Frase da Semana

Assim, tudo é de Deus, está em Deus e existe para Deus; ele é o começo, o meio e o fim.

sábado, 17 de setembro de 2022

A justiça de Deus na condenação dos pecadores


Edwards retorna à epístola paulina da justificação somente pela fé no quarto dos sermões incluídos em Discourses on Various Important Subjects (Discursos sobre vários assuntos importantes), o texto de Romanos, um de seus favoritos: “Nunca encontrei tantos frutos salvadores imediatos de quaisquer discursos que tenho oferecido à minha congregação, em qualquer medida, como alguns a partir destas palavras, Romanos 3.19, ‘para que se cale toda boca’; esforçando-se por mostrar, a partir delas, que seria justo para Deus rejeitar e lançar fora para sempre os meros homens naturais.”[1] Embora ambos os sermões ponderem sobre a justiça de Deus, e embora estejam claramente relacionados, como ele indica na frase inicial, seu tom muda notavelmente entre eles, do final do outono para o final da primavera. O sermão anterior (e muito mais longo) esfregou a verdade com terror na peroração (conclusão) – “chafurdando como porcos imundos na lama de nossos pecados” - e examinou o preço da virtude – “e todas as nossas justiças são nada”.

Agora, na “consideração conjunta” da depravação do homem e da soberania de Deus, Edwards bombardeia seus ouvintes com imprecações em uma chuva de pontos de exclamação: “E com quais atos e práticas impuras você se contaminou! Deus e suas próprias consciências sabem qual lascívia abominável vocês praticaram em coisas que não merecem ser mencionadas quando estavam sozinhos, quando deveriam estar lendo, ou meditando, ou de joelhos diante de Deus em oração secreta. E como você corrompeu os outros, bem como poluiu a si mesmo! Qual vil impureza você praticou em companhia de outros! De quais abominações por ignorância você é culpado!” Com uma linguagem como essa, The Justice of God in the Damnation of Sinners (A justiça de Deus na condenação dos pecadores) parece mais semelhante a The Folly of Looking in Fleeing out of Sodom (A loucura de olhar para trás na fuga de Sodoma) do que a Justification by Faith Alone (Justificação somente pela fé), apesar da incursão de Edwards na lógica e na semântica.

Depois de uma leitura particularmente atenta do contexto no qual Paulo, citando o Antigo Testamento, acusa os judeus por sua estrita adesão à Lei e os condena com ela, Edwards afirma (e amplia) o veredicto com equações e analogias. A obediência, ele começa, é proporcional à autoridade, de modo que quanto maior a autoridade maior a obediência. Além disso, uma punição merecida é uma punição justa, pois esse é o “próprio significado das palavras”. Esse homem violou “obrigações infinitas” para com Deus, um pecado “infinitamente hediondo” e, portanto, merece infinita – isto é, justa – a punição segue logicamente, mesmo que o pecado pareça insignificante. “Se supormos que uma coisa tem comprimento infinito, mas sem largura e espessura, mas é apenas uma mera linha matemática, isso não é nada. Porém se tiver alguma largura e espessura, embora nunca seja tão pequena, ainda assim se tiver apenas uma dimensão infinita, a saber, a de comprimento, sua quantidade é infinita; ela excede a quantidade de qualquer coisa, por mais ampla, espessa e longa em que essas dimensões são todas finitas.” Edwards delineia a “absurdidade grosseira” da vontade contingente, bem como o caso a favor da imputação do pecado original e a arbitrariedade da soberania divina, mas ele logo abandona o analítico pelo homilético, a cabeça pelo coração, em uma aplicação que compõe dois-terços de seu texto. Semanas antes, ele alertara sobre os perigos de olhar para trás e para uma vida passada; agora ele encoraja, exortando seus paroquianos a “investigarem na voz da consciência” as múltiplas causas do descontentamento de Deus para com eles, e então, depois de catalogar o registro sombrio – “banquetear suas luxúrias” no culto público, por exemplo, e “apagar o Espírito de Deus” durante o avivamento – declara que ninguém deve “abrir sua boca” para protestar contra a justiça de Deus.

Medir medida por medida, a justa condenação de Deus ao homem equilibra o tratamento que o homem dá Deus, a Cristo, aos outros e a si mesmo, uma “responsividade exata mútua”. Edwards considera cada uma das quatro categorias em detalhes, numerando sete acusações distintas no tratamento que o homem dá a Deus, desde fingir reverência com um “olhar abatido” até se levantar em rebelião aberta; descrevendo a rejeição voluntária do homem de Cristo com histórias de fortes indefesos e navios furados, a sentença de um rei e o perdão de um príncipe; exemplificando o tratamento que o homem dá aos outros com pais que fornecem a seus filhos “pão para comer”, mas não “o pão da vida”; e comparando a oposição perversa do homem à sua própria salvação para beber veneno e correr para o fogo (e morte certa) enquanto se absolve da culpa. Em todo o tempo, ele insiste no prazer soberano de Deus, seu dom da livre graça de obrigações ao homem – “é impossível pagar uma dívida” – ou fazer suas obras, mas ele adverte contra o desespero, visto que a redenção ainda permanece em Cristo, seu precioso sangue “totalmente suficiente” para pagar a dívida do pecado e vindicar o nome de Deus. Finalmente, em uma declaração de desonra muitíssimo curta, ele lembra os piedosos de sua antiga e pecaminosa natureza e lhes ordena que “abram suas bocas em louvores a Deus, de modo que estes estejam continuamente em suas bocas, tanto aqui como por toda a eternidade, por sua rica, indizível e soberana misericórdia para com eles, por meio da qual ele, e somente ele, os fez diferirem dos outros” – cujas bocas, Edwards poderia ter adicionado, foram obstruídas.

Embora a versão publicada de A justiça de Deus na condenação dos pecadores tenha menos da metade de Justificação somente pela fé, provavelmente seu manuscrito não era muito mais curto.[2] Em quarenta e três folhas em duodécimo – a quadragésima quarta está em branco – ele começa com uma reiteração parcial do texto (Romanos 3.19), seguida por uma citação de Romanos 9.21 (não na versão publicada), seguida por três subtítulos (preservados, embora renumerados ali), e seguidos, por sua vez, pela Aplicação, todos os sinais de um documento defeituoso, em que falta todo o Texto e muito da Doutrina, talvez uma dúzia de folhas ao todo. Ainda assim, se o restante do manuscrito é típico do todo, há pouco para indicar que a parte anterior sofreu qualquer mudança substantiva na preparação para a publicação. Na verdade, embora haja muitas correções de estilo ou clareza – por exemplo, “ele não tem obrigação” torna-se “ele originalmente não tem obrigação” no início (L. 1r.) – não há nada como a expansão ou alteração que marcou a versão de Justificação somente pela fé para a página impressa. Aqui, as transposições são poucas (LL. 5r., 7r.–8r. e 23r.) e mais tarde tinta rarefeita (LL. 11r., 20r. e 21r.), mas o texto citado aparece três vezes (LL. 11r. ., 20r. e 31r.), bem como no alto da primeira folha sobrevivente, para sugerir cinco unidades de pregação. Sem a primeira folha original, no entanto, o manuscrito também carece de uma data. No entanto, como Edwards menciona em seu prefácio, visto que todos, exceto o último, dos cinco Discursos foram “proferidos no período da recente obra maravilhosa” de Deus (p. 794), as possibilidades se estreitam consideravelmente: papel e tinta indicam maio de 1735.

 

A JUSTIÇA DE DEUS NA CONDENAÇÃO DOS PECADORES

“Para que se cale toda boca.” Romanos 3.19

 

O assunto principal da parte doutrinária desta epístola é a livre graça de Deus na salvação dos homens por meio de Jesus Cristo; especialmente como aparece na doutrina da justificação somente pela fé. E para evidenciar mais claramente esta doutrina e mostrar sua razão o apóstolo, em primeiro lugar, estabelece este ponto, que nenhuma carne viva pode ser justificada pelas obras da lei. E para provar isso, ele é muito amplo e específico ao mostrar que toda a humanidade, não apenas os gentios, mas os judeus, estão debaixo do pecado e, portanto, sob a condenação da lei. Que é aquilo em que ele insiste desde o início da epístola até este ponto. Ele começa primeiro com os gentios; e, em Romanos 1, mostra que eles estão debaixo do pecado, ao expor as excessivas corrupções e repugnante perversidade que se espalhou pelo mundo gentílico. E então, através de Romanos 2-3 até o texto e o versículo seguinte, ele mostra o mesmo sobre os judeus; que eles também estão nas mesmas circunstâncias que os gentios neste aspecto. Eles tinham a si mesmos em alta consideração, porque eram o povo da aliança de Deus, circuncidados e filhos de Abraão. Eles desprezavam os gentios como poluídos, condenados e amaldiçoados, mas olhavam para si mesmos, por causa de seus privilégios externos e da justiça cerimonial e moral, como um povo puro e santo, e como filhos de Deus; como o apóstolo observa em Romanos 2. Portanto, era uma doutrina estranha para eles o fato de que também eram impuros e culpados aos olhos de Deus, e sob a condenação e maldição da lei. O apóstolo, portanto, por causa de seus fortes preconceitos contra essa doutrina, insiste nela de modo mais particular e mostra que eles não são melhores que os gentios; como em Romanos 3.9, “Que se conclui? Temos nós qualquer vantagem? Não, de forma nenhuma; pois já temos demonstrado que todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado.” E para convencê-los disso, ele então apresenta algumas passagens da sua própria lei, ou do Antigo Testamento (por cuja autoridade eles fingiram ter grande consideração), a partir de Romanos 3.9. E pode ser observado que o apóstolo cita primeiro algumas passagens para provar que a humanidade é toda corrupta, em Romanos 3.10–12; “Como está escrito: Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer.” Em segundo lugar, as passagens que ele cita a seguir são para provar que não apenas são todos corruptos, mas cada um é totalmente corrupto, por assim dizer, todo excessivamente impuro, do alto da cabeça até a planta dos pés; e, por isso, várias partes específicas do corpo são mencionadas, como a garganta, a língua, os lábios, a boca, os pés. Romanos 3.13-15, “A garganta deles é sepulcro aberto; com a língua, urdem engano, veneno de víboras está nos seus lábios, a boca, eles a têm cheia de maldição e de amargura; são os seus pés velozes para derramar sangue.” E, em terceiro lugar, ele cita outras passagens para mostrar que cada um não é apenas completamente corrupto, mas corrupto em um grau irrecuperável, em Romanos 3.16-18; onde o grau excessivo de sua corrupção é demonstrado tanto mediante afirmação como mediante negação. mediante o expressar afirmativamente a natureza e a tendência mais perniciosa de sua maldade, em Romanos 3.16, “Nos seus caminhos, há destruição e miséria.” E então, mediante a negação de todo o bem ou piedade neles, em Romanos 3.17-18, “Desconheceram o caminho da paz. Não há temor de Deus diante de seus olhos.” E então, para que os judeus não pensassem que essas passagens de sua lei não lhes diziam respeito, e que diziam respeito apenas aos gentios, o apóstolo mostra, no versículo do texto, não apenas que os judeus não estão isentos, mas que deve ser entendido como se referindo especialmente a eles: “Ora, sabemos que tudo o que a lei diz, aos que vivem na lei o diz.” Por aqueles que “vivem na lei” entende-se os judeus, e os gentios por aqueles que vivem sem lei, como torna-se óbvio por Romanos 2.12. Há uma razão especial para se entender a lei como falando para e daqueles a quem foi imediatamente concedida. E, portanto, não seria razoável para os judeus isentarem-se. E, se examinarmos os lugares do Antigo Testamento de onde essas passagens são extraídas, veremos claramente que tem relação especial com a perversidade das pessoas daquela nação, em cada uma delas. Para que a lei prenda tudo na perversidade universal e irrecuperável, “para que se cale toda boca”. A boca dos judeus, bem como a dos gentios, não obstante todos os privilégios pelos quais foram distinguidos dos gentios.

As coisas que a lei diz são suficientes para calar a boca de toda a humanidade em dois aspectos:

1. Para impedi-las de se vangloriarem de sua justiça, como os judeus costumavam fazer; como o apóstolo observa em Romanos 2.23. Fica claro que o apóstolo se refere ao calar suas bocas nesse aspecto em Romanos 2.27 do contexto: “Onde, pois, a jactância? Foi de todo excluída.” A lei impede nossas bocas de fazer qualquer apelo pela vida, pelo favor de Deus, ou por qualquer bem positivo, a partir de nossa própria justiça.

2. Para impedi-las de dar qualquer desculpa, ou fazer objeção contra a execução ou a sentença da lei, ou contra a aplicação do castigo que ela ameaça. Fica claro que esta é a intensão pelas palavras imediatamente seguintes, “e todo o mundo seja culpável perante Deus.” Isso é que fique claro que eles são culpados, estão condenados diante de Deus e justamente sujeitos à condenação de sua lei, como “culpados de morte”, de acordo com o modo de falar judaico.

E, assim, o apóstolo prova que nenhuma carne pode ser justificada aos olhos de Deus pelas obras da lei; conforme ele conclui no versículo seguinte; e assim prepara o caminho para o estabelecimento da grande doutrina da justificação pela somente fé, o que ele passa a fazer no versículo seguinte a este, e no restante do capítulo e da epístola.

 

Doutrina.

 

É justo para Deus rejeitar e destruir os pecadores eternamente.

 

Pois esta é a punição a qual a lei condena; que as coisas que a lei diz podem muito bem calar cada boca contra todos os tipos de objeção.

A verdade desta doutrina torna-se evidente mediante a consideração conjunta de duas coisas, a saber, o pecado do homem e a soberania de Deus.

I. Trona-se evidente a partir da consideração sobre o pecado do homem. E isto se considerarmos a natureza infinitamente maligna de todo pecado, ou de quanto pecado os homens são culpados.

Primeiro. Se considerarmos o mal infinito e a atrocidade do pecado em geral. Não é injusto da parte de Deus infligir o castigo merecido, porque a própria noção de merecer qualquer punição é que ela pode ser infligida com justiça; uma punição merecida e uma punição justa são a mesma coisa. Dizer que alguém merece uma determinada punição e, ainda assim, dizer que ele não a merece com justiça, é uma contradição; e, se ele a merece justamente, então pode ser infligida com justiça.

