Frase da Semana

Assim, tudo é de Deus, está em Deus e existe para Deus; ele é o começo, o meio e o fim.

sábado, 17 de setembro de 2022

Justificação somente pela fé

Antes de entrar em seu “discurso pretendido” sobre um princípio central da teologia da aliança, Edwards fez uma pausa em sua palestra de novembro de 1734 para dar à sua congregação um “breve relato” sobre seus oponentes, tão familiares a Northampton, aparentemente, que ele os deixa sem nome. Aqui, na versão reformulada e ampliada, publicada em Discourses on Various Importants Subjects (Discursos sobre Diversos Assuntos Importantes) quatro anos depois de descartar certa informalidade para uma abertura convencional do texto, ele está bem dentro do argumento doutrinário antes de reconhecer seus adversários como “teólogos modernos”. Ele persegue tão incansavelmente seu assunto que simplesmente ignora os “teólogos do esquema arminiano”, como ele os chama agora, até que os confronta a respeito da obediência imperfeita e os acusa de “absurdidade e autocontradição”, erros tanto lógicos quanto teológicos. Seu texto extraído de Romanos, “Mas, ao que não trabalha, porém crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é atribuída como justiça”, parece tão “evidente” para ele, uma declaração tão “clara” do contraste entre o que um homem faz e o que ele crê, suas obras e sua fé, que Edwards extrai sua doutrina diretamente “das palavras” em si: “Somos justificados somente pela fé em Cristo, e não por qualquer forma de virtude ou bondade nossa.” Embora as palavras possam ser “meros sons vazios, nem bons nem maus”, como ele observa no manuscrito, grande parte do sermão Justification by Faith Alone (Justificação Somente Pela Fé) depende de sua análise delas.

Edwards explica seu texto menos pelo contexto do que pela linguagem, examinando cuidadosamente “expressões sinônimas” em Romanos, contada, por exemplo, traduzida como atribuída em um versículo e traduzida como imputada em outro – e “metáforas obscuras e figuras de linguagem ininteligíveis” acusadas pela oposição. Em outro lugar ele se concentra na semântica. Justificado, “um termo forensecom implicações da lei, não envolve apenas significados ligeiramente diferentes como favorece sua “etimologia, e significação natural”, mas também concorda com “a força da palavra” na Escritura. A frase “justificação pela fé” cria “grande dificuldade” para muitos crentes, principalmente por causa do “significado e força da partícula pela”. A noção subsequente, “somente pela fé”, significa mais estritamente união com Cristo, retratada na Bíblia mediante as metáforas do corpo, da árvore ou do casamento, embora Edwards seja obrigado a acrescentar para que não haja qualquer equívoco com ele, “[Se] qualquer um tem aversão a palavra união, como obscura e ininteligível, a palavra relação serve igualmente ao meu propósito.” Ele explica o significado da condição ambígua; as metáforas bíblicas “VENHA a Cristo e RECEBA-o”; a sinonímia de justiça própria e obras da lei em Paulo; o uso moderno de obediência que “é um perfeito estranho às Escrituras”; metanoia, Novo Testamento Grego para arrependimento; e e arrependimento como “explicativo um do outro.” Tudo isso o leva, como ele sabia que seria, a alguns textos irritantes, especialmente um de Tiago, “Verificais que uma pessoa é justificada por obras e não por fé somente”, que está desconfortavelmente em desacordo com seus empréstimos de Paulo. Se tanto Paulo quanto Tiago usam e justificação “precisamente no mesmo sentido”, então o que um afirma deve ser “uma contradição precisa, direta e completa do outro”. Porém é de outra forma. Os teólogos modernos “modificam livremente” o sentido de em seu esquema de justificação, todavia lutam contra significados diferentes de justificar em outro. “Se o sentido de uma das palavras deve ser diferente em qualquer esquema,... então o texto se encaixa tão bem em um esquema como em outro, e não pode ser uma objeção mais favorável contra o nosso esquema do que contra o deles.” O problema aqui (e a “grande deslealdade” daqueles que o citam) reside apenas em tais significados diferentes de justificar, pois as palavras são apenas “sinais do que está dentro”. Justificar, “na linguagem comum”, sempre significa “indiferentemente” seja para aprovar ou para declarar solenemente a aprovação, “às vezes um, e, às vezes, o outro. E isto por serem ambos iguais, apenas um é externamente o que o outro é internamente.” Tiago parece usar a palavra externamente para significar “justificação manifestativa”, assim como uma árvore se manifesta por seus frutos; e obras, neste contexto, significa evidências ou sinais da justificação não o caminho para ela. Em resumo, não existe contradição entre Paulo e Tiago, apenas nuança semântica.

No final, Edwards tenta afastar seus leitores de seu erro, “ao qual eles podem ter sido levados mediante o ensino ou pelo sofisma astuto de outros”, e que pode ser “contrário às disposições predominantes de seus corações e contrário à sua prática”. Equívocos e termos imprecisos podem explicar isso; se a doutrina da justificação fosse “explicada claramente” ela seria abraçada; certamente, “grandes auxílios devem ser produzidos”. Ainda assim, “ensinar e propagar doutrinas e esquemas contrários”, ele está convencido, é uma “tendência perniciosa e fatal”, e ele está em grandes dores verbais para reprimir esse ensino neste seu primeiro tratado publicado.

Se o manuscrito de Edwards, de 56 folhas de 12,5 por 18,5 cm, tivesse sido publicado mais ou menos intacto, em 1738, ele teria se estendido por cerca de 65 pequenas páginas impressas em oitavo.[1] Que isto é, de fato, o dobro do tamanho, é devido principalmente às suas adições, uma vez que preserva grande parte das duas unidades originais da pregação, recebendo duas dúzias de folhas de inclusão por meio de linhas verticais na margem esquerda ou no meio da página, e incorporando um elaborado sistema de transposições de letras e símbolos, mais de vinte de cada; suas eliminações e inserções adicionam pouco. Parte do aumento pode ser explicado pelo número e extensão das citações das Escrituras e longos comentários feitos por John Tillotson e, notavelmente, John Locke, nenhum dos quais aparece no manuscrito. Ali Edwards frequentemente reduz textos bíblicos e nunca abre referências, citando John Hurrion, Francis Turretin, Peter van Mastricht, as Miscellanies e suas “notas” sobre Efésios 4.1, mas não citando nenhum.[2] A maior parte do acréscimo, então, vem de sua propensão à minuciosidade de provas lógicas e bíblicas, o tipo de minuciosidade que caracteriza o trabalho de seus anos em Stockbridge, e da necessidade de se opor, agora como então, ao que ele chama no manuscrito de “esquema neonomiano”.[3]

 

Página 104 (folha 52 verso) do manuscrito de Justification by Faith Alone, com as marcas de Edwards (linhas verticais e letras na margem) para revisão na edição impressa de 1738. Cortesia da Biblioteca Beinecke de Livros Raros e Manuscritos, Universidade de Yale.

 

JUSTIFICAÇÃO APENAS PELA FÉ

 

Mas àquele que não trabalha, mas crê naquele que justifica o ímpio, sua fé é contada para justiça (Romanos 4.5)

Ora, ao que não trabalha, porém crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é atribuída como justiça (Romanos 4.5 – ARA).

 

As seguintes coisas podem ser observadas neste versículo:

 

1. Essa Justificação diz respeito ao homem como ímpio. Isso é evidente por essas palavras – “que justifica o ímpio”. Palavras que não podem implicar em menos do que Deus no ato de justificação, que não levam em consideração a pessoa justificada, como piedade ou qualquer bondade nela, mas que, próximo ou imediatamente antes deste ato, Deus o contempla apenas como uma criatura ímpia ou perversa; de modo que a piedade na pessoa a ser justificada não é antecedente à sua justificação quanto a ser o fundamento dela. Quando se diz que Deus justifica o ímpio, é tão absurdo supor que nossa piedade, tomada como alguma bondade em nós, seja o fundamento de nossa justificação como quando se diz que Cristo deu visão ao cego, supor que a visão era anterior e o fundamento desse ato de misericórdia em Cristo, ou como se fosse dito que, por sua generosidade, um homem pobre se tornou rico, supor que a riqueza deste homem pobre foi o fundamento desta generosidade para com aquele e foi o preço pelo qual foi adquirida.

2. Parece que por “ao que não trabalha”, neste versículo, não se quer dizer apenas alguém que não está de acordo com a lei cerimonial, porque evidentemente “ao que não trabalha” e “o ímpio” são expressões sinônimas, ou, o que significa o mesmo, torna-se óbvio pela maneira de sua conexão; se não é assim, com que propósito a última expressão, “o ímpio”, é apresentada? O contexto não dá outra razão para isso, exceto para mostrar que a graça do evangelho aparece em que Deus, na justificação, não considera qualquer piedade de nossa parte. O versículo anterior é: “Ora, ao que trabalha, o salário não considerado como favor, e sim como dívida”. É evidente nesse versículo que a graça do evangelho consiste nas recompensas que são dadas sem obras. E, neste versículo que o segue de perto e no sentido está conectado a ele, é evidente que a graça do evangelho consiste em um homem que é “ímpio” ser justificado, mediante o que é mais claro que por “ao que não trabalha” e aquele que é “ímpio” significam a mesma coisa; e que, portanto, não apenas as obras da lei cerimonial são excluídas neste assunto da justificação, mas obras de moralidade e de piedade.

3. É evidente nas palavras que, pela fé que aqui é expressa, pela qual somos justificados, não significa a mesma coisa que um comportamento de obediência ou de justiça, mediante a expressão pela qual esta fé está aqui indicada, a saber, “crê naquele que justifica o ímpio”. Aqueles que se opõem aos solifidianos, como os chamam, insistem muito nisso, de modo que devemos tomar as palavras das Escrituras concernentes a esta doutrina em seu significado mais natural e óbvio; e como eles criticam nosso obscurecimento desta doutrina com metáforas obscuras e figuras de linguagem ininteligíveis! Porém isso é interpretar as Escrituras de acordo com seu significado mais óbvio, quando a Escritura fala sobre nós crermos “naquele que justifica o ímpio”, ou os infratores de sua lei, dizer que seu significado é empreender um comportamento de obediência à sua lei e evitar as violações dela? Crer em Deus como justificador certamente é uma coisa diferente de submeter-se a Deus como legislador; especialmente crer nele como justificador do ímpio, ou de rebeldes contra o Legislador.

4. É evidente que o tema da justificação é considerado como destituído de qualquer justiça em si mesmo mediante essa expressão, “é contada”, ou imputada a ele “como justiça”. A frase, como o apóstolo a usa aqui e no contexto, claramente significa que Deus, de sua graça soberana, está satisfeito em suas relações com o pecador, para tomar e considerar o que de fato não é justiça, e em alguém que não tem justiça, de modo que a consequência será a mesma como se tivesse justiça (o que pode ser proveniente da consideração de algo que é de fato justiça). Está claro que esta é a força da expressão nos versículos anteriores. No penúltimo versículo, é evidente que o apóstolo coloca a ênfase de seu argumento a favor da livre graça de Deus, a partir desse texto que ele cita do Antigo Testamento sobre Abraão, na palavra contada ou imputada, e que esta é a coisa que ele supôs que Deus mostra em sua graça, a saber, em sua consideração de algo como justiça em suas consequentes relações com Abraão, que não era justiça em si. E, no versículo seguinte, que precede o texto imediatamente: “Ora, ao que trabalha, o salário não é considerado como favor, e sim como dívida”, a palavra ali traduzida como considerado é a mesma que nos outros versículos é traduzida como imputada e contada; e é como se o apóstolo tivesse dito: “Quanto ao que trabalha, não há necessidade de qualquer acerto de contas gracioso, ou considerá-lo como justiça, e fazendo com que a recompensa resulte como se fosse justiça; pois se ele tem obras ele tem o que é uma justiça em si, à qual a recompensa propriamente pertence.” Isso é ainda mais evidente pelas palavras que seguem, Romanos 4.6, “E é assim também que Davi declara ser bem-aventurado o homem a quem Deus atribui justiça, independentemente de obras”. O que pode ser pretendido aqui mediante o imputar justiça sem obras, exceto imputar justiça àquele que não tem nenhuma de si mesmo? Romanos 4.7-8, “Bem-aventurados aqueles cujas iniquidades são perdoadas, e cujos pecados são cobertos; bem-aventurado o homem a quem o Senhor jamais imputará pecado.” De que maneira essas palavras de Davi servem ao propósito do apóstolo? Ou de que maneira elas provam tal coisa como esta justiça ser imputada sem obras, a menos que seja porque a palavra imputada é usada e o tema da imputação é mencionado quanto a um pecador e, consequentemente, destituído de justiça moral? Pois Davi não diz tal coisa quanto a ser ele perdoado sem as obras da lei cerimonial; não há nenhum indício da lei cerimonial ou referência a ela nas palavras. Por conseguinte, ousarei inferir essa doutrina a partir das palavras para o tema do meu presente discurso, a saber:

 

Doutrina.

 

Somos justificados somente pela fé em Cristo e não por qualquer forma de virtude ou bondade de nossa parte.

 

Uma afirmação como esta, estou consciente, muitos estariam prontos a proclamar como absurda, revelando grande quantidade de ignorância e contendo muita inconsistência, mas peço paciência a todos até que eu tenha concluído. Ao lidar com essa doutrina eu devo:

I. Explicar seu significado e mostrar como devo ser compreendido ao fazer esta afirmação.

II. Prosseguir para a consideração da evidência da sua verdade.

III. Mostrar como a obediência evangélica diz respeito a este assunto.

IV. Responder as objeções.

V. Considerar a importância da doutrina.

 

I. Eu devo explicar o significado da doutrina, ou mostrar em que sentido a afirmo, e me esforçar para provar a sua verdade. O que pode ser feito ao responder a essas duas perguntas, a saber, primeira, o que significa ser “justificado”; segunda, o que se quer dizer quando se diz que ela é “somente pela fé” sem qualquer tipo de virtude ou bondade de nossa parte?

Primeiro. Eu devo mostrar o que é justificação, ou o que eu suponho que a Escritura quer dizer por ser “justificado”. E aqui não devo estender-me e, por isso, respondo resumidamente.

Diz-se que uma pessoa é justificada quando ela é aceita por Deus como livre da culpa do pecado, de sua merecida punição e quando tem essa justiça pertencente a ela de modo que lhe dá direito à recompensa da vida. Que devemos tomar a palavra neste sentido e entendê-la como os juízes, que aceitam uma pessoa como tendo uma justiça negativa e positiva pertencentes a ela, e que olham para ela, portanto, não apenas como desembaraçada ou livre de qualquer obrigação de punição, mas também como justa e reta, e assim como tendo direito a uma recompensa positiva, não está apenas de acordo com a etimologia e o significado natural da palavra, a qual significa tornar justo ou tomar alguém por justo no julgamento, mas também evidentemente de acordo com a força da palavra como usada nas Escrituras.

Alguns supõem que, por justificação, nada mais é pretendido nas Escrituras do que apenas a remissão dos pecados; é muito estranho se for assim se considerarmos a natureza do caso; pois é mais evidente, e ninguém negará, que é com respeito à prescrição ou à lei de Deus sob a qual estamos que nos é dito nas Escrituras sermos justificados ou condenados. Ora, o que é justificar uma pessoa, quanto ao tópico de uma lei ou prescrição, senão julgá-la ou olhar para ela e aprová-la como estando correta em relação a essa prescrição? Justificar uma pessoa em um caso específico é aprová-la como correta com respeito à lei ou prescrição naquele caso; e justificar, em geral, é aprová-la em julgamento como estando correta, em um estado correspondente à lei ou prescrição em geral. Porém, certamente, para que uma pessoa seja considerada como reta em relação à prescrição em geral, ou em um estado correspondente à lei de Deus, é necessário mais do que o que é negativo ou não ter a culpa de pecado; pois qualquer que seja essa lei, seja nova ou antiga, sem dúvida, ainda é necessário algo positivo para que seja satisfeita. Não somos mais justificados pela voz da lei, ou por aquele que julga segundo ela, mediante um mero perdão do pecado do que Adão, nosso primeiro fiador, foi justificado pela lei no primeiro ponto de sua existência, antes de ter feito ele a obra ou cumprido a obediência da lei, ou tivesse tido qualquer tipo de prova para cumprir ou não. Se Adão tivesse completado seu curso de perfeita obediência, ele teria sido justificado; e certamente sua justificação teria implicado em algo mais do que o que é meramente negativo; ele teria sido aprovado como tendo cumprido a justiça da lei e, consequentemente, teria sido sentenciado para a sua recompensa. Assim Cristo, nosso segundo fiador (em cuja justificação todos que creem nele, e de quem ele é fiador, são realmente justificados), não foi justificado até que tivesse feito a obra que o Pai lhe designou e guardado os mandamentos do Pai através de todas as provações, e então, em sua ressurreição, ele foi justificado. Quando aquele que foi entregue à morte na carne foi vivificado pelo Espírito (1 Pedro 3.18), então aquele que foi manifestado na carne foi justificado no Espírito (1 Timóteo 3.16). Porém Deus, quando o justificou ao ressuscitá-lo dos mortos, não apenas o libertou de sua humilhação pelo pecado e o dispensou de qualquer sofrimento ou humilhação adicional por causa do pecado, mas o admitiu àquela vida eterna e imortal, e ao início daquela exaltação que era a recompensa pelo que ele tinha feito. E, de fato, a justificação de um crente não é outra senão ser admitido à comunhão ou à participação da justificação deste Cabeça e Fiador de todos os crentes; pois visto que Cristo sofreu a punição do pecado, não como uma pessoa individual, mas como nosso fiador, assim quando, depois desse sofrimento, ele foi ressuscitado dos mortos, ele foi justificado, não como uma pessoa individual, mas como o fiador e representante de todos que creem nele; de modo que ele foi ressuscitado não apenas para si mesmo, mas também para a nossa justificação, de acordo com o apóstolo. Romanos 4.25, “O qual foi entregue por causa das nossas transgressões e ressuscitou por causa da nossa justificação.” E é por isso que o apóstolo diz, como faz em Romanos 8.34, “Quem os condenará? É Cristo Jesus quem morreu ou, antes, quem ressuscitou.”

É mais diretamente ensinado na Escritura que a justificação de um crente implica não apenas na remissão dos pecados, ou na isenção da ira devido a ele, mas também em uma admissão ao direito a essa glória que é a recompensa da justiça, é mais diretamente ensinado nas Escrituras, como particularmente em Romanos 5.1-2, onde o apóstolo menciona ambos como benefícios comuns implícitos na justificação: “Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo, por intermédio de quem obtivemos igualmente acesso, pela fé, a esta graça na qual estamos firmes, e gloriamo-nos na esperança da glória de Deus.” Assim, a remissão dos pecados e a herança entre os que são santificados são mencionadas juntas como o que é obtido conjuntamente pela fé em Cristo. Atos 26.18 “a fim de que recebam eles remissão de pecados e herança entre os que são santificados pela fé em mim.” Ambos estão, sem dúvida, implícitos na passagem da morte para a vida, da qual Cristo fala como o fruto da fé e que ele contrapõe à condenação. João 5.24 “Em verdade, em verdade vos digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida.” Prossigo agora para,

Segundo. Mostrar o que se quer dizer quando é dito que essa justificação é somente pela fé e não por qualquer virtude ou bondade de nossa parte.

Esta pode ser subdividida em duas, a saber, primeira, como é pela fé; segunda, como é pela fé somente, sem qualquer tipo de bondade de nossa parte.

1. De que maneira a justificação é pela fé. Aqui, a grande dificuldade tem estado no significado e na força da partícula pela, ou qual é essa influência que a fé tem na questão da justificação que é expressa nas Escrituras como sendo “justificado pela fé”.

Aqui, se posso expressar humildemente o que me parece evidente, embora a fé seja de fato a condição da justificação de modo que nada mais é, ainda assim este assunto não é claro e suficientemente explicado ao se dizer que a fé é a condição da justificação; e que, como a palavra parece ambígua tanto no uso comum quanto também como usada na teologia. Em um sentido, somente Cristo efetua a condição de nossa justificação e salvação; em outro sentido, a fé é a condição da justificação; em outro sentido, outras qualificações e atos são condições da salvação e da justificação também. Parece haver muita ambiguidade nessas expressões como são comumente utilizadas (as quais, todavia, somos forçados a usar), tal como “condição de salvação”; “o que é necessário para a salvação ou justificação”; “os termos da aliança”, e afins; e creio que elas são compreendidas em sentidos muito diferentes por pessoas diferentes. E, além da palavra condição ser muito frequentemente entendida no uso comum da linguagem, a fé não é a única coisa em nós que é a condição de justificação; pois pela palavra condição, como é muitas vezes (e talvez mais comumente) usada, queremos dizer qualquer coisa que possa ter o lugar de uma condição em uma proposta condicional, e como tal está verdadeiramente ligada com o consequente, especialmente se a proposta se mantém tanto na afirmativa quanto na negativa quando a condição é afirmada ou negada. Se for aquilo com o que ou o que sendo suprimido uma coisa deve ser, e sem o que ou sendo negado uma coisa não será, nós, neste caso, a chamamos de condição dessa coisa; mas nesse sentido a fé não é a única condição de salvação ou de justificação, pois há muitas coisas que acompanham e fluem da fé, que são coisas com as quais a justificação deve ser e sem a qual ela não será, e por isso são encontradas nas Escrituras em propostas condicionais com a justificação e a salvação em multidões de lugares, são elas: “amor a Deus” e “amor aos nossos irmãos”, “perdoar os homens suas transgressões” e muitas outras boas qualificações e atos. E há muitas outras coisas além da fé que são diretamente propostas para serem adotadas ou realizadas por nós, a fim de termos a vida eterna, como aquelas que se forem feitas ou obtidas teremos a vida eterna, e se não forem feitas ou não obtidas certamente pereceremos. E se fosse assim, que a fé era a única condição da justificação nesse sentido, ainda assim não compreendo que dizer que a fé era a condição da justificação expressaria o sentido dessa frase das Escrituras de ser “justificado pela fé”. Há uma diferença entre ser justificado por uma coisa, e essa coisa universal, necessária e inseparavelmente presente ou que acompanha a justificação; pois assim fazemos muitas coisas pelas quais não dizemos ser justificados. Não é a conexão inseparável com a justificação que o Espírito Santo expressaria (ou que é naturalmente significada) por uma frase como esta, mas alguma influência particular que a fé tem na questão, ou alguma certa dependência que esse efeito tem sobre sua influência.

Alguns que têm consciência disso presumiram que a influência ou dependência poderia ser muito bem expressa pela fé como sendo o instrumento de nossa justificação. O que foi mal compreendido, prejudicialmente representado e ridicularizado por aqueles que negam a doutrina da justificação somente pela fé, como se tivessem presumido que a fé foi usada como um instrumento na mão de Deus, pelo qual ele realizou e fez acontecer esse seu ato, a saber, aprovação e justificação do crente. Considerando que não foi pretendido que a fé fosse o instrumento pelo qual Deus justifica, mas o instrumento pelo qual recebemos a justificação; não o instrumento com o qual o justificador age na justificação, mas com o qual o receptor da justificação age na aceitação da justificação. Porém também deve ser reconhecido que este é um modo obscuro de falar, e certamente deve haver alguma impropriedade em chamá-la de instrumento pelo qual recebemos ou aceitamos a justificação; pois as próprias pessoas que explicam assim a questão falam da fé como sendo a recepção ou a aceitação em si; e, se assim for, como pode ser o instrumento de recepção ou de aceitação? Certamente há uma diferença entre o ato e o instrumento. E além de suas próprias descrições de fé, Cristo, o Mediador, por quem, e sua justiça, pela qual somos justificados, é mais diretamente o objeto dessa aceitação; e a justificação, que é o benefício decorrente, mais indiretamente; e, portanto, se a fé for um instrumento, é mais propriamente o instrumento pelo qual recebemos a Cristo do que o instrumento pelo qual recebemos a justificação.

Porém eu humildemente concebo que estamos prontos para ir mais longe a fim de descobrir o que é essa influência da fé em nossa justificação, ou o que é a dependência desse efeito sobre a fé, indicada pela expressão de ser “justificado pela fé”, ignorando aquilo que é mais obviamente apontado na expressão, a saber, que, sendo o caso como é (há um Mediador que comprou a justificação), a fé neste Mediador é aquilo que a torna uma coisa adequada e conveniente aos olhos de Deus que o crente em vez de outros deve ter esse benefício comprado atribuído a ele. Há esse benefício comprado, que Deus vê como a coisa mais adequada e conveniente que deve ser atribuída a alguns em vez de a outros, porque ele os vê qualificados de forma diferente; essa qualificação na qual a adequabilidade para esse benefício, como o caso consiste, é aquilo em nós pelo que somos justificados. Se Cristo não tivesse vindo ao mundo e morrido, etc. para comprar a justificação, nenhuma qualificação em nós poderia torná-la uma coisa adequada ou conveniente para que sejamos justificados; mas o caso sendo como está agora, a saber, que Cristo realmente comprou a justificação mediante seu próprio sangue para criaturas infinitamente indignas, pode haver uma certa qualificação encontrada em algumas pessoas, que, seja pela relação que possui com o Mediador e seus méritos ou por outra razão, é a coisa que, aos olhos de Deus, torna-se a coisa adequada e condecenta[4] de modo que elas devem ter interesse neste benefício comprado, e do qual se alguma encontra-se destituída torna-a a coisa inadequada e não conveniente para que elas devem tê-lo. A sabedoria de Deus em suas constituições, sem dúvida, aparece muito na conveniência e na beleza delas, de modo que essas coisas sejam estabelecidas para serem feitas o que são aptas a serem feitas, e que essas coisas estão conectadas em sua constituição, que são apropriadas umas as outras. Assim Deus justifica um crente de acordo com sua constituição revelada, sem dúvida, porque ele vê algo nessa qualificação que, como é o caso, a torna a coisa adequada pela qual o crente deve ser justificado; seja porque a fé é o instrumento ou, por assim dizer, pela qual aquele que comprou a justificação é apreendido e aceito, ou porque é a própria aceitação, ou o que quer que seja. Ser justificado é ser aprovado por Deus como um objeto apropriado de perdão e com direito à vida eterna; e, portanto, quando se diz que somos justificados pela fé, o que mais pode ser entendido por isso do que essa fé ser aquilo pelo que somos tornados aprováveis, aptos e, de fato, como é o caso, objetos apropriados deste benefício?

Trata-se de algo diferente de a fé ser a condição da justificação apenas para estar inseparavelmente ligada à justificação. Assim são muitas outras coisas além da fé, e ainda assim nada em nós, mas a fé, a torna adequada para que tenhamos a justificação atribuída a nós; como eu mostrarei em breve de que maneira, em resposta a próxima pergunta, a saber,

2. Como isso é dito ser somente pela fé, sem qualquer tipo de virtude ou bondade de nossa parte. Isso pode parecer a alguns estar ligado a duas dificuldades, a saber, como isso pode ser dito ser somente pela fé, sem qualquer virtude ou bondade de nossa parte, quando a fé em si é uma virtude e uma parte de nossa bondade; e não é apenas algum tipo de bondade de nossa parte, mas é uma qualificação muito excelente e uma parte essencial da santidade inerente de um cristão? E se faz parte de nossa bondade ou excelência inerente (seja ela esta parte ou qualquer outra), isso a torna uma coisa condecenta ou conveniente que devemos ter esse benefício de Cristo atribuído a nós, o que é menos do que o que eles querem dizer quando falam de um mérito de congruência? E, além disso, se esta parte da nossa santidade cristã nos qualifica aos olhos de Deus para este benefício de Cristo, e o torna uma coisa conveniente ou adequada aos seus olhos, de modo que devemos tê-la; por que não outras partes da santidade e da conformidade com Deus, que também são muito excelentes, têm tanto da imagem de Cristo nelas e não são menos atraentes aos olhos de Deus, nos qualificam tanto e têm tanta influência para nos fazer adequados aos olhos de Deus a um benefício como este? Consequentemente, eu respondo,

Quando se diz que não somos justificados por qualquer justiça ou bondade nossa, o que se quer dizer é que ela não é por consideração à excelência ou bondade de quaisquer qualificações ou atos em nós, quaisquer que sejam, que Deus julga adequado que este benefício de Cristo seja nosso; e não é de forma alguma por causa de qualquer excelência ou valor que haja na fé, que parece aos olhos de Deus uma coisa adequada que aquele que crê que tenha esse benefício de Cristo atribuído a ele, mas puramente a partir da relação que a fé tem com a pessoa em quem esse benefício deve ser possuído, ou quando se une a esse Mediador, em e por quem somos justificados. Aqui, para maior clareza, eu me explicarei particularmente sob várias proposições.

(1) É certo que há alguma união ou relação que o povo de Cristo tem com ele, que é expressa nas Escrituras de tempos em tempos mediante o estar em Cristo, e é representada frequentemente por aquelas metáforas de ser membro de Cristo, ou estar unido a ele como membros a cabeça, e ramos ao tronco,[5] e é comparada a uma união matrimonial entre marido e mulher. Eu não pretendo determinar agora de que tipo esta união é; nem é necessário ao meu propósito atual entrar em qualquer tipo de disputa sobre isso; se alguém está desgostoso com a palavra união, como obscura e ininteligível, a palavra relação serve igualmente ao meu propósito. Não desejo estabelecer agora algo mais sobre isso do que todos, todos os tipos, permitirão prontamente, a saber, que há uma relação peculiar entre os verdadeiros cristãos e Cristo, ou uma certa relação entre ele e eles, que não há entre ele e outros; o que é indicado por essas expressões metafóricas nas Escrituras de estar em Cristo, ser membro de Cristo etc.

(2) Esta relação ou união com Cristo, pela qual é dito que os cristãos estão em Cristo (seja lá o que for), é o fundamento de seu direito aos seus benefícios. Isso não precisa de provas; a razão da coisa, à primeira vista, demonstra isso, mas é demasiadamente evidente também pelas Escrituras. 1 João 5.12, “Aquele que tem o Filho tem a vida; aquele que não tem o Filho de Deus não tem a vida.” 1 Coríntios 1.30, “Mas vós sois dele, em Cristo Jesus, o qual se tornou, da parte de Deus, sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção.” Primeiro devemos estar nele, e então ele será feito justiça ou justificação para nós. Efésios 1.6, “que ele nos concedeu gratuitamente no Amado.” Nosso estar nele é o fundamento de sermos aceitos. Assim é naquelas uniões que o Espírito Santo considerou apropriadas comparar com esta união; a união dos membros do corpo com a cabeça é o fundamento de sua participação na vida da cabeça; é a união dos ramos ao tronco que é o fundamento de sua participação na seiva e na vida do tronco; é a relação da esposa com o esposo que é o fundamento de seu interesse comum em seu patrimônio, eles são considerados, em vários aspectos, como um segundo a lei; por isso há uma união legal entre Cristo e os cristãos verdadeiros, de modo que (como todos, exceto os socinianos, admitem) um, em alguns aspectos, é aceito pelo outro pelo Supremo Juiz.

(3) E, portanto, é essa fé, é essa qualificação em alguma pessoa, que a torna apropriada aos olhos de Deus, de modo que ela deve ser considerada como tendo a satisfação e a justiça de Cristo pertencentes a ela, a saber, porque ela está nele, o que, da sua parte, produz essa união entre ele e Cristo. Pelo que foi observado agora, é o estar de uma pessoa, de acordo com a frase das Escrituras, “em Cristo”, que é a razão de ter sua satisfação e méritos pertencentes a ela, e direito aos benefícios obtidos por meio disso. E a razão disso é clara, é fácil ver como nosso ter os méritos e benefícios de Cristo pertencentes a nós vem do nosso ter (se posso falar assim) o próprio Cristo pertencente a nós, ou estar unido a ele. E, se assim for, também deve ser fácil ver como ou de que maneira isto, em uma pessoa, que de sua parte produz a união entre sua alma e Cristo, deve ser a coisa por causa da qual Deus olha para ficar satisfeito que ela tenha os méritos de Cristo pertencentes a ela; e também que é uma coisa muito diferente para Deus atribuir a uma determinada pessoa um direito aos méritos e benefícios de Cristo a partir da consideração de qualquer qualificação nela, neste aspecto, de sua obra para ele, em apreço ao valor ou beleza dessa qualificação ou como recompensa por sua excelência.

Como não há ninguém além de mim que admitirá que há uma relação peculiar entre Cristo e seus verdadeiros discípulos, pela qual é dito nas Escrituras, em certo sentido, que eles são um; então suponho que não haja ninguém além de mim que admitirá que pode haver algo que o verdadeiro cristão faça de sua parte, pelo que ele é ativo para entrar nessa relação ou união, algum ato da alma do cristão que seja o ato de união do cristão, ou o que é feito para esta união ou relação (ou como quer que agrade chamá-lo) da parte do cristão. Ora, eu suponho ser a fé este ato.

Não pretendo definir agora a fé justificadora, ou determinar precisamente quanto está contido nela, mas apenas determinar o quanto diz respeito a ela, a saber, que ela é aquilo pelo qual a alma, que antes estava separada e alienada de Cristo, une-se a ele, ou deixa de estar naquele estado de alienação e entra nesta união ou relação acima mencionada com ele, ou, para usar a frase das Escrituras, é aquilo pela que a alma vem a Cristo e o recebe; e isso é evidente pelas Escrituras que usam essas mesmas expressões para indicar a fé. João 6.35-38,[6] “O que vem a mim jamais terá fome; e o que crê em mim jamais terá sede. Porém eu já vos disse que, embora me tenhais visto, não credes. Todo aquele o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora. Porque eu desci do céu, não para fazer a minha própria vontade, e sim a vontade daquele que me enviou.” João 6.40, “De fato, a vontade de meu Pai [e que todo homem que vir o Filho e nele crer tenha a vida eterna: e eu o ressuscitarei no último dia.” João 5.28-40[7], “...porque não credes naquele a quem ele enviou. Examinais as Escrituras..., e são elas que testificam de mim. Contudo, não quereis vir a mim para terdes vida.” João 6.43-44[8], “Eu vim em nome do meu Pai, e não me recebeis; se outro virá em seu próprio nome, certamente, o recebereis. Como podeis crer, vós os que aceitais glória uns dos outros...?” João 5.12[9], “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhe o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome.” Se for dito que estas figuras de linguagem são obscuras, que, não obstante tenham sido bem compreendidas antigamente entre aqueles que comumente usavam essas metáforas, todavia são difíceis de se entender agora. Admito que as expressões “receber” a Cristo e “vir” a Cristo são expressões metafóricas; e ainda que eu deva admitir que sejam metáforas obscuras, no entanto, muito, pelo menos, é certamente claro nelas, a saber, que a fé é aquilo pelo que aqueles que antes estavam separados e à distância de Cristo (isto quer dizer que não estavam tão relacionados e unidos a ele como seu povo está), faz com que tal distância deixe de existir e faz entrar nessa relação e proximidade; a menos que elas sejam tão ininteligível que nada possa ser entendido delas.

