Frase da Semana

Assim, tudo é de Deus, está em Deus e existe para Deus; ele é o começo, o meio e o fim.

sábado, 17 de setembro de 2022

Esforçando-se para entrar no Reino de Deus

O segundo dos cinco discursos de Edwards sobre Discourses on Various Important Subjects (Discursos sobre vários assuntos importantes). Este sermão de quatro unidades sobre a salvação foi pregado em fevereiro de 1735, cerca de dez semanas após a palestra de novembro sobre Justificação, e no período de cinco semanas do início da “presente temporada do derramamento do Espírito de Deus nesta cidade” e os muitos “casos de conversões repentinas” manifestos entre eles. Como ele relatou mais tarde, “uma das maiores namoradeiras[1] toda a cidade”.[2] Foi um período não diferente do contexto que ele fornece às suas linhas sobre Lucas, pois quando João Batista pregou sobre o reino de Deus, “houve um extraordinário derramamento do Espírito de Deus” e um “despertamento incomum” de algumas das “pessoas mais improváveis”: fariseus, saduceus, publicanos, soldados. João foi o “precursor de Cristo”, que substituiu gradualmente a antiga dispensação pela nova, assim como a escuridão cede ao amanhecer. Então Edwards, como João Batista, é um “precursor do dia do evangelho”, que prepara seu povo para a vinda do Senhor. Porém ele logo abandona a linguagem floreada e, mais tarde, a semântica de esforçar-se para entrar (pressionar em direção, apressar-se), para discorrer longamente sobre a “necessidade perecedora” de entrar no reino de Deus por dois terços inteiros de suas páginas, e refletir sobre as incertezas e dificuldades “insuperáveis” de realizá-lo, suas possibilidades e excelência “infinita”.

É evidente que ninguém pode ser incitado à salvação sem a influência de Deus, mas, como Edwards aponta, Deus influencia “por meios”. Edwards aproveita as oportunidades e o tempo concedidos pela graça salvadora, de modo que os que buscam a salvação possam, como o “agricultor prudente”, aproveitar os “períodos de chuvas e de luz solar do céu”; ele torna as pessoas sensíveis a necessidade de fazer grandes esforços para entrar no céu e apropriar-se dele violentamente à força; e ele usa a experiência deles mesmos para destruir sua dependência de si mesmos para a salvação, ou, nesse caso, dependência de “qualquer criatura”.

Ainda, como seu ministro, “como alguém estabelecido sobre vocês, e enviado a vocês”, Edwards os chama em nome de Cristo e “como sua voz”, embora em estilo mais estridente, o icônico “Arrependam-se, pois o reino de Deus está perto”, transmutado para os metais[3] “É agora, neste dia; agora é o tempo aceitável, agora mesmo o tempo que é chamado hoje!” Ele os dirige para a “atravessar” a carne, a “crucificá-la” se necessário; a fugir da ira de Deus “e não olhar para trás!”; a “DEIXAR TUDO”, a esquecer o passado, a “resistir até o fim”; a “calcular o preço” no negócio da salvação e a investir o capital de sua alma na “prosperidade espiritual”. Ele implora a Northampton que declare agora, quando o “estado da nação, e desta terra, nunca pareceu tão ameaçador”, quando “aquelas verdades que são especialmente o fundamento” da religião vital estão sob ataque, particularmente a da Justificação. Para o levemente despertado, ele oferece dez razões para apreciar o dia, a última entre elas, as “repetidas mortes de jovens” na cidade recentemente; ao “estupidamente não despertado”, ele oferece quatro razões para apressar-se, a última entre estas, o clima intolerável do inferno, o “fogo devorador e as chamas eternas”. Aos antigos pecadores, deixados impenitentes durante as temporadas evangélicas de seu avô Stoddard, ele oferece advertências claras para não “resistir” desta vez, pois Deus está “perto de acabar” com eles; aos jovens, “agora sob suas primeiras convicções especiais”, ele oferece perspectivas claras para sua redenção. “Ser completo agora por todos os meios!”, ele proclama em alta voz. “Faça apenas um trabalho, busque a salvação! Faça um trabalho completo da primeira vez! E eles fazem, em números surpreendentes, como ele também relata mais tarde.

A versão publicada de Esforçando-se para Entrar no Reino de Deus difere pouco do manuscrito de quarenta e duas folhas de duodécimo que Edwards pregou em quatro reuniões sucessivas, as pausas ocorrendo em intervalos de unidade padrão, LL. 12r., 23r., e 33r.[4] Existem sinais familiares de revisão em prol da clareza ou do estilo, começando com o “texto” no lugar de “palavras”, “pretendido” no lugar de “entendido”, “ antiga dispensação sob o Antigo Testamento” no lugar de “dispensação do Antigo Testamento” – tudo em tinta diferente na terceira frase do Texto – bem como acertos e exclusões comuns à pressa. A versão impressa segue precisamente o manuscrito em seus cabeçalhos numerados, exceto pela queda do quinto e sexto cabeçalhos em um na Doutrina e em sua transposição de três aglomerados de passagens, LL. 20v., 22v., e 27r.-27v. A anotação abreviada de Edwards na linha mais alta da primeira folha diz: “Pregou a doutrina das cinco primeiras páginas da segunda vez”, embora haja dúvida de quando isso ocorreu; a data à direita dela, “Fev. 1735”, certamente refere-se à sua primeira pregação.

 

ESFORÇANDO-SE PARA ENTRAR NO REINO DE DEUS

 

A Lei e os Profetas vigoraram até João; desde esse tempo, vem sendo anunciado o evangelho do reino de Deus, e todo homem se esforça para entrar nele.” (Lucas 16:16 – ARA)

 

Nestas palavras, duas coisas podem ser observadas:

1. Em que consistiam a obra e o ofício de João Batista, a saber, na pregação do reino de Deus, a fim de preparar, por meio de sua instrução, o caminho para substituir a Lei e os Profetas. Mediante a expressão “a Lei e os profetas”, no texto, parece ser pretendida a antiga dispensação sob o Antigo Testamento, a qual foi recebida de Moisés e dos profetas. É dito que estas são até João; não que as revelações dadas por eles estejam fora de uso desde então, mas que o estado da igreja fundada e regulamentada por meio delas, sob as ordens de Deus, a dispensação da qual eram ministros e da qual a igreja principalmente dependia para receber luz, continuou plenamente até João; o qual começou a introduzir a dispensação do Novo Testamento, ou estado do evangélico da igreja. A qual, com seus gloriosos privilégios espirituais e bênçãos eternos, é muitas vezes chamado de reino dos céus, ou reino de Deus. João Batista pregou que o reino de Deus estava próximo. Esse é o relato que temos de sua pregação dado pelos evangelistas: “Arrependei-vos”, diz ele, “porque está próximo o reino dos céus”. “Desde esse tempo”, diz Cristo, “vem sendo anunciado o evangelho do reino de Deus”. João Batista começou a pregar sobre ele, e então, depois dele, Cristo e seus discípulos pregaram sobre ele. Cristo pregou desse modo, Mateus 4.17, “Daí por diante, passou Jesus a pregar e a dizer: Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus.” Igualmente, os discípulos foram orientados a pregar, Mateus 10.7, “E, à medida que seguirdes, pregai que está próximo o reino dos céus.” Não foi João Batista, mas Cristo que trouxe plenamente e que realmente estabeleceu este reino de Deus. Porém João Batista, como precursor de Cristo para preparar seu caminho à frente dele, fez a primeira coisa que devia ser feita para introduzi-lo. A antiga dispensação foi abolida e a nova trazida aos poucos. Como a noite cessa gradualmente e dá lugar ao dia de modo crescente, o qual o sucede em seu lugar. Primeiro surge a estrela d’alva, em seguida a luz do próprio sol, mas vagamente refletida no amanhecer do dia, mas essa luz aumenta e brilha cada vez mais, e as estrelas que serviram para a luz durante a noite anterior gradualmente se apagam e sua luz cessa, como sendo desnecessária agora, até que finalmente o sol nasce e ilumina o mundo com sua própria luz direta, a qual aumenta à medida que ele sobe mais acima do horizonte, até que a própria estrela d’alva gradualmente é apagada e desaparece. Isto está de acordo com o que João diz de si mesmo, João 3.30, “Convém que ele cresça e que eu diminua.” João foi o precursor de Cristo e o arauto do dia do evangelho tal como a estrela da manhã é a precursora do sol. Ele teve o ofício mais honroso de qualquer um dos profetas; enquanto os outros profetas predisseram a vinda de Cristo, ele o revelou como já vindo e teve a honra de ser aquele servo que devia vir imediatamente antes dele, e verdadeiramente introduzi-lo, e até mesmo ser o instrumento participante em sua posse solene quando ele o batizou. João Batista foi o maior dos profetas que vieram antes de Cristo, como a estrela da manhã é a mais brilhante de todas as estrelas (Mateus 11.11). Ele veio preparar o coração dos homens para receber aquele reino de Deus, que Cristo devia revelar e erigir mais completamente. Lucas 1.17, “Habilitar para o Senhor um povo preparado.”

2. Podemos observar onde seu sucesso se tornou visível, a saber, em que desde que ele começou seu ministério, cada homem esforçou-se para entrar no reino de Deus que ele pregava. A grandeza de seu sucesso é visível em duas coisas:

(1) Na sua generalidade, no que diz respeito ao objeto ou às pessoas em quem o sucesso se tornou visível. “Todo homem”, aqui, é um termo de universalidade, mas não deve ser tomado como universal no que diz respeito aos indivíduos, mas a tipos; como tais termos universais são frequentemente usados nas Escrituras. Quando João pregou houve um extraordinário derramamento do Espírito de Deus que acompanhou sua pregação. Um despertamento incomum e preocupação com a salvação surgiu nas mentes de todos os tipos de pessoas, até mesmo nas pessoas mais improváveis, e aquelas de quem menos poderia ser esperada tal coisa. Como os fariseus que eram excessivamente orgulhosos, autossuficientes e presunçosos de sua própria sabedoria e justiça, e que consideravam a si mesmos aptos a ser professores dos outros, e que costumavam escarnecer de serem ensinados. E os saduceus, que eram uma espécie de infiéis que negavam qualquer ressurreição, anjo ou espírito, ou qualquer estado futuro. De modo que o próprio João parece ficar surpreso ao vê-los vir a ele sob tal preocupação com sua salvação; como em Mateus 3.7, “Vendo ele, porém, que muitos fariseus e saduceus vinham ao batismo, disse-lhes: Raça de víboras, quem vos induziu a fugir da ira vindoura?” E, além destes, os publicanos, que eram alguns dos mais infames tipos de homens, vieram a ele perguntando o que deviam fazer para serem salvos. E os soldados, que eram, sem dúvida, um tipo de pessoa muito profana, livre e devassa, e fizeram a mesma pergunta. Lucas 3.12 e Lucas 3.14, “Foram também os publicanos para serem batizados e perguntavam-lhe: Mestre, que havemos fazer?” “Também soldados lhe perguntaram: E nós, o que faremos?”

(2) Seu sucesso se tornou visível na maneira como seus ouvintes buscaram o reino de Deus, eles se esforçaram por entrar nele. Em outro lugar isto é demonstrado mediante o tomar por esforço o reino dos céus, e se esforçar para se apoderar dele. Mateus 11.12, “Desde os dias de João Batista até agora, o reino dos céus é tomado por esforço, e os que se esforçam se apoderam dele.” A doutrina que percebo a partir das palavras é esta:

 

Doutrina

 

Diz respeito a todos que desejam obter o reino de Deus, devem se esforçar para entrar nele.

