de
Cristo, ele também estabelece um alto valor a suas virtudes e realizações. Seu
espírito manso e quieto é de grande valor aos seus olhos. Seus frutos são frutos
agradáveis, suas ofertas são um aroma de cheiro suave a ele; e isto por causa
do valor que ele coloca sobre suas pessoas, como já foi observado e explicado.
Essa preciosidade, ou alto valor dos crentes é uma aptidão moral para a
recompensa e, todavia, essa preciosidade está toda na justiça de Cristo, que é o
seu fundamento. A coisa que se deve considerar não é excelência neles,
separadamente por si mesma, ou em sua virtude por si só, mas o valor que, surge
na conta de Deus sobre outras considerações; que é a consequência natural do
modo de expressão em Lucas 20.35, “Mas
os que são havidos por dignos de alcançar a era vindoura”, etc. E Lucas 21.36, “Vigiai, pois, a todo
tempo, orando, para que possais escapar de todas estas coisas que têm de
suceder e estar em pé na presença do Filho do Homem.” 2 Tessalonicenses 1.5, “para que sejais considerados dignos do
reino de Deus, pelo qual, com efeito, estais sofrendo.”
Há
uma grande diferença entre esse esquema e o que é suposto no esquema daqueles
que se opõem à doutrina da justificação somente pela fé. Este estabelece o
fundamento da aceitação inicial de Deus, e toda a salvação real consequente
sobre isto, inteiramente em Cristo e em sua justiça. O contrário, em seu
esquema, uma consideração da própria excelência da virtude do homem é suposta ser
primeira, e ter o lugar do primeiro fundamento na salvação, embora não naquela
redenção ineficaz que eles supõem comum a todos. Eles estabelecem o fundamento
de toda a salvação discriminatória na própria virtude e excelência moral do
homem. Esta é a pedra angular nesta questão; pois eles supõem que é a partir do
apreço por nossa virtude que até mesmo um interesse especial em Cristo é dado. O
fundamento sendo assim contrário, todo o esquema se torna excessivamente diferente
e contrário: um é um esquema evangélico, o outro, um legal; um é totalmente
inconsistente com o nosso ser justificado pela justiça de Cristo, o outro de
jeito nenhum.
A
partir do que foi dito podemos entender o que foi mencionado anteriormente, a
saber, como isso não é apenas o perdão do pecado que é concedido na justificação
indissoluvelmente ligado a um espírito perdoador em nós, mas pode haver muitos
exercícios de misericórdia perdoadora que podem ser devidamente concedidos em
recompensa por nosso perdoar aqueles que pecam contra nós; pois ninguém negará
que haja muitos atos de perdão divino em relação aos santos que não pressupõe
um estado não justificado precedendo imediatamente esse perdão; ninguém negará
que os santos, que nunca caíram da graça ou de um estado justificado, ainda
cometem muitos pecados que Deus perdoa posteriormente, deixando de lado seu
descontentamento paternal. Esse perdão pode ser em recompensa pelo nosso
perdão, sem qualquer prejuízo à doutrina que tem sido sustentada, bem como
outras misericórdias e bênçãos consequentes na justificação.
Com
relação à segunda parte da objeção, que diz respeito aos diferentes graus de
glória e a aparente inconsistência que existe nela, que os graus de glória em diferentes
santos devem ser maiores ou menores de acordo com sua santidade inerente e as boas
obras, e ainda que a glória de todos deve ser comprada com o preço da mesma
justiça imputada.
Respondo
que Cristo, mediante sua justiça, comprou felicidade completa e perfeita para cada
um de acordo com sua capacidade, mas isso não impede senão que os santos, sendo
de várias capacidades, podem ter vários graus de felicidade e, ainda assim,
toda a sua felicidade ser o fruto da compra de Cristo. Na verdade, não pode ser
dito adequadamente que Cristo comprou qualquer grau particular de felicidade,
de modo que o valor da justiça de Cristo é suficiente aos olhos de Deus para elevar
um crente tão alto, em felicidade, e não superior; e de modo que, se o crente
fosse mais feliz excederia o valor da justiça de Cristo; porém, em geral,
Cristo comprou a vida eterna, ou a perfeita felicidade para todos de acordo com
suas várias capacidades. Os santos são como muitos navios, de diferentes
tamanhos, lançados em um mar de felicidade, onde cada navio é completo; isto
Cristo comprou para todos, mas afinal é deixado ao prazer soberano de Deus
determinar a grandeza do navio; a justiça de Cristo não se intromete neste
assunto. Efésios 4.4-7, “Há somente
um corpo e um espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa
vocação; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, etc.... E a graça foi
concedida a cada um de nós segundo a proporção do dom de Cristo.” Deus pode administrar
essa questão de acordo com qual regra ele quiser, não menos pelo que Cristo fez.
Ele pode conceder sem condição, ou sobre aquela condição ele quiser estabelecer.
É evidente que a justiça de Cristo não se intromete neste assunto; pois o que
Cristo fez foi cumprir a aliança das obras; mas a aliança das obras não se
intrometeu em nada disso. Se Adão tivesse perseverado em perfeita obediência,
ele e sua posteridade teriam a felicidade perfeita e plena; a felicidade de cada
um seria tão correspondente a sua capacidade que ele seria completamente
abençoado, mas Deus teria a liberdade de fazer alguns de uma capacidade e outros
de outra, como ele quisesse. Os anjos obtiveram vida eterna, ou um estado de
glória confirmado por uma aliança de obras, cuja condição era obediência
perfeita; mas, ainda assim, alguns são mais altos em glória do que outros de
acordo com as várias capacidades[22] que
Deus, de acordo com seu prazer soberano, lhes deu. Para que ainda fique com
Deus, apesar da obediência perfeita do segundo Adão, o fixar o grau de
capacidade de cada um, por qual regra ele quiser,[23] ele tem o prazer de estabelecer o grau de
capacidade e, assim, de glória, mediante a proporção da graça e frutificação do
santo aqui. Ele dá maiores graus de glória como recompensa por graus mais
elevados de santidade e boas obras porque isto lhe agrada; e, ainda assim, toda
a felicidade de cada santo é, de fato, o fruto da compra da obediência de
Cristo. Se tivesse sido apenas um homem, por quem Cristo obedeceu e morreu, e tivesse
agradado a Deus fazê-lo de uma capacidade muito grande, a perfeita obediência
de Cristo teria comprado, esta sua capacidade deveria ser plena, e então toda a
sua felicidade poderia ser adequadamente dita como o fruto da perfeita obediência
de Cristo; embora se ele fosse de uma capacidade menor, ele não teria tanta
felicidade mediante a mesma obediência; e ainda teria[24] tanto quanto Cristo merecia por ele. A
justiça de Cristo não se intromete no grau de felicidade, qualquer outra coisa
que ele merece que ela deve ser plena e perfeita, de acordo com a capacidade; e
por isso pode-se dizer que diz respeito ao grau de felicidade, como um grau é
perfeito com relação ao imperfeito; mas não se intromete com graus de perfeita felicidade.
Este
assunto pode ser mais bem compreendido se considerarmos que Cristo e toda a
igreja dos santos são, por assim dizer, um corpo, do qual ele é o cabeça e eles
os membros de lugar e capacidade diferentes. Ora, todo o corpo, cabeça e
membros, tem comunhão na justiça de Cristo, todos são participantes do seu
benefício. O próprio Cristo é recompensado por ela, e cada membro é participante
do benefício e da recompensa, mas não segue de forma alguma que cada parte deve
participar igualmente do benefício; mas cada parte proporcionalmente ao seu
lugar e capacidade. O cabeça participa de muito mais do que as outras partes,
porque é de uma capacidade muito maior; e os membros mais nobres participam de
mais do que os inferiores. Como ocorre em um corpo natural que goza de saúde
perfeita, a cabeça, o coração e os pulmões têm maior porção dessa saúde, eles a
têm mais localizada neles do que as mãos e os pés, porque são partes de maior
capacidade; embora as mãos e os pés estejam em tão perfeita saúde quanto
aquelas partes mais nobres do corpo. Assim ocorre no corpo místico de Cristo,
todos os membros são participantes do benefício da justiça do cabeça; mas é de
acordo com a capacidade e lugar diferentes que têm no corpo; e Deus determina
esse lugar e capacidade como quiser; ele faz a quem lhe agrada o pé, e a quem lhe
agrada a mão, e a quem lhe agrada os pulmões etc. 1 Coríntios 12.18, “Mas Deus dispôs os membros, colocando cada um
deles no corpo, como lhe aprove.” Deus determina de modo eficaz o lugar e a
capacidade de cada membro mediante os diferentes graus de graça e assistência no
seu aperfeiçoamento aqui neste mundo. Aqueles que ele pretende colocar no lugar
mais alto do corpo, ele lhes dá maior parte de seu espírito, maior porção da
natureza divina, o espírito e a natureza de Cristo Jesus, o cabeça, e aquela
assistência pela qual realizam as obras mais excelentes, e faz mais abundantes
nelas.
Objeção 4. Pode ser objetado contra o que foi
suposto, a saber, que as recompensas são dadas às nossas boas obras apenas em
consequência de um interesse em Cristo, ou em testemunho o apreço de Deus para
com a excelência ou o valor delas aos seus olhos, como construído sobre um
interesse na justiça de Cristo já obtido; que a Escritura fala de um interesse
em Cristo em si como sendo dado em consideração à nossa aptidão moral. Mateus 10.37-39, “Quem ama seu pai ou sua
mãe mais do que a mim não é digno de mim; quem ama seu filho ou sua filha mais
do que a mim não é digno de mim; e quem não toma a sua cruz e vem após mim não
é digno de mim. Quem acha a sua vida perdê-la-á;” etc. Dignidade (excelência)
aqui, significa pelo menos aptidão moral ou excelência ou virtude que recomenda;
e esta colocação parece sugerir como se fosse a partir da consideração de uma
aptidão moral que os homens são admitidos a uma união com Cristo e interesse
nele, e por isso essa dignidade não pode ser consequente a um estar em Cristo,
e pela imputação da sua dignidade, ou de qualquer valor que esteja em nós ou em
nossas ações aos olhos de Deus, como visto em Cristo.
A
isso respondo que, embora as pessoas, quando são aceitas, não são aceitas como
dignas, todavia, quando são rejeitadas, elas são rejeitadas como indignas.