Deus não dá àqueles que creem uma união com ou um interesse no Salvador como recompensa pela fé, mas apenas porque a fé é a união ativa da alma com Cristo, ou é em si o próprio ato de união da sua parte. Deus considera adequado que, para que uma união seja estabelecida entre dois seres ou pessoas ativas inteligentes, de modo que eles devem ser considerados como um, deve haver o ato mútuo de ambos, que cada um deve receber o outro, ativamente unindo-se um ao outro. Deus, ao exigir isso a fim de que haja uma união com Cristo como um de seu povo, trata os homens como criaturas racionais, capazes de agir e escolher, e, por isso, considera adequado que somente aqueles, que são um com Cristo por seu próprio ato devem ser considerados como um segundo a lei. O que é real na união entre Cristo e seu povo é o fundamento do que é legal, ou seja, é algo realmente neles e entre eles, unindo-os, que é a razão da adequação deles serem contados como um pelo Juiz. E se há algum ato ou qualificação nos crentes, este ato é dessa natureza unificadora, que é satisfeito por causa do que o Juiz considera neles e os aceita como um só. Não é de admirar que, por causa do mesmo ato ou qualificação, ele deve aceitar a satisfação e os méritos de um em favor do outro, como se fossem suas satisfações e seus méritos; isto necessariamente segue, ou melhor, está implícito.

E assim é que a fé justifica, ou produz interesse na satisfação e nos méritos de Cristo, e no direito aos benefícios adquiridos por meio deles, a saber, pois assim torna Cristo e o crente um na aceitação do Supremo Juiz. É pela fé que temos o direito à vida eterna, porque é pela fé que temos o Filho de Deus, por quem a vida é. O apóstolo João, nessas palavras, 1 João 5.12, “Aquele que tem o Filho tem a vida”, parece se referir evidentemente às palavras de Cristo que ele relata em seu evangelho. João 3.36, “Por isso, quem crê no Filho tem vida eterna, e o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida.” E nos mesmos lugares que a Escritura fala da fé como a alma “recebendo” ou “indo a Cristo”, ela também fala desse recebimento ou do ir, ou do se unir a Cristo, como a base do interesse em seus benefícios: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhe o poder de serem feitos filhos de Deus”; Contudo, não quereis vir a mim para terdes vida”[10] E há uma grande diferença entre ser considerado adequado que a satisfação e os méritos de Cristo devem ser daqueles que creem, porque o interesse nessa satisfação e méritos é apenas uma recompensa adequada da fé, ou um testemunho adequado do apreço de Deus à amabilidade e excelência dessa graça, e apenas ser considerado que a satisfação e os méritos de Cristo sejam deles porque Cristo e eles estão tão unidos que, aos olhos do Juiz, eles podem ser considerados e tomados como um só.

Embora, por causa da fé no crente, seja, aos olhos de Deus, adequado e conveniente que aquele que crê deve ser considerado como em Cristo também seja considerado como tendo interesse em seus méritos, da maneira que foi explicado; todavia parece que isso é muito amplo a partir de um mérito de coerência ou, de fato, de qualquer coerência moral para qualquer um. Há uma dupla adequação a um estado; não sei como dar-lhes nomes distintos do que chamando uma adequação de moral e a outra de natural. Uma pessoa tem uma adequação moral a um estado quando sua excelência moral o recomenda a ele, ou quando ser colocado neste estado bom é apenas um testemunho adequado ou conveniente do apreço ou do amor à excelência moral, ou valor, ou amabilidade de qualquer uma de suas qualificações ou atos. Uma pessoa tem uma adequação natural a um estado quando parece satisfazer e condecenta que deve estar em tal estado ou circunstâncias, apenas a partir da concordância ou conformidade natural que há entre estas qualificações e aquelas circunstâncias; não porque as qualificações são atraentes ou desagradáveis, mas apenas porque as qualificações e as circunstâncias são semelhantes umas às outras, ou fazem sua natureza ser conveniente e concordarem ou unirem uma à outra. E é somente nesta última hipótese que Deus considera adequada, mediante uma adequação natural, que aquele cujo coração sinceramente se une a Cristo como seu Salvador seja considerado como unido a esse Salvador, e assim tenha interesse nele; e não a partir de qualquer adequação moral que haja entre a excelência desta qualificação como fé, e desta bênção gloriosa como o ter interesse em Cristo. A concessão de Cristo e seus benefícios por Deus a uma alma em consequência da fé, por consideração apenas da concordância natural que há entre esta qualificação de uma alma e essa união com Cristo e interesse nele, torna o caso muito amplamente diferente do que seria se ele concedesse isso em consideração a qualquer adequação moral. Pois, no primeiro caso, é apenas a partir do amor de Deus pela ordem que ele concede essas coisas por causa da fé. No último, Deus as dá por amor à graça da própria fé. Deus não considerará os méritos de Cristo como nossos, nem declarará seus benefícios como nossos, até que estejamos em Cristo; nem nos considerará como estando nele sem uma união ativa de nossos corações e almas com ele; porque ele é um ser sábio e se deleita na ordem, não na confusão, e porque as coisas devem estar juntas ou de acordo com sua natureza. E sua criação de tal constituição é um testemunho de seu amor à ordem, enquanto que, se fosse por consideração a qualquer adequação ou conveniência moral entre a fé e tal bem-aventurança, seria um testemunho de seu amor ao ato ou à qualificação em si. Um supõe que esta constituição divina seja uma manifestação do apreço de Deus pela beleza do ato de fé, o outro supõe apenas que seja uma manifestação de seu apreço pela beleza dessa ordem que há em unir aquelas coisas que têm uma concordância, coerência e união naturais de uma com a outra. De fato, uma adequação ou conveniência moral a um estado inclui uma adequação natural; pois nunca é assim que, se houver uma adequação moral, uma pessoa deve estar em tal estado, também há uma adequação natural, mas tal adequação natural, como eu descrevi, de modo algum inclui necessariamente uma moral.

Isso é claramente o que nossos teólogos pretendem quando dizem que a fé não justifica como uma obra ou uma justiça, a saber, que não justifica como parte de nossa bondade ou excelência moral, ou que ela não justifica como uma obra no sentido que o homem deveria ter sido justificado por suas obras mediante a aliança da obras, que devia ter direito a vida eterna, dado a ele por Deus como testemunho de sua satisfação com suas obras, ou sua consideração pela excelência e beleza inerentes de sua obediência. E certamente isso é o que o apóstolo Paulo quer dizer quando insiste tanto em que não somos justificados por obras, a saber, que não somos justificados por elas como boas obras, ou por qualquer bondade, valor ou excelência de nossas obras. Para a prova disso mencionarei, no momento, apenas uma coisa (é como ter a oportunidade de dizer o que se manifestará mais abundantemente depois), e esta é, o apóstolo de tempos em tempos fala de não sermos justificados pelas obras como a coisa que exclui toda a jactância (Efésios 2.9; Romanos 3.27 e Romanos 4.2). Agora, de que modo o fazer obras dá ocasião para a jactância senão como boas? O que os homens usam para se vangloriarem senão algo que eles supõem ser bom ou excelente? E por que eles se vangloriam de alguma coisa senão pela suposta excelência que está nela?

A partir dessas coisas podemos aprender de que maneira a fé é a única condição para a justificação e para a salvação. Pois, embora não seja a única condição, assim como somente a verdade tem lugar de condição em uma proposição hipotética, na qual a justificação e a salvação são as consequentes, ainda assim é a condição para a justificação de uma maneira peculiar a ela, e de modo que nada mais tenha influência paralela com ela; porque a fé inclui todo o ato de união com Cristo como Salvador. Toda a união ativa da alma, ou tudo o que é chamado de “ir a” Cristo e “receber” dele, é chamada de fé nas Escrituras; e não obstante outras coisas possam não ser menos excelentes do que a fé, todavia não é a natureza de quaisquer outras graças ou virtudes diretamente unidas a Cristo como Mediador, qualquer coisa além dela, entrar na constituição da fé justificadora e pertencer à sua natureza.

Assim, expliquei meu pensamento, ao afirmá-lo como uma doutrina do evangelho, de que somos justificados somente pela fé, sem qualquer tipo de bondade de nossa parte. Eu prossigo, em

II. [Segundo] lugar, para prová-lo. O que me esforçarei para produzir nos seguintes argumentos:

Primeiro. Este é o nosso caso e o estado das coisas, que nem a fé, nem qualquer outra qualificação, ou ato, ou curso de ação faz, ou pode tornar conveniente ou adequado que uma pessoa tenha interesse no Salvador, e assim direito a seus benefícios, por causa de qualquer excelência nela, ou qualquer outro modo senão apenas como algo nela pode uni-lo ao Salvador. Não é conveniente que Deus dê ao homem caído um interesse em Cristo e em seus méritos, como um testemunho de sua consideração por qualquer coisa como uma beleza nele; e isto porque não é até que um pecador seja realmente justificado que alguma coisa nele deve ser aceita por Deus, como alguma excelência ou beleza de sua pessoa; ou que Deus, por qualquer ato, deve de alguma forma ou em algum grau declarar ter algum prazer nele, ou favor para com ele, por causa de qualquer coisa inerente no homem caído. E isto por duas razões: primeira, porque a natureza das coisas não admitirá isso; segunda, porque uma constituição divina antecedente está no seu caminho.

1. A natureza das coisas não admitirá isso. E isso torna-se óbvio a partir da culpa infinita sob a qual o pecador está até ser justificado; a qual procede do mal infinito ou da hediondicidade do pecado. Porém, porque isso é o que alguns negam, eu devo primeiro estabelecer esse ponto, e mostrar que o pecado é uma coisa que é de fato propriamente de infinita hediondicidade; e então mostrar a consequência, e mostrar que é assim, e desse modo o pecador, sob culpa infinita aos olhos de Deus, não pode ser adequado, até que o pecador seja realmente justificado, que Deus deva, por qualquer ato, declarar ter prazer em, ou aceitação de, qualquer coisa como alguma excelência ou beleza em sua pessoa, ou mesmo ter qualquer aceitação dele ou declarar ter prazer nele.

Que o mal e o demérito do pecado são infinitamente grandes é demonstravelmente muito evidente, porque aquilo em que consiste o mal ou a iniquidade do pecado é a violação de uma obrigação, a realização do contrário ao que somos obrigados a fazer, ou fazer o que não devemos fazer; e, portanto, quanto a maior for a obrigação que é violada, tanto maior é a iniquidade da violação. Mas certamente nossa obrigação de amar ou honrar algum ser é grande em proporção à grandeza ou excelência desse ser, ou sua dignidade de ser amado e honrado. Estamos sob maiores obrigações de amar um ser mais adorável do que um ser menos adorável; e, se um ser for infinitamente excelente e adorável, nossas obrigações de amá-lo são infinitamente grandes. A questão é tão simples que parece desnecessário dizer muito sobre ela.

Alguns têm argumentado de modo muitíssimo estranho contra o infinito mal do pecado pelo fato de ser cometido contra um objeto infinito. Se assim for, então pode muito bem ser argumentado que há também um valor ou excelência infinito na santidade e no amor a Deus, porque este também tem um objeto infinito. Considerando que o argumento da paridade da razão o levará ao contrário: o pecado da criatura contra Deus é não mérito em proporção à distância que existe entre Deus e a criatura, a grandeza do objeto e a torpeza do sujeito o agrava; porém é o contrário em relação à dignidade do respeito da criatura para com Deus, é sem merecimento (e não merecedor) em proporção à torpeza do sujeito; quanto maior a distância entre Deus e a criatura tanto menor é o apreço da criatura merecedora da atenção ou da consideração de Deus. A indignidade do pecado ou da oposição a Deus cresce e é maior em proporção à dignidade do objeto e à inferioridade do sujeito; mas, ao contrário, a dignidade ou valor do apreço cresce proporcionalmente ao valor do sujeito; e isto, por essa simples razão, a saber, que o mal da desconsideração é proporcional à obrigação que reside sobre o sujeito para com o objeto; que obrigação é aumentada mais evidentemente pela excelência e superioridade do objeto; mas, ao contrário, o merecimento do apreço para com um ser é proporcional à obrigação que reside sobre aquele que é o objeto (ou melhor, a razão que ele tem) de considerar o sujeito, o que certamente é proporcional ao valor ou excelência do sujeito. O pecado ou a desconsideração é mau ou hediondo em proporção ao grau do que ele nega no objeto, e, por assim dizer, tira dele, a saber, sua excelência e dignidade de apreço; ao contrário, o apreço é valioso proporcionalmente ao valor do que é dado ao objeto neste aspecto, o que, sem dúvida (outras coisas sendo iguais), é maior em proporção ao valor do sujeito ou a dignidade da consideração; porque o sujeito, ao dar sua consideração, não pode dar mais do que ele mesmo; na medida em que ele dá sua consideração ele dá a si mesmo ao objeto; e, portanto, sua dádiva é de maior ou menor valor em proporção ao valor dele mesmo.

Consequentemente (a propósito), o amor, a honra e a obediência de Cristo para com Deus tem valor infinito a partir da excelência e da dignidade da pessoa em quem essas qualificações eram inerentes. E a razão pela qual precisávamos de uma pessoa de infinita dignidade para obedecer por nós, era por causa de nossa comparativa infinita maldade, que desobedecemos, por meio da qual nossa desobediência foi infinitamente agravada. Precisávamos de alguém cujo valor da obediência pudesse corresponder a indignidade de nossa desobediência. E, portanto, precisávamos de alguém que fosse tão grande e digno quanto nós éramos indignos.

Outra objeção (que talvez possa ser considerada que dificilmente valha a pena mencionar), é que supor que o pecado seja infinitamente hediondo é tornar todos os pecados igualmente hediondos; pois como algum pecado pode ser mais do que infinitamente hediondo? Porém tudo o que pode ser argumentado daqui é que nenhum pecado pode ser maior em relação a esse agravamento, a dignidade do objeto contra quem ele é cometido. Um pecado não pode ser mais agravado do que outro nesse aspecto porque, neste aspecto, o agravamento de cada pecado é infinito. Porém isso não impede que alguns pecados possam ser mais hediondos do que outros em outros aspectos. Como se devêssemos supor que um cilindro infinitamente longo não pode ser maior nesse aspecto, a saber, com relação ao seu comprimento; mas ainda assim pode ser duplicado, triplicado e feito mil vezes maior mediante o aumento de outras dimensões. Sobre pecados que são infinitamente hediondos, alguns podem ser mais hediondos do que outros, bem como todas as calamidades infinitamente terríveis são de diferentes punições, ou todas elas excedendo infinitamente todas as calamidades finitas, de modo que não há calamidade finita, embora grande, exceto a que é menos infinitamente terrível, ou mais desejável do que qualquer uma delas, ainda que algumas delas possam ser mil vezes mais terríveis que outras. Uma punição pode ser infinitamente terrível em razão da duração sua infinita e consequentemente não possa ser maior em relação a esse seu agravamento, a saber, seu comprimento de continuidade, mas ainda pode ser muito mais terrível por outras razões.

Tendo assim, como imagino, deixado claro que todo o pecado é infinitamente hediondo e, consequentemente, que o pecador, antes de ser justificado, está sob infinita culpa aos olhos de Deus, resta agora que eu mostre a consequência, ou como segue daqui, que não é adequado que Deus dê ao pecador um interesse nos méritos de Cristo e, desse modo, um direito a seus benefícios, proveniente da consideração de qualquer qualificação, ou ato, ou curso de ação nele, por causa de qualquer excelência ou bondade nele, mas apenas como unido a Cristo; ou (o que implica plenamente) que não é adequado que Deus, por qualquer ato, de alguma forma ou grau deva declarar qualquer aceitação ou prazer com alguma coisa, como alguma virtude, ou excelência, ou qualquer parte da amabilidade, ou de valor em sua pessoa, até que ela já esteja realmente interessada nos méritos de Cristo. O que se torna óbvio por isso, que a partir das premissas conclui-se que antes do pecador estar interessado em Cristo e ser justificado, é impossível que Deus tenha qualquer aceitação da pessoa do pecador ou prazer nele, como agradável aos seus olhos em algum grau ou, de fato, menos o objeto de seu desprazer e ira. Pois, pela suposição, o pecador ainda permanece infinitamente culpado aos olhos de Deus; pois a culpa não é removida exceto mediante o perdão. Porém supor o pecador já está perdoado, é supor que ele já está justificado; o que é contrário à suposição. Porém se o pecador ainda permanece infinitamente culpado aos olhos de Deus, isso é o mesmo que ainda deve ser visto por Deus como infinitamente o objeto de seu desprazer e ira, ou infinitamente odioso aos seus olhos. E se assim for, onde há qualquer espaço para alguma coisa nele ser aceita como de algum valor ou aceitação dele aos olhos de Deus, ou para algum ato de favor de qualquer tipo para com ele, ou qualquer dádiva para ele, como testemunho da consideração e da aceitação de Deus de algo amável e agradável dele? Se supormos que poderia ser assim, que um pecador poderia ter fé, ou alguma outra graça em seu coração, e ainda permanecer separado de Cristo; e deve continuar a ser assim, que ele não é visto como estando em Cristo ou tendo qualquer relação com ele, não seria apropriado que essa verdadeira graça seja aceita por Deus como alguma amabilidade de sua pessoa aos olhos de Deus. Se isto for aceito como a amabilidade da pessoa, que a pessoa deveria ser aceita como em algum grau de amabilidade por Deus, mas isso não pode ser consistente com sua permanência ainda sob culpa infinita, ou indignidade infinita aos olhos de Deus, a qual essa bondade não tem excelência para equilibrar. Enquanto Deus contemplar o homem como separado de Cristo ele deve vê-lo como ele é em si mesmo; e assim sua bondade não pode ser contemplada por Deus, mas como considerado com sua culpa e odiosidade, e como colocado na balança com ela e, sendo visto assim, sua bondade não é nada; porque na balança há um finito contra um infinito, cuja proporção a ele é nada. Nesse caso, se o homem for considerado como ele é em si mesmo, o excesso do peso em uma escala superior a outra deve ser considerado como a qualidade do homem. Esses contrários sendo considerados juntos, um tira do outro, como um número é subtraído de outro; e o homem deve ser considerado aos olhos de Deus de acordo com o que resta. Pois aqui, pela suposição, todos os atos de graça ou favor, não imputando a culpa como ela é, são excluídos, porque isso supõe um grau de perdão, e este supõe justificação, o que é contrário ao que se supõe, a saber, que o pecador ainda não está justificado e, portanto, as coisas devem ser tomadas estritamente como são; e assim o homem ainda é infinitamente indigno e odioso aos olhos de Deus, como era antes, sem diminuição, porque sua bondade não tem proporção com sua indignidade, e, portanto, quando consideradas juntas ela não é nada.

Assim, pode ser visto mais claramente a força dessa expressão no texto sobre crer naquele que “justifica o ímpio”; pois embora haja, de fato, algo no homem que seja real e espiritualmente bom, que seja anterior a justificação, todavia não há nada que seja aceito como alguma piedade ou excelência da pessoa até depois da justificação. A aceitação de Deus da bondade ou a amabilidade da pessoa, em qualquer grau, não deve ser considerada como anterior, mas posterior na ordem e método de procedimento de Deus neste caso; embora a consideração da adequação natural entre tal qualificação e tal estado venha antes da justificação, todavia até a aceitação da fé como alguma bondade ou amabilidade do crente, resulta da justificação. A bondade está na conta supracitada vista justamente como nada até que o homem seja justificado. E, portanto, o homem é considerado na justificação como completamente odioso em si mesmo. Assim, a natureza das coisas não admitirá que um homem tenha um interesse nos méritos ou nos benefícios de um Salvador dado a ele por causa de qualquer coisa como justiça, ou virtude, ou excelência nele.

2. Um estatuto divino que é antecedente ao que estabelece a justificação por meio de um Salvador (e, de fato, a qualquer necessidade de um Salvador), está no seu caminho, a saber, aquele estatuto ou lei original sob o qual o homem está, pelo qual o pecador é condenado por ser um violador dessa lei; e permanece condenado até que tenha realmente um interesse no Salvador, por meio de quem ele é liberto dessa condenação. Porém supor que Deus dê a um homem um interesse em Cristo como recompensa por sua justiça ou virtude é inconsistente com sua permanência ainda sob condenação até que ele tenha interesse em Cristo, porque supõe que a virtude do pecador é aceita, e ele aceito por causa dela, antes que tenha interesse em Cristo; visto que um interesse em Cristo é dado como recompensa de sua virtude; mas a virtude deve primeiro ser aceita antes de ser recompensada, e o homem deve primeiro ser aceito por causa da sua virtude antes de ser recompensado por ela com uma recompensa tão grande e gloriosa; pois a própria noção de recompensa é algo bom concedido como declaração de consideração e aceitação da virtude na pessoa recompensada. Não condiz com a honra da majestade do Rei do Céu e da Terra aceitar algo de um malfeitor condenado, condenado pela justiça de sua própria lei santa, até que essa condenação seja removida. E então tal aceitação é inconsistente com e contraditória a essa condenação remanescente; pois a lei condena aquele que a viola a ser totalmente rejeitado e expulso por Deus; porém como um homem pode continuar sob esta condenação, ou seja, continuar totalmente rejeitado e expulso por Deus e ainda assim sua justiça ou virtude ser aceita, e ele próprio aceito por causa dela, de modo a ter uma recompensa tão gloriosa como um interesse em Cristo concedido como declaração dessa aceitação?

Sei que a resposta que estará pronta para isso é que, agora, não estamos sujeitos a esse estatuto sob o qual a humanidade esteve inicialmente, mas que Deus, em misericórdia para com a humanidade, aboliu esse rigoroso estatuto ou lei sob o qual ela estava originalmente e nos colocou sob uma nova lei, e introduziu um estatuto mais brando; e visto que o estatuto ou lei em si não continua, não há necessidade de supor que sua condenação continue a ficar no caminho da aceitação de nossa virtude. E, de fato, não há outra maneira de evitar essa dificuldade; a condenação da lei deve permanecer em vigor contra um homem até que ele esteja realmente interessado no Salvador, que satisfez e obedeceu à lei efetivamente para impedir qualquer aceitação de sua virtude, antes, ou a fim de tal interesse, a menos que a lei ou o estatuto em si seja abolida. Porém o esquema desses teólogos modernos, por quem isso é sustentado, parece conter uma grande quantidade de absurdo e autocontradição. Eles sustentam que a antiga lei dada a Adão, a qual requer obediência perfeita, encontra-se totalmente revogada, e que, em vez disso, somos colocados sob uma nova lei, a qual exige não mais do que obediência imperfeita, sincera, em conformidade com nossas circunstâncias pobres, enfermas e impotentes desde a queda, onde por sermos incapazes de efetuar essa obediência perfeita que era exigida pela primeira lei. Pois eles sustentam vigorosamente que seria injusto Deus exigir qualquer coisa de nós que esteja além do nosso poder e capacidade atuais de realizar; e ainda assim eles sustentam que Cristo morreu para satisfazer as imperfeições de nossa obediência, de modo que nossa obediência imperfeita possa ser aceita no lugar da perfeita. Agora, como essas coisas podem ficar juntas? Eu perguntaria, essas imperfeições de nossa obediência são uma violação de qual lei? Se não são uma violação de nenhuma lei, então elas não pecados, e se elas não são pecados, qual a necessidade da morte de Cristo para fazer satisfação por elas? Porém se elas são pecados, e assim a violação de alguma lei, de qual lei? Elas não podem ser uma violação de sua nova lei, pois esta não requer senão obediência imperfeita, ou obediência com imperfeições; e elas não podem ser uma violação da antiga lei, pois eles dizem que ela está inteiramente abolida, e nunca estivemos sob ela; e não podemos infringir uma lei sob a qual nunca estivemos. Dizem que não seria justo Deus exigir de nós a obediência perfeita, porque não seria justo Deus exigir mais de nós do que podemos realizar em nosso estado atual e nos punir por falharmos, e, portanto, mediante seu próprio esquema, as imperfeições de nossa obediência não merecem ser punidas. Qual a necessidade, portanto, da morte de Cristo para satisfazê-las? Qual a necessidade do sofrimento de Cristo para fazer satisfação pelo que não é falha e em sua própria natureza não merece sofrimento? Qual a necessidade da morte de Cristo para conseguir que nossa obediência imperfeita seja aceita, quando, de acordo com seu esquema, seria injusto em si mesmo que qualquer outra obediência a não ser a imperfeita deve ser requerida? Qual a necessidade da morte de Cristo para abrir caminho para que Deus aceite tal obediência, pois seria em si injusto ele não aceitar? Há necessidade da morte de Cristo para persuadir a Deus a não agir injustamente? Se for dito que Cristo morreu para satisfazer essa lei por nós para que não estejamos sob essa lei, mas que sejamos libertos dela para que possa haver oportunidade de estarmos sob uma lei mais branda; ainda assim eu perguntaria: Qual a necessidade da morte de Cristo para que não estejamos sob uma lei sob a qual (de acordo com seu esquema) seria em si mesmo injusto estarmos, porque em nosso estado atual não somos capazes de guardá-la? Qual a necessidade da morte de Cristo para que não estejamos sob uma lei sob a qual seria injusto estar se Cristo morreu ou não?

Até agora eu tenho argumentado principalmente a partir da razão e da natureza das coisas. Eu prossigo agora para o

Segundo argumento, que é, que esta é uma doutrina que a Sagrada Escritura, aquela revelação que Deus nos deu de sua mente e vontade, pela qual nunca poderemos saber como aqueles que ofenderam Deus podem vir a ser aceitos por ele e justificados aos seus olhos, é excessivamente copiosa. Particularmente o apóstolo Paulo é abundante em ensinar que somos justificados somente pela fé sem as obras da lei; não há uma doutrina sobre a qual ele insista tanto e seja particular nele, e que ele lide com tanta distinção, explicando e dando razões, e respondendo a objeções.

Não é negado aqui, por ninguém, que o apóstolo afirma que somos justificados pela fé sem as obras da lei, porque as palavras são categóricas, mas apenas é dito que compreendemos errado suas palavras e entendemos por elas o que nunca esteve em seu coração, pelas quais, quando ele exclui as obras da lei, nós o entendemos como toda a lei de Deus ou a regra que ele deu à humanidade pela qual caminhar, enquanto que tudo o que ele pretende é a lei cerimonial.

Alguns que se opõem a essa doutrina de fato dizem que o apóstolo, às vezes, quer dizer que é pela fé, ou seja, uma aceitação sincera do evangelho em seu primeiro ato, somente ou sem qualquer vida santa anterior, que as pessoas são admitidas a um estado justificado; mas, dizem eles, é mediante uma obediência perseverante que elas continuam em um estado justificado, e é mediante esta obediência perseverante que elas são finalmente justificadas. Porém isso é a mesma coisa que dizer que um homem é condicionalmente justificado e perdoado em sua aceitação inicial do evangelho. Perdoar o pecado é libertar o pecador da sua punição, ou daquela miséria eterna que é devida a ele; e, portanto, se uma pessoa é perdoada, ou libertada dessa miséria, em sua aceitação inicial do evangelho e, todavia, não finalmente libertada, mas sua liberdade real ainda depende de alguma condição ainda a ser realizada, é inconcebível como ela pode ser perdoada de outra forma senão condicionalmente. Isto é, ela não é devidamente realmente perdoada e livre da punição, mas apenas tem a promessa de Deus de que será perdoada por meio de condições futuras. Deus lhe promete que se ela perseverar na obediência será finalmente perdoada, ou realmente libertada do inferno. O que é não fazer nada da grande doutrina da justificação somente pela fé do apóstolo; tal perdão condicional não é perdão ou justificação, não mais do que toda a humanidade tem se aceitar o evangelho ou não; pois todos têm a promessa de justificação final mediante condições de obediência sincera futura, tanto quanto aquele que aceita o evangelho. Porém para não discutir sobre isso, vamos supor que possa haver uma coisa ou outra na aceitação inicial do evangelho pelo pecador, que pode ser devidamente chamada de justificação ou perdão e, todavia, que a justificação final, ou a liberdade real da punição do pecado, ainda está suspensa sob condições até então não cumpridas. No entanto, aqueles que sustentam que os pecadores são justificados dessa maneira ao aceitar o evangelho, supõem que eles são justificados por isso, a não ser que seja um ato precedente de obediência, ou pelo menos como virtude e bondade moral neles, e, portanto, seriam excluídos pelo apóstolo tanto quanto qualquer outra virtude ou obediência, se for permitido que ele se refira à lei moral quando exclui obras da lei. E, portanto, se esse ponto for consentido, que o apóstolo se refere à moral e não apenas a lei cerimonial, todo o seu esquema cai por terra.

E porque o ponto de debate de todo o argumento desses textos nas epístolas de São Paulo depende da determinação deste ponto, eu serei específico na sua discussão.

Alguns de nossos oponentes nesta doutrina da justificação, quando negam que o apóstolo se refere à lei moral, ou a toda a regra da vida que Deus deu à humanidade, quando usa a expressão pela lei, parecem escolher se expressarem assim, que o apóstolo pretende se referir apenas à dispensação mosaica. Porém isso é exatamente a mesma coisa que se dissessem que o apóstolo apenas pretende excluir as obras da lei cerimonial. Pois quando dizem que é pretendido apenas que não sejamos justificados pelas obras da dispensação mosaica, se eles querem dizer alguma coisa com isso, deve ser que não somos justificados por tomar parte e observar o que é mosaico nessa dispensação, ou pelo o que era peculiar a ela, e no que ela difere da dispensação cristã. O que é o mesmo que é cerimonial e positivo, e não moral, nessa administração. Então é isso que eu tenho que refutar, a saber, que o apóstolo, quando fala das obras da lei neste caso, se refere apenas às obras da lei cerimonial, ou aquelas observâncias que eram peculiares à administração do mosaica.

E aqui deve ser notado que ninguém discute isso com eles, se as obras da lei cerimonial não estão inclusas, ou se o apóstolo não argumenta particularmente contra a justificação pela circuncisão e por outras observâncias cerimoniais. Mas tudo o que está em discussão é, se quando ele nega a justificação pelas obras da lei ele deve ser entendido como se referindo apenas à lei cerimonial, ou se a lei moral também não está implícita e pretendida; e, portanto, os argumentos que são trazidos para provar que o apóstolo se refere à lei cerimonial não servem ao propósito, a menos que provem mais do que isso, a saber, que o apóstolo se refere apenas a elas.

No que se insiste muito é que foram os cristãos judaizantes, que gostavam tanto da circuncisão e de outras cerimônias da lei, e dependiam tanto disso, que foram a própria ocasião do apóstolo escrever contra a justificação pelas obras da lei. Porém supondo que foi assim, que sua confiança nas obras da lei cerimonial foi a única ocasião do apóstolo escrever (o que todavia não há razão para admitir, como pode aparecer depois), se sua confiança em uma determinada obra como obra de justiça foi tudo o que deu ocasião ao apóstolo de escrever, como segue, portanto, que o apóstolo não escreveu naquela ocasião contra confiar em todas as obras de justiça? Onde está o absurdo de supor que o apóstolo pôde aproveitar a ocasião de observar alguns confiando em uma determinada obra como uma obra de justiça escrever-lhes contra pessoas que confiavam totalmente em qualquer obra de justiça, e esta era uma ocasião muito adequada também? Sim, teria sido inevitável para o apóstolo ter argumentado contra confiar em uma determinada obra nessa qualidade de uma obra de justiça, cuja qualidade era geral, mas ele deve nesse sentido argumentar contra confiar nas obras de justiça em geral. Supondo que tenha sido algum outro tipo particular de obras que foi a ocasião do apóstolo escrever, como por exemplo, obras de caridade. O apóstolo deveria, consequentemente, aproveitar a oportunidade para escrever-lhes a não confiar em suas obras. Poderia o apóstolo por isso ser entendido como nenhuma outra obra além de obras de caridade? Teria sido absurdo entendê-lo como escrevendo contra confiar em qualquer obra, por que sua confiança era em uma obra particular que deu ocasião ao seu escrito?

Outra coisa alegada como prova de que o apóstolo se refere à lei cerimonial quando diz que não podemos ser justificados pelas obras da lei, é que ele usa esse argumento para provar isso, a saber, que esta lei da qual ele fala foi dada muito tempo depois da aliança com Abraão em Gálatas 3.17, “E digo isto: uma aliança já anteriormente confirmada por Deus, a lei, que veio quatrocentos e trinta anos depois, não a pode ab-rogar, de forma que venha a desfazer a promessa.” Porém, dizem eles, foi apenas a administração mosaica e não a aliança das obras que foi dada muito tempo depois. Porém, para eles, parece que o argumento do apóstolo está claramente errado. O apóstolo não fala de uma lei que começou a existir 430 anos depois; se ele o fez, haveria alguma força em sua objeção, mas por meio da frase “dádiva da lei” ele faz referência a uma certa transação solene, bem conhecida entre os judeus, a qual foi aquela grande transação no Monte Sinai que temos registrada em Êxodo 19-20, que consiste especialmente na entrega dos Dez Mandamentos de Deus, que é a lei moral, com uma voz terrível, cuja lei ele deu depois em tábuas de pedra. Os judeus, no tempo do apóstolo, interpretavam mal esta transação, eles a viam como o estabelecimento de Deus como uma regra de justificação. É contra esta presunção[11] deles que o apóstolo traz este argumento invencível, a saber, que Deus nunca cancelaria sua aliança com Abraão, a qual era claramente uma aliança da graça, mediante uma transação com sua posteridade que foi dada muito tempo depois dela, e que foi claramente construída sobre ela; ele não destruiria uma aliança da graça que fora estabelecida muito antes com Abraão, para ele e sua descendência (o que é muitas vezes mencionado como a base sobre a qual Deus os faz seu povo), mediante o estabelecimento agora de uma aliança de obras com eles, no Monte Sinai, como os judeus e cristãos judaizantes supunham.

Porém que o apóstolo não se refere apenas às obras da lei cerimonial, quando exclui obras da lei na justificação, mas também às obras da lei moral e todas as obras de obediência, virtude e justiça, pode tornar-se evidente pelas seguintes coisas.