Ao discursar sobre este assunto eu desejo mostrar, em primeiro lugar, qual é esse modo de buscar a salvação que parece ser estabelecido pela expressão de “se esforçar para entrar no reino de Deus”; segundo, dar as razões pelas quais diz respeito a todos que desejam obter o reino de Deus, procurá-lo desse modo; e, em seguida, fazer a aplicação.

I. Eu desejo mostrar que o modo de buscar a salvação parece ser indicado mediante o se esforçar para entrar no reino de Deus.

Primeiro. Esta expressão indica a intensidade do desejo. Os homens em geral, que vivem sob a luz do evangelho e não são ateus, desejam o reino de Deus; ou seja, desejam ir para o céu em vez de para o inferno. Porém a maioria deles não está muito preocupada com isso, mas, pelo contrário, vivem uma vida confiante e descuidada. E há aqueles que estão muitos estágios acima destes, que estão sob alguma condição dos despertamentos do Espírito de Deus, que, todavia, não estão se esforçando para entrar no reino de Deus. Mas pode ser dito que eles têm verdadeiramente fortes desejos de sair de uma condição natural e obter um interesse em Cristo. Eles têm tanta convicção da miséria de seu estado atual e da extrema necessidade de obter um estado melhor, que suas mentes estão, por assim dizer, possuídas e envoltas em preocupação acerca disso. Obter a salvação é desejado por eles acima de todas as coisas do mundo. Essa preocupação é tão grande que exclui muitíssimo as outras preocupações. Antes eles costumavam ter o fluxo de seus desejos conforme outras coisas, ou pode ser que tivessem sua preocupação dividida entre essa e aquelas. Contudo, quando se trata deles  responderem a expressão no texto, de se esforçar para entrar no reino de Deus, essa preocupação prevalece sobre todas as outras. Ela abate as outras coisas, e o faz de uma maneira a apoderar-se do cuidado da mente. Essa busca da vida eterna não deve ser apenas uma preocupação que nossas almas devem abraçar com outras coisas, mas a salvação deve ser buscada como a “pouco é necessário ou mesmo uma só coisa” (Lucas 10.42). E como a “uma coisa” que é pedida (Salmos 27.4).

Segundo. Esforçar-se para entrar no reino dos céus indica a seriedade e a firmeza da resolução. Deve haver vigor de resolução acompanhando a intensidade do desejo. Como havia no Salmista, no lugar citado a pouco: “Uma coisa peço ao Senhor, e a buscarei.” A fim de um engajamento completo da mente nessa questão, ambos devem ser encontrados juntos. Além dos desejos pela salvação, deve haver uma resolução séria nas pessoas de procurar esse bem tanto quanto está em seu poder; fazer tudo isso no uso da máxima força que são capazes de exercer, numa atenção todos os deveres, resistência e luta contra todos os tipos de pecado, e perseverança nessa busca.

Há duas coisas necessárias em uma pessoa a fim de essas resoluções serem firmes nele. Deve haver um senso da grande importância e necessidade da misericórdia buscada, e deve haver também um senso da oportunidade de obtê-la ou do incentivo que há para procurá-la. O vigor da resolução depende do senso que Deus dá ao coração dessas coisas. Pessoas sem esse senso podem parecer a si mesmas tomar resoluções; elas podem, por assim dizer, forçar uma promessa a si mesmas, e dizer dentro de si: “Eu vou buscar enquanto viver, não vou desistir até que obtenha”; quando fazem apenas enganarem a si mesmas, seus corações não estão na resolução; nem eles realmente tomaram qualquer resolução para si memos como parecem fazer; é a resolução da boca mais do que do coração. Seus corações não se dispõem fortemente para cumprir o que sua boca diz. A firmeza da resolução reside na plenitude da disposição do coração para fazer o que está resolvido a fazer. Aqueles que estão se esforçando para entrar no reino de Deus têm uma disposição de coração para fazer tudo o que é necessário e o que está em seu poder fazer, e perseverar nisso. Eles não têm apenas seriedade, mas firmeza de resolução. Eles não buscam com um coração instável e inconstante, em intervalos, ou espasmos, desligando e ligando, mas é a disposição constante da alma para obter o reino de Deus, se possível.

Terceiro. Pela expressão esforçar-se para entrar no reino de Deus é expresso a grandeza do esforço. Isto é expresso em Eclesiastes 9.10 mediante o fazer o que vier à nossa mão conforme as nossas forças. E esta é a consequência natural e necessária das duas coisas supramencionadas; onde há intensidade de desejo e firmeza de resolução, haverá esforços em resposta. Pessoas assim engajadas em seus corações se esforçarão para entrar “pela porta estreita”, e tomarão o céu por esforço; sua prática concordará com o conselho do sábio, no começo de Provérbios 2: “Filho meu, se aceitares as minhas palavras e esconderes contigo os meus mandamentos, para fazeres atento à sabedoria o teu ouvido e inclinares o coração ao entendimento, e, se clamares por inteligência, e por entendimento alçares a tua voz, se buscares a sabedoria como a prata e como a tesouros escondidos a procurares, então, entenderás o temor do Senhor e acharás o conhecimento de Deus.” Aqui, a seriedade do desejo e o vigor da resolução é expresso pelo inclinar o ouvido à sabedoria e aplicar o coração ao entendimento; e a grandeza do esforço é indicada pelo clamar por conhecimento e levantar a voz por entendimento, buscando-a como a prata e procurando por ela como a tesouros escondidos. Esses desejos e resoluções e esses esforços andam juntos.

Quarto. Se esforçar para entrar no reino de Deus indica um engajamento e seriedade que diz respeito diretamente a esse assunto de entrar no reino de Deus. As pessoas podem estar em exercício e aflição de mente muito grandes, e isto acerca da condição de suas almas. Seus pensamentos e cuidados podem estar grandemente engajados e dedicados nas coisas de natureza espiritual, e ainda assim não estarem se esforçando para entrar no reino de Deus, nem em direção a ele. Porque o exercício de suas mentes não diz respeito diretamente ao trabalho de buscar a salvação, em uma atenção diligente aos meios que Deus tem apontado para isso, mas em outra coisa que está ao lado de suas vidas. Pode ser sobre os decretos e propósitos secretos de Deus, intrometendo-se neles, procurando sinais pelos quais eles possam determinar ou, pelo menos, conjecturar quais são eles, antes que Deus os faça conhecidos mediante sua realização; e afligindo suas mentes com medos de que não sejam eleitos, ou que tenham cometido o pecado imperdoável, ou que seu dia já passou e que Deus os entregou à dureza judicial e final, e nunca pretenda mostrar-lhes misericórdia. E, portanto, que é inútil para eles buscarem a salvação, ou se envolverem na doutrina do pecado original e em outras doutrinas misteriosas da religião, as quais estão acima de sua compreensão. Muitas pessoas, que parecem estar em grande aflição acerca do estado eterno futuro, criam um caminho de confusão para si mesmas com coisas como essas. Quando é assim, que nunca se preocupam tanto e se envolvam em suas mentes, não pode ser dito que estão se esforçando para entrar no reino de Deus, porque seus exercícios não estão em seus esforços, mas sim no que tende a dificultá-los em seus esforços. Se eles são intensos, eles estão apenas trabalhando intensamente para confundirem a si mesmos e colocarem obstáculos em seu próprio caminho. Seu esforço não é para a frente. Em vez de progredir, eles apenas perdem seu tempo, e pior do que simplesmente perdê-lo; em vez de lutar com os gigantes que estão no caminho para mantê-los fora de Canaã, eles gastam seu tempo e vigor em conflito com as sombras que aparecem pelo caminho.

Por esta razão não devemos julgar a esperança da forma como as pessoas estão, ou da probabilidade de seu sucesso em buscar a salvação, apenas pela grandeza da preocupação e aflição em que estão. Pois muitas pessoas têm aflições desnecessárias das quais estariam muito melhor se não as tivessem. É frequentemente assim com pessoas que são assoladas com o destempero da melancolia; de onde o adversário das almas costuma[5] tirar grande vantagem. Entretanto, são pessoas no caminho mais provável de obter o reino dos céus, quando a intenção de suas mentes e o engajamento de seus espíritos diz respeito à atividade e assunto apropriados, e toda a inclinação de suas almas é para observar os meios de Deus e fazer o que ele ordena e os direciona. O apóstolo nos diz, 1 Coríntios 9.26, que ele não lutou como aqueles que “desferem golpes no ar”. Nosso tempo é bastante curto, não precisamos gastá-lo no que não serve ao propósito. Há dificuldades reais e inimigos suficientes para as pessoas enfrentarem, empregarem toda a sua força; elas não têm a necessidade de desperdiçá-la na luta com[6]  fantasmas ilusórios.

Quinto. Mediante a expressão esforçar-se para entrar no reino de Deus é indicado uma ruptura por meio de oposição e dificuldades. Há na expressão uma insinuação clara de dificuldade. Se não houvesse oposição, mas o caminho fosse todo claro e aberto, não haveria necessidade de esforçar-se para se dar bem. Aqueles, portanto, que estão se esforçando para entrar no reino de Deus continuem com tal engajamento, para que rompam as dificuldades que estão em seu caminho. Eles estão tão determinados pela salvação que, aquelas coisas pelas quais os outros são desencorajados, parados e voltam atrás, não os impedem, mas eles se forçam através delas. As pessoas devem estar tão determinadas pelo céu que, se podem obtê-lo por qualquer meio que possam usar, elas obterão. Quer esses meios sejam difíceis ou fáceis, contrários ou agradáveis; se são meios necessários para a salvação, elas devem se sujeitar. Quando algo é apresentado para ser feito, a pergunta não deve ser: É fácil ou difícil? É agradável às minhas inclinações ou interesses carnais ou contra eles? Mas, é um meio necessário para obter interesse em Jesus Cristo e a salvação eterna? Assim, o apóstolo, Filipenses 3.11, “Para, de algum modo, alcançar a ressurreição dentre os mortos.” Ele nos fala, no contexto, quais dificuldades ele passou, que ele sofreu a perda de todas as coisas e foi voluntariamente conformável até mesmo à morte de Cristo, embora isso estivesse ligado a tal extremo e ignomínia extremos.