Aquele que não ama a Cristo acima das outras coisas, que o trata com tal
indignidade, visto que o coloca abaixo das coisas terrenas, será tratado como
indigno de Cristo. Sua indignidade de Cristo, especialmente nesse particular,
será assinalada contra ele e imputada a ele; e embora ele seja um cristão
professo, viva no gozo do evangelho, foi visivelmente enxertado em Cristo e
admitido como um de seus discípulos, como Judas foi, todavia ele deve ser posto
para fora em ira, como uma punição por seu tratamento vil para com Cristo. As
palavras supracitadas não implicam que se um homem ama a Cristo mais que pai e
mãe etc., que ele seja digno; o máximo que elas implicam é que tal cristão
visível deve ser tratado e posto para fora como indigno. Aquele que crê não é
recebido pela dignidade ou pela aptidão moral da fé, mas ainda assim o cristão
visível é expulso por Deus pela indignidade e pela inaptidão moral da
incredulidade. Ser aceito como um de Cristo não é a recompensa do crer, mas ser
posto para fora do ser um dos discípulos de Cristo, após uma admissão visível
como tal, é uma punição apropriada pela incredulidade. João 3.18-19, “Quem nele crê não é
julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não creu no nome do unigênito
Filho de Deus. O julgamento é este: que a luz veio ao mundo, e os homens amaram
mais as trevas do que a luz; porque as suas obras eram más.” A salvação é
prometida à fé como um presente gratuito, mas a incredulidade é ameaçada com a
condenação como uma dívida, ou a punição devida à incredulidade. Aqueles que creram
no deserto não entraram em Canaã por causa da dignidade de sua fé, mas Deus jurou
em sua ira que aqueles que não creram não deveriam entrar por causa da
indignidade da sua incredulidade. O admitir uma alma a uma união com Cristo é
um ato da livre e soberana graça, mas excluir, por meio da morte e do dia do
julgamento, aqueles professos do cristianismo que tiveram a oferta de um
Salvador e gozaram dos grandes privilégios como o povo de Deus é um processo
judicial e uma punição justa por seu tratamento indigno para com Cristo. O motivo
desta declaração de Cristo é torná-los conscientes da indignidade de seu
tratamento para com Cristo, que o professavam como seu Senhor e Salvador e o colocavam
abaixo de pai e mãe etc., e não os persuadir da dignidade de amá-lo mais do que
pai e mãe. Se for oferecido a um mendigo algum grande e precioso presente, mas,
assim que for oferecido, for pisoteado sob seus pés, o presente pode ser tirado
dele como indigno de tê-lo; ou se for oferecido perdão a um malfeitor, o qual
poderia livrá-lo da execução, e este apenas zombar dele, seu perdão pode lhe ser
negado como indigno dele; embora se ele o tenha recebido ele não o tinha por
sua dignidade, ou como sendo recomendado a ele por sua virtude; supõe-se sua
indignidade por ser um malfeitor, e o ser oferecido a ele para tê-lo apenas ao
aceitar supõe que o rei não procura nenhuma dignidade, nada nele pelo que deve
conceder perdão como recompensa. Isso pode nos ensinar a entender Atos 13.46, “Cumpria que a vós outros, em primeiro lugar, fosse pregada a
palavra de Deus; mas posto que a rejeitais e a vós mesmos vos julgais indignos
da vida eterna, eia aí que nos voltemos para os gentios.”
Objeção 5. É objetado contra a doutrina da justificação
somente pela fé que o arrependimento é expresso, de modo evidente nas
Escrituras, como aquilo que é, de uma forma especial, a condição para a
remissão dos pecados. Porém a remissão dos pecados é admitida por todos ser
aquilo no que a justificação consiste (pelo menos) em grande parte.
Não
obstante, certamente deve surgir de um mal entendimento do que as Escrituras
dizem sobre o arrependimento supor que fé e arrependimento sejam duas coisas
distintas; que, de forma semelhante, são as condições da justificação. Pois é muitíssimo
claro, a partir das Escrituras, que a condição da justificação, ou aquilo em
nós pelo que somos justificados, é apenas uma e esta é a fé. Fé e
arrependimento não são duas condições distintas para a justificação, nem são
duas coisas distintas que juntas formam toda condição para a justificação; mas
a fé compreende tudo aquilo pelo que somos justificados, ou pelo que passamos a
ter interesse em Cristo, e não há mais nada que tenha participação paralela com
ela no caso de nossa salvação. E disto os teólogos do outro lado estão
conscientes, e por isso eles supõem que essa fé, da qual o apóstolo Paulo fala,
pela qual ele diz que somente somos justificados, compreende em si o arrependimento.
E,
portanto, em resposta à objeção, eu diria que, quando o arrependimento é mencionado
nas Escrituras como a condição para o perdão, não se pretende com isso qualquer
graça particular ou ato propriamente distinto da fé, que tenha uma influência
paralela com ela na questão do nosso perdão ou justificação; mas por
arrependimento não se pretende nada distinto da conversão ativa (ou conversão
ativamente considerada), pois diz respeito ao termo do qual. A conversão ativa é um movimento ou exercício da mente que
diz respeito a dois termos, a saber, pecado e Deus. E por arrependimento se
quer dizer essa conversão ou mudança ativa da mente, na medida em que se está
familiarizado com o termo do qual,
ou com o termo pecado. Isto é o que a palavra arrependimento propriamente significa; a qual, no original do Novo
Testamento, é metanoia, que significa
uma mudança de mente ou, o que é a mesma coisa, a virada ou a conversão da
mente. O arrependimento é essa virada, pois diz respeito ao do que se é virado. Atos 26.19-20, “Pelo que, ó rei Agripa, não
fui desobediente à visão celestial, mas anunciei primeiramente aos de Damasco e
em Jerusalém, por toda a região da Judeia, e aos gentios, que se arrependessem
e se convertessem a Deus.” Ambos (arrependimento e conversão) são a mesma
virada, mas apenas no que diz respeito a termos opostos; na primeira é expressa
o exercício da mente acerca do pecado nesta virada, na outra, o exercício da
mente em relação a Deus.
Se considerarmos
as Escrituras que falam do arrependimento evangélico, logo veremos que o
arrependimento deve ser compreendido nesse sentido; como Mateus 9.13, “Pois não vim chamar justos, mas pecadores ao
arrependimento.” Lucas 13.3, “Se,
porém, não vos arrependerdes, todos igualmente perecereis.” E Lucas 15.7, Lucas 15.10, “Haverá maior júbilo no céu por um pecador que se
arrepende”, ou seja, por um pecador que é convertido. Atos 11.18, “Logo,
também aos gentios foi por Deus concedido o arrependimento para a vida.” Isso é
dito pelos cristãos da circuncisão em Jerusalém, após Pedro dar um relato sobre
a conversão de Cornélio e sua família, e sua adoção do evangelho, embora Pedro
não tivesse dito expressamente nada sobre sua tristeza pelo pecado. E
novamente, Atos 17.30, “Agora, porém,
notifica aos homens que todos, em toda parte, se arrependam.” E Lucas 16.30, “Não, pai Abraão, se alguém
dentre os mortos for ter com eles, arrepender-se-ão.” 2 Pedro 3.9, “Não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a
julgam demorada; pelo contrário, ele é longânimo para convosco, não querendo
que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento.” Fica claro que,
nestes e em outros lugares, por arrependimento se quer dizer conversão.
Agora,
é verdade que conversão é a condição para o perdão e a justificação. Entretanto,
se for assim, quão absurdo é dizer que a conversão é uma condição para a justificação,
e a fé, outra; como se fossem duas condições separadamente distintas e
paralelas? Conversão é a condição para a justificação porque é aquela grande
mudança pela qual somos levados do pecado para Cristo, e pela qual nos tornamos
crentes nele; de acordo com Mateus 21.32,
“Vós, porém, mesmo vendo isto, não vos arrependestes, afinal, para acreditardes
nele.” Quando somos dirigidos ao arrependimento para que nossos pecados sejam
apagados é tanto quanto dizer: “Que suas mentes e corações sejam mudados para que
seus pecados sejam apagados”. Porém se for dito: “Que seus corações sejam mudados
para que você seja justificado”; e também dito: “Creia para que você seja
justificado”; seguirá, portanto, que o coração ser mudado é uma condição para a
justificação, e crer, outra? Porém nossas mentes devem ser mudadas para que
possamos crer e, assim sermos justificados.
Além
disso, o arrependimento evangélico, sendo conversão ativa, não deve ser tratado
como uma graça particular, própria e inteiramente distinta da fé, como parece
ter sido conforme alguns. O que é conversão, exceto a união da alma pecaminosa
alienada com Cristo, ou o pecador ser levado a crer em Cristo? Esse exercício da
alma que existe na conversão, que diz respeito ao pecado, não pode ser excluído
da natureza da fé em Cristo. Há algo na fé ou no unir-se a Cristo que diz
respeito ao pecado, e este é o arrependimento evangélico. Este arrependimento
que, na Escritura, é chamado de “arrependimento para a remissão dos pecados”, é
aquele princípio ou operação da própria mente, que é chamado de fé na medida em
que está relacionado ao pecado. A fé justificadora em um Mediador está
relacionada a duas coisas: está relacionada ao pecado ou ao mal, ser rejeitado
e ser libertado dele pelo Mediador, e ao bem positivo a ser aceito e obtido
pelo Mediador; quando relacionado ao primeiro destes, é arrependimento
evangélico ou arrependimento para a remissão dos pecados. Certamente devem ser
muito ignorantes ou, pelo menos, muito desatentos de todo o conteúdo do
evangelho, aqueles que pensam que esse arrependimento pelo qual a remissão dos
pecados é obtida pode ser completado, quanto a tudo o que é essencial a ele,
sem qualquer referência a Cristo, ou aplicação da mente ao Mediador que fez
expiação pelo pecado sozinho. Certamente uma parte tão grande da salvação como
a remissão dos pecados não deve ser obtida sem olhar para ou vir ao grande e
único Salvador. O verdadeiro arrependimento, em sua natureza abstrata mais
geral, é apenas uma tristeza pelo pecado e abandono dele, o que é um dever da
religião natural; mas o arrependimento evangélico, ou o arrependimento para a
remissão dos pecados, tem mais do que este princípio básico consigo; uma
dependência da alma no Mediador para a libertação do pecado é da sua essência.
Que
o arrependimento justificador tem a natureza da fé parece evidente por Atos 19.4, “Disse-lhes Paulo: João realizou o batismo de arrependimento,
dizendo ao povo que cresse naquele que vinha depois dele, a saber, em Jesus.”