Todo crime ou falta merece uma punição maior ou menor, na medida em que o próprio crime seja maior ou menor. Se alguma falta merece punição, então quanto maior a falta tanto maior é a punição merecida. A natureza defeituosa de qualquer coisa é o fundamento e a razão formal de seu mérito de punição; e, portanto, quanto mais alguma coisa tiver dessa natureza, mais punição ela merece. E por isso, a terribilidade do grau de punição, que nunca é tão terrível, não é argumento contra a sua justiça se a proporção se mantém apenas entre a hediondez do crime e o pavor da punição. De modo que, se houver uma falha infinitamente hedionda, seguir-se-á que é justo infligir uma punição por causa dela que seja infinitamente terrível.

Um crime é mais ou menos hediondo, de acordo com as obrigações maiores ou menores em contrário. Isso é evidente, porque é aqui que a criminalidade, ou a culpa de qualquer coisa consiste, que é contrária ao que somos obrigados ou vinculados, ou o que deveria estar em nós. Assim, a culpa de um ser odiando outro, é proporcional à sua obrigação de amá-lo: o crime de um ser desprezar, e lançar desprezo sobre outro, é proporcionalmente mais ou menos hediondo como ele estava sob maior ou menor obrigação de honrá-lo: a culpa de desobedecer a outro, é maior ou menor, pois qualquer um está sob maior ou menor obrigação de obedecê-lo. E, portanto, se houver qualquer ser, que estamos sob infinitas obrigações de amar, e honrar, e obedecer, o contrário para com ele deve ser infinitamente defeituoso.

Um crime é mais ou menos hediondo, na medida em que estamos sob maiores ou menores obrigações para fazer o contrário. Isso é auto evidente, porque é aqui que consiste a criminalidade ou culpa de qualquer coisa que seja o contrário do que somos obrigados ou compelidos, ou do que deveria haver em nós. Por esta razão, a culpa de um ser odiar a outro é proporcional à sua obrigação de amá-lo; o crime de um ser desdenhar e desprezar a outro é proporcionalmente mais ou menos hediondo na medida em que ele tenha maiores ou menores obrigações de honrá-lo; a falta de desobedecer ao outro é maior ou menor na medida em que qualquer pessoa tem maiores ou menores obrigações de obedecê-lo. E, consequentemente, se há algum ser sob o qual estamos em infinitas obrigações de amar, honrar e obedecer, o contrário para com ele deve ser infinitamente defeituoso.

Nossa obrigação de amar, honrar e obedecer a algum ser é proporcional à sua amabilidade, honradez e autoridade. Pois esse é o próprio significado das palavras, quando dizemos que alguém é muito amável é o mesmo que dizer que ele deve ser muitíssimo amado; ou se dissermos que este é mais honrado que o outro, o significado das palavras é que ele é aquele a quem somos mais obrigados a honrar. Se dissermos que alguém tem grande autoridade sobre nós, é o mesmo que dizer que ele tem grande direito à nossa sujeição e obediência.

Porém Deus é um ser infinitamente amável porque tem infinita excelência e beleza. Ter infinita excelência e beleza é a mesma coisa que ter infinita amabilidade. Ele é um ser de infinita grandeza, majestade e glória, e, por isso, é infinitamente honrado. Ele está infinitamente exaltado acima dos maiores potentados da terra e dos anjos mais elevados do céu, e, por isso, é infinitamente mais honrado que eles. Sua autoridade sobre nós é infinita, e a base de seu direito à nossa obediência é infinitamente forte, pois ele é infinitamente digno de ser obedecido em si mesmo, e temos uma dependência absoluta e infinita dele.

De modo que o pecado contra Deus, sendo uma violação de obrigações infinitas, deve ser um crime infinitamente hediondo e, por isso, merecedor de punição infinita. Nada é mais agradável ao senso comum da humanidade do que os pecados cometidos contra alguém serem proporcionalmente hediondos à dignidade de quem está sendo ofendido e insultado, visto que também está de acordo com a Palavra de Deus. 1 Samuel 2.25, “Pecando o homem contra o próximo, Deus lhe será o árbitro” (isto é, deve julgá-lo e infligir uma punição finita, tal como os juízes finitos podem infligir); “pecando, porém, contra o Senhor, quem intercederá por ele?” Este foi o agravante do pecado que fez José temer, Gênesis 39.9, “Como, pois, cometeria eu tamanha maldade e pecaria contra Deus?” Este foi o agravante do pecado de Davi, em comparação ao qual ele considerava todos os outros como nada, porque eram infinitamente excedidos por ele. Salmo 51.4, “Pequei contra ti, contra ti somente”. A eternidade da punição dos homens ímpios o torna infinito; e não o torna mais do que infinito, e, portanto, torna-se nada mais do que proporcional à hediondez daquilo de que são culpados.

Se houver algum mal ou culpa no pecado contra Deus, certamente há um mal infinito; pois se for alguma falta tem um agravante infinito, a saber, que é contra um objeto infinito. Se for muito pequeno por outras razões, no entanto, se for de alguma medida, tem uma dimensão infinita e, portanto, é um mal infinito. O que pode ser ilustrado por isto: se supomos que uma coisa tem comprimento infinito, mas sem largura e espessura, é apenas uma mera linha matemática, ela não é nada; mas se tiver alguma largura e espessura, embora nunca tão pequena, todavia se tiver apenas uma dimensão infinita, a saber, a de comprimento, a quantidade é infinita; ela excede a quantidade de alguma coisa, por mais ampla, espessa e longa, em que essas dimensões são todas finitas.

De modo que as objeções feitas contra o castigo infinito do pecado, a partir da necessidade, ou melhor, da certeza prévia da futuridade[3] do pecado, decorrente do decreto de Deus ou da inevitável corrupção original da natureza, se argumentam alguma coisa, não argumentam contra a infinitude do grau de culpa do pecado diretamente, e não de outra forma senão que elas provam alguma culpa em tudo. Pois, se esta necessidade ou certeza deixa algum mal no pecado, essa culpa deve ser infinita em razão do objeto infinito.

Mas todo opositor, visto que argumentaria a partir disso, que não há culpa alguma no pecado, refuta a si mesmo e mostra sua própria falta de sinceridade em sua objeção. Pois, ao mesmo tempo que alega que os atos dos homens são necessários, a partir dos decretos de Deus e do pecado original, e que este tipo de necessidade é inconsistente com a culpa do ato, sua própria prática mostra que ele não acredita no que ele alega ser verdade. Caso contrário, por que ele culpa os homens? Ou por que essas pessoas estão descontentes com os homens por atos abusivos, injuriosos e ingratos para com eles? O que quer que eles pretendam, eles mostram com isso que, de fato, acreditam que não há necessidade nos atos dos homens, a partir dos decretos divinos ou da corrupção da natureza, que seja inconsistente com a culpa. E se sua objeção for esta, que esta certeza prévia é mediante a própria ordem de Deus, e que onde Deus ordena uma certeza antecedente dos atos ele transfere toda a culpa do ator para si mesmo; sua prática mostra que, ao mesmo tempo, eles não acreditam nisso, mas creem plenamente no contrário. Pois, quando são insultados ​​pelos homens, ficam descontentes com os homens e não somente com Deus.

A luz da natureza ensina a toda a humanidade que, quando uma injúria é voluntária, ela é errada, sem qualquer tipo de consideração do que poderia haver anteriormente para determinar o futuro daquele ato mau da vontade. E ela realmente ensina isso, tanto para aqueles que objetam e contestam mais, como para os outros; visto que mostra sua prática universal. Pelo que fica claro que essas objeções são falsas e perversas. Os homens mencionarão a natureza corrupta dos outros em sua própria defesa; ou, quando forem insultados, como algo que agrava seu crime e em que consiste em parte sua falta de culpa. Quão comum é para as pessoas, quando olham para si mesmas gravemente insultadas por outra pessoa, atacá-la e agravar sua vileza dizendo: “Ele é um homem de espírito muito perverso; ele é naturalmente egoísta, mesquinho ou de temperamento orgulhoso e arrogante; ele é alguém de disposição desprezível e vil.” E, no entanto, as disposições corruptas naturais dos homens são mencionadas como uma desculpa para elas, com respeito aos seus pecados contra Deus, e como se as tornassem sem culpa.

Segundo. Pode tornar-se mais abundantemente claro que é justo para com Deus rejeitar eternamente os homens perversos, se considerarmos o quanto eles são culpados. A partir do que já foi dito, fica claro que, se os homens forem culpados de pecado, apenas de um em particular, isso é motivo suficiente de sua rejeição e condenação eternas. Se eles são pecadores, isso é suficiente. Apenas isso pode ser suficiente para impedi-los de levantar suas cabeças e de fazê-los bater em seus peitos, como o publicano que exclamou: “Ó Deus, sê propício a mim, pecador!” Porém os homens pecaminosos não são apenas assim, mas são cheios de pecado; cheio dos princípios do pecado e cheio dos atos do pecado. Sua culpa é como grandes montanhas, amontoadas umas sobre as outras, até que a pilha cresça até o céu. Eles são totalmente corruptos, em todas as partes, em todas as suas faculdades; e em todos os princípios de sua natureza, em seus entendimentos e vontades; e em todas as suas disposições e afeições, suas cabeças, seus corações, são totalmente depravados; todos os membros de seus corpos são instrumentos somente do pecado; e todos os seus sentidos, visão, audição, paladar etc. são apenas entradas e saídas do pecado, canais de corrupção. Não há nada além de pecado, nenhum bem. Romanos 7.18, “Em mim, isso é, na minha carne, não habita bem nenhum.” Há todo tipo de maldade. Há as sementes dos maiores e mais sombrios crimes. Há princípios de todos os tipos de maldade contra os homens; e há toda maldade contra Deus. Há orgulho; há inimizade; há desprezo; há brigas; há ateísmo; há blasfêmia. Há essas coisas em força superior; o coração está sob o poder delas, está vendido sob o pecado e é um perfeito escravo dele. Há dureza de coração, dureza maior do que a de uma rocha ou um diamante. Há obstinação e perversidade, incorrigível e inflexível no pecado, que não serão superadas mediante ameaças ou promessas, mediante despertamentos ou encorajamentos, mediante julgamentos ou misericórdias, nem mediante o que é aterrorizante, nem mediante o que é atraente. O próprio sangue de Deus não conquistará o coração de um homem perverso.

E há maldades reais sem número ou medida. Há violações de cada comando, em pensamento, em palavra e em ação; uma vida cheia de pecado; dias e noites cheios de pecado; abuso de misericórdias e olhares de desprezo; misericórdia, justiça e todas as perfeições divinas pisoteadas; e a honra de cada pessoa da Trindade pisada na lama. Agora, se uma palavra ou pensamento pecaminoso tem tanto mal em si, visto que merece destruição eterna, como merecem ser eternamente expulsos e destruídos aqueles que são culpados de tanto pecado!

II. Se, com a pecaminosidade do homem, considerarmos a soberania de Deus, pode servir ainda mais para esclarecer a justiça de Deus na rejeição e condenação eternas dos pecadores, a partir das contestações e objeções dos homens. Não pretenderei determinar precisamente agora que coisas são e que coisas não são, atos e exercícios próprios da santa soberania de Deus, mas apenas que a soberania de Deus se estende às seguintes coisas.[4]

Primeiro. Que o poder e o direito soberanos de Deus são tais que ele não tem obrigação de impedir que os homens pequem, mas pode, em sua providência, permitir e abandoná-los ao pecado. Ele não era obrigado a impedir que anjos ou homens caíssem. É irracional supor que Deus esteja obrigado se ele faz uma criatura racional capaz de conhecer sua vontade, de receber uma lei dele e de estar sujeita ao seu governo moral, ao mesmo tempo tornar impossível que ela peque ou infrinja sua lei. Pois se Deus for obrigado a isso, destrói todo o uso de quaisquer mandamentos, leis, promessas ou ameaças, e a própria noção de qualquer governo moral de Deus sobre essas criaturas racionais. Qual seria o propósito de Deus dar tais e tais leis, e declarar sua santa vontade a uma criatura, e anexar promessas e ameaças, para induzi-la ao seu dever e fazê-la ter o cuidado de cumpri-las, se a criatura, ao mesmo tempo, tem isso para pensar, que Deus é obrigado a tornar impossível que ela quebre suas leis? Como as ameaças de Deus podem induzir ao cuidado ou à vigilância quando, ao mesmo tempo, Deus é obrigado a tornar impossível que ela seja exposta às ameaças? Ou qual o propósito de Deus dar uma lei? Pois, de acordo com essa suposição, é Deus, não a criatura, que está sob a lei. É preocupação do legislador, não do súdito, ver que sua lei é obedecida; e a essa preocupação que o legislador está absolutamente obrigado. Se Deus está obrigado a nunca permitir que uma criatura caia, há o fim de todas as leis divinas, ou do governo, ou da autoridade de Deus sobre a criatura. Não pode haver nenhuma maneira de usar essas coisas.

Deus pode permitir o pecado, embora a essência do pecado certamente resulte dessa permissão. E assim, mediante permissão, ele pode determinar e ordenar o evento. Se houvesse algo como acaso, ou mera contingência, e sua própria noção não carregasse um absurdo grosseiro (como poderia facilmente ser mostrado que faz), teria sido muito impróprio que Deus tenha deixado ao mero acaso se o homem deve cair ou não. Por acaso, se houver tal coisa, é não premeditado e cego. E certamente é mais adequado que um evento de tão grande importância, e que é assistido com uma série tão infinita de grandes consequências, deve ser determinado e ordenado pela sabedoria infinita do que que ser deixado ao acaso cego.