Aquele que está se esforçando para entrar no reino de Deus geralmente encontra muitas coisas no caminho que são contra a natureza, mas ele não é parado pela cruz que está diante dele, mas a leva e a carrega. Se há algo que lhe cabe fazer, visto que ele é aquele que busca a salvação, que é cruz para o seu temperamento natural, e é cansativo a ele por esta razão, ou algo que ele não pode fazer sem sofrer em sua situação, ou que ele compreende que parecerá esquisito e estranho aos olhos dos outros, e o exporá ao ridículo e censura, ou qualquer coisa que ofenda um vizinho e motive sua má vontade, ou algo que será verdadeira cruz para seu próprio apetite carnal, ele enfrentará essas dificuldades. Tudo o que é considerado um peso que o impede de correr esta carreira ele lança fora, ainda que seja uma carga de ouro ou pérolas. Sim, se for uma mão ou um pé direito que o ofenda, ele os cortará; e não se limitará a arrancar um olho direito com as próprias mãos. Essas coisas são dificuldades insuperáveis para aqueles que não estão completamente engajados em buscar sua salvação; eles hesitam excessivamente a elas; elas são obstáculos que eles nunca superam. Porém não é assim com aquele que se esforça para entrar no reino de Deus. Aquelas coisas que, antes que ele fosse completamente despertado de sua segurança, ele costumava se agarrar e estava acostumado a ter longas disputas e controvérsias com sua própria consciência, e definir a razão carnal para trabalhar a fim de inventar argumentos e justificativas para se desculpar, ele agora não agarra mais; ele acabou com esta disputa e raciocínio sem fim, e enfrenta impetuosamente todas as dificuldades; deixa o que estiver no caminho, o céu é o que ele deve obter e obterá, não sem dificuldade se puder, mas se for possível. Ele enfrenta a tentação; o diabo está frequentemente sussurrando em seu ouvido, colocando engodos diante dele, ampliando as dificuldades do trabalho em que está envolvido, dizendo-lhe que as dificuldades são insuperáveis e que ele nunca as vencerá, e tentando de todas as maneiras do mundo desencorajá-lo; porém, ainda assim, ele prossegue. Deus deu e sustenta essa disposição séria pelo céu, de modo que o diabo não pode pará-lo em seu curso; ele não tem tempo para dar ouvidos ao que ele tem a dizer. Eu passo agora,

II. A mostrar por que o reino dos céus deve ser procurado desta maneira.

Ele deve ser procurado assim,

Primeiro. Por causa da extrema necessidade que temos de entrar no reino dos céus. Temos a necessidade perecedora dele. Sem ele estamos total e eternamente perdidos. Fora do reino de Deus não há segurança. Não há outro esconderijo. Esta é a única cidade de refúgio na qual podemos estar seguros do vingador que persegue todos os ímpios. A vingança de Deus perseguirá, alcançará e destruirá eternamente aqueles que não estão neste reino. Todos que estão sem este muro serão consumidos num dilúvio de fogo transbordante de ira. Eles podem ficar a porta e bater, e gritar em vão: “Senhor, Senhor, abra para nós”. Eles serão empurrados para trás e Deus não terá misericórdia deles; eles serão eternamente abandonados por ele; sua terrível vingança os agarrará; os demônios os agarrarão e todo o mal virá sobre eles; e não haverá nenhuma compaixão ou ajuda; sua causa será de total desespero e infinitamente dolorosa. Será uma causa perdida para eles; todas as ofertas de misericórdia e expressões de bondade divina finalmente serão retiradas, e toda esperança será perdida. Deus não terá nenhum tipo de consideração por seu bem-estar; não cuidará deles para salvá-los de qualquer inimigo ou de qualquer mal, mas ele mesmo será seu terrível inimigo e executará a ira com fúria, e se vingará de uma maneira inexpressivamente terrível. Como será neste caso, será perdido e desfeito de fato! Eles cairão prostrados em perdição, infinitamente abaixo de tudo o que podemos pensar: pois quem conhece o poder da ira de Deus? E quem conhece a miséria daquele pobre verme, em quem essa raiva é executada sem piedade?

Segundo. Por causa da brevidade e incerteza da oportunidade de entrar neste reino. Quando alguns dias se passarem, toda nossa oportunidade para isso cessará. Nosso dia é limitado; Deus colocou nossos limites e não sabemos onde estão. Enquanto as pessoas estão fora deste reino, elas estão em perigo a cada hora de serem alcançadas pela ira. Não sabemos quando ultrapassaremos essa linha, além da qual não há trabalho, projeto, conhecimento nem sabedoria; e, portanto, devemos fazer o que temos que fazer com nossa força (Eclesiastes 9.10).

Terceiro. Por causa da dificuldade de se entrar no reino de Deus. Há inúmeras dificuldades no caminho, visto que poucos conquistam. a maioria daqueles que tentam não ter resolução, coragem, seriedade e constância suficiente, mas falham, param e perecem. As dificuldades são muitas e muito grande para aqueles que não se esforçam com vigor para lidar com elas; eles nunca se dão bem, antes ficam pelo caminho, ou são deixados de lado, e voltam e são devastados. Mateus 7.14, “Porque estreita é a porta, e apertado, o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que acertam com ela.” Lucas 13.24, “Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, pois eu vos digo que muitos procurarão entrar e não poderão.”

Quarto. A possibilidade de obtenção. Embora seja uma coisa ligada a muita dificuldade, ainda assim, não é uma coisa impossível. Atos 8.22, “Talvez te seja perdoado o intento do coração.” 2 Timóteo 2.25, “na expectativa de que Deus lhes conceda não só o arrependimento para conhecerem plenamente a verdade.” Por mais pecaminosa que uma pessoa seja, e quaisquer que sejam suas circunstâncias, não obstante há a possibilidade de sua salvação; ele próprio é capaz disso, e Deus é capaz de realizá-la e tem misericórdia suficiente para isso; e há provisão suficiente feita através de Cristo para que Deus possa fazê-lo consistente com a honra de sua majestade, justiça e verdade. De modo que não há falta de suficiência em Deus, ou capacidade no pecador, para isso. O maior e mais vil, mais cego, morto, pecador de coração duro que vive é um sujeito apto à luz e graça salvadora. Ver, portanto, que há tal necessidade de se obter o reino de Deus, tão pouco tempo e tal dificuldade, e ainda assim tal possibilidade, pode muito bem nos induzir ao esforço para entrar nele (Jonas 3.8-9).

Quinto. É apropriado que o reino dos céus seja procurado assim, por causa da sua grande excelência. Estamos dispostos a buscar coisas terrenas de valor insignificante com grande diligência e através de muita dificuldade. Portanto, certamente nos convém buscar este reino com grande seriedade, o qual é de dignidade e excelência infinitamente maiores. E quão bem Deus espera e exige de nós, que o busquemos dessa maneira a fim de obtê-lo!

Sexto. Essa maneira de buscar é necessária para preparar as pessoas para o reino de Deus. Essa seriedade e eficácia de esforços são os meios comuns que Deus usa para trazer as pessoas a um conhecimento de si mesmas, a um vislumbre de seus próprios corações, a um senso de seu próprio desamparo e a um desespero em relação a sua força e justiça próprias. E esse engajamento e constância na busca do reino dos céus preparam a alma para recebê-lo de modo mais alegre e grato, e apreciá-lo e valorizá-lo mais altamente quando obtido. De modo que é em misericórdia para conosco, bem como para a glória de seu próprio nome, que Deus designou essa busca séria ser a maneira pela qual ele concederá o reino dos céus.[7]

 

Aplicação.

O uso que desejo fazer desta doutrina é de Exortação a todas as pessoas sem Cristo para se esforçarem para entrar no reino de Deus. Alguns de vocês estão perguntando o que devem fazer. Vocês parecem desejar saber qual é o caminho no qual a salvação deve ser buscada, e como vocês podem estar aptos a obtê-la. Vocês já ouviram do caminho para o qual a santa Palavra de Deus dirige. Alguns estão procurando, mas não pode ser dito deles que estão se esforçando para entrar no reino dos céus. Há muitos que, no passado, buscaram a salvação, mas não desta maneira, e assim eles nunca a obtiveram, antes, foram para o inferno. Alguns deles o procuraram ano após ano, mas falharam e morreram finalmente. Foram alcançados pela ira divina e, agora, estão sofrendo a terrível miséria da condenação, e não têm mais descanso dia e noite; não têm mais oportunidade de procurar, mas devem sofrer e serem miseráveis ao longo das intermináveis eras da eternidade. Seja exortado, portanto, a não buscar a salvação como eles fizeram, mas tome por esforço o reino dos céus.

Aqui, eu desejo responder primeiro a uma ou duas objeções, e depois prosseguir para dar algumas orientações sobre como se esforçar para entrar no reino de Deus.

 

[Objeções: Primeira]

Objeção 1. Alguns podem estar prontos para dizer: “Não podemos fazer isso por nós mesmos, esta intensidade de desejo e firmeza da resolução, que foram mencionadas, está fora do nosso alcance. Se eu me esforçar para decidir e buscar com engajamento de espírito, acho que falho. Meus pensamentos estão atualmente longe do assunto, me sinto insensível e meu engajamento relaxado, apesar de tudo o que posso fazer.”

 Resposta, 1. Embora a seriedade de espírito não esteja imediatamente em teu poder, ainda assim a consideração do que foi dito sobre a sua necessidade pode ser um meio de estimulá-lo a ela. É verdade, as pessoas nunca se engajarão totalmente neste assunto a menos que seja pela influência de Deus, mas Deus influencia as pessoas através de meios. As pessoas não são estimuladas à plena seriedade  sem algumas considerações que as movam a isso. E se as pessoas se tornarem conscientes da necessidade da salvação, e também considerarem devidamente sua extrema dificuldade, e a grandeza da oposição e quão curto e incerto é o tempo, mas ainda estiverem conscientes de que têm uma oportunidade e que há uma possibilidade de sua obtenção, elas não precisarão de nada mais para estarem totalmente engajadas e resolvidas em este assunto. Se vemos pessoas negligentes, não decididas e instáveis, é porque elas não consideram essas coisas o suficiente.

Resposta 2. Embora desejos sinceros e resoluções de mente não estejam em teu poder, ainda assim, a dificuldade dos esforços está em teu poder. Está em teu poder esforçar-se no uso dos meios, sim, muito esforço. Você pode ser muito ardoroso e diligente em vigiar o teu próprio coração e lutar contra o pecado; embora haja todo tipo de corrupção no coração que esteja continuamente pronta para operar, ainda assim você pode vigiar e lutar contra essas corrupções de modo diligente. E está em teu poder prestar atenção a importância dos teus deveres para com Deus e para com o próximo. Está em teu poder aplicar-se a todas as ordenanças e a todos os deveres públicos e privados da religião, e fazê-lo com toda a tua força. Seria uma contradição supor que um homem não pode fazer essas coisas com toda a força que tem, embora não possa fazê-las com mais força do que tem. A lentidão, a apatia do coração e a preguiça de disposição não impedem os homens de serem capazes de se esforçar, embora isso impeça sua disposição. Isso é algo em que sua diligência pode aparecer, lutando até mesmo contra sua própria lentidão. Que os homens têm um coração morto e preguiçoso não prova que eles não são capazes de se esforçarem; seu coração está muito longe disso, de modo que dá lugar a esforço. É uma das dificuldades do caminho do dever que as pessoas devam lutar, e isto dá oportunidade para se esforçar e trabalhar. Se não houvesse dificuldades para dedicar-se à busca da salvação, não haveria ocasião para se esforçar; um homem não teria nada pelo que se esforçar. Há, de fato, grande dificuldade em aplicar-se a todos os deveres exigidos daqueles que desejam obter o céu. É uma coisa extremamente difícil para eles manterem seus pensamentos; é uma coisa seriamente difícil, ou para qualquer propósito útil, considerar assuntos da maior importância; é uma coisa difícil de ouvir, ler ou orar com atenção. Porém não prova que um homem não pode se esforçar nessas coisas porque são difíceis; não, ele não poderia se esforçar nelas se não houvesse dificuldade nelas. Pois o que há exceto as dificuldades que qualquer um possa ter de se esforçar ou lutar contra em qualquer assunto ou negócio? Seriedade de espírito e diligência de esforço tendem a promover uma à outra. Aquele que tem um coração sinceramente engajado se esforçará; e aquele que é diligente e esforçado em todos os deveres, provavelmente não demorará muito antes de descobrir a sensibilidade de seu coração e a seriedade de seu espírito grandemente aumentadas.

Objeção 2. Alguns podem objetar que se forem sinceros e se esforçarem muito correrão o perigo de confiar no que fazem; eles têm medo de cumprir seu dever por medo de fazer de seu dever uma justiça.