As últimas palavras: “dizendo ao povo que cresse naquele”, etc. são
evidentemente exegética das primeiras e explicam como ele pregou o arrependimento
para a remissão dos pecados. Quando se diz que ele pregou arrependimento para a
remissão dos pecados, dizendo que eles deviam crer em Cristo, nada pode ser
suposto exceto que é pretendido que sua declaração para que cressem em Cristo era
como que dirigindo-os ao que fazer para que pudessem obter a remissão dos
pecados. Assim 2 Timóteo 2.25, “Disciplinado
com mansidão os que se opõem, na expectativa de que Deus lhes conceda não só o
arrependimento para conhecerem plenamente a verdade.” Esse conhecimento da
verdade que há no crente é mencionado aqui como o que é obtido no
arrependimento. E, por outro lado, a fé inclui o arrependimento em sua
natureza, é evidente pelo discurso do apóstolo sobre o pecado como destruído na
fé (Gálatas 2.18). Nos versículos anteriores, o apóstolo menciona uma
objeção contra a doutrina da justificação somente pela fé, a saber, que ela
tende a encorajar os homens no pecado e, assim, faz de Cristo o ministro do
pecado. Ele rejeita esta objeção e a refuta com isso: “Porque, se torno a
edificar aquilo que destruí, a mim mesmo me constituo transgressor.” Se o
pecado deve ser destruído pela fé, isto deve ser feito pelo arrependimento do
pecado incluído nele; pois sabemos que é nosso arrependimento do pecado, ou a metanoia, ou a volta da mente do pecado, que é a nossa destruição do
nosso pecado.
Que
na fé justificadora, que diz respeito diretamente o pecado, ou o ser libertado do
mal pelo Mediador, é como segue: um senso de nossa própria pecaminosidade, da
sua odiosidade, e um reconhecimento genuíno de seu merecimento da punição
ameaçada, que olha para a livre misericórdia de Deus em um Redentor para a
libertação dele e de sua punição.
Quanto
a isso, aqui descrito, três coisas podem ser observadas: primeira, que é o
mesmo com aquele arrependimento evangélico ao qual a remissão dos pecados é
prometida nas Escrituras; segunda, que tudo isso é da essência da fé
justificadora, e é o mesmo com essa fé na medida em que está relacionada ao mal
do qual ser liberto pelo Mediador; terceira, que esta é, de fato, a condição própria
e peculiar da remissão dos pecados.
(1)
Tudo isso é essencial ao arrependimento evangélico e é, de fato, a mesma coisa pretendida
por esse arrependimento ao qual a remissão dos pecados é prometida no
evangelho. Quanto à parte anterior da descrição, a saber, um senso de nossa
própria pecaminosidade, a sua odiosidade e um reconhecimento genuíno de seu merecimento
de ira, ninguém negará que esteja incluso no arrependimento. Entretanto, isso
não abrange toda a essência do arrependimento evangélico, mas o que segue
também pertence própria e essencialmente à sua natureza, olhar para a livre
misericórdia de Deus em um Redentor, para a libertação dele e de sua punição.
Esse arrependimento ao qual a remissão é prometida não apenas tem isso sempre consigo,
mas está contido nele como o que é da sua natureza e essência próprias. E a
natureza do arrependimento sempre diz respeito a isso quando a remissão lhe é
prometida; e é especialmente a partir do que diz respeito a isso na natureza do
arrependimento que tem essa promessa feita a ele. Se esta última parte for
omitida, a natureza desse arrependimento evangélico ao qual a remissão dos
pecados é prometida falha. Se o arrependimento fica na tristeza pelo pecado e
não se estende a um olhar para a livre misericórdia de Deus em Cristo para o
perdão, não é aquilo que é a condição do perdão nem deve ser obtido por ele. O
arrependimento evangélico é uma humilhação diante de Deus por causa do pecado,
mas o pecador nunca vem e se humilha diante de Deus em qualquer outro
arrependimento exceto aquele que inclui uma esperança em sua misericórdia para a
remissão. Se sua tristeza não for acompanhada disso, não haverá vinda a Deus
nela, mas um voo para longe dele. Há alguma adoração de Deus no arrependimento
justificador, mas não há em nenhum outro arrependimento, exceto aquele que tem
um senso de pecado e fé na misericórdia divina para perdoar o pecado. Salmo 130.4, “Contigo, porém, está o
perdão, para que te temam.” A promessa de misericórdia a um verdadeiro
penitente, em Provérbios 28.13, é
expressa nestes termos: “Mas o que as confessa e deixa alcançará misericórdia.”
Porém há fé na misericórdia de Deus nessa confissão. O salmista, no Salmo 32, falando da bênção sobre o
homem cuja transgressão é perdoada e cujo pecado é coberto, a quem o Senhor não
imputa pecado, diz que, enquanto ele se mantinha em silêncio, seus ossos envelheceram,
mas então ele reconheceu seu pecado diante de Deus, não escondeu sua
iniquidade; ele disse que confessaria sua transgressão ao Senhor e, então, Deus
perdoaria a iniquidade de seu pecado. A forma de expressão mostra claramente
que então ele começou a encorajar-se na misericórdia de Deus, quando seus ossos
envelheciam enquanto ele mantinha silêncio; e, por isso, o apóstolo Paulo, em Romanos
4, traz este exemplo para confirmar a doutrina da justificação somente pela fé,
na qual ele vinha insistindo. Quando o pecado é corretamente confessado a Deus,
há sempre fé nesse ato. Esta confissão do pecado que está unida ao desespero,
como ocorreu com Judas, não é a confissão à qual a promessa é feita. Em Atos 2.38, a orientação, dada àqueles
que estavam atormentados em seus corações com um senso de culpa pelo pecado,
foi para se arrependerem e serem batizados no nome de Jesus Cristo para a
remissão de seus pecados. O ser batizado no nome de Cristo para a remissão dos
pecados implicava em fé em Cristo para a remissão dos pecados. O arrependimento
para a remissão dos pecados era tipificado antigamente pela confissão do
sacerdote dos pecados do povo sobre o bode expiatório ao colocar as mãos sobre
ele (Levítico 16.21), indicando que é
somente este arrependimento e confissão do pecado que obtém a remissão que é
feita através do bode expiatório, através de Cristo, o grande sacrifício, e na
dependência dele. Muitas outras coisas podem ser produzidas a partir das
Escrituras que confirmam de maneira semelhante este ponto, mas estes podem ser
suficientes.
(2)
Toda a descrição mencionada acima é sobre a essência de fé justificadora e não
diferente dela, na medida em que está relacionada ao pecado ou ao mal do qual
ser liberto pelo Mediador. Pois é, sem dúvida, da essência da fé justificadora
abraçar a Cristo como Salvador do pecado e da sua punição, e tudo o que está
contido nesse ato está contido na natureza própria da fé. Porém no ato de
abraçar a Cristo como Salvador do nosso pecado e de sua punição está implícito
um senso do nosso pecado e um ódio a nossos pecados, ou uma rejeição deles com aversão,
e um senso de nosso merecimento de sua punição. Um abraçar a Cristo como Salvador
do pecado implica no ato contrário para com o pecado, a saber, a rejeição do
pecado. Se voarmos para a luz para sermos libertado da escuridão, o mesmo ato é
contrário à escuridão, a saber, uma rejeição dela. Na proporção à seriedade ou
apetite com que abraçamos a Cristo como Salvador do pecado, na mesma proporção
é a aversão com que rejeitamos o pecado, no mesmo ato. Sim, se supormos que
haja, na natureza da fé como relacionada ao pecado, não mais do que o abraçar
sincero a Cristo como Salvador da punição do pecado, este ato implicará em toda
a descrição acima mencionada. Implica num senso de nossa própria pecaminosidade.
Certamente, no abraçar sincero de um Salvador da punição de nossa pecaminosidade
há o exercício de um senso de nossa pecaminosidade, ou que somos pecadores. Não
podemos abraçar sinceramente a Cristo como um Salvador da punição do que não estamos
conscientes de que somos culpados. Há também, no mesmo ato, um senso do nosso merecimento
da punição ameaçada. Não podemos abraçar sinceramente a Cristo como um Salvador
daquilo de que não estamos conscientes de que merecemos. Pois se não estamos
conscientes de que merecemos a punição, não estaremos conscientes de que
tenhamos qualquer necessidade de um Salvador ou, pelo menos, não estaremos
convencidos exceto de que Deus, que oferece o Salvador, o torna injustamente
necessário; e não podemos aceitar essa oferta sinceramente. E, além disso, há
implícito em um abraçar sinceramente a Cristo como o Salvador da punição não
apenas uma convicção de consciência de que merecíamos a punição tal como os
demônios e os condenados têm, mas há um reconhecimento sincero dela com a
submissão da alma, assim como a concordância do coração, em reconhecer que Deus
pode ser justo e correto na punição. Se o coração se ergue contra o ato ou
julgamento de Deus ao nos responsabilizar pela punição, quando ele nos oferece
seu Filho como Salvador da punição, não podemos, com o consentimento do
coração, recebê-lo nessa qualidade. Porém, se as pessoas se submeterem à
justiça de uma punição tão terrível do pecado, isso carrega em si um ódio ao
pecado.
Que
tal senso de nossa pecaminosidade, de total indignidade e de merecimento de
punição pertence à natureza da fé salvadora é o que as Escrituras de tempos em
tempos parecem exibi; como particularmente em Mateus 15.26-28, “Então, ele, respondendo, disse: Não é bom tomar o
pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos. Ela, contudo, replicou: Sim, Senhor,
porém os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus donos. Então,
lhe disse Jesus: Ó mulher, grande é tua fé!” E Lucas 7.6-9, “O centurião enviou-lhe amigos para lhe dizer: Senhor
não te incomodes, porque não sou digno de que entres em minha casa. Por isso,
eu mesmo não me julguei digno de ir ter contigo; porém manda com uma palavra, e
o meu rapaz será curado. Porque também sou homem sujeito à autoridade” etc. “Ouvidas
estas palavras, admirou-se Jesus dele e, voltando-se para o povo que o
acompanhava, disse: Afirmo-vos que nem mesmo em Israel achei fé como esta.” E
também Lucas 7.37-38, “E eis que uma
mulher da cidade, pecadora, sabendo que ele estava à mesa na casa do fariseu, levou
um vaso de alabastro com unguento; e, estando por detrás, aos seus pés,
chorando, regava-os com suas lágrimas e os enxugava com os seus próprios
cabelos; beijava-lhe os pés e os ungia com o unguento.” Junto com Lucas 7.50, “Mas Jesus disse à mulher: A
tua fé te salvou; vai-te em paz.”