1. O apóstolo não diz apenas que não somos justificados pelas obras da lei, mas que não somos justificados por obras, utilizando um termo geral. Como é dito em nosso texto: “ao que não trabalha, porém crê naquele que justifica”, etc., e em Romanos 4.6, “E é assim também que Davi declara ser bem-aventurado o homem a quem Deus atribui justiça, independentemente de obras.” E Romanos 11.6, “E, se é pela graça, já não é pelas obras, do contrário, a graça já não é graça.”[12] Assim Efésios 2.8-9, “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé,... não de obras.” Por isso, não há razão no mundo para entender o apóstolo de qualquer outro modo que não seja obras em geral, como correlatos de uma recompensa, ou boas obras, ou obras de virtude e justiça. Quando o apóstolo diz que não somos justificados ou salvos por obras, sem qualquer termo anexado como “a lei”, ou qualquer outro acréscimo para limitar a expressão, que permissão qualquer um tem de limitar-se a obras de uma determinada lei, ou instituição, excluindo outras? Não existem observâncias de outras leis divinas, assim como desta? Parece ser permitido pelos teólogos do esquema arminiano, em sua interpretação de vários desses textos onde o apóstolo menciona apenas obras sem qualquer acréscimo, que ele quer dizer nossas próprias boas obras em geral, mas então eles dizem, ele apenas quer dizer excluir qualquer mérito próprio nessas obras. Porém dizer que o apóstolo se refere a uma coisa quando ele diz que não nos justificamos por obras, outra quando ele diz que não somos justificamos pelas obras da lei, quando encontramos as expressões misturadas e usadas no mesmo discurso, e quando o apóstolo está evidentemente no mesmo argumento, é muito irracional, é esquivar-se e fugir das Escrituras em vez de nos abrirmos e nos rendermos aos seus ensinos.

2. Em Romanos 3, sermos culpados de violações da lei moral, é um argumento que o apóstolo usa como a razão pela qual não podemos ser justificados pelas obras da lei. Começando com Romanos 3.9, ele prova, a partir do Antigo Testamento, que todos estão sob pecado; “não há justo, nem um sequer”, “a garganta deles é sepulcro aberto; com a língua urdem engano”, “a boca, eles a têm cheia de maldição e de amargura”, e “são os seus pés velozes para derramar sangue”. E assim ele continua mencionando apenas aquelas coisas que são violações da lei moral e, então, após ter feito, sua conclusão é, em Romanos 3.19-20, “Ora, sabemos que tudo o que a lei diz, aos que vivem na lei o diz para que se cale toda boca, e todo o mundo seja culpável diante de Deus, visto que ninguém será justificado diante dele obras da lei, em razão de que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado.” Este é mais evidentemente o seu argumento, porque todos pecaram (como foi dito em Romanos 3.9) e são culpados dessas violações da lei moral que ele mencionou (e é repetido novamente, subsequentemente a Romanos 3.23). “Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus.” Portanto, ninguém pode ser justificado pelas obras da lei. Agora, se o apóstolo quis dizer apenas que não somos justificados pelas obras da lei cerimonial, que tipo de argumentação seria: “a boca, eles a têm cheia de maldição e de amargura; são os seus pés velozes para derramar sangue”, portanto, eles não podem ser justificados pelas obras da administração mosaica? Eles são culpados das violações da lei moral e por isso não podem ser justificados pelas obras da lei cerimonial? Sem dúvida, o argumento do apóstolo é que a mesma lei que eles infringiram e contra a qual pecaram nunca pode justificá-los como seus cumpridores, porque toda lei não justifica, mas necessariamente condena seus infratores; e, portanto, nossas violações da lei moral não argumentam senão que não podemos ser justificados por essa lei que quebramos.

E pode-se notar que o argumento do apóstolo aqui é o mesmo que eu já usei, a saber, que visto que estamos em nós mesmos e fora de Cristo, estamos sob a condenação dessa lei original ou estatuto que Deus estabeleceu com a humanidade, e por isso não convém que qualquer coisa que façamos, qualquer virtude ou obediência nossa, deve ser aceita, ou que sejamos aceitos por causa dessas coisas.

3. O apóstolo, em toda a parte anterior desta epístola, onde quer que ocorra a expressão “a lei”, evidentemente intenta principalmente a lei moral. Como em Romanos 2.12, “Assim, pois, todos os que pecaram sem lei também sem lei perecerão”. Evidentemente, o apóstolo se refere à lei moral escrita, pelo versículo 14, “Quando, pois, os gentios que não têm lei, procedem, por natureza, de conformidade com a lei...”, ou seja, a lei moral que os gentios têm por natureza. E assim o próximo versículo, “Estes mostram a norma da lei gravada no seu coração.” É a lei moral, não a cerimonial, que está escrita nos corações daqueles que são destituídos da revelação divina. E assim em Romanos 2.18, “que conheces a sua vontade e aprovas as coisas excelentes, sendo instruídos na lei.” É a lei moral que nos mostra a natureza das coisas e nos ensina o que é excelente. [E] Romanos 2.20, “tendo na lei a forma da sabedoria e da verdade.” É a lei moral, como é evidente pelo que segue, Romanos 2.22-23, “Dizes que não deve cometer adultério e o cometes? Abominas os ídolos e lhes roubas os templos? Tu, que glorias na lei, desonras a Deus pela transgressão da lei?” Adultério, idolatria e sacrilégio certamente são a quebra da moral, não da lei cerimonial. Assim em Romanos 2.27, “E, que é incircunciso por natureza cumpre a lei, certamente ele te julgará a ti, que não obstante a letra e a circuncisão, és transgressor da lei”, ou seja, os gentios, que você despreza porque são incircuncisos, se eles vivem vidas morais e santas, em obediência à lei moral, condenarão embora você seja circuncidado. E assim não há um lugar em toda a parte anterior da epístola onde o apóstolo fale da lei que ele evidentemente não se refere principalmente à lei moral; e mesmo quando o apóstolo, em continuidade do mesmo discurso, vem nos dizer que não podemos ser justificados pelas obras da lei, então eles precisam tê-la, ele quer dizer com isto apenas a lei cerimonial; sim, embora todo esse discurso sobre a lei moral, mostrando como os judeus, bem como os gentios, a violaram, é evidentemente preparatório e introdutório a essa doutrina, Romanos 3.20, que “nenhuma carne”, isto é, ninguém da humanidade, nem judeus nem gentios, pode ser justificado pelas obras da lei.

4. É evidente que, quando o apóstolo diz que não podemos ser justificados pelas obras da lei, ele se refere tanto à lei moral quanto à cerimonial, ao apresentar esta razão para isto, que “pela lei vem o pleno conhecimento do pecado”, conforme Romanos 3.20, “Visto que ninguém será justificado diante dele por obras da lei, em razão de que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado.” Ora, essa lei pela qual chegamos ao conhecimento do pecado é principal e primeiramente a lei moral. Se esse argumento do apóstolo é bom, que não podemos ser justificados pelas obras da lei porque é pela lei que chegamos ao conhecimento do pecado, então isto prova que não podemos ser justificados pelas obras da lei moral, nem pelos preceitos do cristianismo, pois por meio deles vem o conhecimento do pecado. Se a razão é boa, então onde a razão vigora, a verdade vigora. É um artifício miserável e uma força violenta colocada sobre as palavras dizer que o significado é que o conhecimento do pecado se dá mediante a lei da circuncisão, porque a circuncisão significa o tomar o caminho do pecado, relembrar os homens do pecado. O significado claro do apóstolo é que, visto que a lei proíbe mais estritamente o pecado, ela tende a nos convencer do pecado e a levar nossas próprias consciências a nos condenar em vez de nos justificar; que a função dela é declarar nossa própria culpa e indignidade, o que é o inverso de nos justificar e nos aprovar como virtuosos ou dignos. Este é o significado do apóstolo se permitirmos que ele seja seu próprio intérprete; pois ele mesmo nos explica nesta epístola como é que temos o conhecimento do pecado por meio da lei e que o pecado é proibido pela lei. Romanos 7.7, “Mas eu não teria conhecido o pecado, senão por intermédio da lei; pois não teria eu conhecido a cobiça, se a lei não dissera: Não cobiçarás.” Ali o apóstolo estabelece duas coisas: primeira, que, o modo pelo qual, “pela lei vem o pleno conhecimento do pecado”, o pecado é proibido pela lei; e, segunda, o que está ligado até mais diretamente ao propósito, ele estabelece que é mediante a lei moral que chegamos ao conhecimento do pecado; pois diz ele, “não teria eu conhecido a cobiça, se a lei não dissera: Não cobiçará”. Assim sendo, é a lei moral, não a lei cerimonial, que diz não cobiçarás. Portanto, quando o apóstolo argumenta que nenhum ser vivo deve ser justificado pelas obras da lei, porque a lei leva ao conhecimento do pecado, seu argumento prova (a menos que ele tenha se enganado quanto à força de seu argumento) que não podemos ser justificados pelas obras da lei moral.

5. É evidente que o apóstolo não se refere apenas à lei cerimonial, porque ele apresenta essa razão pela qual temos justiça e direito ao privilégio de filhos de Deus, não pela lei, mas pela fé, “porque a lei suscita a ira”. Romanos 4.13-16, “Não foi por intermédio da lei que a Abraão ou a sua descendência coube a promessa de ser herdeiro do mundo, e sim mediante a justiça da fé. Pois, se os da lei é que são os herdeiros, anula-se a fé e cancela-se a promessa, porque a lei suscita a ira; mas onde não há lei, também não há transgressão. Essa é a razão por que provém da fé, para que seja segundo a graça.” Ora, a forma como a lei provoca a ira, pelo relato mostrado pelo apóstolo no argumento que ele mesmo anexa, é proibindo o pecado e agravando a culpa da transgressão; “mas”, diz ele, “onde não há lei, também não há transgressão”. E assim, Romanos 7:13, o pecado “pelo mandamento, se mostrasse sobremaneira maligno.” Se, portanto, essa premissa do apóstolo é boa, ela é muito mais forte contra a justificação mediante lei moral do que contra a lei cerimonial; pois é principalmente pelas transgressões da lei moral que vem a ira; pois elas são mais estritamente proibidas e terrivelmente ameaçadas.

6. É evidente que, quando o apóstolo diz que não somos justificados pelas obras da lei, ele exclui toda a nossa virtude, bondade ou excelência próprias, em virtude da razão que ele dá para isso, a saber, Romanos 3.26-28, “tendo em vista a manifestação da sua justiça no tempo presente, para ele mesmo ser justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus. Onde, pois, a jactância? Foi de todo excluída. Por que lei? Das obras? Não, pelo contrário, pela lei da fé. Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei.” Efésios 2.8-9, Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie.” Ora, do que os homens costumam se orgulhar a não ser do que eles consideram sua própria bondade ou excelência? Se não somos justificados por obras da lei cerimonial, ora como isso exclui a jactância, contanto que sejamos justificados por nossa própria excelência, ou virtude e bondade próprias, ou obras de justiça que fazemos?

Porém é dito que a jactância é excluída, como a circuncisão foi excluída, que era o que os judeus usavam especialmente para glorificarem-se e valorizarem-se sobre as outras nações.

A isso eu respondo, que os judeus não tinham apenas o hábito se orgulhar da circuncisão, mas eram notórios por se orgulharem de sua justiça moral. Os judeus daqueles dias eram, em geral, admiradores e seguidores dos fariseus, que estavam cheios de seu orgulho por cauda da sua justiça moral, como podemos ver pelo exemplo do fariseu mencionado no décimo oitavo capítulo de Lucas, a quem Cristo menciona como descrevendo a disposição mental geral dessa seita; “Ó Deus”, diz ele, “graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros.” As obras das quais ele se orgulha eram principalmente obras morais; ele dependia das obras da lei para a justificação e, por essa razão, Cristo nos diz que o publicano, que renunciou a toda a sua própria justiça, “desceu justificado para sua casa, e não aquele.” E em outros lugares [Mateus 6.2] lemos sobre os fariseus orando nos cantos das ruas e tocando uma trombeta diante deles quando davam esmolas, mas essas obras, das quais eles tão vãmente se orgulhavam, eram obras morais. E não apenas isso, mas o que o apóstolo, nesta mesma epístola, está condenando nos judeus é a sua jactância da lei moral. Romanos 2.22-23, “Dizes que não se deve cometer adultério e o cometes? Abominas os ídolos e lhes roubas os templos? Tu, que te glorias na lei, desonras a Deus pela transgressão da lei?” A lei aqui mencionada, da qual eles se orgulhavam, era aquela da qual o adultério, a idolatria e o sacrilégio eram violações, que é a lei moral. De modo que esta é a jactância pela qual o apóstolo os condena; e, por esta razão, se eles fossem justificados pelas obras desta lei, então como é que o apóstolo diz que sua jactância é excluída? E, além disso, quando eles se orgulhavam dos ritos da lei cerimonial era sob a noção de ser parte de sua própria bondade ou excelência, ou o que os tornava mais santos e mais amáveis aos olhos de Deus do que outros povos. E se eles não foram justificados por esta parte de sua suposta bondade ou santidade próprias, mas se foram por alguma outra, como isso excluiu a jactância? Como sua jactância é excluída, a menos que toda bondade ou excelência próprias seja excluída?

7. A razão do por que podemos ser justificados somente pela fé e não pelas obras da lei é dada pelo apóstolo em Gálatas 3, a saber, que aqueles que estão sob a lei estão sob a maldição, torna evidente que ele não se refere apenas à lei cerimonial. Neste capítulo, de modo particular, o apóstolo insiste que Abraão foi justificado pela fé, e que é apenas pela fé, não pelas obras da lei, que podemos ser justificados, nos tornar filhos de Abraão e sermos participantes da bênção de Abraão. E ele apresenta a razão para isso em Gálatas 3.10, “Todos quantos, pois, são das obras da lei estão debaixo de maldição; porque está escrito: Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no Livro da Lei, para cumpri-las.” É evidente que essas palavras, citadas de Deuteronômio 27.26, são ditas não apenas com relação a lei cerimonial, mas a toda a lei de Deus para a humanidade, e principalmente a lei moral; e que toda a humanidade está, portanto, como está em si mesma sob essa maldição, não apenas enquanto a lei cerimonial durou, mas agora que ela cessou. E, portanto, todos os que são justificados são redimidos dessa maldição, por Cristo tê-la carregado por eles; como lá em Gálatas 3.13, “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar (porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado em madeiro).” Assim, portanto, ou é dito assim, que amaldiçoado é “aquele que não permanece em todas as coisas escritas no livro da lei, para cumpri-las”, é uma boa razão pela qual não podemos ser justificados pelas obras dessa lei, da qual é isto dito, ou não é. Se for, então é uma boa razão pela qual não podemos ser justificados pelas obras da lei moral e por toda regra de comportamento que Deus deu à humanidade; pois as palavras são ditas tanto acerca da lei moral quanto da cerimonial, e se estendem a todos os mandamentos ou preceitos que Deus deu à humanidade, e principalmente os preceitos morais, que estão mais estritamente unidos, e cujas violações, tanto no Novo Testamento quanto no Antigo e nos livros de Moisés são ameaçadas com a maldição mais terrível.[13]

8. O apóstolo argumenta de forma semelhante contra o sermos justificados por nossa justiça própria, como faz contra o sermos justificado pelas obras da lei; e evidentemente usa as expressões “justiça própria” e “obras da lei” indiscriminadamente e como significando a mesma coisa. Isto é particularmente evidente em Romanos 10.3, “Porquanto, desconhecendo a justiça de Deus e procurando estabelecer a sua própria, não se sujeitaram à que vem de Deus.” Aqui é claro que a mesma coisa é afirmada, como nos dois penúltimos versículos do capítulo anterior, “e Israel, que buscava a lei de justiça, não chegou a atingir essa lei. Por que? Porque não decorreu da fé, e sim como que das obras da lei.” E é muito irracional, por várias razões, supor que o apóstolo tenha em mente por “justiça própria” apenas sua justiça cerimonial. Pois, quando o apóstolo nos adverte contra o confiar em nossa justiça própria para a justificação, sem dúvida é legítimo interpretar a expressão de acordo com outras Escrituras, onde somos advertidos a não pensar que é por causa de nossa justiça própria que obtemos o favor e a bênção de Deus; como por exemplo particularmente em Deuteronômio 9.4-6, “Quando, pois, o Senhor, teu Deus, os tiver lançado de diante de ti, não digas no teu coração: Por causa da minha justiça é que o Senhor me trouxe a esta terra para a possuir, porque, pela maldade destas gerações é que o Senhor as lança de diante de ti. Não é por causa da tua justiça, nem pela retitude do teu coração que entras a possuir a sua terra, mas pela maldade destas nações o Senhor, teu Deus, as laça de diante de ti; e para confirmar a palavra que o Senhor, teu Deus, jurou a teus pais, Abraão, Isaque e Jacó. Sabe, pois, que não é por causa da tua justiça que o Senhor, teu Deus, te dá esta boa terra para possuí-la, pois tu és povo de dura cerviz.”

Ninguém pretenderá que a expressão “tua justiça” aqui significa apenas uma justiça cerimonial, mas toda virtude ou bondade própria. Sim e a bondade interior do coração, bem como a bondade exterior da vida; a qual aparece no início de Deuteronômio 9.5, “Não por causa da tua justiça, nem pela retitude do coração,...”; e também pela antítese em Deuteronômio 9.6, “Não por causa da tua justiça,... pois tu és povo de dura cerviz.” Sua dura cerviz era sua maldade moral, obstinação e perversidade de coração; justiça, portanto, ao contrário, significa sua virtude moral, e retidão de coração e de vida. Isto é o que eu diria a partir daqui, que a expressão “nossa justiça própria”, quando usada nas Escrituras em relação ao favor de Deus, e quando somos advertidos contra considerá-la como aquilo pelo que esse favor ou seus frutos são obtidos, não significa apenas uma justiça cerimonial, mas todo tipo de bondade de nossa parte.

Os judeus também são condenados no Novo Testamento por confiarem em sua justiça própria nesse sentido; Lucas 18.9, etc., “Propôs também esta parábola a alguns que confiavam em si mesmos, por se considerarem justos.” Isso significa principalmente uma justiça moral, como torna-se evidente pela própria parábola, na qual temos um relato da oração do fariseu, nas coisas que ele menciona, quanto ao em que ele confia, são principalmente qualificações e realizações morais, a saber, que ele não era um roubador, um injusto, nem um adúltero etc.

Porém não precisamos ir aos escritos de outros escritores da Escritura, mas se permitirmos que o apóstolo Paulo seja seu próprio intérprete quando ele fala de nossa justiça própria como aquilo pelo que não somos justificados ou salvos, não se refere apenas a uma justiça cerimonial, nem pretende apenas um modo de religião e de servir a Deus, de nossa própria preferência e escolha sem autorização ou prescrição divinas, mas por nossa justiça própria ele quer dizer o mesmo que uma justiça praticada por nós, seja um serviço ou justiça prescritos por Deus, ou nossa própria realização injustificada (Não autorizada). Seja uma obediência à lei cerimonial, ou uma obediência evangélica, ou o que for, se for uma justiça praticada por nós é excluída pelo apóstolo neste caso, como é evidente por Tito 3.5, “Não por obras de justiça praticadas por nós.”[14] Porém eu insistiria mais particularmente neste texto e, por isso, este pode ser o

9. [Nono] argumento, de que o apóstolo, quando rejeita a justificação pelas obras, por obras da lei e por nossa justiça própria, não se refere apenas às obras da lei cerimonial, a saber, o que é dito pelo apóstolo em Tito 3.3-7, “Pois nós também, outrora, éramos néscios, desobedientes, desgarrados, escravos de toda sorte de paixões e prazeres, vivendo em malícia e inveja, odiosos e odiando-nos uns aos outros. Quando, porém, se manifestou a benignidade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor para com todos, não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo a sua misericórdia, ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo, que ele derramou sobre nós ricamente, por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador, a fim de que, justificados por sua graça, nos tornemos seus herdeiros, segundo a esperança da vida eterna.” São aqui excluídas as obras de justiça praticadas, como aquilo pelo que não somos salvos nem justificados. O apóstolo diz expressamente, não somos salvos por elas; e é evidente que, quando ele diz isso, ele se refere à questão da justificação, e que ele quer dizer, não somos salvos por elas nem somos justificados por elas, como o penúltimo versículo, que faz parte da mesma frase, “justificados por sua graça, nos tornamos seus herdeiros, segundo a esperança da vida eterna.”

São várias as maneiras que manifestam que, neste texto, pela expressão “obras de justiça praticadas por nós”, o apóstolo não se refere apenas às obras da lei cerimonial. Isto torna-se óbvio por Tito 3.3, “Pois nós também, outrora, éramos néscios, desobedientes, desgarrados, escravo de toda sorte de paixões e prazeres, vivendo em malícia e inveja, odiosos e odiando-nos uns aos outros.” O apóstolo observa que eles viviam nessas violações da lei moral antes de serem justificados; e é muito claro que é isso que proporciona ao apóstolo a ocasião para fazer o comentário que faz em Tito 3.5, de que não foi pelas obras de justiça que tinham feito que eles foram salvos ou justificados.

Porém não precisamos ir ao contexto, é muitíssimo evidente, a partir das próprias palavras, que o apóstolo não se refere apenas às obras da lei cerimonial. Se ele tivesse dito apenas que não é por nossas próprias obras de justiça, o que poderíamos entender por “obras de justiça” se não apenas “obras justas” ou, o que é a mesma coisa, “boas obras”? E dizer que é por nossas próprias obras justas que somos justificados, embora não por um tipo particular de obras justas, certamente seria uma contradição a essa afirmação. Porém as palavras são expressas de modo ainda mais forte, claro e determinado em seu sentido mediante essas palavras adicionais, “praticadas por nós”; o que mostra que o apóstolo pretende excluir todas as nossas próprias obras justas ou virtuosas universalmente. Se isso deve ser afirmado em relação a qualquer mercadoria, tesouro ou joia preciosa que não podem ser adquiridos por dinheiro, e não somente isso, mas para tornar a afirmação mais forte, deve ser afirmado com palavras adicionais que não pode ser adquirida pelo dinheiro que os homens possuem; quão irracional seria, afinal, dizer que tudo a que se refere era que não podia ser adquirido com dinheiro de metal?

E o que torna a interpretação deste texto como se referindo as obras da lei cerimonial ainda mais irracional é que essas obras não eram de fato obras de justiça, mas eram apenas falsamente assim pressupostas pelos judeus; e que nossos oponentes nesta doutrina pressupõem ser a própria razão pela qual não somos justificados por elas, porque não são obras de justiça, ou porque (a lei cerimonial sendo agora revogada) não há obediência nelas. Mas quão absurdo é dizer que o apóstolo, quando diz que não somos justificados por obras de justiça praticadas por nós, se refere apenas às obras da lei cerimonial, e que por essa mesma razão não são obras de justiça. Para ilustrar isso mediante a comparação mencionada. Se fosse afirmado que tal coisa não pode ser obtida mediante o dinheiro que os homens possuem, como seria ridículo dizer que o significado é somente que não pode ser adquirida por dinheiro falso; e isto por esta razão, porque não era dinheiro. O que permanecerá das Escrituras se tomarem a liberdade de manejar as Escrituras assim? Ou que texto há na Bíblia que não possa, neste caso, ser totalmente explicado e deturpado para algum sentido que os homens desejem.

Porém, além disso, se permitirmos que o apóstolo pretenda apenas se opor à justificação pelas obras da lei cerimonial neste texto, ainda é evidente, pela expressão que ele usa, que ele pretende se opor à justificação sob essa noção, ou nessa qualidade, da existência de obras de justiça praticadas por nós. Porém se o apóstolo argumenta contra a nossa justificação pelas obras da lei cerimonial sob a noção da existência dessa natureza e tipo, a saber, obras de nossa própria autoria, então seguirá que o argumento do apóstolo é forte não apenas contra aquelas, mas contra todas dessa natureza e tipo, igualmente todas que são de nossa autoria.

Se não houvesse outro texto na Bíblia acerca da justificação a não ser este, este provaria clara e invencivelmente que não somos justificados mediante alguma bondade, virtude ou justiça de nossa parte, ou pela excelência ou justiça de qualquer coisa que fizermos na religião, por causa do que é tão plena e fortemente afirmado aqui. Porém este texto confirma abundantemente outros textos do apóstolo, onde ele nega a justificação pelas obras da lei. Não há dúvida de que pode ser feito racionalmente apenas isto, quando o apóstolo mostra aqui que Deus nos salva de acordo com sua misericórdia, em que ele não nos salva por “obras de justiça praticadas por nós (Tito 3.5), e que, deste modo, somos “justificados por graça” (Tito 3.7), aqui opondo salvação pelas obras e salvação pela graça, ele se refere às mesmas obras como faz em outros lugares, onde ele, da mesma forma, opõe as obras e a graça; as mesmas obras de Romanos 11.6, “E, se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça, mas se for pelas obras, então não é mais graça; caso contrário, obra não é mais obra.” E as mesmas obras como em Romanos 4.4, “Ora, ao que trabalha, o salário não é considerado como favor, e sim como dívida.” E as mesmas obras que são expressas no contexto de Romanos 3.24, o capítulo anterior, as quais o apóstolo chama ali de obras da lei, “sendo justificados gratuitamente, por sua graça...”. E em Romanos 4.16, “Essa é a razão por que provém da fé, para que seja segundo a graça.” Onde, no contexto, a justiça da fé é oposta à justiça da lei. Pois aqui Deus estar nos salvando de acordo com sua misericórdia e nos justificando pela graça é oposto a nos salvar por obras de justiça que fazemos, da mesma forma que naqueles lugares que justificar-nos por sua graça é oposto a justificar-nos mediante as obras da lei.

10. O apóstolo não poderia se referir apenas às obras da lei cerimonial quando diz que não somos justificados pelas obras da lei, por causa do que é declarado acerca dos santos sob o Antigo Testamento, bem como sob o Novo. Se os homens são justificados por sua obediência sincera, seguirá então que, anteriormente, antes da lei cerimonial ser revogada, os homens eram justificados pelas obras da lei cerimonial, bem como pela moral. Pois se somos justificados por nossa obediência sincera, então não altera o caso se os mandamentos são morais, ou positivos, desde que sejam mandamentos de Deus, e nossa obediência seja obediência a Deus. E, assim, o caso deve ser o mesmo sob o Antigo Testamento, com as obras da lei moral e cerimonial, de acordo com a medida da virtude da obediência existente em uma ou outra. É verdade que sua obediência à lei cerimonial nada tinha a ver com a questão da justificação, a menos que fosse sincera; e assim tampouco as obras da lei moral. A obediência à lei moral teria a ver com a questão, se sincera; e assim seria a obediência à cerimonial. Se a obediência era o assunto, então a obediência à lei cerimonial enquanto esta estava em vigor, e a obediência à lei moral tinham o mesmo tipo de relação, de acordo com a proporção de obediência em que consiste cada uma. Como agora, sob o Novo Testamento, se a obediência é aquilo pelo que somos justificados, essa obediência deve, sem dúvida, compreender a obediência a todos os mandamentos de Deus agora em vigor, aos preceitos positivos de comparecimento ao batismo e a Ceia do Senhor, bem como aos preceitos morais. Se a obediência é o assunto, não é porque seja obediência a tal tipo de mandamentos, mas porque é obediência. De modo que, mediante essa suposição, os santos sob o Antigo Testamento foram justificados, pelo menos em parte, por sua obediência à lei cerimonial.

Todavia, é evidente que os santos sob o Antigo Testamento não foram justificados, em nenhuma medida, pelas obras da lei cerimonial. Isso pode ser provado seguindo os passos da própria interpretação de nossos adversários da frase do apóstolo “as obras da lei”; e supondo que por essa frase ele se refere apenas às obras da lei cerimonial. Para o caso de Davi, é evidente que ele não foi justificado de maneira alguma pelas obras da lei cerimonial por Romanos 4.6-8, “E é assim também que Davi declarou ser bem-aventurado o homem a quem Deus atribui justiça, independentemente de obras: Bem-aventurados aqueles cujas iniquidades são perdoadas, e cujos pecados são cobertos; bem-aventurado o homem a quem o Senhor jamais imputará pecado.” É claro que o apóstolo está falando de justificação aqui pelo versículo anterior e por todo o contexto; e o assunto expresso, a saber, perdão de iniquidades e cobertura de pecados, é o que nossos próprios adversários supõem ser justificação, e até mesmo toda a justificação. Este Davi, falando de si mesmo, diz (pela interpretação do apóstolo) que ele não tinha obras. Pois é evidente que Davi, nas palavras aqui citadas, do início do Salmo 32, diz respeito especialmente a si mesmo. Ele fala de seus próprios pecados sendo perdoados e não imputados a ele. Como torna-se óbvio pelas palavras que vêm em seguida: “Enquanto calei os meus pecados, envelheceram os meus ossos pelos meus constantes gemidos todo o dia. Porque a tua mão pesava dia e noite sobre mim, e o meu vigor se tornou em sequidão de estio. Confessei-te o meu pecado e a minha iniquidade não mais ocultei. Disse: confessarei ao Senhor as minhas transgressões; e tu perdoaste a iniquidade do meu pecado.” Compreendamos, portanto, o apóstolo da forma que quisermos quando ele diz “por obras”, “Davi descreve a bem-aventurança do homem a quem o Senhor imputa justiça sem obras”, seja de todos os tipos de obras, ou apenas as obras da lei cerimonial, contudo é evidente, pelo menos, que Davi não foi justificado pelas obras da lei cerimonial. Portanto, aqui está o argumento: se nossa própria obediência for aquilo pelo que os homens são justificados, então, sob o Antigo Testamento, os homens foram justificados em parte pela obediência à lei cerimonial (como foi provado), mas os santos sob o Antigo Testamento não foram justificados em parte pelas obras da lei cerimonial; portanto, a obediência dos homens não é aquilo pelo que eles são justificados.

11. Outro argumento, de que o apóstolo quando fala das duas formas opostas de justificação, uma pelas obras da lei e outra pela fé, não se refere apenas às obras da lei cerimonial pode ser extraído deste lugar, Romanos 10.5-6, “Ora, Moisés escreveu que o homem que praticar a justiça decorrente da lei viverá por ela. Mas a justiça decorrente da fé assim diz” etc. Duas coisas são evidentes aqui:

(1) Que o apóstolo fala aqui das mesmas duas formas opostas de justificação, uma pela justiça que é da lei, a outra da pela fé, do que ele tratou na parte anterior da epístola, e, portanto, deve ser a mesma lei que é expressa aqui. A mesma lei é pretendida aqui como nos últimos versículos do capítulo anterior, onde ele diz que os judeus “que buscava a lei de justiça, não chegou a atingir essa lei. Por que? Porque não decorreu da fé, e sim como que das obras.” Como é claro, porque o apóstolo ainda está falando da mesma coisa, as palavras são uma continuação do mesmo discurso, como pode ser visto à primeira vista por qualquer um que olhe para o contexto.

(2) É evidente que Moisés, quando descreve a justiça decorrente da lei, ou a forma de justificação pela lei, nas palavras aqui citadas: “o homem que praticar a justiça decorrente da lei viverá por ela”, não fala apenas, nem principalmente, das obras da lei cerimonial, pois ninguém pretenderá que Deus tenha feito tal aliança com o homem, que aquele que guardar a lei cerimonial deveria viver por ela, ou que nunca houve um período em que foi principalmente pelas obras da lei cerimonial que os homens viveram e foram justificados. Sim, é evidente, pelo referido exemplo de Davi, mencionado em Romanos 4 que nunca houve um tempo em que os homens foram justificados em qualquer medida pelas obras da lei cerimonial, como foi mostrado há pouco. Moisés, portanto, nessas palavras que o apóstolo diz que são uma descrição da justiça que é da lei, não pode se referir apenas à lei cerimonial. E, portanto, segue-se que, quando o apóstolo fala de justificação pelas obras da lei como oposta à justificação pela fé, ele não se refere apenas à lei cerimonial, mas também às obras da lei moral; que são as coisas expressas por Moisés quando ele diz: “o homem que praticar a justiça decorrente da lei viverá por ela”, e que são as coisas que o apóstolo, neste mesmo lugar, está argumentando, que não podemos ser justificados por elas. Como é evidente pelo contexto, os últimos versículos do capítulo anterior, “Israel, que buscava a lei de justiça, não chegou a atingir essa lei. Por que? Porque não decorreu da fé, e sim como que das obras” etc. E em Romanos 10.3 deste capítulo, “Porquanto, desconhecendo a justiça de Deus e procurando estabelecer sua própria, não se sujeitaram à que vem de Deus.”

E, além disso, como pode a descrição que o apóstolo dá aqui de Moisés, dessa forma reprovada de justificação pelas obras da lei, concordar com o esquema arminiano de uma forma de justificação em virtude de uma obediência sincera, que ainda permanece como a verdadeira e única forma de justificação sob o evangelho? É muito evidente que o propósito do apóstolo é dar uma descrição das formas de justificação, tanto da legal rejeitada quanto da evangélica válida, em que elas diferem ou são distintas uma da outra. Porém como é que, “o homem que praticar a justiça da lei viverá por ela”, em que a forma de justificação pelas obras da lei difere ou é distinta daquela no qual os cristãos, sob o evangelho, são justificados concorda com seu esquema; pois ainda, segundo eles, pode ser dito, da mesma forma, dos preceitos do evangelho, aquele que faz essas coisas viverá por elas. A diferença está apenas nas coisas a serem feitas, mas não nisso, que a ação deles não é a condição de vida neles, exatamente em um caso como no outro. As palavras, “o homem que praticar a justiça da lei viverá por ela”, servirão tão bem para uma descrição deste último como do primeiro. Pela declaração do apóstolo, a justiça da lei é descrita assim, aquele que faz essas coisas viverá por elas, mas a justiça da fé diz assim, claramente notifica que a justiça da fé diz o contrário e de forma oposta. Porém, além disso, se essas palavras citadas de Moisés são realmente ditas por ele sobre a lei moral bem como a cerimonial, como é mais evidente que são, torna-se ainda mais absurdo supor que elas são mencionadas pelo apóstolo como a própria nota de distinção entre a justificação mediante uma obediência cerimonial e uma obediência moral sincera, como os arminianos devem supor.

Assim, declarei um segundo argumento para provar que não somos justificados por qualquer forma de virtude ou bondade nossa, a saber, que supor de maneira diferente é contrário à doutrina claramente frisada e abundantemente sustentada pelo apóstolo Paulo em suas epístolas. Eu prossigo agora para um

Terceiro argumento, a saber, que supor que somos justificados por nossa própria obediência sincera, ou por qualquer virtude ou bondade própria, deprecia a graça evangélica.