Resposta. Normalmente, não há nenhum tipo de buscador que confia tanto no que faz como os buscadores negligente e lento. Embora todos estejam buscando a salvação, estes nunca foram objeto de completa humilhação, confiam em sua própria justiça, no entanto, alguns o fazem muito mais plenamente do que outros. Embora alguns confiem em sua própria justiça, no entanto, não se tranquilizam nela. E aqueles que estão mais perturbados em sua autoconfiança e, portanto, mais provavelmente estão no caminho  de serem totalmente retirados dela, não são aqueles que prosseguem em um caminho negligente de busca, mas aqueles que são mais sinceros e estão totalmente engajados; em parte porque a consciência é mantida mais sensível dessa forma. Uma consciência mais avivada não descansará tão tranquila nos deveres morais e religiosos como uma que esteja menos avivada. A consciência de um buscador lento ficará satisfeita e tranquila em grande medida com suas próprias obras e realizações, mas aquele que está completamente avivado não pode ser acalmado ou tranquilizado com coisas como essas. E, em parte, porque as pessoas adquirem muito mais conhecimento de si mesmas e familiaridade com seus próprios corações desta forma do que mediante uma forma levemente[8] negligente de busca; porque elas têm muito mais experiência de si mesmas. É a experiência de nós mesmos e de descobrir o que somos que Deus comumente usa como meio de nos tirar de toda dependência de nós mesmos. Porém os homens nunca conhecem a si mesmos tão rapidamente como na forma mais sincera de busca. Aqueles que estão neste caminho têm mais para engajá-los a pensar em seus pecados e observem estritamente a si mesmos, e têm muito mais a fazer com seus próprios corações do que os outros. Essa pessoa tem muito mais experiência com sua própria fraqueza do que outra que não emprega e testa sua força; e, portanto, mais cedo se verá morta em pecado. Essa pessoa, embora tenha a disposição de estar continuamente fugindo para sua própria justiça, ainda assim não encontra descanso em nada. Ela vagueia de um lado para o outro, procurando algo para aliviar sua consciência inquieta; ela é expulsa de um refúgio para outro, vai da montanha para a colina procurando descanso e não encontrando nenhum. E, portanto, logo provará que não há descanso a ser encontrado, nem confiança a ser depositada, em qualquer criatura.

É, portanto, uma noção totalmente errada que alguns acolhem, de que quanto mais eles fizerem mais dependerão disso. Enquanto que o inverso é verdadeiro; quanto mais fizerem, ou quanto mais meticulosos forem em sua busca, menos provavelmente descansarão em suas ações e mais cedo verão a inutilidade de tudo o que fazem. De modo que as pessoas sentirão muita falta se negligenciarem alguma vez qualquer dever, seja para com Deus ou para com o homem, seja um dever religioso, de justiça ou de caridade, sob a noção de que isso os expunha a confiar em sua  justiça própria. É bem verdade que é uma coisa comum para as pessoas, quando buscam sinceramente a salvação, confiar nos esforços que fazem. Porém, ainda assim, comumente aquelas que prosseguem de uma maneira mais negligente confiam com muito mais segurança em seus serviços enfadonhos do que aquele que está se esforçando para entrar no reino de Deus fazem com sua sinceridade. A negligência dos homens na religião e sua confiança em sua justiça própria  fortalecem e estabelecem uma a outra. Sua confiança no que fizeram e no que fazem agora os solidifica em um descanso e bem-estar indolentes, e impede que sejam conscientes de sua necessidade de acordarem e seguirem em frente. E, por outro lado, sua negligência tende a entorpecê-los e a mantê-los em tal ignorância de si mesmos que os refúgios mais miseráveis ​​são estupidamente cultivados como suficientes. Portanto, vemos que quando as pessoas estão agindo assim há muito tempo, e depois Deus vem despertá-las mais profundamente e incitá-las a serem sinceras, ele sacode todos os seus antigos fundamentos e as acorda de seus antigos locais de descanso; de modo que elas não podem tranquilizarem-se com as coisas que antes as mantinham seguras.

[Segundo] Eu desejo prosseguir agora para dar algumas instruções sobre como você deve se esforçar para entrar no reino de Deus.

[Instrução 1] Seja orientado, por assim dizer, a sacrificar tudo pelos interesses eternos de sua alma. Deixe que essa busca seja tanto a tua inclinação e no que você está tão decidido que você fará tudo dar lugar a ela. Não deixe nada se opor à tua resolução de buscar o reino de Deus. Seja o que for que você costumava considerar como uma conveniência, ou conforto, ou facilidade, ou algo desejável por qualquer motivo, se isso permanecer no caminho desse grande interesse, que seja repudiado sem hesitação; e se for daquela natureza que é como se sempre fosse um obstáculo, então acabe totalmente com ela e nunca mais alimente qualquer expectativa a partir dela. Se, no passado, por causa dos ganhos mundanos, você se envolveu em mais cuidados e assuntos do que você considera ser consistente com teu ser tão meticuloso nos assuntos da religião quanto deveria ser, então busque outro caminho ainda que você sofra em teu interesse mundano por causa disso. Ou, se você até agora tem se relacionado com companhias que você tem motivos para pensar que foram e serão uma armadilha para você e um obstáculo a este grande desígnio de qualquer forma, rompa com a sociedade deles, por mais que isso possa expor você à reprovação de seus antigos companheiros, ou seja qual for o efeito disso. Ou o que quer que esteja no caminho de sua busca mais vantajosa pela salvação, se for algum prazer pecaminoso amado, ou forte apetite carnal, ou se for reputação e honra, ou se for a boa vontade de alguma pessoa cuja amizade você deseja, ou ser considerado por aqueles cuja estima e simpatia você valoriza grandemente, e há perigo se você fizer o que deve, você será considerado por eles como estranho e ridículo, e se tornará desprezível aos olhos deles. Ou se for tua tranquilidade e indolência, e aversão ao trabalho contínuo; ou se for tua conveniência externa em qualquer aspecto, pelo qual você pode evitar dificuldades de um tipo ou de outro. DEIXE TUDO; ofereça todas essas coisas juntas como se fosse um sacrifício pelo interesse de tua alma. Não deixe nada competir com isso, mas faça tudo cair diante disso. Se a carne deve ser crucificada, então crucifique-a, não a poupe, crucifique-a e não tenha medo de ser muito cruel com ela. Gálatas 5.24, “E os que são de Cristo Jesus crucificaram a carne, com as suas paixões e concupiscências.” Não dependa de qualquer prazer mundano, qualquer que seja. Que a salvação seja a única coisa para você. Isso é o que certamente é exigido de você. E é nisso que muitos se agarram; essa renúncia de outras coisas por causa da salvação é uma pedra de tropeço que poucos superam. Enquanto outros se esforçavam para entrar no reino de Deus mediante a pregação de João Batista, havia Herodes, um de seus ouvintes, que estava bastante agitado por causa da sua pregação. É dito: “E, quando o ouvia, ficava perplexo, escutando-o de boa mente.” Porém, quando ele veio e lhe disse que deveria se separar de sua amada Herodias, aqui ele empacou; ele nunca cederia a isso (Marcos 6.18-20).[9]7 O jovem rico estava consideravelmente preocupado com a salvação; e consequentemente era uma pessoa muito rígida em muitas coisas. No entanto, quando Cristo veio para orientá-lo a ir e vender tudo o que tinha e dar aos pobres, e vir e segui-lo, ele não conseguiu concordar com isso em seu coração, mas foi embora triste. Ele possuía grandes posses e colocava seu coração em suas propriedades e não podia suportar separar-se delas. Pode ser que, se Cristo o tivesse instruído a dar apenas uma parte considerável de seus bens, ele o teria feito. Sim, talvez, se ele lhe tivesse ordenado partir com metade dela, ele teria concordado com isso. Mas quando o instruiu a jogar tudo fora, ele não pôde abraçar essa proposta. Nisto consiste a estreiteza da porta, e é por isso que tantos procuram entrar e não são capazes. Há muitos que têm muita disposição para a salvação e gastam grande parte de seu tempo desejando que a tivessem, mas não se sujeitarão aos meios necessários para isso.

[Instrução 2]  Seja orientado a esquecer as coisas que ficaram para trás, isto é, não fique pensando e dando muita importância ao que você fez, mas deixe sua mente se concentrar totalmente no que você deve fazer. Em certo sentido, você deve olhar para trás. Você deve se lembrar dos teus pecados. Jeremias 2.23, “Vê o teu rastro no vale, reconhece o que fizeste.” Você deve se lembrar da miséria das tuas práticas religiosas e considerar como você falhou nelas, como todos os teus deveres foram excessivamente poluídos e quão justamente Deus pode rejeitá-los e detestá-los, e a você por causa deles. Contudo, você não deve gastar teu tempo olhando para trás, como muitas pessoas fazem, pensando no quanto fizeram por sua salvação, no grande esforço que fizeram, em como fizeram o que podiam e não veem como podem fazer mais, por quanto tempo têm buscado, e o quanto mais fizeram do que os outros, e até mesmo do que estes e aqueles que obtiveram misericórdia. E, desse modo, pensem consigo mesmos quão severamente Deus trata com eles, que ele não estende misericórdia sobre eles, mas faz ouvidos moucos a seus clamores. E, por isso, se desencorajam e reclamam de Deus. Não gaste seu tempo considerando o que é passado, mas olhe para frente e considere o que está diante de você. Considere o que você pode fazer, o que é necessário que você faça e o que Deus ainda te chama a fazer para a tua própria salvação. O apóstolo, em Filipenses 3, nos fala sobre o que fez quando era judeu, o quanto ele se orgulhava disso, se alguém podia ter algo próprio de que se orgulhar. Contudo, ele nos diz que se esqueceu dessas coisas e de todas as outras que ficaram para trás, e prossegui para as coisas que estavam à frente, esforçando-se em direção ao alvo, para o prêmio da vocação celestial de Deus em Cristo Jesus.

[Instrução 3] Trabalhe para ter seu coração totalmente disposto a seguir em frente e resistir até o fim. Muitos que parecem ser sinceros não têm o coração disposto dessa forma. É comum as pessoas parecerem grandemente afetadas por algum tempo, mas tudo logo passa8[10] e não há mais nada para ser visto. Trabalhe, portanto, para obter uma disposição e preparação de espírito totais para continuar buscando, no uso de teus maiores esforços, sem limitação; e não pense que toda a tua vida é longa demais. E duas coisas para que isso seja ponderado.