Se for dito que Deus não precisava ter interferido para tornar impossível ao homem pecar e, ainda assim, não deixá-lo à mera contingência ou ao acaso cego, mas poderia ter deixado ao livre arbítrio do homem determinar se pecaria ou não. Eu respondo, se Deus deixasse ao livre arbítrio do homem, sem qualquer tipo de disposição ou ordenação na circunstância, de onde deveria ser previamente certo como este livre arbítrio deve determinar, então ainda esta primeira determinação da vontade deve ser meramente contingente ou por acaso. Não poderia haver nenhum ato de vontade antecedente para determiná-lo, pois falo agora do primeiro ato ou movimento da vontade, que diz respeito a coisa que pode ser considerada como a base principal e a fonte mais elevada do evento. Supor que isso seja determinado por um ato anterior é uma contradição. A ordenação de Deus desta determinação da vontade, por sua permissão, não infringe de forma alguma a liberdade da criatura; em nenhum aspecto é mais inconsistente com a liberdade do que o mero acaso ou a contingência. Pois, se a determinação da vontade provém do acaso cego e não premeditado, não é mais do próprio agente, ou da própria vontade, do que se supormos, no caso, uma sábia disposição divina mediante permissão.

Segundo. Era apropriado que fosse de acordo com a ordenação da sabedoria divina e do bel prazer, se cada homem em particular deveria ser responsável por si mesmo, ou se o primeiro pai da humanidade deveria ser designado como o cabeça moral e federal, e representante do restante. Se Deus não tem liberdade nesta questão para determinar qualquer um dos dois como lhe aprouver, deve ser porque determinar que o primeiro pai dos homens deve representar o restante, e não que cada um deve representar a si mesmo, é prejudicial à humanidade. Pois, se não é prejudicial à humanidade, como é injusto? Mas não é prejudicial à humanidade, pois não há nada na natureza do caso em si que torne melhor para a humanidade que cada homem represente a si mesmo do que todos serem representados por seu pai comum; como a mínima reflexão ou consideração convencerá qualquer um. E se não há nada na natureza da coisa que torne o primeiro melhor para a humanidade do que o último, então seguir-se-á que não causará prejuízo a humanidade Deus escolher e designar o último em vez do primeiro; ou, o que é a mesma coisa, que não é prejudicial à humanidade.

Terceiro. Quando os homens caem e se tornam pecadores, Deus, por sua soberania, tem o direito de determinar sobre sua redenção como quiser. Ele tem o direito de determinar se irá redimir algum ou nenhum. Ele poderia, se quisesse, ter deixado todos perecerem, ou poderia ter redimido todos. Ou ele pode redimir alguns e deixar outros; e se ele fizer isso, ele pode escolher quem quiser e deixar de escolher quem quiser. Supor que todos perderam seu favor e merecem perecer, e supor que ele não pode deixar nenhum indivíduo dentre eles perecer, implica numa contradição; porque supõe que essa pessoa tem direito ao favor de Deus e não está sujeita a perecer de modo justo; o que é contrário à suposição.

É apropriado que Deus ordene todas essas coisas de acordo com sua própria vontade. Em razão de sua grandeza e glória, pelas quais ele está infinitamente acima de tudo, ele é digno de ser soberano, e que sua vontade seja realizada em todas as coisas. Ele é digno de que deve fazer de si mesmo seu fim, e que nada além de sua própria sabedoria deve ser sua regra ao perseguir esse fim; sem pedir licença ou conselho de ninguém, e sem prestar contas de qualquer um de seus assuntos. É apropriado que aquele que é absolutamente perfeito e infinitamente sábio, e a fonte de toda sabedoria, determine tudo mediante sua própria vontade, até mesmo as coisas da maior importância, como a salvação ou a condenação eterna dos pecadores. É apropriado que ele seja assim soberano, porque ele é o primeiro ser, o ser eterno, do qual todos os outros seres existem. Ele é o criador de todas as coisas, e todos são absoluta e universalmente dependentes dele; e, portanto, é adequado que ele atue como o possuidor soberano do céu e da terra.[5]

 

Aplicação.

 

[I] No desenvolvimento desta doutrina, eu me dirigiria primeiro aos pecadores que têm medo da condenação em um Uso de Convicção. Isso pode ser uma questão de convicção para você, que seria justo e reto para com Deus rejeitar e destruir você eternamente. É este o perigo ao qual você está sujeito. Você, que é um pecador sem Cristo, é uma pobre criatura condenada; a ira de Deus ainda permanece sobre você; e a sentença de condenação jaz sobre você; você está nas mãos de Deus e é incerto o que ele fará com você. Você tem medo do que acontecerá a você. Você tem medo de que será tua parte sofrer as chamas eternas. E teus medos não são infundados. Você tem razão para tremer a cada momento. Embora você nunca deixe de ter tanto medo dela, a condenação eterna nunca deixa de ser tão terrível, ainda assim ela é justa. Deus pode, apesar de executá-la, ser justo, santo e glorioso ao fazê-lo. Embora a condenação eterna seja o que você não pode suportar, e por mais que teu coração tenha pavor de pensar nela, ainda assim a justiça de Deus pode ser gloriosa nela. O pavor da coisa da tua parte e a grandeza de teu medo dela não a tornam menos justa da parte de Deus. Se você pensa o contrário, é um sinal de que você não compreende a si mesmo, de que não tem consciência do que é o pecado, nem de quanto você é culpado dele. Por isso, para tua convicção, seja dirigido,

Primeiro. A examinar tua vida passada. Pergunte à boca da consciência e ouça o que esta tem a testemunhar a respeito dela. Considere o que você é, que luz que teve e sob quais meios você viveu; e, todavia, como você se comportou! Com o que esses tantos dias e noites que você viveu foram preenchidos? Como passaram esses anos, que têm passado sobre tua cabeça, um após o outro? Por que o sol brilhou sobre você, dia a dia, enquanto você aproveitou sua luz para servir a Satanás por meio dela? Por que Deus conservou teu fôlego em tuas narinas e te deu comida e bebida, dia a dia, para que você tenha gasto essa vida e força, que tem sido sustentada por essas coisas, em oposição a Deus e rebelião contra ele?

De quantos tipos de maldade você é culpado? Quão múltiplas foram as abominações da tua vida? Que profanação e desprezo a Deus foram praticados por você? Quão pouca consideração você teve pelas Escrituras, pela Palavra pregada, pelos dias de descanso e pelos sacramentos? Como você tem falado de modo profano, muitos de vocês, sobre essas coisas que são santas? De que maneira muitos de vocês guardaram o dia santo de Deus, sem se importar com a santidade do período, nem se importando com o que pensavam sobre ele. Sim, você não apenas gastou o tempo em pensamentos mundanos, vãos e inúteis, mas em pensamentos imorais. Agradando a si mesmo com a reflexão sobre atos perversos passados e em planejar novos atos. Você não gastou muito período santo satisfazendo tuas luxúrias em tuas imaginações. Sim, não apenas o período santo, mas o próprio período da adoração pública de Deus, quando você compareceu na presença mais imediata de Deus? Como você não apenas não compareceu à adoração, mas, nesse ínterim, deleitou-se em tuas luxúrias e se chafurdou em impureza abominável! Quantos dias de descanso você passou, um após o outro, da maneira mais desprezível! Alguns de vocês não apenas em pensamentos mundanos e perversos, mas também em comportamento exterior muito perverso! Quando vocês, nos dias de descanso, partiram com seus companheiros perversos, como o tempo santo foi tratado entre vocês! Que tipo de conversa houve! Sim, como alguns de vocês, mediante uma carruagem muito indecente, desonraram abertamente e desprezaram os serviços sagrados da casa de Deus e o dia santo! E o que vocês fizeram, alguns de vocês sozinhos, que práticas perversas existem em segredo, mesmo nos períodos santos, Deus e vossas próprias consciências sabem.

E como você se comportou na hora da oração familiar! E que troca muitos de vocês têm feito ausentando-se da adoração das famílias às quais pertencem por causa de companhia inútil! E como você continuou negligenciando a oração secreta! Vivendo desse modo deliberadamente em um pecado conhecido, indo contra uma ordem tão clara como qualquer outra na Bíblia! Você não é um dos que abandonaram o medo e restringiu a oração diante de Deus?

De que comportamento perverso alguns de vocês têm sido culpados em relação a seus pais! Quão longe você esteve de prestar a eles aquela honra que Deus exige! Você nem mesmo nutriu má vontade e malícia em relação a eles? E quando eles te desagradaram, vocês desejaram o mal para eles? Sim, e mostraram vosso espírito vil em vosso comportamento? E está bem se você não zombou deles pelas costas; e como os malditos Cam e Canaã zombaram da nudez de seus pais em vez de cobri-la e esconderem seus olhos dela. Não tem alguns de vocês frequentemente desobedecido a vossos pais; sim, e se recusado a se sujeitarem a eles? Não é um milagre da misericórdia e da tolerância que o que é dito em Provérbios 30.17 não tenha sido executado sobre você até agora, “Os olhos de quem zomba do pai ou de quem despreza a sua mãe, corvos no ribeiro os arrancarão e pelos pintãos da águia serão comidos”?

De que vingança e malícia você é culpado em relação a vossos vizinhos? Como você condescendeu com esse espírito do diabo, odiando os outros e desejando o mal a eles, regozijando-se quando o mal se abateu sobre eles e lamentando a prosperidade dos outros; e viveu assim por muito tempo! Alguns de vocês não permitiram um ardente espírito violento, e se comportaram em sua raiva mais como feras do que como cristãos?

Que cobiça tem existido em muitos de vocês? Vosso amor desordenado pelo mundo e preocupação para com as coisas dele tem sido tal que tomou conta de vosso coração. Você não deu espaço para Deus e para a religião. Você se preocupou mais com o mundo do que com a tua salvação eterna. Por causa das vaidades do mundo você negligenciou a leitura, a oração e a meditação. Por causa das coisas do mundo você violou o dia do descanso. Por causa do mundo você passou grande parte do teu tempo em disputas. Por causa do mundo você tem invejado e odiado teu próximo. Por causa do mundo você lançou Deus, Cristo e o céu para trás de tuas costas. Por causa do mundo você vendeu tua própria alma. Você tem, por assim dizer, afogado tua alma em cuidados e desejos mundanos. Você tem sido uma mera minhoca, que nunca está em seu elemento exceto quando rastejando e enterrada na terra.

Quanto do espírito de orgulho apareceu em você! O qual é, de uma maneira peculiar, o espírito e a condenação do diabo. Como alguns de vocês vangloriam-se de suas roupas! Outros de suas riquezas! Outros de seus conhecimentos e habilidades! Como te irrita ver outras pessoas acima de você! Quanto foi contra a natureza, você dar aos outros a sua devida honra! E como você demonstrou teu orgulho ao estabelecer tuas vontades e ao se opor a outros, e a incitar e promover a divisão e um espírito partidário nos assuntos públicos!

Como você tem sido sensual! Não há alguns aqui que se rebaixaram abaixo da dignidade da natureza humana ao chafurdarem-se na imundície sensual, como porcos na lama ou como vermes imundos que se alimentam com prazer de carniça podre? De que intemperança alguns de vocês são culpados! Quanto do teu precioso tempo você gastou na taverna e em companhias de bebidas, quando deveria estar em casa buscando a Deus e tua salvação em tua família e no quarto!

E de que abominável lascívia alguns de vocês têm sido culpados! Como você tem se permitido, dia após dia, e noite após noite, em todos os tipos de imaginações impuras! Não tem tua alma sido cheia delas, até que se tornou um domínio de espíritos imundos e uma gaiola de todo pássaro impuro e detestável? Que pessoas desbocadas alguns de vocês têm sido, frequentemente em conversas obscenas e lascivas, e canções impuras, em coisas não convém serem ditas! E essa companhia, onde essa conversa foi travada, foi seu deleite. E com quais atos e práticas impuros você se contaminou! Deus e tua própria consciência sabem que abominável lascívia você praticou em coisas que não merecem ser mencionadas quando estava sozinho; quando você deveria estar lendo, meditando ou de joelhos diante de Deus em oração secreta. E como você corrompeu a outros, assim como poluiu a si mesmo! Que vil impureza você praticou em companhia de outros! De que abominações você é culpado sem conhecimento! Tal como o apóstolo sem dúvida considera, em Efésios 5.12: “Porque o que eles fazem em oculto, o só referir é vergonha”. Alguns de vocês corromperam a outros e fizeram o que em vocês planejaram para aniquilar suas almas (se não o fizeram de fato), e, por vossas práticas e exemplos vis, abriram espaço para Satanás, atraíram sua presença e estabeleceram seu interesse na cidade onde vocês têm vivido.

De que mentiras alguns de vocês são culpados, especialmente em sua infância! E o teu coração e os teus lábios não discordaram frequentemente desde que você atingiu os anos mais maduros? Que fraude, engano e infidelidade, muitos de vocês têm praticado em suas relações com teus vizinhos, do que teu próprio coração está consciente! Ainda que você não tenha sido mencionado por causa disso pelos outros.

E como alguns de vocês se comportaram nas relações familiares! Como você negligenciou a alma de teus filhos! E não apenas isso, mas corromperam suas mentes com teus maus exemplos; e, em vez de treiná-los na doutrina e admoestação do Senhor, antes os educaram no serviço do diabo!

Como alguns de vocês compareceram àquela santa ordenança da Ceia do Senhor; sem qualquer tipo de preparação séria e com um espírito negligente e desleixado[6], e principalmente para aquiescerem aos costumes! Você não ousou colocar os símbolos santos do corpo e do sangue de Cristo em tua boca, enquanto, ao mesmo tempo, vivia de acordo com os pecados conhecidos e não pretendia nada mais do que continuar nas mesmas práticas perversas? E pode ser que você tenha se sentado à mesa do Senhor com rancor no coração contra alguns de teus irmãos com quem você se sentou. Você veio para esta santa festa de amor entre os filhos de Deus com o fermento da malícia e da inveja em teu coração, e, assim, comeu e bebeu julgamento para si mesmo.

Quanta estupidez e embriaguez acompanhou teu curso de maldade! As quais são visíveis em tua obstinação sob as dispensações despertadoras da Palavra e da providência de Deus. E como alguns de vocês se desviaram depois de terem se estabelecido na religião, e apagado o Espírito de Deus depois que ele trabalhou em vocês! E de que inconstância, preguiça e grande não aproveitamento das obras de Deus você tem sido responsável, por ter sido objeto delas por muito tempo!