Esse esquema de justificação, que claramente tira ou diminui a graça de Deus, deve ser, sem dúvida, rejeitado, pois o propósito declarado de Deus no evangelho é exaltar a liberdade e as riquezas de sua graça, nesse método de justificação dos pecadores, no modo de admiti-los ao seu favor e nos frutos abençoados dele que o evangelho declara. A Escritura ensina que o modo da justificação, que é estabelecido na aliança evangélica, é estabelecido como está para esse fim, que a livre graça possa ser expressa e glorificada; Romanos 4.16: “Esta é a razão por que provém da fé, para que seja segundo a graça.” O exercício e a exaltação da livre graça de Deus no plano do evangelho para a justificação e salvação dos pecadores evidentemente são o seu propósito principal; e essa liberdade e riquezas da graça do evangelho são expressos em todos os lugares nas Escrituras como sua principal glória. Portanto, essa doutrina que deprecia a livre graça de Deus em justificar os pecadores, visto que está mais oposta ao propósito de Deus, por esta razão deve ser excessivamente ofensiva a ele.

Aqueles que sustentam que somos justificados por nossa própria obediência sincera, julgam que seu esquema não diminui a graça do evangelho, pois dizem que a graça de Deus é maravilhosamente manifestada em estabelecer essa forma e método de salvação mediante a obediência sincera, em nos ajudar a efetuar essa obediência e em aceitar nossa obediência imperfeita no lugar da perfeita.

Examinemos, portanto, essa questão, se seu esquema de um homem ser justificado por sua virtude própria e obediência sincera deprecia a graça de Deus ou não, ou se a livre graça não é mais exaltada ao supor, como fazemos, que somos justificados sem qualquer tipo de bondade de nossa parte. Para isso, formularei essa auto evidente

Proposição, seja qual for o meio pela qual a abundante benevolência do doador é expressa, e a gratidão no receptor é obrigada, este meio exalta a livre graça. Isto, suponho, ninguém jamais contestará ou disputará.

E não é muito menos evidente que ambos os meios mostram uma benevolência mais abundante no doador quando ele mostra bondade sem bondade ou excelência no objeto para movê-lo em direção a ele; e que aumenta a obrigação de gratidão no receptor.

1. O meio mostra uma bondade mais abundante no doador, quando ele mostra bondade sem qualquer excelência em nossa pessoa ou ações que devem mover o doador ao amor e à beneficência. Pois ele certamente mostra a bondade mais abundante e transbordante, ou disposição, para comunicar o bem por quanto menos amabilidade ou excelência há para atrair a beneficência. Quanto menos há no receptor para atrair boa vontade e bondade tanto maior quantidade há do princípio da boa vontade e da bondade no doador; pois alguém que tem apenas um pouco de um princípio de amor e de benevolência pode ser atraído para fazer o bem e mostrar bondade quando há muito para atraí-lo, ou quando há muita excelência e amabilidade no objeto para incitar a boa vontade. Quando aquele cuja bondade e benevolência é mais abundante mostra bondade onde há menos para suscitá-la, pois ele não precisa de algo externo para suscitá-la, ele tem o suficiente do princípio dentro de si mesmo para movê-lo. Onde há mais do princípio, ali ele é muitíssimo suficiente por si mesmo e está em menor necessidade de algo de fora excitá-lo. Pois certamente uma bondade mais abundante flui mais facilmente com menos para impeli-la ou para atraí-la do que onde há menos; ou, o que é a mesma coisa, quanto mais alguém se dispõe a si mesmo menos ele precisa de algo externo a si mesmo para incitá-lo, ou encorajá-lo a isto. E, portanto, sua bondade e benevolência parecem ser maiores quando são concedidas sem qualquer excelência ou amabilidade no receptor, ou quando o receptor é considerado na dádiva como totalmente sem excelência. E muito mais ainda quando a benevolência do doador não apenas nada encontra no receptor para atrai-lo, exceto uma grande quantidade de ódio para repeli-lo; então a abundância da bondade é manifesta não apenas em fluir sem nada extrínseco para promovê-lo, exceto em superar grande repulsa no objeto. E então a bondade e o amor mostram-se mais triunfantes e maravilhosamente grandes quando o receptor é considerado na dádiva não só como totalmente sem excelência ou amabilidade para atraí-lo, mas como totalmente, sim, infinitamente vil e odioso.

2. É evidente também que isto aumenta a obrigação de gratidão no receptor. Isso está de acordo com o senso comum da humanidade, que quanto menos digno ou excelente o objeto da benevolência ou o receptor da bondade for, mais ele é obrigado e maior a gratidão é devida. Portanto, aquele que recebe bondade sem qualquer bondade ou excelência em si mesmo, exceto um ódio total e universal está mais obrigado. E assim como está de acordo com o senso comum da humanidade, assim está de acordo com a Palavra de Deus. Quão frequentemente, nas Escrituras, Deus insiste neste argumento com os homens, para incitá-los a amá-lo e a reconhecer sua bondade? Quanto ele insiste nisso como uma obrigação de gratidão daqueles que são tão depravados e indignos, e não merecedores.

Portanto, certamente segue que essa doutrina que ensina que Deus, quando justifica um homem e lhe mostra essa grande bondade, visto que lhe dá direito à vida eterna, não o faz por qualquer obediência, ou qualquer tipo de bondade do homem, mas essa justificação considera o homem como ímpio e totalmente sem qualquer tipo de virtude, beleza ou excelência. Eu digo, esta doutrina certamente exalta mais a livre graça de Deus na justificação e a obrigação do homem de gratidão para com ele por tal favor, do que a doutrina contrária, a saber, que Deus ao mostrar essa bondade ao homem o considera como sinceramente obediente e virtuoso, e como tendo algo nele que é verdadeiramente excelente, amável e aceitável ao olhos de Deus, e que essa bondade ou excelência do homem é a condição fundamental da concessão dessa bondade ao homem, ou da sua distinção dos outros por meio desse benefício. Mas eu me apresso a um

Quarto argumento, para a verdade da doutrina, que supor que um homem é justificado por sua própria virtude ou obediência deprecia a honra do Mediador, e atribui à virtude do homem aquilo que pertence apenas à justiça de Cristo. Esta suposição coloca o homem no lugar de Cristo, e faz dele seu próprio salvador em um aspecto no qual somente Cristo é seu Salvador. E assim é uma doutrina contrária à natureza e ao propósito do evangelho, que é humilhar ao homem e atribuir toda a glória de nossa salvação a Cristo, o Redentor. Esta suposição é inconsistente com a doutrina da imputação da justiça de Cristo, que é uma doutrina evangélica.

Devo explicar aqui, primeiro, o que queremos dizer por imputação da justiça de Cristo; segundo, provar a coisa pretendida por ser ela verdadeira; e, terceiro, mostrar que esta doutrina é totalmente inconsistente com a doutrina de sermos justificados por nossa própria virtude ou obediência sincera.

1. Devo explicar o que queremos dizer por imputação da justiça de Cristo. Às vezes, a expressão é tomada por nossos teólogos em um sentido mais amplo para a imputação de tudo o que Cristo fez e sofreu para nossa redenção, pela qual somos livres da culpa e declarados justos aos olhos de Deus; e, deste modo, a imputação implica tanto na satisfação quanto na obediência de Cristo. Mas aqui eu a emprego em um sentido mais restrito para a imputação dessa justiça ou da bondade moral, que consiste na obediência de Cristo. E essa justiça ser imputada a nós não significa nada além disso, que essa justiça de Cristo é aceita a nosso favor e admitida no lugar daquela justiça inerente perfeita que deveria estar em nós. A obediência perfeita de Cristo deverá ser colocada na nossa conta, de modo que teremos o seu benefício como se a tivéssemos realizado nós mesmos. E assim supomos que o direito à vida eterna nos é dado como a recompensa desta justiça. A Escritura usa a palavra imputar/atribuir nesse sentido, a saber, para computar algo pertencente a uma pessoa na conta de outra pessoa. Como por exemplo em Filemom, Filemom 18, “E, se algum dano te fez ou se te deve alguma coisa, lança tudo em minha conta.” No original está tou¤to e©moi£ e©llo¢ga, impute isso a mim. É uma palavra da mesma raiz que a traduzida como atribuir/imputarRomanos 4.6, “o homem a quem Deus atribui justiça, independentemente de obras.” E é a mesma palavra usada em Romanos 5.13, que é traduzida como levado em conta/imputado, “mas o pecado não é levado em conta quando não há lei.”

Os opositores desta doutrina supõem que há um absurdo nela. Dizem que supor que Deus imputa a obediência de Cristo a nós é supor que Deus é enganado, e pensa que realizamos essa obediência que Cristo realizou. Mas por que essa justiça não pode ser colocada em nossa conta e ser aceita a nosso favor sem tal absurdidade? Por que há mais absurdidade nisso do que na transferência mercantil de dívida ou crédito da conta de um homem para outro, quando um homem paga um valor no lugar de outro, de modo que será aceito como se o outro tivesse pago? Por que há mais absurdidade em supor que a obediência de Cristo é imputada a nós do que que sua satisfação é imputada? Se Cristo sofreu a punição da lei por nós e em nosso lugar, então se concluirá que seu sofrer esta punição é imputado a nós, isto é, que é aceito a nosso favor e em nosso lugar, e é computado em nossa conta como se a tivéssemos sofrido. Porém, por que sua obediência à lei de Deus não pode ser racionalmente colocada na nossa conta do mesmo modo como o seu sofrer a punição da lei? Por que um valor que leva à dívida não pode ser racionalmente transferido da conta de uma pessoa para outra do mesmo modo como um valor para pagar uma dívida? Tendo assim explicado o que queremos dizer por imputação da justiça de Cristo, eu prossigo,

2. Para provar que a justiça de Cristo é imputada dessa maneira.

(1) Há a real necessidade de Cristo obedecer a lei em nosso lugar, a fim de ser recompensado por seu sofrer a punição da lei em nosso lugar para escaparmos da punição; e pela mesma razão pela qual um como o outro devem ser aceitos em nossa conta, há a mesma necessidade de um como do outro. Para que a lei de Deus seja satisfeita, uma era tão necessária para satisfazer a lei como a outra. Isto é certo, que essa foi a razão pela qual era necessário que Cristo sofresse a punição em nosso lugar, precisamente para que a lei fosse satisfeita; pois a Escritura ensina isto claramente. Isso é dado como a razão pela qual Cristo foi feito maldição por nós, que a lei nos ameaçou de maldição (Gálatas 3.10, 3.13). Porém a mesma lei que estabelece a maldição de Deus como a consequência de não permanecer em todas as coisas escritas na lei para praticá-las (Gálatas 3.10), tem estabelecido o fazer essas coisas como um precedente da vida nelas (como Gálatas 3.12, o versículo seguinte): há tanta conexão estabelecida em um caso como no outro. Há, portanto, exatamente a mesma necessidade de a lei da obediência perfeita ser cumprida, a fim de obtermos a recompensa, como há de a morte ser sofrida, a fim de escaparmos da punição, ou da mesma necessidade da lei da perfeita obediência preceder a vida, como há de a desobediência ser sucedida pela morte. A lei é, sem dúvida, uma regra estabelecida tanto em um caso como no outro.

Cristo, mediante o sofrer a punição, e ao fazer assim a expiação por nós, apenas remove a culpa de nossos pecados e nos coloca no mesmo estado que Adão tinha no primeiro momento de sua criação. E não é mais adequado que obtenhamos a vida eterna apenas por causa disso, do que que Adão teria a recompensa da vida eterna, ou um estado de felicidade confirmado e inalterável no primeiro momento de sua existência, sem qualquer obediência. Adão não devia ter a recompensa apenas por causa de sua inocência, mas se assim for, ele a teria estabelecido sobre si imediatamente, assim que foi criado, pois então ele era tão inocente quanto poderia ser. Mas ele devia ter a recompensa por causa da sua atuação em obediência, não meramente por causa de seu não ter feito o mal, mas por causa do seu fazer o bem.

Assim, pela mesma razão, não temos a vida eterna apenas por estarmos isentos de culpa (como Adão estava inicialmente), o que temos mediante a expiação de Cristo, mas por causa da atividade de Cristo em obediência e fazendo o bem. Cristo é o nosso segundo cabeça (representante) federal. Ele é chamado de segundo Adão (1 Coríntios 15.22) porque ele realizou por nós o dever que o primeiro Adão deveria ter realizado. Quando Cristo se comprometeu em ficar em nosso lugar, ele foi considerado e tratado como se fosse culpado com a nossa culpa e, mediante sua satisfação ou suportar a punição ele o fez como libertando-se dessa culpa. Mas por meio disso, o segundo Adão apenas levou-se ao estado em que o primeiro Adão estava no primeiro momento de sua existência, a saber, um estado de mera liberdade da culpa; e, por isso estava de fato livre de qualquer obrigação de sofrer punição. Porém, isso sendo suposto, era necessário algo mais, até mesmo uma obediência positiva, a fim de obter, como nosso segundo Adão, a recompensa da vida eterna.

Deus considerou apropriado colocar o homem primeiro em um estado de teste e não dar-lhe o direito à vida eterna assim que o fez, porque era sua vontade que o homem desse primeiro honra à sua autoridade submetendo-se plenamente a ela, na vontade e na ação, e obedecesse perfeitamente a sua lei. Deus insistiu que sua santa majestade e lei deveriam ter seu devido reconhecimento e honra da parte do homem, tal como se tornou a relação que o homem tinha com aquele Ser que o criou, antes que concedesse a recompensa da felicidade confirmada e eterna sobre ele; e, portanto, Deus lhe deu uma lei quando o criou, para que o homem tivesse a oportunidade, ao dar a devida honra à sua autoridade obedecendo-a, de obter essa felicidade. Cristo tornou-se, portanto, considerando que ao assumir o homem para si mesmo ele obteve o direito a esta felicidade eterna a favor do homem, após este ter infringido a lei, de modo que o próprio Cristo deveria se tornar sujeito à autoridade de Deus e estar na forma de um servo, para que pudesse prestar essa honra à autoridade de Deus em favor do homem mediante sua obediência ao que Deus inicialmente exigiu do homem como condição de ele ter direito a essa recompensa. Cristo veio ao mundo para esse fim, tornar a honra a autoridade e a lei de Deus consistente com a salvação e a vida eterna de pecadores; ele veio para salvá-los e também, além disso, declarar e reivindicar a honra do Legislador e da sua santa lei. Agora, se o pecador, depois de seu pecado ser satisfeito, tivesse a vida eterna concedida a ele sem justiça ativa, a honra de sua lei não seria suficientemente vindicada. Supondo que isso fosse possível, que o próprio pecador pudesse pagar a dívida e depois estar no mesmo estado em que esteve antes de sua provação, quer dizer, negativamente justo ou meramente sem culpa; se agora ele finalmente deve ter a vida eterna concedida a ele sem satisfazer essa condição de obediência, então Deus desistiria de sua lei e daria a recompensa prometida, e sua lei nunca teria respeito e honra mostrados a ela pelo caminho da obediência. Porém agora Cristo, ao submeter-se à lei e obedecendo-a, prestou grande honra à lei e à autoridade do Deus que a deu. Que uma pessoa tão gloriosa se tornasse sujeita à lei e a cumprisse fez muito mais para honrá-la do que se o mero homem a tivesse obedecido. Foi uma coisa infinitamente honrosa para Deus que uma pessoa de infinita dignidade não tivesse vergonha de chamá-lo de seu Deus, e adorá-lo e obedecê-lo como tal. Isso fez mais para a honra de Deus do que se qualquer mera criatura, de qualquer possível grau de excelência e dignidade, o tivesse feito.

É absolutamente necessário que, a fim de um pecador ser justificado, a justiça de algum outro deva ser colocada em sua conta; pois é declarado que a pessoa justificada é considerada como ímpia (em si mesma), mas Deus não quer nem pode justificar uma pessoa sem uma justiça; pois a justificação é claramente um termo forense, tal como a palavra é usada nas Escrituras, e o assunto um assunto judicial ou o ato de um juiz. De modo que, se uma pessoa deve ser justificada sem uma justiça, o julgamento não seria de acordo com a verdade. A decisão de justificação será uma decisão falsa a menos que haja uma justiça realizada que seja considerada pelo juiz devidamente como sua. Dizer que Deus não justifica o pecador sem sinceridade, apesar de uma obediência imperfeita, não ajuda o caso, pois uma justiça imperfeita diante de um juiz não é justiça. Aceitar algo que está aquém da regra em vez de outra coisa que satisfaça à regra não é ato judicial ou ato de um juiz, mas um puro ato de soberania. Uma justiça imperfeita não é justiça perante um juiz; pois “a justiça (como se observa) é um assunto relativo, e sempre tem relação com uma lei. A natureza formal da justiça, devidamente compreendida, reside em uma conformidade de ações com aquilo que é a regra e a medida delas.” Portanto, somente é justiça aos olhos de um juiz o que satisfaz a lei.[15] A lei é a regra do juiz. Se ele perdoa e encobre o que realmente é, e assim não promulga a decisão de acordo com o que as coisas são em si, ele não faz a parte de um juiz ou então julga falsamente. A própria noção de julgar é determinar o que é, e o que não é, no caso de alguém. O trabalho do juiz é duplo: é determinar primeiro o que é fato, e depois se o que é fato está de acordo com a regra ou de acordo com a lei. Se um juiz não tem nenhuma regra ou lei estabelecida de antemão, pela qual ele deve proceder no julgamento, ele não tem fundamento para continuar o julgamento, ele não tem oportunidade de ser juiz; nem é possível que ele deva fazer a parte de um juiz. Julgar sem uma lei ou regra pela qual julgar é impossível à própria noção de julgar, é impossível determinar se o objeto de julgamento está de acordo com a regra, e por isso Deus declarou que, quando ele agir como juiz, ele não justificará os ímpios e não poderá absolver o culpado; e, pela paridade da razão, não pode justificar sem justiça.

E sendo anulado o esquema da antiga e introduzida uma nova lei, não ajudará em nada nessa dificuldade; pois uma justiça imperfeita não pode satisfazer a lei de Deus sob a qual estamos, seja ela antiga ou nova; pois cada lei requer perfeita obediência a si mesma. Cada regra requer perfeita conformidade. É uma contradição supor o contrário, pois dizer que existe uma lei que não requer obediência perfeita a si, é dizer que há uma lei que não exige tudo o que ela exige. Essa lei que proíbe o pecado agora é certamente a lei sob a qual estamos agora (seja uma antiga, ou uma nova); ou então não é pecado. O que não é proibido e não é violação da lei não é pecado. Mas se agora somos proibidos de cometer pecado, então é mediante uma lei sob a qual estamos agora, pois certamente não estamos sob as proibições nem sob os mandamentos de uma lei sob a qual não estamos. Portanto, se todo o pecado é agora proibido, então estamos agora sob uma lei que exige obediência perfeita, e, por esta razão, nada pode ser aceito como justiça aos olhos de nosso Juiz exceto justiça perfeita. De modo que nosso Juiz não pode nos justificar a menos que ele veja uma justiça perfeita como pertencendo de alguma forma a nós, ou realizada por nós mesmos ou por outra pessoa, e justa e devidamente computada em nossa conta.

Deus, na sentença de justificação, declara um homem perfeitamente justo, ou então o homem precisaria de uma nova justificação depois de ser justificado. Seus pecados serem removidos mediante a expiação de Cristo não é suficiente para sua justificação; pois justificar um homem, como já foi mostrado, não é meramente declará-lo inocente ou sem culpa, mas encontrar-se justo no que diz respeito à regra sob a qual ele está, e idôneo para a vida, mas isso, de acordo com a regra estabelecida da natureza, da razão e do mandato divino, é uma justiça perfeita positiva.

Como há a mesma necessidade de que a obediência de Cristo deve ser colocada em nossa conta, como esta sua expiação deve, então há a mesma razão pela qual a justiça deve. Assim como, se Adão tivesse perseverado e concluído seu curso de obediência, nós deveríamos ter recebido o benefício de sua obediência, tanto quanto temos o prejuízo de sua desobediência; assim, da mesma forma, há razão para que devemos receber o benefício da obediência do segundo Adão, como resultado da sua expiação de nossa desobediência. Nas Escrituras, os crentes são apresentados como estando em Cristo, visto que eles são legalmente um, ou aceito como um, pelo Juiz Supremo. Cristo assumiu nossa natureza, e assumiu tudo nessa natureza que lhe pertence, em uma união tal consigo mesmo que ele se tornou seu cabeça e os tomou para serem seus membros. E, portanto, o que Cristo fez em nossa natureza, pela qual ele honrou a lei e a autoridade de Deus mediante seus atos, bem como a reparação à honra da lei mediante seus sofrimentos, é colocado na conta do crente; de modo que o crente deve ser feito feliz porque foi feito tão bom e digno por seu cabeça, bem como liberto de ser miserável porque ele sofreu por nosso mal e indignidade.

Quando Cristo se comprometeu com Deus para nos representar e colocar-se sob a nossa lei, ele foi obrigado a sofrer por essa lei e foi obrigado a obedecer pela mesma lei. Pela mesma lei, depois que assumiu a culpa do homem sobre si, ele próprio sendo nosso fiador, não poderia ser absolvido até ter sofrido, nem recompensado até ter obedecido. Porém ele não foi absolvido como um indivíduo, mas como nosso cabeça, e os crentes são absolvidos em sua absolvição; nem recebeu uma recompensa por sua obediência como um indivíduo, mas como nosso cabeça, e recebemos uma recompensa em sua aprovação. A Escritura nos ensina que, quando Cristo foi ressuscitado dos mortos, ele foi justificado; cuja justificação, como já demonstrei, implica tanto em sua absolvição de nossa culpa quanto em sua aceitação à exaltação e glória, que eram a recompensa de sua obediência. Porém os crentes, assim que creem, são admitidos para participar com Cristo nesta sua justificação, por esta razão nos é dito que ele foi “ressuscitado para nossa justificação” (Romanos 4.25). O que é verdade não apenas para aquela parte de sua justificação que consiste em sua absolvição, mas também em seu recebimento da sua recompensa. A Escritura nos ensina que ele está exaltado e foi para o céu, a fim de tomar posse da glória em nosso nome, como nosso precursor (Hebreus 6.20). Somos como se estivéssemos “ressuscitados juntamente com Cristo, e também feitos assentados nos lugares celestiais em Cristo Jesus” (Efésios 2.6).

Se for objetado aqui, que há essa razão pela qual o que Cristo sofreu deve ser recebido em nossa conta em vez da obediência que ele prestou, que ele era obrigado a obedecer por si mesmo, mas não era obrigado a sofrer exceto apenas por nossa causa. A isso eu respondo que Cristo não estava obrigado por sua própria causa a se comprometer a obedecer. Cristo, em suas circunstâncias originais, não estava em nenhuma sujeição ao Pai, sendo completamente igual a ele. Cristo não tinha a obrigação de se colocar no lugar do homem e sob a lei do homem, ou de se colocar em qualquer estado de sujeição a Deus. Houve uma transação entre o Pai e o Filho, que foi antecedente a Cristo se tornar homem e ser feito sob a lei sob qual ele se comprometeu a se colocar, e tanto obedecer quanto sofrer; transação na qual essas coisas já foram praticamente feitas aos olhos de Deus; como é evidente por isso, que Deus agiu com base nessa transação justificando e salvando pecadores, como se as coisas comprometidas tivessem sido realmente realizadas muito antes de serem realizadas de fato. E, portanto, sem dúvida, a fim de avaliar o valor e a validade do que Cristo fez e sofreu, devemos rememorar essa transação na qual essas coisas foram primeiramente realizadas e praticamente feitas aos olhos de Deus, e ver em qual capacidade e circunstâncias Cristo agiu na época, e então descobriremos que Cristo não estava sob nenhuma forma de obrigação, seja para obedecer a lei ou para sofrer a punição dela. Após esta transação, ele estava igualmente obrigado a ambas; pois daqui em diante ele se colocou como nosso fiador ou representante e, portanto, essa obrigação consequente pode ser tanto uma objeção contra a validade de seu sofrer a punição quanto contra sua obediência. Porém se olharmos para essa transação original entre o Pai e o Filho, na qual ambos estavam comprometidos e aceitaram como praticamente feito aos olhos do Pai, encontraremos Cristo agindo em relação a ambas, como alguém perfeitamente em seu próprio direito, e de forma alguma sob obrigação anterior para obstruir a validade de qualquer uma.

(2) Supor que tudo o que Cristo faz é apenas fazer expiação por nós mediante o sofrimento é torná-lo nosso Salvador apenas em parte. É privá-lo de metade de sua glória como Salvador. Pois, se assim for, tudo o que ele faz é nos livrar do inferno; ele não compra o céu para nós. O esquema oposto supõe que ele compra o céu para nós, neste sentido, que ele satisfaz as imperfeições de nossa obediência e assim consegue que nossa sincera obediência imperfeita seja aceita como a condição para a vida eterna; e assim compra uma oportunidade para obtermos o céu mediante nossa própria obediência. Porém comprar o céu para nós apenas nesse sentido é comprá-lo em sentido algum, pois tudo que vem dele não é mais do que uma satisfação por nossos pecados, ou remoção da punição mediante o sofrer em nosso lugar. Pois eles dizem que toda compra, para que nossa obediência imperfeita seja aceita, é apenas sua satisfação pela imperfeição pecaminosa de nossa obediência, ou (o que é a mesma coisa) fazer expiação pelo pecado que está ligado a nossa obediência. Mas isso não é comprar o céu, apenas nos coloca em liberdade novamente para que possamos ir e obter o céu pelo que nós mesmos fazemos. Tudo o que Cristo faz é apenas pagar uma dívida por nós; não há compra positiva de qualquer bem. Somos ensinados nas Escrituras que o céu é comprado para nós, isto é chamado de “resgate da sua propriedade” (Efésios 1.14). O evangelho propõe a herança eterna, não a ser adquirida, como fazia a primeira aliança, mas como já adquirida e comprada. Porém não pode ser dito que aquele que paga a dívida de um homem por ele, e assim o livra da escravidão, lhe compra uma propriedade apenas porque o coloca em liberdade, de modo que, daqui para frente, ele tem a oportunidade de obter uma propriedade mediante seu próprio trabalho manual. De modo que, de acordo com este esquema, os santos no céu não têm motivos para agradecer a Cristo por lhes comprar o céu, ou por redimi-los para Deus, e torná-los reis e sacerdotes, como temos o relato de que eles são em Apocalipse 5.10.

(3) Justificação mediante a justiça e a obediência de Cristo é uma doutrina que as Escrituras ensinam em termos muito completos. Romanos 5.18-19, “por um só ato de justiça, veio a graça sobre todos os homens para a justificação que dá vida. Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também, por meio da obediência de um só, muitos se tornarão justos.” Aqui, em um versículo, nos é dito que temos a justificação mediante a justiça de Cristo, e que não haja espaço para entender a justiça expressa apenas como expiação de Cristo mediante seu sofrimento da punição. No versículo seguinte isto é colocado em outros termos e declarado que é por meio da obediência de Cristo que somos feitos justos. É pouco concebível que algo deva ser mais completo e determinado. Os termos, tomados isoladamente, são tais que determinam seu próprio significado, e tomados juntos, eles determinam o significado um do outro. As palavras mostram que somos justificados por meio dessa justiça de Cristo, que consiste em sua obediência, e que somos feitos justos ou justificados por essa sua obediência, que é sua justiça ou bondade moral diante de Deus.

Aqui, possivelmente, pode ser objetado que este texto significa apenas que somos justificados mediante a obediência passiva de Cristo.

A isso respondo, seja ela ativa ou passiva, não altera o caso quanto ao presente argumento, visto que é evidente pelas palavras que não é meramente sob a noção de uma expiação pela desobediência, ou uma satisfação pela injustiça, mas sob a noção de uma obediência positiva, e uma justiça ou bondade moral que nos justifica, ou nos faz justos; porque ambas as palavras justiça e obediência são usadas, e usadas também como opostas a pecado e desobediência, e uma ofensa. “Pois assim como, por uma só ofensa, veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também, por um só ato de justiça, veio a graça sobre todos os homens para a justificação que dá vida. Porque, como, pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também, por meio da obediência de um só, muitos se tornarão justos.” Ora, o que se quer dizer por justiça quando expressa como  oposta ao pecado ou ao mal moral, exceto bondade moral apenas? Qual é a justiça que é o oposto de uma ofensa, exceto apenas o comportamento que é agradável? E o que se quer dizer por obediência quando expressa como o oposto de desobediência, ou ir contra um mandamento, exceto uma obediência positiva e um cumprimento real do mandamento? De modo que não há espaço para qualquer distinção inventada entre ativa e passiva para prejudicar o argumento desta Escritura, visto que é evidente por ela como algo pode ser, que os crentes são justificados por meio da justiça e da obediência de Cristo sob a noção de sua bondade moral, sua obediência positiva e realmente cumprindo os mandamentos de Deus, e que o seu comportamento que, devido à sua conformidade aos seus mandamentos, foi agradável aos seus olhos. Isso é tudo o que qualquer um necessita desejar ter confirmado nesta disputa.

Mediante isso parece que, se a morte de Cristo for incluída aqui nas palavras justiça e obediência não é meramente como uma propiciação, ou suportar em nosso lugar punição de uma lei quebrada, mas como sua sujeição e entrega voluntárias a esses sofrimentos, foi um ato de obediência aos mandamentos do Pai, e assim foi parte de sua justiça positiva ou bondade moral.

De fato, toda obediência, considerada sob a noção de obediência ou justiça, é algo ativo, algo feito em submissão ativa e voluntária a uma ordem. Se aquilo que fazemos é algo fácil e algo que pode ser feito sem sofrimento, ou se é algo difícil e penoso, no entanto, como é obediência, ou justiça, ou bondade moral, deve ser considerado como algo voluntário e ativo. Se alguém recebe a ordem de passar por dificuldades e sofrimentos, e ele, em submissão a esta ordem, voluntariamente faz isso, ele obedece adequadamente ao fazê-lo; e visto que ele faz voluntariamente em submissão a uma ordem, sua obediência é tão ativa quanto qualquer outra. É o mesmo tipo de obediência, uma coisa da mesma natureza, como quando um homem, em submissão a uma ordem, realiza uma parte de um serviço difícil ou passa por trabalho severo; e não há espaço para distinguir entre esta obediência e outra que seja mais fácil, e produzir um tipo diferente de obediência da ordem, como se fosse uma coisa de natureza totalmente diferente, mediante estes termos opostos como ativo e passivo. Toda a distinção que pode ser pretendida é aquela que existe entre obedecer a uma ordem fácil e uma difícil. Mas a obediência em si não é da mesma natureza visto que as ordens a serem obedecidas são algumas delas mais difíceis do que outras? Existe, portanto, algum fundamento para criar duas espécies de obediência, uma ativa e outra passiva? Não há nenhuma manifestação de tal distinção entrando nos corações de qualquer um dos escritores das Escrituras.

É verdade que, nos últimos tempos, quando um homem se recusa a obedecer ao preceito de uma lei humana, mas pacientemente se entrega para sofrer a punição da lei, isto é chamado de obediência passiva. Porém eu suponho que isto é apenas um uso moderno da palavra obediência. Tenha certeza[16] é um sentido da palavra que é um perfeito estranho a Escritura e é indevidamente chamada de obediência, a menos que haja tal preceito na lei, de que ele se entregará pacientemente a sofrer, ao que assim fazendo será uma conformidade voluntária ativa. Pode, em algum sentido, ser dito ser uma conformidade com a lei uma pessoa sofrer a punição da lei, mas nenhuma outra conformidade à lei é apropriadamente chamada de obediência a ela, mas uma conformidade voluntária ativa aos seus preceitos. A palavra obedecer é frequentemente encontrada nas Escrituras em relação à lei de Deus para o homem, mas nunca em qualquer outro sentido. É verdade que a disposição de Cristo de passar por aqueles sofrimentos que ele suportou é uma grande parte dessa obediência ou justiça pela qual somos justificados. Os sofrimentos de Cristo são mencionados nas Escrituras sob uma dupla consideração, meramente como nosso substituto, ou colocando-se em nosso lugar, ao sofrer a punição da lei. E assim seus sofrimentos são considerados como uma satisfação e propiciação pelo pecado. Ou, visto que ele, em obediência a uma lei ou ordem do Pai, voluntariamente submeteu-se a esses sofrimentos e ativamente entregou-se a suportá-los, e assim eles são considerados como sua justiça e uma parte de sua obediência ativa. Cristo sofreu a morte em obediência a ordem do Pai. Salmo 40.6-8, “Sacrifícios e ofertas não quisestes; abriste os meus ouvidos; holocaustos e ofertas pelo pecado não requeres. Então, eu disse: eis aqui estou, no rolo do livro está escrito a meu respeito; agrada-me fazer a tua vontade, ó Deus meu; dentro do meu coração está a tua lei.”[17] João 10.17-18 “Por isso, o Pai me ama, porque eu dou a minha vida para a reassumir. Ninguém a tira de mim; pelo contrário, eu espontaneamente a dou. Tenho autoridade para a entregar e também para reavê-la. Este mandato recebi de meu Pai.” João 18.11, “não beberei, porventura, o cálice que o Pai me deu?” E isso é parte, e de fato a parte principal, dessa obediência ativa pela qual somos justificados.

Não pode ser razoável a objeção contra isso de que a ordem do Pai a Cristo, de que ele deveria sacrificar sua vida, não fazia parte da lei que quebramos e, portanto, que a sua obediência a esta ordem não poderia fazer parte daquela obediência que ele prestou por nós, porque não precisávamos que ele obedecesse a nenhuma outra lei por nós, mas apenas aquela que quebramos ou falhamos em obedecer. Pois embora deva ser a mesma autoridade legislativa, cuja honra é reparada pela obediência de Cristo, que ofendemos mediante nossa desobediência; no entanto, não há necessidade de que a lei que Cristo obedece seja precisamente a mesma que Adão deveria ter obedecido, no sentido de que não deveria haver preceitos positivos ausentes, nem algum adicionado. Ali estava ausente o preceito sobre o fruto proibido, e ali foi adicionada a lei cerimonial. A coisa requerida era a obediência perfeita. Não importa se os preceitos positivos eram os mesmos, se eram equivalentes. Os preceitos positivos que Cristo devia obedecer eram muito mais do que equivalentes ao que estavam ausentes, porque infinitamente mais difícil, particularmente a ordem que ele recebeu para sacrificar sua vida, a qual era seu principal ato de obediência, e que, acima de todos os outros, diz respeito à nossa justificação. Assim como aquele ato de desobediência pelo qual caímos foi a desobediência a um preceito positivo sob o qual Cristo nunca esteve, a saber, o de abster-se da árvore do conhecimento do bem e do mal, assim aquele ato de obediência pelo qual somos principalmente redimidos é obediência a um preceito positivo sob o qual Adão nunca esteve, a saber, o preceito de sacrificar sua vida. Era adequado que fosse um preceito positivo que pusesse à prova tanto a obediência de Adão quanto a de Cristo. Tais preceitos são o maior e mais adequado julgamento da obediência porque, neles, o único fundamento da obediência (e nada da natureza das coisas em si) é a mera autoridade e vontade do Legislador; e, portanto, eles são o maior julgamento da deferência de qualquer pessoa a essa autoridade e vontade.