(1) Lembre-se de que, se Deus conceder misericórdia a você, ele usará seu favor soberano na hora certa. Ele a concederá a alguns em pouco tempo, e a outros não até que a tenham procurado por muito tempo. Se outras pessoas são prontamente iluminadas e consoladas, enquanto você permanece muito tempo nas trevas, não há outra maneira a não ser esperar. Deus agirá arbitrariamente nessa questão e você não pode evitar. Você deve se contentar em esperar, mediante esforço sincero e laborioso, até que chegue sua hora. Se você se recusar, você apenas se desfará, e quando, no futuro, você se encontrar desfeito e ver que seu caso não tem mais remédio, como você se condenará por renunciar a uma grande probabilidade de salvação, apenas porque não teve paciência para resistir e não estar disposto a lidar com as dificuldades de um trabalho perseverante? E de que valerá diante de Deus, ou de sua própria consciência, dizer que você não suportou ser obrigado a buscar a salvação por tanto tempo, quando Deus a concedeu a outros que a buscaram mas por muito pouco tempo? Embora Deus tenha concedido os testemunhos de seu favor a outros em poucos dias ou horas depois de eles terem começado a buscá-lo seriamente, como isso altera o caso quanto a você, se for necessário procurar diligentemente por muitos anos antes de obtê-la? A salvação é menos digna de tanto esforço, porque mediante o favor soberano de Deus outros a obtiveram com comparativamente apenas pouco esforço? Faz diferença se houver duas pessoas, uma das quais obteve a graça da conversão com relativa facilidade, e outra que a obteve depois de continuar por muitos anos nos maiores e mais sinceros labores. Quão pouca diferença isso faz no final, quando a salvação é obtida! Coloque na balança, de um lado, todo o labor, esforço e as contínuas dificuldades e lutas, e, do outro, a salvação, e quão pouco isso subtrai; e coloque na balança, a facilidade com que outro a obteve, de um lado, e do outro, a salvação, e quão pouco isso acrescenta? O que é adicionado ou subtraído é mais leve do que a inutilidade, e algo indigno de alguma consideração quando comparado com o benefício infinito que é obtido. Na verdade, se você tivesse dez mil anos e todo esse tempo se lutasse e se esforçasse com a maior seriedade que uma pessoa fez por um dia, tudo isso não estaria em proporção com a importância do benefício. E, sem dúvida, pareceria pouco quando você estiver na posse real da glória eterna, e ver qual é a miséria eterna da qual você escapou. Você não deve pensar muito em seus esforços e na extensão de tempo, você deve prosseguir em direção ao reino de Deus, fazer o teu melhor, resistir até o fim e aprender a menosprezá-los quando tiver feito. Você deve empreender a tarefa de buscar a salvação nestes termos, e com nenhuma outra expectativa além desta, de que se Deus conceder misericórdia, será no seu próprio tempo; e não apenas isso, mas também que, quando você tiver feito tudo, Deus não se considerará obrigado a finalmente mostrar misericórdia.

(2) Esforce-se agora para pesar em tua mente a dificuldade e para calcular o preço da perseverança na busca da salvação. Você que está começando nesta atividade (como há muitos aqui que começaram a fazer recentemente. Louvado seja o nome de Deus por tê-lo estimulado a isso!), exorto você a prestar atenção a essa direção. Não se comprometa com essa ocupação com qualquer outro pensamento exceto o de se entregar totalmente a ela pelo resto da tua vida, e de passar por muitas e grandes dificuldades nela. Tome cuidado para não se comprometer com esta condição secretamente, que você obterá em pouco tempo, prometendo a si mesmo que será nesta presente temporada do derramamento do Espírito de Deus, ou qualquer outra limitação de tempo que seja. Muitos, quando começam, parecendo começar muito sinceramente, não esperam que precisarão buscar por muito tempo, e assim não se preparem para isso. Portanto, quando descobrem ser de outra forma e enfrentam dificuldades inesperadas, são encontrados desprotegidos e são facilmente derrotados. Mas deixe-me aconselhar a todos os que agora buscam sua salvação, não nutram quaisquer pensamentos lisonjeiros, mas pesem as maiores dificuldades da perseverança e estejam preparados para elas, tendo vossas mentes fixadas na salvação para passarem pelas dificuldades, sejam elas quais forem. Considerem agora, de antemão, com a maior sinceridade e labor, como seria cansativo lutar pela salvação por muitos anos, enquanto não recebe nenhuma evidência alegre ou confortável de ter obtido. Considere que grande tentação para o desânimo haveria provavelmente nisso. Quão apto você seria para ceder às circunstâncias. Quão pronto para pensar que é em vão buscar mais, e que Deus nunca pretende mostrar misericórdia, visto que ele ainda não o fez. Quão apto você estaria para pensar consigo mesmo: "Que vida desconfortável eu vivo! Como gasto meu tempo de forma muito mais desagradável do que os outros que não confundem suas mentes acerca das coisas do outro mundo, mas estão à vontade e ficam confortáveis em seus prazeres mundanos!" Considere a tentação que provavelmente haveria se você visse outros serem trazidos, os quais começaram a buscar o reino dos céus muito depois de você, regozijando-se na esperança e no senso do favor de Deus após apenas pequenos esforços e um curto período de avivamento, enquanto você, dia a dia, ano a ano, parece ter trabalhado em vão. Prepare-se para essas tentações agora. Aguarde de antemão por tais provações e dificuldades, para que você não pense que algo estranho está acontecendo quando elas vierem.

Espero que aqueles que prestaram atenção ao que foi dito tenham, a esta altura, entendido em alguma medida o que a expressão no texto quer dizer, e de que maneira devem se esforçar para entrar no reino de Deus. Isto está aqui para persuadi-lo a obedecer ao que foi ensinado. Se você ficar parado, morrerá; se você virar as costas, eis que certamente morrerá; se seguir em frente, poderá viver. E embora Deus não tenha se limitado a nada que uma pessoa faça enquanto destituída de fé e fora de Cristo, ainda assim há grande probabilidade de que ao dar ouvidos a este conselho você viverá, e isso mediante o esforçar-se e o perseverar, você finalmente tomará, por assim dizer, mediante esforço o reino dos céus. Aqueles de vocês que me ouviram agora, que não apenas ouviram as orientações que foram dadas, mas procederam de acordo com elas, por meio da assistência misericordiosa de Deus, são aqueles que provavelmente vencerão, de modo que podemos esperar vê-los finalmente em pé com o Cordeiro, no Monte Sião, vestidos com túnicas brancas e com as palmas nas mãos. Quando todo o vosso trabalho e fadiga serão abundantemente compensados, e vocês não se arrependerão de ter feito tanto esforço, negado tanto a si mesmo e esperado tanto tempo. Esse esforço,[11] essa abnegação, essa espera, então parecerão pequenos e se desvanecerão em nada aos vossos olhos, sendo completamente engolidos no primeiro minuto de gozo daquela glória, a qual vocês possuirão então, e possuirão e desfrutarão ininterruptamente por toda a eternidade.[12]

[Instrução 4.] Aproveite o presente período do derramamento do Espírito de Deus nesta cidade. A prudência em qualquer assunto consiste muito em prestar atenção a e em aproveitar nossas oportunidades. Se vocês desejam ter prosperidade espiritual, devem exercer prudência no interesse de vossas almas, tanto quanto nos interesses externos ao buscar a prosperidade externa. O agricultor prudente observará suas oportunidades; ele aproveitará a época da semeadura e da colheita; ele tirará vantagem das chuvas e da luz solar do céu. O comerciante prudente discernirá suas oportunidades; ele não perderá tempo em um dia de mercado; ele será cuidadoso para não deixar escapar suas ocasiões de enriquecimento. Assim, aqueles que buscam prudentemente os frutos de justiça e as mercadorias da sabedoria aproveitarão as oportunidades em prol de seu enriquecimento e felicidade eternas.

Deus se agrada, neste tempo, em derramar seu Espírito entre nós de uma maneira notável (glória seja dada ao seu nome por isso!). Vocês que desejam obter a graça da conversão e irem para o céu quando morrerem, agora é o teu tempo propício! Ora, se vocês têm algum tipo de prudência em prol da própria salvação, e não têm a intenção de irem para o inferno, aproveitem esta ocasião! Agora é o tempo aceitável! Agora é o dia da salvação! Vocês que, no passado, foram chamados e fizeram ouvidos moucos à voz de Deus, e por muito tempo resistiram e se opuseram aos seus mandamentos e conselhos; ouçam a voz de Deus hoje, enquanto são chamados hoje! Não endureçam vossos corações em um dia como este! Agora vocês têm uma oportunidade especial e notável colocada em vossas mãos para obter a sabedoria, se vocês tiverem apenas uma inclinação para aproveitá-la.

Deus tem seus certos períodos ou tempos determinados para o exercício da misericórdia e do julgamento. Existem alguns períodos que são tempos notáveis ​​de ira, os quais são estabelecidos por Deus para esse propósito, a saber, para sua terrível visitação e para as execuções de sua ira; cujos períodos são chamados de dias de vingança (Provérbios 6.34). E dias nos quais Deus visitará por causa do pecado (Êxodo 32.34). E igualmente, ao contrário, há alguns outros períodos, que Deus estabeleceu em seus conselhos soberanos, como períodos de notável misericórdia, onde ele aparecerá e se manifestará no exercício de sua graça e bondade mais que em outras ocasiões. Esses períodos são chamados, nas Escrituras, a propósito de eminência, de tempos aceitáveis e dias de salvação, e também dias da visitação de Deus; porque são dias nos quais Deus visitará com misericórdia. Como Lucas 19.44: “E te arrastarão e aos teus filhos dentro de ti; não deixarão em ti pedra sobre pedra, porque não reconheceste a oportunidade da tua visitação”. Essa é a oportunidade agora nesta cidade; é para nós um dia da visitação graciosa de Deus. Na verdade, é um dia da graça para nós, enquanto vivermos neste mundo no gozo dos meios da graça; mas um tempo como este é especialmente e de maneira distinta um dia da graça. Há uma porta de misericórdia sempre aberta para os pecadores; porém, em um dia como este, Deus abre uma porta extraordinária.

Somos instruídos a buscar o Senhor enquanto ele pode ser achado, e a invocá-lo enquanto está perto (Isaías 55.6). Se vocês que até agora estão sem Cristo, não forem estranhamente obcecados e apaixonados para aproveitarem por todos os meios uma oportunidade como esta de obter o céu; quando o céu é trazido para tão perto, quando a fonte está aberta em nosso meio de uma forma tão extraordinária. Agora é a hora para obterem o suprimento para as necessidades de vossas pobres almas que perecem! Este é o dia para os pecadores que desejam se converter antes de morrerem; quando Deus está agindo tão liberal e generosamente entre nós; quando as obras de conversão e de salvação estão acontecendo entre nós de sábado a sábado, e muitos estão se esforçando para entrar no reino de Deus! Ora, não fique para trás, mas se esforce para estar entre o remanescente! Outros foram incitados a serem sinceros e tomaram o céu pelo esforço. Sintam-se implorado a seguir o exemplo deles, se quiserem ter participação na herança com eles, e não serem deixados no grande dia, quando eles forem levados!

Como vocês devem se sentir motivados a considerarem que têm essa oportunidade agora em vossas mãos! Vocês estão de posse dela! Se ela tivesse passado, não estaria em vosso poder recuperá-la, ou no poder de qualquer criatura trazê-la de volta a vocês. Porém não passou; é agora, neste dia; agora é o tempo aceitável, o tempo que é chamado hoje! Vocês ficarão imóveis nessa hora? Vocês dormirão em tal colheita? Vocês lidarão com mãos frouxas e ficarão para trás por mera preguiça, ou por amor a alguma luxúria, ou por aversão a lutarem contra alguma pequena dificuldade, ou por se colocarem um pouco fora do seu caminho quando tantos estão fluindo para a bondade do Senhor? Vocês ainda estão para trás! Desse modo você correrá o risco de ser deixado para trás, quando se completar o número daqueles que devem entrar, se você não se apressar seriamente! Ser deixado para trás, no final de um período como este, será terrível; como ser deixado para trás naquele dia em que os santos de Deus subirão como com asas para encontrar o Senhor nos ares, e será o que se mostrará muito ameaçador dele.

Deus está chamando vocês agora de uma maneira extraordinária, e está de acordo com a vontade e a palavra de Cristo que eu deva, em seu nome, chamar vocês agora, como alguém que foi designado e enviado a vocês para esse fim. Portanto, é sua vontade que vocês deem ouvidos ao que eu digo, como sua voz: Eu, portanto, rogo a vocês, no lugar de Cristo, que se esforcem para entrar no reino de Deus! Seja você quem for, jovem ou velho, pequeno ou grande; o que quer que você seja; se você é um grande pecador, se você é um desviado, se você apagou o espírito, seja quem quiser e seja o que for que tenha feito, não resista fazendo objeções, mas levante-se, aplique-se ao teu trabalho! Faça o que você tem que fazer, com tua força. Cristo está a frente chamando você, e apresentando sua graça e benefícios eternos, e a ira está atrás de você. Portanto voe para salvar tua vida, e não olhe para trás!