Agora, você pode pensar, depois de se comportar assim, que Deus é obrigado a mostrar misericórdia? Depois de tudo isso, você não tem vergonha de falar que é difícil para Deus rejeitar você? Fica bem a alguém que viveu tal vida, abrir sua boca para se desculpar, ou se opor à justiça de Deus em sua condenação, ou reclamar dela como difícil para Deus não lhe dar a graça da conversão e do perdão, torná-la seu filho e conceder-lhe a vida eterna! Ou falar de seus deveres, grandes esforços na religião e coisas assim, como se essas realizações fossem dignas de serem aceitas e de atrair o coração de Deus para tal criatura! Se este tem sido teu costume, isso não mostra quão pouco você julgou a si mesmo e quão pequeno é o senso que você teve de tua própria pecaminosidade?

Segundo. Seja dirigido a considerar, se Deus rejeitasse e destruísse você eternamente, que concordância e responsabilidade mútuas exatas haveria entre Deus lidar com você e com tua disposição e comportamento. Não haveria apenas uma igualdade, mas uma similitude. Deus declara que seu tratamento para com os homens deve ser adequado à sua disposição e prática. Salmo 18.25-26, “Para com o benigno, benigno te mostras; com o íntegro, também íntegro. Com o puro, puro te mostras; com o perverso, inflexível.” Por mais que você tema a condenação, e esteja assustado e preocupado com os pensamentos sobre ela; ainda assim, se Deus de fato te condenasse eternamente, você apenas seria encontrado em teu próprio caminho. Você seria tratado exatamente de acordo com o teu próprio procedimento. Deus apenas mede você com a mesma medida com a qual você mede. Certamente é justo que você seja obrigado a comprar com a mesma medida com a qual vende.

Aqui, em primeiro lugar, gostaria de mostrar particularmente que, se Deus destruísse você eternamente, isto estaria de acordo com o tratamento que você dá a Deus; em segundo lugar , que estaria de acordo com o teu tratamento de Jesus Cristo; em terceiro lugar, que estaria de acordo com o teu comportamento para com o próximo; em quarto lugar, que estaria de acordo com teu próprio comportamento insensato em relação a si mesmo.

1. Se Deus rejeitasse você para sempre, isso estaria exatamente de acordo o teu tratamento para com ele. Para que você esteja consciente disso, considere:

(1) Você nunca exerceu a menor medida de amor para com Deus e, portanto, concordaria com o teu tratamento para com ele se ele nunca expressasse qualquer amor para com você. Quando Deus converte e salva um pecador, isso é uma manifestação maravilhosa e indescritível do amor divino. Quando uma pobre alma perdida é trazida de volta a Cristo, tem todos os seus pecados perdoados e torna-se filho de Deus, levará toda uma eternidade para expressar e declarar a grandeza desse amor. E por que Deus estaria obrigado a expressar um amor tão maravilhoso para com você, que nunca exerceu o menor grau de amor para com ele em toda a tua vida? Você nunca amou a Deus, que é infinitamente glorioso e amável; e, então, por que Deus tem a obrigação de amar a você, que é todo deformado e repugnante como um verme imundo, ou melhor, uma víbora detestável? Você não tem benevolência em teu coração para com Deus. Você nunca se regozijou na felicidade de Deus. Se ele fosse infeliz, se isso fosse possível, você teria gostado da mesma forma como se ele fosse feliz; você não teria se importado com o quão miserável ele era, nem lamentado por isso, mais do que você agora se preocupa com o fato de o diabo ser miserável; e por que, então, Deus deveria ser considerado tão obrigado a cuidar da tua felicidade, quanto a fazer coisas tão grandes para ela, como ele faz para aqueles que são salvos? Ou por que Deus deveria ser chamado de severo, caso não tenha o cuidado de salvar você da miséria? Você não se importa com o que acontecerá com a glória de Deus, você não está aflito com o quanto a honra dele parece sofrer no mundo; e por que Deus deveria se importar com o teu bem-estar? Não é verdade que, se você pudesse promover apenas teus interesses particulares e satisfazer teus próprios desejos, você não se importaria com o quanto a glória de Deus sofre? E por que Deus não pode promover sua própria glória na ruína de teu bem-estar, não se importando com o quanto o teu interesse sofre com isso? Você nunca deu um passo sequer, fazendo sinceramente da glória de Deus o teu objetivo, ou agindo com verdadeiro apreço para com ele. E por que então é severo, se Deus não faz coisas tão grandes por você, como mudar tua natureza, ressuscitar você da morte espiritual para a vida, subjugando os poderes das trevas por você, transladando você do reino das trevas para o reino de seu amado Filho, libertando você da miséria eterna e concedendo a glória eterna a você? Você não costuma estar disposto a negar a si mesmo por causa de Deus. Você nunca se importou em sair do teu caminho por causa de Cristo. Sempre que alguma cruz ou dificuldade entrou em teu caminho, em que a glória de Deus estava envolvida, tem sido o teu costume evitá-la e justificar-se. Você não deseja se machucar por causa de Cristo; que você não considera digno disso. E por que, então, deve ser considerado uma coisa tão severa e cruel, se Cristo não se agrade em derramar seu sangue e ser atormentado até a morte por um pecador como este?

(2) Você menosprezou e fez pouco de Deus, então, por que Deus não pode com justiça desprezar você? Quando os pecadores estão, em alguma medida, conscientes de sua miséria, eles estão prontos para considerar ser severo que Deus não tome conhecimento deles, que ele os veja em tão lamentável condição de angústia, vendo seus fardos e lágrimas, e pareça desprezá-los e não manifestar piedade para com eles. Eles pensam que suas almas são preciosas; seria uma coisa terrível se elas perecessem e queimassem no inferno para sempre. Eles não se deixam iludir com isso que Deus não deveria levar à sério a sua salvação. Mas então não deveriam considerar que assim como suas almas são preciosas da mesma forma a honra de Deus é preciosa? A honra do Deus infinito, o grande Rei do céu e da terra, é algo de tão grande importância (e certamente deve ser tão estimada por Deus) quanto a tua felicidade, pobre vermezinho. Mesmo assim, você menosprezou a honra de Deus e não a valorizou mais do que a sujeira sob teus pés. Disseram a você que tais e tais coisas eram contrárias à vontade de um Deus santo e contra sua honra, mas você não se importou com isso. Deus te chamou e te exortou a ser mais cuidadoso com sua honra, mas você continuou não olhando para ele. Assim, você menosprezou a Deus! No entanto, é severo que Deus te despreze? Você é mais honrado que Deus, de modo que ele é obrigado a fazer muito de você. Quão pouco você sempre fez dele e de sua glória?

E você não apenas menosprezou a Deus no passado, mas ainda o menospreza. Você, de fato, finge e demonstra honrá-lo agora em tuas orações e frequência a outros deveres externos, e mediante semblante sóbrio e aparente devoção em tuas palavras e comportamento; mas é tudo mero fingimento. Esse olhar abatido e aparente reverência não vem de nenhuma honra que você tenha para com Deus em teu coração; embora você queira que seja assim e que Deus aceite que seja assim. Você que não creu em Cristo, não tem a mínima partícula de honra para com Deus; essa demonstração dela é meramente forçada, e você é levado pelo medo, como aqueles mencionados no Salmo 66.3, “Pela grandeza do teu poder, a ti se mostram submissos os teus inimigos.” No original é, “mentirão para ti”; isto é, rendem uma submissão fingida e aparentar respeitar e honrar a ti. Há uma vara sobre você que faz com que você pareça prestar tanto respeito para com Deus. Essa religião e devoção, até mesmo sua própria aparência, logo deixariam de existir e tudo desapareceria se a vara fosse removida. Às vezes, pode ser que você chore em tuas orações e nos sermões ouvidos, e espera que Deus tome conhecimento disso e considere isso como uma honra; mas ele vê tudo isso como hipocrisia. Você chora por causa de si mesmo; você tem medo do inferno. E você acha que é digno que Deus tome conhecimento de você porque você pode chorar quando está em perigo de ser condenado, quando, ao mesmo tempo, você realmente não se importa com a honra de Deus?

Vendo você desconsiderar assim um Deus tão grande, é uma coisa hedionda para Deus desprezar você, uma criatura pequena, miserável e desprezível; um verme, um mero nada e menos do que nada; um inseto vil, que se levantou em desprezo contra a Majestade do céu e da terra?

(3) Por que Deus deveria ser considerado obrigado a conceder salvação a você, quando você tem sido tão ingrato pelas misericórdias que ele já concedeu a você? Deus experimentou você com muita bondade, e você nunca lhe agradeceu sinceramente por algo dela. Deus zelou por você, preservou você, fez provisão para você e te seguiu com misericórdia todos os teus dias; e ainda assim você continuou pecando contra ele. Ele te deu comida e roupas, mas você tem aproveitado ambos no serviço ao pecado. Ele te preservou enquanto você dormia, mas, quando você se levantou, foi para voltar ao antigo ofício de pecar. Deus, apesar desta ingratidão, ainda estendeu sua misericórdia, mas sua bondade nunca conquistou teu coração, ou levou você a um comportamento mais grato para com ele. Pode ser que você tenha recebido muitas misericórdias extraordinárias, recuperações de doenças ou preservações de tua vida, quando exposto a acidentes em uma ou outra ocasião, ocasião em que, se você tivesse morrido, teria ido diretamente para o inferno; mas você nunca teve nenhuma verdadeira gratidão por qualquer uma dessas misericórdias. Deus manteve você fora do inferno e estendeu seu dia de graça e as ofertas de salvação por tanto tempo; e isto, talvez, enquanto você não considerou tanto tua própria salvação a ponto de ir em segredo e suplicar a Deus por ela. E agora Deus aumentou grandemente sua misericórdia para com você, te dando os esforços de seu Espírito, pelo qual você tem uma oportunidade muito preciosa para tua salvação em tuas mãos. Porém, que gratidão Deus recebeu por isso? Que tipo de retorno você fez por toda essa bondade? Assim como Deus multiplicou as misericórdias, assim você também multiplicou as provocações.

E ainda agora você está pronto para brigar por misericórdia e criticar a Deus; não apenas que ele não concede mais misericórdia, mas a contender com ele, porque ele não concede misericórdia infinita sobre você, o céu com tudo que ele contém, e até a ele mesmo, como tua porção eterna? Que conceitos você tem de si mesmo, de modo que pensa que Deus é obrigado a fazer tanto por você, embora você o trate de forma tão ingrata por sua bondade que tem recebido todos os dias de tua vida?

(4) Você escolheu voluntariamente estar com Satanás em sua inimizade e oposição a Deus; portanto, quão justo você poderia estar com ele em sua punição! Você não escolheu estar ao lado de Deus, mas preferiu ficar do lado do diabo, e tem continuado obstinadamente nesse caminho contra os chamados e conselhos de Deus frequentemente repetidos. Você escolheu dar ouvidos a Satanás antes que a Deus, e que estaria com ele em sua obra. Você se entregou a ele, para estar sujeito ao seu poder e governo, em oposição a Deus. Quão justamente, portanto, Deus também pode entregar você a ele e te deixar em seu poder, para executar tua ruína? Considerando que você se rendeu à vontade dele, para fazer o que ele quer que você faça, certamente Deus pode deixar você nas mãos dele para executar sua vontade sobre você. Se os homens estarão com o inimigo de Deus e ao seu lado, por que Deus é obrigado a redimi-los das mãos dele, depois de terem feito sua obra? Sem dúvida, você ficaria feliz em servir ao diabo e ser inimigo de Deus enquanto viver, e então ter Deus como teu amigo, e para te livrar do diabo quando você vier a morrer. Porém Deus será injusto se tratar você de outra forma? Certamente não! Será total e perfeitamente justo que você tenha sua parte com aquele com quem você escolheu trabalhar; e que você esteja em posse daquele a cujo domínio você se rendeu. E se você clamar a Deus por libertação, ele pode com toda a justiça dar essa resposta a você, Juízes 10.14: “Ide e clamai aos deuses que escolhestes”.

(5) Pense em quantas vezes você se recusou a ouvir os chamados de Deus e como seria justo se ele se recusasse a ouvir você quando você o chamasse. Você está pronto, talvez, para reclamar que você tem orado muitas vezes e sinceramente implorado a Deus para mostrar misericórdia, e ainda não tem resposta a oração. Uma pessoa diz: "Tenho sido constante na oração por tantos anos, e Deus não me ouviu." Outra diz: "Fiz o que pude; orei o mais fervorosamente que pude, não vejo como posso fazer mais; e parecerá difícil se, afinal de contas, seja rejeitado". Porém você considera quantas vezes Deus chamou e você o rejeitou? Deus chamou fervorosamente e por muito tempo; ele chamou e chamou novamente, em sua Palavra e em sua providência, e você recusou. Você não ficou desconfortável por causa do medo de não mostrar consideração o suficiente para com seus chamados. Você o deixou chamar tão alto e por tanto tempo quanto ele quis; de tua parte, você não teve tempo para prestar atenção ao que ele disse. Você tinha outros negócios com que se preocupar; você tinha esses e aqueles desejos para satisfazer e agradar, e preocupações mundanas para atender. Você não poderia se dar ao luxo de considerar o que Deus tinha a dizer a você. Quando os ministros de Cristo, que ele enviou naquela missão, se levantaram e suplicaram a você, em seu nome, dia de descanso após dia de descanso, e até mesmo gastaram suas forças nisso. Quão pouco você se comoveu com isso! Não alterou você, antes você continuou como costumava fazer; quando você foi embora, você voltou aos teus pecados, à tua lascívia, à tua alegria inútil, à tua cobiça, à tua intemperança, e essa tem sido a linguagem do teu coração e da tua prática. Êxodo 5.2, “Quem é o Senhor para que lhe ouça eu a voz?” Não foi nenhum crime você se recusar a ouvir quando Deus chamou? E, no entanto, agora é muito severo que Deus não ouça teus clamores sinceros, e isto embora teu clamor a Deus não seja por qualquer consideração para com ele, mas meramente por amor-próprio? O diabo imploraria tão fervorosamente quanto você se ele tivesse alguma esperança de obter a salvação por meio disso, e mil vezes mais fervorosamente, e ainda assim ser tão diabólico quanto é agora. Seus clamores são mais dignos de serem ouvidos do que os de Deus? Ou Deus é mais obrigado a considerar o que você lhe diz do que você a considerar seus mandamentos, conselhos e convites a você? O que pode ser mais justiça nisso do que isso, em Provérbios 1.24-28, “Mas, porque clamei, e vós recusastes; porque estendi a mão, e não houve quem atendesse; antes, rejeitastes todo o meu conselho e não quisestes a minha repreensão; também eu me rirei da vossa desventura, e, em vindo o vosso terror, eu zombarei, em vindo o vosso terror como a tempestade, em vindo a vossa perdição como o redemoinho, quando vos chegar o tempo do aperto e a angústia. Então, me invocarão, mas eu não responderei; procurar-me-ão, porém não me hão de achar.”