A lei a qual Cristo estava sujeito e obedeceu era, de certa forma, a mesma que fora dada a Adão. Há inúmeros deveres particulares que são exigidos pela lei apenas de modo condicional; e, nestas circunstâncias, estão compreendidos em alguma regra grande e geral dessa lei. Assim, por exemplo, há inúmeros atos de deferência e obediência aos homens, os quais são exigidos pela lei da natureza (que foi uma lei dada a Adão), os quais todavia não exigem absolutamente nada exceto em muitas condições pré-requisitos; como, por exemplo, que haja homens em tais condições de relação para conosco e que deem tais ordens, e semelhantemente, tantos atos de deferência e obediência a Deus estão incluídos da mesma forma na lei moral de modo condicional, ou tais e tais coisas sendo supostas, como Abraão prestes a sacrificar seu filho, os judeus circuncidando seus filhos de oito dias de idade e Adão não comer o fruto proibido. Esses atos estão basicamente compreendidos nessa grande regra geral da lei moral, que devemos obedecer a Deus e estarmos sujeitos a ele em qualquer coisa que ele queira nos ordenar. Certamente a lei moral exige tanto que obedeçamos aos mandamentos positivos de Deus, quanto exige que obedeçamos às ordens positivas de nossos pais. E assim, tudo o que foi ordenado a Adão e tudo o que foi ordenado Cristo, até mesmo sua observação dos ritos e cerimônias da adoração judaica, e o sacrifício de sua vida, estava basicamente incluído nesta mesma grande lei.[18]

Não é nenhuma objeção contra a última coisa mencionada, mesmo Cristo sacrificando sua vida, esta sendo incluído na lei moral dada a Adão, porque essa própria lei não concedeu nenhuma ocasião para tal coisa; pois a lei moral praticamente inclui todos os atos certos, em todas as ocasiões possíveis, mesmo nas ocasiões que a própria lei não permite. Por conseguinte, somos obrigados pela lei moral a mortificar nossas cobiças e nos arrependermos de nossos pecados, embora essa lei não permita que nenhuma cobiça a mortificar ou algum pecado do qual se arrepender.

Há, de fato, apenas uma grande lei de Deus, e essa é a mesma lei que diz: “Se você pecar, você morrerá”, e “Amaldiçoado é todo aquele que não permanece em todas as coisas contidas nesta lei para cumpri-las”. Todos os deveres de instituição positiva estão basicamente compreendidos nesta lei. E, portanto, se os judeus frearem a lei cerimonial, ela os expõe à punição da lei, ou à aliança das obras, a qual ameaçaram: “Você certamente morrerá.” A lei é a regra eterna e inalterável da justiça entre Deus e o homem e, portanto, é a regra de julgamento pela qual tudo o que um homem faz deve ser justificado ou condenado; e nenhum pecado expõe à condenação exceto pela lei. Então, agora, aquele que se recusa a obedecer aos preceitos que exigem uma presença nos sacramentos do Novo Testamento está exposto à condenação em virtude da lei ou da aliança das obras. Pode-se, além disso, argumentar que todos os pecados são violações da lei ou da aliança das obras, porque todos os pecados, mesmo as violações dos preceitos positivos bem como dos outros, têm expiação pela morte de Cristo, mas o pelo que Cristo morreu, foi satisfazer a lei, ou suportar a maldição da lei. Como aparece em Gálatas 3.10-13 e Romanos 8.3-4.

De modo que Cristo sacrificando sua vida pudesse ser parte dessa obediência pela qual somos justificados, embora fosse um preceito positivo não dado a Adão. Foi, sem dúvida, o principal ato de obediência de Cristo, porque era a obediência a uma ordem que foi desempenhada imensamente com a maior dificuldade, e assim a uma ordem que era o maior teste de sua obediência. Sua deferência mostrada a Deus nela e sua honra à autoridade de Deus foi proporcionalmente grande, são expressas nas Escrituras como o principal ato de obediência de Cristo. Filipenses 2.7-8, “antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de um servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz.” Hebreus 5.8, “embora sendo Filho, aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu.” Foi principalmente por meio deste ato de obediência que Cristo comprou uma recompensa tão gloriosa para si mesmo; como naquele lugar em Filipenses, Filipenses 2.8-9, “tornando-se obediente até à morte e morte de cruz. Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome.” E, portanto, conclui-se a partir do que já foi dito, que é principalmente por este ato de obediência que os crentes em Cristo também têm a recompensa da glória, ou participarão com Cristo em sua glória. Somos tão salvos pela morte de Cristo, visto que sua entrega à morte foi um ato de obediência, como nós somos, visto que foi uma propiciação por nossos pecados. Pois, visto que não foi o único ato de obediência que se tornou merecedor, ele realizou atos meritórios de obediência durante todo o curso de sua vida; também nem foi o único sofrimento que foi propiciatório, todo o seu sofrimento durante todo o curso de sua vida foi propiciatório, bem como cada ato de obediência meritória. Na verdade, este foi o seu principal sofrimento, e foi seu principal ato de obediência.

Consequentemente, podemos ver como a morte de Cristo não apenas fez expiação, mas também mereceu a vida eterna. E, por esta razão, podemos ver como mediante o sangue de Cristo não somos apenas redimidos do pecado, mas redimidos para Deus. E, por isso, a Escritura parece atribuir, em toda parte, toda a salvação ao sangue de Cristo. Este precioso sangue é tanto o preço principal pelo qual o céu é comprado, como é o preço principal pelo qual somos resgatados do inferno. A justiça positiva de Cristo, ou aquele preço pelo qual ele se tornou merecedor, era de igual valor àquilo pelo qual ele ficou satisfeito; pois, de fato, era o mesmo preço. Ele derramou seu sangue para satisfazer, e, em razão da dignidade infinita de sua pessoa, seus sofrimentos foram considerados como de valor infinito, e equivalente aos sofrimentos eternos de uma criatura finita. Ele derramou seu sangue por deferência a honra à majestade de Deus e em submissão à sua autoridade, que tinha ordenado que ele assim fizesse; e, nesse sentido, sua obediência foi de valor infinito, tanto pela dignidade da pessoa que a executou, quanto porque ele se sujeitou a um custo infinito para realizá-la, por meio disto tornou-se visível o grau infinito de sua deferência a autoridade de Deus.

Pode-se perguntar o que os arminianos querem dizer por méritos de Cristo. Eles falam dos méritos de Cristo tanto quanto qualquer um, e todavia negam a imputação da justiça positiva de Cristo. O que deveria haver para que alguém merecesse ou fosse digno de qualquer coisa além de justiça ou bondade? Se alguma coisa que Cristo fez ou sofreu mereceu ou foi digna alguma coisa, foi em virtude da sua bondade, ou justiça, ou santidade. Se os sofrimentos e a morte de Cristo mereceram o céu, deve ser porque havia uma excelente justiça e bondade moral transcendente naquele ato de sacrificar sua vida. E se por essa excelente justiça ele mereceu o céu para nós, então certamente essa justiça é colocada em nossa conta, temos o benefício dela, ou, o que é a mesma coisa, ela é imputada a nós.

Assim, espero ter tornado evidente que a justiça de Cristo é realmente imputada a nós. Eu prossigo agora para a

3. [Terceira,] e última coisa sob este argumento, esta doutrina da imputação da justiça de Cristo é totalmente inconsistente com a doutrina de sermos justificados por nossa própria virtude ou obediência sincera. Se a aceitação ao favor de Deus e o direito à vida forem dados aos crentes como recompensa pela obediência de Cristo, então não são dados como recompensa por nossa própria obediência. Em qual sentido Cristo é nosso Salvador que, sem dúvida, nos exclui sermos nossos próprios salvadores nesse mesmo sentido. Se pudermos ser nossos próprios salvadores no mesmo sentido que Cristo é, conclui-se que a salvação de Cristo é desnecessária nesse sentido. De acordo com o raciocínio do apóstolo, Gálatas 5.4, “De Cristo vos desligastes, vós que procurais justificar-vos na lei; da graça decaístes.” Sem dúvida, é prerrogativa de Cristo ser o nosso Salvador nesse sentido em que ele é o nosso Salvador. E, portanto, se for mediante a sua obediência que somos justificados, então não é mediante nossa própria obediência.

Aqui, talvez, possa ser dito que o direito à salvação não é dado diretamente como a recompensa por nossa obediência; pois este direito não é mediante nada nosso, mas somente pela satisfação e justiça de Cristo; embora, porém, um interesse nessa satisfação e justiça seja dado como recompensa por nossa obediência.

Porém isso não ajuda em nada o caso; pois isso é atribuir tanto à nossa obediência quanto se atribuíssemos a salvação a ela diretamente, sem a intervenção da justiça de Cristo. Pois seria uma coisa tão grande para Deus nos dar Cristo, e sua satisfação e justiça, em recompensa por nossa obediência como nos dar o céu imediatamente. Seria uma grande recompensa e quão grande testemunho de consideração por nossa obediência. E, se Deus dá uma coisa tão grande como a salvação por nossa obediência, por que ele não poderia muito bem dar a própria salvação diretamente? E então não haveria necessidade da justiça de Cristo. E, de fato, se Deus nos der Cristo ou um interesse nele devidamente como recompensa por nossa obediência, ele realmente nos dá a salvação como recompensa por nossa obediência; pois a primeira implica na última; sim, implica como o maior implica no menor. De modo que, de fato, exalta mais nossa virtude e obediência supor que Deus nos dá Cristo como recompensa por essa virtude e obediência do que se nos desse a salvação sem Cristo.

A coisa contra a qual as Escrituras protegem e militam, é a nossa imaginação de que é nossa própria bondade, virtude ou excelência que nos coloca na aceitação e favor de Deus. Porém supor que Deus nos dá um interesse em Cristo como recompensa por nossa virtude é um argumento tão grande de que isto nos coloca no favor de Deus como se ele concedesse o direito à vida eterna como sua recompensa direta. Se Deus nos der interesse em Cristo como recompensa por nossa obediência, seguirá então que estamos inseridos na aceitação e favor de Deus por causa de nossa própria obediência antecedente a termos interesse em Cristo. Pois recompensar a excelência de alguém sempre pressupõe favor e aceitação por causa dessa excelência. Esta é a própria noção de recompensa, que é uma coisa boa concedida como testemunho da consideração e favor pela virtude ou excelência recompensada. De modo que não é em virtude do nosso interesse em Cristo e em seus méritos que entramos inicialmente no favor de Deus, de acordo com este esquema; pois estamos no favor de Deus antes de termos qualquer interesse nesses méritos, na medida em que temos interesse nesses méritos dados como fruto do favor de Deus para com nossa própria virtude. Se nosso interesse em Cristo é fruto do favor de Deus, então não pode ser a base dele. Se Deus não nos aceitasse e não tivesse nenhum favor para conosco por causa de nossa própria excelência, ele nunca nos daria uma recompensa tão grande como o direito a satisfação e justiça de Cristo. De modo que este esquema destrói a si mesmo, pois supõe que a satisfação e a justiça de Cristo são necessárias para nos recomendarmos ao favor de Deus; e, todavia, supõe que temos o favor e a aceitação de Deus antes de termos a satisfação e a justiça de Cristo, e tê-los recebido como fruto do favor de Deus.

De fato, nem a salvação em si, nem Cristo, o Salvador, são dados como recompensa por qualquer coisa no homem. Não são dados como uma recompensa pela fé, nem por qualquer outra coisa nossa. Não estamos unidos a Cristo como recompensa por nossa fé, mas temos união com ele pela fé apenas porque a fé é o próprio ato de unir-se ou de aproximar-se de nossa parte. Como quando um homem se oferece a uma mulher em casamento, ele não se entrega a ela como uma recompensa por ela recebê-lo em casamento; o ato dela recebê-lo não é considerado como um ato digno nela pelo qual ele a recompensa dando-se a ela; mas é pelo ato dela recebê-lo que a união é feita, mediante o qual ela o tem como seu marido, é a parte dela na união em si. Por essas coisas fica claro o quão contrário ao esquema do evangelho de Cristo é o esquema que diz que a fé justifica como um princípio de obediência, ou como o principal ato de obediência; ou (como outros) a essência e a compreensão de toda obediência evangélica. pois é mediante isso que a obediência ou virtude está na fé, que é a coisa que lhe dá sua influência justificadora; e isso é a mesma coisa que dizer, que somos justificados por nossa própria obediência, virtude ou bondade.

Tendo assim considerado a evidência sobre a verdade da doutrina, eu prossigo agora para a

III. [Terceira] coisa proposta, saber, mostrar em que sentido os atos de uma vida cristã, ou de obediência evangélica, podem ser vistos como dizendo respeito a essa questão.

Pelo que já foi dito, é evidente que esses atos não podem ter qualquer participação nesta questão como boas obras, ou mediante a virtude de qualquer bondade moral neles; não como obras da lei, ou como aquela excelência moral, ou qualquer parte dela, que é a satisfação ou cumprimento dessa grande, universal e eterna lei ou aliança das obras, que o grande Legislador estabeleceu como a mais alta e inalterável regra de julgamento, a qual somente Cristo satisfaz, de fazer algo concernente a ela.

E foi demonstrado, a partir das Escrituras, que é apenas pela fé, ou o recebimento da alma e a união ao Salvador que produziu nossa justiça, de modo que somos justificados. Permanece, portanto, que os atos de uma vida cristã não podem participar nesta questão de outra forma senão a medida que eles implicam e são as expressões de fé, e podem ser considerados como tantos atos de recepção de Cristo, o Salvador.

Porém a determinação do que diz respeito aos atos de obediência cristã pode ter na justificação neste aspecto dependerá da solução de outro ponto, a saber, se qualquer outro ato de fé além do primeiro ato tem alguma participação em nossa justificação, ou até que ponto a perseverança na fé, ou nos atos contínuos e renovados de fé, têm influência nesta questão.

E parece evidente que a justificação é pelo primeiro ato de fé, em alguns aspectos, de forma peculiar, porque um pecador é real e finalmente justificado assim que ele realiza um ato de fé. E a fé em seu primeiro ato, pelo menos, depende de Deus para perseverança e dá direito a este entre outros benefícios. Porém ainda assim a perseverança da fé não é excluída nesta questão; certamente ela não está ligada à justificação, mas não deve ser excluída daquilo sobre o que a justificação de um pecador tem dependência, ou aquilo pelo que ele é justificado.

Mostrei que a forma como a justificação tem dependência da fé é que ela é a qualificação sobre a qual a congruência de um interesse na justiça de Cristo depende, ou em que tal aptidão consiste. Mas a consideração da perseverança da fé não pode ser excluída dessa congruência ou aptidão, pois é congruente que aquele que crê em Cristo deve ter interesse na justiça de Cristo, e assim nos benefícios eternos adquiridos por ela, porque a fé é aquilo pelo que a alma tem união ou unidade com Cristo, e há uma congruência natural nela; de modo que aqueles que são um com Cristo devem ter um interesse conjunto com ele em seus benefícios eternos. Porém ainda assim essa congruência depende de ser uma união permanente. Como é necessário que o ramo permaneça na videira, a fim de receber os benefícios duradouros da raiz, assim é necessário que a alma permaneça em Cristo, a fim de receber os benefícios duradouros da aceitação e favor eternos de Deus. João 15.6-7, “Se alguém não permanecer em mim, será lançado fora, à semelhança do ramo, e secará; e o apanham, lançam no fogo e o queimam. Se permanecerdes em mim, e as minhas palavras permanecem em vós, pedireis o que quiserdes, e vos será feito.” João 15.9-10, “Como o Pai me amou, também eu vos amei; permanecei no meu amor. Se guardardes (ou obedecerdes) os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; assim como também eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai, e no seu amor permaneço.” Há a mesma razão pela qual é necessário que a união com Cristo permaneça, quanto ao porquê deve ser iniciada, ao porquê deve continuar a ser, ao porquê deve ser algum dia. Se deve ser iniciada sem permanecer, o início será em vão. A fim de a alma estar agora em um estado justificado e livre da condenação é necessário que esteja agora em Cristo, e não apenas que deveria ter estado algum dia nele. Romanos 8.1, “Agora, pois, nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus.” A alma é salva em Cristo, como estando agora nele quando a salvação é concedida, e não apenas como lembrança de que já esteve nele algum dia. Filipenses 3.9, “e ser achado nele, não tendo justiça própria, que procede de lei, senão a que é mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus, baseada na fé.” 1 João 2.28, “Filhinhos, agora, permanecei nele, para que, quando ele se manifestar, tenhamos confiança e dele não nos afastemos envergonhados na sua vinda.” Para que as pessoas sejam abençoadas após a morte é necessário não apenas que elas estejam nele algum dia, mas que elas morram nele. Apocalipse 14.13, “Bem-aventurados os mortos que, desde agora, morrem no Senhor.”

E há a mesma razão pela qual a fé, a qualificação que une, deve permanecer, para que a união permaneça, quanto ao porquê deveria ser antes, a fim de ser união de uma vez.

De modo que, embora o pecador seja real e finalmente justificado no primeiro ato de fé, no entanto, a perseverança da fé, mesmo assim, entra em consideração como uma coisa sobre a qual depende a conveniência da aceitação para a vida. O ato de justificação de Deus, que é transmitido à primeira fé de um pecador, diz respeito à perseverança como estando basicamente contida naquele primeiro ato de fé, e é considerado e tomado por aquele que justifica como sendo se fosse uma propriedade nessa fé que então é. Deus tem consideração para com a continuidade do crente na fé, e ele é justificado por isso, como se já fosse, porque ela continuará pelo estabelecimento divino; e estando ligada pelo estatuto divino a essa primeira fé, tanto quanto se fosse uma propriedade nela, ela é então considerada como tal, e assim a justificação não é suspendida; mas se não fosse por isso seria necessário que ela fosse suspensa até que o pecador tivesse realmente perseverado na fé.

E isto é assim, que Deus, no ato da justificação final que ele sanciona na conversão do pecador, tem consideração para com perseverança na fé e futuros atos de fé como estando basicamente implícitos no primeiro ato, é ainda mais manifestado por isso, a saber, que, na justificação de um pecador em sua conversão, está contido praticamente um perdão quanto à punição eterna e merecida, não apenas de todos os pecados passados, mas também de todas as futuras enfermidades e atos de pecado dos quais eles serão culpados. Porque essa primeira justificação é decisiva e final. E todavia o perdão, na ordem da natureza, segue adequadamente ao crime, e também segue aqueles atos de arrependimento e fé que dizem respeito ao crime perdoado, como é manifesto tanto pela razão quanto pelas Escrituras. Davi, no início do Salmo 32, fala do perdão dos seus pecados, os quais foram, sem dúvida, cometidos muito tempo depois que ele era piedoso, como sendo consequência desses pecados e por meio de seu arrependimento e fé em relação a eles. E ainda assim esse perdão é expresso pelo apóstolo, no quarto capítulo de Romanos, como um exemplo de justificação pela fé. Provavelmente o pecado de que Davi fala seja o mesmo que ele cometeu no caso de Urias, e assim o perdão, o mesmo com aquela libertação da morte, ou do castigo eterno, da qual o profeta Natã fala. 2 Samuel 12.13, “Também o Senhor te perdoou o teu pecado; não morrerás.” Não apenas a manifestação deste perdão segue ao pecado na ordem do tempo, mas o próprio perdão, na ordem da natureza, segue o arrependimento e a fé de Davi em relação a este pecado; pois ele é expresso no Salmo 32 como dependendo dele.[19]

Porém, na medida em que um pecador, em sua justificação inicial, é sempre justificado e livre de toda a obrigação de punição eterna, segue daqui a necessidade de que a fé e o arrependimento futuros sejam contemplados nessa justificação como praticamente contidos nessa fé e arrependimento iniciais; porque o arrependimento desses pecados futuros e a fé em um Redentor com respeito a eles ou, pelo menos, a continuidade desse hábito e princípio no coração, que tem um arrependimento e fé tão reais em sua natureza e tendência, é agora assegurada pela promessa de Deus.

Se a remissão dos pecados cometidos após a conversão, na ordem da natureza, segue aquela fé e arrependimento que é posterior a eles, então segue-se que os pecados futuros são considerados na justificação inicial, não de forma diferente de como a fé e o arrependimento futuros são considerados nela. E o arrependimento e a fé futuros são considerados por aquele que justifica como basicamente implícitos no primeiro arrependimento e fé, da mesma forma que a justificação dos pecados futuros está basicamente implícita na justificação inicial; que é a coisa que deve ser provada.

Além disso, se nenhum outro ato de fé pode dizer respeito à justificação exceto o primeiro ato, seguirá então que os cristãos nunca devem buscar a justificação por qualquer outro ato de fé. Pois se a justificação não deve ser obtida por atos posteriores de fé, então certamente não é um dever procurá-la por meio desses atos. E por isso nunca pode ser um dever das pessoas, depois de uma vez convertidas, buscar a Deus pela fé, ou, olhar para ele crendo para a remissão do pecado, ou para a libertação da sua culpa, porque a libertação da culpa do pecado é parte do que pertence à justificação. E se não é apropriado para os convertidos olhar pela fé para Deus através de Cristo para ela, então seguirá que não é apropriado para eles orarem por ela, pois a oração cristã a Deus por uma bênção é apenas uma expressão da fé em Deus para essa bênção; a oração é apenas a voz da fé. Porém se essas coisas são assim, seguirá que a petição da Oração do Senhor, “perdoa-nos as nossas dívidas”, não é adequada para ser alçada pelos discípulos de Cristo, ou para ser usada em assembleias cristãs; e que Cristo dirigiu indevidamente seus discípulos a usar essa petição, quando todos eles eram, exceto Judas, já convertidos. A dívida, pela qual Cristo dirige seus discípulos a orar por perdão, não pode significar nada mais senão a punição que o pecado merece, ou a dívida que temos para com a justiça divina, os dez mil talentos que devemos ao nosso Senhor. Orar para que Deus perdoe nossas dívidas é, sem dúvida, a mesma coisa que orar para que Deus nos liberte da obrigação à devida punição; mas libertar da obrigação para com a devida punição ao pecado e perdoar a dívida que temos para com a justiça divina é o que pertence a justificação.

E então supor que nenhum ato posterior de fé diz respeito ao assunto da justificação, e de modo que não seja apropriado para qualquer um jamais buscar a justificação por meio desses atos, seria excluir para sempre aqueles cristãos, que estão em dúvida em relação ao seu primeiro ato de fé, da alegria e da paz do crer. Como a ocupação da fé justificadora é obter perdão e paz com Deus, olhando para Deus e confiando nele para essas bênçãos, assim a alegria e a paz dessa fé estão na apreensão do perdão e da paz obtidas mediante essa confiança. Este cristão que está em dúvida de seu primeiro ato de fé, não pode ter a partir desse ato porque, pela suposição, ele tem dúvidas se é um ato de fé, e assim se obteve o perdão e a paz por meio desse ato. O remédio adequado, em tal caso, é olhar agora pela fé para Deus em Cristo para essas bênçãos, mas ele é excluído deste remédio porque ele está em dúvida se tem garantia para fazer, pois ele não tem como exceto que já creu; e se assim for, então ele não tem nenhuma garantia para olhar para Deus pela fé para essas bênçãos agora, porque, pela suposição, nenhum novo ato de fé é um meio adequado de obter essas bênçãos. E assim ele nunca pode obter adequadamente a alegria da fé, pois há atos de fé verdadeira que são atos muito fracos, e o primeiro ato pode ser assim, bem como outros. Pode ser como o primeiro movimento do bebê no útero, pode ser um ato tão fraco que o cristão, examinando-o, nunca será capaz de determinar se foi um verdadeiro ato de fé ou não. E é evidente, a partir do fato e da experiência abundante, que muitos cristãos sempre estão em um esforço inútil para determinar qual foi seu primeiro ato de fé. E aqueles santos que tiveram um bom grau de satisfação em relação à sua fé podem estar sujeitos a grandes declínios e quedas, nesse caso, estão sujeitos a grandes temores de punição eterna. E a maneira adequada de libertação é abandonar seu pecado mediante o arrependimento e, pela fé, vir agora a Cristo para a libertação da merecida punição eterna; porém isso não ocorreria se a libertação dessa punição não devesse ser obtida desse modo.

Porém o que é uma evidência ainda mais clara e direta do que estou defendendo, é que o ato de fé que Abraão exerceu na grande promessa da aliança da graça que Deus lhe fez, da qual é expressamente dito, Gênesis 15.16,[20] “e isso lhe foi imputado para justiça”; que é o grande exemplo e prova do que o apóstolo insiste tanto em Romanos 4 e Gálatas 3.

Gálatas 3, para confirmar sua doutrina da justificação somente pela fé, não foi o primeiro ato de fé de Abraão, mas foi exercido muito depois de ter abandonado seu próprio país pela fé (Hebreus 11.8), e foi tratado como um eminente amigo de Deus.

Além disso, o apóstolo Paulo, em Filipenses 3, nos mostra como ele procurou sinceramente a justificação pela fé, ou ganhar a Cristo e obter aquela justiça que era pela fé nele, o que ele fez após sua conversão. Filipenses 3.8-9, “Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo e ser achado nele, não tendo justiça própria, que procede da lei, senão a que é mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus, baseada na fé.” E, nos dois versículos seguintes, ele expressa a mesma coisa em outras palavras, e nos diz como ele passou por sofrimentos e se conformar à morte de Cristo, para que pudesse ser participante com Cristo no benefício de sua ressurreição; o que o mesmo apóstolo nos ensina em outro lugar, é especialmente justificação. A ressurreição de Cristo era sua justificação nisso, aquele que foi morto na carne, foi justificado pelo espírito e aquele que foi entregue por nossas ofensas, ressuscitou para nossa justificação. E o apóstolo nos diz, nos versículos seguintes, em Filipenses 3, que ele procurou assim alcançar a justiça que é mediante a fé de Cristo, e assim participar do benefício de sua ressurreição ainda, como se já não tivesse alcançado, mas que ele continuava a buscá-la.

No geral, parece que é necessária a perseverança na fé, até mesmo para a coerência da justificação, e não menos, porque um pecador é justificado e a perseverança prometida no ato inicial de fé, mas Deus, nessa justificação, refere-se não apenas ao ato passado de fé, mas à sua própria promessa de atos futuros e à conveniência de uma qualificação vista ainda apenas em sua própria promessa.

E, essa perseverança na fé é, portanto, necessária à salvação, não meramente como um sine qua non, ou como seu concomitante universal, mas em razão de tal influência e dependência parece ser manifesta por muitas Escrituras. Eu menciono duas ou três: Hebreus 3.6, “Cristo, porém, como Filho, em sua casa; a qual casa somos nós, se guardarmos firme, até ao fim, a ousadia e a exultação da esperança.” Hebreus 3.14, “Porque nos temos tornado participantes de Cristo, se, de fato, guardamos firme, até ao fim, a confiança que, desde o princípio, tivemos.” Hebreus 6.12, “Para que não vos torneis indolentes, mas imitadores daqueles que, pela fé e pela longanimidade, herdam as promessas.” Romanos 11.20, “Bem, pela sua incredulidade, foram quebrados; tu, porém, mediante a fé, estás firme. Não te ensoberbeças, mas teme.”

E como a congruência a uma justificação final depende da perseverança na fé, bem como do primeiro ato, muitas vezes a manifestação da justificação na consciência surge muito mais dos atos posteriores do que do primeiro ato. E toda a diferença pela qual o primeiro ato de fé diz respeito a esta questão, que é peculiar, parece ser como se fosse apenas uma diferença acidental, decorrente da circunstância do tempo, ou ser o primeiro na ordem do tempo, e não de qualquer consideração peculiar que Deus tenha por ele, ou qualquer influência que tenha de natureza peculiar na questão da nossa salvação.

E assim é que uma caminhada verdadeiramente cristã e os atos de uma obediência evangélica infantil dizem respeito à nossa justificação, e parecem ser, às vezes, tão mencionados nas Escrituras, a saber, como expressão de uma fé perseverante no Filho de Deus, o único Salvador. A fé une a Cristo e, assim, dá uma congruência à justificação, não apenas como um princípio adormecido no coração, mas como sendo e aparecendo em suas expressões ativas.

A obediência de um cristão, na medida em que é verdadeiramente evangélica e realizada com o espírito do Filho enviado ao coração, tem toda a relação com Cristo, o Mediador, e é apenas uma expressão da união da alma do crente com Cristo. Todas as obras evangélicas são obras dessa fé que opera pelo amor; e cada ato dessa obediência, que é interior, e o ato da alma, é apenas um novo ato efetivo de recepção de Cristo e de adesão ao glorioso Salvador. É por esta razão que o apóstolo diz, Gálatas 2.20, “Logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé do Filho de Deus.” E consequentemente somos orientados, no que quer que façamos, seja em palavra ou ação, a fazer tudo em nome do Senhor Jesus Cristo (Colossenses 3.17).

E que Deus, na justificação, leva em consideração não só o primeiro ato de fé, mas também os futuros atos perseverantes nesse sentido, a saber, como expressos na vida, parece evidente em Romanos 1.17, “Visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: O justo viverá por fé.” E Hebreus 10.38-39, “Todavia, o meu justo viverá pela fé; e: Se retroceder, nele não se compraz a minha alma. Nós, porém, não somos dos que retrocedem para a perdição; somos, entretanto, da fé, para a conservação da alma.”

De modo que, assim como foi dito antes sobre a fé pode ser dito de uma obediência cristã infantil, nada tem a ver com justificação mediante qualquer virtude ou excelência nela; mas apenas porque há uma recepção de Cristo nela. E isso não é mais contrário à afirmação frequente do apóstolo de sermos justificados sem as obras da lei do que dizer que justificarmos pela fé por causa da fé é tanto uma obra ou um ato de obediência cristã quanto as expressões de fé na vida e na caminhada espiritual. E, portanto, como dizemos que a fé não justifica como uma obra, assim dizemos sobre todas essas expressões eficazes de fé.

Isto é o oposto do esquema de nossos teólogos modernos, que sustentam que a fé justifica apenas como um ato ou expressão de obediência; enquanto que, na verdade, a obediência não diz respeito à justificação de outra forma que não como expressão de fé. Agora eu prossigo para a

IV. [Quarta] coisa proposta, a saber, responder as objeções.

Objeção 1. Encontramos frequentemente promessas de vida eterna e salvação, e, às vezes, da justificação em si, feitas à nossa própria virtude e obediência. A vida eterna é prometida à obediência em Romanos 2.7, “a vida eterna aos que, perseverando em fazer o bem, procuram glória, honra e incorruptibilidade”. E assim em inúmeros outros lugares. E a justificação em si é prometida àquela virtude de um espírito ou temperamento perdoador em nós, Mateus 6.14-15, “Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celeste vos perdoará; se, porém, não perdoardes aos homens [as suas ofensas], tampouco vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas”. Todos admitem que essa justificação consiste em grande parte no perdão dos pecados. A isso eu respondo:

(1) Essas coisas que são prometidas à nossa virtude e obediência não afirmam mais do que haver uma conexão entre elas e a obediência evangélica; o que já observei não ser o assunto em disputa. Tudo o que pode ser provado pela obediência e a salvação estando conectadas na promessa é que a obediência e a salvação estão conectadas de fato. O que ninguém nega; e se é reconhecida ou negada, como foi mostrado, nada serve ao propósito. Não há necessidade de que a admissão a um direito de salvação deve ser dado por causa de nossa obediência para que as promessas sejam verdadeiras. Se encontrarmos tal promessa, que aquele que obedece será salvo, ou aquele que é santo será justificado, tudo o que é necessário para que tais promessas sejam verdadeiras é que seja realmente assim, que aquele que obedece será salvo e que a santidade e a justificação realmente andam juntas. Essa proposição pode ser uma verdade, que aquele que obedecer será salvo, porque a obediência e a salvação estão ligadas de fato; e todavia a aceitação de um direito a salvação não ser concedido por causa de qualquer virtude ou obediência nossa. O que é uma promessa senão apenas uma declaração da verdade futura, para o conforto e encorajamento da pessoa a quem ela é feita? Promessas são proposições condicionais e, como já foi observado, não é o assunto em disputa, se outras coisas além da fé não podem ter o lugar da condição em proposições nas quais o perdão e a salvação são os consequentes.

(2) Promessas podem ser feitas racionalmente a sinais e evidências de fé, e ainda assim a coisa prometida não ser por causa do sinal, mas da coisa significa. Assim, por exemplo, o governo humano pode racionalmente fazer promessas de tais e tais privilégios àqueles que podem mostrar evidências de estarem livres de tal cidade, ou membros de corporação tal, ou descendentes de família tal; quando não é de todo por causa daquilo que é a evidência ou sinal, considerada em si mesma, que eles são admitidos a tal privilégio, mas apenas e puramente por causa daquilo que é evidência.

E embora Deus não precise de sinais para saber se temos fé verdadeira ou não, todavia nossas próprias consciências têm; de modo que é em grande parte para o nosso conforto que promessas são feitas a sinais de fé. Uma descoberta em nós mesmos de um temperamento e disposição perdoadores pode ser uma evidência mais adequada e natural para nossas consciências de que nossos corações têm, em um sentido de nossa própria indignidade absoluta, verdadeiramente encontrado e se unido ao caminho do perdão livre e infinitamente gracioso de nossos pecados, por meio de Jesus Cristo. Por esse motivo podemos ser habilitados com o maior conforto a aplicar a nós mesmos as promessas de perdão por meio de Cristo.