Contudo, aqui eu devo me dirigir particularmente a diferentes tipos de pessoas:

(1) Àqueles pecadores que estão em parte avivados e estão preocupados com sua salvação. Vocês têm motivos para estarem contentes por terem essa oportunidade e para apreciá-la mais do que ouro. Para persuadir vocês a valorizá-la e aproveitá-la, considere várias coisas.

1. Deus, sem dúvida, tem um propósito para distribuir bênçãos salvadoras a uma multidão agora. Deus já fez isso a alguns, como temos razão para pensar; e não é provável que ele tenha terminado sua obra ainda, obra que ele veio fazer entre nós nesse período. Podemos muito bem esperar ver outros serem trazidos das trevas para a maravilhosa luz. E, por isso,

2. Deus vem hoje e bate à porta de muitas pessoas e à tua porta entre as outras. Deus parece ter vindo de uma maneira muito incomum entre nós, com um propósito gracioso e misericordioso, um propósito de salvar uma multidão de pobres e miseráveis ​​almas de uma condição perdida e moribunda, e de levá-las a um estado feliz, em segurança da miséria e um direito à glória eterna! Isso é oferecido a você, não apenas como sempre foi na Palavra e nas ordenanças, mas pelas influências particulares do espírito de Cristo despertando em você! Esta oferta especial é feita a muitos dentre nós; e não seja você ignorado. Cristo não se esqueceu ou negligenciou você, mas chegou à tua porta; e ali, por assim dizer, está esperando que você a abra para ele. Se você tiver sabedoria e prudência para discernir suas vantagens, saberá que agora é a tua oportunidade.

3. Quão mais facilmente a graça convertedora é obtida nessa ocasião do que em outras. O trabalho é igualmente fácil com Deus em todas as ocasiões, mas há muito menos dificuldade no caminho, quanto aos homens, nessa ocasião do que em outras. É, como eu disse antes, um dia da graciosa visitação de Deus, um dia que ele tem, por assim dizer, separado para dispensar mais liberal e abundantemente a sua graça; um dia no qual a mão de Deus está amplamente aberta; a experiência mostra isso. Deus parece estar mais pronto a ajudar, a dar convicções adequadas, a ajudar contra as tentações e a deixar entrar a luz divina. Ele parece continuar sua obra com uma revelação mais gloriosa de seu poder, e Satanás parece estar mais acorrentado do que em outras ocasiões. Aquelas dificuldades e tentações que seguravam as pessoas antes, ano a ano, logo são superadas. A obra de Deus é realizada com maior rapidez e velocidade, e  há frequentes exemplos de conversão repentina nessa época. Foi assim nos dias do apóstolo, quando houve um período do mais extraordinário derramamento do espírito que já existiu. Quão rápidas e repentinas foram as conversões naqueles dias! Exemplos como o do carcereiro abundaram então, em cumprimento daquela profecia, Isaías 66.7-8, “Antes que estivesse de parto, deu à luz; antes que lhe viessem as dores, nasceu-lhe um menino. Quem jamais ouviu tal coisa? Quem viu coisa semelhante? Pode, acaso, nascer uma terra num só dia? Ou nasce uma nação de uma só vez? Pois Sião, antes que lhe viessem as dores, deu à luz seus filhos.” Assim é, em algum grau, sempre que há um derramamento extraordinário do Espírito de Deus, mais ou menos em proporção à grandeza daquela efusão. Raramente há tal obra rápida em outras ocasiões. As pessoas não são libertas tão cedo de suas várias tentações e embaraços, mas vagam por muito mais tempo no deserto e tateiam nas trevas. E ainda assim,

4. Provavelmente haja alguns aqui presentes que estão preocupados agora com sua salvação, de que nunca a obterão. Não se deve supor que todos os que são movidos e despertados agora, algum dia serão convertidos salvadoramente. Sem dúvida, muitos que estão procurando agora não serão capazes de entrar. Foi assim no passado, quando houve momentos de grande derramamento do Espírito de Deus, mas muito daqueles que, por um tempo, perguntaram a outros o que deveriam fazer para serem salvos, falharam e depois tornaram-se duros e seguros? Todos vocês que estão despertados agora, estão dispostos a obter a salvação, e provavelmente esperam obter o direito ao céu, no tempo deste presente mover do Espírito de Deus. Porém, ainda assim (embora seja horrível de ser falado, e horrível para ser pensado), não temos nenhuma razão para pensar qualquer outra coisa senão que[13] alguns de vocês irão queimar no inferno por toda a eternidade. Todos vocês estão com medo do inferno e parecem, no presente, dispostos a se esforçarem para serem libertos dele; e, no entanto, seria irracional pensar qualquer outra coisa senão que alguns de vocês terão sua parte no lago que arde com fogo e enxofre. Embora existam tantos que parecem obter tão facilmente, tendo estado apenas um pouco sob convicções, ainda assim, apesar de tudo, alguns nunca obterão. Alguns logo perderão o senso das coisas que têm agora; embora seu despertamento pareça ser muito notável ​​no presente, eles não se manterão; não têm o coração disposto a resistir em meio as muitas dificuldades. Alguns que partiram para o céu e esperam tanto quanto outros obter, de fato são superficiais e negligentes; mesmo agora, em meio a um tempo como este. E outros que, no presente, parecem ser mais sérios, provavelmente em breve declinarão e falharão, e gradualmente retornarão a ser como eram antes. As convicções de alguns parecem ser grandes, enquanto aquilo que é a ocasião de suas convicções é novo; a qual, quando começa a envelhecer, gradualmente declinará e enfraquecerá. Assim, pode ser que a ocasião do seu despertamento tenha sido o ouvir sobre a conversão de alguma pessoa, ou o fato de você ter visto uma dispensação da providência tão extraordinária como esta, na qual Deus se torna visível entre nós agora, mas, aos poucos, a novidade e o frescor dessas coisas desaparecerão e, portanto, não afetarão suas mentes como agora, e pode ser que suas convicções desapareçam com ela.

Embora em uma ocasião como esta seja um tempo no qual Deus conceda sua graça mais liberalmente do que em outras ocasiões, e assim um tempo de maior proveito para obtê-la, ainda assim parece haver, segundo alguns relatos, maior perigo de apostasia do que quando as pessoas são despertadas em outras ocasiões. Pois comumente esses tempos extraordinários não duram muito, e então, quando cessam, há multidões que perdem suas convicções ao mesmo tempo, por assim dizer. Conforme o Espírito de Deus se afasta, os despertamentos desaparecem da mente das pessoas por toda a cidade.

Falamos disso como uma coisa auspiciosa, que Deus se agrade em fazer com que seja uma ocasião como essa entre nós; e assim é, de fato. Contudo, há alguns para os quais não será benéfico; será a ocasião de sua maior miséria; eles desejarão nunca ter visto esta ocasião; será mais suportável para aqueles que nunca o viram, ou algo parecido, no dia do julgamento do que para eles. É uma consideração terrível, que provavelmente haja aqui aqueles que o grande Juiz futuramente exigirá explicações precisas sobre isso. Por que eles não aproveitaram melhor esta oportunidade, quando ele abriu a fonte de sua graça, os chamou em alta voz, e veio e empenhou-se com eles particularmente mediante as influências despertadoras de seu Espírito. E eles não terão nenhuma boa explicação a dar ao Juiz, mas sua boca será fechada e eles ficarão mudos diante dele.

Você precisava, portanto, ser sério e muito radical e decidido nesta questão, para que você não seja um desses que falharão, para que você possa lutar, não de modo incerto, e assim correr para que você possa ganhar o prêmio.

5. Considere em que tristes circunstâncias os tempos de extraordinária efusão do Espírito de Deus comumente deixam as pessoas, quando as deixam não convertidas. Eles as encontram em um estado doloroso, em virtude do estado natural, mas geralmente as deixam em um estado muito mais doloroso. Elas são deixadas terrivelmente endurecidas e com grande aumento de culpa, e suas almas sob domínio e possessão mais fortes de Satanás. E frequentemente, épocas de extraordinário proveito para a salvação, quando ignoram as pessoas e elas não as aproveitam, nem recebem nenhum bem nelas, selam sua condenação. Quando esses períodos as deixam, Deus as deixa para sempre e as entrega à dureza judicial. Lucas 19.41–42, “Quando ia chegando, vendo a cidade, chorou e dizia: Ah! Se conheceras por ti mesma, ainda hoje, o que é devido à paz! Mas isto está agora oculto aos teus olhos.”

6. Considere que é muito incerto que você veja algum dia outra época como esta. Se houver outra época como esta é muito incerto que você esteja vivo para vê-la. Muitos entre nós, que agora estão preocupados com sua salvação, provavelmente estarão em seus túmulos, e podem estar no inferno antes disso; e se você perder esta oportunidade pode ser assim com você. E que bem fará para você ter o Espírito de Deus derramado sobre a terra, no lugar onde você viveu, enquanto você está atormentado no inferno? De que valerá a você que outros clamem: “O que devo fazer para ser salvo?” enquanto você está encarcerado para sempre no abismo sem fundo, e está lamentando e rangendo os dentes em chamas eternas?

Portanto, aproveite esta oportunidade, enquanto Deus está derramando seu Espírito na terra e você está na terra; e enquanto você habita neste lugar onde o Espírito de Deus é derramado, e você mesmo tem suas influências despertadoras, de modo que você nunca lamente e ranja os dentes no inferno, mas cante para sempre no céu com outros que são redimidos entre os homens e redimidos entre nós.

7. Se você ver outra época como esta será em desvantagens muito maiores do que você vê agora. Provavelmente você estará muito mais velho e terá teu coração mais endurecido; e assim terá menos probabilidade de ser beneficiado. Algumas pessoas estão tão endurecidas no pecado e tão afastadas de Deus, que podem viver uma época como esta e não serem muito despertadas ou afetadas por ela. Elas podem se manter em sua posição e serem pouco movidas. E assim pode ser com você em outra época, se houver outra entre nós e você viver para vê-la. As circunstâncias, com toda a probabilidade, serão muito diferentes com você nessa época. Se você continuar sem Cristo e sem a graça até então, você estará muito mais longe do reino de Deus e muito mais envolvido em armadilhas e miséria; e o diabo provavelmente terá uma vantagem muito maior contra você para tentá-lo e confundi-lo.

8. Nada sabemos, exceto que Deus está reunindo seus eleitos agora, antes de algum grande e doloroso julgamento. Tem sido a maneira de Deus, antes de rejeitar um povo visível ou trazer alguns julgamentos grandes e destruidores sobre ele, primeiro reunir seus eleitos para que estejam seguros. Assim foi antes de rejeitar os judeus como povo de Deus. Primeiro houve um derramamento muito notável do Espírito e uma reunião dos eleitos mediante a pregação dos apóstolos e evangelistas, como lemos no início de Atos. Porém, depois desta colheita e as suas respigas acabarem, o restante foi cegado e endurecido; o evangelho teve pouco sucesso entre eles, a nação foi rejeitada e deixou de ser povo de Deus, e sua cidade e terra foram destruídas pelos romanos de um modo terrível; e ele foi rejeitado por Deus por muitas eras e ainda permanece um povo endurecido e rejeitado. Assim, lemos no início de Apocalipse 7, que Deus, quando estava prestes a trazer julgamentos destruidores sobre a terra, primeiro selou seus servos na testa. Ele colocou seu selo sobre os corações dos eleitos, deu-lhes as residentes influências salvadoras de seu Espírito, pelas quais foram selados até o dia da redenção. Apocalipse 7.1-3, “Depois disto, vi quatro anjos em pé nos quatro cantos da terra, conservando seguros os quatro ventos da terra, para que nenhum vento soprasse sobre a terra, nem sobre o mar, nem sobre árvore alguma. Vi outro anjo que subia do nascente do sol, tendo o selo do Deus vivo, e clamou em grande voz aos quatro anjos, aqueles aos quais fora dado fazer dano à terra e ao mar, dizendo: Não danifiqueis nem a terra, nem o mar, nem as árvores, até selarmos na fronte os servos do nosso Deus.”