(6) Você não recebeu incentivo para pecar contra Deus por meio daquela presunção de que Deus mostraria misericórdia quando você a buscasse? E não pode Deus com justiça recusar essa misericórdia que você tanto presumiu? Foi com isso que você se bajulou e que te fez ousar desobedecer a Deus, a saber, que embora você o fizesse, Deus ainda teria misericórdia de você quando você clamasse fervorosamente por ela. Quão justo, portanto, seria para Deus desapontar tal presunção perversa? Foi com base nessa mesma esperança que você se atreveu afrontar a Majestade do céu tão terrivelmente quanto o fez; e agora você pode ser tão estúpido a ponto de pensar que Deus não é obrigado a frustrar essa esperança?

Quando um pecador recebe incentivo para negligenciar aquela oração secreta que Deus ordenou, satisfazer suas cobiças, viver uma vida carnal inútil, opor-se a Deus, chocar-se contra ele e desprezá-lo na cara, pensando consigo mesmo: “Se eu fizer isso, Deus não me condenará; ele é um Deus misericordioso e, portanto, quando eu buscar sua misericórdia, ele a concederá a mim”. Deus deve ser considerado severo porque ele não agirá de acordo com a presunção de tal pecador? Ele não pode ser dispensado de mostrar misericórdia a tal pecador quando este quis buscá-la, sem incorrer na acusação de ser injusto? Se for este o caso, Deus não tem a liberdade de reivindicar sua própria honra e majestade, mas deve expor-se a todo tipo de afronta, submeter-se aos abusos dos homens vis e deixá-los desobedecer, desprezá-lo e desonrá-lo, tanto quanto desejarem. E, quando eles tiverem feito isso, sua misericórdia e graça perdoadoras não devem estar em seu próprio poder e à sua própria disposição, mas ele deve ser obrigado a dispensá-la ao seu clamor. Ele deve aceitar esses ousados ​​e vis desprezadores de sua majestade, quando lhes convém pedir e perdoar todos os seus pecados; e não apenas isso, mas deve adotá-los em sua família, torná-los seus filhos e conceder-lhes a glória eterna. Que pensamentos mesquinhos, baixos e estranhos os homens têm de Deus, visto que pensam assim dele?

Considere que, por ser ele um Deus misericordioso, você tem ofendido a Deus ainda mais e tem sido seu pior inimigo. Você tratou esse atributo da misericórdia de Deus dessa maneira! Como é justo, portanto, que você nunca deva ter qualquer benefício advindo desse atributo!

Há algo peculiarmente hediondo em pecar contra a misericórdia de Deus mais do que contra outros atributos. Há uma ingratidão tão vil e horrível em ser o pior para Deus porque ele é um ser de infinita bondade e graça, que acima de todas as coisas torna a maldade vil e detestável. Isso deve nos conquistar e nos comprometer a servir melhor a Deus, mas, em vez disso, pecar ainda mais contra ele tem algo inexprimivelmente mau em si, e de uma maneira peculiar aumenta a culpa e inflama a ira; como parece ser notificado em Romanos 2.4-5, “Ou menosprezas a riqueza da sua bondade, e tolerância, e longanimidade, ignorando que a bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento? Mas, segundo a tua dureza e coração impenitente, acumulas contra ti mesmo ira para o dia da ira e a revelação do justo juízo de Deus.”

Quanto maior é a misericórdia de Deus, mais você deve se empenhar em amá-lo e viver para sua glória. No entanto, tem sido o contrário com você. A consideração das misericórdias de Deus como sendo tão excessivamente grande é a coisa com a qual você se encoraja no pecado. Você ouviu que a misericórdia de Deus não tem limites, que era suficiente para perdoar o maior pecador e, por isso, se aventurou a ser um grande pecador. Embora fosse muito ofensivo a Deus, embora você tenha ouvido que Deus odeia infinitamente o pecado e que tuas práticas eram excessivamente contrárias à sua natureza, vontade e glória. Ainda assim, isso não te deixou preocupado. Você ouviu que ele era um Deus muito misericordioso e tinha graça suficiente para perdoar você, e, por isso, não se importou com o quão ofensivos os teus pecados eram a ele. Há quanto tempo alguns de vocês continuam pecando, e de que grandes pecados alguns de vocês são culpados, sob essa presunção! Tua própria consciência pode dar testemunho disso, de que isso fez você recusar os chamados de Deus, e te fez indiferente a suas repetidas ordens. Agora, quão justo seria se Deus jurasse em sua ira que você nunca seria o melhor por ser ele infinitamente misericordioso!

Tua ingratidão tem sido maior, porque você não apenas abusou do atributo da misericórdia de Deus, recebendo dela incentivo para continuar no pecado, mas também abusou dessa misericórdia sob essa mesma noção ou sendo ela exercida para com você, em uma suposição de que Deus exerceria misericórdia infinita para com você em particular; cuja consideração deveria ter tornado Deus especialmente amado por você. Você tem se encorajado a pecar ainda mais a partir daquela consideração de que Cristo veio ao mundo e morreu para salvar os pecadores. Quanta[7] gratidão Cristo recebeu de você por sofrer uma morte tão atormentadora por seus inimigos! Agora, quão justo pode ser que Deus recuse que você seja o melhor por quem o seu Filho dar a vida! Foi por isso que você adiou a busca pela salvação. Você queria aproveitar ainda mais os prazeres do pecado endurecendo-se com isso, que a misericórdia era infinita e que não seria tarde demais se a procurasse depois. Agora, quão justamente Deus pode desapontar você nisso e ordenar que seja tarde demais!

(7) Como alguns de vocês se levantaram contra Deus e, na disposição de vossas mentes, se opuseram a ele em suas dispensações soberanas! E com que justiça, por causa disso, Deus poderia se opor a vocês e se colocar contra vocês! Você, todavia, nunca se submeteria a Deus, nunca poderia concordar voluntariamente com o fato de que Deus deve ter domínio sobre o mundo, e que ele deve governá-lo para a sua própria glória, de acordo com a sua própria sabedoria. Você, um pobre verme, um caco, um pedaço quebrado de um vaso de barro, ousa encontrar defeitos e contender com Deus. Isaías 45.9, “Ai daquele que contende com o seu Criador! E não passa de um caco de barro entre outros cacos. Acaso, dirá o barro ao que lhe dá forma: Que fazes?” No entanto, ainda assim você se aventurou a fazê-lo. Romanos 9.20, “Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus?” Porém, ainda assim, você pensou que era grande o suficiente. Você assumiu a responsabilidade de pedir contas a Deus. Por que ele faz assim e assim? Você disse a Yahweh: “Que fazes?”

Se você foi impedido pelo medo de expor abertamente tua oposição e inimizade de coração contra o governo de Deus, ainda assim, isso esteve em você. Você não tem estado sossegado na disposição de tua mente. Você tinha o coração de uma víbora por dentro e estava pronto para cuspir veneno em Deus. E está bem se, às vezes, você não o fez realmente ao permitir pensamentos blasfemos e revoltas malignas do coração contra ele; sim, e a disposição do teu coração tornou-se visível, em certa medida, em um comportamento impaciente e irascível.

Ora, vendo que você se opôs assim a Deus, quão justo é que Deus se oponha a você! Ou, é porque você é muito melhor e muito maior que Deus, que é um crime Deus fazer contra você esta oposição que você faz contra ele? Você pensa que deve se apropriar da liberdade de se opor a si mesmo, como sendo tua prerrogativa, para que você seja inimigo de Deus, mas de forma alguma Deus deve ser teu inimigo, antes que deve ser visto como uma obrigação, no entanto, ajudar você e te salvar pelo sangue dele, e te conceder as melhores bênçãos?

Considere como, na disposição de tua mente, você se opôs a Deus naqueles mesmos exercícios de misericórdia para com os outros que você está buscando para você mesmo. Deus, exercitando sua graça infinita para com o próximo, colocou você em uma situação doente, e pode ser um mero distúrbio mental. Com que justiça, portanto, Deus pode recusar exercer essa misericórdia para com você! Você não se opôs dessa forma à misericórdia de Deus para com os outros, mesmo na ocasião em que fingia ser sincero com Deus por causa da sua piedade e socorro para com você? Sim, e enquanto você se esforçava para conseguir algo com que te recomendar a Deus? E você ainda olhará para Deus com um desafio de misericórdia e, apesar disso, contender com ele por ela? Você, que tem um coração assim e se comportou dessa maneira, pode vir a Deus por outra razão que não seja a mera misericórdia soberana?[8]

2. Se você fosse rejeitado para sempre por Deus, isto concordaria com o teu tratamento de Jesus Cristo. Seria justo se Deus rejeitasse você para sempre, sem nunca te fazer a oferta de um Salvador. Porém Deus não fez isso, antes providenciou um Salvador para os pecadores, e o ofereceu a você. Sim, seu próprio Filho Jesus Cristo, que é o único Salvador dos homens. Todos os que não são rejeitados para sempre são salvos por ele. Deus oferece a salvação aos homens por meio dele, e nos promete que, se formos a ele, não seremos rejeitados. No entanto, você tratou e ainda trata este Salvador de tal maneira que, se você for eternamente rejeitado por Deus, isto estará de acordo com o teu comportamento para com ele. O que se torna evidente por isto, a saber,

Que você rejeita a Cristo e não o aceita como teu Salvador.

Se Deus oferece a você um Salvador da punição merecida e você não o recebe, então, certamente é justo que você prossiga sem um Salvador. Ou, Deus é obrigado, porque você não gosta desse Salvador, a providenciar outro? Se, quando ele dá uma pessoa infinitamente honrada e gloriosa, seu próprio Filho unigênito, como sacrifício pelo pecado, no fogo de sua ira, e, desse modo, providenciou a salvação, e este Salvador é oferecido a você, você não fica satisfeito nele e se recusa a aceitá-lo, por isso Deus é injusto se não te salvar? Ele é obrigado a salvar você da maneira que você escolher, porque você não gosta da maneira que ele escolheu? Ou você acusará a Cristo de injustiça porque ele não se tornou teu Salvador quando, ao mesmo tempo, você não o quer, quando ele se oferece a você e implora que você o aceite como teu Salvador?

Estou ciente de que, a esta altura, muitas pessoas estão prontas a abrir suas bocas em objeção contra isso. Se todos falassem o que pensam agora, ouviríamos murmúrios por todo o templo; e um e outro diriam: “Eu não posso ver como isso pode ser; que eu não esteja desejando que Cristo seja meu Salvador quando eu daria todo o mundo para que ele seja meu Salvador. Como é possível que eu não esteja disposto a ter Cristo como meu Salvador quando é isso que estou buscando, pelo que oro e luto como por minha vida?”

Aqui, portanto, me esforçarei para te convencer de que você está cometendo um erro grosseiro nesta questão. E, em primeiro lugar, tentarei mostrar a fraqueza dos fundamentos de teu erro. E, em segundo lugar, te demonstrarei que você rejeitou, e rejeitou voluntariamente a Jesus Cristo.

(1) Para que você possa ver a fraqueza dos fundamentos de teu erro, considere,

1. Há uma grande diferença entre a disposição de não ser condenado e o estar disposto a receber a Cristo como teu Salvador. Você tem o primeiro. Não há dúvida a ser levantada sobre isso. Ninguém supõe que você ame tanto a miséria a ponto de escolher uma eternidade dela. E assim, sem dúvida, você está desejoso de ser salvo da miséria eterna. Porém isto é uma coisa muito diferente de estar disposto a vir a Cristo. As pessoas, muito comumente, confundem um com o outro, mas são realmente duas coisas distintas. Você pode amar a libertação, mas odiar o libertador. Você fala de uma disposição, mas considere qual é o objeto dessa disposição; ela não diz respeito a Cristo; o caminho da salvação por meio dele não é de forma alguma o objeto dela; antes, tudo termina com a tua fuga da miséria. A inclinação da tua vontade não vai além do eu, ela nunca chega a Cristo. Você está desejoso de não ser miserável, isto é, você ama a si mesmo; e aí terminam tua vontade e escolha. E é apenas uma pretensão inútil e ilusão dizer ou pensar que você está disposto a aceitar a Cristo.

2. Certamente há uma grande diferença entre uma obediência forçada e uma boa vontade. Força e liberdade não podem estar em harmonia. Ora, essa disposição de que você fala, pela qual você pensa que deseja ter a Cristo como Salvador, é meramente uma coisa forçada. Teu coração não vai atrás de Cristo por si mesmo, antes você é forçado e levado a buscar um interesse nele. Cristo não tem participação alguma em teu coração; de modo algum teu coração está unido a ele. Essa obediência forçada não é o que Cristo busca de você; ele busca uma aceitação livre e voluntária, Salmo 110.3, “Apresentar-se-á voluntariamente o teu povo, no dia do teu poder”. Ele não pede que você o receba contra a tua vontade, mas de livre vontade. Ele pede acolhimento em teu coração e preferência. E, se você se recusa a receber a Cristo, quão justo é que Cristo se recuse a receber você! Quão razoáveis ​​são os termos de Cristo, que se oferece para salvar todos aqueles que voluntariamente, ou de boa vontade, o aceitam como seu Salvador! Quem pode racionalmente esperar que Cristo se imponha sobre qualquer homem para ser seu Salvador? Ou o que pode ser considerado mais razoável do que todos os que sejam salvos por Cristo o acolham sincera e livremente? E certamente seria muito desonroso que Cristo se oferecesse em condições inferiores. No entanto, eu agora prossigo,

(2) Para mostrar que é realmente verdade que você não está desejoso de ter Cristo como Salvador. Para convencer você disso, considere:

1. Como é possível que você deseje aceitar a Cristo como Salvador do abandono como um castigo do qual você não tem consciência de que merece. Se você está realmente desejoso de aceitar a Cristo como Salvador, isto deve ser como um sacrifício para fazer expiação por tua culpa. Cristo veio ao mundo com esta missão, se oferecer como expiação, para responsabilizar-se por nosso abandono como punição. Porém, como é possível que você esteja disposto a aceitar a Cristo como expiação pela culpa que você não sente que tem? Como você pode estar desejoso de ter Cristo como Salvador de um abandono no inferno, se você não tem consciência de que tem um abandono no inferno? Se você realmente não merece o fogo eterno no inferno, então a própria oferta de uma expiação por tal abandono é uma imposição sobre você. Se você não tem essa culpa sobre você, então a própria oferta de uma satisfação por essa culpa é um insulto, porque implica em um fardo de culpa do qual você está livre. Ora, portanto, é impossível que um homem que não está convencido de sua culpa esteja disposto a aceitar uma oferta, porque ele não pode estar disposto a aceitar a acusação em que a oferta implica; a qual ele considera ofensiva. Um homem que não está convencido de que merece um castigo tão terrível não pode submeter-se voluntariamente a ser acusado dele; se ele pensa que está disposto, é apenas um interesse forçado e fingido, porque em seu coração ele se vê gravemente ofendido. E, portanto, ele não pode aceitar livremente a Cristo sob essa noção de um Salvador daquela culpa e do abandono como tal punição; pois tal aceitação é um reconhecimento implícito de que ele merece essa punição.