(3) Foi demonstrado precisamente agora de que modo os atos da obediência evangélica de fato dizem respeito a nossa justificação em si, e não são excluídos daquela condição da qual a justificação depende, sem o menor prejuízo a essa doutrina da justificação pela fé sem qualquer bondade nossa, que tem sido sustentada, e, portanto, não pode ser nenhuma objeção contra esta doutrina que temos, algumas vezes, promessas de perdão e aceitação feitas nas Escrituras a tais atos de obediência.

(4) Promessas de benefícios particulares, implícitas na justificação e na salvação, podem ser especialmente feitas adequadamente a tais expressões e evidências de fé, pois têm uma semelhança natural peculiar e adequação. Pois o perdão é prometido a um espírito perdoador em nós; obtenção de misericórdia é adequadamente prometida à misericórdia em nós; e assim por diante. E que em vários relatos são as evidências mais naturais da união do nosso coração a esses benefícios pela fé; pois eles mostram especialmente o doce acordo e o consentimento que há entre o coração e esses benefícios. E, em razão da semelhança natural que existe entre a virtude e o benefício, o primeiro tem maior tendência de trazer o segundo à mente; a prática da virtude tende mais a renovar o senso e refrescar a esperança da bênção prometida, e também a convencer a consciência da justiça de ser negado o benefício se o dever for negligenciado.

E, além disso, o senso e a manifestação do perdão divino em nossas próprias consciências, sim, e muitos exercícios da misericórdia perdoadora de Deus, pois dizem respeito ao descontentamento paternal de Deus, que são concedidos após a justificação ao longo da vida de um cristão, podem ser dados como recompensas adequadas da virtude de um espírito perdoador. E ainda assim isso não será de todo prejudicial a doutrina que sustentamos, como será plenamente evidente quando respondermos outra objeção, a ser mencionada daqui em diante.

Objeção 2. Nossa própria obediência e santidade inerentes são necessárias para preparar os homens para o céu, e, portanto, sem dúvida, é o que recomenda as pessoas à aceitação de Deus como herdeiros do céu. A isso eu respondo:

(1) Nossa própria obediência ser necessária como uma preparação para uma verdadeira concessão da glória não é argumento de que é a coisa em virtude da qual somos aceitos ao direito a ela. Deus pode, e faz, fazer muitas coisas para preparar os santos para a glória depois que ele os aceita como os herdeiros da glória. Um pai pode fazer muito para preparar um filho para a herança em sua educação depois que ele é herdeiro. Sim, há muitas coisas necessárias para qualificar um filho para a posse real da herança que não são necessárias para que ele tenha direito à herança.

(2) Se tudo que é necessário para preparar os homens para a glória deve ser a condição adequada da justificação, então a santidade perfeita é a condição da justificação. Os homens devem ser feitos perfeitamente santos antes que sejam admitidos ao gozo da bênção do céu; pois de forma alguma deve entrar ali qualquer contaminação espiritual. E, portanto, quando um santo morre, quando ele deixa o corpo, ele deixa todo o seu pecado e corrupção.

Objeção 3. Nossa obediência não está apenas indissoluvelmente ligada à salvação e é preparatória a ela, mas a Escritura fala expressamente de conceder bênçãos eternas como recompensa pelas boas obras dos santos. Mateus 10.42, “E quem der a beber, ainda que seja um copo de água fria, um destes pequenos, por ser este meu discípulo, em verdade vos digo que de modo algum perderá o seu galardão.” 1 Coríntios 3.8, “Cada um receberá o seu galardão, segundo o seu próprio trabalho.” E em muitos outros lugares. Isso parece militar contra a doutrina que tem sido sustentada de duas maneiras. Em primeiro lugar, a concessão de uma recompensa carrega em si uma consideração por uma aptidão moral, na coisa recompensada, à recompensa. A própria noção de uma recompensa como sendo um benefício concedido em testemunho da aceitação e do apreço para com a bondade ou amabilidade de alguma qualificação ou obra na pessoa recompensada. E, além disso, as Escrituras parecem explicarem-se nesta questão em Apocalipse 3.4, “Tens, contudo, em Sardes, umas poucas pessoas que não contaminaram as suas vestiduras e andarão de branco junto comigo, pois são dignas.” Isto é dado aqui como a razão pela qual elas deveriam ter tal recompensa, “pois são dignas”. O que, embora supomos que não implique em nenhum mérito propriamente dito, todavia pelo menos implica uma aptidão moral, ou que a excelência de sua virtude aos olhos de Deus as recomenda a tal recompensa; o que parece diretamente repugnante ao que foi suposto, a saber, que somos aceitos e aprovados por Deus, como herdeiros da salvação, não em consideração à excelência de nossa própria virtude ou bondade, ou qualquer aptidão moral nela para tal recompensa, mas apenas por causa da dignidade e aptidão moral da justiça de Cristo. Em segundo lugar, sermos eternamente recompensados por nossa própria santidade e boas obras, necessariamente pressupõe que nossa felicidade futura será maior ou menor em alguma proporção, visto que nossa própria santidade e obediência é mais ou menos. E que existem diferentes graus de glória de acordo com diferentes graus de virtude e de boas obras, é uma doutrina muito expressa e frequentemente ensinada nas Escrituras. Porém isso parece bastante inconsistente com todos os santos tendo sua bem-aventurança futura como recompensa da justiça de Cristo; pois se a justiça de Cristo for imputada a todos, e isso é o que dá a cada um o direito à glória, então é a mesma justiça que dá direito a um à glória que dá direito a outro; mas se todos têm glória como recompensa da mesma justiça, por que todos não têm a mesma glória? A mesma justiça não merece tanta glória quando imputada a um como quando imputada a outro?

Em resposta à primeira parte desta objeção, gostaria de observar que ela não afirma que somos justificados por nossas boas ações, que teremos bênçãos eternas como recompensa por elas; pois é em consequência de nossa justificação que nossas boas ações se tornam recompensáveis com recompensas espirituais e eternas. A aceitação, e assim a recompensa de nossa virtude, não é antecedente à justificação, mas a segue, e é construída inteiramente sobre ela. O que é o inverso do que supõem aqueles no esquema contrário de justificação, a saber, que a justificação é construída sobre a aceitabilidade e a recompensabilidade de nossa virtude. Eles supõem que um interesse salvador em Cristo é dado como recompensa por nossa virtude, ou (o que é a mesma coisa) como um testemunho da aceitação de Deus de nossa excelência, em nossa virtude. Porém o contrário é verdade; que a consideração de Deus por nossa virtude, como nossa amabilidade aos seus olhos e sua aceitação dela como recompensável, é inteiramente construída sobre o interesse em Cristo já estabelecido. De modo que a relação com Cristo, pela qual é dito que os crentes, na linguagem das Escrituras, estão em Cristo, é a própria base de nossas virtudes e boas ações serem aceitas por Deus, e assim serem recompensadas; pois uma recompensa é um testemunho de aceitação. Pois nós, e tudo o que fazemos, somos aceitos apenas “no Amado” (Efésios 1.6). Nossos sacrifícios são aceitáveis apenas por meio de nosso interesse nele, e por meio de sua dignidade e preciosidade sendo como feitas nossas. 1 Pedro 2.4-5, “Chegando-vos para ele, a pedra que vive, rejeitada, sim, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa, também vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo.” Aqui, um ser realmente construído sobre esta pedra, preciosa para Deus, é mencionado como o fundamento da aceitabilidade de nossas boas obras por Deus, e do tornarmo-nos também preciosos aos seus olhos. Assim, Hebreus 13.21, “Vos aperfeiçoe em todo o bem, para cumprirdes a sua vontade, operando em vós o que é agradável diante dele, por Jesus Cristo.” E, por isso, somos direcionados, o que quer que ofereçamos a Deus, para oferecê-lo em nome de Cristo, como esperando não tê-lo aceito de outra forma a não ser a partir da estima que Deus tem para com esse nome. Colossenses 3.17, “E tudo o que fizerdes, seja em palavra, seja em ação, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai.” Agir em nome de Cristo é agir sob ele, como nosso Cabeça, e como tendo-o como responsável por nós e nos representando diante de Deus.

A razão disso pode ser vista a partir do que já foi dito, mostrar que não é encontrado nada em nós que deva ser aceito por Deus, como por exemplo qualquer excelência nossa, até que estejamos realmente em Cristo e justificados por meio dele. A amabilidade da virtude das criaturas caídas não é nada aos olhos de Deus até que ele as veja em Cristo, e vestidas com sua justiça. Primeiro, porque até lá estamos condenados perante Deus por sua própria lei santa à sua total rejeição e aversão. E, segundo, porque somos infinitamente culpados diante dele, e a amabilidade de nossa virtude não tem proporção à nossa culpa; e, portanto, deve ser tomada como nada diante de um juiz rigoroso. E, terceiro, porque nossas boas ações e os próprios atos virtuosos são, em certo sentido, corruptos, e a odiosidade da corrupção deles, se formos contemplados como somos em nós mesmos, ou separados de Cristo, supera infinitamente a amabilidade do bem que está nelas. De modo que, se nenhum outro pecado for considerado, mas apenas o que se aplica ao ato da própria virtude, a amabilidade desaparece em nada em comparação com ela. E, portanto, a virtude deve ser tomada como nada fora de Cristo. Não apenas os nossos melhores deveres estão contaminados ao serem praticados com os exercícios do pecado e da corrupção que os precedem e os seguem, e estão misturados com atos santos, mas mesmo os próprios atos santos e os exercícios graciosos do piedoso, embora o ato mais simplesmente considerado seja bom, ainda assim tomar os atos em sua medida e dimensões, e a maneira como eles são exercidos, eles são atos corruptos; ou seja, eles são defeituosamente corruptos, ou pecaminosamente defeituosos. Há esse defeito neles, que pode muito bem ser chamado de corrupção deles; este defeito é propriamente pecado, expressão de uma pecaminosidade vil do coração, e o que tende a provocar a justa ira de Deus; não porque o exercício do amor e de outras graças não seja igual à amabilidade de Deus; pois é impossível que o amor das criaturas (homens ou anjos) seja assim, mas porque o ato é tão desproporcional à ocasião dada pelo amor ou por outra graça, considerando a amabilidade de Deus e a manifestação que é feita dela, e os exercícios de bondade, e a capacidade da natureza humana e nossas vantagens (e assim por diante) juntos. Uma expressão negativa da corrupção pode ser tão verdadeiramente pecado e tão justa causa de provocação quanto a positiva. Assim, se um homem, uma pessoa digna e excelente, deve, a partir da mera generosidade e bondade, dispor-se excessivamente, e deve, com grande despesa e sofrimento, salvar a vida de outro, ou redimi-lo de alguma calamidade extrema; e quando tiver feito tudo, esta outra pessoa nunca lhe agradeça por isso, ou de alguma maneira expresse a menor gratidão, esta seria uma expressão negativa de sua ingratidão e vileza, mas é equivalente a um ato de ingratidão, ou o exercício positivo de um vil espírito indigno, e é realmente uma expressão dele; e traz tanta culpa como se ele, por algum ato positivo, tivesse prejudicado muito outra pessoa. E assim seria (apenas em menor grau), se a gratidão, embora fosse muito pequena, não estando em proporção ao benefício e obrigação; como se ele não expressasse mais gratidão por uma bondade tão grande e extraordinária do que teria para com uma pessoa que lhe desse apenas um copo de água quando sedento, ou lhe mostrasse o caminho em uma jornada quando perdido ou lhe feito alguma pequena bondade. Se ele deve ir ao seu benfeitor para expressar sua gratidão e fazer segundo este costume, dele pode realmente ser dito agir indigna e odiosamente, ele mostra um espírito mais ingrato; e seu agir segundo tal costume poderia justamente ser abominável a todos. E ainda assim a gratidão, este pouco que há dela, considerada mais simplesmente, e até onde ela vai, é boa. E assim é com respeito ao nosso exercício de amor, gratidão e de outras graças para com Deus, eles são defeituosamente corruptos e pecaminosos; e tomá-los como são, em sua maneira e medida, podem justamente ser odiosas e provocantes a Deus, e necessariamente são assim se formos contemplados fora de Cristo. Pois de fato este defeito é pecado, ele é infinitamente odioso; e assim a odiosidade do próprio ato supera infinitamente a sua amabilidade; porque todo pecado tem odiosidade e crueldade infinitas, mas nossa santidade tem pouco valor e amabilidade como tem sido demonstrado em outros lugares.

Consequentemente, embora seja verdade que os santos são recompensados por suas boas obras, todavia é apenas por causa de Cristo não pela excelência de suas obras consideradas em si mesmas ou contempladas separadamente de Cristo; pois conforme foi mostrado eles não têm excelência aos olhos de Deus, ou aceitabilidade diante dele, como foi mostrado agora. É reconhecido que Deus, ao recompensar a santidade e as boas obras dos crentes, lhes dá felicidade em algum aspecto como um testemunho de sua consideração para com a beleza de sua santidade e boas obras aos seus olhos. Pois essa é a própria noção de recompensa, mas em um sentido muito diferente do que teria sido se o homem não tivesse caído; a qual teria sido conceder a vida eterna ao homem como um testemunho da consideração de Deus à amabilidade do que o homem fez, considerada como em si mesma e como no homem, separadamente por si mesmo e não visto como um membro de Cristo. Em cujo sentido também o esquema de justificação ao qual nos opomos necessariamente supõe, a excelência de nossa virtude a ser considerada e recompensada; pois supõe que um interesse salvador em Cristo em si deve ser dado como recompensa dele.

Duas coisas acontecem relacionadas com a recompensa dos santos por sua justiça inerente em virtude de sua relação com Cristo. Primeira, a culpa de suas pessoas está toda liquidada, e a poluição e a odiosidade que acompanham e estão dentro de suas boas obras estão escondidas. Segunda, sua relação com Cristo agrega um valor positivo e dignidade às suas boas obras aos olhos de Deus. Essa pequena santidade e aqueles débeis e fracos atos de amor e outras graças recebem um valor superior aos olhos de Deus em virtude de Deus contemplá-los como em Cristo, e como membros de alguém tão infinitamente digno aos seus olhos. E isso porque Deus olha para as pessoas como pessoas de maior dignidade por causa disto. Isaías 43.4, “Visto que foste precioso aos meus olhos, digno de honra.” Deus, por causa de Cristo e porque eles são membros de seu próprio Filho justo e amado, estabelece um valor superior em suas pessoas, e consequentemente segue que ele também estabelece um grande valor a seus bons atos e ofertas. O mesmo amor e obediência, em uma pessoa de maior dignidade e valor aos olhos de Deus, são mais preciosos aos seus olhos do que em uma de menor dignidade. O amor e o apreço (como foi observado antes) são preciosos proporcionalmente à dignidade da pessoa de quem é o amor; porque, na medida em que alguém dá seu amor a outro ele dá a si mesmo, nisto ele dá seu coração; mas esta é uma oferta mais excelente na proporção em que a pessoa cujo eu é oferecido é mais digna. Os crentes tornam-se imensamente mais honrados na avaliação de Deus em virtude de sua relação com Cristo do que o homem teria sido considerado por si mesmo, embora estivesse livre do pecado; como uma pessoa má torna-se mais honrosa quando casada com um rei. Por esta razão, Deus provavelmente recompensará o pequeno amor fraco e a obediência pobre e excessivamente imperfeita dos crentes em Cristo com uma recompensa mais gloriosa do que ele teria feito com a obediência perfeita de Adão. De acordo com o teor da primeira aliança, a pessoa deveria ser aceita e recompensada apenas por causa das obras, mas mediante a aliança da graça, as obras são aceitas e recompensadas apenas por causa da pessoa; a pessoa sendo contemplada antecedentemente como membro de Cristo e vestida com sua justiça. De modo que, embora a santidade inerente dos santos seja recompensada, todavia esta mesma recompensa não é, de fato, menos fundamentada na dignidade e na justiça de Cristo. Nada do valor que suas obras têm aos seus olhos, nem qualquer parte da aceitação que os santos têm com ele está fora de Cristo, e fora de sua justiça, mas sua dignidade como Mediador é a base principal e único fundamento sobre o qual tudo é construído, e a fonte universal de onde tudo surge. Deus realmente faz grandes coisas em relação à amabilidade dos santos, mas é apenas como uma amabilidade secundária e derivada, por assim dizer. Quando falo de uma amabilidade derivada, não quero dizer apenas que as próprias qualificações que são aceitas como amáveis são derivadas de Cristo, e vem do seu poder e compra, mas que a aceitação delas como amabilidade, e todo o valor que é colocado sobre elas, e toda a sua conexão com a recompensa, estão fundamentadas na, e são derivadas da justiça e da dignidade de Cristo.

Se supormos que não apenas graus mais elevados de glória no céu, mas o próprio céu, é em algum aspecto dado em recompensa pela santidade e boas obras dos santos, neste sentido secundário e derivativo, isto não prejudicará a doutrina que temos sustentado. Não é impossível que Deus conceda a glória do céu totalmente em apreço a justiça de Cristo, e ainda em recompensa pela santidade inerente do homem, em diferentes aspectos e modos diferentes. Pode ser apenas a justiça de Cristo que Deus considere, por sua própria causa, a aceitação independente e sua dignidade sendo suficientes em si mesmas para recomendar todo que crê em Cristo ao direito a esta glória; e assim pode ser apenas por isso que as pessoas tenham direito ao céu, ou tenham seu direito principal a ele; e ainda assim Deus também pode ter apreço pela própria santidade dos santos por causa de Cristo e como derivando um valor do mérito de Cristo, do qual ele pode testemunhar concedendo-lhes o céu. Os santos, sendo contemplados como membros de Cristo, sua obediência é vista por Deus como algo de Cristo, sendo a obediência dos membros de Cristo; como os sofrimentos dos membros de Cristo são vistos, em algum aspecto, como os sofrimentos de Cristo. Por isso o apóstolo, falando de seu sofrimento, diz, Colossenses 1.24, “Agora, me regozijo nos meus sofrimentos por vós; e preencho o que resta das aflições de Cristo, na minha carne.” Para o mesmo propósito é Mateus 25.35, etc. “Eu tive fome, estava nu, enfermo e na prisão”, etc. E assim em Apocalipse 11.8, “E o seu cadáver ficará estirado na praça da grande cidade que, espiritualmente, se chama Sodoma e Egito, onde também o seu Senhor foi crucificado.”

Mediante o mérito e a justiça de Cristo, tal favor de Deus para com o crente pode ser obtido, visto que Deus pode, por este meio, já estar, como estava, disposto a torná-los perfeita e eternamente felizes, mas isso ainda não atrapalha, senão que Deus, em sua sabedoria, pode optar por conceder essa felicidade perfeita e eterna desta forma, a saber, em algum aspecto como recompensa por sua santidade e obediência. Não é impossível, exceto que a bem-aventurança pode ser concedida como recompensa pelo que é feito depois que um interesse já é obtido nesse favor, o qual (falar de Deus segundo a maneira dos homens) desobriga Deus de conceder a bem-aventurança. Nosso Pai celestial já pode ter esse favor por um filho, por meio do qual ele pode estar completamente pronto para dar ao filho uma herança porque é seu filho; o que ele é mediante a compra da justiça de Cristo; e ainda assim isso não atrapalha, senão que deve ser possível que o Pai possa optar por conceder a herança ao filho como uma forma de recompensa por sua obediência e comportamento[21] se tornando um filho. E tão grande e excelente recompensa não pode ser considerada como mais do que uma recompensa apropriada por sua obediência; exceto que uma recompensa tão grande é considerada como apropriada não se origine da excelência da obediência, considerada absolutamente, mas de sua posição tão próxima e uma relação honrável com Deus, como a de um filho que é obtida apenas pela justiça de Cristo. E assim a recompensa, e a grandeza dela, surge adequadamente da justiça de Cristo, embora seja de fato, de algum tipo, a recompensa por sua obediência. Como um pai pode justamente avaliar a herança não mais do que uma recompensa apropriada pela obediência de seu filho, e ainda assim avaliá-la como mais do que uma recompensa apropriada pela obediência de um servo. O favor de onde o Pai celestial de um crente concede a herança eterna e seu título de herdeiro está fundamentado nessa relação na qual ele permanece como um filho comprado pela justiça de Cristo; embora ele, em sabedoria, escolha concedê-la de tal maneira, e desta maneira testemunhar sua aceitação da amabilidade de sua obediência em Cristo.

Os crentes, tendo direito ao céu mediante a fé antecedente à sua obediência, ou sendo absolutamente prometido a eles antes, não atrapalha senão que a verdadeira concessão do céu também pode ser um testemunho do apreço de Deus por sua obediência, embora realizada depois. Foi assim com Abraão, o pai e o padrão de todos os crentes. Deus lhe concedeu aquela bênção de multiplicar sua semente como as estrelas do céu, e de fazer com que em sua semente todas as famílias da terra fossem abençoadas, como recompensa por sua obediência ao oferecer ao seu filho Isaque. Gênesis 22.16-18, “E disse: Jurei, por mim mesmo, diz o Senhor, porquanto fizeste isso e não me negaste o teu único filho, que deveras te abençoarei e certamente multiplicarei a tua descendência como as estrelas dos céus e como a areia na praia do mar; a tua descendência possuirá a cidade dos seus inimigos, nela serão benditas todas as nações da terra, porquanto obedeceste à minha voz.” E, todavia, as mesmas bênçãos foram, de tempos em tempos, prometidas a Abraão nos termos mais positivos, e a promessa foi confirmada e selada com grande solenidade, como Gênesis 12.2-3; Gênesis 13.16; Gênesis 15.1, Gênesis 15.4-7, etc.; Gênesis 15.17, por toda parte; Gênesis 18.10, Gênesis 18.18.

A partir do que foi dito podemos facilmente resolver a dificuldade decorrente desse texto, em Apocalipse 3.4, “E andarão de branco junto comigo, pois são dignas.” O que é paralelo com aquele texto em Lucas 20.35, “Mas os que são havidos por dignos de alcançar a era vindoura e a ressurreição dentre os mortos...”. Permito (como na objeção) que essa dignidade denota, sem dúvida, uma aptidão moral para a recompensa, ou que Deus olhe para esses benefícios gloriosos como um testemunho apropriado de seu apreço para com o valor que suas pessoas e realizações têm aos seus olhos.

(1) Deus olha para esses benefícios gloriosos como um testemunho apropriado ao valor que suas pessoas têm aos seus olhos. Porém ele coloca esse valor sobre suas pessoas puramente por causa de Cristo. Elas são tais joias e têm tal preciosidade aos seus olhos apenas porque são contempladas em Cristo, e em razão da dignidade do cabeça, de quem são membros, e da linhagem na qual são enxertados. E esse valor que Deus lhes dá por causa disso é tão grande que Deus considera adequado, a partir da sua consideração, admiti-los a uma glória tão excelente. Os santos, por causa de sua relação com Cristo, são joias tão preciosas aos olhos de Deus que são considerados dignos de ocupar um lugar em sua própria coroa (Malaquias 3.17; Zacarias 9.16). Até onde é dito que os santos são valiosos aos olhos de Deus, em qualquer relato que seja assim, até aqui eles podem ser devidamente considerados dignos ou apropriados para essa honra que é responsável por esse valor ou preço que Deus lhes dá. Um filho, ou esposa de um príncipe, é digno de ser tratado com grande honra e, portanto, se uma pessoa miserável deve ser adotada como filho de um príncipe, ou deve ser desposada por um príncipe, seria apropriado dizer que essa pessoa era digna de tal e tal honra e respeito, e não haveria força nas palavras em dizer que ela deveria ter tal respeito dado a ela, pois ela é digna, embora seja apenas por causa de sua relação com o príncipe que é assim.

(2) A partir do valor que Deus coloca sobre suas pessoas, por causa da dignidade de Cristo, ele também estabelece um alto valor a suas virtudes e realizações. Seu espírito manso e quieto é de grande valor aos seus olhos. Seus frutos são frutos agradáveis, suas ofertas são um aroma de cheiro suave a ele; e isto por causa do valor que ele coloca sobre suas pessoas, como já foi observado e explicado. Essa preciosidade, ou alto valor dos crentes é uma aptidão moral para a recompensa e, todavia, essa preciosidade está toda na justiça de Cristo, que é o seu fundamento. A coisa que se deve considerar não é excelência neles, separadamente por si mesma, ou em sua virtude por si só, mas o valor que, surge na conta de Deus sobre outras considerações; que é a consequência natural do modo de expressão em Lucas 20.35, “Mas os que são havidos por dignos de alcançar a era vindoura”, etc. E Lucas 21.36, “Vigiai, pois, a todo tempo, orando, para que possais escapar de todas estas coisas que têm de suceder e estar em pé na presença do Filho do Homem.” 2 Tessalonicenses 1.5, “para que sejais considerados dignos do reino de Deus, pelo qual, com efeito, estais sofrendo.”

Há uma grande diferença entre esse esquema e o que é suposto no esquema daqueles que se opõem à doutrina da justificação somente pela fé. Este estabelece o fundamento da aceitação inicial de Deus, e toda a salvação real consequente sobre isto, inteiramente em Cristo e em sua justiça. O contrário, em seu esquema, uma consideração da própria excelência da virtude do homem é suposta ser primeira, e ter o lugar do primeiro fundamento na salvação, embora não naquela redenção ineficaz que eles supõem comum a todos. Eles estabelecem o fundamento de toda a salvação discriminatória na própria virtude e excelência moral do homem. Esta é a pedra angular nesta questão; pois eles supõem que é a partir do apreço por nossa virtude que até mesmo um interesse especial em Cristo é dado. O fundamento sendo assim contrário, todo o esquema se torna excessivamente diferente e contrário: um é um esquema evangélico, o outro, um legal; um é totalmente inconsistente com o nosso ser justificado pela justiça de Cristo, o outro de jeito nenhum.

A partir do que foi dito podemos entender o que foi mencionado anteriormente, a saber, como isso não é apenas o perdão do pecado que é concedido na justificação indissoluvelmente ligado a um espírito perdoador em nós, mas pode haver muitos exercícios de misericórdia perdoadora que podem ser devidamente concedidos em recompensa por nosso perdoar aqueles que pecam contra nós; pois ninguém negará que haja muitos atos de perdão divino em relação aos santos que não pressupõe um estado não justificado precedendo imediatamente esse perdão; ninguém negará que os santos, que nunca caíram da graça ou de um estado justificado, ainda cometem muitos pecados que Deus perdoa posteriormente, deixando de lado seu descontentamento paternal. Esse perdão pode ser em recompensa pelo nosso perdão, sem qualquer prejuízo à doutrina que tem sido sustentada, bem como outras misericórdias e bênçãos consequentes na justificação.

Com relação à segunda parte da objeção, que diz respeito aos diferentes graus de glória e a aparente inconsistência que existe nela, que os graus de glória em diferentes santos devem ser maiores ou menores de acordo com sua santidade inerente e as boas obras, e ainda que a glória de todos deve ser comprada com o preço da mesma justiça imputada.

Respondo que Cristo, mediante sua justiça, comprou felicidade completa e perfeita para cada um de acordo com sua capacidade, mas isso não impede senão que os santos, sendo de várias capacidades, podem ter vários graus de felicidade e, ainda assim, toda a sua felicidade ser o fruto da compra de Cristo. Na verdade, não pode ser dito adequadamente que Cristo comprou qualquer grau particular de felicidade, de modo que o valor da justiça de Cristo é suficiente aos olhos de Deus para elevar um crente tão alto, em felicidade, e não superior; e de modo que, se o crente fosse mais feliz excederia o valor da justiça de Cristo; porém, em geral, Cristo comprou a vida eterna, ou a perfeita felicidade para todos de acordo com suas várias capacidades. Os santos são como muitos navios, de diferentes tamanhos, lançados em um mar de felicidade, onde cada navio é completo; isto Cristo comprou para todos, mas afinal é deixado ao prazer soberano de Deus determinar a grandeza do navio; a justiça de Cristo não se intromete neste assunto. Efésios 4.4-7, “Há somente um corpo e um espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, etc.... E a graça foi concedida a cada um de nós segundo a proporção do dom de Cristo.” Deus pode administrar essa questão de acordo com qual regra ele quiser, não menos pelo que Cristo fez. Ele pode conceder sem condição, ou sobre aquela condição ele quiser estabelecer. É evidente que a justiça de Cristo não se intromete neste assunto; pois o que Cristo fez foi cumprir a aliança das obras; mas a aliança das obras não se intrometeu em nada disso. Se Adão tivesse perseverado em perfeita obediência, ele e sua posteridade teriam a felicidade perfeita e plena; a felicidade de cada um seria tão correspondente a sua capacidade que ele seria completamente abençoado, mas Deus teria a liberdade de fazer alguns de uma capacidade e outros de outra, como ele quisesse. Os anjos obtiveram vida eterna, ou um estado de glória confirmado por uma aliança de obras, cuja condição era obediência perfeita; mas, ainda assim, alguns são mais altos em glória do que outros de acordo com as várias capacidades[22] que Deus, de acordo com seu prazer soberano, lhes deu. Para que ainda fique com Deus, apesar da obediência perfeita do segundo Adão, o fixar o grau de capacidade de cada um, por qual regra ele quiser,[23] ele tem o prazer de estabelecer o grau de capacidade e, assim, de glória, mediante a proporção da graça e frutificação do santo aqui. Ele dá maiores graus de glória como recompensa por graus mais elevados de santidade e boas obras porque isto lhe agrada; e, ainda assim, toda a felicidade de cada santo é, de fato, o fruto da compra da obediência de Cristo. Se tivesse sido apenas um homem, por quem Cristo obedeceu e morreu, e tivesse agradado a Deus fazê-lo de uma capacidade muito grande, a perfeita obediência de Cristo teria comprado, esta sua capacidade deveria ser plena, e então toda a sua felicidade poderia ser adequadamente dita como o fruto da perfeita obediência de Cristo; embora se ele fosse de uma capacidade menor, ele não teria tanta felicidade mediante a mesma obediência; e ainda teria[24] tanto quanto Cristo merecia por ele. A justiça de Cristo não se intromete no grau de felicidade, qualquer outra coisa que ele merece que ela deve ser plena e perfeita, de acordo com a capacidade; e por isso pode-se dizer que diz respeito ao grau de felicidade, como um grau é perfeito com relação ao imperfeito; mas não se intromete com graus de perfeita felicidade.

Este assunto pode ser mais bem compreendido se considerarmos que Cristo e toda a igreja dos santos são, por assim dizer, um corpo, do qual ele é o cabeça e eles os membros de lugar e capacidade diferentes. Ora, todo o corpo, cabeça e membros, tem comunhão na justiça de Cristo, todos são participantes do seu benefício. O próprio Cristo é recompensado por ela, e cada membro é participante do benefício e da recompensa, mas não segue de forma alguma que cada parte deve participar igualmente do benefício; mas cada parte proporcionalmente ao seu lugar e capacidade. O cabeça participa de muito mais do que as outras partes, porque é de uma capacidade muito maior; e os membros mais nobres participam de mais do que os inferiores. Como ocorre em um corpo natural que goza de saúde perfeita, a cabeça, o coração e os pulmões têm maior porção dessa saúde, eles a têm mais localizada neles do que as mãos e os pés, porque são partes de maior capacidade; embora as mãos e os pés estejam em tão perfeita saúde quanto aquelas partes mais nobres do corpo. Assim ocorre no corpo místico de Cristo, todos os membros são participantes do benefício da justiça do cabeça; mas é de acordo com a capacidade e lugar diferentes que têm no corpo; e Deus determina esse lugar e capacidade como quiser; ele faz a quem lhe agrada o pé, e a quem lhe agrada a mão, e a quem lhe agrada os pulmões etc. 1 Coríntios 12.18, “Mas Deus dispôs os membros, colocando cada um deles no corpo, como lhe aprove.” Deus determina de modo eficaz o lugar e a capacidade de cada membro mediante os diferentes graus de graça e assistência no seu aperfeiçoamento aqui neste mundo. Aqueles que ele pretende colocar no lugar mais alto do corpo, ele lhes dá maior parte de seu espírito, maior porção da natureza divina, o espírito e a natureza de Cristo Jesus, o cabeça, e aquela assistência pela qual realizam as obras mais excelentes, e faz mais abundantes nelas.

Objeção 4. Pode ser objetado contra o que foi suposto, a saber, que as recompensas são dadas às nossas boas obras apenas em consequência de um interesse em Cristo, ou em testemunho o apreço de Deus para com a excelência ou o valor delas aos seus olhos, como construído sobre um interesse na justiça de Cristo já obtido; que a Escritura fala de um interesse em Cristo em si como sendo dado em consideração à nossa aptidão moral. Mateus 10.37-39, “Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim; quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim não é digno de mim; e quem não toma a sua cruz e vem após mim não é digno de mim. Quem acha a sua vida perdê-la-á;” etc. Dignidade (excelência) aqui, significa pelo menos aptidão moral ou excelência ou virtude que recomenda; e esta colocação parece sugerir como se fosse a partir da consideração de uma aptidão moral que os homens são admitidos a uma união com Cristo e interesse nele, e por isso essa dignidade não pode ser consequente a um estar em Cristo, e pela imputação da sua dignidade, ou de qualquer valor que esteja em nós ou em nossas ações aos olhos de Deus, como visto em Cristo.