Essas
coisas não pressupõe necessariamente que arrependimento e fé sejam apenas
palavras com o mesmo significado; pois é somente assim na fé justificadora quando
diz respeito ao mal do qual ser liberto pelo Salvador, que é chamado de
arrependimento. E, além disso, tanto o arrependimento quanto a fé, tomam-nas
apenas em sua natureza geral, e elas são totalmente distintas; arrependimento é
uma tristeza pelo pecado e abandono dele; e a fé é um confiança na suficiência
e na verdade de Deus. Porém fé e arrependimento, como deveres evangélicos, ou
fé justificadora e arrependimento para a remissão dos pecados, contêm mais em
si, implicam numa consideração para com um Mediador e envolvem-se um na
natureza do outro;[25] embora
seja verdade que eles ainda carregam o nome de fé e arrependimento, a partir
daquelas virtudes morais gerais, aquele arrependimento que é um dever da
religião natural e aquela fé que era um dever exigido sob a primeira aliança,
que estão contidos neste ato evangélico; as quais aparecem separadamente quando
este ato é considerado com relação a seus diferentes termos e objetos com os quais
está relacionado.
Pode
ser objetado aqui que as Escrituras, às vezes, mencionam fé e arrependimento
juntos, como se fossem coisas inteiramente distintas; como em Marcos 1.15.
Marcos 1.15, “Arrependei-vos e crede no evangelho.” Porém
não há necessidade de entendê-las como duas condições distintas de salvação,
mas as palavras são explicativas uma da outra. É para nos ensinar acerca de que
maneira devemos nos arrepender, a saber, como crer no evangelho, e acerca de
que maneira devemos crer no evangelho, a saber, como nos arrependermos. Estas
palavras não provam que fé e arrependimento são totalmente distintos mais do
que aquelas supramencionadas. Mateus 21.32,
Vós, porém, mesmo vendo isto, não vos arrependestes, afinal, para acreditardes
nele.” Ou aquelas em 2 Timóteo 2.25, “Na
expectativa de que Deus lhes conceda não só o arrependimento para conhecerem
plenamente a verdade.” O apóstolo em, Atos
19.4, parece fazer referência a estas palavras de João Batista, “João realizou
o batismo de arrependimento, dizendo ao povo que cresse”, etc., onde as últimas
palavras, como já observamos, são para explicar como ele pregou o
arrependimento.
Outra
Escritura onde a fé e o arrependimento são mencionados juntos são Atos 20.21, “Testificando tanto a judeus
como a gregos o arrependimento para com Deus e fé em nosso Senhor Jesus Cristo.”
Pode ser objetado que, neste lugar, fé e arrependimento não são expressos apenas
como coisas distintas, mas como tendo objetos distintos.
A
isso eu respondo que é verdade que a fé e o arrependimento, em sua natureza
geral, são coisas distintas. E arrependimento para a remissão dos pecados, ou
que a fé justificadora que diz respeito ao mal do qual ser liberto, na medida
em que se referem a esse termo, que é o que especialmente se denomina
arrependimento, diz respeito a Deus como o objeto, porque ele é o Ser ofendido
pelo pecado e a ser reconciliado, mas que, neste ato justificante, por isso é
denominado fé, diz respeito mais especialmente a Cristo. Porém a interpretemos
como quisermos, a objeção da fé como estando aqui mais ou menos distinta de
arrependimento, é tanto uma objeção contra o esquema daqueles que se opõem à justificação
somente pela fé como contra este esquema; pois eles sustentam que a fé justificadora
da qual o apóstolo Paulo fala inclui arrependimento, como já foi observado.
(3)
Este arrependimento descrito é, de fato, a condição especial para a remissão
dos pecados. Isso parece muito evidente pelas Escrituras, como particularmente,
Marcos 1.4, “Apareceu João Batista no
deserto, pregando o batismo do arrependimento para remissão de pecados.” Igualmente
Lucas 3.3, “Ele percorreu toda a
circunvizinhança do Jordão, pregando batismo de arrependimento para remissão de
pecados.” Lucas 24.47, “E que em seu
nome se pregasse arrependimento para remissão de pecados a todas as nações.” Atos 5.31, “Deus, porém, com a sua
destra, o exaltou a Príncipe e Salvador, a fim de conceder a Israel o
arrependimento e a remissão de pecados”; Atos
2.38, “Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus
Cristo para remissão de pecados”; e Atos 3.19,
“Arrependei-vos, pois, e convertei-vos para serem cancelados os vossos pecados.”.
O mesmo é evidente por meio de Levítico
26.40-42, Jó 33.27-28, Salmo 32.5, Provérbios 28.13, Jeremias 3.13
e 1 João 1.9 e em outros lugares.
E a
razão pode ser evidente a partir do que foi dito. Não é preciso imaginar que, aquilo
na fé que diz respeito especialmente ao pecado, seja especialmente a condição para
a remissão dos pecados; ou que este movimento ou exercício da alma, quando ela
rejeita e foge do mal e abraça Cristo como seu Salvador, deve ser especialmente
a condição de estar livre desse mal; da mesma forma que o mesmo princípio ou
movimento, quando busca o bem e se apega a Cristo como o provedor desse bem,
deve ser a condição de obter esse bem. A fé em relação ao bem é aceitação, e
com respeito ao mal é rejeição. Sim, este mal rejeitado é em si um ato de
aceitação; é aceitar a liberdade ou a separação desse mal; e essa liberdade ou
separação é o benefício concedido na remissão. Não é de admirar que, aquilo na
fé que diz respeito imediatamente esse benefício, e é a nossa aceitação desse
benefício, deve ser a condição especial para tê-lo. É assim em relação a todos
os benefícios que Cristo adquiriu. Confiar em Deus por meio de Cristo para um
benefício particular que precisamos é a condição especial para se obter esse
benefício. Quando precisamos de proteção contra inimigos, o exercício da fé em
relação a este benefício, ou confiar em Cristo para proteção contra inimigos, é
especialmente a maneira de se obter esse benefício particular em vez de confiar
em Cristo para alguma outra coisa; e assim com relação a qualquer outro
benefício que possa ser mencionado. Assim, a oração (que é a expressão da fé) por
uma misericórdia particular necessária é especialmente a maneira de obter essa
misericórdia.[26]
De
modo que vemos que nenhum argumento pode ser extraído daqui, portanto, contra a
doutrina da justificação somente pela fé. E há na natureza do arrependimento
aquilo que peculiarmente tende a estabelecer o contrário da justificação pelas
obras. Pois nada rejeita tanto a nossa própria dignidade e excelência quanto o
arrependimento; sua própria natureza é reconhecer nossa completa pecaminosidade
própria, indignidade absoluta, rejeitar a nossa própria bondade e toda a
confiança em si mesmo; e assim confiar na propiciação do Mediador e atribuir
toda a glória do perdão a ele.
Objeção 6. A última objeção que mencionarei é aquele
parágrafo em Tiago 2, onde é
dito expressamente que as pessoas são justificadas por obras; Tiago 2.21: “Não foi por obras que
Abraão, o nosso pai, foi justificado?” Tiago
2.24, “Verificais que uma pessoa é justificada por obras e não por fé
somente.” Tiago 2.25, “De igual modo,
não foi também justificada por obras a meretriz Raabe?” Em resposta a esta
objeção, eu
(1)
Tomaria conhecimento da grande deslealdade dos teólogos que se opõem a nós no proveito
que fazem desta passagem contra nós. Todos admitirão que, nessa proposição de
São Tiago, “Uma pessoa é justificada pelas obras e não pela fé somente”, um dos
termos, seja a palavra fé, ou outra,
a palavra justificar, não deve ser
compreendida precisamente no mesmo sentido, como os mesmos termos quando usados
por São Paulo; porque nossos adversários, assim como nós, supõem[27] que não era a intenção do apóstolo Tiago
contradizer São Paulo nessa doutrina da justificação somente pela fé, na qual
ele havia instruído as igrejas, mas se entendermos ambos os termos como usados
por cada apóstolo precisamente no mesmo sentido, então o que um afirma é uma
contradição precisa, direta e completa do outro; um afirmando e o outro negando
a mesma coisa. De modo que toda a controvérsia deste texto chega a isso, a
saber, qual desses dois termos deve ser compreendido de modo diferente de São
Paulo. Eles dizem que é a palavra fé; pois eles supõem que, quando o
apóstolo Paulo usa a palavra e faz da fé aquilo pelo que somente somos
justificados, a qual então, por isso, deve ser entendida em conformidade com a
prática do cristianismo em geral; de modo a incluir toda a virtude e obediência
cristãs salvadoras. Porém, visto que o apóstolo Tiago usa a palavra fé neste lugar, eles supõem por meio
disso que deve ser entendido apenas um consentimento favorável da compreensão da
verdade das doutrinas evangélicas como distinta das boas obras, e que pode
existir separada delas e de toda graça salvadora. Nós, por outro lado, supomos
que a palavra justificar deve ser
entendida em um sentido diferente do usado pelo apóstolo Paulo. De modo que
eles são forçados a ir tão longe, em seu esquema, ao ponto de alterar o sentido
dos termos do uso que Paulo faz deles, como nós. Mas, ao mesmo tempo em que
eles mudam livremente o sentido do primeiro deles, a saber, fé,
todavia, quando entendemos o último, a saber, justificar, em um sentido diferente do de São Paulo, eles nos
criticam: “Qual a necessidade de conceber essa distinção senão apenas para
servir a uma opinião? Nesse caso, um homem pode afirmar qualquer coisa, embora
nunca tão contrário às Escrituras, e esquivar-se do texto mais claro da Bíblia!”
Embora eles não nos mostrem por que não temos um bom fundamento para entender a
palavra justificar de modo diferente
do de São Paulo, como eles da palavra fé.
Se o sentido de uma das palavras deve ser mudado em cada esquema a fim de
tornar a doutrina do apóstolo Tiago consistente com a do apóstolo Paulo, e a mudança
de sentido de um termo ou do outro ser tudo o que está no caminho de sua concordância
com cada esquema, e a mudança de sentido do último ser em si mesma tão justa
quanto a do primeiro, então o texto é tão favorável a um esquema como ao outro,
e não pode ser uma objeção mais sólida contra o nosso esquema do que contra o
deles. E, se assim for, o que acontece com toda essa grande objeção a partir
desta passagem em Tiago?
(2)
Se não houver maior dificuldade em se mudar o sentido de um desses termos do
que do outro, a partir de qualquer coisa no texto em si, de modo a fazer as
palavras se adequarem a qualquer esquema, então certamente deve ser escolhido o
que está em mais conformidade com o fluxo das Escrituras, e outros lugares onde
a mesma matéria é mais particular e plenamente tratada; e por esta razão
devemos entender a palavra justificar,
nesta passagem de Tiago, em um sentido em algum aspecto diferente daquele em
que São Paulo o utiliza. Pois, pelo que já foi dito, pode parecer que não há
uma doutrina em toda a Bíblia que seja mais plenamente afirmada, explicada e realçada
do que a doutrina da justificação somente pela fé, sem nada de nossa justiça
própria.