Nada afirmo, exceto que os homens podem estar dispostos a ser salvos de um castigo imerecido. Eles podem preferir não sofrer do que sofrer. Porém um homem não pode estar disposto a aceitar alguém nas mãos de Deus sob a noção de um Salvador de um castigo merecido que ele pensa que não merece. É impossível que alguém reconheça livremente um Salvador sob essa noção. Tal pessoa não pode desejar o caminho da salvação por Cristo, pois, se ele pensa que não merece o inferno, então ele pensará que a liberdade do inferno é uma dívida, e, portanto, não pode recebê-lo voluntaria e sinceramente como um presente gratuito. Se um rei condenasse um homem a uma morte excessivamente atormentadora, a qual o condenado pensava não merecer, antes considerasse a sentença injusta e cruel, e o rei, quando da ocasião da execução se aproximasse, lhe oferecesse seu perdão sob a noção de um ato muito grande de graça e clemência, o condenado nunca poderia voluntária e sinceramente recebê-lo sob essa noção, porque ele se julgou injustamente condenado.

Ora, por isso é evidente que você não está desejoso de aceitar a Cristo como teu Salvador, porque você nunca teve tal senso de tua própria pecaminosidade e tal convicção de tua grande culpa aos olhos de Deus, a ponto de estar realmente convencido de que foi justamente condenado ao castigo do inferno. Você nunca se convenceu de que foi privado de todo favor, de que está nas mãos de Deus e à sua disposição soberana e arbitrária, para ser destruído ou salvo como ele quiser. Você nunca se convenceu da soberania de Deus. Consequentemente, existem tantas objeções se levantando contra a justiça da tua punição, do pecado original, dos decretos de Deus, da misericórdia demonstrada para com os outros e assim por diante.

2. É evidente que você não está sinceramente desejoso de aceitar a Cristo como teu Salvador por isso, pelo fato de que você nunca foi convencido de que ele é suficiente para a obra de tua salvação. Você nunca viu ou sentiu tal excelência ou dignidade em Cristo, como por exemplo a dar tanto valor ao seu sangue e à sua mediação com Deus, a ponto de ser suficiente para ser aceito por criaturas excessivamente culpadas, e por aqueles que têm provocado a Deus e se exposto à tal assombrosa ira. Dizer que é assim, uma submissão comum e permitir que seja como os outros dizem, é uma coisa muito diferente de estar realmente convencido disso e de ter consciência disso em seu próprio coração. A suficiência de Cristo depende, ou melhor, consiste em sua excelência. É porque ele é uma pessoa tão excelente que seu sangue é de valor suficiente para expiar o pecado, e é por isso que sua obediência é tão digna aos olhos de Deus. É também por isso que sua intercessão é tão predominante, e, portanto, aqueles que nunca tiveram qualquer visão espiritual ou senso da excelência de Cristo não podem ter consciência de sua suficiência.

E é evidente mais claro que os pecadores não estão convencidos de que Cristo é suficiente para a obra que empreendeu quando estão sob grande convicção de seu pecado e do perigo da ira de Deus. Embora possa ser que antes pensassem que poderiam reconhecer que Cristo era suficiente (pois é fácil reconhecer que alguém seja suficiente para nossa defesa em um momento em que não vemos perigo), ainda assim, quando eles se tornam conscientes de sua culpa e da ira de Deus que pensamentos desanimadores eles nutrem! Como estão prontos a entrar em desespero, como se não houvesse esperança ou ajuda para criaturas tão perversas como eles! A razão é que eles não têm apreensão ou senso de qualquer outra maneira pela qual a majestade de Deus pode ser justificada, mas apenas de sua miséria. Falar-lhes do sangue de Cristo não significa nada, não alivia seus corações afundados e desesperados. Isso torna mais evidente que eles não estão convencidos de que Cristo é suficiente para ser seu Mediador.

E, enquanto não estiverem convencidos disso, é impossível que estejam dispostos a aceitá-lo como seu Mediador e Salvador. Um homem com medo angustiante não se dirigirá voluntariamente a um forte que julga não ser suficiente para defendê-lo do inimigo. Um homem não se aventurará voluntariamente no oceano, em um navio que ele suspeita que esteja furado, e irá afundar antes que termine sua viagem.

3. É evidente que você não deseja ter Cristo como teu Salvador porque você tem uma opinião tão mesquinha sobre ele que não ousou confiar em sua fidelidade. Aquele que se compromete a ser o Salvador de almas precisa ser fiel, pois, se ele falhar nessa confiança, quão grande será a perda! Porém você não está convencido da fidelidade de Cristo, como é evidente, porque em ocasiões, como quando você está consciente, em uma medida considerável, da tua culpa e da ira de Deus, você não pode ser convencido de que Cristo está disposto a aceitá-lo, ou que ele está pronto para recebê-lo se você for a ele, embora Cristo convide tanto você a ir a ele e tenha declarado tão plenamente que ele não te rejeitará, se você for. Como por exemplo, particularmente, João 6.37, “O que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora.” Ora, nenhum homem pode estar sinceramente disposto a confiar seu bem-estar eterno nas mãos de uma pessoa infiel ou de cuja fidelidade ele suspeita.

4. Você não deseja ser salvo dessa forma por Cristo, como é evidente, porque não deseja que tua bondade própria seja desprezada. No modo da salvação por Cristo, a bondade do homem é totalmente desprezada, não há nenhuma consideração por ela. Ora, você não pode estar disposto a ser salvo de uma forma em que tua bondade própria seja desprezada, como fica evidente por isso, que você mesmo dá muito valor a ela. Você valoriza muito tuas orações e esforços na religião e frequentemente pensa nelas. Quão importantes ​​essas coisas parecem para você, quando você olha para trás, para elas! E quanto valem para alguns de vocês pensar o quanto fizeram mais do que outros, e esperar que Deus manifeste algum apreço ou consideração para com o que vocês fazem? Agora, se você valoriza tanto o que você mesmo faz, é impossível que você deseje livremente que Deus não faça nada com isso. Como podemos ver em outras coisas; se um homem se orgulha de uma grande propriedade, ou se valoriza muito seu cargo honroso, ou suas grandes habilidades, é impossível que ele goste e aprove sinceramente que outros façam pouco dessas coisas e as desprezem.

Considerando, portanto, que é tão evidente que você se recusa a aceitar a Cristo como teu Salvador, por que Cristo deve ser culpado por não salvar você? Cristo se ofereceu a você para ser teu Salvador no passado, ele ainda continua se oferecendo, e você continua a rejeitá-lo, mas reclama que ele não te salva. Tão estranhamente irracionais e inconsistentes consigo mesmos são os pecadores do evangelho!

Contudo, suponho que existam muitos de vocês, que em seus corações ainda se opõem, cujas suas bocas não estão fechadas. Uma objeção como esta provavelmente está agora no coração de muitos aqui presentes.

Objeção. Se for assim, que não estou disposto a ter Cristo como meu salvador, todavia não posso fazer-me querer.

Contudo devo dar uma resposta a essa objeção estabelecendo duas coisas, as quais devem ser reconhecidas como excessivamente evidentes.

1. Que você não pode receber Cristo por si mesmo não é desculpa, a menos que você pudesse se pudesse. Isso é tão evidente por si só que quase não precisa de qualquer prova. Certamente, se as pessoas não o fizessem, se pudessem, é a mesma coisa que a culpa que recai sobre elas, se podem ou não podem. Se você estivesse disposto e depois descobrisse que não podia, o fato de ser incapaz alteraria o caso e poderia ser uma desculpa; porque então o defeito não estaria em tua vontade, mas apenas em tua habilidade. Porém enquanto você não quiser, não importa qual seja a habilidade, quer você tenha ou não habilidade.

Se você não está desejoso de aceitar a Cristo, segue-se que você não tem uma disposição sincera de desejar; porque a vontade necessariamente sempre aprova e repousa em seus próprios atos. Supor o contrário seria supor uma contradição; seria supor que a vontade de um homem é contrária a si mesma, ou que ele deseja contrário ao que ele mesmo deseja. De modo que, visto que você não está desejoso de vir a Cristo, e não pode fazer você mesmo desejar, você não tem um desejo sincero de estar disposto; e, portanto, pode perecer com justiça sem um Salvador. Não há desculpa para você, pois diga o que quiser sobre tua incapacidade, a origem da tua culpa está em tua vontade perversa, que é inimiga do Salvador. É inútil falar de sua falta de poder, visto que a tua vontade é considerada defeituosa. Se um homem te odiar, devorar você e se exaltar, e te ferir no rosto e te dizer que ele fez isso voluntariamente e porque queria, mas apenas te disser que, ao mesmo tempo, ele te odiava tanto que não podia deixar de escolher e desejar fazer isso, você aceitaria isso com mais paciência por essa razão? Não seria a tua indignação ainda mais excitada?

2. Se você estaria disposto, se pudesse, isso não é desculpa, a menos que tua disposição de desejar fosse sincera. Aquilo que é hipócrita e não vem do coração, mas é meramente forçado, deve ser posto de lado totalmente, como digno de nenhuma consideração. E isso porque o senso comum ensina que aquilo que não é sincero, mas hipócrita, na verdade não é nada, sendo apenas uma exibição do que não é; mas aquilo que não serve para nada deve servir para nada. Contudo, se você deixar de lado tudo o que não é de graça e não chamar a disposição de nada além de disposição livre e sincera, então veja como fica o caso, e se você perdeu ou não todas as tuas desculpas por se opor aos apelos do evangelho. Você diz que estaria disposto a aceitar se pudesse, mas não é a partir de nenhum bom princípio que você está disposto a isso; não é a partir de alguma inclinação livre ou verdadeira consideração por Cristo, ou qualquer amor ao teu dever, ou algum espírito de obediência, ou a partir da influência de alguma forma de consideração real ou tendência em teu coração para com qualquer coisa que seja boa, ou a partir de qualquer outro princípio diferente daquele que está nos corações dos demônios e que os faria ter o mesmo tipo de disposição nas mesmas circunstâncias. Portanto, é evidente que não pode haver bondade naquele desejo[9] de desejar ir a Cristo; e o que não tem bondade não pode ser desculpa para maldade alguma. Se não houver nada de bom nele, então ele nada significa e não pesa nada quando colocado na balança para contrabalançar o que é mau.

Os pecadores, portanto, gastam seu tempo em discussões e objeções tolas, fazendo muito do que não serve para nada, dando desculpas que não valem a pena oferecer. É vão continuar a fazer objeções. Você está condenado de modo justo. A culpa está à tua porta. Afaste-a de você quantas vezes quiser, ela voltará sobre você. Costure folhas de figueira o quanto quiser, tua nudez será evidente. Você continua rejeitando intencional e perversamente a Jesus Cristo, e não o quer como teu Salvador, portanto, é uma loucura estúpida acusar Cristo de injustiça que ele não te salve.

Aqui está o pecado da incredulidade! Assim, a culpa desse grande pecado recai sobre você! Se você nunca tivesse tratado assim o Salvador, você poderia muito justamente ter sido condenado por toda a eternidade; isso estaria exatamente de acordo com o tratamento que você dá a Deus. Porém, além disso, quando Deus, não obstante, te ofereceu o seu próprio Filho amado para te salvar desta miséria sem fim que você merecia; e não apenas isso, mas para tornar você eternamente feliz no gozo dele mesmo, você o recusou e não o tem como teu Salvador, e ainda se recusa a sujeitar-se as ofertas do evangelho. O que pode tornar qualquer pessoa mais indesculpável? Se você morrer agora para sempre, o que você pode ter a dizer?

Por isso, a justiça de Deus em tua destruição torna-se evidente em dois aspectos,

(1) É mais abundantemente manifesto que é justo que você seja destruído. A justiça nunca parece tão evidente como depois de a misericórdia ser recusada e abusada. A justiça na condenação mostra-se abundantemente mais clara e brilhante após uma rejeição deliberada da salvação oferecida. O que um príncipe ofendido pode fazer além oferecer gratuitamente perdão a um malfeitor condenado? E se este se recusar a aceitá-lo, alguém dirá que sua execução é injusta?

(2) A justiça de Deus se tornará evidente em sua maior destruição. Além da culpa que você teria se um Salvador nunca tivesse sido oferecido, você traz esta grande culpa adicional sobre você, a de recusar ingratamente a libertação oferecida. Que tratamento mais abjeto e vil pode haver de Deus por você do que, quando justamente condenado à miséria eterna e pronto para ser executado, e Deus graciosamente envia seu próprio Filho, que vem e bate à tua porta com um perdão nas mãos, e não apenas um perdão, mas um documento de glória eterna. Eu digo, o que pode ser pior do que você, por antipatia e inimizade contra Deus e seu Filho, se recusar a aceitar esses benefícios de suas mãos! Quão justamente a ira de Deus pode ser grandemente inflamada e aumentada por isso! Quando um pecador rejeita a misericórdia assim ingratamente, seu último erro é pior que o primeiro. Isso é mais hediondo do que toda a tua rebelião anterior, e pode, com justiça, trazer mais terrível ira sobre ele.