A isso respondo que, embora as pessoas, quando são aceitas, não são aceitas como dignas, todavia, quando são rejeitadas, elas são rejeitadas como indignas. Aquele que não ama a Cristo acima das outras coisas, que o trata com tal indignidade, visto que o coloca abaixo das coisas terrenas, será tratado como indigno de Cristo. Sua indignidade de Cristo, especialmente nesse particular, será assinalada contra ele e imputada a ele; e embora ele seja um cristão professo, viva no gozo do evangelho, foi visivelmente enxertado em Cristo e admitido como um de seus discípulos, como Judas foi, todavia ele deve ser posto para fora em ira, como uma punição por seu tratamento vil para com Cristo. As palavras supracitadas não implicam que se um homem ama a Cristo mais que pai e mãe etc., que ele seja digno; o máximo que elas implicam é que tal cristão visível deve ser tratado e posto para fora como indigno. Aquele que crê não é recebido pela dignidade ou pela aptidão moral da fé, mas ainda assim o cristão visível é expulso por Deus pela indignidade e pela inaptidão moral da incredulidade. Ser aceito como um de Cristo não é a recompensa do crer, mas ser posto para fora do ser um dos discípulos de Cristo, após uma admissão visível como tal, é uma punição apropriada pela incredulidade. João 3.18-19, “Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não creu no nome do unigênito Filho de Deus. O julgamento é este: que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz; porque as suas obras eram más.” A salvação é prometida à fé como um presente gratuito, mas a incredulidade é ameaçada com a condenação como uma dívida, ou a punição devida à incredulidade. Aqueles que creram no deserto não entraram em Canaã por causa da dignidade de sua fé, mas Deus jurou em sua ira que aqueles que não creram não deveriam entrar por causa da indignidade da sua incredulidade. O admitir uma alma a uma união com Cristo é um ato da livre e soberana graça, mas excluir, por meio da morte e do dia do julgamento, aqueles professos do cristianismo que tiveram a oferta de um Salvador e gozaram dos grandes privilégios como o povo de Deus é um processo judicial e uma punição justa por seu tratamento indigno para com Cristo. O motivo desta declaração de Cristo é torná-los conscientes da indignidade de seu tratamento para com Cristo, que o professavam como seu Senhor e Salvador e o colocavam abaixo de pai e mãe etc., e não os persuadir da dignidade de amá-lo mais do que pai e mãe. Se for oferecido a um mendigo algum grande e precioso presente, mas, assim que for oferecido, for pisoteado sob seus pés, o presente pode ser tirado dele como indigno de tê-lo; ou se for oferecido perdão a um malfeitor, o qual poderia livrá-lo da execução, e este apenas zombar dele, seu perdão pode lhe ser negado como indigno dele; embora se ele o tenha recebido ele não o tinha por sua dignidade, ou como sendo recomendado a ele por sua virtude; supõe-se sua indignidade por ser um malfeitor, e o ser oferecido a ele para tê-lo apenas ao aceitar supõe que o rei não procura nenhuma dignidade, nada nele pelo que deve conceder perdão como recompensa. Isso pode nos ensinar a entender Atos 13.46, “Cumpria que a vós outros, em primeiro lugar, fosse pregada a palavra de Deus; mas posto que a rejeitais e a vós mesmos vos julgais indignos da vida eterna, eia aí que nos voltemos para os gentios.”

Objeção 5. É objetado contra a doutrina da justificação somente pela fé que o arrependimento é expresso, de modo evidente nas Escrituras, como aquilo que é, de uma forma especial, a condição para a remissão dos pecados. Porém a remissão dos pecados é admitida por todos ser aquilo no que a justificação consiste (pelo menos) em grande parte.

Não obstante, certamente deve surgir de um mal entendimento do que as Escrituras dizem sobre o arrependimento supor que fé e arrependimento sejam duas coisas distintas; que, de forma semelhante, são as condições da justificação. Pois é muitíssimo claro, a partir das Escrituras, que a condição da justificação, ou aquilo em nós pelo que somos justificados, é apenas uma e esta é a fé. Fé e arrependimento não são duas condições distintas para a justificação, nem são duas coisas distintas que juntas formam toda condição para a justificação; mas a fé compreende tudo aquilo pelo que somos justificados, ou pelo que passamos a ter interesse em Cristo, e não há mais nada que tenha participação paralela com ela no caso de nossa salvação. E disto os teólogos do outro lado estão conscientes, e por isso eles supõem que essa fé, da qual o apóstolo Paulo fala, pela qual ele diz que somente somos justificados, compreende em si o arrependimento.

E, portanto, em resposta à objeção, eu diria que, quando o arrependimento é mencionado nas Escrituras como a condição para o perdão, não se pretende com isso qualquer graça particular ou ato propriamente distinto da fé, que tenha uma influência paralela com ela na questão do nosso perdão ou justificação; mas por arrependimento não se pretende nada distinto da conversão ativa (ou conversão ativamente considerada), pois diz respeito ao termo do qual. A conversão ativa é um movimento ou exercício da mente que diz respeito a dois termos, a saber, pecado e Deus. E por arrependimento se quer dizer essa conversão ou mudança ativa da mente, na medida em que se está familiarizado com o termo do qual, ou com o termo pecado. Isto é o que a palavra arrependimento propriamente significa; a qual, no original do Novo Testamento, é metanoia, que significa uma mudança de mente ou, o que é a mesma coisa, a virada ou a conversão da mente. O arrependimento é essa virada, pois diz respeito ao do que se é virado. Atos 26.19-20, “Pelo que, ó rei Agripa, não fui desobediente à visão celestial, mas anunciei primeiramente aos de Damasco e em Jerusalém, por toda a região da Judeia, e aos gentios, que se arrependessem e se convertessem a Deus.” Ambos (arrependimento e conversão) são a mesma virada, mas apenas no que diz respeito a termos opostos; na primeira é expressa o exercício da mente acerca do pecado nesta virada, na outra, o exercício da mente em relação a Deus.

Se considerarmos as Escrituras que falam do arrependimento evangélico, logo veremos que o arrependimento deve ser compreendido nesse sentido; como Mateus 9.13, “Pois não vim chamar justos, mas pecadores ao arrependimento.” Lucas 13.3, “Se, porém, não vos arrependerdes, todos igualmente perecereis.” E Lucas 15.7, Lucas 15.10, “Haverá maior júbilo no céu por um pecador que se arrepende”, ou seja, por um pecador que é convertido. Atos 11.18, “Logo, também aos gentios foi por Deus concedido o arrependimento para a vida.” Isso é dito pelos cristãos da circuncisão em Jerusalém, após Pedro dar um relato sobre a conversão de Cornélio e sua família, e sua adoção do evangelho, embora Pedro não tivesse dito expressamente nada sobre sua tristeza pelo pecado. E novamente, Atos 17.30, “Agora, porém, notifica aos homens que todos, em toda parte, se arrependam.” E Lucas 16.30, “Não, pai Abraão, se alguém dentre os mortos for ter com eles, arrepender-se-ão.” 2 Pedro 3.9, “Não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a julgam demorada; pelo contrário, ele é longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento.” Fica claro que, nestes e em outros lugares, por arrependimento se quer dizer conversão.

Agora, é verdade que conversão é a condição para o perdão e a justificação. Entretanto, se for assim, quão absurdo é dizer que a conversão é uma condição para a justificação, e a fé, outra; como se fossem duas condições separadamente distintas e paralelas? Conversão é a condição para a justificação porque é aquela grande mudança pela qual somos levados do pecado para Cristo, e pela qual nos tornamos crentes nele; de acordo com Mateus 21.32, “Vós, porém, mesmo vendo isto, não vos arrependestes, afinal, para acreditardes nele.” Quando somos dirigidos ao arrependimento para que nossos pecados sejam apagados é tanto quanto dizer: “Que suas mentes e corações sejam mudados para que seus pecados sejam apagados”. Porém se for dito: “Que seus corações sejam mudados para que você seja justificado”; e também dito: “Creia para que você seja justificado”; seguirá, portanto, que o coração ser mudado é uma condição para a justificação, e crer, outra? Porém nossas mentes devem ser mudadas para que possamos crer e, assim sermos justificados.

Além disso, o arrependimento evangélico, sendo conversão ativa, não deve ser tratado como uma graça particular, própria e inteiramente distinta da fé, como parece ter sido conforme alguns. O que é conversão, exceto a união da alma pecaminosa alienada com Cristo, ou o pecador ser levado a crer em Cristo? Esse exercício da alma que existe na conversão, que diz respeito ao pecado, não pode ser excluído da natureza da fé em Cristo. Há algo na fé ou no unir-se a Cristo que diz respeito ao pecado, e este é o arrependimento evangélico. Este arrependimento que, na Escritura, é chamado de “arrependimento para a remissão dos pecados”, é aquele princípio ou operação da própria mente, que é chamado de fé na medida em que está relacionado ao pecado. A fé justificadora em um Mediador está relacionada a duas coisas: está relacionada ao pecado ou ao mal, ser rejeitado e ser libertado dele pelo Mediador, e ao bem positivo a ser aceito e obtido pelo Mediador; quando relacionado ao primeiro destes, é arrependimento evangélico ou arrependimento para a remissão dos pecados. Certamente devem ser muito ignorantes ou, pelo menos, muito desatentos de todo o conteúdo do evangelho, aqueles que pensam que esse arrependimento pelo qual a remissão dos pecados é obtida pode ser completado, quanto a tudo o que é essencial a ele, sem qualquer referência a Cristo, ou aplicação da mente ao Mediador que fez expiação pelo pecado sozinho. Certamente uma parte tão grande da salvação como a remissão dos pecados não deve ser obtida sem olhar para ou vir ao grande e único Salvador. O verdadeiro arrependimento, em sua natureza abstrata mais geral, é apenas uma tristeza pelo pecado e abandono dele, o que é um dever da religião natural; mas o arrependimento evangélico, ou o arrependimento para a remissão dos pecados, tem mais do que este princípio básico consigo; uma dependência da alma no Mediador para a libertação do pecado é da sua essência.

Que o arrependimento justificador tem a natureza da fé parece evidente por Atos 19.4, “Disse-lhes Paulo: João realizou o batismo de arrependimento, dizendo ao povo que cresse naquele que vinha depois dele, a saber, em Jesus.” As últimas palavras: “dizendo ao povo que cresse naquele”, etc. são evidentemente exegética das primeiras e explicam como ele pregou o arrependimento para a remissão dos pecados. Quando se diz que ele pregou arrependimento para a remissão dos pecados, dizendo que eles deviam crer em Cristo, nada pode ser suposto exceto que é pretendido que sua declaração para que cressem em Cristo era como que dirigindo-os ao que fazer para que pudessem obter a remissão dos pecados. Assim 2 Timóteo 2.25, “Disciplinado com mansidão os que se opõem, na expectativa de que Deus lhes conceda não só o arrependimento para conhecerem plenamente a verdade.” Esse conhecimento da verdade que há no crente é mencionado aqui como o que é obtido no arrependimento. E, por outro lado, a fé inclui o arrependimento em sua natureza, é evidente pelo discurso do apóstolo sobre o pecado como destruído na fé (Gálatas 2.18). Nos versículos anteriores, o apóstolo menciona uma objeção contra a doutrina da justificação somente pela fé, a saber, que ela tende a encorajar os homens no pecado e, assim, faz de Cristo o ministro do pecado. Ele rejeita esta objeção e a refuta com isso: “Porque, se torno a edificar aquilo que destruí, a mim mesmo me constituo transgressor.” Se o pecado deve ser destruído pela fé, isto deve ser feito pelo arrependimento do pecado incluído nele; pois sabemos que é nosso arrependimento do pecado, ou a metanoia, ou a volta da mente do pecado, que é a nossa destruição do nosso pecado.

Que na fé justificadora, que diz respeito diretamente o pecado, ou o ser libertado do mal pelo Mediador, é como segue: um senso de nossa própria pecaminosidade, da sua odiosidade, e um reconhecimento genuíno de seu merecimento da punição ameaçada, que olha para a livre misericórdia de Deus em um Redentor para a libertação dele e de sua punição.

Quanto a isso, aqui descrito, três coisas podem ser observadas: primeira, que é o mesmo com aquele arrependimento evangélico ao qual a remissão dos pecados é prometida nas Escrituras; segunda, que tudo isso é da essência da fé justificadora, e é o mesmo com essa fé na medida em que está relacionada ao mal do qual ser liberto pelo Mediador; terceira, que esta é, de fato, a condição própria e peculiar da remissão dos pecados.

(1) Tudo isso é essencial ao arrependimento evangélico e é, de fato, a mesma coisa pretendida por esse arrependimento ao qual a remissão dos pecados é prometida no evangelho. Quanto à parte anterior da descrição, a saber, um senso de nossa própria pecaminosidade, a sua odiosidade e um reconhecimento genuíno de seu merecimento de ira, ninguém negará que esteja incluso no arrependimento. Entretanto, isso não abrange toda a essência do arrependimento evangélico, mas o que segue também pertence própria e essencialmente à sua natureza, olhar para a livre misericórdia de Deus em um Redentor, para a libertação dele e de sua punição. Esse arrependimento ao qual a remissão é prometida não apenas tem isso sempre consigo, mas está contido nele como o que é da sua natureza e essência próprias. E a natureza do arrependimento sempre diz respeito a isso quando a remissão lhe é prometida; e é especialmente a partir do que diz respeito a isso na natureza do arrependimento que tem essa promessa feita a ele. Se esta última parte for omitida, a natureza desse arrependimento evangélico ao qual a remissão dos pecados é prometida falha. Se o arrependimento fica na tristeza pelo pecado e não se estende a um olhar para a livre misericórdia de Deus em Cristo para o perdão, não é aquilo que é a condição do perdão nem deve ser obtido por ele. O arrependimento evangélico é uma humilhação diante de Deus por causa do pecado, mas o pecador nunca vem e se humilha diante de Deus em qualquer outro arrependimento exceto aquele que inclui uma esperança em sua misericórdia para a remissão. Se sua tristeza não for acompanhada disso, não haverá vinda a Deus nela, mas um voo para longe dele. Há alguma adoração de Deus no arrependimento justificador, mas não há em nenhum outro arrependimento, exceto aquele que tem um senso de pecado e fé na misericórdia divina para perdoar o pecado. Salmo 130.4, “Contigo, porém, está o perdão, para que te temam.” A promessa de misericórdia a um verdadeiro penitente, em Provérbios 28.13, é expressa nestes termos: “Mas o que as confessa e deixa alcançará misericórdia.” Porém há fé na misericórdia de Deus nessa confissão. O salmista, no Salmo 32, falando da bênção sobre o homem cuja transgressão é perdoada e cujo pecado é coberto, a quem o Senhor não imputa pecado, diz que, enquanto ele se mantinha em silêncio, seus ossos envelheceram, mas então ele reconheceu seu pecado diante de Deus, não escondeu sua iniquidade; ele disse que confessaria sua transgressão ao Senhor e, então, Deus perdoaria a iniquidade de seu pecado. A forma de expressão mostra claramente que então ele começou a encorajar-se na misericórdia de Deus, quando seus ossos envelheciam enquanto ele mantinha silêncio; e, por isso, o apóstolo Paulo, em Romanos 4, traz este exemplo para confirmar a doutrina da justificação somente pela fé, na qual ele vinha insistindo. Quando o pecado é corretamente confessado a Deus, há sempre fé nesse ato. Esta confissão do pecado que está unida ao desespero, como ocorreu com Judas, não é a confissão à qual a promessa é feita. Em Atos 2.38, a orientação, dada àqueles que estavam atormentados em seus corações com um senso de culpa pelo pecado, foi para se arrependerem e serem batizados no nome de Jesus Cristo para a remissão de seus pecados. O ser batizado no nome de Cristo para a remissão dos pecados implicava em fé em Cristo para a remissão dos pecados. O arrependimento para a remissão dos pecados era tipificado antigamente pela confissão do sacerdote dos pecados do povo sobre o bode expiatório ao colocar as mãos sobre ele (Levítico 16.21), indicando que é somente este arrependimento e confissão do pecado que obtém a remissão que é feita através do bode expiatório, através de Cristo, o grande sacrifício, e na dependência dele. Muitas outras coisas podem ser produzidas a partir das Escrituras que confirmam de maneira semelhante este ponto, mas estes podem ser suficientes.

(2) Toda a descrição mencionada acima é sobre a essência de fé justificadora e não diferente dela, na medida em que está relacionada ao pecado ou ao mal do qual ser liberto pelo Mediador. Pois é, sem dúvida, da essência da fé justificadora abraçar a Cristo como Salvador do pecado e da sua punição, e tudo o que está contido nesse ato está contido na natureza própria da fé. Porém no ato de abraçar a Cristo como Salvador do nosso pecado e de sua punição está implícito um senso do nosso pecado e um ódio a nossos pecados, ou uma rejeição deles com aversão, e um senso de nosso merecimento de sua punição. Um abraçar a Cristo como Salvador do pecado implica no ato contrário para com o pecado, a saber, a rejeição do pecado. Se voarmos para a luz para sermos libertado da escuridão, o mesmo ato é contrário à escuridão, a saber, uma rejeição dela. Na proporção à seriedade ou apetite com que abraçamos a Cristo como Salvador do pecado, na mesma proporção é a aversão com que rejeitamos o pecado, no mesmo ato. Sim, se supormos que haja, na natureza da fé como relacionada ao pecado, não mais do que o abraçar sincero a Cristo como Salvador da punição do pecado, este ato implicará em toda a descrição acima mencionada. Implica num senso de nossa própria pecaminosidade. Certamente, no abraçar sincero de um Salvador da punição de nossa pecaminosidade há o exercício de um senso de nossa pecaminosidade, ou que somos pecadores. Não podemos abraçar sinceramente a Cristo como um Salvador da punição do que não estamos conscientes de que somos culpados. Há também, no mesmo ato, um senso do nosso merecimento da punição ameaçada. Não podemos abraçar sinceramente a Cristo como um Salvador daquilo de que não estamos conscientes de que merecemos. Pois se não estamos conscientes de que merecemos a punição, não estaremos conscientes de que tenhamos qualquer necessidade de um Salvador ou, pelo menos, não estaremos convencidos exceto de que Deus, que oferece o Salvador, o torna injustamente necessário; e não podemos aceitar essa oferta sinceramente. E, além disso, há implícito em um abraçar sinceramente a Cristo como o Salvador da punição não apenas uma convicção de consciência de que merecíamos a punição tal como os demônios e os condenados têm, mas há um reconhecimento sincero dela com a submissão da alma, assim como a concordância do coração, em reconhecer que Deus pode ser justo e correto na punição. Se o coração se ergue contra o ato ou julgamento de Deus ao nos responsabilizar pela punição, quando ele nos oferece seu Filho como Salvador da punição, não podemos, com o consentimento do coração, recebê-lo nessa qualidade. Porém, se as pessoas se submeterem à justiça de uma punição tão terrível do pecado, isso carrega em si um ódio ao pecado.

Que tal senso de nossa pecaminosidade, de total indignidade e de merecimento de punição pertence à natureza da fé salvadora é o que as Escrituras de tempos em tempos parecem exibi; como particularmente em Mateus 15.26-28, “Então, ele, respondendo, disse: Não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos. Ela, contudo, replicou: Sim, Senhor, porém os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus donos. Então, lhe disse Jesus: Ó mulher, grande é tua fé!” E Lucas 7.6-9, “O centurião enviou-lhe amigos para lhe dizer: Senhor não te incomodes, porque não sou digno de que entres em minha casa. Por isso, eu mesmo não me julguei digno de ir ter contigo; porém manda com uma palavra, e o meu rapaz será curado. Porque também sou homem sujeito à autoridade” etc. “Ouvidas estas palavras, admirou-se Jesus dele e, voltando-se para o povo que o acompanhava, disse: Afirmo-vos que nem mesmo em Israel achei fé como esta.” E também Lucas 7.37-38, “E eis que uma mulher da cidade, pecadora, sabendo que ele estava à mesa na casa do fariseu, levou um vaso de alabastro com unguento; e, estando por detrás, aos seus pés, chorando, regava-os com suas lágrimas e os enxugava com os seus próprios cabelos; beijava-lhe os pés e os ungia com o unguento.” Junto com Lucas 7.50, “Mas Jesus disse à mulher: A tua fé te salvou; vai-te em paz.”

Essas coisas não pressupõe necessariamente que arrependimento e fé sejam apenas palavras com o mesmo significado; pois é somente assim na fé justificadora quando diz respeito ao mal do qual ser liberto pelo Salvador, que é chamado de arrependimento. E, além disso, tanto o arrependimento quanto a fé, tomam-nas apenas em sua natureza geral, e elas são totalmente distintas; arrependimento é uma tristeza pelo pecado e abandono dele; e a fé é um confiança na suficiência e na verdade de Deus. Porém fé e arrependimento, como deveres evangélicos, ou fé justificadora e arrependimento para a remissão dos pecados, contêm mais em si, implicam numa consideração para com um Mediador e envolvem-se um na natureza do outro;[25] embora seja verdade que eles ainda carregam o nome de fé e arrependimento, a partir daquelas virtudes morais gerais, aquele arrependimento que é um dever da religião natural e aquela fé que era um dever exigido sob a primeira aliança, que estão contidos neste ato evangélico; as quais aparecem separadamente quando este ato é considerado com relação a seus diferentes termos e objetos com os quais está relacionado.

Pode ser objetado aqui que as Escrituras, às vezes, mencionam fé e arrependimento juntos, como se fossem coisas inteiramente distintas; como em Marcos 1.15.

Marcos 1.15, “Arrependei-vos e crede no evangelho.” Porém não há necessidade de entendê-las como duas condições distintas de salvação, mas as palavras são explicativas uma da outra. É para nos ensinar acerca de que maneira devemos nos arrepender, a saber, como crer no evangelho, e acerca de que maneira devemos crer no evangelho, a saber, como nos arrependermos. Estas palavras não provam que fé e arrependimento são totalmente distintos mais do que aquelas supramencionadas. Mateus 21.32, Vós, porém, mesmo vendo isto, não vos arrependestes, afinal, para acreditardes nele.” Ou aquelas em 2 Timóteo 2.25, “Na expectativa de que Deus lhes conceda não só o arrependimento para conhecerem plenamente a verdade.” O apóstolo em, Atos 19.4, parece fazer referência a estas palavras de João Batista, “João realizou o batismo de arrependimento, dizendo ao povo que cresse”, etc., onde as últimas palavras, como já observamos, são para explicar como ele pregou o arrependimento.

Outra Escritura onde a fé e o arrependimento são mencionados juntos são Atos 20.21, “Testificando tanto a judeus como a gregos o arrependimento para com Deus e fé em nosso Senhor Jesus Cristo.” Pode ser objetado que, neste lugar, fé e arrependimento não são expressos apenas como coisas distintas, mas como tendo objetos distintos.

A isso eu respondo que é verdade que a fé e o arrependimento, em sua natureza geral, são coisas distintas. E arrependimento para a remissão dos pecados, ou que a fé justificadora que diz respeito ao mal do qual ser liberto, na medida em que se referem a esse termo, que é o que especialmente se denomina arrependimento, diz respeito a Deus como o objeto, porque ele é o Ser ofendido pelo pecado e a ser reconciliado, mas que, neste ato justificante, por isso é denominado fé, diz respeito mais especialmente a Cristo. Porém a interpretemos como quisermos, a objeção da fé como estando aqui mais ou menos distinta de arrependimento, é tanto uma objeção contra o esquema daqueles que se opõem à justificação somente pela fé como contra este esquema; pois eles sustentam que a fé justificadora da qual o apóstolo Paulo fala inclui arrependimento, como já foi observado.

(3) Este arrependimento descrito é, de fato, a condição especial para a remissão dos pecados. Isso parece muito evidente pelas Escrituras, como particularmente, Marcos 1.4, “Apareceu João Batista no deserto, pregando o batismo do arrependimento para remissão de pecados.” Igualmente Lucas 3.3, “Ele percorreu toda a circunvizinhança do Jordão, pregando batismo de arrependimento para remissão de pecados.” Lucas 24.47, “E que em seu nome se pregasse arrependimento para remissão de pecados a todas as nações.” Atos 5.31, “Deus, porém, com a sua destra, o exaltou a Príncipe e Salvador, a fim de conceder a Israel o arrependimento e a remissão de pecados”; Atos 2.38, “Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão de pecados”; e Atos 3.19, “Arrependei-vos, pois, e convertei-vos para serem cancelados os vossos pecados.”. O mesmo é evidente por meio de Levítico 26.40-42, Jó 33.27-28, Salmo 32.5, Provérbios 28.13, Jeremias 3.13 e 1 João 1.9 e em outros lugares.

E a razão pode ser evidente a partir do que foi dito. Não é preciso imaginar que, aquilo na fé que diz respeito especialmente ao pecado, seja especialmente a condição para a remissão dos pecados; ou que este movimento ou exercício da alma, quando ela rejeita e foge do mal e abraça Cristo como seu Salvador, deve ser especialmente a condição de estar livre desse mal; da mesma forma que o mesmo princípio ou movimento, quando busca o bem e se apega a Cristo como o provedor desse bem, deve ser a condição de obter esse bem. A fé em relação ao bem é aceitação, e com respeito ao mal é rejeição. Sim, este mal rejeitado é em si um ato de aceitação; é aceitar a liberdade ou a separação desse mal; e essa liberdade ou separação é o benefício concedido na remissão. Não é de admirar que, aquilo na fé que diz respeito imediatamente esse benefício, e é a nossa aceitação desse benefício, deve ser a condição especial para tê-lo. É assim em relação a todos os benefícios que Cristo adquiriu. Confiar em Deus por meio de Cristo para um benefício particular que precisamos é a condição especial para se obter esse benefício. Quando precisamos de proteção contra inimigos, o exercício da fé em relação a este benefício, ou confiar em Cristo para proteção contra inimigos, é especialmente a maneira de se obter esse benefício particular em vez de confiar em Cristo para alguma outra coisa; e assim com relação a qualquer outro benefício que possa ser mencionado. Assim, a oração (que é a expressão da fé) por uma misericórdia particular necessária é especialmente a maneira de obter essa misericórdia.[26]

De modo que vemos que nenhum argumento pode ser extraído daqui, portanto, contra a doutrina da justificação somente pela fé. E há na natureza do arrependimento aquilo que peculiarmente tende a estabelecer o contrário da justificação pelas obras. Pois nada rejeita tanto a nossa própria dignidade e excelência quanto o arrependimento; sua própria natureza é reconhecer nossa completa pecaminosidade própria, indignidade absoluta, rejeitar a nossa própria bondade e toda a confiança em si mesmo; e assim confiar na propiciação do Mediador e atribuir toda a glória do perdão a ele.

Objeção 6. A última objeção que mencionarei é aquele parágrafo em Tiago 2, onde é dito expressamente que as pessoas são justificadas por obras; Tiago 2.21: “Não foi por obras que Abraão, o nosso pai, foi justificado?” Tiago 2.24, “Verificais que uma pessoa é justificada por obras e não por fé somente.” Tiago 2.25, “De igual modo, não foi também justificada por obras a meretriz Raabe?” Em resposta a esta objeção, eu

(1) Tomaria conhecimento da grande deslealdade dos teólogos que se opõem a nós no proveito que fazem desta passagem contra nós. Todos admitirão que, nessa proposição de São Tiago, “Uma pessoa é justificada pelas obras e não pela fé somente”, um dos termos, seja a palavra , ou outra, a palavra justificar, não deve ser compreendida precisamente no mesmo sentido, como os mesmos termos quando usados por São Paulo; porque nossos adversários, assim como nós, supõem[27] que não era a intenção do apóstolo Tiago contradizer São Paulo nessa doutrina da justificação somente pela fé, na qual ele havia instruído as igrejas, mas se entendermos ambos os termos como usados por cada apóstolo precisamente no mesmo sentido, então o que um afirma é uma contradição precisa, direta e completa do outro; um afirmando e o outro negando a mesma coisa. De modo que toda a controvérsia deste texto chega a isso, a saber, qual desses dois termos deve ser compreendido de modo diferente de São Paulo. Eles dizem que é a palavra ; pois eles supõem que, quando o apóstolo Paulo usa a palavra e faz da fé aquilo pelo que somente somos justificados, a qual então, por isso, deve ser entendida em conformidade com a prática do cristianismo em geral; de modo a incluir toda a virtude e obediência cristãs salvadoras. Porém, visto que o apóstolo Tiago usa a palavra neste lugar, eles supõem por meio disso que deve ser entendido apenas um consentimento favorável da compreensão da verdade das doutrinas evangélicas como distinta das boas obras, e que pode existir separada delas e de toda graça salvadora. Nós, por outro lado, supomos que a palavra justificar deve ser entendida em um sentido diferente do usado pelo apóstolo Paulo. De modo que eles são forçados a ir tão longe, em seu esquema, ao ponto de alterar o sentido dos termos do uso que Paulo faz deles, como nós. Mas, ao mesmo tempo em que eles mudam livremente o sentido do primeiro deles, a saber, , todavia, quando entendemos o último, a saber, justificar, em um sentido diferente do de São Paulo, eles nos criticam: “Qual a necessidade de conceber essa distinção senão apenas para servir a uma opinião? Nesse caso, um homem pode afirmar qualquer coisa, embora nunca tão contrário às Escrituras, e esquivar-se do texto mais claro da Bíblia!” Embora eles não nos mostrem por que não temos um bom fundamento para entender a palavra justificar de modo diferente do de São Paulo, como eles da palavra fé. Se o sentido de uma das palavras deve ser mudado em cada esquema a fim de tornar a doutrina do apóstolo Tiago consistente com a do apóstolo Paulo, e a mudança de sentido de um termo ou do outro ser tudo o que está no caminho de sua concordância com cada esquema, e a mudança de sentido do último ser em si mesma tão justa quanto a do primeiro, então o texto é tão favorável a um esquema como ao outro, e não pode ser uma objeção mais sólida contra o nosso esquema do que contra o deles. E, se assim for, o que acontece com toda essa grande objeção a partir desta passagem em Tiago?

(2) Se não houver maior dificuldade em se mudar o sentido de um desses termos do que do outro, a partir de qualquer coisa no texto em si, de modo a fazer as palavras se adequarem a qualquer esquema, então certamente deve ser escolhido o que está em mais conformidade com o fluxo das Escrituras, e outros lugares onde a mesma matéria é mais particular e plenamente tratada; e por esta razão devemos entender a palavra justificar, nesta passagem de Tiago, em um sentido em algum aspecto diferente daquele em que São Paulo o utiliza. Pois, pelo que já foi dito, pode parecer que não há uma doutrina em toda a Bíblia que seja mais plenamente afirmada, explicada e realçada do que a doutrina da justificação somente pela fé, sem nada de nossa justiça própria.

(3) Há uma interpretação muito clara desta passagem de São Tiago que não é de modo algum inconsistente com esta doutrina da justificação, a qual tenho demonstrado que outras Escrituras a ensinam abundantemente, cuja interpretação das próprias palavras também permitirão, como a que os opositores colocam sobre elas, e concordam muito melhor com o contexto; e esta é que as obras são aqui mencionadas tanto como justificação quanto como evidências. Pode ser dito que um homem é justificado por aquilo que o inocenta, ou o vindica, ou faz a bondade de sua causa se manifestar. Quando uma pessoa tem uma causa julgada em um tribunal civil e é justificada ou inocentada, pode ser dito em diferentes sentidos que ela está justificada ou inocentada pela excelência de sua causa e pela excelência das suas evidências. Pode ser dito que ela é inocentada por que as evidências da sua causa são boas, mas não no mesmo sentido que ela é inocentada por aquilo que faz sua causa ser boa. O que torna sua causa boa é a base adequada de sua justificação; é aquilo pelo que ela é em si um objeto adequado da justificação; mas as evidências justificam apenas quando manifestam que sua causa é boa de fato, se elas são de tal natureza a ponto de ter alguma influência para torná-la assim ou não. É por meio das obras que nossa causa parece ser boa; mas pela fé nossa causa não apenas parece ser boa, ela se torna boa porque estamos unidos a Cristo por meio dela. Que a palavra justificação deve ser, às vezes, entendida como significando a primeira delas, bem como a última, está em conformidade com o uso da palavra no modo comum de falar; quando dizemos que um se levantou para justificar o outro, isto é, ele se esforçou para mostrar ou manifestar que sua causa é boa. E é certo que a palavra, às vezes, é usada nesse sentido nas Escrituras, quando se fala de sermos justificados diante de Deus: como onde é dito que seremos justificados por nossas palavras; Mateus 12.37, “Porque, pelas tuas palavras, serás justificado e, pelas tuas palavras, serás condenado.” Isto não pode significar que os homens são aceitos diante de Deus por causa de suas palavras; pois Deus não nos disse nada mais claramente do que que é para o coração que ele olha, e que, quando ele age como juiz para com os homens, a fim de justificar ou condenar, ele prova o coração. Jeremias 11.20, “Mas, ó Senhor dos Exércitos, justo Juiz, que provas o mais íntimo do coração, veja eu a tua vingança sobre eles; pois a ti revelei a minha causa.” Salmo 7.8-9, “O Senhor julga os povos; julgue-me, Senhor, segundo a minha retidão e segundo a minha integridade que há em mim. Cesse a malícia dos ímpios, mas estabelece tu o justo; pois sondas a mente e o coração.” Salmo 7.11, “Deus é justo juiz.” E muitos outros lugares com propósito semelhante. E, portanto, os homens podem ser justificados por suas palavras, não de outra forma do que como evidências ou manifestações do que está no coração. E é assim que Cristo fala de palavras neste mesmo lugar, como é evidente pelo contexto.[28] Mateus 12.34-35, “Porque a boca fala do que está cheio o coração. O homem bom tira do tesouro bom coisas boas; mas o homem mau do mau tesouro tira coisas más” etc. As palavras, ou os sons em si, não são nem partes da piedade, nem evidências da piedade, mas são sinais do que está dentro.

O próprio Deus, quando age como juiz contra os homens, com o propósito de um julgamento declarativo, faz uso de evidências e, assim, julga os homens por suas obras. E, por isso, no dia do julgamento, Deus julgará os homens de acordo com suas obras, pois embora Deus não precise de evidências para informá-lo do que é certo, todavia deve ser considerado que ele se assentará em julgamento naquela ocasião, não como os juízes terrenos fazem, para descobrir o que é certo em uma causa, mas para declarar e manifestar o que é certo. E por isso aquele dia é chamado pelo apóstolo de “o dia da revelação do justo juízo de Deus” (Romanos 2.5).

Para ser justificado deve ser aprovado e aceito, mas pode ser dito que um homem é aprovado e aceito em dois aspectos: o primeiro, deve ser realmente aprovado, e o outro deve ser declarativamente aprovado e aceito. A justificação é dupla: é a aceitação e a aprovação do próprio juiz, ou a manifestação dessa aprovação mediante uma decisão ou sentença judicial declarada pelo juiz, seja para nossas próprias consciências ou para o mundo. Se a justificação for compreendida no primeiro sentido, como a aprovação em si, esta é apenas aquela pela qual nos tornamos aptos a ser aprovados. Mas se for entendida no último sentido, como a manifestação dessa aprovação, ela é, por qualquer coisa que seja, a própria evidência dessa aptidão. Na primeira, apenas a fé está em questão, porque é somente por ela em nós que nos tornamos aptos a ser aceitos e aprovados; na última, qualquer que seja a evidência de nossa aptidão está igualmente em questão. E, portanto, tomar a justificação nesse sentido e, em seguida, a fé e todas as outras graças e boas obras têm uma questão comum e igual nela; pois qualquer outra graça ou ato santo é igualmente evidência de uma qualificação à aceitação ou aprovação, como a fé.