(3)
Há uma interpretação muito clara desta passagem de São Tiago que não é de modo
algum inconsistente com esta doutrina da justificação, a qual tenho demonstrado
que outras Escrituras a ensinam abundantemente, cuja interpretação das próprias
palavras também permitirão, como a que os opositores colocam sobre elas, e concordam
muito melhor com o contexto; e esta é que as obras são aqui mencionadas tanto como
justificação quanto como evidências. Pode ser dito que um homem é justificado por
aquilo que o inocenta, ou o vindica, ou faz a bondade de sua causa se
manifestar. Quando uma pessoa tem uma causa julgada em um tribunal civil e é
justificada ou inocentada, pode ser dito em diferentes sentidos que ela está
justificada ou inocentada pela excelência de sua causa e pela excelência das suas
evidências. Pode ser dito que ela é inocentada por que as evidências da sua
causa são boas, mas não no mesmo sentido que ela é inocentada por aquilo que
faz sua causa ser boa. O que torna sua causa boa é a base adequada de sua justificação;
é aquilo pelo que ela é em si um objeto adequado da justificação; mas as
evidências justificam apenas quando manifestam que sua causa é boa de fato, se elas
são de tal natureza a ponto de ter alguma influência para torná-la assim ou
não. É por meio das obras que nossa causa parece ser boa; mas pela fé nossa
causa não apenas parece ser boa, ela se torna boa porque estamos unidos a
Cristo por meio dela. Que a palavra justificação
deve ser, às vezes, entendida como significando a primeira delas, bem como a
última, está em conformidade com o uso da palavra no modo comum de falar; quando
dizemos que um se levantou para justificar o outro, isto é, ele se esforçou
para mostrar ou manifestar que sua causa é boa. E é certo que a palavra, às
vezes, é usada nesse sentido nas Escrituras, quando se fala de sermos
justificados diante de Deus: como onde é dito que seremos justificados por
nossas palavras; Mateus 12.37, “Porque,
pelas tuas palavras, serás justificado e, pelas tuas palavras, serás condenado.”
Isto não pode significar que os homens são aceitos diante de Deus por causa de
suas palavras; pois Deus não nos disse nada mais claramente do que que é para o
coração que ele olha, e que, quando ele age como juiz para com os homens, a fim
de justificar ou condenar, ele prova o coração. Jeremias 11.20, “Mas, ó Senhor dos Exércitos, justo Juiz, que provas
o mais íntimo do coração, veja eu a tua vingança sobre eles; pois a ti revelei
a minha causa.” Salmo 7.8-9, “O
Senhor julga os povos; julgue-me, Senhor, segundo a minha retidão e segundo a
minha integridade que há em mim. Cesse a malícia dos ímpios, mas estabelece tu
o justo; pois sondas a mente e o coração.” Salmo
7.11, “Deus é justo juiz.” E muitos outros lugares com propósito
semelhante. E, portanto, os homens podem ser justificados por suas palavras,
não de outra forma do que como evidências ou manifestações do que está no
coração. E é assim que Cristo fala de palavras neste mesmo lugar, como é
evidente pelo contexto.[28] Mateus 12.34-35, “Porque a boca fala do
que está cheio o coração. O homem bom tira do tesouro bom coisas boas; mas o
homem mau do mau tesouro tira coisas más” etc. As palavras, ou os sons em si, não
são nem partes da piedade, nem evidências da piedade, mas são sinais do que
está dentro.
O
próprio Deus, quando age como juiz contra os homens, com o propósito de um
julgamento declarativo, faz uso de evidências e, assim, julga os homens por
suas obras. E, por isso, no dia do julgamento, Deus julgará os homens de acordo
com suas obras, pois embora Deus não precise de evidências para informá-lo do
que é certo, todavia deve ser considerado que ele se assentará em julgamento
naquela ocasião, não como os juízes terrenos fazem, para descobrir o que é
certo em uma causa, mas para declarar e manifestar o que é certo. E por isso aquele
dia é chamado pelo apóstolo de “o dia da revelação do justo juízo de Deus” (Romanos
2.5).
Para
ser justificado deve ser aprovado e aceito, mas pode ser dito que um homem é
aprovado e aceito em dois aspectos: o primeiro, deve ser realmente aprovado, e
o outro deve ser declarativamente aprovado e aceito. A justificação é dupla: é
a aceitação e a aprovação do próprio juiz, ou a manifestação dessa aprovação mediante
uma decisão ou sentença judicial declarada pelo juiz, seja para nossas próprias
consciências ou para o mundo. Se a justificação for compreendida no primeiro sentido,
como a aprovação em si, esta é apenas aquela pela qual nos tornamos aptos a ser
aprovados. Mas se for entendida no último sentido, como a manifestação dessa
aprovação, ela é, por qualquer coisa que seja, a própria evidência dessa
aptidão. Na primeira, apenas a fé está em questão, porque é somente por ela em
nós que nos tornamos aptos a ser aceitos e aprovados; na última, qualquer que
seja a evidência de nossa aptidão está igualmente em questão. E, portanto,
tomar a justificação nesse sentido e, em seguida, a fé e todas as outras graças
e boas obras têm uma questão comum e igual nela; pois qualquer outra graça ou
ato santo é igualmente evidência de uma qualificação à aceitação ou aprovação,
como a fé.
Em
linguagem comum, justificar sempre significou indiferentemente, quer
simplesmente aprovação ou testemunho dessa aprovação; às vezes uma e às vezes
outra. E isto porque ambas são a mesma coisa; apenas que uma é exteriormente o
que a outra é interiormente. Então nós, e pode ser todas as nações, estamos acostumados
a sempre dar os mesmos nomes a duas coisas, quando uma é apenas declarativa da
outra. Assim, às vezes, julgar, significa apenas julgar em nossos pensamentos;
em outras vezes, testemunhar e declarar decisão judicial. Assim, palavras como justificar, condenar, aceitar, rejeitar, avaliar, desprezar, aprovar, renunciar,
às vezes, são colocadas como atos mentais, outras vezes, como um tratamento
externo Assim, no sentido em que o apóstolo Tiago parece usar a palavra justificar para justificação
manifestativa, um homem é justificado não apenas pela fé, mas também pelas
obras; como uma árvore manifesta ser boa, não apenas mediante o exame imediato
da árvore, mas também pelo fruto. Provérbios
20.11, “Até a criança se dá a conhecer pelas suas ações, se o que faz é
puro e reto.”
O
significado do apóstolo não exige que ele seja compreendido em qualquer outro
sentido, pois tudo o que ele almeja, como fica óbvio por um exame do contexto,
é provar que as boas obras são necessárias. O erro daqueles a quem ele se opôs era
este: que as boas obras não eram necessárias para a salvação; que se eles apenas
cressem que havia apenas um Deus, e que Cristo era o Filho de Deus e assim por
diante; e fossem batizados, eles estariam seguros, deixando-os viver como eles viviam;
cuja doutrina tendia grandemente à licenciosidade. O que evidencia o contrário
disso é, evidentemente, o escopo do apóstolo.
E
que devemos entender as obras que justificam do apóstolo como evidência e em um
julgamento declarativo, é aquilo para o que uma devida consideração do contexto
naturalmente nos levará. Pois é claro que o apóstolo está insistindo aqui em
obras na qualidade de uma manifestação necessária e evidência de fé, ou como a maneira
pela qual a verdade da fé é mostrada ou feita evidente. Como Tiago 2.18, “Mostra-me essa tua fé sem
as obras, e eu, com as obras, te mostrarei a minha fé.” E quando ele diz, Tiago 2.26, “Porque, assim como o corpo
sem espírito está morto, assim também a fé sem obras é morta.” É muito mais
racional e natural entendê-lo como falando de obras como os sinais e evidências
próprios da realidade, da vida e da bondade da fé. Não que as próprias obras ou
ações sejam propriamente a vida da fé, como o espírito no corpo; mas é a
natureza ativa e operosa da fé, da qual as ações ou obras feitas são os sinais,
que é em si a vida e o espírito da fé. O sinal de uma coisa é, na linguagem das
Escrituras, frequentemente dito ser aquela coisa. Como é nessa comparação pela
qual o apóstolo a ilustra. Não são as ações em si de um corpo que são
propriamente a vida ou o espírito do corpo, mas é a natureza ativa da qual
essas ações ou movimentos são os sinais que são a vida do corpo. Aquilo que faz
os homens chamarem qualquer coisa de viva é o que eles observam que tem uma
natureza ativa operacional nela; o que eles observam não de outra forma do que
pelas ações ou movimentos que são os seus sinais. É claramente o objetivo do apóstolo
provar que as obras são necessárias a partir disso, que se a fé não produz é um
sinal de que não é um bom tipo de fé; o que não é o seu propósito se fosse sua
intenção mostrar que não é apenas pela fé, embora de um tipo certo, que temos
aceitação diante de Deus, mas que somos aceitos por causa da obediência, bem
como da fé. É evidente, pelo raciocínio do apóstolo, que a necessidade das
obras de que ele fala, não é como tendo uma participação paralela como a fé em
nossa salvação, mas ele fala de obras apenas como relacionadas à fé e expressão
dela. O que, afinal, deixa a fé como a única condição fundamental, sem que nada
mais tenha participação paralela com ela nessa questão, e outras condições
apenas como várias expressões e evidências dela.
Que
o apóstolo fala de obras que justificam apenas como um sinal ou evidência, e no
julgamento declarativo de Deus, é ainda confirmado por Tiago 2.21: “Não foi por obras que Abraão, o nosso pai, foi
justificado, quando ofereceu sobre o altar o próprio filho, Isaque?” Aqui, o apóstolo
parece claramente se referir a esse julgamento declarativo de Deus a respeito
da sinceridade de Abraão, manifestada a ele para paz e segurança de sua própria
consciência, depois de sua oferta de Isaque, seu filho, sobre o altar, do que
temos relato em Gênesis 22.12, “Agora
sei que temes a Deus, porquanto não me negaste o filho, o teu único filho.” Mas
aqui é claro e expresso nas próprias palavras de justificação ou aprovação que
essa obra de Abraão, sua oferta de seu filho sobre o altar, o justificou como
uma evidência. Quando o apóstolo Tiago diz que somos justificados pelas obras,
ele pode e deve ser entendido em um sentido apropriado ao exemplo que ele traz
para prová-lo. Porém a justificação, nesse caso, torna-se óbvia pelas próprias
palavras de justificação mencionadas, ser pelas obras como evidência. E onde
este exemplo da obediência de Abraão é mencionado em outro lugar no Novo Testamento,
é mencionado como um fruto e evidência de sua fé. Hebreus 11.17, “Pela fé, Abraão, quando posto à prova, ofereceu Isaque;
estava mesmo para sacrificar o seu unigênito aquele que acolheu alegremente as
promessas.”