E nada sabemos, exceto que este pode ser o caso agora. Que Deus está prestes, em grande medida, a abandonar esta terra e desistir deste povo, e trazer os mais terríveis e esmagadores julgamentos sobre ele; e que ele está agora reunindo seus eleitos para protegê-los da calamidade. O estado da nação e desta terra nunca pareceu tão em perigo de tal coisa como hoje. A aparência atual das coisas ameaça grandemente de morte a religião vital, e até mesmo daquelas verdades que são especialmente o seu fundamento fora desta terra, e assim Deus está se afastando de nós. Se for assim, quão terrível será o caso daqueles que serão deixados e não serão trazidos, enquanto Deus estende as influências de seu Espírito, para se reunirem com aqueles que serão redimidos de entre nós![14]

9. Se você negligenciar a oportunidade atual e finalmente permanecer incrédulo, aqueles que são convertidos nesta época de derramamento do Espírito de Deus se levantarão em julgamento contra você. Teus vizinhos, teus parentes, conhecidos ou companheiros, que são convertidos, se apresentarão contra você naquele dia. Eles não apenas serão levados enquanto você será deixado, subindo com alegria para encontrar o Senhor no ar enquanto você será deixado embaixo com aqueles que devem ser destruídos, e estarão à direita com os santos e anjos gloriosos enquanto você estará à esquerda com os demônios, mas eles se levantarão em julgamento contra você. Por mais amigáveis ​​que tenham sido, tenham tido prazer na companhia um do outro e conversado livremente, eles certamente se apresentarão contra você. Eles se levantarão contra você como testemunhas e declararão que oportunidade preciosa você teve e não aproveitou. Como você continuou incrédulo e rejeitando as ofertas de um Salvador, quando aquelas ofertas foram feitas de uma maneira tão extraordinária, e quando tantos outros foram persuadidos a aceitar a Cristo. Como você foi negligente e descuidado, e não conheceu as coisas que pertenciam à tua paz naquele teu dia. E não apenas isso, mas eles serão teus juízes, como assessores do grande Juiz; e como tais se apresentarão contra você. Eles estarão com o Juiz ao proferir a sentença contra você. 1 Coríntios 6.2, “Ou não sabeis que os santos hão de julgar o mundo?” Cristo os admitirá à honra de julgar o mundo com ele. Eles se assentarão com ele em seu trono (Apocalipse 3.21). Eles se assentarão com Cristo em seu trono de governo e se assentarão com ele em seu trono de julgamento, e serão juízes com ele quando você for julgado e, como tais, te condenarão.

10. E por fim. Você não sabe se viverá até o fim da presente época do derramamento do Espírito de Deus. Você pode ser levado embora no meio dela, ou você pode ser levado embora no início dela; conforme Deus, em sua providência, está lembrando você mediante a recente ocasião de morte de uma jovem na cidade.[15] Deus tem sido recentemente muito terrível em seu trato conosco nas repetidas mortes de jovens que aconteceram entre nós. Isso deve estimular todos a terem mais pressa para entrar no reino de Deus, para que estejam seguros quando a morte vier. Esta é uma época e uma oportunidade abençoadas, mas você não sabe o quão pouco delas você tem. Você pode ter muito menos do que os outros. Você pode, pela morte, ser repentinamente arrebatado de todas as vantagens que são aqui desfrutadas para o bem das almas. Portanto, apressa-te e fuja para salvar tua vida. Adiar por um momento é perigoso, pois a ira persegue e a vingança divina paira sobre cada pessoa não convertida.

Que essas considerações levem todos a aproveitar esta oportunidade, de modo que, enquanto outros recebem o bem da salvação e são feitos herdeiros da glória eterna, você não seja deixado para trás, nas mesmas circunstâncias dolorosas e miseráveis ​​em que você veio ao mundo; um pobre cativo do pecado e de Satanás, uma ovelha perdida, uma criatura perdida que perece afundando na perdição eterna. Para que você não seja um daqueles de quem Jeremias 17.6 fala, que será “como o arbusto solitário no deserto e não verá quando vier o bem”. Se você não aproveitar esta oportunidade, lembre-se de que te disse, você lamentará isso no futuro; e se você não lamentar isso neste mundo, então deixarei isto com você para que se lembre por toda a eternidade miserável.

(2) Eu devo me dirigir àqueles que até agora continuam adormecidos. É uma coisa terrível que haja alguém entre nós que permanece despreocupado em um momento como este; mas também deve causar preocupação de que existam alguns desse tipo. Gostaria aqui de protestar um pouco com essas pessoas. Eu devo expressar isto a você:

1. Quando você supõe que será mais apropriado que seja despertado e trabalhado do que agora? Você está em uma condição sem Cristo, mas ainda, sem dúvida, pretende ir para o céu. E, portanto, pretende ser convertido algum tempo antes de morrer. O que não é de ser suposto até que você seja primeiro despertado, esteja profundamente preocupado com o bem-estar de tua alma e seja levado a buscar sinceramente a graça convertedora de Deus. E quando você pretende que isso aconteça? Como você define as coisas em tua própria mente, ou que planejamento tem sobre este assunto? É muito apropriado que uma pessoa seja despertada em uma época como esta? Como vemos muitos, que antes estavam despreocupados, sendo agora despertados de seu sono e clamando: “O que devo fazer para ser salvo?” Porém você ainda está despreocupado! Você alimenta a ilusão de que será mais apropriado ser despertado quando for uma época monótona e morta? Você define as coisas assim em tua própria mente, de modo que, embora você esteja insensível quando os outros geralmente estão despertos, você todavia será despertado quando os outros estiverem geralmente insensíveis? Ou você espera ver outra época de derramamento do Espírito de Deus no futuro? E você acha que será mais apropriado que você seja trabalhado naquela ocasião do que agora? E por que você pensa assim? Será porque então você ficará muito mais velho do que agora, e assim teu coração ficará mais maleável e sensível com a idade? Ou porque você terá resistido por muito mais tempo contra os apelos do evangelho e a todos os meios de graça? Você acha que é mais provável que Deus te dê as influências necessárias de seu Espírito naquela ocasião do que agora, porque então você o terá provocado muito mais, e teu pecado e culpa serão muito maiores? E você acha que será de algum benefício para você resistir ao presente período da graça como prova contra os meios extraordinários de despertamento que existem agora? Você acha que esta será uma boa preparação para uma obra salvadora do Espírito no futuro?

2. Por quais meios você espera ser despertado? Quanto ao despertar as coisas terríveis da Palavra de Deus, aquelas que você colocou diante de você vezes sem conta, da maneira mais comovente que os dispensadores da Palavra foram capazes. Quanto as advertências solenes específicas, dirigidas àqueles que estão em circunstâncias como as tuas, àquelas que você recebeu com frequência e as recebe agora de vez em quando. Você espera ser despertado por providências terríveis? Aquelas que você também teve recentemente, de natureza mais despertadora, uma após a outra. Você espera ser comovido com a morte de outras pessoas? Ultimamente, tivemos repetidos exemplos disso. Houve morte de idosos e jovens. O ano foi singular devido a morte de jovens na flor da vida, e algumas dessas mortes muito repentinas. A conversão de outras pessoas comoverá você? Na verdade, é raro encontrar algo que tenha uma tendência tão grande de incitar as pessoas como isto, mas você tem sido afligido com isso ultimamente e com frequência; porém até agora está à prova disso. Será que um derramamento geral do Espírito e a visão da preocupação com a salvação entre todos os tipos de pessoas causará isso? Isso significa que agora você tem, mas sem efeito. Sim, você tem todas essas coisas juntas; você tem as advertências solenes da Palavra de Deus, os terríveis exemplos de morte e a conversão de outros, e vê uma preocupação geral acerca da salvação, mas tudo isso não move você a nenhuma grande preocupação acerca da tua própria, preciosa, imortal e miserável alma. Portanto, considere por quais meios você espera ser despertado algum dia.

Você ouviu que é provável que alguns que agora estejam despertados nunca obterão a salvação. Quão difícil de entender então parece para você que permanece estupidamente adormecido! Aqueles que não são movidos em uma época como esta, que atingiram a idade adulta, têm motivos para temer se serão entregues ou não à dureza judicial. Não digo que tenham motivos para concluir isso, mas têm motivos para ter medo disso. Quão difícil de entender te parece que Deus vem e bate à porta de tantas pessoas, e omite a tua! Que Deus esteja dando os esforços de seu Espírito tão geralmente entre nós, enquanto você é deixado insensível!

3. Você espera obter a salvação sem nunca buscá-la? Se você tem a consciência de que é necessário buscar a fim de obter, e sempre pretende buscar, alguém pensaria que você não poderia evitá-la em uma época como esta. Pergunte, portanto, se pretende ir para o céu, vivendo todos os teus dias uma vida despreocupada, negligente e descuidada. Ou,

4. Você acha que pode suportar a condenação do inferno? Você imagina que pode suportar de modo tolerável o fogo devorador e as chamas eternas? Você espera ser capaz de lutar contra a vingança do Deus Todo-Poderoso, quando ele se cinge de força e se reveste de ira? Você pensa em se fortalecer contra Deus e ser capaz de fazer bem a tua parte contra ele? 1 Coríntios 10.22, “Ou provocaremos zelos no Senhor? Somos, acaso, mais fortes do que ele?” Você alimenta a ilusão de que encontrará meios para tua comodidade e apoio, para tornar isso tolerável, para sustentar teu espírito nessas chamas eternas que estão preparadas para o diabo e seus anjos? Ezequiel 22.14: “Estará firme o teu coração? Estarão fortes as tuas mãos, nos dias em que eu vier tratar contigo?” É difícil conceber o que pensam essas pessoas sem Cristo, que não estão preocupadas em uma época como esta.

(3) Gostaria de dirigir-me àqueles que são consideravelmente velhos (crescidos) e ainda estão em uma condição natural. Gostaria de aproveitar a ocasião para exortar sinceramente vocês a aproveitarem esta oportunidade extraordinária e se esforçarem para entrar no reino de Deus. Vocês perderam muitas vantagens que tiveram antes e, agora, não tem as mesmas vantagens que os outros têm. As circunstâncias são muito diferentes com vocês do que são com muitos de seus vizinhos. Acima de tudo, vocês precisavam aproveitar essa oportunidade. Agora é a hora de vocês se mexerem e tomarem o reino dos céus por força! Considerem:

1. Parece haver uma porta aberta agora para velhos pecadores. Deus está lidando livremente com todos os tipos agora. Sua mão está bem aberta e ele não ignora os idosos tanto como costumava fazer. Vocês não têm as mesmas vantagens que os outros mais jovens; mas, ainda assim, Deus ordenou isto tão maravilhosamente que vocês não estão destituídos de grande vantagem. Embora velho no pecado, Deus colocou uma nova e extraordinária vantagem em vossas mãos. Ó, aproveite esta oportunidade que vocês têm para obter sabedoria! Você que há muito tempo busca entrar pela porta estreita, mas permanece fora, aproveite agora a oportunidade e se esforce para entrar! Você que tem estado por muito tempo no deserto, lutando contra várias tentações, tem sofrido sob desânimos e está pronto para desistir, tem sido frequentemente tentado a se desesperar. Agora, veja a porta que Deus abre para você! Não ceda aos desânimos agora, não é hora para isso. Não perca tempo pensando que você já fez o que podia, que vê sinais de que não foi eleito e que está cedendo a outras tentações desconcertantes, enfraquecedoras e desanimadoras. Não desperdice esta preciosa oportunidade deste modo. Você não tem tempo a perder com coisas como estas. Deus chama você para outra coisa agora. Aproveite esta ocasião buscando e lutando pela salvação, e não naquilo que tende a obstruí-la. Não é hora de você ficar conversando com o diabo, mas de dar ouvidos a Deus e aplicar-se àquilo que em alta voz ele te chama a fazer agora.