A hediondez deste pecado de rejeitar um Salvador torna-se evidente especialmente em duas coisas,

1. A grandeza dos benefícios oferecidos. O que se torna evidente na grandeza da libertação, a qual é de graus inexprimíveis de corrupção e maldade de coração e de vida, cujo menor grau é infinitamente mau; e da miséria que é eterna; e na grandeza e glória da herança comprada e oferecida. Hebreus 2.3, “Como escaparemos nós, se negligenciarmos tão grande salvação?”

2. A maravilha da maneira como esses benefícios são adquiridos e oferecidos. Como é maravilhoso que Deus deveria planejar a ajuda em seu próprio Filho, quando nossa circunstância era tão deplorável que nenhuma ajuda poderia ser obtida em uma mera criatura; e que ele deveria empreender por nós, e deveria vir ao mundo e assumir nossa natureza, e não deveria apenas apresentar-se em um estado inferior de vida, mas deveria morrer tal morte e suportar tais tormentos e desprezo pelos pecadores enquanto inimigos! E que língua ou pena pode expor a grandeza da ingratidão, vileza e perversidade que há nisto: quando um pecador que perece, que se encontra na mais extrema necessidade de salvação, a rejeita, depois de ter sido obtida desta forma! Que uma pessoa tão gloriosa seja tratada assim, e isso quando ela vem cumprir uma missão tão graciosa! Que ele permaneça se oferecendo, chamando e convidando por tanto tempo, como fez com muitos de vocês, e tudo sem propósito, senão o tempo todo sendo desprezado! Certamente você pode ser lançado no inferno com justiça, sem mais a oferta de um Salvador! Sim, e lançado no inferno mais profundo! Nisto você excedeu os próprios demônios, pois eles nunca rejeitaram as ofertas de tão gloriosa misericórdia; não, nem de qualquer misericórdia. Esta será a condenação distinta dos pecadores do evangelho. João 3.18: “O que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus”.

Aquela suavidade exterior de tua postura em relação a Cristo, aquela aparência de apreço por ele em teus olhares, teus discursos e gestos nada provam exceto que você o despreza em teu coração. Pode haver muitas dessas demonstrações externas de apreço e, ainda assim, você é como Judas que traiu o Filho do homem com um beijo; e como aqueles zombadores que dobraram os joelhos diante dele e, ao mesmo tempo, cuspiram em seu rosto.[10]

3. Se Deus te rejeitasse para sempre e te destruísse, isto estaria de acordo com o teu tratamento para com os outros. Não seria outra coisa senão o que corresponderia exatamente ao teu comportamento para com teus semelhantes, que têm a mesma natureza humana e estão naturalmente nas mesmas circunstâncias que você, e que você deve amar como a si mesmo. E isso se torna evidente especialmente em duas coisas.

(1) Muitos de vocês têm sido contrários em sua disposição à salvação de outros. Existem várias maneiras pelas quais os homens naturais manifestam um espírito de oposição contra a salvação da alma dos outros. Às vezes, apresenta-se mediante o medo de que seus companheiros, conhecidos e iguais obtenham misericórdia e, assim, se tornem indescritivelmente mais felizes do que eles. Às vezes, é manifestado mediante um mal-estar com a notícia de que outras pessoas a obtiveram com esperança. Mostra-se quando as pessoas invejam as outros por tê-la, e não gostam mais delas, não gostam de sua conversa, evitam sua companhia, não suportam ouvir seu discurso religioso e, especialmente, receber advertências e conselhos delas. E, muitas vezes, apresenta-se mediante sua relutância em nutrir pensamentos caridosos sobre elas, e por dificilmente serem levados a crer que é realmente assim, que elas obtiveram misericórdia, e uma prontidão para ouvir qualquer coisa que pareça contradizer a obtenção da misericórdia. O diabo odiava a sinceridade de Jó (Jó 1.7, etc., e Jó 2.3-5). Muito desse espírito do diabo torna-se evidente frequentemente nos homens naturais. Às vezes, eles estão prontos para ridicularizar a piedade fingida dos outros, falam da base das esperanças dos outros como os inimigos dos judeus fizeram com o muro que eles construíam. Neemias 4.3, “Estava com ele Tobias, o amonita, e disse: Ainda que edifiquem, vindo uma raposa, derribará o seu muro de pedra.” Há muitos que se juntam a Sambalate e Tobias e têm o mesmo espírito que eles. Sempre houve, e sempre haverá, uma inimizade entre a semente da serpente e a semente da mulher. Ela mostrou-se em Caim, que odiou a seu irmão, porque este foi mais aceitável a Deus do que ele; e ainda aparece nestes tempos e neste lugar. Há muitos que são como o irmão mais velho, que não podia suportar que o filho pródigo, quando voltou, fosse recebido com tanta alegria e bom entretenimento, e se irritou por isso, tanto contra seu irmão que havia retornado quanto contra seu pai que o acolheu tão bem (Lucas 15).

Assim, muitos de vocês se opuseram à salvação de outros que têm tanta necessidade dela quanto vocês. Vocês têm sido contra eles serem libertados da miséria eterna, de modo que não possam suportá-la melhor do que você, não porque a salvação deles te faria mal, ou porque a condenação deles te ajudaria, senão porque iria gratificar aquele espírito vil que é tão parecido com o espírito do diabo, que, porque ele mesmo é miserável não deseja que outros o sejam felizes. Quão justo, portanto, é que Deus se oponha à tua salvação! Se você tem tão pouco amor ou misericórdia em você, a ponto de invejar[11] a salvação do teu próximo, a quem você não tem motivo para odiar, mas que a lei de Deus e da natureza exigem que você ame, por que Deus está obrigado a exercer tal amor e misericórdia infinitos para com você, a ponto de te salvar pelo preço de seu próprio sangue, você que ele não é obrigado a amar, mas que merece seu ódio milhares e milhares vezes? Você não quer que outros se convertam, os quais se comportaram de forma injuriosa para com você, e, ainda assim, você considerará severo que Deus não conceda a graça da conversão a você, que tem merecido dez mil vezes mais mal de Deus que qualquer um de teus vizinhos têm merecido de você? Você se opõe à misericórdia de Deus para com estes e aqueles, os quais você pensa que são pessoas depravadas e são muito indignas de tal misericórdia. A indignidade dos outros é um motivo justo pelo qual Deus não deve conceder misericórdia a eles? E, todavia, Deus será severo se, apesar de toda a tua indignidade e da repugnância da tua disposição e prática aos olhos dele, ele não mostrar misericórdia para com você? Você gostaria que Deus te concedesse liberalmente, e não te censurasse, mas, todavia, quando ele mostra misericórdia para com os outros, você está pronto para reprovar assim que ouve falar disso. Você imediatamente começa a pensar consigo mesmo como eles se comportaram mal; e pode ser que tua boca, nesta ocasião, sejam abertas, enumerando e agravando os pecados dos quais são culpados. Você gostaria que Deus enterrasse todas as tuas faltas e apagasse totalmente todas as tuas transgressões, mas, todavia, se ele conceder misericórdia aos outros, pode ser que você aproveite a ocasião para evocar todos os seus velhos defeitos que puder lembrar. Você não reflete muito,  e não condena a si mesmo, por tua vileza e espírito injusto para com os outros em tua oposição à salvação deles. Você não briga consigo mesmo, e se condena por isso; mas, todavia, em teu coração você brigará com Deus, o condenará e se irritará com suas dispensações, porque pensa que ele parece contrário a mostrar misericórdia para com você. Alguém poderia pensar que a consideração dessas coisas deveria calar tua boca para sempre.

(2) Considere como você promoveu a condenação de outros. Muitos de vocês, mediante os maus exemplos que deram, mediante a corrupção das mentes de outros, mediante sua conversa pecaminosa, mediante o conduzi-los ao pecado ou o fortalecê-los no pecado, e mediante o dano que vocês causaram na sociedade humana de outras maneiras que poderiam ser mencionadas, têm sido culpados dessas coisas que tenderam para a condenação de outros. Você até agora mostrou-se do lado do pecado e de Satanás, se comportou de modo a fortalecer o interesse deles, tem sido cúmplice dos pecados dos outros de muitas maneiras, endureceu o coração de outros e, assim, fez o que visou a ruína de suas almas.

E, sem dúvida, há aqueles aqui presentes, que têm sido em grande parte o meio de condenação de outros. Embora seja verdade que está determinado por Deus quem ele salvará, e quem não salvará, desde toda a eternidade, ainda assim, um homem pode realmente ser o meio para a condenação de outros, bem como para a salvação. Cristo acusou os escribas e fariseus disso. Mateus 23.13, “Fechais o reino dos céus diante dos homens; pois vós não entrais, nem deixais entrar os que estão entrando.” Não temos nenhuma razão para pensar que esta congregação não tenha ninguém nela que seja amaldiçoado dia a dia pelas pobres almas que estão uivando no inferno, de cuja condenação eles são o meio, ou para a qual contribuíram grandemente.

Muitos são os que contribuem para a condenação de seus próprios filhos ao negligenciarem sua educação, ao dar-lhes maus exemplos e ao criá-los de maneiras pecaminosas. Cuidam um pouco de seus corpos, mas cuidam pouco de suas pobres almas. Provêm para si o pão para comer, mas negam para si o pão da vida de que suas almas famintas precisam. E não existem aqui pais que tratam assim seus filhos? Se seus filhos não foram para o inferno não é graças a eles; não é porque eles não fizeram o que tende à sua destruição. Visto, portanto, que você não teve mais consideração pela salvação de outros e promoveu sua condenação, com que justiça Deus poderia deixar você perecer?

4. Se Deus te rejeitasse eternamente, isto apenas concordaria com o teu próprio comportamento em relação a você mesmo. E isso em dois aspectos:

(1) Por ser tão descuidado para com tua própria salvação. Você se recusou a cuidar de tua salvação, conforme Deus te aconselhou e ordenou de tempos em tempos; e por que Deus não pode omiti-la agora que você a busca nele? Deus é obrigado a ter mais cuidado para com a tua felicidade do que você, seja com a tua própria felicidade ou com a glória dele? Deus é obrigado a cuidar de você, por amor a você, cuidado que você não terá por si mesmo, seja por amor a si mesmo, seja por apreço à autoridade dele? Há quanto tempo, e com que intensidade, você negligencia o bem-estar de tua preciosa alma, recusando-se a se esforçar e a negar-se a si mesmo, ou a sair um pouco fora do teu caminho para tua salvação, enquanto Deus está chamando você! Nem o teu dever para com Deus, nem o amor para com a tua própria alma foram suficientes para persuadir você a fazer pequenas coisas para o teu próprio bem-estar eterno; e, ainda assim, agora você espera que Deus faça grandes coisas, aplicando o poder onipotente e exercendo misericórdia infinita em prol dele? Você foi incitado a cuidar da tua salvação, e não a adiá-la. Foi dito a você que aquele era o melhor momento, antes de você envelhecer. Que poderia ser, se você o adiasse, que Deus não o ouviria depois. Porém, ainda assim, você não quis ouvir; você correria o risco. Agora, quão justamente Deus pode ordenar que seja tarde demais, deixando você buscar em vão! Disseram que você se arrependeria se demorasse, mas você não quis ouvir. Quão justamente, portanto, Deus pode dar a você motivos para se arrepender disso, recusando-se a mostrar misericórdia agora! Se Deus ver você agindo de maneira contrária aos seus mandamentos e à sua glória, e exigir que você abandone esse curso de ação, e te disser que são caminhos que tendem à destruição de tua própria alma e, portanto, te aconselhe a evitar esses caminhos, e você se recusa, como seria justo se Deus se sentisse provocado com isso, e doravante fosse tão descuidado para com o bem de tua alma quanto você é!

(2) Você não apenas negligenciou tua salvação, mas obstinadamente fez cursos diretos para destruir a você mesmo. Você seguiu aqueles caminhos e práticas que se inclinavam diretamente para a tua condenação, e foi perverso e obstinado nisso. Você não pode alegar ignorância. Você tinha toda a luz que poderia desejar colocada diante de você. Deus te disse que você estava se destruindo, mas, ainda assim, você o fez. Ele te disse que o caminho que você estava seguindo conduzia à destruição e te aconselhou a evitá-lo, mas você não quis ouvir. Quão justamente, portanto, Deus pode deixar você para ser destruído! Você tem persistido obstinadamente em andar no caminho que leva para o inferno por um longo tempo, contrário aos contínuos conselhos e ordens de Deus, até que possa estar finalmente chegando ao fim de tua jornada e estar perto do portão do inferno, e então começa a estar consciente do seu perigo e miséria, e agora considera injusto e severo que Deus não te liberte! Você destruiu a si mesmo e se destruiu deliberadamente, ao contrário dos repetidos conselhos de Deus, sim, e se destruiu na luta contra Deus. Agora, portanto, por que você culpa alguém além de você mesmo, se você é destruído? Se você deseja destruir a si mesmo ao se opor a Deus, enquanto Deus se opõe a você mediante seus chamados e conselhos, e, talvez também, pelas convicções de seu espírito, o que você pode objetar contra isso, se Deus deixa você agora para ser destruído? Você teve o teu próprio caminho, e não quis que Deus se opusesse a você nele, e o teu caminho era arruinar a tua própria alma. Quão justo, portanto, se agora, finalmente, Deus deixar de se opor a você, concordar com você e permitir que tua alma seja arruinada; e visto que você iria destruir a si mesmo, então deve colocar sua mão para destruir você também! As maneiras como você avançou tinham a tendência natural para a tua miséria. Se você bebesse veneno, em oposição a Deus e em desprezo a ele e a seus conselhos, a quem você pode culpar senão a você mesmo se for envenenado e morrer? Se você quiser correr em direção ao fogo, contra todas as restrições da misericórdia e da autoridade de Deus, certamente você deve culpar a você mesmo se for queimado.