E,
no outro exemplo que o apóstolo menciona, Tiago
2.25, “De igual modo, não foi também justificada por obras a meretriz Raabe,
quando acolheu os emissários e os fez partir por outro caminho?” O apóstolo
refere-se a um julgamento declarativo, naquele testemunho particular que foi
dado da sua aprovação por Deus como crente, ao orientar Josué a salvá-la quando
o restante de Jericó foi destruído. Josué
6.25, “Mas Josué conservou com vida a prostituta Raabe, e a casa de seu
pai, e tudo quanto tinha; e habitou no meio de Israel até ao dia de hoje, porquanto
escondera os mensageiros que Josué enviara a espiar Jericó.” Isso foi aceito
como uma evidência e expressão de sua fé. Hebreus
11.31, “Pela fé, Raabe, a meretriz, não foi destruída com os desobedientes,
porque acolheu com paz aos espias.” O apóstolo, ao dizer: “Não foi também
justificada por obras a meretriz Raabe?”, por sua maneira de falar faz
referência a algo em sua história, mas não temos nenhum relato em seu histórico
de qualquer outra justificação dela, exceto esse.
(4)
Se, não obstante, alguma escolha para tomar a justificação em São Tiago
precisamente como fazemos nas epístolas de Paulo, como a aceitação ou aprovação
de Deus em si e não qualquer expressão dessa aprovação, o que já foi dito sobre
a forma como os atos de obediência evangélica participam na questão de nossa justificação
oferece uma resposta muito fácil, clara e completa. Pois se tomarmos obras como
atos ou expressões de fé, elas não são excluídas; de modo que um homem não é
justificado apenas pela fé, mas também por obras; isto é, ele não é justificado
apenas pela fé como um princípio no coração, ou em seus primeiros e mais
imanentes atos, mas também pelos atos efetivos na sua vida, os quais são as
expressões da vida da fé, como as operações e ações do corpo são da vida desse
corpo; de acordo com Tiago 2.26.
O
que foi dito em resposta a essas objeções, também pode, espero, servir
abundantemente como resposta a esta objeção que frequentemente é feita contra
esta doutrina, a saber, que ela encoraja a uma vida licenciosa. Pois, pelo que
foi dito, podemos ver que a doutrina das Escrituras da justificação somente
pela fé, sem qualquer tipo de bondade ou excelência nossa, de forma alguma
diminui a necessidade ou o benefício de uma obediência universal evangélica
sincera; com a qual a salvação do homem não está apenas indissoluvelmente
ligada, e a condenação por sua ausência naqueles que têm oportunidade para
isso, mas que depende dela em muitos aspectos; visto que é o caminho para ela e
a preparação necessária para ela, e também visto que as bênçãos eternas são
concedidas em recompensa por ela, e visto que a nossa justificação em nossas
próprias consciências e no dia do julgamento depende dela como a evidência
adequada de nosso estado aceitável, e que, até mesmo na nossa aceitação como tendo
direito à vida em nossa justificação. Deus leva isso em consideração como aquilo
sobre o que depende a conveniência de tal ato de justificação. De modo que
nossa salvação se torna verdadeiramente dependente dela, como se fôssemos
justificados por sua excelência moral. E, além de tudo isso, o grau de nossa
felicidade por toda a eternidade está suspenso sobre e é determinado pelo seu grau.
De modo que este esquema evangélico de justificação está muito longe de
encorajar a licenciosidade, e contém outro tanto para encorajar e excitar a
obediência estrita e universal, e a maior dignidade possível de santidade, como
qualquer esquema que possa ser concebido e, de fato, indescritivelmente mais.
Eu chego agora à
V.
[Quinta] e última coisa proposta, que é considerar a importância desta
doutrina.
Eu
sei que há muitos que agem como se esta controvérsia não fosse de grande
importância; que é principalmente uma questão de especulação refinada, que
depende de certas distinções sutis, que muitos que fazem uso delas não as
entendem; e que a diferença não é tanto de consequência a ponto ser digna de
ser zeloso sobre ela; e que está produzindo mais dano ao se levantar disputas
sobre ela do que bem.
Na
verdade, estou longe de pensar que é de absoluta necessidade que as pessoas
entendam e estejam de acordo sobre todas as distinções necessárias,
particularmente para explicar e defender essa doutrina contra todos os sofismas
e objeções (embora todos os cristãos devam se esforçar por um crescimento no
conhecimento, e ninguém deve se dar por satisfeito sem alguma compreensão clara
e distinta neste ponto). Entretanto, que devemos crer no principal de acordo
com as claras e abundantes revelações da Palavra de Deus, de que não é nossa
própria excelência, virtude ou justiça que é o fundamento de sermos recebidos
de um estado de condenação para um estado de aceitação aos olhos de Deus, mas
apenas Jesus Cristo e sua justiça e dignidade, recebido pela fé. Isso, eu penso,
é de grande importância, pelo menos na aplicação a nós mesmos; e isto pelas
seguintes razões:
Primeira. As Escrituras tratam esta doutrina como
uma doutrina de grande importância. Ninguém negará que existe uma certa
doutrina de justificação pela fé em oposição à justificação pelas obras da lei,
sobre a qual o apóstolo Paulo insiste como de máxima importância; porque não há
nada na Bíblia mais evidente. O apóstolo, sob a condução infalível do Espírito
de Deus, julgou que valia a pena sua mais extenuante e zelosa disputa e defesa.
Ele fala da doutrina contrária como fatal e danosa para as almas dos homens na
parte final de Romanos 9-10. Ele fala
dela como destruidora do evangelho de Cristo, a chama de outro evangelho, e diz
sobre ela que se alguém “ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que
vá além do que vos temos pregado, seja anátema” (Gálatas 1.6-9, comparado com a parte seguinte da epístola).
Certamente devemos admitir que os apóstolos são bons juízes da importância e
tendência das doutrinas; pelo menos o Espírito Santo neles. E, sem dúvida,
estamos seguros, e sem perigo de dureza e censura, se apenas o seguirmos e nos
mantivermos perto de seus ensinos claros, nos quais acreditamos e falam da
tendência prejudicial e perniciosa de qualquer erro. Por que somos censurados
ou criticados por dizer o que a Bíblia nos ensinou a dizer, ou por crer no que
o Espírito Santo nos ensinou que devemos crer para essa finalidade?
Segunda. O esquema contrário estabelece outro fundamento
para a salvação do homem do estabelecido por Deus. Eu não falo agora daquela
redenção ineficaz que eles supõem ser universal e da qual toda a humanidade é
igualmente objeto; mas, eu digo, esse esquema estabelece totalmente outro
fundamento para a salvação real e discriminatória do homem, ou que a salvação na
qual os verdadeiros cristãos diferem dos homens maus. Nós supomos que o seu
fundamento é a dignidade e a justiça de Cristo; de modo contrário, esse esquema
supõe que é a própria virtude dos homens; todavia, que esta é em si a base de
um interesse salvador em Cristo. Isto tira Cristo do lugar da pedra angular e
coloca a própria virtude dos homens no seu lugar; de modo que o próprio Cristo,
na questão da verdadeira salvação distintiva, é colocado sobre esta base. E sendo
o fundamento tão diferente, deixo para cada um julgar se a diferença entre os
dois esquemas consiste apenas em formalidades de pequenas consequências. Os fundamentos
completamente diferentes tornam todo o esquema grandemente diferentes e opostos;
um é um esquema evangélico, o outro, um legal.
Terceira. É nesta doutrina que jaz a diferença
mais essencial entre a aliança da graça e a primeira aliança. O esquema contrário
de justificação supõe que somos justificados por nossas obras, no mesmo sentido
em que o homem deveria ter sido justificado por suas obras sob a primeira aliança.
Mediante essa aliança, nossos primeiros pais não deveriam ter a vida eterna
dada a eles, por qualquer mérito próprio em sua obediência, porque sua
obediência perfeita era uma dívida que eles deviam a Deus. Nem deveria ser
concedida por qualquer proporção entre a dignidade de sua obediência e o valor
da recompensa, mas deveria ser concedida somente a partir de uma consideração
para com uma aptidão moral, em virtude de sua obediência, à recompensa do favor
de Deus; e um direito à vida eterna deveria ser dado a eles como testemunho da
satisfação de Deus com suas obras, ou de seu apreço pela beleza inerente de sua
virtude. E é dessa mesma maneira que aqueles, no esquema contrário, supõem que
somos recebidos no favor especial de Deus agora, e àqueles benefícios salvadores
que são testemunhos desse favor. Estou ciente de que os teólogos desse lado
negam totalmente a doutrina papista do mérito, e tem liberdade para falar de
nossa total indignidade e da grande imperfeição de todos os nossos serviços;
mas, apesar de tudo, é nossa virtude tão imperfeita como é que recomenda os
homens a Deus, pela qual os homens bons, em vez de outros, passam a ter um
interesse salvador em Cristo e ao favor de Deus; e essas coisas são concedidas como
testemunho do apreço de Deus por sua bondade. De modo que admitam ou não o
termo mérito, ainda assim eles
sustentam que somos aceitos por nosso próprio mérito, no mesmo sentido embora
não no mesmo grau, como sob a primeira aliança.
No
entanto, a maior e mais distintiva diferença entre essa aliança e a aliança de
graça é que, mediante a aliança ou a graça não somos justificados por nossas
próprias obras, mas somente mediante a fé em Jesus Cristo. É principalmente por
causa disso que a nova aliança merece o nome de uma aliança da graça, como é óbvio
por Romanos 4.16, “Essa é a razão por
que provém da fé, para que seja segundo a graça.” E Romanos 3.20, Romanos 3.24,
“Visto que ninguém será justificado diante dele por obras da lei, em razão de
que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado. ...sendo justificados gratuitamente,
por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus.” E Romanos 11.6, “E, se é pela graça, já
não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça.” Mas se for por obras,
então não é mais graça; do contrário, obra não é mais obra. Gálatas 5.4, “De Cristo vos desligastes,
vós que procurais justificar-vos na lei; da graça decaístes.” E por isso o
apóstolo, quando na mesma Epístola aos Gálatas, fala da doutrina da justificação
pelas obras como outro evangelho, acrescenta ele, “o qual não é outro” (Gálatas 1.6-7). Não é evangelho afinal,
é lei; não é aliança da graça, mas de obras; não é uma doutrina evangélica, mas
uma doutrina legal (jurídica). Certamente essa doutrina, na qual consiste a
maior e mais essencial diferença entre a aliança da graça e a primeira aliança,
deve ser uma doutrina de grande importância. Essa doutrina do evangelho, pela
qual acima de todas as outras é digna do nome de evangelho, é, sem dúvida, uma
doutrina muito importante do evangelho.