Em linguagem comum, justificar sempre significou indiferentemente, quer simplesmente aprovação ou testemunho dessa aprovação; às vezes uma e às vezes outra. E isto porque ambas são a mesma coisa; apenas que uma é exteriormente o que a outra é interiormente. Então nós, e pode ser todas as nações, estamos acostumados a sempre dar os mesmos nomes a duas coisas, quando uma é apenas declarativa da outra. Assim, às vezes, julgar, significa apenas julgar em nossos pensamentos; em outras vezes, testemunhar e declarar decisão judicial. Assim, palavras como justificar, condenar, aceitar, rejeitar, avaliar, desprezar, aprovar, renunciar, às vezes, são colocadas como atos mentais, outras vezes, como um tratamento externo Assim, no sentido em que o apóstolo Tiago parece usar a palavra justificar para justificação manifestativa, um homem é justificado não apenas pela fé, mas também pelas obras; como uma árvore manifesta ser boa, não apenas mediante o exame imediato da árvore, mas também pelo fruto. Provérbios 20.11, “Até a criança se dá a conhecer pelas suas ações, se o que faz é puro e reto.”

O significado do apóstolo não exige que ele seja compreendido em qualquer outro sentido, pois tudo o que ele almeja, como fica óbvio por um exame do contexto, é provar que as boas obras são necessárias. O erro daqueles a quem ele se opôs era este: que as boas obras não eram necessárias para a salvação; que se eles apenas cressem que havia apenas um Deus, e que Cristo era o Filho de Deus e assim por diante; e fossem batizados, eles estariam seguros, deixando-os viver como eles viviam; cuja doutrina tendia grandemente à licenciosidade. O que evidencia o contrário disso é, evidentemente, o escopo do apóstolo.

E que devemos entender as obras que justificam do apóstolo como evidência e em um julgamento declarativo, é aquilo para o que uma devida consideração do contexto naturalmente nos levará. Pois é claro que o apóstolo está insistindo aqui em obras na qualidade de uma manifestação necessária e evidência de fé, ou como a maneira pela qual a verdade da fé é mostrada ou feita evidente. Como Tiago 2.18, “Mostra-me essa tua fé sem as obras, e eu, com as obras, te mostrarei a minha fé.” E quando ele diz, Tiago 2.26, “Porque, assim como o corpo sem espírito está morto, assim também a fé sem obras é morta.” É muito mais racional e natural entendê-lo como falando de obras como os sinais e evidências próprios da realidade, da vida e da bondade da fé. Não que as próprias obras ou ações sejam propriamente a vida da fé, como o espírito no corpo; mas é a natureza ativa e operosa da fé, da qual as ações ou obras feitas são os sinais, que é em si a vida e o espírito da fé. O sinal de uma coisa é, na linguagem das Escrituras, frequentemente dito ser aquela coisa. Como é nessa comparação pela qual o apóstolo a ilustra. Não são as ações em si de um corpo que são propriamente a vida ou o espírito do corpo, mas é a natureza ativa da qual essas ações ou movimentos são os sinais que são a vida do corpo. Aquilo que faz os homens chamarem qualquer coisa de viva é o que eles observam que tem uma natureza ativa operacional nela; o que eles observam não de outra forma do que pelas ações ou movimentos que são os seus sinais. É claramente o objetivo do apóstolo provar que as obras são necessárias a partir disso, que se a fé não produz é um sinal de que não é um bom tipo de fé; o que não é o seu propósito se fosse sua intenção mostrar que não é apenas pela fé, embora de um tipo certo, que temos aceitação diante de Deus, mas que somos aceitos por causa da obediência, bem como da fé. É evidente, pelo raciocínio do apóstolo, que a necessidade das obras de que ele fala, não é como tendo uma participação paralela como a fé em nossa salvação, mas ele fala de obras apenas como relacionadas à fé e expressão dela. O que, afinal, deixa a fé como a única condição fundamental, sem que nada mais tenha participação paralela com ela nessa questão, e outras condições apenas como várias expressões e evidências dela.

Que o apóstolo fala de obras que justificam apenas como um sinal ou evidência, e no julgamento declarativo de Deus, é ainda confirmado por Tiago 2.21: “Não foi por obras que Abraão, o nosso pai, foi justificado, quando ofereceu sobre o altar o próprio filho, Isaque?” Aqui, o apóstolo parece claramente se referir a esse julgamento declarativo de Deus a respeito da sinceridade de Abraão, manifestada a ele para paz e segurança de sua própria consciência, depois de sua oferta de Isaque, seu filho, sobre o altar, do que temos relato em Gênesis 22.12, “Agora sei que temes a Deus, porquanto não me negaste o filho, o teu único filho.” Mas aqui é claro e expresso nas próprias palavras de justificação ou aprovação que essa obra de Abraão, sua oferta de seu filho sobre o altar, o justificou como uma evidência. Quando o apóstolo Tiago diz que somos justificados pelas obras, ele pode e deve ser entendido em um sentido apropriado ao exemplo que ele traz para prová-lo. Porém a justificação, nesse caso, torna-se óbvia pelas próprias palavras de justificação mencionadas, ser pelas obras como evidência. E onde este exemplo da obediência de Abraão é mencionado em outro lugar no Novo Testamento, é mencionado como um fruto e evidência de sua fé. Hebreus 11.17, “Pela fé, Abraão, quando posto à prova, ofereceu Isaque; estava mesmo para sacrificar o seu unigênito aquele que acolheu alegremente as promessas.”

E, no outro exemplo que o apóstolo menciona, Tiago 2.25, “De igual modo, não foi também justificada por obras a meretriz Raabe, quando acolheu os emissários e os fez partir por outro caminho?” O apóstolo refere-se a um julgamento declarativo, naquele testemunho particular que foi dado da sua aprovação por Deus como crente, ao orientar Josué a salvá-la quando o restante de Jericó foi destruído. Josué 6.25, “Mas Josué conservou com vida a prostituta Raabe, e a casa de seu pai, e tudo quanto tinha; e habitou no meio de Israel até ao dia de hoje, porquanto escondera os mensageiros que Josué enviara a espiar Jericó.” Isso foi aceito como uma evidência e expressão de sua fé. Hebreus 11.31, “Pela fé, Raabe, a meretriz, não foi destruída com os desobedientes, porque acolheu com paz aos espias.” O apóstolo, ao dizer: “Não foi também justificada por obras a meretriz Raabe?”, por sua maneira de falar faz referência a algo em sua história, mas não temos nenhum relato em seu histórico de qualquer outra justificação dela, exceto esse.

(4) Se, não obstante, alguma escolha para tomar a justificação em São Tiago precisamente como fazemos nas epístolas de Paulo, como a aceitação ou aprovação de Deus em si e não qualquer expressão dessa aprovação, o que já foi dito sobre a forma como os atos de obediência evangélica participam na questão de nossa justificação oferece uma resposta muito fácil, clara e completa. Pois se tomarmos obras como atos ou expressões de fé, elas não são excluídas; de modo que um homem não é justificado apenas pela fé, mas também por obras; isto é, ele não é justificado apenas pela fé como um princípio no coração, ou em seus primeiros e mais imanentes atos, mas também pelos atos efetivos na sua vida, os quais são as expressões da vida da fé, como as operações e ações do corpo são da vida desse corpo; de acordo com Tiago 2.26.

O que foi dito em resposta a essas objeções, também pode, espero, servir abundantemente como resposta a esta objeção que frequentemente é feita contra esta doutrina, a saber, que ela encoraja a uma vida licenciosa. Pois, pelo que foi dito, podemos ver que a doutrina das Escrituras da justificação somente pela fé, sem qualquer tipo de bondade ou excelência nossa, de forma alguma diminui a necessidade ou o benefício de uma obediência universal evangélica sincera; com a qual a salvação do homem não está apenas indissoluvelmente ligada, e a condenação por sua ausência naqueles que têm oportunidade para isso, mas que depende dela em muitos aspectos; visto que é o caminho para ela e a preparação necessária para ela, e também visto que as bênçãos eternas são concedidas em recompensa por ela, e visto que a nossa justificação em nossas próprias consciências e no dia do julgamento depende dela como a evidência adequada de nosso estado aceitável, e que, até mesmo na nossa aceitação como tendo direito à vida em nossa justificação. Deus leva isso em consideração como aquilo sobre o que depende a conveniência de tal ato de justificação. De modo que nossa salvação se torna verdadeiramente dependente dela, como se fôssemos justificados por sua excelência moral. E, além de tudo isso, o grau de nossa felicidade por toda a eternidade está suspenso sobre e é determinado pelo seu grau. De modo que este esquema evangélico de justificação está muito longe de encorajar a licenciosidade, e contém outro tanto para encorajar e excitar a obediência estrita e universal, e a maior dignidade possível de santidade, como qualquer esquema que possa ser concebido e, de fato, indescritivelmente mais. Eu chego agora à

V. [Quinta] e última coisa proposta, que é considerar a importância desta doutrina.

Eu sei que há muitos que agem como se esta controvérsia não fosse de grande importância; que é principalmente uma questão de especulação refinada, que depende de certas distinções sutis, que muitos que fazem uso delas não as entendem; e que a diferença não é tanto de consequência a ponto ser digna de ser zeloso sobre ela; e que está produzindo mais dano ao se levantar disputas sobre ela do que bem.

Na verdade, estou longe de pensar que é de absoluta necessidade que as pessoas entendam e estejam de acordo sobre todas as distinções necessárias, particularmente para explicar e defender essa doutrina contra todos os sofismas e objeções (embora todos os cristãos devam se esforçar por um crescimento no conhecimento, e ninguém deve se dar por satisfeito sem alguma compreensão clara e distinta neste ponto). Entretanto, que devemos crer no principal de acordo com as claras e abundantes revelações da Palavra de Deus, de que não é nossa própria excelência, virtude ou justiça que é o fundamento de sermos recebidos de um estado de condenação para um estado de aceitação aos olhos de Deus, mas apenas Jesus Cristo e sua justiça e dignidade, recebido pela fé. Isso, eu penso, é de grande importância, pelo menos na aplicação a nós mesmos; e isto pelas seguintes razões:

Primeira. As Escrituras tratam esta doutrina como uma doutrina de grande importância. Ninguém negará que existe uma certa doutrina de justificação pela fé em oposição à justificação pelas obras da lei, sobre a qual o apóstolo Paulo insiste como de máxima importância; porque não há nada na Bíblia mais evidente. O apóstolo, sob a condução infalível do Espírito de Deus, julgou que valia a pena sua mais extenuante e zelosa disputa e defesa. Ele fala da doutrina contrária como fatal e danosa para as almas dos homens na parte final de Romanos 9-10. Ele fala dela como destruidora do evangelho de Cristo, a chama de outro evangelho, e diz sobre ela que se alguém “ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema” (Gálatas 1.6-9, comparado com a parte seguinte da epístola). Certamente devemos admitir que os apóstolos são bons juízes da importância e tendência das doutrinas; pelo menos o Espírito Santo neles. E, sem dúvida, estamos seguros, e sem perigo de dureza e censura, se apenas o seguirmos e nos mantivermos perto de seus ensinos claros, nos quais acreditamos e falam da tendência prejudicial e perniciosa de qualquer erro. Por que somos censurados ou criticados por dizer o que a Bíblia nos ensinou a dizer, ou por crer no que o Espírito Santo nos ensinou que devemos crer para essa finalidade?

Segunda. O esquema contrário estabelece outro fundamento para a salvação do homem do estabelecido por Deus. Eu não falo agora daquela redenção ineficaz que eles supõem ser universal e da qual toda a humanidade é igualmente objeto; mas, eu digo, esse esquema estabelece totalmente outro fundamento para a salvação real e discriminatória do homem, ou que a salvação na qual os verdadeiros cristãos diferem dos homens maus. Nós supomos que o seu fundamento é a dignidade e a justiça de Cristo; de modo contrário, esse esquema supõe que é a própria virtude dos homens; todavia, que esta é em si a base de um interesse salvador em Cristo. Isto tira Cristo do lugar da pedra angular e coloca a própria virtude dos homens no seu lugar; de modo que o próprio Cristo, na questão da verdadeira salvação distintiva, é colocado sobre esta base. E sendo o fundamento tão diferente, deixo para cada um julgar se a diferença entre os dois esquemas consiste apenas em formalidades de pequenas consequências. Os fundamentos completamente diferentes tornam todo o esquema grandemente diferentes e opostos; um é um esquema evangélico, o outro, um legal.

Terceira. É nesta doutrina que jaz a diferença mais essencial entre a aliança da graça e a primeira aliança. O esquema contrário de justificação supõe que somos justificados por nossas obras, no mesmo sentido em que o homem deveria ter sido justificado por suas obras sob a primeira aliança. Mediante essa aliança, nossos primeiros pais não deveriam ter a vida eterna dada a eles, por qualquer mérito próprio em sua obediência, porque sua obediência perfeita era uma dívida que eles deviam a Deus. Nem deveria ser concedida por qualquer proporção entre a dignidade de sua obediência e o valor da recompensa, mas deveria ser concedida somente a partir de uma consideração para com uma aptidão moral, em virtude de sua obediência, à recompensa do favor de Deus; e um direito à vida eterna deveria ser dado a eles como testemunho da satisfação de Deus com suas obras, ou de seu apreço pela beleza inerente de sua virtude. E é dessa mesma maneira que aqueles, no esquema contrário, supõem que somos recebidos no favor especial de Deus agora, e àqueles benefícios salvadores que são testemunhos desse favor. Estou ciente de que os teólogos desse lado negam totalmente a doutrina papista do mérito, e tem liberdade para falar de nossa total indignidade e da grande imperfeição de todos os nossos serviços; mas, apesar de tudo, é nossa virtude tão imperfeita como é que recomenda os homens a Deus, pela qual os homens bons, em vez de outros, passam a ter um interesse salvador em Cristo e ao favor de Deus; e essas coisas são concedidas como testemunho do apreço de Deus por sua bondade. De modo que admitam ou não o termo mérito, ainda assim eles sustentam que somos aceitos por nosso próprio mérito, no mesmo sentido embora não no mesmo grau, como sob a primeira aliança.

No entanto, a maior e mais distintiva diferença entre essa aliança e a aliança de graça é que, mediante a aliança ou a graça não somos justificados por nossas próprias obras, mas somente mediante a fé em Jesus Cristo. É principalmente por causa disso que a nova aliança merece o nome de uma aliança da graça, como é óbvio por Romanos 4.16, “Essa é a razão por que provém da fé, para que seja segundo a graça.” E Romanos 3.20, Romanos 3.24, “Visto que ninguém será justificado diante dele por obras da lei, em razão de que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado. ...sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus.” E Romanos 11.6, “E, se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça.” Mas se for por obras, então não é mais graça; do contrário, obra não é mais obra. Gálatas 5.4, “De Cristo vos desligastes, vós que procurais justificar-vos na lei; da graça decaístes.” E por isso o apóstolo, quando na mesma Epístola aos Gálatas, fala da doutrina da justificação pelas obras como outro evangelho, acrescenta ele, “o qual não é outro” (Gálatas 1.6-7). Não é evangelho afinal, é lei; não é aliança da graça, mas de obras; não é uma doutrina evangélica, mas uma doutrina legal (jurídica). Certamente essa doutrina, na qual consiste a maior e mais essencial diferença entre a aliança da graça e a primeira aliança, deve ser uma doutrina de grande importância. Essa doutrina do evangelho, pela qual acima de todas as outras é digna do nome de evangelho, é, sem dúvida, uma doutrina muito importante do evangelho.

Quarta. Esta é a principal razão pela qual os homens caídos precisavam da revelação divina, para nos ensinar como nós que pecamos podemos vir a ser novamente aceitos por Deus, ou, o que é a mesma coisa, como o pecador pode ser justificado. Algo além da luz da natureza é necessário para a salvação principalmente por causa disso. A mera razão natural não forneceu nenhum meio pelo qual pudéssemos chegar ao conhecimento disso, depender da vontade soberana do Ser que ofendemos pelo pecado. Esta parece ser a grande direção dessa revelação que Deus deu, e de todos aqueles mistérios que ela revela, todas aquelas grandes doutrinas que são peculiarmente doutrinas de revelação e estão acima da luz da natureza. Parece ter sido muito por causa disso que era necessário que a doutrina da própria Trindade fosse revelada a nós; que, mediante a revelação do interesse das várias pessoas divinas na grande questão da nossa salvação, poderíamos entender melhor e ver como toda a nossa dependência nesta questão está em Deus, e toda nossa suficiência nele não em nós mesmos; que ele é tudo em todos nessa questão, de acordo com 1 Coríntios 1.29-31, “A fim de que ninguém se glorie na presença de Deus. Mas vós sois dele, em Cristo Jesus, o qual se nos tornou, da parte de Deus, sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção, para que, como está escrito: Aquele se gloria, glorie-se no Senhor.” O que é o evangelho, senão apenas as boas novas de um novo modo de aceitação por Deus para a vida, um modo pelo qual os pecadores podem ser livres da culpa do pecado e obter direito a vida eterna? E se, quando este caminho revelado é rejeitado e outra invenção do homem é colocada no seu lugar, sem dúvida, deve ser um erro de grande importância, e o apóstolo pôde dizer muito bem que era outro evangelho.

Quinta. O esquema contrário de justificação deprecia muito da honra de Deus e do Mediador. Já mostrei como diminui a glória do Mediador, ao atribuir à virtude e à bondade do homem aquilo que pertence apenas à sua dignidade e justiça. Mediante a compreensão do apóstolo do assunto, isto torna Cristo desnecessário. Gálatas 5.4: “De Cristo vos deligastes, vós que procurais justificar-vos na lei.” Se esse esquema de justificação for seguido em suas consequências, ele destrói totalmente a glória de todas as grandes coisas que foram planejadas, feitas e sofridas na obra da redenção. Gálatas 2.21: “Se a justiça é mediante a lei, segue-se que morreu Cristo em vão.” Também já foi demostrado como esse esquema diminui a glória da graça divina (que é o atributo que Deus especialmente determinou a si mesmo glorificar na obra da redenção); e deste modo ele diminui muito a obrigação de gratidão por parte do pecador que é salvo. Sim, que, na compreensão do apóstolo, ele anula a graça distintiva do evangelho. Gálatas 5.4, “Vós que procurais justificar-vos na lei; da graça decaístes.” Esse esquema diminui a glória da graça de Deus e do Redentor, e amplia proporcionalmente a do homem. Ele faz do homem algo diante de Deus quando de fato ele não é nada; faz com que a bondade e a excelência do homem caído sejam algo que eu mostrei não serem nada. Também já demonstrei que é contrário à verdade de Deus, pois ameaça sua santa lei justificar o pecador por sua virtude. E se for contrário à verdade de Deus ou não, é um esquema de coisas muito indignas de Deus, pois supõe que Deus, quando está prestes a levantar um pobre malfeitor abandonado, condenado à miséria eterna por pecar contra sua majestade, de sua miséria e fazê-lo indescritível e eternamente feliz, ao conceder seu Filho e a si mesmo a ele, o faz como se tudo isso fosse colocado à venda pelo preço de sua virtude e excelência. Sei que aqueles que se opõem a nós reconhecem que o preço é muito desproporcional ao benefício concedido; e dizer que a graça de Deus é maravilhosamente manifestada em aceitar tão pouca virtude e conceder uma recompensa tão gloriosa por tal justiça imperfeita. Porém, considerando que somos criaturas infinitamente pecadoras e abomináveis aos olhos de Deus, que por nossa culpa infinita conduzimos a nós mesmos a circunstâncias tão miseráveis e deploráveis que toda a nossa justiça não é nada e dez mil vezes pior do que nada (se Deus olhar para as criaturas como elas são em si mesmas), nossa justiça não é imensamente mais digna da infinita majestade e glória de Deus para libertar e fazer feliz tais pobres vermes imundos, tais patifes e cativos miseráveis, sem qualquer dinheiro ou valor, ou qualquer tipo de expectativa de alguma excelência ou virtude neles que os recomende de alguma forma? Não induzirá a uma opinião insensata e exaltada de nós mesmos, e uma desprezível de Deus, pensar em oferecer qualquer coisa nossa que nos recomende ao favor de sermos levados do chafurdar como porcos imundos na lama de nossos pecados, e da inimizade e miséria dos demônios no inferno mais baixo, ao estado de amados filhos de Deus nos braços eternos de seu amor, na glória celestial; ou imaginar que essa é a constituição de Deus, que devemos trazer nossos trapos imundos e oferecê-los a ele como o preço disso?

Sexta. O esquema contrário tende mais diretamente a levar os homens a confiarem em sua própria justiça para a justificação, o que é uma coisa fatal para a alma. Isso é o que os homens são em si mesmos excessivamente propensos a fazer (e isto embora nunca lhes seja ensinados o contrário) através dos pensamentos excessivamente parciais e elevados que eles têm de si mesmos, e sua grande lentidão em apreender qualquer mistério, como serem aceitos pela justiça de outro. Porém este esquema ensina diretamente os homens a confiar em sua própria justiça para a justificação; naquilo que os ensina que isso é realmente aquilo pelo que devem ser justificados, sendo a forma de justificação que o próprio Deus designou. De modo que, se um homem não tivesse naturalmente nenhuma disposição para confiar em sua própria justiça, no entanto, se ele abraçasse este esquema e agisse de modo consistente com ele, isso o levaria a ele. Porém esta confiança em nossa própria justiça é uma coisa fatal para a alma, é o que as Escrituras claramente nos ensinam: ela nos diz que fará com que Cristo não seja proveitoso para nós e não tenha nenhum efeito para nós (Gálatas 5.2-4). Pois, embora o apóstolo fale ali particularmente da circuncisão, no entanto (já demonstrei, isto), o apóstolo não se refere apenas ser ao circuncidado, mas ao confiar na circuncisão como uma justiça. Ele não poderia pretender que meramente ser circuncidado tornaria Cristo sem proveito ou efeito para uma pessoa; pois lemos que ele mesmo, por determinadas razões, tomou Timóteo e o circuncidou (Atos 16.3). E o mesmo é evidente pelo contexto e pelo restante da epístola. E o apóstolo fala em confiar em sua própria justiça como fatal para os judeus. Romanos 9.31-32- “E Israel, que buscava a lei de justiça, não chegou a atingir essa lei. Por que? Porque não decorreu da fé, e sim como que das obras. Tropeçaram na pedra de tropeço.” Juntamente com Romanos 10.3, “Porquanto, desconhecendo a justiça de Deus e procurando estabelecer a sua própria justiça, não se sujeitaram à que vem de Deus.” E isso é mencionado como fatal para os fariseus na parábola do fariseu e do publicano, que Cristo contou a eles para repreendê-los por confiarem em si mesmos de que eram justos. O propósito da parábola é mostrar-lhes que os próprios publicanos serão justificados em vez deles; como fica claro pela reflexão que Cristo faz sobre ele. Lucas 18.14, “Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele.” Isto é, este e não o outro. Sua tendência fatal também pode ser provada a partir de sua inconsistência com a natureza da fé justificadora, e também sua inconsistência com a natureza dessa humilhação da qual as Escrituras falam muitas vezes como absolutamente necessária à salvação; mas essas Escrituras são tão claras que é desnecessário trazer quaisquer argumentos adicionais.

Até que ponto uma maravilhosa e misteriosa agência do Espírito de Deus pode influenciar tanto o coração de alguns homens que sua prática a este respeito seja contrária aos seus próprios princípios, de modo que eles não confiem em sua justiça própria embora professem que os homens são justificados por sua justiça própria. Ou até que ponto eles podem crer na doutrina da justificação pela justiça própria dos homens em geral, e todavia não crer em uma aplicação particular dela a si mesmos. Ou até que ponto esse erro, ao qual eles podem ter sido levados pela educação ou astuto sofisma de outros, ainda pode ser de fato contrário à disposição predominante de seus corações e contrário à sua prática. Ou até onde alguns podem parecer sustentar uma doutrina contrária a essa doutrina evangélica da justificação que realmente não sustentam, mas apenas se expressam de forma diferente dos outros; ou parecem se opor a ela por causa de seu mal entendimento de nossas expressões, ou nós das deles, quando de fato nossos sentimentos reais são os mesmos quanto ao principal. Ou pode parecer mais diferente do que eles fazem ao usar termos que não têm um significado precisamente fixo e determinado; ou ser amplo em seus sentimentos a partir desta doutrina por falta de uma compreensão distinta dela; cujos corações, ao mesmo tempo, concordam inteiramente com ela, e se algum dia fosse claramente explicada aos seus entendimentos concordariam imediatamente com ela e a abraçariam. Não posso determinar até onde essas coisas podem ser, mas estou plenamente convencido de que grande tolerância deve ser exercida sobre estas e causas semelhantes, em inúmeros exemplos; embora seja manifesto a partir do que foi dito que o ensino e propagação de doutrinas e esquemas contrários é de uma tendência perniciosa e fatal.

 

Extraído de Works of Jonathan Edwards, vol. 19, p. 143-241; org. Ed M. X. Lesser

Disponível em: edwards.yale.edu; JE Center; Yale University

Tradução: Paulo Arantes



[1] Publicado como intitulado em Five Discourses (Cinco Discursos), p. 1-130.

[2] Para o desenvolvimento das ideias de JE durante o período 1734-1738, veja os relevantes registro “Miscellanies” (Miscelânias) e a introdução do editor em The Works of Jonathan Edwards, vol. 18, The Miscellanies, 501-832, org. Ava Chamberlain (New Haven: Yale University Press, 2000). Veja também os registros 78-92 nos apontamentos “Faith” de JE, prestes a aparecer em Works, vol. 21.

[3] Sobre “neonomianismo”, veja Master’s Quoestio de JE, em Works, vol. 14, p. 55-66.

[4] [Obs.: conveniente, apropriado.]

[5] “Nosso Salvador compara seu corpo místico, isto é, sua igreja, a uma videira, que seu Pai, que ele compara a um agricultor, plantou, ‘Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor.’ Para nos apresentar a união que existe entre Cristo e todos os verdadeiros cristãos, e a influência da graça e da vida espiritual, que todos que estão unidos a ele derivam e recebem dele, ele mostra a nós mediante imagem de uma videira e os ramos. Como há uma união vital natural entre a videira e os ramos, assim há união espiritual [vital] entre Cristo e os verdadeiros cristãos; e esta união é a causa de nossa frutificação nas obras de obediência e de vida genuína. Há alguns, de fato, que parecem estar enxertados em Cristo mediante uma profissão exterior de cristianismo, que ainda não derivam influência dele de modo a produzir fruto, porque não estão unidos vitalmente a ele.” Dr. Tillotson, em [The Works of the Most. Rev. Dr. John Tillostson (3 vols., Londres, 1728), 3. 307].

Por isso parece que a união vital entre Cristo e os cristãos verdadeiros, que é muito mais um mistério do que a união de parentes, e necessariamente implica nela, não era considerada uma doutrina irracional por um dos maiores teólogos do outro lado da questão em debate.

[6] [JE cita João 6.35-39, mas confina a citação a João 6.38.]

[7] Nota do tradutor: JE cita João 5.28-40, mas a citação é de João 5.38-40.

[8] Nota do tradutor: JE cita João 6.43-44, mas a citação é de João 5.43-44.

[9] Nota do tradutor: JE cita João 5.12, mas a citação é de João 1.12.

[10] As citações são de João 1.12 e 5.40, respectivamente.

[11] [Obs.: julgamento, conceito, concepção.]

[12] [JE corrige a linguagem da última cláusula para adaptar a Escritura em sua introdução, cuja cópia do texto se encontra na Biblioteca Beinecke, Yale. No geral, ele segue a errata no final do prefácio, que inclui a má colocação dos parágrafos na HI, abaixo, observado aqui.]

[13] [MS: Aqui termina a primeira unidade da pregação. A citação, o texto e a doutrina estão no cabeçalho da segunda unidade.]

[14] [Veja o sermão mais recente de JE sobre este texto, None Are Saved by Their Own Righteousness (Ninguém será salvo por sua justiça própria), em Works 14, 329-356.]

[15] Que ela é obediência perfeita, que é o que é chamado de justiça no Novo Testamento, e que esta justiça ou obediência perfeita, estabelecida pela regra inalterável de Deus, é a condição de justificação, é a partir da evidência clara da verdade confessada, por certo grande homem, que ninguém considerará ser uma pessoa passível de ser cegada pelo preconceito em favor da doutrina que estamos sustentando, e alguém que não admite esta doutrina, a saber, o Sr. Locke, em seu livro The Reasonableness of Christianity, as Delivered in the Scriptures, em [The Works of John Locke 93 vols., Londres, 1727), 2, 474]:

Para alguém que lê imparcialmente a Escritura, o que Adão abandonou é visível, foi o estado de obediência perfeita, que é chamado de justiça no Novo Testamento, embora a palavra, que no original significa justiça, seja traduzida como retidão (justiça).

Ibid., pp 476-77:

Pois justiça (retidão), ou uma obediência correta da lei, parece, pela Escritura, ter direito à vida eterna. Romanos 4.4, “Ora, ao que trabalha”, isto é, faz as obras da lei, “o salário não é considerado como favor, e sim como dívida.” Por outro lado, parece inalterável o propósito da justiça divina de que nenhuma pessoa injusta, ninguém que seja culpado de alguma quebra da lei, deve estar no Paraíso, mas que o salário do pecado deve ser aplicado a cada homem, como foi para Adão, sua exclusão daquele feliz estado de imortalidade e a morte trazida sobre ele. E isto está tão em conformidade com a eterna e estabelecida lei do certo e do errado que também é dito que não pode ser de outra forma. Aqui, então, temos a medida permanente e fixa da vida e da morte; imortalidade e bênção pertencem ao justo. Aquele que vive em cuidadosa conformidade com a lei de Deus está fora do alcance da morte, porém a exclusão do Paraíso e perda da imortalidade é a porção dos pecadores, de todos aqueles que quebram alguma parte desta lei e falham na completa obediência dela por meio da culpa de alguma transgressão. E assim, pela lei, está colocada sob a humanidade a questão da vida e da morte, visto que são retos ou iníquos, justos ou injustos, isto é, cumpridores diligentes ou transgressores da lei.

Novamente, na p. 477:

Então, a lei das obras, em resumo, é aquela lei que requer perfeita obediência, sem qualquer alívio ou desconto; de modo que um homem não pode ser justo ou justificado pela lei sem um preciso cumprimento de cada ponto (til). O Novo Testamento chama esta obediência perfeita de dikaiosu¢nv, que é traduzida como justiça.

Também deve ser observado, nesta última passagem, que o Sr. Locke não entende por lei das obras a lei cerimonial, mas a aliança das obras; como ele se expressa mais plenamente no penúltimo parágrafo:

Onde esta lei de obras deve ser encontrada, o Novo Testamento nos diz, a saber, na lei entregue por Moisés. João 1.17, “Porque a lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo.” João 7.19, “Não vos deu Moisés a lei?”, disse nosso Salvador, “Contudo, ninguém dentre vós a observa.” E esta é a lei da qual ele fala em Lucas 10.28, “Respondeste corretamente; faze isto e viverás.” É a isto que São Paulo frequentemente chama de lei sem qualquer outra distinção. Romanos 2.13, “Porque os simples ouvidores da lei não são justos diante de Deus, mas os que praticam a lei hão de ser justificados.” É desnecessário citar mais algum lugar, suas epístolas estão cheias disso, especialmente esta Aos Romanos.

[16] [Obs.: certamente, seguramente (OED).]

[17] [Ver sermão anterior de JE sobre este texto, The Sacrifice of Christ Acceptable (O sacrifício aceitável de Cristo), em Works 14, 440-457.]

[18] Assim, o Sr. Locke em sua Reasonableness of Christianity, as Delivered in the Scriptures, em [The Works of John Locke, 2, p. 478]:

Mais ainda, o que Deus requer em qualquer lugar que seja feito, sem promover qualquer subsídio para a fé, isto faz parte da lei das obras. De modo que proibir Adão de comer da árvore do conhecimento era parte da lei das obras. Devemos tomar conhecimento aqui apenas que alguns dos mandamentos positivos de Deus são para fins peculiares, e adequados a circunstâncias particulares de tempos, lugares e pessoas, têm uma obrigação limitada e apenas temporária em virtude da prescrição positiva de Deus. Tal como era aquela parte da lei de Moisés que dizia respeito à adoração externa, ou à constituição política dos judeus, e é chamada de lei cerimonial e judaical.

Novamente, p. 479:

Assim, então, quanto à lei, em suma, a parte civil e ritual da lei entregue por Moisés não obriga os cristãos, embora para os judeus ela fosse parte da lei das obras; sendo parte da lei da natureza, de modo que os homens devem obedecer a todas as leis positivas de Deus sempre que ele quiser fazer qualquer adição à lei de sua natureza.

[19] [Os dois parágrafos seguintes foram impressos no lugar errado (p. 81-83), na edição original de 1738; a errata (p. vi), indica seu lugar correto.]

[20] [Gênesis 15.16 diz: “Na quarta geração, tornarão para aqui; porque não se encheu ainda a medida da iniquidade dos amorreus”, um erro óbvio; a menção a aliança ocorre especificamente em Gênesis 15.18, “Naquele mesmo dia, fez o Senhor aliança com Abrão, dizendo: À tua descendência dei esta terra, desde o rio do Egito até ao grande rio Eufrates.” A frase que JE cita é parte de Gálatas 3.6, “É o caso de Abraão, que creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça”, é a única ocorrência dela na Escritura.]

[21] [Texto: “comportar-se”. JE substitui “comportamento” na cópia Beinecke da edição impressa, p. 95.]

[22] [Texto: “capacidade”.]

[23] [JE apaga a primeira ocorrência de uma linha repetida na cópia Beinecke da edição impressa, p. 99.]

[24] [JE adiciona “tem” na cópia Beinecke da edição impressa, p. 100.]

[25] Em conformidade com isso está o que o Sr. Locke diz em sua A Second Vindication of the Reasonableness of Christianity etc. (Segunda Vindicação da Razoabilidade do Cristianismo etc.) em [The Works of John Locke, 2, p. 630-31]: “Crer nele, portanto, como sendo o Messias é, muitas vezes com grande razão, tanto expresso por fé quanto por arrependimento também, que são, às vezes, registrados isoladamente, onde um é expresso para ambos, como implicando no outro.”

[26] Se o arrependimento justifica, ou é aquele modo pelo qual obtemos o perdão do pecado de qualquer outra forma que não seja esse, deve ser como uma virtude ou justiça, ou algo agradável em nós; ou então deve ser que nossa tristeza e condenação do que é passado, são aceitas como alguma expiação por ele; ambos os quais são igualmente contrários à doutrina evangélica da justificação por Cristo.

[27] [JE insere “nossos adversários, assim como nós, supõem” por “eles supõem, assim como nós, na cópia Beinecke da edição impressa, p. 115.]

[28] [Isto é, Mateus 12.]

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