Assim, propus algumas coisas à tua consideração, as quais, se você não for excessivamente cego, insensato e perverso, fecharão a tua boca e te convencerão de que você está condenado de modo justo diante de Deus, e que ele de forma alguma trataria severamente com você, mas com toda a justiça ao negar a você qualquer misericórdia, e ao recusar-se a ouvir tuas orações que você nunca orou tão sinceramente, nunca com tanta frequência e nunca continuou nela por tanto tempo; e que Deus desconsidere totalmente tuas lágrimas e gemidos, teu coração abatido, teus desejos fervorosos e grandes esforços; e que ele te lance na destruição eterna, sem qualquer consideração para com o teu bem-estar, negando a você a graça da conversão e te entregando a Satanás; e, por fim, te lance no lago que arde com fogo e enxofre, para estar ali por toda a eternidade, sem descanso dia ou noite, glorificando para sempre sua justiça sobre você, na presença dos santos anjos e na presença do Cordeiro.

Objeção. Aqui, porém, muitos ainda podem objetar (pois estou consciente de que é uma coisa difícil de fechar a boca dos pecadores): “Deus mostra misericórdia para com outros que fizeram essas coisas, assim como eu, sim, que fizeram muito pior do que eu.”

Resposta 1. Isso não prova que Deus está obrigado a mostrar misericórdia a você, ou a eles igualmente. Se Deus a concede a outros, ele não a concede a eles porque é obrigado a fazê-lo. Ele poderia, se lhe agradasse, negá-la a eles com a gloriosa justiça. Se Deus a concede a alguns, isso não prova que ele é obrigado a concedê-la a todos; e, se ele não é obrigado a concedê-la a ninguém, então ele não é obrigado a concedê-la a você. Deus não está em dívida com ninguém, e se ele dá a alguns aquilo que ele não está em dívida, porque é seu prazer, isto não o coloca em dívida com os outros. Não altera em nada o caso quanto a você, se os outros a tenham ou não, você não merece menos condenação do que se a misericórdia nunca tivesse sido concedida a alguém. Mateus 20.15, “Ou são maus os teus olhos porque eu sou bom?”

2. Se essa objeção for correta, então o exercício da misericórdia de Deus não é sua prerrogativa e sua graça não é sua para dá-la. Aquilo que Deus não pode dispor como lhe agrada não é seu; pois o que é seu está à sua disposição, mas se não for de Deus, então ele não é capaz de o dar ou presentear a ninguém. É impossível dar o que se deve.

O que você faria de Deus? O grande Deus deve estar amarrado a isso, que ele não deve usar sua própria vontade ao conceder seus próprios dons, mas, se ele os concede a um, deve ser considerado obrigado a concedê-los a outro? Deus não é digno de ter o mesmo direito, com respeito aos dons de sua graça, que um homem tem sobre seu dinheiro ou bens? É porque Deus não é tão grande, e porque deveria estar em maior sujeição do que o homem, que isso não pode ser permitido a ele? Se algum de vocês vê motivo para mostrar bondade para com um vizinho, todos os demais vizinhos vêm até você e dizem que você deve a eles tanto quanto deu a tal homem? Contudo, é assim que você lida com Deus! Como se Deus não fosse digno de ter uma propriedade tão absoluta sobre seus bens, como você tem sobre os teus!

Nesse caso, Deus não pode dar nada de presente. Ele não tem nada próprio para conceder. Se ele tem a intenção de mostrar favor peculiar a alguns, ou de colocar algumas pessoas em particular sob obrigações peculiares para com ele, ele não pode fazer isso porque não tem um dom especial, do qual suas criaturas tenham grande necessidade e que visaria muito a felicidade delas, à sua própria disposição. Se esse é o caso, por que você ora a Deus para que ele te conceda a graça salvadora? Se Deus não pode, com justiça, negá-la a você porque ele a concede a outros, então não vale a pena orar por isso; você pode apenas ir e dizer-lhe que ele a concedeu a estes e àqueles, embora maus ou piores que você, e então exigir isso dele como uma dívida. E, nesse caso, as pessoas nunca precisam agradecer a Deus pela salvação quando ela é concedida, pois que motivo há para agradecer a Deus por aquilo que não estava à sua disposição e que ele, com justiça, não poderia negar? O que acontece no fundo é que os homens têm pensamentos baixos em relação a Deus e pensamentos elevados em relação a si mesmos, e por isso eles olham para Deus como tendo tão pouco direito, e dizem o que está escrito em Mateus 20.15, “Porventura, não me é lícito fazer o que quero do que é meu?”

(3) Deus pode, com justiça, mostrar maior apreço para com os outros do que por você, pois você demonstrou maior apreço para com os outros do que para com Deus. Você demonstrou maior apreço para com os homens do que para com Deus; preferiu ofender a Deus do que ofender aos homens. Deus apenas mostra maior apreço para com os outros que são teus iguais por natureza do que por você, mas você mostrou apreço maior para com aqueles que são infinitamente inferiores a Deus do que para com ele. Você tem mostrado maior apreço para com os homens ímpios do que para com Deus; você os honrou mais, os amou mais e dedicou-se a eles em vez de a ele. Sim, você tem honrado o diabo, em muitos aspectos, mais do que a Deus. Você escolheu sua vontade e seu interesse em vez da vontade de Deus e sua glória. Você escolheu um pouco de pilhagem mundana em vez de Deus. Você tem se dirigido mais a uma luxúria vil do que a ele. Você escolheu essas coisas e rejeitou a Deus. Você colocou teu coração nestas coisas e lançou Deus para trás. E onde está a injustiça, se Deus tem o prazer de mostrar maior apreço para com os outros do que para com você, ou se ele escolhe os outros e rejeita você? Você tem mostrado maior apreço para com as coisas vis e sem valor, e nenhum apreço para com a glória de Deus. Por que Deus não pode colocar seu amor nos outros e não ter consideração para com tua felicidade? Você demonstrou grande apreço para com os outros e não para com Deus, a quem se deve infinitas obrigações de apreço acima de tudo; e por que Deus não pode mostrar apreço para com os outros e não para com você, que nunca se viu sob a menor obrigação para com ele?

E você não terá vergonha, apesar de todas essas coisas, de ainda abrir tua boca para objetar e criticar os decretos de Deus, e outras coisas que você não pode entender completamente. Sejam os decretos de Deus o que forem, isto não altera o caso quanto à tua liberdade, não mais do que se Deus a tivesse conhecido de antemão. E por que Deus é o culpado por decretar coisas? Quão impróprio teria sido um Ser infinitamente sábio ter feito um mundo e deixado as coisas correrem ao acaso, sem descartar os eventos ou predeterminar como eles deveriam ocorrer? E o que é isso para você, como Deus predeterminou as coisas, contanto que a tua experiência constante te ensine que isso não atrapalha a tua liberdade, ou o fazer o que você escolhe fazer. Você sabe disso, e tua prática e comportamento diários entre os homens declaram que você tem plena consciência disso, no que diz respeito a você mesmo e aos outros. E ainda objetar, porque há algumas coisas nas dispensações de Deus acima do teu entendimento, é excessivamente irracional. Tua própria consciência te acusa de grande culpa e, com as coisas que foram mencionadas, sejam as coisas secretas de Deus sejam o que forem. Tua consciência te acusa daquelas disposições vis e daquele comportamento desprezível para com Deus, do qual você, em algum momento, mais  se ressentiria do seu próximo em relação a você, e isto de forma alguma por qualquer preocupação com aqueles conselhos secretos e misteriosas dispensações de Deus podem ter no assunto. É em vão você se exaltar contra um Deus infinitamente grande, santo e justo. Se você continuar nisso, será para tua eterna vergonha e confusão, quando, no futuro, você ver na porta de quem toda a culpa de sua miséria jazerá.

Terminarei o que tenho a dizer aos homens naturais, na aplicação desta doutrina, com uma advertência não para tirar proveito da doutrina para o desânimo. Pois, embora fosse justo para Deus rejeitar e destruir você para sempre, também será justo para Deus salvar você em e por meio de Cristo, que fez completa satisfação por todos os pecados. Romanos 3.25-26, “a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixados impunes os pecados anteriormente cometidos; tendo em vista a manifestação da sua justiça no tempo presente, para ele mesmo ser justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus.” Sim, Deus pode, por meio desse Mediador, não apenas com justiça, mas com honra, mostrar misericórdia para com você. O sangue de Cristo é tão precioso que é totalmente suficiente para pagar a dívida que você contraiu, e vindicar perfeitamente a Majestade divina de toda aquela desonra que foi lançada sobre ela por aqueles muitos grandes pecados que foram mencionados. Foi tão grande e, de fato, muito maior para a morte de Cristo do que teria sido para você e toda a humanidade queimar no inferno por toda a eternidade. De tamanha dignidade e excelência é Cristo aos olhos de Deus que, vendo que ele sofreu tanto pelos pobres pecadores, Deus está disposto a estar em paz com eles, por mais vis e indignos que tenham sido, e por quantas razões o castigo seria justo. De modo que você não precisa ficar desanimado em buscar misericórdia, pois há o suficiente em Cristo.

Na verdade, não seria a glória da majestade de Deus mostrar misericórdia a você, que tem sido uma criatura tão pecaminosa e vil, por qualquer coisa que você tenha feito, por coisas tão inúteis e desprezíveis como tuas orações e outros atos religiosos. Seria muito desonroso e indigno de Deus fazê-lo, e é em vão esperar isso. Ele mostrará misericórdia apenas por causa de Cristo, e isto de acordo com o seu prazer soberano, sobre quem ele quiser, quando lhe agradar e em como lhe agradar. Você não pode obrigá-lo mediante tuas obras; faça o que quiser, ele não se verá obrigado. Porém, se for do seu agrado, ele pode honrosamente mostrar misericórdia por meio de Cristo a qualquer pecador dentre todos vocês, sem exceção nesta congregação.

Portanto, aqui está o encorajamento para você ainda buscar e esperar, apesar de toda a tua maldade; conforme o discurso de Samuel aos filhos de Israel, quando eles ficaram aterrorizados com o trovão e a chuva que Deus enviou, e sua culpa era óbvia. 1 Samuel 12.20, “Não temais; tendes cometido toda este mal; no entanto, não vos desvieis de seguir ao Senhor, mas servi ao Senhor de todo o vosso coração.”

[II.] Concluirei este discurso, tirando proveito da doutrina, em segundo lugar, muito brevemente, lembrando os piedosos da liberalidade e maravilha da graça de Deus para com eles. Pois assim foram alguns de vocês. O caso foi assim com você, como você ouviu. Você tinha um coração tão perverso, vivia uma vida tão perversa e seria muito justo para Deus ter rejeitado você para sempre. Porém ele teve misericórdia de você, ele fez sua gloriosa graça mostrar-se em tua salvação eterna. Você tem se comportado em relação a Deus da maneira que ouviu; você não amava a Deus, mas mesmo assim ele exerceu um amor indescritível para com você; você desprezou a Deus e mostrou-se leviano para com ele, mas a graça de Deus colocou um valor tão grande sobre você e tua felicidade, que você foi redimido ao preço do sangue de seu próprio Filho; você escolheu estar com Satanás em seu serviço; mas ainda assim Deus te fez coerdeiro com Cristo de sua glória; você era ingrato pelas misericórdias passadas, mas, ainda assim, Deus não apenas continuou dando essas misericórdias, mas concedeu misericórdias indescritivelmente maiores a você; você se recusou a ouvir quando Deus chamou, mas ainda assim Deus te ouviu quando você chamou; você abusou da infinitude da misericórdia de Deus para se encorajar-se no pecado contra Deus, mas, ainda assim, Deus manifestou a infinitude dessa misericórdia no exercício dela para com você; você rejeitou a Cristo e o desprezou, e, ainda assim, ele se tornou teu Salvador; você negligenciou tua própria salvação, mas Deus não negligenciou você; você destruiu a si mesmo, mas ainda assim o teu socorro tem estado em Deus. Deus magnificou sua graça gratuita para com você e não a outros, porque ele te escolheu e lhe aprouve colocar o seu amor sobre você.

Ó, que motivo para louvor temos aqui? Que obrigações estão sobre você para glorificar ao Senhor, que tem tratado generosamente com você, e engrandecer o seu santo nome? Que motivo você tem para louvá-lo com humildade, para andar humildemente diante de Deus e para ser conformado ao que está em Ezequiel 16.63, “para que te lembres e te envergonhes, e nunca mais fale a tua boca soberbamente, por causa do teu opróbrio, quando eu te houver perdoado tudo quanto fizeste, diz o Senhor Deus!” Você nunca deve abrir a boca para se vangloriar ou se justificar. Você deve se humilhar diante de Deus por misericórdia para com você. Porém você tem razão, ainda mais abundantemente por causa dos teus pecados passados, para abrir a tua boca em louvores a Deus, de modo que estejam continuamente em tua boca, tanto aqui como por toda a eternidade, por sua rica, indescritível e soberana misericórdia para com você; pela qual ele, e somente ele, tornou você diferente dos outros.

 

Extraído de Works of Jonathan Edwards, Vol. 19, p. 337-377; org. Ed M. X. Lesser.

Disponível em: edwards.yale.edu

Tradução: Paulo Arantes



[1] Faithful Narrative, Works, 4, 168. Aparentemente, era o favorito dos editores (e do público) também, tendo sido reimpresso meia dúzia de vezes, de 1773 até 1814; cf. Johnson, Printed Writings, p. 83-84.

[2] Publicado como intitulado em Five Discourses, p. 192-243.

[3] [Arcaico: garantia de um futuro.]

[4] [Aqui termina a primeira unidade da pregação. No cabeçalho da segunda unidade encontra-se o texto de Romanos 3.19 e outro de Romanos 9.21, o qual não aparece em nenhum outro lugar na versão publicada.

[5] [Termina aqui a segunda unidade da pregação. Encontra-se a citação e a doutrina no cabeçalho da terceira unidade.]

[6] [Pincipalmente dial.: leve, insignificante, desconsideração.]

[7] [JE insere “what” no lugar de “that” em sua cópia corrigida do texto na Biblioteca Beinecke, Yale.]

[8] [MS: Termina aqui a terceira unidade da pregação. Encontra-se o texto e a doutrina no cabeçalho da quarta unidade.]

[9] [Arcaico: agitação do desejo, inclinação.]

[10] [MS.: Termina aqui a quarta unidade da pregação. A citação e a doutrina estão no cabeçalho da quinta unidade.]

[11] [Dialeto, variação de begrudge.] 

Nenhum comentário:

Postar um comentário