Quarta. Esta é a principal razão pela qual os
homens caídos precisavam da revelação divina, para nos ensinar como nós que
pecamos podemos vir a ser novamente aceitos por Deus, ou, o que é a mesma
coisa, como o pecador pode ser justificado. Algo além da luz da natureza é
necessário para a salvação principalmente por causa disso. A mera razão natural
não forneceu nenhum meio pelo qual pudéssemos chegar ao conhecimento disso,
depender da vontade soberana do Ser que ofendemos pelo pecado. Esta parece ser
a grande direção dessa revelação que Deus deu, e de todos aqueles mistérios que
ela revela, todas aquelas grandes doutrinas que são peculiarmente doutrinas de
revelação e estão acima da luz da natureza. Parece ter sido muito por causa
disso que era necessário que a doutrina da própria Trindade fosse revelada a
nós; que, mediante a revelação do interesse das várias pessoas divinas na
grande questão da nossa salvação, poderíamos entender melhor e ver como toda a
nossa dependência nesta questão está em Deus, e toda nossa suficiência nele não
em nós mesmos; que ele é tudo em todos nessa questão, de acordo com 1 Coríntios 1.29-31, “A fim de que
ninguém se glorie na presença de Deus. Mas vós sois dele, em Cristo Jesus, o qual
se nos tornou, da parte de Deus, sabedoria, e justiça, e santificação, e
redenção, para que, como está escrito: Aquele se gloria, glorie-se no Senhor.”
O que é o evangelho, senão apenas as boas novas de um novo modo de aceitação por
Deus para a vida, um modo pelo qual os pecadores podem ser livres da culpa do
pecado e obter direito a vida eterna? E se, quando este caminho revelado é
rejeitado e outra invenção do homem é colocada no seu lugar, sem dúvida, deve
ser um erro de grande importância, e o apóstolo pôde dizer muito bem que era
outro evangelho.
Quinta. O esquema contrário de justificação deprecia
muito da honra de Deus e do Mediador. Já mostrei como diminui a glória do
Mediador, ao atribuir à virtude e à bondade do homem aquilo que pertence apenas
à sua dignidade e justiça. Mediante a compreensão do apóstolo do assunto, isto torna
Cristo desnecessário. Gálatas 5.4: “De
Cristo vos deligastes, vós que procurais justificar-vos na lei.” Se esse
esquema de justificação for seguido em suas consequências, ele destrói
totalmente a glória de todas as grandes coisas que foram planejadas, feitas e
sofridas na obra da redenção. Gálatas 2.21:
“Se a justiça é mediante a lei, segue-se que morreu Cristo em vão.” Também já
foi demostrado como esse esquema diminui a glória da graça divina (que é o
atributo que Deus especialmente determinou a si mesmo glorificar na obra da
redenção); e deste modo ele diminui muito a obrigação de gratidão por parte do
pecador que é salvo. Sim, que, na compreensão do apóstolo, ele anula a graça
distintiva do evangelho. Gálatas 5.4,
“Vós que procurais justificar-vos na lei; da graça decaístes.” Esse esquema diminui
a glória da graça de Deus e do Redentor, e amplia proporcionalmente a do homem.
Ele faz do homem algo diante de Deus quando de fato ele não é nada; faz com que
a bondade e a excelência do homem caído sejam algo que eu mostrei não serem
nada. Também já demonstrei que é contrário à verdade de Deus, pois ameaça sua
santa lei justificar o pecador por sua virtude. E se for contrário à verdade de
Deus ou não, é um esquema de coisas muito indignas de Deus, pois supõe que
Deus, quando está prestes a levantar um pobre malfeitor abandonado, condenado à
miséria eterna por pecar contra sua majestade, de sua miséria e fazê-lo
indescritível e eternamente feliz, ao conceder seu Filho e a si mesmo a ele, o
faz como se tudo isso fosse colocado à venda pelo preço de sua virtude e
excelência. Sei que aqueles que se opõem a nós reconhecem que o preço é muito
desproporcional ao benefício concedido; e dizer que a graça de Deus é
maravilhosamente manifestada em aceitar tão pouca virtude e conceder uma
recompensa tão gloriosa por tal justiça imperfeita. Porém, considerando que
somos criaturas infinitamente pecadoras e abomináveis aos olhos de Deus, que
por nossa culpa infinita conduzimos a nós mesmos a circunstâncias tão miseráveis
e deploráveis que toda a nossa justiça não é nada e dez mil vezes pior do que
nada (se Deus olhar para as criaturas como elas são em si mesmas), nossa
justiça não é imensamente mais digna da infinita majestade e glória de Deus
para libertar e fazer feliz tais pobres vermes imundos, tais patifes e cativos
miseráveis, sem qualquer dinheiro ou valor, ou qualquer tipo de expectativa de alguma
excelência ou virtude neles que os recomende de alguma forma? Não induzirá a
uma opinião insensata e exaltada de nós mesmos, e uma desprezível de Deus, pensar
em oferecer qualquer coisa nossa que nos recomende ao favor de sermos levados do
chafurdar como porcos imundos na lama de nossos pecados, e da inimizade e
miséria dos demônios no inferno mais baixo, ao estado de amados filhos de Deus
nos braços eternos de seu amor, na glória celestial; ou imaginar que essa é a
constituição de Deus, que devemos trazer nossos trapos imundos e oferecê-los a
ele como o preço disso?
Sexta. O esquema contrário tende mais
diretamente a levar os homens a confiarem em sua própria justiça para a
justificação, o que é uma coisa fatal para a alma. Isso é o que os homens são em
si mesmos excessivamente propensos a fazer (e isto embora nunca lhes seja
ensinados o contrário) através dos pensamentos excessivamente parciais e
elevados que eles têm de si mesmos, e sua grande lentidão em apreender qualquer
mistério, como serem aceitos pela justiça de outro. Porém este esquema ensina
diretamente os homens a confiar em sua própria justiça para a justificação; naquilo
que os ensina que isso é realmente aquilo pelo que devem ser justificados,
sendo a forma de justificação que o próprio Deus designou. De modo que, se um
homem não tivesse naturalmente nenhuma disposição para confiar em sua própria
justiça, no entanto, se ele abraçasse este esquema e agisse de modo consistente
com ele, isso o levaria a ele. Porém esta confiança em nossa própria justiça é
uma coisa fatal para a alma, é o que as Escrituras claramente nos ensinam: ela
nos diz que fará com que Cristo não seja proveitoso para nós e não tenha nenhum
efeito para nós (Gálatas 5.2-4). Pois,
embora o apóstolo fale ali particularmente da circuncisão, no entanto (já
demonstrei, isto), o apóstolo não se refere apenas ser ao circuncidado, mas ao confiar
na circuncisão como uma justiça. Ele não poderia pretender que meramente ser
circuncidado tornaria Cristo sem proveito ou efeito para uma pessoa; pois lemos
que ele mesmo, por determinadas razões, tomou Timóteo e o circuncidou (Atos 16.3). E o mesmo é evidente pelo
contexto e pelo restante da epístola. E o apóstolo fala em confiar em sua
própria justiça como fatal para os judeus. Romanos
9.31-32- “E Israel, que buscava a lei de justiça, não chegou a atingir essa
lei. Por que? Porque não decorreu da fé, e sim como que das obras. Tropeçaram na
pedra de tropeço.” Juntamente com Romanos
10.3, “Porquanto, desconhecendo a justiça de Deus e procurando estabelecer a
sua própria justiça, não se sujeitaram à que vem de Deus.” E isso é mencionado
como fatal para os fariseus na parábola do fariseu e do publicano, que Cristo contou
a eles para repreendê-los por confiarem em si mesmos de que eram justos. O propósito
da parábola é mostrar-lhes que os próprios publicanos serão justificados em vez
deles; como fica claro pela reflexão que Cristo faz sobre ele. Lucas 18.14, “Digo-vos que este desceu
justificado para sua casa, e não aquele.” Isto é, este e não o outro. Sua
tendência fatal também pode ser provada a partir de sua inconsistência com a
natureza da fé justificadora, e também sua inconsistência com a natureza dessa
humilhação da qual as Escrituras falam muitas vezes como absolutamente
necessária à salvação; mas essas Escrituras são tão claras que é desnecessário
trazer quaisquer argumentos adicionais.
Até
que ponto uma maravilhosa e misteriosa agência do Espírito de Deus pode influenciar
tanto o coração de alguns homens que sua prática a este respeito seja contrária
aos seus próprios princípios, de modo que eles não confiem em sua justiça própria
embora professem que os homens são justificados por sua justiça própria. Ou até
que ponto eles podem crer na doutrina da justificação pela justiça própria dos
homens em geral, e todavia não crer em uma aplicação particular dela a si
mesmos. Ou até que ponto esse erro, ao qual eles podem ter sido levados pela
educação ou astuto sofisma de outros, ainda pode ser de fato contrário à
disposição predominante de seus corações e contrário à sua prática. Ou até onde
alguns podem parecer sustentar uma doutrina contrária a essa doutrina
evangélica da justificação que realmente não sustentam, mas apenas se expressam
de forma diferente dos outros; ou parecem se opor a ela por causa de seu mal
entendimento de nossas expressões, ou nós das deles, quando de fato nossos
sentimentos reais são os mesmos quanto ao principal. Ou pode parecer mais
diferente do que eles fazem ao usar termos que não têm um significado
precisamente fixo e determinado; ou ser amplo em seus sentimentos a partir
desta doutrina por falta de uma compreensão distinta dela; cujos corações, ao
mesmo tempo, concordam inteiramente com ela, e se algum dia fosse claramente
explicada aos seus entendimentos concordariam imediatamente com ela e a
abraçariam. Não posso determinar até onde essas coisas podem ser, mas estou
plenamente convencido de que grande tolerância deve ser exercida sobre estas e causas
semelhantes, em inúmeros exemplos; embora seja manifesto a partir do que foi
dito que o ensino e propagação de doutrinas e esquemas contrários é de uma
tendência perniciosa e fatal.