Alguns de vocês lamentaram muitas vezes a perda de oportunidades passadas. Particularmente, por exemplo, a perda do tempo da juventude, e têm desejado ter tido uma oportunidade tão boa novamente. Estão prontos para dizer: "Ó! se eu fosse jovem de novo, como poderia melhorar essa vantagem!" Essa oportunidade que você teve no passado é irrecuperável; você nunca mais poderá tê-la novamente. Porém Deus pode te dar outras vantagens de outro tipo, que são muito grandes, e ele está fazendo isso hoje. Ele está colocando uma nova oportunidade em tuas mãos agora; embora não do mesmo tipo que você teve outrora e perdeu, ainda assim, em alguns aspectos de outro tipo igualmente grande. Se você lamenta e está pronto a chorar por causa da tua insensatez por negligenciar e perder oportunidades passadas, então não seja culpado da insensatez de negligenciar a oportunidade que Deus te dá agora. Você não poderia comprar esta oportunidade se desse tudo o que você tem no mundo por ela, mas a Deus está colocando em tuas mãos, de si mesmo, de sua própria misericórdia livre e soberana, sem que você a compre. Portanto, no tempo em que você a tem, não a negligencie.

2. É muito mais provável com respeito a essas pessoas do que a outras que esta seja sua última ocasião. Haverá uma última ocasião da oferta especial de salvação a pecadores impenitentes. “O meu Espírito não agirá para sempre no homem” (Gênesis 6.3). Às vezes, Deus continua batendo por muito tempo às portas dos corações dos homens ímpios, mas há a última batida e a última chamada que eles terão. E, às vezes, os últimos chamados de Deus são os mais altos e, então, se os pecadores não derem ouvidos, Deus os abandona finalmente. Há quanto tempo Deus bate em muitas de vossas portas, que são velhos no pecado! É muito mais provável que estas sejam suas últimas batidas. Você resistiu ao Espírito de Deus no passado e endureceu o teu coração repetidamente, mas Deus não será tratado sempre assim. Existe o perigo de que, se agora, depois de tanto tempo, você não ouvir, ele te abandonará totalmente e te deixará andar em teus próprios conselhos.

Parece, pela providência de Deus, como se Deus ainda tivesse um número de eleitos entre os velhos pecadores neste lugar, que talvez ele esteja prestes a trazer para seu reino. Parece que alguns, que viveram por muito tempo sob o ministério do Sr. Stoddard, não foram rejeitados totalmente por Deus, embora tenham resistido aos grandes meios que então desfrutaram. É de se esperar que Deus traga agora um remanescente dentre eles. Porém é mais provável que Deus esteja prestes a terminar com eles, de uma forma ou de outra, por terem sido objeto de tão extraordinários meios por tanto tempo. Vocês viram tempos anteriores do derramamento do Espírito de Deus sobre a cidade, quando outros foram levados e vocês deixados, outros foram chamados das trevas para a maravilhosa luz e foram levados a um estado glorioso e feliz, e vocês foram aqueles que viram o bem quando ele veio. Quão tenebrosas serão vossas circunstâncias, se vocês também resistirem a esta oportunidade, e ainda serem deixados para trás! Tome cuidado para que você não seja um daqueles mencionados em Hebreus 6.7–8, que são como a terra sobre a qual a chuva cai, e só produz espinhos e abrolhos. Como vemos, há alguns pedaços de solo que, quanto mais chuvas caem sobre eles, mais estações frutíferas existem, mais os abrolhos e outras plantas inúteis e nocivas, que estão enraizadas nelas, crescem e florescem. Sobre essa base o apóstolo diz: “É rejeitada e perto está da maldição; e o seu fim é ser queimada.”[16] O modo com que o agricultor age com essa terra é atear fogo nela, para destruir o que cresce dela. Se você perder esta oportunidade, há o perigo de ser totalmente rejeitado e de que teu fim seja ser queimado. E se assim for, é de se preocupar que você não esteja longe, mas perto da maldição.

Aqueles dentre vocês que já envelheceram no pecado e agora estão despertando, quando sentirem que tuas convicções começam a desaparecer, se é que isso deve acontecer, então lembrem-se do que foi dito agora. Isto pode muito bem então atingir você no coração!

(4) Eu gostaria de dirigir o conselho para aqueles que são jovens e estão agora sob suas primeiras convicções especiais. Exorto sinceramente a esses que aproveitem esta oportunidade e se esforcem para entrar no reino de Deus. Considerem duas coisas:

1. Vocês têm todos os tipos de vantagens concentradas agora em vocês. É uma ocasião de grande vantagem para todos, mas vossas vantagens estão acima das dos outros. Não há outro tipo de pessoa que tenha agora uma oportunidade tão grande e feliz como vocês. Vocês têm aquela grande vantagem que é comum a todos os que vivem neste lugar, a saber, que agora é uma época de derramamento extraordinário do Espírito de Deus; e também têm aquela grande vantagem de ter as influências despertadoras do Espírito de Deus em você, em particular; e além disso, vocês têm esta vantagem peculiar de estar agora em vossa juventude. E adicionado a isso, vocês têm aquela vantagem indescritível de estarem agora sob vossas primeiras convicções. Feliz é aquele que nunca endureceu seu coração e bloqueou seu próprio caminho para o céu mediante a apostasia, e agora tem as influências despertadoras do Espírito de Deus, se Deus apenas o capacitar a aproveitá-las completamente! Acima de tudo no mundo, esse é um convite oportuno para o reino de Deus. Deus está habituado, por assim dizer, a conceder fácil e prontamente a graça salvadora e os confortos do seu Espírito a essas pessoas acima de qualquer tipo de pessoas. Exemplos de conversão rápida e repentina são mais comumente encontrados entre elas. Felizes aqueles que têm o Espírito de Deus com eles e nunca o têm apagado, se ao menos souberem a oportunidade que têm em suas mãos!

Se você tem senso de tua necessidade de salvação, e o grande preço e valor dela, você estará disposto a escolher o caminho mais seguro para alcançá-la, ou aquele que tem a maior probabilidade de sucesso. E isso certamente é aproveitar completamente tuas primeiras convicções. Se você fizer isso, é provável que você não fracasse. Existe a maior probabilidade de você ter sucesso. Qual não é o valor de alguém ter tal vantagem nas mãos para obter a vida eterna? A presente temporada do derramamento do Espírito de Deus é a primeira dessas que muitos de vocês, que estão agora sob  o avivamento, já viram, desde que chegaram à idade do entendimento. Por isso, e porque é a primeira vez que vocês mesmos são incitados pelo Espírito de Deus, é a maior oportunidade que vocês jamais tiveram, e, provavelmente, de longe a maior que vocês terão. Há muitos aqui presentes que gostariam de ter essa oportunidade, mas nunca a puderam obter. Eles não podem comprá-la por dinheiro, mas vocês a possuem e podem aproveitá-la se quiserem. Mas também,

2. Em alguns casos, há maior perigo de que os que estão em circunstâncias como as vossas deixem de aproveitar completamente suas convicções, com respeito à firmeza e à perseverança, do que outros. Os jovens são mais instáveis ​​do que os idosos. Aqueles que nunca tiveram convicções, têm menos experiência sobre a dificuldade do trabalho que realizaram; estão mais dispostos a pensar que obterão a salvação com facilidade e são mais facilmente desencorajados por decepções. E os jovens têm menos razão e consideração para fortalecê-los contra as tentações da apostasia. Você deve, portanto, trabalhar mais para se proteger contra tais tentações agora. Certamente, seja radical agora! Faça apenas um trabalho, o de buscar a salvação! Faça um trabalho completo da primeira vez! Há enormes desvantagens às quais eles se submetem, de modo que têm várias ocasiões de busca com grandes intervalos. Mediante esse procedimento as pessoas ferem excessivamente suas próprias almas e se embaraçam em muitas armadilhas. Quem são aqueles que comumente enfrentam tantas dificuldades, e estão por tanto tempo trabalhando nas trevas e na perplexidade, senão aqueles que tiveram várias oportunidades de buscar a salvação; que tem uma dificuldade enquanto [eles] tinham convicções, e então as apagaram e começaram trabalhar novamente, e se apostataram novamente, e continuam dessa maneira? Os filhos de Israel não teriam ficado quarenta anos no deserto se tivessem mantido sua coragem e continuado como partiram, mas eles eram de mente instável e quiseram voltar novamente para o Egito. Por outro lado, se eles tivessem ido em frente, sem desânimo, como Deus gostaria de tê-los conduzido, eles teriam logo entrado e tomado posse de Canaã. Eles chegaram às próprias fronteiras quando voltaram, mas então passaram trinta e oito anos depois disso, antes de atravessarem o deserto. Portanto, ao considerar o interesse de tua alma, não se depare com a mesma dificuldade, mediante instabilidade, intervalo e retrocesso, mas prossiga em frente, de agora em diante, e faça apenas uma obra, a de buscar a graça convertedora e perdoadora, por maior, difícil e longa que possa ser.

 

Extraído de Works of Jonathan Edwards, vol. 19; p. 273-305; org. Ed M. X. Lesser

Disponível em: edwards.yale.edu; JE Center; Yale University

Tradução: Paulo Arantes



[1] Em inglês “company-keepers”, acompanhantes, namoradeiras cortejadoras.

[2] Faithful Narrative, Works, 4. 49.

[3] Instrumentos de sopro de uma orquestra.

[4] Publicadas como intituladas em Five Discourses, p. 131-72.

[5] [Texto: “won’t”.]

[6] [ JE insere “airy” no lugar de “any” (p. 138), em sua cópia do texto na Biblioteca Beinecke, Yale.]

[7] [MS: Termina aqui a primeira unidade de pregação no MS. Encontra-se no cabeçalho da segunda unidade a citação e a doutrina.]

[8] [Principalmente dialeto: pequeno, insignificante, fraco, débil.]

[9] [Texto: “Marcos 7.18-20”.]

[10] [Texto: “Passado”.]

[11] [Texto: “sofrimentos”.]

[12] [MS: Termina aqui a segunda unidade de pregação no MS. A citação e “doc” estão no cabeçalho da terceira unidade.]

[13] [Texto: “do que”.]

[14] [Ms: Aqui termina a segunda unidade de pregação no MS. A citação e a doutrina estão no cabeçalho da terceira unidade.]

[15] Esposa de Joseph Clark, uma jovem que havia se casado recentemente e que morreu repentinamente uma semana depois de ser desposada [Mary Wright Clark, nascida em 1713, casada com Joseph Clark em 02 de maio de 1734 e falecida em 13 de fevereiro de 1735; ver Trumbull, History of Northamptom, p. 109.]

[16] [Hebreus 6.8.]

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