Extraído de Works of
Jonathan Edwards, vol. 19, p. 143-241; org. Ed M. X. Lesser
Disponível em: edwards.yale.edu; JE Center; Yale University
Tradução:
Paulo Arantes
[1] Publicado como intitulado em Five
Discourses (Cinco Discursos), p. 1-130.
[2] Para o desenvolvimento das
ideias de JE durante o período 1734-1738, veja os relevantes registro
“Miscellanies” (Miscelânias) e a introdução do editor em The Works of
Jonathan Edwards, vol. 18, The Miscellanies, 501-832, org.
Ava Chamberlain (New Haven: Yale University Press, 2000). Veja também os
registros 78-92 nos apontamentos “Faith” de JE, prestes a aparecer em Works,
vol. 21.
[3] Sobre “neonomianismo”, veja
Master’s Quoestio de JE, em Works, vol. 14, p. 55-66.
[4] [Obs.: conveniente,
apropriado.]
[5] “Nosso Salvador compara seu
corpo místico, isto é, sua igreja, a uma videira, que seu Pai, que ele compara
a um agricultor, plantou, ‘Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o
agricultor.’ Para nos apresentar a união que existe entre Cristo e todos os
verdadeiros cristãos, e a influência da graça e da vida espiritual, que todos
que estão unidos a ele derivam e recebem dele, ele mostra a nós mediante imagem
de uma videira e os ramos. Como há uma união vital natural entre a videira e os
ramos, assim há união espiritual [vital] entre Cristo e os verdadeiros
cristãos; e esta união é a causa de nossa frutificação nas obras de obediência
e de vida genuína. Há alguns, de fato, que parecem estar enxertados em Cristo
mediante uma profissão exterior de cristianismo, que ainda não derivam
influência dele de modo a produzir fruto, porque não estão unidos vitalmente a
ele.” Dr. Tillotson, em [The Works of the Most. Rev. Dr.
John Tillostson (3 vols., Londres, 1728), 3. 307].
Por
isso parece que a união vital entre Cristo e os cristãos verdadeiros, que é
muito mais um mistério do que a união de parentes, e necessariamente implica
nela, não era considerada uma doutrina irracional por um dos maiores teólogos
do outro lado da questão em debate.
[6] [JE cita João 6.35-39,
mas confina a citação a João 6.38.]
[7] Nota do tradutor: JE cita João
5.28-40, mas a citação é de João 5.38-40.
[8] Nota do tradutor: JE cita João
6.43-44, mas a citação é de João 5.43-44.
[9] Nota do tradutor: JE cita João
5.12, mas a citação é de João 1.12.
[10] As citações são de João 1.12 e
5.40, respectivamente.
[11] [Obs.: julgamento, conceito,
concepção.]
[12] [JE corrige a linguagem da
última cláusula para adaptar a Escritura em sua introdução, cuja cópia do texto
se encontra na Biblioteca Beinecke, Yale. No geral, ele segue a errata no final
do prefácio, que inclui a má colocação dos parágrafos na HI, abaixo, observado
aqui.]
[13] [MS: Aqui termina a primeira
unidade da pregação. A citação, o texto e a doutrina estão no cabeçalho da
segunda unidade.]
[14] [Veja o sermão mais recente de
JE sobre este texto, None Are Saved by Their Own Righteousness (Ninguém
será salvo por sua justiça própria), em Works 14, 329-356.]
[15] Que ela é obediência perfeita,
que é o que é chamado de justiça no Novo Testamento, e que esta justiça
ou obediência perfeita, estabelecida pela regra inalterável de Deus, é a
condição de justificação, é a partir da evidência clara da verdade confessada,
por certo grande homem, que ninguém considerará ser uma pessoa passível de ser
cegada pelo preconceito em favor da doutrina que estamos sustentando, e alguém
que não admite esta doutrina, a saber, o Sr. Locke, em seu livro The
Reasonableness of Christianity, as Delivered in the Scriptures, em [The
Works of John Locke 93 vols., Londres, 1727), 2, 474]:
Para
alguém que lê imparcialmente a Escritura, o que Adão abandonou é visível, foi o
estado de obediência perfeita, que é chamado de justiça no Novo
Testamento, embora a palavra, que no original significa justiça, seja traduzida
como retidão (justiça).
Ibid.,
pp 476-77:
Pois
justiça (retidão), ou uma obediência correta da lei, parece, pela Escritura,
ter direito à vida eterna. Romanos 4.4, “Ora, ao que trabalha”, isto é,
faz as obras da lei, “o salário não é considerado como favor, e sim como
dívida.” Por outro lado, parece inalterável o propósito da justiça divina de
que nenhuma pessoa injusta, ninguém que seja culpado de alguma quebra da lei,
deve estar no Paraíso, mas que o salário do pecado deve ser aplicado a cada
homem, como foi para Adão, sua exclusão daquele feliz estado de imortalidade e
a morte trazida sobre ele. E isto está tão em conformidade com a eterna e
estabelecida lei do certo e do errado que também é dito que não pode ser de
outra forma. Aqui, então, temos a medida permanente e fixa da vida e da morte;
imortalidade e bênção pertencem ao justo. Aquele que vive em cuidadosa
conformidade com a lei de Deus está fora do alcance da morte, porém a exclusão
do Paraíso e perda da imortalidade é a porção dos pecadores, de todos aqueles
que quebram alguma parte desta lei e falham na completa obediência dela por
meio da culpa de alguma transgressão. E assim, pela lei, está colocada sob a
humanidade a questão da vida e da morte, visto que são retos ou iníquos, justos
ou injustos, isto é, cumpridores diligentes ou transgressores da lei.
Novamente,
na p. 477:
Então,
a lei das obras, em resumo, é aquela lei que requer perfeita obediência, sem
qualquer alívio ou desconto; de modo que um homem não pode ser justo ou justificado
pela lei sem um preciso cumprimento de cada ponto (til). O Novo Testamento
chama esta obediência perfeita de dikaiosu¢nv, que é traduzida como justiça.
Também
deve ser observado, nesta última passagem, que o Sr. Locke não entende por lei
das obras a lei cerimonial, mas a aliança das obras; como ele se expressa mais
plenamente no penúltimo parágrafo:
Onde
esta lei de obras deve ser encontrada, o Novo Testamento nos diz, a saber, na
lei entregue por Moisés. João 1.17, “Porque a lei foi dada por intermédio
de Moisés; a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo.” João 7.19,
“Não vos deu Moisés a lei?”, disse nosso Salvador, “Contudo, ninguém dentre vós
a observa.” E esta é a lei da qual ele fala em Lucas 10.28, “Respondeste
corretamente; faze isto e viverás.” É a isto que São Paulo frequentemente chama
de lei sem qualquer outra distinção. Romanos 2.13, “Porque os simples
ouvidores da lei não são justos diante de Deus, mas os que praticam a lei hão
de ser justificados.” É desnecessário citar mais algum lugar, suas epístolas
estão cheias disso, especialmente esta Aos Romanos.
[16] [Obs.: certamente, seguramente
(OED).]
[17] [Ver sermão anterior de JE
sobre este texto, The Sacrifice of Christ Acceptable (O sacrifício
aceitável de Cristo), em Works 14, 440-457.]
[18] Assim,
o Sr. Locke em sua Reasonableness of
Christianity, as Delivered in the Scriptures, em [The Works of John Locke, 2, p. 478]:
Mais ainda, o que Deus requer em qualquer lugar que
seja feito, sem promover qualquer subsídio para a fé, isto faz parte da lei das
obras. De modo que proibir Adão de comer da árvore do conhecimento era parte da
lei das obras. Devemos tomar conhecimento aqui apenas que alguns dos
mandamentos positivos de Deus são para fins peculiares, e adequados a
circunstâncias particulares de tempos, lugares e pessoas, têm uma obrigação
limitada e apenas temporária em virtude da prescrição positiva de Deus. Tal
como era aquela parte da lei de Moisés que dizia respeito à adoração externa,
ou à constituição política dos judeus, e é chamada de lei cerimonial e
judaical.
Novamente, p. 479:
Assim, então, quanto à lei, em suma, a
parte civil e ritual da lei entregue por Moisés não obriga os cristãos, embora
para os judeus ela fosse parte da lei das obras; sendo parte da lei da
natureza, de modo que os homens devem obedecer a todas as leis positivas de
Deus sempre que ele quiser fazer qualquer adição à lei de sua natureza.
[19] [Os dois parágrafos seguintes
foram impressos no lugar errado (p. 81-83), na edição original de 1738; a
errata (p. vi), indica seu lugar correto.]
[20] [Gênesis 15.16 diz: “Na quarta
geração, tornarão para aqui; porque não se encheu ainda a medida da iniquidade
dos amorreus”, um erro óbvio; a menção a aliança ocorre especificamente em
Gênesis 15.18, “Naquele mesmo dia, fez o Senhor
aliança com Abrão, dizendo: À tua descendência dei esta terra, desde o rio do
Egito até ao grande rio Eufrates.” A frase que JE cita é parte de Gálatas
3.6, “É o caso de Abraão, que creu em Deus, e isso lhe foi imputado para
justiça”, é a única ocorrência dela na Escritura.]
[21] [Texto: “comportar-se”. JE
substitui “comportamento” na cópia Beinecke da edição impressa, p. 95.]
[22] [Texto: “capacidade”.]
[23] [JE apaga a primeira ocorrência
de uma linha repetida na cópia Beinecke da edição impressa, p. 99.]
[24] [JE adiciona “tem” na cópia
Beinecke da edição impressa, p. 100.]
[25] Em conformidade com isso está o que o Sr.
Locke diz em sua A Second Vindication of the Reasonableness of Christianity
etc. (Segunda Vindicação da Razoabilidade do Cristianismo
etc.) em [The Works of John Locke, 2, p. 630-31]: “Crer nele, portanto, como sendo o Messias é,
muitas vezes com grande razão, tanto expresso por fé quanto por arrependimento
também, que são, às vezes, registrados isoladamente, onde um é expresso para
ambos, como implicando no outro.”
[26] Se o arrependimento justifica, ou é aquele
modo pelo qual obtemos o perdão do pecado de qualquer outra forma que não seja
esse, deve ser como uma virtude ou justiça, ou algo agradável em nós; ou então
deve ser que nossa tristeza e condenação do que é passado, são aceitas como
alguma expiação por ele; ambos os quais são igualmente contrários à doutrina
evangélica da justificação por Cristo.
[27] [JE insere “nossos adversários,
assim como nós, supõem” por “eles supõem, assim como nós, na cópia Beinecke da
edição impressa, p. 115.]
[28] [Isto é, Mateus 12.]
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